IIYARA!
Dous dias depois da scena do pouso, por uma bella tarde de verão, a familia deD.Antonio de Mariz estava reunida na margem doPaquequer.
O lugar em que se achava era uma pequena baixa cavada entre dous outeiros pedregosos que se elevavão naquellas paragens. A relva que tapeçava essas fragoas, as arvores que havião nascido nas fendas das pedras, e reclinando sobre o valle tecião um lindo docel de verdura, tornavão aquelle retiro pittoresco.
Não podia haver sitio mais agradavel para se passar uma sesta de estio, do que esse caramanchão cheio de sombra e de frescura, onde o canto das aves concertava com o trepido murmurio das aguas.
Por isso, apezar de ficar elle a alguma distancia da casa, a familia vinha ás vezes quando o tempo estava sereno gozar algumas horas da frescura deliciosa que alli se respirava.
D.Antonio de Mariz, sentado junto de sua mulher, contemplava por entre uma aberta das folhas o céo azul e avelludado de nossa terra, que os filhos da Europa não se canção de admirar. Isabel, encostada a uma palmeira nova, olhava a correnteza do rio, murmurando baixinho uma trova de Bernardim Ribeiro.
Cecilia corria pelo valle perseguindo um lindo colibri, que no vôo rapido iriava-se de mil côres, scintillando como o prisma de um raio solar. A linda menina, com o rosto animado, rindo-se dos volteios que a avezinha lhe fazia dar, como se brincasse com ella, achava nesse folguedo um vivo prazer.
Mas afinal, sentindo-se fatigada, foi recostar-se em um comoro de relva, que elevando-se no sopé do rochedo formava uma especie de divan natural. Descançou a cabeça no declive, e assim ficou com os pézinhos estendidos sobre a gramma que os escondia como a lã de um rico tapete: e o seio mimoso a arfar com o anhelito da respiração.
Algum tempo se passou sem que o menor incidente perturbasse o suave painel que formava esse grupo de familia.
De repente, entre o docel de verdura que cobria esta scena, ouvio-se um grito vibrante e uma palavra de lingua estranha:
—Yara!
E um vocabulo guarany: significaa senhora.
D.Antonio levantou-se: volvendo olhos rapidos, vio sobre a eminencia que ficava sobranceira ao lugar em que estava Cecilia, um quadro original.
De pé, fortemente apoiado sobre a base estreita a que formava a rocha, um selvagem coberto com um ligeiro saio de algodão, mettia o hombro a uma lasca de pedra que se desencravára do seu alveolo, e ia rolar pela encosta.
O indio fazia um esforço supremo para suster o peso da lage prestes a esmaga-lo; e com o braço estendido de encontro a um galho de arvore mantinha por uma tensão violenta dos musculos o equilibrio do corpo.
A arvore tremia; por momentos parecia que pedra e homem se enrolavão n'uma mesma volta, e precipitavão-se sobre a menina sentada na aba da collina.
Cecilia ouvindo o grito erguera a cabeça, e olhava seu pai com alguma sorpreza, sem adivinhar o perigo que a ameaçava.
Ver, lançar-se para sua filha, toma-la nos braços, arranca-la á morte, foi paraD.Antonio de Mariz uma só idéa e um só movimento, que realisou com a força e a impetuosidade do sublime amor de pai, que era toda a sua vida.
No momento em que o fidalgo deitava Cecilia quasi desmaiada sobre o regaço materno, o indio saltava no meio do valle; a pedra gyrando sobre si, precipitada do alto da collina, enterrava-se profundamente no chão.
Foi então que os outros espectadores desta scena, paralysados pelo choque que havião soffrido, lançarão um grito de terror, pensando no perigo que já estava passado.
Uma larga esteira que descia da eminencia até o lugar onde Cecilia estivera recostada, mostrava a linha que descrevera a pedra na passagem, arrancando a relva e ferindo o chão.D.Antonio, ainda pallido e tremulo do perigo que correra Cecilia, volvia os olhos daquella terra que se lhe afigurava uma campa, para o selvagem que surgira, como um genio bemfazejo das florestas do Brazil.
O fidalgo não sabia o que mais admirar, se a força e heroísmo com que elle salvára sua filha, se o milagre de agilidade com que se livrára a si proprio da morte.
Quanto ao sentimento que dictára esse proceder,D.Antonio não se admirava; conhecia o caracter dos nossos selvagens, tão injustamente calumniados pelos historiadores; sabia que fora da guerra e da vingança erão generosos, capazes de uma acção grande, e de um estimulo nobre.
