IVNA TREVA

IVNA TREVA

Alguns esclarecimentos são necessarios aos acontecimentos que acabavão de passar.

Quando Loredano viu-se obrigado pela ameaça de Alvaro a partir para o Rio de Janeiro, ficou succumbido; mas, depois de alguns momentos, um sorriso diabolico tinha enrugado os seus labios.

Este sorriso era uma idéa infame que luzira no seu espirito como a flamma desses fogos perdidos que brilhão no seio das trevas em noites de grande calma.

O italiano lembrou-se que no momento em que todos o suppunhão em viagem, podia preparar a execução do seu plano que elle realisaria naquella mesma noite.

Na conversa que tivera com Ruy Soeiro transmittio-lhe as suas instrucções, breves, simples e concisas; consistião em livrarem-se dos homens que podião pôr embaraços á sua empreza.

Para isso os seus complices recebêrão ordem de quando se recolhessem para dormir, collocarem-se ao lado de cada um dos homens da banda fieis a D. Antonio de Mariz.

Naquelle tempo e naquelles lugares não era possivel que os aventureiros tivessem cada um o seu cubiculo, poucos gozavão desse privilegio, e assim mesmo erão obrigados a partilhar o seu aposento com um companheiro: os outros dormião na vasta alpendrada que occupava quasi toda essa parte do edificio.

Ruy Soeiro tinha, conforme ás instrucções de Loredano, arranjado as cousas de tal modo que naquelle momento cada um dos aventureiros dedicados a D. Antonio de Mariz tinha a seu lado um homem que parecia adormecido, e que só esperava ouvir pronunciara senha convencionada para enterrar o seu punhal na garganta do seu companheiro.

Ao mesmo tempo havia pelos cantos da casa grandes molhos de palha secca collocados junto das portas ou mettidos pela beirada do telhado, e que só esperavão uma faisca para atear o incendio em todo o edificio.

Ruy Soeiro, com uma sagacidade e uma prudencia dignas de seu chefe, dispuzera tudo isto; parte durante o dia, e parte nas horas mortas da noite em que tudo estava recolhido.

Não se esqueceu da recommendação especial de Loredano, e offereceu-se voluntariamente a Ayres Gomes para fazer a guarda nocturna com um dos seus companheiros, visto recear-se ataque de inimigo; o digno escudeiro, que o conhecia como um dos mais valentes da banda, cahio no laço e aceitou o offerecimento.

Senhor do campo, o aventureiro pôde então acabar livremente os seus preparativos, e para mais segurança arranjou traça de ver-se livre do escudeiro, que podia de um momento para outro vir incommoda-lo.

Ayres Gomes em companhia de seu velho amigo mestre Nunes esvasiava uma botelha de vinho de Valverde que elles bebião lentamente, trago a trago, para assim disfarçarem a módica porção do liquido destinado a humedecer as guelas de dous formidaveis bebedores.

Mestre Nunes applicou voluptuosamente os labios á borda do cangirão, tomou uma vez de vinho, e dando um ligeiro estalinho com a lingua no céo da bocca, repimpou-se na tripeça em que estava sentado, cruzando as mãos sobre o seu ventre proeminente com uma beatitude celeste.

—Ora estou desde que cheguei para perguntar-vos uma cousa, amigo Ayres; e sempre a passar-me.—Não a deixeis passar agora, Nunes. Aqui me tendes para responder-vos.

—Dizei-me cá, quem é um tal que acompanhava D. Diogo, e a quem dais um diabo de nome que não é portuguez?

—Ah! Quereis fallar de Loredano? Um tunante?

—Conheceis este homem, Ayres?

—Por Deus! se elle é dos nossos!

—Quando pergunto se o conheceis, quero dizer se sabeis donde veio, quem era e o que fazia?

—Á fé que não! Appareceu-nos aqui um dia a pedir hospitalidade; e depois como sahisse um homem, ficou em lugar delle.

