XINO BANHO

XINO BANHO

Descendo a escada de pedra da esplanada Cecilia perguntava á sua prima:

—Diz-me uma cousa, Isabel; porque é que tu não fallas aoSr.Alvaro?

Isabel estremeceu.

—Tenho reparado, continuou a menina, que nem mesmo respondes á cortezia que elle nos faz.

—Que elle te faz, Cecilia, replicou a moça docemente.

—Confessa que não gostas delle. Tens-lhe antipathia?

A moça calou-se.

—Não fallas?... olha que então vou pensar outra cousa! continou Cecilia galanteando.

Isabel empallideceu; e levando a mão ao coração para comprimir as pulsações violentas, fez um esforço supremo e arrancou algumas palavras que parecião queimar-lhe os labios:

—Bem sabes que o aborreço!...

Cecilia não viu a alteração da physionomia de sua prima, porque tendo chegado á baixa nesse momento, esquecera a a conversa, e começára a brincar com uma alegria infantil sobre a relva.

Mas ainda que visse a pertubação da moça, e o choque que ella tinha sentido, de certo attribuira isto a qualquer outro motivo, menos ao verdadeiro.

A affeição que tinha a Alvaro lhe parecia tão innocente, tão natural, que nunca se lembrára que devia um dia passar daquillo que era; isto é, de um prazer que fazia sorrir, e de um enleio que fazia córar.

Esse amor pois, era amor, não podia conhecer o que se passavava n'alma de Isabel; não podia comprehender a sublime mentira que os labios da moça acabavão de proferir.

Quando a Isabel, temendo trahir o seu segredo, tinha arrancado do seu coração cheio de amor, essa palavra de odio, que para ella era quasi uma blasphemia.

Mas antes isso do que revelar o que se passava em sua alma; esse mysterio, essa ignorancia que envolvia o seu amor, e o escondia a todos os olhos, tinha para ella uma voluptuosidade inexprimivel.

Podia assim fitar horas e horas o moço, sem que elle o percebesse, sem o incommodar talvez com a prece muda do olhar supplicante; podia rever-se em sua alma sem que um sorriso de desdem ou de zombaria a fizesse soffrer.

O sol vinha nascendo.

O seu primeiro raio espreguiçava-se ainda pelo céo anilado, e ia beijar as brancas nuvemzinhas que corrião ao seu encontro.

Apenas a luz branda e suave da manhã esclarecia a terra e sorprehendia as sombras indolentes que dormião sob as copas das arvores.

Era a hora em que ocactus, a flôr da noite, fechava o seu calice cheio das gotas do orvalho com que distilla o seu perfume, temendo que o sol crestasse a alvura diaphana de suas petalas.

Cecilia com a sua graça de menina travessa corria sobre a relva ainda humida colhendo umagraciolaazul que se embalançava sobre a haste, ou ummalvaliscoque abria os lindos botões escarlates.

Tudo para ella tinha um encanto inexprimivel; as lagrimas da noite que tremião como brilhantes das folhas das palmeiras; a borboleta que ainda com as azas entorpecidas esperava o calor do sol para reanimar-se; aviuvinhaque escondida na ramagem avisava o companheiro que o dia vinha raiando; tudo lhe fazia soltar um grito de sorpreza e de prazer.

Emquanto a menina brincava assim pela varzea, Pery, que a seguia de longe parou de repente tomado por uma idéa que lhe fez correr pelo corpo um calafrio: lembrára-se do tigre.

De um pulo sumio-se n'uma grande moita de arvoredo que se elevava á alguns passos; ouvio-se um rugido abafado, um grande farfalhar de folhas que se espedaçavão, e o indio appareceu.

Cecilia tinha-se voltado um pouco tremula:

—Que é isto, Pery?

—Nada, senhora.

—É assim que prometteste estar quieto?

—Cecy não se ha de zangar mais.

—Que queres tu dizer?

—Pery sabe! respondeu o indio sorrindo.

Na vespera tinha provocado uma luta espantosa para domar e vencer um animal feroz, e deita-lo submisso e inoffensivo aos pés da moça, julgando que isso lhe causava um prazer.

Agora estremecendo com o susto que sua senhora podia soffrer, destruira, em um instante essa acção de heroismo, sem proferir uma palavra que a revelasse. Bastava que elle soubesse o que tinha feito, e o que todos devião ignorar, bastava que sua alma sentisse o orgulho da nobre dedicação que se expandia no sorriso de seus labios.

As moças que esta vão bem longe de saber até que ponto tinha chegado a loucura de Pery, e que não julgavão possivel que um homem podesse fazer o que elle tinha feito, não comprehendêrão nem a phrase, nem o sorriso.

Cecilia tinha chegado a uma latada dejasmineirosque havia á borda d'agua, e que lhe servia de casa de banho; era um dos trabalhos do indio, que o havia arranjado com aquelle cuidado e esmero que punha em satisfazer as vontades da menina.

Pery já tinha ganho a margem do rio, e estava longe; Isabel sentou-se na relva.

Então afastando as ramas dos jasmineiros que occultavão inteiramente a entrada, Cecilia penetrou naquelle pequeno pavilhão de verdura, e examinou se as folhas estavão bem embastidas, se não havia alguma fresta por onde o olhar do dia penetrasse.

A innocente menina tinha vergonha até do raio de luz que podia vir espiar os thesouros de belleza que occultava a cambraia de suas roupagens.

