NOTA C

[6]A Cosmographia de Ringmann foi publicada em Saint-Dié a 25 de Abril de 1507. Ringmann falleceu em Strasburgo em 1511. A França, querendo perpetuar a leviandade de Ringmann, festejou este anno o quarto anniversario da sua morte, sob o pretexto de ter sido elle o baptizador do Novo Mundo! Eis ahi como se escreve e como se faz a Historia!...

[6]A Cosmographia de Ringmann foi publicada em Saint-Dié a 25 de Abril de 1507. Ringmann falleceu em Strasburgo em 1511. A França, querendo perpetuar a leviandade de Ringmann, festejou este anno o quarto anniversario da sua morte, sob o pretexto de ter sido elle o baptizador do Novo Mundo! Eis ahi como se escreve e como se faz a Historia!...

«No mundo existe mais uma quarta parte que Americo Vespucio descobriu e que, por essa razão, poderiamos chamar America, isto é, Terra de Americo.»

O alvitre de Ringmann foi aceito e á nova terra descoberta deu-se o nome desse usurpador da gloria alheia, que nunca passou de um cosmographo, que veio ás terrasamericanas com Hojeda, muito depois que os Corte Reaes, Lavrador, Dulmo, Affonso Sanches e outros navegantes lusos nellas estiveram e ainda mesmo depois de Colombo, que já foi um retardatario.

Accresce que ha quem affirme (é o erudito Snr. H. Vart) que o nome America, dado ao Novo Mundo, provêm, não do prenome de Vespucio, mas da denominação que os indios de Nicaragua davam ás «terras altas» dessa região americana de onde extrahiam o ouro que empregavam nos seus utensilios e adornos, terras essas que elles chamavam America, expressão equivalente a Eldorado ou Terra do Ouro, que, primeiro, os companheiros de Colombo e, depois, todos os outros navegadores foram acceitando e que serviu para designar, não só as terras altas de Nicaragua, mas todo o novo continente.

A ser verdadeira a affirmação de H. Vart, o nome America é de origem americana.

A 6 de Maio de 1895, quando eu ainda desconhecia o livro do Snr. Faustino da Fonseca, que só veio a lume muitos annos depois, publiquei noO Paizda Capital Federal o seguinte artigo sobre a commemoração official da data do pretenso descobrimento do Brazil, feito por Pedro Alvares Cabral, em 1500:

«O dia 3 de Maio é officialmente commemorado como data anniversaria do descobrimento do Brazil. E todavia é um erro, é um anniversario falso, porque a verdadeira data anniversaria desse descobrimento é 22 de Abril, pois foi a 22 de Abril de 1500, que Pedro Alvares Cabral, em demanda das terras da India, avistou na frente da sua frota um morro elevado da terra brazileira para o qual mandou aproar fundeando a seis leguas de distancia.

Celebrava então a igreja catholica as festas da Paschoa e d'ahi a razão porque Cabral deu a esse morro o nome do Monte Paschoal.

Os historiadores dos seculos XVII e XVIII e notadamente a obra de Fr. Gaspar da Madre de Deus é que, no dizer de Pereira da Silva, induziram os estadistas fundadores do imperio brazileiro ao erro de estabelecerem a data de 3 de Maio como a do descobrimento. Todavia a carta de Pero Vaz Caminha, publicada pela Academia Real de Sciencias de Lisboa e escripta a el-rei D. Manoel em 1.º de maio de 1500, annunciando-lhe a descoberta e os documentos deixados pelo physico-mór da armada de Cabral e por um piloto que fazia parte da frota, não deixam duvida sobre o dia exacto em que o almirante viu e mandou aproar para a terra brazileira.

Basta a circumstancia de ser a carta de Pero Vaz Caminha, que ia n'uma das treze náos da frota de Cabral como futuro escrivão do almoxarifado que o almirante devia fundar nas Indias, datada de 1.º de maio, para tornar patente a impossibilidade do descobrimento a 3 desse mez. Nessa carta, onde Vaz Caminha dá conta do descobrimento, lê-se que elle foi effectuado a 22 de abril. Nesse dia, que era uma quarta-feira, Cabral limitou-se a approximar-se de terra, fundeando ás 4 horas da tarde, em ponto em que havia 19 braças de profundidade. Só no dia seguinte, 23 de abril, aproximou-se mais de terra com as precisas cautelas e, ao chegar á desembocadura de um rio, mandou que Nicoláo Coelho fosse em uma almadia explorar as plagas que se avistavam da frota. Partiu Coelho e vendo homens nús na praia, sem comtudo desembarcar, atirou-lhes alguns objectos que levara comsigo e delles recebeu outros em troca, entabolando assim relações amistosas com os naturaes da terra.

