VIA VOLTA

VIA VOLTA

Ao mesmo tempo que esta scena se passava no jardim, dous homens passeavão do outro lado da esplanada, na sombra que projectava o edificio.

Um delles, de alto porte, conhecia-se immediatamente que era um fidalgo pela altivez do gesto e pelo trajo de cavalheiro.

Vestia um gibão do velludo preto com alamares de seda côr de café no peito e nas aberturas das mangas; os calções do mesmo estofo, e tambem pretos, cahião sobre as botas longas de couro branco com esporas de ouro.

Uma simples preguilha de linho alvissimo cercava o talho do seu gibão, e deixava a descoberto o pescoço, que sustentava com graça uma bella e nobre cabeça de velho.

De seu chapéo de feltro pardo sem pluma escapavão-se os anneis de cabellos brancos, que cahião sobre os hombros; atravez da longa barba alva como a espuma da cascata, brilhavão suas faces rosadas, sua bocca ainda expressiva, e seus olhos pequenos mas vivos.

Este fidalgo eraD.Antonio de Mariz que, apezar dos seus sessenta annos, mostrava um vigor devido talvez á vida activa; trazia ainda o porte direito, e tinha o passo firme e seguro como se estivesse na força da idade.

O outro velho, que caminhava a seu lado com o chapéo na mão, era Ayres Gomes, seu escudeiro e antigo companheiro de sua vida aventureira; o fidalgo depositava a maior confiança na sua discrição e zelo.

A physionomia deste homem tinha, quer pela sagacidade inquieta que era a sua expressão ordinaria, quer pelos seus traços allongados, uma certa semelhança com o focinho da raposa, semelhança que era ainda mais augmentada pelo seu trajo bizarro. Trazia sobre o gibão de belbutina côr de pinhão uma especie de vestia do pello daquelle animal, do qual erão tambem as botas compridas, que lhe servião quasi de calções.

—Em que o negues, Ayres Gomes, dizia o fidalgo ao seu escudeiro, medindo a passos lentos o terreno; estou certo que és do meu parecer.

—Não digo de todo que não,Sr.cavalheiro; confesso queD.Diogo commetteo uma imprudencia matando essa india.

—Dize uma barbaria, uma loucura!... Não penses que com ser meu filho, o desculpo!

—Julgais com demasiada severidade.

—E o devo, porque um fidalgo que mata uma creatura fraca e inoffensiva, commette uma acção baixa e indigna. Durante trinta annos que me acompanhas, sabes como trato os meus inimigos; pois bem, a minha espada, que tem abatido tantos homens na guerra, cahir-me-ia da mão se, n'um momento de desvario, a erguesse contra uma mulher.

—Mas é preciso ver que casta de mulher é esta, uma selvagem...

—Sei o que queres dizer; não partilho essas idéas que vogão entre os meus companheiros; para mim, os indios quando nos atacão, são inimigos que devemos combater, quando nos respeitão são vassallos de uma terra que conquistamos, mas são homens!

—Vosso filho não pensa assim, e bem sabeis que os principios que lhe deo a Sra.D.Lauriana.

—Minha mulher! . . . replicou o fidalgo com algum azedume. Mas não é disto que discorriamos.

—Sim; fallaveis dos receios que vos inspirava a imprudencia deD.Diogo.

—E que pensas tu?

—Já vos disse que não vejo as cousas tão negras como vós,Sr.D. Antonio. Os indios vos respeitão, vos temem, e não se animarão a atacar-vos.

—Digo-te que te enganas, ou antes que procuras enganar-me.

—Não sou capaz de tal,Sr.cavalheiro!

—Conheces tão bem como eu, Ayres, o caracter desses selvagens; sabes que a sua paixão dominante é a vingança, e que por ella sacrificão tudo, a vida e a liberdade.

—Não desconheço isto, respondeo o escudeiro.

—Elles me temem, dizes tu; mas desde o momento em que se julgarem offendidos por mimsoffrerãotudo para vingar-se.

—Tendes mais experiencia do que eu,Sr.cavalheiro; mas queira Deus que vos enganeis.

Voltando-se na beira da esplanada para continuarem o seu passeio,D.Antonio de Mariz e o seu escudeiro virão um moço cavalleíro que atravessava pela frente da casa.

—Deixa-me, disse o fidalgo a Ayres Gomes; e pensa no que te disse; em todo o caso que estejamos preparados para recebe-los.

—Se vierem! retrucou o teimoso escudeiro afastando-se.

D.Antonio dirigio-se lentamente para o moço fidalgo que se havia sentado a alguns passos.