Por muito tempo reinou silencio expressivo nesse grupo, que se acabava de transformar de modo tão imprevisto.
D.Lauriana e Isabel de joelhos oravão a Deus, rendendo-lhe graças; Cecilia ainda assustada apoiava-se ao peito de seu pai e beijava-lhe a mão com ternura; o indio humilde e submisso fitava um olhar profundo de admiração sobre a moça que tinha salvado.
Por fimD.Antonio passando o braço esquerdo pela cintura de sua filha, caminhou para o selvagem, e estendeu-lhe a mão com gesto nobre e affavel: o indio curvou-se e beijou a mão do fidalgo.
—De que nação és? perguntou-lhe o cavalheiro em guarany.
—Goytacaz, respondeo o selvagem erguendo a cabeça com altivez.
—Como te chamas?
—Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu.
—Eu, sou um fidalgo portuguez, um branco inimigo de tua raça, conquistador de tua terra; mas tu salvaste minha filha; offereço-te a minha amizade.
—Pery aceita; tu já eras amigo.
—Como assim? perguntouD.Antonio admirado.
—Ouve.
O indio começou, na sua linguagem tão rica e poetica, com a doce pronuncia que parecia ter aprendido das auras da sua terra ou das aves das florestas virgens, esta simples narração:
«Era o tempo dasarvores de ouro.
«A terra cobrio o corpo de Ararê, e as suas armas; menos o seu arco de guerra.
«Pery chamou os guerreiros de sua nação, e disse:
«—Pai morreu; aquelle que fôro mais forteentre todos, terá o arco de Ararê. Guerra!»
«Assim fallou Pery; os guerreiros respondêrão Guerra!
«Emquanto o sol allumiou a terra, caminhámos; quando a lua subio ao céo, chegámos. Combatêmos como Goytacazes. Toda a noite foi uma guerra. Houve sangue, houve fogo.
«Quando Pery abaixou o arco de Ararê não havia nataba dos brancosuma cabana em pé, um homem vivo; tudo era cinza.
«Veio o dia e allumiou o campo; veio o vento e levou a cinza.
Pery tinha vencido; era o primeiro da sua tribu, e o mais forte de todos os guerreiros.
Sua mãi chegou e disse:
«Pery, chefe dos Goytacazes, filho de Ararê, tu és grande, tu és forte como teu pai; tua mãi te ama.
«Os guerreiros chegárão e disserão:
«Pery, chefe de Goytacazes, filho de Ararê, tu és o mais valente da tribu, e o mais temido do inimigo; os guerreiros te obedecem.
«As mulheres chegárão e disserão:
«Pery, primeiro de todos, tu és bello como o sol, e flexivel como a canna selvagem que te deo o nome; as mulheres são tuas escravas.
«Pery ouvio e não respondeu; nem a voz de sua mãi, nem o canto dos guerreiros, nem o amor das mulheres, o fez sorrir.
«Na casa da cruz, no meio do fogo, Pery tinha visto asenhora dos brancos; era alva como a filha da lua; era bella como a garça do rio.
«Tinha a cor do céo nos olhos; a cor do sol nos cabellos; estava vestida de nuvens, com um cinto de estrellas e uma pluma de luz.
«O fogo passou; a casa da cruz cahio.
«De noite Pery teve um sonho; a senhora appareceu; estava triste e fallou assim:
«Pery, guerreiro livre, tu és meu escravo; tu me seguirás por toda a parte, como aestrella grandeacompanha o dia.
«A lua tinha voltado o seu arco vermelho, quando tornámos da guerra; todas as noites Pery via a senhora na sua nuvem; ella não tocava a terra, e Pery não podia subir ao céo.
«O cajueiro quando perde a sua folha parece morto; não tem flôr, nem sombra; chora umas lagrimas doces como o mel dos seus fructos.
«Assim Pery ficou triste.
«A senhora não appareceu mais; e Pery via sempre a senhora nos seus olhos.
«As arvores ficárão verdes; os passarinhos fizerão seus ninhos; o sabiá cantou; tudo ria: o filho de Ararê lembrou-se de seu pai.
«Veio o tempo da guerra.
«Partimos; andámos; chegámos aogrande rio. Os guerreiros armárão as redes; as mulheres fizerão fogo; Pery olhou o sol.
«Vio passar o gavião.
«Se Pery fosse o gavião, ia ver a senhora no céo.
«Vio passar o vento.
