VINOBREZA
Alvaro ouvio um sibillo agudo.
A bala roçando pela aba rebatida de seu chapéo de feltro cortou a ponta da pluma escarlate que se enroscava sobre o hombro.
O moço voltou-se calmo, sereno, impassivel; nem um musculo do seu rosto agitou-se; apenas um sorriso de soberano desprezo arqueava o labio superior, sombreado pelo bigode negro.
O espectaculo que se offereceu aos seus olhos causou-lhe uma sorpreza extraordinária; não esperava de certo ver o que se passava a dez passos delle.
Pery mostrando nos movimentos toda a força muscular de sua organisação de aço, com a mão esquerda segura á nuca de Loredano, curvava-o sob a pressão violenta, e obrigava-o a ajoelhar.
O italiano livido, com o rosto contrahido e os olhos immensamente dilatados, tinha ainda entre as mãos hirtas a clavina fumegante.
O indio arrancou-a e sacando a longa faca, levantou o braço para crava-la no alto da cabeça do italiano.
Mas Alvaro tinha-se adiantado e aparou o golpe: depois estendeu a mão ao indio.
—Solta este miseravel, Pery!
—Não!
—A vida deste homem me pertence; atirou sobre mim; é a minha vez de atirar sobre elle.
Alvaro ao mesmo tempo que dizia estas palavras, armava a clavina, e apoiava a bocca na fronte do italiano.
—Ides morrer. Fazei a vossa oração.
Pery abaixou a faca; recuou um passo, e esperou.
O italiano não respondeu; a sua oração foi uma blasphemia horrivel e satanica; as palpitações violentas do coração batião de encontro ao pergaminho que tinha no seio, e lembravão-lhe o seu thesouro que ia talvez cahir nas mãos de Alvaro e dar-lhe a riqueza de que não podêra gozar.
Entretanto, na baixeza dessa alma havia ainda alguma altivez, o orgulho do crime; não supplicou, não disse uma palavra, sentindo o contacto frio do ferro sobre a fronte, fechou os olhos e julgou-se morto.
Alvaro olhou-o um instante, e abaixou a clavina:
—Tu és indigno de morrer á mão de um homem, e por uma arma de guerra; pertences ao pelourinho e ao carrasco. Seria um roubo feito á justiça de Deus.
Loredano abrio os olhos; seu rosto illuminou-se com um raio de esperança.
—Vais jurar que amanhã deixarás a casa deD.Antonio de Mariz, e nunca mais porás o pé neste sertão; por tal preço tens a vida salva.
—Juro! exclamou o italiano.
O moço tirou o collar que dava tres voltas sobre os hombros, e apresentou a Loredano a cruz vermelha do Christo que lhe pendia do peito: o aventureiro estendeu a mão, e repetio o juramento.
—Ergue-te; e tira-te dos meus olhos.
E com o mesmo desprezo e a mesma nobreza, o cavalheiro desarmou a sua clavina; voltou-se para continuar o seu caminho fazendo um signal a Pery para que o acompanhasse.
O indio, emquanto se passava a rapida scena que descrevemos, reflectia profundamente.
Quando ouvira o que dizião ha pouco Loredano e seus dous companheiros, quando pelo resto da conversa comprehendêra que se tratava de fazer mal á sua senhora e aD.Antonio de Mariz, a sua primeira idéa tinha sido lançar-se aos tres inimigos e mata-los.
Foi por isso que soltou aquella palavra que revelava a sua indignação; mas immediatamente lembrou-se que elle podia morrer, e que nesse caso Cecilia não teria quem a defendesse. Pela primeira vez na sua vida teve medo; teve medo por sua senhora, e sentio não possuir mil vidas para sacrifica-las todas á sua salvação.
Fugio então com bastante rapidez para não ser visto pelo italiano que subia á arvore: afastou-se delles; chegando á beira do rio, lavou a sua tunica de algodão, que ficára manchada de sangue; não queria que soubessem que estava ferido.
Emquanto se entregava a este trabalho, combinava um plano de acção.
Resolveu não dizer nada a quem quer que fosse, nem mesmo aD.Antonio de Mariz: duas razões o levavão a proceder assim; a primeira era o receio de não ser acreditado, pois não tinha provas com que podesse justificar a accusação, que elle, indio ia fazer contra homens brancos; a segunda era a confiança que tinha de que elle só bastava para desfazer todas as tramas dos aventureiros, e lutar contra o italiano.
Assentado este primeiro ponto, passou á execução do plano; esta reduzia-se para elle em uma punição; aquelles tres homens querião matar, portanto devião morrer, mas devião morrer ao mesmo tempo, do mesmo golpe. Pery receava que, combinados como estavão, se um escapasse vendo succumhir seus companheiros, se deixaria levar pelo desespero e anticiparia a realisação do crime antes que elle o podesse prevenir.