Voltou a bordo e deu conta do succedido ao almirante. Nessa noite, porém, levantou-se forte vento do sueste e Cabral, não se considerando seguro no ponto em que estava, tratou de procurar um ancoradouro para abrigo dos navios e, continuando a navegação em rumo de norte, mas sempre á vista da costa, foi fundear denovo, dez leguas adiante, em uma bella enseada á qual deu o nome de Porto Seguro. Isto passava-se n'uma sexta-feira, 24 de abril de 1500. Essa enseada, mais tarde, passou a denominar-se bahia Cabralia, sendo transferido o seu primitivo nome de Porto Seguro para a povoação que se fundou nas suas proximidades.

Na enseada de Porto Seguro appareceu logo uma piroga com indigenas e, aos poucos, a costa foi-se enchendo de gentios, manifestando intenções pacificas. Só no dia 25 o almirante dirigiu-se a terra. No dia 26, que era domingo de Paschoela, foi erguido um altar em terra e ahi celebrada a primeira missa no Brazil, acontecimento este que Victor Meirelles celebrisou e commemorou n'um magnifico quadro, o melhor e o mais commovente que o seu pincel produziu.

A essa missa assistiu o gentio que dansou e cantou após a cerimonia, fraternisando com os portuguezes.

Só no dia 1.º de maio é que o almirante resolveu dar conta a D. Manoel do seu feito e nesse dia, depois de mandar dizer segunda missa, tomou posse official da terra e despachou para Lisboa a nao que devia levar ao rei a noticia da nova terra descoberta, a que elle deu o nome de Vera Cruz, mais tarde substituido por Santa Cruz e ainda depois por Brazil.

Foi nessa nao, commandada por Gaspar Lemos, que seguiu para o reino a carta de Pero Vaz Caminha escripta nesse mesmo dia 1.º de maio de 1500.

Tal é, em resumo, a narração contida nos tres documentos da época, aos quaes allude com interesse e perfeito conhecimento do assumpto o conselheiro Pereira da Silva na segunda serie dos interessantes escriptos que denominouA Historia e a Legenda.

Ora, se isto é assim, se hoje não pode restar mais duvida a ninguem, em presença desses documentos do seculo XVI, que determinam com perfeita exactidão a data da chegada de Cabral ao Brazil, por que havemos deconservar officialmente um anniversario falso, que, se ao tempo em que foi decretado pelos estadistas fundadores do imperio, se justificava pela ignorancia em que viviam desses documentos, não se justifica nem se explica mais hoje, que estão publicados e ao alcance de toda a gente?

É que os estadistas da Republica, que conservaram o erro, fundam-se na correcção que soffreu o calendario Juliano mandado executar pelo papa Gregorio XIII, que, em 1582, mandou supprimir 10 dias a esse anno, ordenando que o dia 5 de outubro fosse designado pelo numero 15, o immediato 16 e assim por diante, encurtando esse anno de dez dias para compensar a differença para mais desse mesmo espaço de tempo, que o calendario Juliano já accusava no fim do seculo XVI.

E assim, em virtude dessa corrigenda, o dia 22 de abril de 1500 passou a ser, em qualquer dos annos posteriores a 1582, correspondente ao dia 3 de maio.

Mas tal razão será sufficiente para manter na tradição popular uma crença falsa? Pensamos que não. Officialmente, o dia consagrado como data anniversaria do descobrimento do Brazil é o dia 3 de maio. E assim o povo, que não sabe das correcções que soffreu o calendario Juliano, nem dos motivos que as determinaram, fica persuadido que effectivamente foi no dia 3 de maio de 1500 que se realizou o descobrimento, quando os documentos do seculo XVI, que as historias populares do Brazil já registram, não consignam tal data, mas sim a de 22 de abril.