«Se Pery fosse o vento, carregava a senhora no ar.
Vio passar a sombra.
«Se Pery fosse a sombra, acompanhava a senhora de noite.
«Os passarinhos dormirão tres vezes.
«Sua mãi veio e disse:
«Pery, filho de Ararê, guerreiro branco salvou tua mãi; virgem branca tambem.
«Pery tomou sua armas e partio; ia ver o guerreiro branco para ser amigo; e a filha da senhora para ser escravo.
«O sol chegava ao meio do céo e Pery chegava tambem ao rio; avistou longe a tua casa grande.
«A virgem branca appareceu.
«Era a senhora que Pery tinha visto; não estava triste como da primeira vez; estava alegre; tinha deixado lá a nuvem e as estrellas.
«Pery disse:
«A senhora desceu do céo, porque a lua sua mãi deixou; Pery, filho do sol, acompanhará a senhora na terra.
«Os olhos esta vão na senhora; e o ouvido no coração de Pery. A pedra estalou e quiz fazer mal á senhora.
«A senhora tinha salvado a mãi de Pery, Pery não quiz que a senhora ficasse triste, e voltasse ao céo.
«Guerreiro branco, Pery, primeiro de sua tribu, filho de Ararê, danação Goytacaz, forte na guerra, te offerece o seu arco; tu és amigo.»
O indio terminou aqui a sua narração.
Emquanto fallava, um assomo do orgulho selvagem da força e da coragem lhe brilhava nos olhos negros, e dava certa nobreza ao seu gesto. Embora ignorante, filho das florestas, era um rei; tinha a realeza da força.
Apenas concluio, a altivez do guerreiro desappareceu; ficou timido e modesto; já não era mais do que um barbaro em face de creaturas civilisadas, cuja superioridade de educação o seu instincto reconhecia.
D.Antonio o ouvia sorrindo-se do seu estylo ora figurado, ora tão singelo como as primeiras phrases que balbucia a criança aos peitos maternos. O fidalgo traduzia da melhor maneira que podia essa linguagem poetica a Cecilia, a qual já livre do susto queria por força, apezar do medo que lhe causava o selvagem, saber o que elle dizia.
Comprehendêrão da historia de Pery, que uma india salva havia dous dias porD.Antonio das mãos dos aventureiros e a quem Cecilia enchêra de presentes de velorios azues e escarlates, era a mãi do selvagem.
—Pery, disse o fidalgo, quando dous homens se encontrão e ficão amigos, o que está na casa do outro recebe a hospitalidade.
—E o costume que os velhos transmittirão aos moços da tribu e os pais aos filhos.
—Tu cearás comnosco.
—Pery te obedece.
A tarde declinava; as primeiras estrellas luzião. A familia, acompanhada por Pery, dirigio-se á casa, e subio a esplanada.
D.Antonio entrou um momento e voltou trazendo uma linda clavina tauxiada com o brazão de armas do fidalgo, a mesma que já vimos nas mãos do indio.
—É a minha companheira fiel, a minha arma de guerra: nunca mentio fogo, nunca errou o alvo: a sua bala é como a setta do teu arco. Pery tu me déste minha filha; minha filha te dá a arma de guerra de seu pai.
O indio recebeu o presente com uma effusão de profundo reconhecimento.
—Esta arma que vem da senhora e Pery farão um só corpo.
A campa do terreiro tocou annunciando a ceia.
O indio, vexado no meio dos usos estranhos, tomado de um santo respeito, não sabia como se ter.
Apezar de todos os esforços do fidalgo, que sentia um prazer indizivel em mostrar-lhe quanto apreciava a sua acção e remoçara com a alegria de ver sua filha viva, o selvagem não tocou em um só manjar.
Por fimD.Antonio de Mariz conhecendo que toda a insistencia era inutil, encheu duas taças de vinho das Canarias.
—Pery, disse o fidalgo, ha um costume entre os brancos, de um homem beber por aquelle que é amigo. O vinho é o licor que dá a força, a coragem, a alegria. Beber por um amigo é uma maneira de dizer que o amigo é e será forte, corajoso e feliz. Eu bebo pelo filho de Ararê.
—E Pery bebe por ti, porque és pai da senhora; bebe por ti, porque salvaste sua mãi; bebe por ti, porque és guerreiro.
A cada palavra o indio tocou a taça e bebeu um trago de vinho, sem fazer o menor gesto de desgosto; elle beberia veneno á saude do pai de Cecilia.