IIPREPARATIVOS

IIPREPARATIVOS

Ao tempo que D. Antonio de Mariz e seu filho conversavão no gabinete, Pery examinava as suas armas, carregava as pistolas que sua senhora lhe havia dado na vespera, e sahia da cabana.

A physionomia do selvagem tinha uma expressão de energia e ardimento, que revelava resolução violenta, talvez desesperada.

O que ia fazer, nem elle mesmo sabia. Certo de que o italiano e seus companheiros se reunirião naquella manhã, contava antes que a reunião se effectuasse ter mudado inteiramente a face das cousas.

Só tinha uma vida como dissera; mas essa com a sua agilidade e a sua força e coragem valia por muitas; tranquillo sobre o futuro pela promessa de Alvaro, não lhe importava o numero dos inimigos: podia morrer mas esperava deixar pouco ou talvez nada que fazer ao cavalheiro.

Sahindo de sua cabana, Pery entrou no jardim: Cecilia estava sentada n'um tapete de pelles sobre a relva, e amimava ao seio a sua rolinha predilecta, offerecendo os labios de carmim ás caricias que a ave lhe fazia com o bico delicado.

A menina estava pensativa; doce melancolia desvanecia a vivacidade natural de seu semblante.

—Tu estás agastada com Pery, senhora?

—Não, respondeu a menina fitando nelle os grandes olhos azues. Não quizeste fazer o que eu pedi; tua senhora ficou triste.

Ella dizia a verdade com a ingénua franqueza da innocencia. Na vespera, quando se tinha recolhido enfadada pela recusa de Pery, ficara contrariada.

Educada no fervor religioso de sua mãi, embora sem os prejuizos que a razão de D. Antonio corrigira no espirito de sua filha, Cecilia tinha a fé christã em toda a pureza e santidade. Por isso se affligia com a idéa de que Pery, a quem votava uma amizade profunda, não salvasse a sua alma, e não conhecesse o Deus bom e compassivo a quem ella dirigia suas preces.

Conhecia que a razão por que sua mãi e os outros desprezavão o indio era o seu gentilismo; e a menina no seu reconhecimento queria elevar o amigo e torna-lo digno da estima de todos.

Eis a razão por que ficara triste; era gratidão por Pery, que defendera sua vida de tantos perigos, e a quem ella queria retribuir salvando a sua alma.

Nesta disposição de espirito, seus olhos cahirão sobre a guitarra hespanhola que estava em cima da commoda e veio-lhe vontade de cantar. É cousa singular como a melancolia inspira! Seja por uma necessidade de expansão, seja porque a musica e a poesia suavisem a dôr, toda a creatura triste acha no canto um supremo consolo.

A menina tirou ligeiros preludios do instrumento emquanto repassava na memoria as letras de alguns soláos e cantigas que sua mãi lhe havia ensinado. A que lhe acudio mais naturalmente foi a chacara que ouvimos; havia nessa composição uns longes, um quer que seja que ella não sabia explicar, mas ia com seus pensamentos.

Quando acabou de cantar levantou-se, apanhou a flôr de Pery que tinha atirado ao chão, deitou-a nos cabellos, e fazendo a sua oração da noite, adormeceu tranquillamente. O ultimo pensamento que roçou a sua fronte alva foi um voto de gratidão pelo amigo que lhe salvára a vida naquella manhã. Depois um sorriso adejou sobre seu rosto gracioso, como se a alma durante o somno dos olhos viesse brincar nos labios entreabertos.

O indio, ouvindo as palavras que acabava de proferir Cecilia, sentio que pela primeira vez tinha causado uma mágoa real á sua senhora.

—Tu não entendestes Pery, senhora; Pery te pedio que o deixasses na vida em que nasceu, porque precisa desta vida para servir-te.

—Como?... Não te entendo!

—Pery, selvagem, é o primeiro dos seus; só tem uma lei, uma religião, é sua senhora; Pery, christão, será o ultimo dos teus; será um escravo, e não poderá defender-te.

—Um escravo!... Não! serás um amigo. Eu te juro! exclamou a menina com vivacidade.

O indio sorrio:

—Se Pery fosse christão, e um homem quizesse te offender, elle não poderia mata-lo, porque o teu Deus manda que um homem não mate outro. Pery selvagem não respeita ninguem; quem offende sua senhora é seu inimigo, e morre!

