IIISORTIDA

IIISORTIDA

O estrondo que se ouvio, fôra causado por um tiro que partio d'entre as arvores.

O velho Aymoré vacillou; seu braço que vibrava o tacape com uma força herculea, cahio inerte; o corpo abateu-se como o ipê da floresta cortado pelo raio.

A morte tinha sido quasi instantanea; apenas um estertor de agonia resoou no seu peito largo e ainda ha pouco vigoroso: cahira já cadaver.

Emquanto os selvagens permanecião estaticos diante do que se passava, Alvaro com a espada na mão e a clavina ainda fumegante precipitava-se no meio do campo. De dous talhos rapidos cortou os laços de Pery, e com as evoluções de sua espada conteve os selvagens, que voltando a si cahião sobre elle bramindo de furor.

Immediatamente ouvio-se uma descarga de arcabuzes; dez homens destemidos tendo á sua frente Ayres Gomes saltárão por sua vez com a arma em punho, e começárão a talhar de alto a baixo a grandes golpes de espada.

Não parecião homens, e sim dez demonios, dez machinas de guerra vomitando a morte de todos os lados; emquanto a sua mão direita imprima á lamina da espada mil voltas, que erão outros tantos golpes terriveis, a esquerda jogava a adaga com destreza e segurança admiravel.

O escudeiro e seus homens tinhão feito um semi-circulo em roda de Alvaro e de Pery, e apresentavão uma barreira de ferro e fogo ás ondas de inimigos que bramião, recuavão, e lançavão-se de novo quebrando-se de encontro a esse dique.

No curto instante que mediou entre a morte do cacique e o ataque dos aventureiros, Pery de braços cruzados olhava impassivel para tudo o que se passava em torno d'elle. Comprehendia então o gesto que sua senhora ha pouco lhe fizera do alto da esplanada, e o raio de esperança e de alegria que elle julgára ver brilhar no seu semblante.

Com effeito no primeiro momento de afflicção Cecilia se lançára para ver o indio, chama-lo ainda, e supplicar-lhe mesmo que não expozesse a sua vida inutilmente.

Não tendo mais visto Pery, a menina sentio um desespero cruel; voltou-se para seu pai, e com as faces orvalhadas de lagrimas, com o seio anhelante, com a voz cheia de angustia, pedio-lhe que salvasse Pery.

D. Antonio de Mariz, antes que sua filha lhe fizesse esse pedido, já tinha-se lembrado de chamar os seus companheiros fieis, e seguido por elles correr contra o inimigo, e livrar o indio da morte certa e inevitavel que procurava.

Mas o fidalgo era um homem de uma lealdade e de uma generosidade a toda a prova; sabia que aquella empreza era de um risco immenso, e não queria obrigar os seus companheiros a partilhar um sacrificio que elle só faria de bom grado á amizade que votava a Pery.

Os aventureiros que se havião dedicado com tanta constancia á salvação de sua familia, não tinhão as mesmas razões para se arriscarem por causa de um homem que não pertencia á sua religião, e que não tinha com elles o menor laço de communidade.

D. Antonio de Mariz perplexo, irresoluto entre a amizade e o seu escrupulo generoso, não soube o que responder a sua filha; procurou consola-la, afflicto por não poder satisfazer immediatamente a sua vontade.

Alvaro, que contemplava esta scena pungente a alguma distancia, no meio dos aventureiros fieis e dedicados que tinha sob suas ordens, tomou repentinamente uma resolução.

Seu coração partia-se vendo Cecilia soffrer; e embora amasse Isabel, a sua alma nobre sentia ainda pela mulher a quem votára os seus primeiros sonhos, uma affeição pura, respeitosa, uma especie de culto.

Era uma cousa singular na vida dessa menina; todas as paixões, todos os sentimentos que a envolvião soffrião a influencia de sua innocencia, e ião a pouco e pouco depurando-se e tomando um quer que seja de ideal, um cunho de adoração.

