VIREVOLTA
Quando Pery acabou de reflectir sobre o que passara ergueu-se, abrio de novo a porta, fechou-a por dentro, e seguio pelo corredor que ia do quarto de Cecilia ao interior da casa.
Estava tranquillo sobre o futuro; sabia que Bento Simões e Ruy Soeiro não o incommodarião mais, que o italiano não lhe podia escapar, e que áquella hora todos os aventureiros devião estar acordados; mas julgou prudente prevenir D. Antonio de Mariz do que occorria.
A este tempo Loredano já tinha chegado á alpendrada, onde o esperava uma nova e terrivel sorpreza, uma ultima decepção.
Lançando-se do quarto de Cecilia, sua intenção era ganhar o fundo da casa, pronunciar a senha convencionada, e senhor do campo voltar com seus complices, raptar a menina, e vingar-se de Pery.
Mal sabia porém que o indio tinha destruido toda a sua machinação; chegando ao pateo viu o alpendre illuminado por fachos, e todos os aventureiros de pé cercando um objecto que não pôde distinguir.
Aproximou-se e descobrio o corpo de seu complice Bento Simões, que jazia no chão alagado do pavimento: o aventureiro tinha os olhos saltados das orbitas, a lingua sahida da bocca, o pescoço cheio de contusões; todos os signaes emfim de uma estrangulação violenta.
De livido que estava o italiano tornou-se verde; procurou com os olhos a Ruy Soeiro e não o viu; decididamente o castigo da Providencia cahia sobre as suas cabeças, conheceu que estava irremediavelmente perdido, e que só a audacia e o desespero o podião salvar.
A extremidade em que se achava inspirou-lhe uma idéa digna delle: ia tirar partido para seus fins daquelle mesmo facto que parecia destrui-los; ia fazer do castigo uma arma de vingança.
Os aventureiros espantados sem comprehenderem o que vião, olhavão-se e murmura vão em voz baixa fazendo supposições sobre a morte do seu companheiro. Uns despertados de sobresalto pela agua que corria das talhas, outros que não dormião apenas admirados, se havião erguido, e no meio de um côro de imprecações e blasphemias acendêrão fachos para ver a causa daquella inundação.
Foi então que descobrirão o corpo de Bento Simões, e ficárão ainda mais surprendidos; os complices temendo que aquillo não fosse um começo de punição, os outros indignados pelo assassinato de seu companheiro.
Loredano percebeu o que passava no espirito dos aventureiros:
—Não sabeis o que significa isto? disse elle.
—Oh! não! explicai-nos! exclamarão os aventureiros.
—Isto significa, continuou o italiano, que ha nesta casa uma vibora, uma serpente que nós alimentamos no nosso seio, e que nos morderá a todos com o seu dente envenenado.
—Como?... Que quereis dizer?... Fallai!...
—Olhai, disse o frade apontando para o cadaver e mostrando a sua mão ferida; eis a primeira victima, e a segunda que escapou por um milagre; a terceira... Quem sabe o que é feito de Ruy Soeiro?
—É verdade!... Onde está Ruy? disse Martim Vaz.
—Talvez morto tambem!
—Depois delle virá outro e outro até que sejamos exterminados um por um; até que todos os christãos tenhão sido sacrificados.
—Mas por quem?... Dizei o nome do vil assassino! É preciso um exemplo! O nome!...
—E não adivinhais? respondeu o italiano. Não adivinhais quem nesta casa póde desejar a morte dos brancos, e a destruição da nossa religião? Quem senão o herege, o gentio, o selvagem traidor e infame?
—Pery?... exclamarão os aventureiros.
—Sim, esse indio que conta assassinar-nos a todos para saciar a sua vingança!
—Não ha de ser assim como dizeis, eu vos juro, Loredano! exclamou Vasco Affonso.
—Bofé! gritou outro, deixai isto por minha conta. Não vos dê cuidado!
—E não passa desta noite. O corpo de Bento Simões pede justiça.
—E justiça será feita.
—Neste mesmo instante.
—Sim; agora mesmo. Eia! Segui-me.
