XIEPILOGO

XIEPILOGO

Quando o sol, erguendo-se no horizonte, illuminou os campos um montão de ruinas cobria as margens doPaquequer.

Grandes lascas de rochedos, talhadas de um golpe e semeadas pelo campo, paredão ter saltado do malho gigantesco de Novos Cyclopes.

A eminencia sobre a qual estava situada a casa tinha desapparecido, e no seu lugar via-se apenas uma larga fenda semelhante á cratera de algum volcão subterraneo.

As arvores arrancadas dos seus alveolos, a terra revolta, a cinza ennegrecida que cobria a floresta, annunciavão que por ahi tinha passado algum desses cataclysmas que deixão após si a morte e a destruição.

Aqui e alli por entre os comoros das ruinas apparecia alguma india, resto da tribu dos Aymorés, que tinha ficado para chorar a morte dos seus, e levar ás outras tribus a noticia dessa tremenda vingança.

Quem plainasse nesse momento sobre aquella solidão, e lançasse os olhos pelos vastos horizontes que se abrião em torno, se a vista podesse devassar a distancia de muitas leguas, veria ao longe, na larga esteira do Parahyba, passar rapidamente uma forma vaga e indecisa.

Era a canoa de Pery, que impellida pelo remo e pela viração da manhã corria com uma velocidade espantosa semelhando uma sombra a fugir das primeiras claridades do dia.

Toda a noite o indio tinha remado sem descansar um momento; não ignorava que D. Antonio de Mariz na sua terrivel vingança havia exterminado a tribu dos Aymorés, mas desejava apartar-se do theatro da catastrophe, e aproximar-se dos seus campos nativos.

Não era o sentimento da patria, sempre tão poderoso no coração do homem; não era o desejo de ver sua cabana reclinada á beira do rio, e abraçar sua mãi e seus irmãos, que dominava sua alma nesse momento e lhe dava esse ardor.

Era sim a idéa de que ia salvar sua senhora e cumprir o juramento que tinha feita ao velho fidalgo; era o sentimento de orgulho que se apoderava delle, pensando que bastava a sua coragem e a sua força para vencer todos os obstaculos, e realisar a missão de que se havia encarregado.

Quando o sol, no meio de sua carreira, lançava torrentes de luz sobre esse vasto deserto, Pery sentio que era tempo de abrigar Cecilia dos raios abrazadores, e fez a canôa abicar á beira do rio na sombra de uma ramagem de arvores.

A menina envolta na sua manta de seda com a cabeça apoiada sobre a prôa do barquinho dormia ainda o mesmo somno tranquillo da vespera; as côres tinhão voltado, e sob a alvura transparente de sua pelle alva brilhavão esses tons côr de rosa, esse colorido suave, que só a natureza, artista sublime, sabe crear.

Pery tomou a canôa nos seus braços, como se fôra um berço mimoso, e deitou-a sobre a relva que cobria a margem do rio; depois sentou-se ao lado, e com os olhos fitos em Cecilia, esperou que ella sahisse desse somno prolongado que começava a inquieta-lo.

Tremia lembrando-se da dôr que sua senhora ia sentir quando soubesse a desgraça de que elle fôra testemunha na vespera; e não se achava com forças de responder ao primeiro olhar de surpreza que a menina lançaria em torno de si logo que despertasse no meio do deserto.

Emquanto durou o somno, Pery, com o braço apoiado á borda da canôa e o corpo reclinado sobre o rosto da menina, esperando com anciedade o momento que elle desejava e temia ao mesmo tempo, velava sobre Cecilia com um cuidado e uma solicitude admiravel.

A mãi mais extremosa não se desvelaria tanto por seu filho, como esse amigo dedicado por sua senhora; uma restea de sol que, enfiando-se pelas folhas, vinha brincar no rosto da menina, um passarinho que cantava sobre um ramo do arbusto, um insecto que saltava na relva, tudo elle afastava para não perturbar o seu repouso.

Cada minuto que passava era uma nova inquietação para elle; porém era tambem um instante mais de socego e de tranquillidade que a menina gozava, antes de saber a desgraça que pesava sobre ella, e que a privára de sua familia.

Um longo suspiro elevou o seio de Cecilia; seus lindos olhos azues se abrirão e cerrarão, deslumbrados pela claridade do dia; ella passou a mão delicada pelas palpebras rosadas, como para afugentar o somno, e seu olhar limpido e suave foi pousar no rosto de Pery. Soltou um gritozinho de prazer, e sentando-se com vivacidade, lançou um olhar de surpreza e admiração em torno da especie de pavilhão de folhagem que a cercava; parecia interrogar as arvores, o rio, o céo; mas tudo emmudecia.

Pery não se animava a pronunciar uma palavra, via o que se passava n'alma de sua senhora, e não tinha a coragem de dizer a primeira letra do enigma que ella não tardaria a comprehender.

Por fim, a menina, baixando a vista para ver onde estava, descobrio a canôa, e lançando um volver rapido para o vasto leito do Parahyba que se espreguiçava indolentemente pela floresta, ficou branca como a cambraia do seu roupão.