O mesmo amor ardente e sensual de Loredano, quando se tinha visto em face della, adormecida na sua casta isenção, emmudecêra e hesitara um momento se devia manchar a santidade do seu pudor.

Alvaro trocou com os aventureiros algumas palavras; e dirigio-se para o grupo que formavão D. Antonio de Mariz e sua filha.

—Consolai-vos, D. Cecilia; disse o moço, e esperai!

A menina fitou nelle os seus olhos azues cheios de reconhecimento; aquella palavra era ao menos uma esperança.

—Que contais fazer! perguntou D. Antonio ao cavalheiro.

—Tirar Pery das mãos do inimigo!

—Vós!... exclamou Cecilia.

—Sim, D. Cecilia, disse o moço; aquelles homens dedicados vendo a vossa afflicção sentirão-se commovidos e desejão poupar-vos uma justa mágoa.

Alvaro attribuia a generosa iniciativa aos seus companheiros, quando elles não tinhão feito senão aceita-la com enthusiasmo.

Quanto a D. Antonio de Mariz, sentira uma intima satisfação ouvindo as palavras do moço: seus escrupulos cessavão desde que seus homens espontaneamente se offerecião para realisar aquella difficil empreza.

—Cedereis-me uma parte dos nossos homens; quatro ou cinco me bastão; continuou o moço dirigindo-se ao fidalgo; ficareis com o resto para defender-vos no caso de algum ataque imprevisto.

—Não; respondeu D. Antonio; levai-os todos, já que se prestão a essa tão nobre acção, que não me animava a exigir de sua coragem. Para defender a minha filha, basto eu, apezar de velho.

—Desculpai-me, Sr. D. Antonio, replicou Alvaro; mas é uma imprudencia a que me opponho; pensai que a dous passos de vós existem homens perdidos, que nada respeitão, e que espião o momento de fazer-vos mal.

—Sabeis se prezo e estimo esse thesouro cuja guarda me foi confiada por Deus. Julgais que haja neste mundo alguma cousa que me faça expo-lo a um novo perigo? Acreditai-me: D. Antonio de Mariz, só, defenderá sua familia, emquanto vós salvareis um bom e nobre amigo.

—Confiais demasiado em vossas forças!...

—Confio em Deus, e no poder que elle collocou em minha mão: poder terrivel, quando chegar o momento fulminará todos os nossos inimigos com a rapidez do raio.

A voz do velho fidalgo pronunciando estas palavras tinha-se revestido de uma solemnidade imponente; o seu rosto illuminou-se com uma expressão de heroismo e de magestade que realçou a belleza severa do seu busto veneravel.

Alvaro olhou com uma admiração respeitosa o velho cavalheiro emquanto Cecilia, pallida e palpitante das emoções que sentira, esperava com anciedade a decisão que ião tomar.

O moço não insistio e sujeitou-se á vontade de D. Antonio de Mariz;

—Obedeço-vos; iremos todos e voltaremos mais promptos.

O fidalgo apertou-lhe a mão:

—Salvai-o!

—Oh! sim, exclamou Cecilia, salvai-o, Sr. Alvaro.

—Juro-vos, D. Cecilia, que só a vontade do céo fará que eu não cumpra a vossa ordem.

A menina não achou uma palavra para agradecer essa generosa promessa; toda a sua alma partio-se n'um sorriso divino.

Alvaro inclinou-se diante della; foi juntar-se aos aventureiros, e deo-lhes ordem de se prepararem para partir. Quando o moço entrou na sala então deserta para tomar a suas armas, Isabel, que já sabia do seu projecto, correu a elle pallida e assustada.

—Ides bater-vos? disse ella coma voz tremula.

Em que isto vos admira? Não nos batemos todos os dias com o inimigo!

—De longe!... Defendidos pela posição! Mas agora é differente!

—Não vos assusteis. Isabel! Daqui a uma hora estarei de volta.

O moço passou a clavina á tiracollo e quiz sahir.

Isabel tomou-lhe as mãos com um movimento arrebatado; seus olhos scintillavão com um fogo estranho; suas faces estavão incendiadas de vivo rubor.

