IXAMOR
As cortinas da janella cerrarão-se; Cecilia tinha-se deitado.
Junto da innocente menina adormecida na insenção de sua alma pura e virgem, velavão tres sentimentos profundos, palpitavão tres corações bem differentes.
Em Loredano, o aventureiro de baixa extracção, esse sentimento era um desejo ardente, uma sede de gozo, uma febre que lhe requeimava o sangue; o instincto brutal dessa natureza vigorosa era ainda augmentado pela impossibilidade moral que a sua condição creava, pela barreira que se elevava entre elle, pobre colono, e a filha deD.Antonio de Mariz, rico fidalgo de solar e brazão.
Para destruir esta barreira e igualar as posições, seria necessario um acontecimento extraordinário, um facto que alterasse completamente as leis da sociedade naquelle tempo mais rigorosas do que hoje; era preciso uma dessas situações em face das quaes os individuos, qualquer que seja a sua hierarchia, nobres e pariás, nivelão-se; e descem ou sobem á condição de homens.
O aventureiro comprehendia isto; talvez que o seu espirito italiano já tivesse sondado o alçance dessa idéa; em todo o caso o que affirmamos é que elle esperava, e esperando vigiava o seu thesouro com um zelo e uma constancia á toda a prova; os vinte dias que passára no Rio de Janeiro tinhão sido verdadeiro supplicio.
Em Alvaro, cavalheiro delicado e cortez, o sentimento era uma affeição nobre e pura, cheia da graciosa timidez que perfuma as primeiras flores do coração, e do enthusiasmo cavalheiresco que tanta poesia dava aos amores daquelle tempo de crença e lealdade.
Sentir-se perto de Cecilia, vê-la e trocar alguma palavra á custo balbuciada; corarem ambos sem saberem porque, e fugirem desejando encontrar-se; era toda a historia desse affecto innocente, que se entregava descuidosamente ao futuro, librando-se nas azas da esperança.
Nesta noite Alvaro ia dar um passo que na sua habitual timidez, elle comparava quasi com um pedido formal de casamento; tinha resolvido fazer a moça aceitar máo grado seu o mimo que recusara, deitando-o na sua janella; esperava que encontrando-o no dia seguinte, Cecilia lhe perdoaria o seu ardimento, e conservaria a sua prenda.
Em Pery o sentimento era um culto, especie de idolatria fanatica, na qual não entrava um só pensamento de egoismo; amava Cecilia não para sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se inteiramente a ella, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar que a moça tivesse um pensamento que não fosse immediatamente uma realidade.
Ao contrario dos outros elle não estava alli, nem por um ciume inquieto, nem por uma esperança risonha; arrostava a morte unicamente para ver se Cecilia estava contente, feliz e alegre: se não desejava alguma cousa que elle adevinharia no seu rosto, e iria buscar nessa mesma noite, nesse mesmo instante.
Assim o amor se transformava tão completamente nessas organisações, que apresentava tres sentimentos bem distinctos; um era uma loucura, o outro uma paixão, o ultimo uma religião.
Loredano desejava; Alvaro amava: Pery adorava. O aventureiro daria a vida para gozar: o cavalheiro arrostaria a morte para merecer um olhar: o selvagem se mataria, se preciso fosse, só para fazer Cecilia sorrir.
Entretanto nenhum desses tres homens podia tocar a janella da moça, sem correr um risco eminente; e isto pela posição em que se achava o quarto de Cecilia.
Embora o alicerce e a parede corressem a uma braça de distancia da ribanceira,D.Antonio de Mariz para defender esta parte do edificio tinha feito construir um respaldo que se abaixava da presinta das janellas até á beira da esplanada: era impossivel pois caminhar sobre esse plano inclinado, cuja face lisa e polida não offerecia nenhuma adhesão ao pé mais firme e mais seguro.
Abaixo da janella abria-se a rocha cortada a pique e formava um vallado profundo, coberto por um docel verde de trepadeiras e cipós que servia de habitação a todos esses reptis de mil fórmas que pullulão na sombra e na humidade.
Assim o homem que se precipitasse do alto da esplanada nessa fenda larga e funda, se por um milagre não se espedaçasse nas pontas da rocha, seria devorado em um momento pelas cobras e insectos venenosos que enchião essas grotas e alcantis.
Havia alguns instantes que a cortina da janella se tinha cerrado; apenas uma luz vaga e mortiça desenhava na folhagem verde-negra do oleo o quadro da janella.
O italiano que tinha os olhos fitos nesse reflexo como em um espelho, onde revia todas as imagens de sua louca paixão, estremeceu de repente. Na claridade debuxava-se uma sombra mobil; um homem se aproximava da janella.
Pallido, com os olhos ardentes e os dentes cerrados, pendido sobre o precipicio seguia as menores evoluções da sombra.