Sou de parecer que, se ao tempo da descoberta ainda não existia no calendario Juliano a correcção ordenada por Gregorio XIII, que só se realizou 82 annos depois, se para Pedro Alvares Cabral o dia desse feliz successo foi o de 22 de abril, essa é a data que deve ser officialmente consagrada para assim manter-se na tradição popular.

De 1500 a 1582 acontecimentos houve que ficaram registrados na historia da nossa terra e, todavia, ninguem se lembrou de applicar aos seus respectivos anniversarios a correcção ordenada por Gregorio XIII, limitando-se a corrigenda tão sómente ao successo, isto é, á data da chegada de Cabral ao Brazil.

Ora, uma de duas, ou os estadistas da Republica têm de mandar fazer uma revisão completa de todas as datas mais ou menos celebres da historia, e principalmente da nossa, no periodo comprehendido entre 1500 e 1582, ou, para serem coherentes, têm de mantel-as taes como ainda hoje a tradição as conserva; mas, nesse caso, preciso se torna que a consagração do feito de Cabral seja feita não mais a 3 de maio, mas sim a 22 de abril.

Tal é o meu modo de ver, salvo melhor juizo.»

Garcia Redondo

Não podia ser mais auspiciosa a inauguração da primeira série das conferencias portuguezas, promovidas pelo Centro Republicano Portuguez desta capital.

A despeito da noite fria e chuvosa, o amplo salão do Instituto Historico e Geographico encheu-se completamente, de uma assistencia distincta e brilhante, quer pela quantidade, quer pela qualidade.

Além de muitas senhoras e senhoritas, compareceram tambem á primeira conferencia do Centro Republicano Portuguez os srs. Jacques Dupas, consul da França, Daniel Monteiro de Abreu, consul do Paraguay e encarregado de negocios de Portugal, o representante do sr. general Ferreira de Abreu, inspector da decima região militar, o dr. Paula Souza, director da Escola Polytechnica, commendador Mondim Pestana, official de gabinete do sr. dr. secretario do interior, dr. Bettencourt Rodrigues, dr. Rodolpho de Santiago, dr. Ricardo Severo, dr. Eugenio Egas, e muitas outras pessoas gradas.

O sr. Antonio Luiz Gomes, Ministro de Portugal, chegou ao Instituto Historico ás 8 e meia da noite, em companhia do dr. Bartholomeu Ferreira, secretario da Legação Portugueza, sendo recebido á porta pela directoria do Centro.

Em seguida, s. exa. foi introduzido no salão pelos srs. drs. Bettencourt Rodrigues e Ricardo Severo, tomando assento na mesa, ao lado da directoria do Centro, e tendo á sua esquerda o dr. Bettencourt Rodrigues.

Abrindo a sessão, o sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, presidente do Centro R. Portuguez, explicou o fim das conferencias portuguezas, dizendo que, antes de apresentar á assistencia o conferencista sr. dr. Garcia Redondo, cumpria lhe o dever de agradecer á directoria do Instituto Historico, que promptamente poz á disposição do Centro o seu salão, afim de ahi serem realisadas as conferencias. Agradece tambem a honrosa visita do sr. ministro portuguez, que, com sua presença, veio dar maior solennidade á primeira conferencia.

Alludindo á pessoa do conferencista, o sr. presidente diz que o dr. Garcia Redondo é por demais conhecido do auditorio que, sobejamente, conhece a sua bagagem literaria, pelo que se dispensa de apresental-o.

Em seguida, é dada a palavra ao sr. dr. Garcia Redondo para proceder á leitura de sua conferencia sobre «O descobrimento do Brasil—Prioridade dos portuguezes no descobrimento da America.»

Por ser muito longo o trabalho do dr. Garcia Redondo, e não dispomos, hoje, do necessario espaço, só amanhan poderemos dar na integra a sua conferencia.

As ultimas palavras do conferencista foram abafadas com uma grande salva de palmas, sendo s. s. abraçado e cumprimentado pela directoria do Centro e pelo sr. ministro de Portugal.

Antes de ser encerrada a sessão, o sr. ministro de Portugal solicita a palavra pronunciando um discurso do qual damos o resumo que se segue:

O sr. Antonio Luiz Gomes começa dizendo que não vinha com a intenção de tomar a palavra nesta assembléa. Vinha apenas, na qualidade de representante do seu paiz, trazer as saudações mais affectuosas ao Gremio Republicano Portuguez de S. Paulo e aos iniciadores destas magnificas conferencias.

