VIIINOIVA
Uma hora depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, Pery, recostado á janella do quarto que tinha pertencido á sua senhora, olhava com uma grande attenção para uma arvore que se elevava a algumas braças de distancia.
Seu olhar parecia estudar as curvas dos galhos retorcidos, medinho-lhe a distancia, a altura e o tamanho, como se disso dependesse a solução de uma grande difficuldade com que lutava o seu espirito. No momento em que estava de todo entregue a esse exame minucioso, o indio sentio uma mão timida e delicada tocar-lhe de leve no hombro.
Voltou-se; era Isabel que estava junto delle, e que se havia aproximado como uma sombra, sem fazer o menor rumor. Uma pallidez mortal cobria as feições da moça, que apenas sahia do seu desmaio; mas o rosto tinha uma calma ou antes uma immobilidade que assustava.
Voltando a si, Isabel correu um olhar pelo aposento, como para certificar-se de que não era um sonho o que havia passado.
A sala estava deserta; D. Antonio de Mariz tinha sahido para dar as suas ordens; sua mulher, ajoelhada no oratorio sobre um montão de ruinas, rezava ao pé de uma cruz que ficára junto ao altar. No fundo do aposento, sobre o sofá, destacava-se o vulto immovel do cavalheiro, aos pés do qual ardia uma vela de cêra, lançando pallidos clarões.
Cecilia é que estava perto della, e apertava no seio a sua cabeça desfallecida, procurando reanima-la.
Quando o olhar de Isabel cahio sobre o corpo de seu amante, ella ergueu-se como impellida por uma força sobrenatural, atravessou rapidamente a sala, e foi por sua vez ajoelhar-se em face desse leito mortuario. Mas não era para fazer uma prece que ajoelhava, era para embeber-se na contemplação desse rosto livido e gelado, desses labios frios, desses olhos extinctos, que ella amava apezar da morte.
Cecilia respeitou a dôr de sua prima, e por um instincto de delicadeza que só possuem as mulheres, comprehendeu que o amor, mesmo em face de um cadaver, tem o seu pudor e a sua castidade; sahio para deixar que Isabel chorasse livremente.
Passado algum tempo depois da sahida de Cecilia, a moça ergueu-se, percorreu automaticamente a casa, e vendo Pery de longe aproximou-se delle o tocou-lhe no hombro.
O indio e a moça se odiavão desde o primeiro dia em que se tinhão visto; em Isabel era o odio de uma raça que a rebaixava a seus proprios olhos; em Pery era essa repugnancia natural que sente o homem por aquelles em quem reconhece um inimigo.
Por isso Pery, vendo Isabel junto delle, ficou extremamente admirado, sobretudo quando reparou no gesto supplicante que a moça lhe dirigia, como se esperasse delle uma graça.
—Pery!...
O indio sentio-se commovido ao aspecto daquelle soffrimento, e pela primeira vez na sua vida dirigio a palavra a Isabel.
—Precisas de Pery? disse elle.
—Vinha pedir-te um serviço. Não m'o negarás, sim? balbuciou a moça.
—Falla; se fôr cousa que Pery possa fazer, elle não te negará.
—Promettes então? exclamou Isabel, cujos olhos brilhárão com uma expressão de alegria.
—Sim, Pery te promette.
—Vem!
Dizendo essa palavra, a moça fez um gesto ao indio e dirigio-se acompanhada por elle á sala que ainda estava deserta como tinha deixado. Parou junto do sofá, e apontando para o corpo inanimado de seu amante, acenou a Pery que o tomasse nos seus braços.
O indio obedeceu, e acompanhou Isabel até um gabinete retirado a um lado da casa; ahi deitou o seu fardo sobre um leito, cujas cortinas a moça entreabrio, corando como uma noiva.
Corava porque o gabinete onde tinha entrado era o quarto em que habitára e encontrava ainda povoado de todos os sonhos de seu amor; porque o leito, que recebia seu amante, era o seu leito de virgem casta e pura; porque ella era realmente uma noiva do tumulo.