Vendo aproximar-se seu pai,D.Diogo de Mariz ergueu-se e descobrindo-se esperou-o n'uma attitude respeitosa.

—Sr.cavalheiro, disse o velho com um ar severo, infringistes hontem as ordens que vos dei.

—Senhor...

—Apezar das minhas recommendações expressas, offendestes um desses selvagens, e excitastes contra nós a sua vingança. Pozestes em risco a vida de vosso pai, de vossa mãi e de homens dedicados. Deveis estar satisfeito de vossa obra.

—Meu pai!...

—Commettestes uma acção má assassinando uma mulher, uma acção indigna do nome que vos dei; isto mostra que ainda não sabeis fazer uso da espada que trazeis á cinta.

—Não mereço esta injuria, senhor! Castigai-me, mas não rebaixeis vosso filho.

—Não é vosso pai que vos rebaixa,Sr.cavalheiro, e sim a acção que praticastes. Não vos quero envergonhar, tirando essa arma que vos dei para combater pelo vosso rei; mas como ainda não vos sabeis servir d'ella, prohibo-vos que a tireis da bainha ainda que seja para defender a vossa vida.

D.Diogo inclinou-se em signal de obediencia.

—Partireis brevemente, apenas chegar a expedição do Rio de Janeiro; e ireis pedir a Diogo Botelho que vos dê serviços nas descobertas. Sois portuguez, e deveis guardar fidelidade ao vosso rei legitimo; mas combatereis como fidalgo e christão em prol da religião, conquistando ao gentio esta terra que um dia voltará ao dominio de Portugal livre.

—Cumprirei as vossas ordens, meu pai.

—Daqui até então, continuou o velho fidalgo, não arredareis pé desta casa sem minha ordem. Ide,Sr.cavalheiro; lembrai-vos que tenho sessenta annos, e que vossa mãi e vossa irmã breve carecerão de um braço valente para defende-las, e de um conselho avisado para protege-las.

O moço sentio as lagrimas borbulharem nos olhos; mas não balbuciou uma palavra; curvou-se e beijou respeitosamente a mão de seu pai.

D.Antonio de Mariz, depois de olha-lo um momento com uma severidade sob a qual transparecião os assomos do amor de pai, voltou pelo mesmo caminho e ia continuar o seu passeio quando sua mulher appareceu no soleira da porta.

D.Lauriana era uma senhora de cincoenta e cinco annos; magra, mas forte e conservada como seu marido; tinha ainda os cabellos pretos matizados por alguns fios brancos que escondia o seu alto penteado, coroado por um desses antigos pentes tão largos que cingião toda a cabeça, e fingião uma especie de diadema.

Seu vestido de lapim côr de fumo de cintura comprida, um pouco curto na frente, tinha uma cauda respeitavel, que ella arrastava com um certo donaire de fidalga, resto de sua belleza, ha muito perdida. Longas arrecadas de ouro com pingentes de esmeralda, que lhe roçavão quasi os hombros, e um collar com uma cruz de ouro ao pescoço, erão todos os seus ornatos.

Quanto ao moral, já dissemos que era uma mistura de fidalguia e devoção; o espirito de nobreza que emD.Antonio de Mariz era um realce, nella tornava-se uma ridicula exageração.

No ermo em que se achava, em lugar de procurar desvanecer um pouco a distincção social que podia haver entre ella e os homens no meio dos quaes vivia, ao contrario, aproveitava o facto de ser a unica dama fidalga daquelle lugar, para esmagar os outros com a sua superioridade, e reinar do alto de sua cadeira de espaldar, que para ella era quasi um throno.

Em religião o mesmo succedia; e um dos maiores desgostos que ella sentia na sua existencia, era não se ver cercada de todo esse apparato do culto, queD.Antonio, como os homens de uma fé robusta e de um espirito direito, tinha sabido substituir perfeitamente.

Apezar desta differença de caracteres,D.Antonio de Mariz, ou por concessões ou por severidade, vivia em perfeita harmonia com sua mulher; procurava satisfaze-la em tudo, e quando não era possivel, exprimia a sua vontade de um certo modo, que a dama conhecia immediatamente que era escusado insistir.

Só em um ponto a sua firmeza tinha sido baldada; e fôra em vencer a repugnancia queD.Lauriana tinha por sua sobrinha; mas como o velho fidalgo sentia talvez doer-lhe a consciência nesse objecto, deixou sua mulher livre de proceder como lhe parecesse, e respeitou os seus sentimentos.

—Fallaveis aD.Diogo com um ar tão severo! disseD.Lauriana descendo os degráos da porta, e vindo ao encontro de seu marido.