«Quando vi o assumpto de que se ia tratar, diz o orador, despertou-se logo no meu espirito e na minha alma a certeza absoluta de que estas conferencias deviam ter uma influencia muitissimo grande na pacificação dos espiritos dos portuguezes, um pouco revoltados, e que ellas teriam, como conclusão final, approximar ainda mais a familia portugueza da familia brazileira.

E, senão bastara isso, eu tambem não podia conservar-me calado depois de ouvir a palavra brilhantissima do sr. dr. Garcia Redondo. Seria uma crueldade, uma injustiça que eu, em publico, deixasse de attestar, não só o meu reconhecimento, mas, o que é mais, o reconhecimento do meu paiz, por este formosissimo e esplendido trabalho. (Muito bem).

Se por ventura o nome do dr. Garcia Redondo não fosse sufficientemente conhecido, não só nas boas letras, como na sciencia, bastava esta conferencia para justificar o elevadissimo conceitoem que o seu nome é tido entre portuguezes e brazileiros.

Trabalho magnifico, soberbo, onde se alliam, indiscutivelmente, altos pensamentos com uma forma burilada e perfeita, e que vem coroar a sua já larga obra na sciencia e nas letras.

E depois de prestar um enorme serviço, de vir levantar a minha patria á altura a que indiscutivelmente ella tem direito, porque Portugal, embora pequeno como disse s. exa., aquella mancha pequena, que se encontra no ponto occidental da Europa, prestou serviços á humanidade, e á civilisação humana, que, positivamente, não foram excedidos por povo algum do mundo. (Muito bem.)

A civilisação do mundo, meus senhores, firma-se em tres peninsulas, nos tres pontos que observaes naquelle mappa.

Se na Grecia nasce a civilisação, nascem as artes, a philosophia, a sciencia; se naquella peninsula italica nasce o direito, porque o direito romano, pode-se dizer, é a propria razão humana feita lei; foi naquella pequenina peninsula iberica, naquelle extremo do occidente, que, numa época em que os grandes povos de hoje viviam uma vida inteiramente apagada, numa época em que a valorosa Inglaterra ainda não tinha historia; em que a Allemanha apenas se preparava para esse movimento augusto e sublime que proclamava perante o mundo inteiro a liberdade de consciencia; em que a França fazia os ultimos retoques na sua lingua e se preparava para escrever paginas brilhantissimas sobre a historia da humanidade, é certo, entretanto, que nenhuma dellas, por assim dizer, tinha ainda firmada a sua civilisação.

Por esse tempo, naquelle «pontinho» se levantava um povo pequenino de lavradores e de guerreiros, que deixava a patria, para levar o pendão das Quinas aos extremos mais remotos, aos confins do mundo.

Essa historia é assombrosa: é inacreditavel.

Custa a acreditar que esse povo, como disse um dos grandes philosophos contemporaneos, Max Nordau, fosse o precursor em todos os grandes acontecimentos.

Elle tinha dispersado os arabes sem que a Hespanha o conseguisse em duzentos annos.

É que durante esse tempo a essa grande raça nada faltava: tinha força, tinha talento, tinha sciencia.

Foi precisamente esse povo pequenino que deixou sementes por toda a parte da grandesa do genio de sua raça.

Por isso, meus senhores, espero que a invocação do dr. Garcia Redondo produza bem rapidamente seus frutos.

Estas lutas não podem continuar, e não podem continuar, sobretudo, no campo em que infelizmente foram postas.

Eu, quando vim representar a Republica Portugueza, não vim com o desejo de que todos os portuguezes se fizessem republicanos: não precisamos de tanto. A unica coisa que desejamos, que eu desejo, como patriota, é que todos sejamos bons portuguezes. (Muito bem, muito bem.)

Eu louvo até, com a franqueza que me caracteriza, que hajam convicções monarchicas no meio de portuguezes. O que é necessario é que os republicanos respeitem os monarchistas e que os monarchistas respeitem os republicanos (Muito bem).

O que nós pedimos é muito pouco: é que nunca confundam as glorias da patria, da terra onde nasceram com as pequeninas paixões que possam viver no nosso espirito. (Muito bem, muito bem).