A sua intelligencia sem cultura, mas brilhante como o sol de nossa terra, vigorosa como a vegetação deste solo, guiava-o nesse raciocinio com uma logica e uma prudencia, dignas do homem civilisado; previa todas as hypotheses, combinava todas as probabilidades, e preparava-se para realisar o seu plano com a certeza e a energia de acção que ninguem possuia em grão tão elevado.
Assim dirigindo-se para a casa onde o chamava um outro dever, o de avisar aD.Antonio da eventualidade de um ataque dos Aymorés, elle tinha passado junto de Bento Simões e Ruy Soeiro, e guiado pelos olhares destes viu ao longe Loredano no momento em que apontava sobre o cavalheiro.
Correr, cahir sobre o italiano, desviar a pontaria, e dobra-lo sobre os joelhos, foi um movimento tão rapido que os dous aventureiros apenas o virão passar, virão ao mesmo tempo o seu companheiro subjugado.
A realisação do projecto de Pery apresentava-se naturalmente, sem ser procurada. Tinha o italiano na sua mão; depois delle caminhava aos dous aventureiros, para os quaes bastava a sua faca; e quando tudo estivesse consumado iria ter comD.Antonio de Mariz e lhe diria:
—Esses tres homens vos trahião, matei-os; se fiz mal, puni-me.
A intervenção de Alvaro, cuja generosidade salvou a vida de Loredano, transtornou completamente esse plano; ignorando o motivo por que Pery ameaçava o aventureiro, julgando que era unicamente para puni-lo da tentativa que acabava de commetter perfidamente contra elle, o cavalheiro a quem repugnava tirar a vida a um homem sem necessidade, satisfez-se com o juramento, e a certeza de que deixaria a casa.
Emquanto isto se dava, Pery reflectia na possibilidade de fazer as cousas voltarem á mesma posição; ruas conheceu que não o conseguiria.
Alvaro tinha recebido deD.Antonio de Mariz todos os principios daquella antiga lealdade cavalheiresca do seculo XV, os quaes o velho fidalgo conservava como o melhor legado de seus avós; o moço moldava todas as suas acções, todas as suas idéas, por aquelle typo dos barões portuguezes que havião combatido em Aljubarrota ao lado do Mestre de Aviz, o rei cavalheiro.
Pery conhecia o caracter do moço; e sabia que depois de ter dado a vida a Loredano, embora o desprezasse, não consentiria que em presença delle lhe tocassem n'um cabello; e se preciso fosse tiraria a sua espada para defender este homem, que acabava de tentar contra sua existencia.
E o indio respeitava a Alvaro, não por sua causa, mas por Cecilia a quem elle amava; qualquer desgraça que succedesse ao cavalheiro tornaria a senhora triste; isto bastava para que a pessoa do moço fosse sagrada, como tudo o que pertencia á menina, ou que era necessario ao seu descanço, ao seu socego e felicidade.
O resultado desta reflexão foi Pery metter a sua faca á cinta; e sem importar-se mais com o italiano, acompanhar o cavalheiro.
Ambos seguirão em direcção da casa, caminhando ao longo da margem do rio.
—Obrigado ainda uma vez, Pery; não pela vida que me salvaste, mas pela estima que me tens.
E o moço apertou a mão do selvagem:
—Não agradece; Pery nada te fez; quem te salvou foi a senhora.
Alvaro sorrio-se da franqueza do indio, e córou da allusão que havia em suas palavras.
—Se tu morresses, a senhora havia de chorar; e Pery quer vêr a senhora contente.
—Tu te enganas; Cecilia é boa, e sentiria da mesma maneira o mal que succedesse a mim, como a ti, ou a qualquer dos que está acostumada a ver.
—Pery sabe porque falla assim; tem olhos que vêem, e ouvidos que ouvem; tu és para a senhora o sol que faz o jambo corado, e o sereno que abre a flôr da noite.
—Pery!... exclamou Alvaro.
—Não te zangues, disse o indio com doçura; Pery te ama, porque tu fazes a senhora sorrir. A canna quando está á beira d'agua, fica verde e alegre; quando o vento passa, as folhas dizem Ce-Cy. Tu és o rio; Pery é o vento que passa docemente, para não abafar o murmurio da corrente; é o vento que curva as folhas até tocarem n'agua.
Alvaro fitou no indio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem cultura aprendêra a poesia simples, mas graciosa; onde bebêra a delicadeza de sensibilidade que difficilmente se encontra n'um coração gasto pelo attrito da sociedade?
A scena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza brazileira, tão rica e brilhante, era a imagem que reproduzia aquelle espirito virgem, como o espelho das aguas reflecte o azul do céo.
Quem conhece a vegetação de nossa terra desde a parasita mimosa até o cedro gigante; quem no reino animal desce do tigre e do tapir, symbolos da ferocidade e da força, até o lindo beija-flôr e o insecto dourado; quem olha este céo que passa do mais puro anil aos reflexos bronzeados que annuncião as grandes borrascas; quem viu sob a verde pellucia da relva esmaltada de flôres que cobre as nossas varzeas deslisar mil reptis que levão a morte n'um atomo de veneno, comprehende o que Alvaro sentio.