Loredano ouvia estas exclamações rapidas que denunciavão como a exacerbação ia lavrando com intensidade; quando porém os aventureiros quizerão lançar-se em procura do indio, elle os conteve com um gesto.
Não lhe convinha isto; a morte de Pery era cousa accidental para elle; o seu fim principal era outro, e esperava consegui-lo facilmente.
—O que ides fazer? perguntou imperativamente aos seus companheiros.
Os aventureiros ficárão pasmados com semelhante pergunta.
—Ides mata-lo?...
—Mas de certo!
—E não sabeis que não podereis fazê-lo? Que elle é protegido, amado, estimado por aquelles que pouco se importão se morremos ou vivemos?
—Seja embora protegido, quando é criminoso...
—Como vos illudis! Quem o julgará criminoso? Vós? Pois bem; outros o julgarão innocente e o defenderão; e não tereis remedio senão curvar a cabeça e calar-vos.
—Oh! isso é de mais!
—Julgais que somos alimarias que se podem matar impunemente! retrucou Martim Vaz.
—Sois peiores que alimarias; sois escravos!
—Por São Braz, tendes razão, Loredano.
—Vereis morrer vossos companheiros assassinados infamemente, e não podereis vinga-los; e sereis obrigados a tragar até as vossas queixas, porque o assassino é sagrado! Sim, não o podereis tocar, repita.
—Pois bem; eu vo-lo mostrarei!
—E eu! gritou toda a banda.
—Qual é vossa tenção? perguntou o italiano.
—A nossa tenção é pedirmos a D. Antonio de Mariz que nos entregue o assassino de Bento.
—Justo! E se elle recusar, estamos desligados do nosso juramento e faremos justiça pelas nossas mãos.
—Procedeis como homens de brio e pundonor: liguemo-nos todos e vereis que obteremos reparação; mas para isto é preciso firmeza e vontade. Não percamos tempo. Quem de vós se incumbe de ir como parlamentario a D. Antonio?
Um aventureiro dos mais audazes e turbulentos da banda offereceu-se: chamava-se João Feio.
—Serei eu!
—Sabeis o que lhe deveis dizer?
—Oh! ficai descansado. Ouvirá boas!
—Ides já?
—Neste instante.
Uma voz calma, sonora e de grave entonação, uma voz que fez estremecer todos os aventureiros, soou na entrada do alpendre:
—Não é preciso irdes, pois que vim. Aqui me tendes.
D. Antonio de Mariz, calmo e impassivel, adiantou-se até o meio do grupo, e cruzando os braços sobre o peito, volveu lentamente pelos aventureiros o seu olhar severo.
O fidalgo não tinha uma só arma; e entretanto o aspecto de sua physionomia veneravel, a firmeza de sua voz e a altivez de seu gesto nobre bastárão para fazer curvar a cabeça de todos esses homens que ameaçavão.
Advertido por Pery dos acontecimentos que tinhão tido lugar naquelle noite, D. Antonio de Mariz ia sahir, quando apparecérão Alvaro e Ayres Gomes.
O escudeiro, que depois de sua conversa com mestre Nunes tinha adormecido, fôra despertado de repente pelas imprecações e gritos que soltavão os aventureiros quando a agua começou a invadir as esteiras em que esta vão deitados.
Admirado desse rumor extraordinario, Ayres bateu o fuzil, acendeu a vela, e dirigio-se para a porta para conhecer o que pertubava o seu somno: a porta, como sabemos, estava fechada e sem chave.
O escudeiro esfregou os olhos para certificar-se do que via, e acordando Nunes, perguntou-lhe quem tomara aquella medida de precaução: seu amigo ignorava como elle.
Nesse momento ouvia-se a voz do italiano que excitava os aventureiros á revolta; Ayres Gomes percebeu então do que se tratava.
Agarrou mestre Nunes, encostou-o á parede como se fosse uma escada, e sem dizer palavra trepou do catre sobre os seus hombros, e levantando as telhas com a cabeça enfiou por entre as ripas dos caibros.