Pery, tendo satisfeito o desejo da moça, retirou-se e voltou ao seu trabalho, que elle proseguia com uma constancia infatigavel.
Apenas ficou só, Isabel sorrio; mas o seu sorriso tinha um quer que seja do extasi da dôr, da voluptuosidade do soffrimento, que faz sorrir na sua ultima hora os martyres e os desgraçados.
Tirou do seio a redoma de vidro onde guardava os cabellos de sua mãi e fitou nella um olhar ardente; mas abanou a cabeça com um gesto de expressão indefinivel. Tinha mudado de resolução; o segredo que encerrava essa joia, o pó subtil que empanava a face interior do crystal, a morte que sua mãi lhe confiára não a satisfazia; era muito rapida, quasi instantanea.
Sahio então furtivamente e acendeu uma vela de cêra, que havia sobre a commoda ao lado de um crucifixo de marfim; depois fechou a porta, cerrou as janellas e interceptou as frestas por onde a luz do dia podia penetrar. O gabinete ficou ás escuras; apenas em torno do cirio que ardia, uma aureola pallida se destacava no meio das trevas e illuminava a imagem de Christo.
A moça ajoelhou e fez uma oração breve; pedia a Deus uma ultima graça; pedia a eternidade e a ventura do seu amor, que tinha passado tão rapido pela terra.
Acabando a prece, tomou a luz, deitou-a na cabeceira do leito, afastou o cortinado e começou a contemplar o seu amante com enlevo.
Alvaro parecia adormecido apenas; sua bella physionomia não tinha a menor alteração; a morte imprimindo nos seus traços o descoramento da cêra e do marmore, havia unicamente immobilisado a expressão e feito do gentil cavalheiro um bella estatua.
Isabel interrompeu o enlevo de sua contemplação para chegar-se de novo á commoda, onde se vião algumas conchas de mariscos tintas de nacar que se apanhão nas nossas praias, e uma cesta de palha matizada.
Esta cesta continha todas as resinas aromaticas, todos os perfumes que dão as arvores de nossa terra; o anime da aroeira, as perolas do beijoim, as lagrimas crystallisadas da embaiba, e gotas do balsamo, esse sandalo do Brazil.
A moça deitou na concha a maior parte dos perfumes, e acendeu algumas bagas de beijoim; o oleo de que estavão impregnadas, alimentando a chamma, communicou-a ás outras resinas.
Frocos de fumo alvadio impregnado de perfumes embriagadores se elevarão da caçoula em grossas espiraes, e enchêrão o gabinete de nuvens transparentes que oscillavão á luz pallida do cirio.
Isabel, sentada á beira do leito, com as mãos do seu amante nas suas e com os olhos embebidos naquella imagem querida, balbuciava phrases entrecortadas, confidencias intimas, sons inarticulados, que são a linguagem verdadeira do coração.
Ás vezes sonhava que Alvaro ainda vivia, que lhe murmurava ao ouvido a confissão do seu amor; e ella fallava-lhe como se seu amante a ouvisse, contava-lhe os segredos de sua paixão, vertia toda a sua alma nas palavras que cahião dos labios. Sua mão, delicada afastava os cabellos do moço, descobria a sua fronte, animava a sua face gelada, e roçava aquelles labios frios e mudos como pedindo-lhe um sorriso.
—Porque não me fallas? murmurava ella docemente: Não conheces tua Isabel?... Dize outra vez que me amas! Dize sempre essa palavra, para que minha alma não duvide da felicidade! Eu te supplico!...
E com o ouvido attento, com os labios entreabertos, o seio palpitante, ella esperava o som dessa voz querida e o echo dessa primeira e ultima palavra de seu triste amor.
Mas o silencio só lhe respondia; seu peito aspirava apenas as ondas dos perfumes inebriantes, que fazião circular nas suas veias uma chamma ardente.