Vio um braço que se estendia para a janella, e a mão que deixava no parapeito um objecto qualquer, mas tão pequeno que não se percebia a forma. Pela manga larga do gibão, ou antes pelo instincto, o italiano adevinhou que este braço pertencia a Alvaro; e comprehendeu o que esta mão havia deitado na janella.
E não se enganava.
Alvaro, segurando-se a uma estaca do jardim e pondo um pé sobre o respaldo, coseu o corpo á parede; inclinando conseguio realisar o seu intento.
Depois voltou partilhado entre o tempo da acção que praticára, e a esperança de que Cecilia lhe perdoaria.
Loredano apenas viu desapparecer a sombra, e ouvio os echos dos passos do moço, que se repercutião surdamente no fundo do precipicio, sorrio. Sua pupilla fulva brilhou na treva, como os olhos dahirára.
Tirou a sua adaga e cravou-a na parede tão longe quanto lhe permittio a curva que o braço era obrigado a fazer para abarcar o angulo.
Suspendendo-se então a este fraco apoio pôde galgar o respaldo e aproximar-se da janella; á menor indecisão, ao menor movimento, bastava que o pé lhe faltasse, ou que o punhal vacillasse no cimento para precipitar-se com a cabeça sobre as pedras.
Emquanto isto se passava, Pery sentado tranquillamente no galho do oleo, e escondido pela folhagem, assistia immovel a toda esta scena.
Logo que Cecilia cerrou as cortinas da janella, o indio vira os dous homens que collocados á direita e á esquerda parecião esperar.
Esperou tambem, curioso de saber o que se ia passar; mas resolvido se fosse preciso a lançar-se de um pulo sobre aquelle que ousasse fazer a menor violencia, e a cahirem ambos do alto da esplanada. Tinha reconhecido Alvaro e Loredano; desde muito tempo que conhecia o amor do cavalheiro por Cecilia; mas sobre o italiano nunca tivera a menor suspeita.
O que podião querer estes dous homens? Que vinhão elles fazer alli naquella hora silenciosa da noite?
O movimento de Alvaro explicou-lhe parte do enigma; o de Loredano ia fazer-lhe comprehender o resto.
Com effeito, o Italiano que se aproximára da janella conseguio com um esforço fazer cahir o objecto que Alvaro ahi tinha deixado no fundo do precipicio. Feito isto voltou do mesmo modo, e retirou-se saboreando o prazer dessa vingança simples; mas cujo alcance elle previa.
Pery não se moveu.
Tinha comprehendido com a sua sagacidade natural o amor de um e o ciume do outro; e formulou na sua intelligencia selvagem e na sua adoração fanatica um pensamento, que para elle era muito simples.
Si Cecilia julgasse que isto devia ser assim, pouco lhe importava o mais; porém, se o que tinha visto lhe causasse uma sombra de tristeza, e empanasse um momento o brilho de seus olhos azues, então era differente. O indio sacrificaria tudo, antes do que consentir que um pezar annuviasse o rostinho faceiro de sua bella senhora.
Assim tranquillisado por esta idéa, ganhou a cabana e dormio sonhando que a lua lhe mandava um raio de sua luz branca e assetinada para dizer-lhe que protegesse sua filha na terra.
E com effeito, a lua se elevava sobre a cupola das arvores, e illuminava a fachada do edificio.
Então quem se aproximasse de uma das janellas que ficavão na extrema do jardim, veria na penumbra do portal um vulto immovel.
Era Isabel que vellava pensativa, enxugando de vez em quando uma lagrima que desfiava-lhe pela face.
Pensava no seu amor infeliz, na solidão de sua alma, tão erma de recordações doces, de esperanças queridas. Toda essa tarde fôra um martyrio para ella; vira Alvaro fallar a Cecilia, adevinhára quasi as suas palavras. Á poucos momentos tinha percebido a sombra do moço que atravessara a esplanada, e sabia que não era por sua causa que elle passava.
De vez em quando seus labios tremião e deixavão escaparem-se algumas palavras imperceptiveis:
—Si eu quizesse!
Tirava do seio uma redoma de ouro, sob cuja tampa de crystal se via um annel de cabellos que se enroscava no estreito aro de metal.
O que havia dentro desta redoma, de tão poderoso, de tão forte, que justificasses aquella exclamação, e o olhar brilhante que illuminava a pupilla negra de Isabel?
Seria um segredo, um desses segredos terriveis que mudão de repente a face das causas, e fazem surgir o passado para esmagar o presente?
Seria algum thesouro inestimavel e fabuloso, á cuja seducção a natureza humana não devia resistir?
Seria uma arma poderosa e invencivel, contra a qual não houvesse defeza possivel senão em um milagre da Providencia.
Era o pó subtil docurari, o veneno terrivel dos selvagens.
Isabel collou os labios no crystal com uma especie de delirio.
—Minha mãi?... minha mãi!...
Um soluço rompeu-lhe o seio.