Assim, foi depois desse exame escrupuloso, e ainda córando de si mesma, que começou o seu vestuario de banho. Mas quando o corpinho da anagoa cahindo descobrio suas alvas espaduas e seu collo puro e suave, a menina quasi morreu de pejo e de susto. Um passarinho escondido entre as folhas, um garrulo travesso e malicioso, gritára distinctamente:—Bem te vi!

Cecilia rio-se do susto que tivera, e acabou o seu vestuario de banho que a cobria toda, deixando apenas nús os braços e o pézinho de menina.

Atirou-se á agua como um passarinho: Isabel que a acompanhara por com prazer ficou sentada á beira do rio.

Como Cecilia estava bella nadando sobre as aguas limpidas da corrente, com seus cabellos louros soltos, e os braços alvos que se curvavão graciosamente para imprimir ao corpo um doce movimento! Parecia uma dessas garças brancas, oucolhereirasde rosea côr que deslisão mansamente á flôr do lago, nas tardes serenas, espelhando-se no crystal das aguas.

Ás vezes a linda menina se deitava de bruços e sorrindo ao céo azul ia levada pela corrente; ou perseguia os jassanans e marrecas que fugião diante della. Outras vezes Pery que estava distante do lado superior do rio, colhia alguma flôr parasita que deitava sobre um barquinho feito de uma casca de páo e que vinha trazido pela correnteza.

A menina perseguia o barquinho á nado, apanhava a flôr, e ia offerece-la na pontinha dos dedos á Isabel, que desfolhando-a tristemente murmurava as palavras cabalisticas com que o coração procura illudir-se.

Em vez porém de consultar o presente, perguntava o futuro, porque sabia que o presente não tinha esperanças para ella, e se a flôr dissesse o contrario mentia.

Havia meia hora que Cecilia estava no banho, quando Pery, que collocado sobre uma arvore não deixava de lançar o olhar ao redor de si vio na margem opposta as guaximas se agitarem.

A ondulação produzida nos arbustos foi-se estendendo como um caracol, e aproximando-se do lugar onde a moça se banhava, até que parou detraz de umas grandes pedras que havia á beira do rio.

Do primeiro lanço d'olhos o indio conheceu que o largo sulco traçado entre as hastes verdes do arvoredo não podia deixar de ser produzido por um animal de grande corpulencia.

Seguio rapidamente pelos ramos das arvores, atravessou o rio sobre essa ponte aerea, e conseguio escondido pelas folhas collocar-se perpendicularmente ao lugar onde ainda se fazia sentir a oscillação dos arbustos.

Viu então sentados entre as guaximas dous selvagens, mal cobertos por uma tanga de pennas amarellas, que com o arco esticado e a flexa a partir, esperavão que Cecilia passasse diante da fresta que formavão as pedras para despedirem o tiro.

E a menina descuidada e tranquilla já tinha estendido o braço, e ferindo a agua passava sorrindo por diante da morte que a ameaçava.

Se se tratasse de sua vida, Pery teria sangue frio; mas Cecilia corria um perigo, e portanto não reflectio, não calculou.

Deixou-se cahir como uma pedra do alto da arvore: as duas flexas que partião, uma cravou-se-lhe no hombro, a outra roçando-lhe pelos cabellos mudou de direcção.

Ergueu-se então, e sem mesmo dar-se ao trabalho de arrancar a seta, de um só movimento tomou á cinta as pistolas que tinha recebido de sua senhora, e despedaçou a cabeça dos selvagens.

Ouvirão-se dous gritos de susto que partião da margem opposta, e quasi logo a voz tremula e colerica de Cecilia que chamava:

—Pery!...

Elle beijou as pistolas ainda fumegantes e ia responder, quando á dous passos surgio de entre a touça o vulto de uma india que sumio-se ligeiramente no matto.

Enfiou um olhar pela fresta, e julgando Cecilia já fora do banho e em lugar seguro, lançou-se atraz da india que já lhe levava um grande avanço.

Uma larga fita vermelha que escapava da ferida tingia a sua alva tunica de algodão; Pery sentio-se vacillar de repente e apertou com desespero o coração como para reter o sangue que espadanava.

Foi um momento de luta terrivel entre o espirito e a materia, entre a força da vontade e o poder da natureza.

O corpo desfallecia, os joelhos se dobravão, e Pery erguendo os braços como para agarrar-se á cupola das arvores, estorcendo os musculos para manter-se em pé, lutava debalde com a fraqueza que se apoderava delle.

Debateu-se um momento contra a poderosa gravitação que o vergava para a terra; mas era homem, e tinha de ceder á lei da creação. Entretanto succumbindo o valente indio resistia sempre: e vencido parecia querer lutar ainda.

Não cahio, não; quando a força lhe faltou de todo, foi-se lentamente retrahindo e tocou a terra com os joelhos.

Mas então lembrou-se de Cecilia, de sua senhora a quem tinha de vingar, e para quem devia viver afim de salva-la, e de velar sobre ella. Fez um esforço supremo: contrahindo-se conseguio reerguer-se: deo dous passos vacillantes, gyrou no ar e foi bater de encontra a uma arvore com a qual se abraçou convulsivamente.

Era umacabuibade alta grandeza que se elevava pelo cimo da floresta, e de cujo tronco cinzento borbulhava um oleo côr de opala que desfiava em lagrimas.

O suave aroma que rescendia dessas gotas fez o indio abrir os olhos amortecidos, que se illuminárão de uma brilhante irradiação de felicidade. Collou ardentemente os labios no tronco, e sorveu o oleo, que entrou no seu seio como um balsamo poderoso.

Sentio-se renascer.

Estendeu o oleo sobre a ferida, estancou o sangue e respirou.

Estava salvo.


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