E, posta a luta nestes termos, como é facil todos nos entendermos! Basta que cada um de nós se esforce para ser o melhor portuguez que possa ser; trabalhe pelo engrandecimento do seu paiz; honre o nome portuguez por toda a parte; defenda as suas convicções politicas, mas honradamente, honestamente.» (Muito bem. Palmas).

Depois de varias considerações termina o sr. Antonio Luiz Gomes.

«Para realisar a nossa obra não queremos que todos sejam republicanos; o que queremos apenas é que ninguem se esqueça que a patria está acima das paixões de cada um. (Muito bem).

E eu estou convencido de que esse tempo vae chegar rapidamente.

A Republica vae, dentro de pouco tempo, ter a sua constituinte, a sua constituição.

Nas ultimas eleições, que foram feitas em condições excepcionaes, depois de uma revolução, depois de boatos aterradores, a Republica já teve a sua consagração.

Nunca as urnas portuguezas foram tão concorridas como neste momento: 80 por cento do corpo eleitoral de Lisboa foi votar.

O Porto, considerado como reaccionario, não para nós republicanos, porque foi precisamente lá que tiveram inicio todos os grandes movimentos de Portugal, no proprio Porto, a votação foi maior do que em qualquer outro ponto.

Portanto, todos vêm a situação definida e clara em que se encontra hoje Portugal.

Vindo a S. Paulo, eu dirijo as minhas saudações mais affectuosas não só ao povo de S. Paulo, mas tambem á auctoridades do Estado, que nos deram a alta honra de se fazer representar nesta conferencia, e remato por agradecer a todas as senhoras, a todos os cidadãos que aqui vieram e, finalmente de novo, dirijo os meus agradecimentos mais sinceros e profundos ao dr. Garcia Redondo, não só em meu nome, como no de Portugal, que tenho a honra de representar.»

As ultimas palavras do dr. Antonio Luiz Gomes foram abafadas com uma estrepitosa e prolongada salva de palmas da grande assistencia.

(Noticia doEstado de S. Paulode 4 de Junho de 1911).

Em carro reservado ligado ao nocturno de luxo, chegou hontem a esta capital, conforme era esperado, o dr. Antonio Luiz Gomes, ministro de Portugal junto ao nosso governo, acompanhado de seu secretario, sr. dr. Bartholomeu Ferreira.

Á noite s. exc. assistiu á conferencia que o sr. dr. Garcia Redondo, com grande successo e brilhantismo, realizou no salão nobre do Instituto Historico e Geographico, tendo por thema: «O descobrimento do Brazil e a prioridade dos portuguezes no descobrimento da America».

Publicaremos amanhã, na integra, esse importante trabalho do distincto membro da Academia Brazileira de Letras, que foi, pelo successo que alcançou, vivamente applaudido e felicitado.

Depois da conferencia do dr. Garcia Redondo, o dr. Antonio Luiz Gomes, usou da palavra, produzindo bellissima allocução, durante a qual era constantemente interrompido por estrepitosa salva de palmas.

(Noticia doSão Paulode 4 de Junho de 1911).

No salão nobre do Instituto Historico e Geographico de S. Paulo, realizou-se hontem á noite, conforme se annunciára, a primeira conferencia da série promovida pelo Centro Republicano Portuguez, desta capital.

Coube o inicio das conferencias ao dr. Garcia Redondo, que tomou por thema de sua oração—«O descobrimento do Brazil» «Prioridade dos portuguezes, no descobrimento da America».

Precisamente ás 8 horas e meia, constituida a mesa da presidencia pelo sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, tendo a seu lado o ministro plenipotenciario de Portugal no Rio de Janeiro, sr. Dr. Antonio Luiz Gomes, que para tal fim veio a esta capital; dr. Bitencourt Rodrigues, e membros da directoria do Centro Republicano Portuguez, era o conferencista introduzido no salão, que já regorgitava de numerosos cavalheiros e gentilissimas senhoras e senhoritas.