O aposento apresentava então um aspecto fantastico: no fundo escuro desenhava-se um circulo esclarecido, envolto por uma nevoa espessa.
Nessa esphera luminosa como no meio de uma visão surgião Alvaro deitado no leito e Isabel reclinada sobre o rosto de seu amante, a quem continuava a fallar, como se elle a escutasse. A menina começava a sentir a respiração faltar-lhe; seu seio oppresso suffocava-a, e entretanto uma voluptuosidade inexprimivel a embriagava: um gozo immenso havia nessa asphyxia de perfumes que se condensavão e rarefazião o ar.
Louca, perdida, hallucinada, ella ergueu-se, seu seio dilatou-se, e sua bocca, entreabrindo-se, collou-se aos labios frios e gelados de seu amante; era o seu primeiro e ultimo beijo; o seu beijo de noiva.
Foi uma agonia lenta, um pesadelo horrivel em que a dôr lutava com o gozo, em que as sensações tinhão um requinte de prazer e de soffrimento ao mesmo tempo; em que a morte, torturando o corpo, vertia na alma effluvios celestes.
De repente pareceu a Isabel que os labios de Alvaro se agitavão, que um tenue suspiro se exhalava de seu peito, ainda ha pouco insensivel como o marmore.
Julgou que se illudia, mais não; Alvaro estava vivo, realmente vivo, suas mãos apertavão as della convulsamente; seus olhos, brilhando com um fogo estranho, se tinhão fitado no rosto da moça: um sopro reanimou seus labios, que exhalárão uma palavra quasi imperceptivel.
—Isabel!...
A moça soltou um grito debil de alegria, de espanto, de medo; entre as idéas confusas que se agitavão na sua cabeça desvairada, lembrou-se com horror que era ella quem matava seu amante, quem o ia sacrificar por causa de um engano fatal. Fazendo um esforço extraordinario, conseguio erguer a cabeça e ia precipitar-se para janella, abri-la e dar entrada ao ar livre; sabia que a morte era inevitavel; mas salvaria Alvaro.
No momento, porém, em que se levantava, sentio as mãos do moço que apertavão as suas, e a obrigárão a reclinar-se sobre o leito; seus olhos encontrárão de novo os olhos de seu amante.
Isabel não tinha mais forças para resistir e realisar seu heroico sacrificio; deixou cahir a cabeça desfallecida, e seus labios se unirão outra vez n'um longo beijo, em que essas duas almas irmãs, confundindo-se n'uma só, voárão ao céo, e forão abrigar-se no seio do Creador.
As nuvens de fumaça e de perfume se condensavão cada vez mais e envolvião como um lençol aquelle grupo original, impossivel de descrever.
Por volta de duas horas da tarde, a porta da gabinete, impellida por um choque violento, abrio-se; e um turbilhão de fumo lançou-se por essa aberta, e quasi suffocou as pessoas que ahi estavão.
Erão Cecilia e Pery.
A menina, inquieta pela longa ausencia de sua prima, soube de Pery que ella estava no seu quarto; mas o indio occultou parte da verdade, e não disse onde deitára o corpo de Alvaro.
Duas vezes Cecilia viera até á porta, escutára e nada ouvira; por fim resolveu-se a bater, a fallar a Isabel, e não teve a menor resposta. Chamou Pery e contou-lhe o que se passava; o indio, tomado de um presentimento metteu o hombro á porta e abrio-a.
Quando a corrente de ar expellio a fumaça do aposento, Cecilia pôde entrar e ver a scena que descrevêmos.
A menina recuou, e respeitando esse mysterio de um amor profundo, fez um gesto a Pery e retirou-se.
O indio fechou de novo a porta e acompanhou sua senhora.
—Ella morreu feliz! disse Pery.
Cecilia fitou nelle os seus grandes olhos azues, e córou.