O moço procurou tirar as mãos daquella pressão ardente e apaixonada:

—Isabel, disse elle com uma doce exprobação; quereis que falte á minha palavra, que recue diante de um perigo?

—Não! Nunca eu vos pediria semelhante cousa! Era preciso que não vos conhecesse, e que não... vos amasse!...

—Mas então dexai-me partir.

—Tenho uma graça a supplicar-vos?

—De mim?... Neste momento?

—Sim! Neste momento!... Apezar do que me dizieis ha pouco, apezar do vosso heroismo, sei que caminhais a uma morte certa, inevitavel.

A voz de Isabel tornou-se balbuciante:

—Quem sabe... se nos veremos mais neste mundo?!

—Isabel!... disse o moço querendo fugir para evitar a commoção que se apoderava delle.

—Promettestes fazer-me a graça que vos pedi.

—Qual?

—Antes de partir, antes de me dizer adeus para sempre...

A moça fitou no cavalheiro um olhar que fascinava.

—Fallai!... fallai!...

—Antes de nos separarmos, eu vos supplico, deixai-me uma lembrança vossa!... Mas uma lembrança que fique dentro de minha alma!

E a menina cahio de joelhos aos pés de Alvaro, occultando seu rosto que o pudor revoltado em luta com a paixão cobria de um brillante carmim.

Alvaro ergueu-a confusa e vergonhosa do que tinha feito, e chegando os seus labios ao ouvido proferio, ou antes murmurou uma phrase.

O semblante de Isabel expandio-se; uma aureola de ventura cingio a sua fronte; seu seio dilatou-se, e respirou com a embriaguez do coração feliz.

—Eu te amo!

Era a phrase que Alvaro deixára cahir na sua alma, e que a enchia toda como um effluvio celeste, como um canto divino que resoava nos seus ouvidos e fazia palpitar todas as suas fibras.

Quando ella sahio desse extasi, o moço tinha sahido da sala, e unia-se aos seus companheiros promptos a marchar.

Foi nessa occasião que Cecilia, chegando imprudentemente á palissada, fez a Pery un aceno que lhe dizia esperasse.

A pequena columna partio commandada por Alvaro e por Ayres Gomes, que depois de tres dias não deixava o seu posto dentro do gabinete do fidalgo.

Quando os bravos combatentes desapparecêrão na floresta, D. Antonio de Mariz recolheu-se com sua familia para a sala, e sentando-se na sua poltrona esperou tranquillamente. Não mostrava o menor temor de ser atacado pelos aventureiros revoltados, que estavão a alguns passos de distancia apenas, e que não deixarião de aproveitar um ensejo tão favoravel.

D. Antonio tinha a este respeito uma completa segurança; tendo fechada as portas e examinado a escorva de suas pistolas, recommendou silencio, afim de que nem um rumor lhe escapasse.

Vigilante e attento, o fidalgo reflectia ao mesmo tempo sobre o facto que se acabava de passar, e que o tinha profundamente impressionado.

Conhecia Pery e não podia comprehender como o indio, sempre tão intelligente e tão perspicaz, se deixára levar por uma louca esperança a ponte de ir elle só atacar os selvagens.

A extrema dedicação do indio por sua senhora, o desespero da posição em que se achavão, podia explicar essa hallucinação, se o fidalgo não soubesse quanto Pery tinha a calma, a força e o sangue-frio que tornão o homem superior a todos os perigos. O resultado de suas reflexões foi que havia no procedimento de Pery alguma cousa que não estava clara e que devia explicar-se mais tarde.

Ao passo que elle se entregava a esses pensamentos, Alvaro tinha feito uma volta, e favorecido pela festa dos selvagens se aproximara sem ser percebido.

Quando avistou Pery a algumas braças de distancia, o velho cacique levantava a tagapema sobre a sua cabeça.

O moço levou a clavina ao rosto; e a bala sibilando foi atravessar o craneo do selvagem.


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