Pudemos mesmo notar entre os assistentes, os seguintes:

Commendador Tiburtino Mondim Pestana, segundo-tenente Carlos Rocha, representando o general Ferreira de Abreu, inspector da 10.ª região militar, com séde nesta capital; major Arthur da Graça Martins, secretario do commando geral, da Força Publica; Jacques Dupas, consul da França, e sua familia; commendador Daniel Monteiro de Abreu, consul do Paraguay e encarregado do consulado de Portugal; dr. Eugenio Egas, Arthur Vautier, Nestor Rangel Pestana, Gelasio Pimenta, José Vicente Sobrinho, dr. Antonio Francisco de Paula Sousa, director da Escola Polytechnica; dr. Rodolpho S. Thiago, lente da mesma escola; dr. Ricardo Severo, dr. Leopoldo de Freitas, consul de Guatemala, dr. Alfredo Redondo, dr. Manoel Redondo, Jayme Redondo e sua familia.

Abriu a sessão o sr. Cunha Barbosa.

Referiu-se s. s. com palavras elogiosas ao dr. Bettencourt Rodrigues, de quem partira a idéa das conferencias, cujo grande valor salientou, pois ellas viriam cada vez mais estreitar os vinculos que unem os dois povos portuguez e brazileiro.

Saudava a patria portugueza, alli directamente representada na pessoa do seu ministro plenipotenciario, cuja presença, agradecia.

Á directoria do Instituto Historico e Geographico agradecia tambem, penhorada, a gentileza de haver cedido o salão da sua séde, para a realização da conferencia.

Isto dito, e como não desejava prender por mais tempo a attenção do auditorio, naturalmente ancioso, dava a palavra ao dr. Garcia Redondo,cuja apresentação julgava desnecessario fazer, pois tinha absoluta certeza de que nem uma só pessoa alli presente, desconhecia, quer através da imprensa ou da literatura, os altos meritos do conferencista.

Uma prolongada salva de palmas ecôa pela sala.

Levanta-se então o dr. Garcia Redondo que começa agradecendo aos circumstantes a sua temeridade em affrontar os rigores daquella noite humida e fria, não para ouvir a sua modesta palavra, pois não tinha sobre isso illusão alguma, mas para corresponder ao appello que lhes dirigiram os promotores daquella conferencia.

Sobretudo, era-lhe grato constatar alli a presença das representantes do sexo gentil, que á festa emprestavam a nota brilhante.

Diz que o thema da sua conferencia havia sido para elle objecto de longos e profundos estudos. Poderia por isso dissertar sobre elle sem ter necessidade de ler, nem mesmo simples annotações.

Mas, importando o que tinha de dizer responsabilidades que queria assumir e receiando que a memoria o trahisse, considerava mais prudente ler a sua conferencia.

Em seguida, offerece alguns esclarecimentos sobre um grande mappa que está ao seu lado, e que elle organizou para illustrar a conferencia, e entra finalmente no assumpto.

Ás ultimas palavras da brilhante oração do dr. Garcia Redondo, uma calorosa e prolongada salva de palmas se fez ouvir no salão.

S. s. foi distinguido com a offerta de um lindo «bouquet» de flôres naturaes.

Levantou-se então o ministro plenipotenciario da Republica de Portugal, sr. Antonio Luiz Gomes.

Recáe sobre a sala um profundo silencio.

O illustrado diplomata começa affirmando que não comparecera áquella reunião com o intuito de falar.

Mas, cumpria-lhe o dever de agradecer em nome de Portugal, que tinha a honra de representar, o bello trabalho do dr. Garcia Redondo.

Tratando da moderna phase da sua patria, fala sobre o Portugal antigo, cujos feitos enchem as paginas da historia universal.

Refere-se á Monarchia, dizendo que ella teve tempo mais que sufficiente para demonstrar a capacidade dos seus homens.

Por occasião do assassinato de d. Carlos, levaram os republicanos a sua generosidade ao ponto de prestigiar—sem o sacrificio, porém, das suas convicções politicas—as instituições então vigentes, desde que isso concorresse para o bem do paiz.

Entretanto a Monarchia mostrou-se impotente; nada fez porque nada poude fazer para manter o prestigio de Portugal.

As crises ministeriaes succediam-se de um modo assustador e a situação chegou a tal ponto que só a Republica poderia salvar as gloriosas tradições do paiz.

E a Republica veio, não a Republica do terror, das perseguições, como apraz aos boateiros vulgares, mas a Republica que tem por lemma o levantamento moral do tradicional paiz das quinas.


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