Apenas ganhou o telhado, o escudeiro pensou no que devia fazer; e assentou que o verdadeiro era dar parte a Alvaro e ao fidalgo, a quem cabia tomar as providencias que o caso pedia.
D. Antonio de Mariz sem se pertubar ouvio a narração do escudeiro, como tinha ouvido a do indio.
—Bem, meus amigos! sei o que me cumpre fazer. Nada de rumor; não perturbemos o socego da casa; estou certo que isto passará. Esperai-me aqui.
—Não posso deixar que vos arrisqueis só, disse Alvaro dando um passo para segui-lo.
—Ficai; vós e esses dous amigos dedicados velareis sobre minha mulher, Cecilia e Isabel. Nas circumstancias em que nos achamos, assim é preciso.
—Consenti ao menos que um de nós vos acompanhe?
—Não, basta a minha presença; emquanto que aqui todo o vosso valor e fidelidade não bastão para o thesouro que confio á vossa guarda.
O fidalgo tomou o seu chapéo, e poucos momentos depois apparecia imprevistamente no meio dos aventureiros, que tremulos, cabisbaixos, corridos de vergonha, não ousavão proferir uma palavra.
—Aqui me tendes! repetio o cavalheiro. Dizei o que quereis de D. Antonio de Mariz, e dizei-o claro e breve. Se fôr de justiça, sereis satisfeitos; se fôr uma falta, tereis a punição que merecerdes.
Nem um dos aventureiros ousou levantar os olhos; todos emmudecêrão.
—Calais-vos?... Passa-se então aqui alguma cousa que não vos atreveis a revelar? Acaso ver-me-hei obrigado a castigar severamente um primeiro exemplo de revolta e desobediencia? Fallai? Quero saber o nome dos culpados!
O mesmo silencio respondeu ás palavras firmes e graves do velho fidalgo.
Loredano hesitava desde o principio desta scena; não tinha a coragem necessaria para apresentar-se em face de D. Antonio; mas tambem sentia que se elle deixasse as cousas marcharem pela maneira por que ião, estava infallivelmente perdido.
Adiantou-se:
—Não ha aqui culpados, Sr. D. Antonio de Mariz, disse o italiano animando-se progressivamente; ha homens que são tratados como cães; que são sacrificados a um capricho vosso, e que estão resolvidos a reivindicarem os seus fóros de homens e de christãos!
—Sim! gritárão os aventureiros reanimando-se. Queremos que se respeite a nossa vida!
—Não somos escravos!
—Obedecemos, mas não nos captivamos.
—Valemos mais que um herege!
—Temos arriscado a nossa existência para defender-vos!
D. Antonio ouvio impassivel todas estas exclamações que ião subindo gradualmente ao tom da ameaça.
—Silencio, vilões! Esqueceis que D. Antonio de Mariz ainda tem bastante força para arrancar a lingua que o pretendesse insultar! Miseraveis, que lembrais o dever como um beneficio! Arriscastes a vossa vida para defender-me?... E qual era vossa obrigação, homens que vendeis o vosso braço e sangue ao que melhor paga. Sim'! Sois menos que escravos, menos que cães, menos que féras! Sois traidores infames e refeces!... Mereceis mais do que a morte; mereceis o desprezo.
Os aventureiros, cuja raiva fermentava surdamente, não se contiverão mais; das palavras de ameaça passárão ao gesto.
—Amigos! gritou Loredano aproveitando habilmente o ensejo. Deixareis que vos insultem atrozmente, que vos cuspão o desprezo na cara? E por que motivo!...
—Não! Nunca! vociferarão os aventureiros furiosos.
Desembainhando as adagas estreitarão o circulo ao redor de D. Antonio de Mariz; era uma confusão de gritos, injurias, ameaças, que corria por todas as boccas, emquanto os braços suspensos hesitavão ainda em lançar o golpe.
D. Antonio de Mariz, sereno, magestoso, calmo, olhava todas essas physionomias decompostas com um sorriso de escarneo; e sempre altivo e sobranceiro, parecia sob os punhaes que o ameaçavão, não a victima que ia ser immolada, mas o senhor que mandava.