—E quando isto, se vos lembra?

—Esperai! Estou com os meus cincoenta e nove...

O escudeiro contou pelos dedos consultando o seu calendario, que era a sua idade.

—Foi por este tempo, ha um anno; principios de março.

—Estais bem certo? exclamou mestre Nunes.

—Certissimo: é conta que não engana. Mas que tendes?

Com effeito mestre Nunes se erguêra espantado.

—Nada! Não é possivel!

—Não acreditais?

—É outra cousa, Ayres! É um sacrilegio! uma obra de Satan! uma simonia horrenda!

—Que dizeis, homem, explicai-vos lá de uma vez.

Mestre Nunes conseguio restabelecer-se da sua perturbação, e contou ao escudeiro as suas desconfianças a respeito de Frei Angelo di Lucca e da sua morte, que nunca fôra possivel explicar: notou-lhe a coincidencia do desapparecimento do carmelita com o apparecimento do aventureiro, e o facto de serem da mesma nação.

—Depois, concluio Nunes, aquella voz, aquelle olhar!... Quando o vi hoje estremeci, e recuei espavorido julgando que o frade tinha sahido debaixo da terra.

Ayres Gomes levantou-se furioso, e saltando sobre o seu catre, agarrou o espadão que tinha á cabeceira.

—Que ides fazer? gritou mestre Nunes.

—Mata-lo, e desta vez ás direitas; que não torne. Esqueceis que vai longe?

—É verdade! murmurou o escudeiro rangendo os dentes de raiva.

Ouvio-se um ligeiro rumor na porta; os dous amigos o attribuîrão ao vento e não se voltárão sentados em face um do outro, continuárão em voz baixa a sua conversa interrompida pela brusca revelação de Nunes.

Entretanto fóra passavão-se cousas que devião excitar a attenção do digno escudeiro. O rumor que ouvira fôra produzido pela volta que Ruy dera á chave, fechando a porta.

O aventureiro tinha ouvido todo a conversa; a principio aterrado, cobrou animo, e lembrou-se que em todo o caso era bom estar senhor do segredo do italiano para qualquer emergencia futura. Confiado nessa excellente idéa, Ruy metteu a chave no peito do gibão, e foi reunir-se a seu companheiro que estava de vigia junto da escada.

Esperava por Loredano, que devia entrar na casa alta noite, para dirigir toda essa trama que havia urdido com uma intelligencia superior.

O italiano tinha facilmente illudido a D. Diogo de Mariz; sabia que o ardente cavalheiro ia de rota batida, e que não se demoraria em caminho por motivo algum.

A tres leguas do Paquequer, inventou um pretexto de ter-se quebrado a cilha de sua cavalgadura, e parou para arranja-la; emquanto D. Diogo e seus companheiros pensavão que os seguia de perto, elle tinha voltado sobre os passos, e escondido nas vizinhanças esperava que a noite se adiantasse.

Quando percebeu que tudo estava em silencio aproximou-se; trocou o signal convencionado, que era o canto da coruja; e introduzio-se furtivamente na habitação.

O mais já vimos. Sabendo que tudo estava preparado e prompto ao primeiro signal, Loredano deo começo á execução de seu projecto, e conseguio penetrar no quarto de Cecilia.

Tomar a menina nos braços, rapta-la, atravessar a esplanada, chegar á porta da alpendrada, e pronunciar a senha convencionada, era cousa que elle contava realisar n'um momento.

Quando Cecilia, arrancada de seu leito, lançasse um grito que elle não podesse abafar, isto pouco lhe importava; antes que alguem despertasse teria chegado ao outro lado, e então a uma palavra sua o fogo e o ferro virião em seu soccorro.

Ruy lançaria a chamma á palha preparada para este fim; e a faca de cada um dos seus complices se enterraria na gorja dos homens adormecidos.