Cecilia, pallida de emoção, olhou o indio, admirada não tanto da sublime dedicação, como do raciocinio; ella ignorava a conversa que o indio tivera na vespera com o cavalheiro.

—Pery te desobedeceu por ti sómente; quando já não correres perigo, elle virá ajoelhar a teus pés, e beijar a cruz que tu lhe déste. Não fique zangada!

—Meu Deus!... murmurou Cecilia pondo os olhos no céo. É possivel que uma dedicação tamanha não seja inspirada por vossa santa religião!...

A alegria serena e doce de sua alma irradiava na physionomia encantadora:

—Eu sabia que tu não me negarias o que te pedi; assim não exijo mais; espero. Lembra-te sómente que no dia em que tu fôres christão, tua senhora te estimará ainda mais.

—Não ficas triste?

—Não; agora estou satisfeita, contente, muito contente!

—Pery quer pedir-te uma cousa.

—Dize, o que é?

—Pery quer que tu risques um papel para elle.

—Riscar um papel?...

—Como este que teu pai deo hoje a Pery.

—Ah! queres que eu escreva?

—Sim.

—O que?

—Pery vai dizer.

—Espera.

Ligeira e graciosa, a menina correu á banquinha, e tomando uma folha de papel e uma pena, fez signal a Pery que se aproximasse.

Não devia ella satisfazer os desejos do indio, como este satisfazia ás suas menores fantasias?

—Vamos: falla, que eu escrevo.

—Pery a Alvaro, disse o indio.

—É uma carta ao Sr. Alvaro? perguntou a menina corando.

—Sim: é para elle.

—Que vais tu dizer-lhe?

—Escreve.

A menina traçou a primeira linha, e depois, por pedido de Pery, o nome de Loredano e dos seus dous complices.

—Agora, disse o indio, fecha.

Cecilia sellou a carta.

—Entrega á tarde; antes não.

—Mas que quer isto dizer? perguntou Cecilia sem comprehender.

—Elle te dirá.

—Não que eu...

A menina balbuciou corando estas palavras: ia dizer que não fallaria ao cavalheiro e arrependeu-se; não queria revelar a Pery o que se tinha passado. Sabia que se o indio suspeitasse a scena da vespera, odiaria Isabel e Alvaro, só por lhe terem causado um pezar involuntario.

Emquanto Cecilia confusa procurava disfarçar o enleio, Pery fitava nella o seu olhar brilhante; mal pensava a menina que aquelle olhar era o adeos extremo que o indio lhe dizia.

Mas para isto fora preciso que adivinhasse o plano desesperado que elle havia concebido de exterminar naquelle dia todos os inimigos da casa.

D. Diogo entrou neste momento no quarto de sua irmã: vinha despedir-se della.

Quanto a Pery, deixando Cecilia dirigio-se á escada, e achou as mesmas vigias, que depois embargárão a passagem de Ruy Soeiro.

—Não se passa, disserão os aventureiros cruzando as espadas.

O indio levantou os hombros desdenhosamente; e antes que as sentinellas voltassem a si da sorpreza, tinha mergulhado sob as espadas, e descido a escada. Então ganhou a matta, examinou de novo as suas armas e esperou; já estava cansado quando viu passar a pequena calvagata.

Pery não comprehendeu o que succedia; mas conheceu que o seu plano tinha abortado.

Foi ter com Alvaro.

O cavalheiro explicou-lhe como se aproveitára da ida de D. Diogo ao Rio de Janeiro para expulsar o italiano sem rumor e sem escandalo. Então o indio por sua vez contou ao moço o que tinha ouvido na touça de cardos; o projecto que formára de matar os tres aventureiros naquelle manhã; e finalmente a carta que lhe escrevêra por intermedio de Cecilia, para, no caso de succumbir elle, saber o cavalheiro quem erão os inimigos.

Alvaro duvidava ainda acreditar em tanta perfidia do italiano.

—Agora, concluio Pery, é preciso que os dous tambem saião; se ficarem, o outro póde voltar.

—Não se animará! disse o cavalheiro.

—Pery não se engana! Manda sahir os dous.

—Fica descansado. Fallarei com D. Antonio de Mariz.