Com effeito, o que exprime essa cadêa que liga os dous extremos de tudo o que constitue a vida? Que quer dizer a força no apice do poder alliada á fraqueza em todo o seu mimo; a belleza e a graça succedendo aos dramas terriveis e aos monstros repulsivos; a morte horrivel a par da vida brilhante?
Não é isso a poesia? O homem que nasceu, embalou-se e cresceu nesse berço perfumado; no meio de scenas tão diversas, entre o eterno contraste do sorriso e da lagrima, da flôr e do espinho, do mel e do veneno, não é um poeta?
Poeta primitivo, canta a natureza na mesma linguagem da natureza; ignorante do que se passa nelle, vai procurar nas imagens que tem diante dos olhos, a expressão do sentimento vago e confuso que lhe agita a alma.
Sua palavra é a que Deus escreveu com as letras que formão o livro da creação; é a flôr, o céo, a luz, a côr, o ar, o sol; sublimes cousas que a natureza fez sorrindo.
A sua phrase corre como o regato que serpeja, ou salta como o rio que se despenha da cascata; ás vezes se eleva ao cimo da montanha, outras desce e rasteja como o insecto, subtil, delicada e mimosa.
Eis o que a decoração da scena magestosa, no meio da qual se achava á beira doPaquequer, disse a Alvaro; mas rapidamente, por uma dessas impressões que se projectão no espirito como a luz no espaço.
O moço recebeu a confissão ingenua do indio sem o minimo sentimento hostil; ao contrario apreciava a dedicação que o selvagem tinha por Cecilia, e ia ao ponto de amar a tudo quanto sua senhora estimava.
Assim, disse Alvaro sorrindo, tu só me amas porque pensas que Cecilia me quer? disse o moço.
—Pery só ama o que a senhora ama: porque só ama a senhora neste mundo: por ella deixou sua mãi, seus irmãos e a terra onde nasceu.
—Mas se Cecilia não me quizesse como julgas?
—Pery faria o mesmo que o dia com a noite; passaria sem te vêr.
—E se eu não amasse a Cecilia?
—Impossivel!
—Quem sabe? disse o moço sorrindo.
—Se a senhora ficasse triste por ti!... exclamou o indio, cuja pupilla negra irradiou.
—Sim? o que farias?
—Pery te mataria.
A firmeza com que erão ditas estas palavras não deixava a menor duvida sobre a sua realidade; entretanto Alvaro apertou a mão do indio com effusão.
Pery temeu offender o moço; para desculpar a sua franqueza, disse-lhe com um tom commovido:
—Escuta. Pery é filho do sol; e renegava o sol se elle queimasse a pelle alva de Cecy. Pery ama o vento; e odiava o vento se elle arrancasse um cabello de ouro de Cecy. Pery gosta de vêr o céo; e não levantava a vista, se elle fosse mais azul do que os olhos de Cecy.
—Comprehendo-te, amigo; votaste a tua vida inteira á felicidade dessa menina. Não receies que te offenda nunca na pessoa della. Sabes se eu a amo; e não te zangues, Pery, se disser que a tua dedicação não é maior do que a minha. Antes que me matasses, creio que me mataria a mim mesmo se tivera a desgraça de fazer Cecilia infeliz.
—Tu és bom; Pery quer que a senhora te ame.
O indio contou então a Alvaro o que se tinha passado na noite antecedente; o moço empallideceu de colera, e quiz voltar em busca do italiano; desta vez não lhe perdoára.
—Deixa! disse o indio; Cecy teria medo; Pery vai endireitar isto.
Os dous tinhão chegado perto da casa e ião entrar a cerca do valle, quando Pery segurou o braço de Alvaro:
—O inimigo da casa quer fazer mal; defende a senhora; se Pery morrer, manda dizer a sua mãi, e verás todos os guerreiros da tribu chegarem para combaterem comtigo, e salvarem Cecy.
—Mas quem é o inimigo da casa?
—Queres saber?
—De certo; como hei de combate-los?
—Tu saberás.
Alvaro quiz insistir; mas o indio não lhe deo tempo; metteu-se de novo pelo matto; emquanto o moço subia a escada, elle fazia uma volta ao redor da casa, e ganhava o lado para onde dava o quarto de Cecilia.
Já tinha vistado ao longe a janella, quando debaixo de uma ramagem surgio a figura magra e esguia de Ayres Gomes, coberto de ortigas e hervas de passarinho, e deitando o bofes pela boca.
O digno escudeiro, tendo encontrado em cima de sua cabeça um maldito galho desageitado, foi de narizes ao chão, estendeu-se maciamente sobre a relva.
Apezar disto ergueu-se um pouco sobre os cotovellos, e gritou com toda a força dos pulmões:
—Olá! mestre bugre!... Dom Cacique!... Caçador de onça viva!... Ouve cá!
Pery não se voltou.