Depois no meio desse horror e confusão, os vinte demonios acabarião a sua obra, e fugirião como os máos espiritos das lendas antigas, quando a primeira luz da alvorada terminava osabbatinfernal.

Ião ao Rio de Janeiro; ahi, ligados todos por um mesmo laço do crime, por um mesmo perigo e uma só ambição, Loredano contava ter nelles agentes fieis e dedicados para levar ao cabo a sua empreza.

Emquanto a traição solapava assim o socego, a felicidade, a vida e a honra desta familia, todos dormião tranquillos e descuidados; nem um presentimento os vinha advertir da desgraça que os ameaçava.

Loredano, graças á sua agilidade e á sua força, tinha conseguido chegar até ao leito da menina, sem que o menor rumor trahisse a sua presença, sem que na habitação alguem tivesse podido perceber o que se passava.

Certo pois do bom resultado, o italiano advertido pela innocente avezinha, que não sabia o mal que fazia, cuidou em consummar a sua obra. Abrio a commoda de Cecilia, tirou roupas de sedas e linho e fez de tudo isto um embrulho tão pequeno quanto era possivel; depois envolveu-o em uma das pelles que servião de tapete, e collocou n'uma cadeira, a geito de o poder apanhar com facilidade.

Era cousa original o pensamento deste homem. Ao passo que commettia um crime, tinha a lembrança delicada de querer suavisar a desgraça da menina fazendo que nada lhe faltasse na viagem incommoda que tinha de fazer.

Quando tudo estava preparado abrio a portinha que dava para o jardim, e estudou o caminho que tinha de seguir. Era preciso; porque apenas tomasse Cecilia nos braços devia partir e chegar d'uma só corrida direita, rapida e cega.

A porta ficava n'um canto do aposento, defronte do vão que havia entre o leito e a parede; collocado neste lugar, não tinha senão um movimento a fazer, agarrar a menina e lançar-se fóra do aposento.

Na occasião em que elle se aproximava ouvio-se um gemido, quasi um suspiro, abafado e cheio de angustia.

Os cabellos irriçárão-se sobre a fronte do italiano; gotas de suor frio e gelado sulcárão as suas faces pallidas e contrahidas.

A pouco e pouco foi sahindo do estupor que o paralysára, e volvendo lentamente ao redor de si uns esgares d'olhos allucinados.

Nada! Nem um insecto parecia acordado na solidão profunda da noite em que tudo dormia excepto o crime, o verdadeiro duende da terra, o máo genio das crenças de nossos pais.

Tudo estava em socego; até o vento parecia se ter abrigado no calice das flôres e adormecido neste berço perfumado, como n'um regaço de amante.

O italiano restabeleceu-se do violento abalo que soffrêra, deo um passo, e inclinou-se sobre o leito.

Cecilia sonhava neste momento.

Seu rosto esclareceu-se com uma expressão de alegria angelica; sua mãozinha, que repousava aninhada entre os seios, moveu-se com a indolencia e a molteza do somno, e recahio sobre a face.

A pequena cruz de esmalte que tinha ao collo e que estava agora presa entre os dedos da mão roçou-lhe os labios; e uma musica celeste escapou-se, como se Deus tivesse vibrado uma das cordas de sua harpa àolis.

Foi a principio um sorriso que adejou-lhe nos labios; depois o sorriso colheu as azas e formou um beijo por fim o beijo entreabrio-se como uma flôr e exhalou um suspiro perfumado.

—Pery!

O collo arfou docemente, e a mão descahindo foi de novo aninhar-se entre o talho da sua anagoa de cambraia.

O italiano ergueu-se pallido.

Não se animava a tocar naquelle corpo tão casto, tão puro; não podia fitar aquella physionomia radiante de innocencia e de candura.

Mas o tempo urgia.

Fez um esforço supremo sobre si mesmo; firmou o joelho na bordado leito, fechou os olhos, estendeu as mãos.


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