O resto do dia passou tranquillamente; mas a tristeza tinha entrado nesta casa ainda na vespera tão alegre e feliz; a partida de D. Diogo, o temor vago que produz o perigo quando se aproxima, e o receio de um ataque dos selvagens, preoccupavão os moradores doPaquequer.

Os aventureiros dirigidos por D. Antonio, executavão trabalhos de defesa tornando ainda mais inaccessivel o rochedo em que estava situada a casa.

Uns construião palissadas em roda da esplanada; outros arrastavão para a frente da casa uma colubrina que o fidalgo por excesso de cautela mandára vir de S. Sebastião havia dous annos. Toda a casa emfim apresentava um aspecto martial, que indicava a vespera de um combate; D. Antonio preparava-se para receber dignamente o inimigo.

Apenas em toda esta casa uma pessoa se conservava alheia ao que se passava; era Isabel, que só pensava no seu amor.

Depois de sua confissão, arrancada violentamente ao seu coração por uma força irresistivel, por um impulso que ella não sabia explicar, a pobre menina quando se vira só, no seu quarto, á noite, quasi morreu de vergonha.

Lembrava-se de suas palavras, e perguntava a si mesma como tivera a coragem de dizer aquillo, que antes nem mesmo os seus olhos se animavão a exprimir silenciosamente. Parecia-lhe que era impossivel tornar a ver Alvaro sem que cada um dos olhares do moço queimasse suas faces e a obrigasse a esconder o rosto de pejo.

Entretanto nem por isso seu amor era menos ardente; ao contrario agora é que a paixão, por muito tempo reprimida, se exacerbava com as lutas e contrariedades.

As poucas palavras doces que o moço lhe dirigira, a pressão das mãos, e o aperto rapido sobre o coração de Alvaro n'um momento de hallucinação, passavão e repassavão na sua memoria a lodo o momento.

Seu espirito, como uma borboleta em torno da flor, esvoaçava constantemente em torno das reminiscencias ainda vivas, como para libar todo o mel que encerravão aquellas sensações, as primeiras de seu infeliz amor.

Nesse mesmo dia de segunda-feira, á tarde, Alvaro encontrou-se um momento com Isabel na esplanada.

Ambos ficárão mudos, e corárão. Alvaro ia retirar-se.

—Sr. Alvaro... balbuciou a moça tremula.

—Que quereis de mim, D. Isabel? perguntou o moço perturbado.

—Esqueci-me restituir-vos hontem o que não me pertence.

—É ainda este malfadada bracelete?

—Sim, respondeu a moça docemente, é este malfadado bracelete: Cecilia teima que é elle vosso.

—Se meu é, vos peço que o aceiteis.

—Não, Sr. Alvaro, não tenho direito.

—Uma irmã não tem direito de aceitar a prenda que lhe offerece seu irmão?

—Tendes razão, respondeu a moça suspirando, eu o guardarei como lembrança vossa; não será adorno para mim, senão reliquia.

O moço não respondeu; retirou-se para cortar a conversa.

Desde a vespera Alvaro não podia eximir-se á impressão poderosa que causara nelle a paixão de Isabel; era preciso que não fosse homem para não se sentir profundamente commovido pelo amor ardente de uma mulher bella, e pelas palavras de fogo que corrião dos labios de Isabel impregnadas de perfume e sentimento.

Mas a razão direita do cavalheiro recalcava essa impressão no fundo do coração; elle não se pertencia; tinha aceitado o legado de D. Antonio de Mariz e jurado dar a sua mão a Cecilia.

Embora não esperasse mais realisar o seu sonho dourado, entendia que estava rigorosamente obrigado a sujeitar-se á vontade do fidalgo, a proteger sua filha, a dedicar-lhe sua existência. Quando Cecilia o repellisse abertamente, e D. Antonio o desobrigasse de sua promessa, então seu coração seria livre, se não estivesse morto pelo desengano.

O unico facto notavel que se deu nesse dia foi a chegada de seis aventureiros das vizinhanças, que prevenidos por D. Diogo vinhão offerecer seus serviços a D. Antonio.

Chegarão ao lusco-fusco; á frente delles vinha o nosso conhecido mestre Nunes, que um anno antes dera hospitalidade no seu pouso a frei Angelo di Lucca.


Back to IndexNext