—Dava-lhe uma ordem, e um castigo que elle mereceu, respondeo o fidalgo.

—Tratais esse filho sempre com excessivo rigor,Sr.D.Antonio!

—E vós com extrema benevolencia,D.Lauriana. Assim como não quero que o vosso amor o perca, vejo-me obrigado a privar-vos da sua companhia.

—Jesus! Que dizeis,Sr.D.Antonio?

—D.Diogo partirá nesses dias para a cidade de S. Salvador, onde vai viver como fidalgo, servindo a causa da religião e não perdendo o tempo em extravagancias.

—Vós não fareis isto,Sr.Mariz, exclamou sua mulher; desterrar vosso filho da casa paterna!

—Quem vos falla em desterro, senhora? Quereis queD.Diogo passe toda a sua vida agarrado ao vosso avental e á vossa roca?

—Mas, senhor; eu sou mãi, e não posso viver assim longe de meu filho, cheia de inquietações pela sua sorte.

—Entretanto, assim ha de ser, porque assim o decidi.

—Sois cruel, senhor.

—Sou justo apenas.

Foi nesta occasião que se ouvio o tropel de animaes, e que Isabel distinguio a banda de cavalleiros que se aproximava da casa.

—Oh! exclamouD.Antonio de Mariz; eis Alvaro de Sá.

O moço que já conhecemos, o italiano e seus companheiros apeárão-se, subirão a ladeira que conduzia á esplanada, e aproximárão-se do cavalheiro e de sua mulher, a quem cortejárão respeitosamente.

O velho fidalgo estendeu a mão a Alvaro de Sá; e respondeo á saudação dos outros com uma certa amabilidade. Quanto aD.Lauriana, a inclinação da cabeça foi tão imperceptivel, que seus olhos nem se abaixarão sobre o rosto dos aventureiros.

Depois de trocada essa saudação, o Fidalgo fez um signal a Alvaro, e os dous se separárão, e forão conversar a um canto do terreiro, sentados sobre dous grossos troncos de arvore lavrados toscamente, que servião de bancos.

D.Antonio desejava saber noticias do Rio de Janeiro e de Portugal, onde se havião perdido todas as esperanças de uma restauração que só teve lugar quarenta annos depois com a acclamação do duque de Bragança.

O resto dos aventureiros ganhou o outro lado da esplanada e foi misturar-se cornos seus companheiros que sahião ao seu encontro.

Ahi forão recebidos por um tiroteio de perguntas, de risadas e ditos chistosos, em que tomarão parte; depois, uns, curiosos de novidades, outros, avidos de contar o que virão, começárão a fallar ao mesmo tempo, de modo que ninguem se entendia.

Nesse instante, as duas moças apparecêrão na porta: Isabel parou tremula e confusa; Cecilia descendo ligeiramente os degráos, correu para sua mãi.

Em quanto ella atravessava o espaço que a separava deD.Lauriana, Alvaro tendo obtido a permissão do fidalgo adiantou-se e com o chapéo na mão foi inclinar-se corando diante da moça.

—Eis-vos de volta,Sr.Alvaro! disse Cecilia com um certo repente, para disfarçar o enleio que tambem sentia: depressa tornastes!

—Menos do que desejava, respondeo o moço balbuciando; quando o pensamento fica, o corpo tem pressa de voltar-se.

Cecilia corou, e fugio para junto de sua mãi.

Durante que esta breve scena se passava no meio da esplanada, tres olhares bem differentes accompanhavão, e partindo de pontos diversos cruzavão-se sobre essas duas cabeças que brilhavão de belleza e mocidade.

D.Antonio de Mariz, sentado a alguma distancia, considerava aquelle lindo par, e um sorriso intimo de felicidade expandia o seu rosto veneravel.

Ao longe, Loredano, um pouco retirado dos grupos dos seus companheiros, cravava nos moços um olhar ardente, duro, incisivo; emquanto as narinas dilatadas aspiravão o ar com a delicia da fera que fareja a victima.

Isabel, a pobre menina, fitava sobre Alvaro os seus grandes olhos negros, cheios de amargura e de tristeza; sua alma parecia coar-se naquelle raio luminoso e ir curvar-se aos pés do moço.

Nem uma das testemunhas mudas desta scena percebeo o que se passava além do ponto para onde convergião os seus olhares; á excepção do Italiano que vio o sorriso deD.Antonio de Mariz e o comprehendeo.

Em quanto isto succedia,D.Diogo que se havia retirado, voltou a saudar Alvaro, e seus companheiros recem-chegados: o moço tinha ainda no rosto a expressão de tristeza que lhe havião deixado as palavras severas de seu pai.


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