Voltou-se para o indio com os olhos extremamente dilatados, os labios tremulos, a respiração presa, o seio offegante, e supplicando com as mãozinhas juntas:

—Meu pai!... meu pai!... exclamou soluçando.

O selvagem deixou cahir a cabeça sobre o peito e escondeu o rosto nas mãos.

—Morto!... Minha mãi tambem morta!... Todos mortos!...

Vencida pela dôr, a menina apertou convulsamente o seio que lhe estalava com os soluços, e reclinando-se como o calice delicado de uma flôr que a noite enchêra de orvalho, desfez-se em lagrimas.

—Pery só podia salvar a ti, senhora! murmurou o indio tristemente.

Cecilia ergueu a cabeça altiva.

—Porque não me deixaste morrer com os meus?... exclamou ella n'uma exaltação febril. Pedi-te eu que me salvasses? Precisava de teus serviços?...

Seu rosto tomou uma expressão de energia extraordinaria.

—Tu vais me levar ao lugar onde descansa o corpo de meu pai. É ahi que deve estar sua filha... Depois partirás!... Não careço de ti.

Pery estremeceu.

—Escuta, senhora... balbuciou elle em tom submisso.

A menina lançou-lhe um olhar tão imperioso, tão soberano, que o indio emmudeceu, e voltando o rosto escondeu as lagrimas que lhe molhavão as faces.

Cecilia caminhou até á beira do rio, e com os olhos estendidos pelo horizonte, que ella suppunha occultar o lugar em que habitára, ajoelhou e fez uma oração longa e ardente.

Quando ergueu-se, estava mais calma: a dôr tinha-se repassado do consolo sublime da religião, dessa doçura e suavidade que infiltra no coração a esperança de uma vida celeste, que reune aquelles que se amárão na terra.

Ella pôde então reflectir sobre o que se tinha passado na vespera; e procurou lembrar-se das circumstancias que havião precedido á morte de sua familia. Todas as suas recordações, porém, chegavão unicamente até o momento em que, já meia adormecida, fallava a Pery, e dizia essa palavra ingénua e innocente que lhe escapára do intimo d'alma.

—Antes morrer como Isabel!

Lembrando-se dessa palavra, córou; e vendo-se só no deserto com Pery, sentio uma inquietação vaga e indefinida, um sentimento de temor e de receio, cuja causa não sabia explicar.

Seria essa desconfiança subita proveniente da colera que ella sentira, porque o indio salvára a sua vida, e a arrancára da desgraça que tinha destruido toda a sua familia?

Não; não era essa a causa: ao contrario Cecilia conhecia que fôra injusta para com seu amigo que tinha talvez feito impossiveis por ella; e a não ser o receio instinctivo que se apoderára involuntariamente de sua alma, já o teria chamado para pedir-lhe perdão daquellas palavras duras e crueis.

A menina ergueu os olhos timidos e encontrou o olhar triste e supplice de Pery: não pôde resistir; esqueceu os seus receios, e um tenue sorriso fugio-lhe pelos labios.

—Pery!...

—O indio estremeceu, mas desta vez de alegria e de contentamento: veio cahir aos pés de sua senhora, que elle encontrava de novo boa como sempre tinha sido.

—Perdoa a Pery, senhora!

—És tu que me deves perdoar, porque te fiz soffrer; não é verdade? Mas bem sabes!... Não podia abandonar meu pobre pai!

—Foi elle que mandou a Pery que te salvasse! disse o indio.

—Como?... exclamou a menina. Conta-me, meu amigo.

O indio fez a narração da scena da noite antecedente desde que Cecilia tinha adormecido até o momento em que a casa saltára com a explosão, restando delia apenas um montão de ruinas.

Contou que elle tinha preparado tudo para que D. Antonio de Mariz fugissse, salvando Cecilia; mas que o fidalgo recusára, dizendo que a sua lealdade e a sua honra mandavão que morresse no seu posto.

—Meu nobre pai! murmurou a menina enxugando as lagrimas.

Houve um instante de silencio, depois do qual Pery concluio a sua narração, e referio como D. Antonio de Mariz o tinha baptisado, e lhe havia confiado a salvação de sua filha.

—Tu és christão, Pery?... exclamou a menina, cujos olhos brilhárão com uma alegria ineffavel.

—Sim; teu pai disse: «Pery; tu és christão; dou-te o meu nome!»

—Obrigado, meu Deus, disse a menina juntando as mãos e erguendo os olhos ao céo.

Depois, envergonhada desse movimento espontaneo, escondeu o rosto: o rubor que cobrio as suas faces tingio de longes côr de rosa as linhas puras do collo assetinado.

Pery ergueu-se e foi colher alguns fructos delicados que servirão de refeição á sua senhora.

O sol tinha quebrado a sua força, era tempo de continuar a viagem e aproveitar a frescura da tarde para vencer a distancia que os separava do campo dos Goytacazes.

O indio chegou-se tremulo para a menina:

—Que queres tu que Pery faça, senhora?

—Não sei; respondeu Cecilia indecisa.

—Não queres que Pery te leve á taba dos brancos?

—É a vontade de meu pai?... Deves cumpri-la.

—Pery prometteu a D. Antonio levar-te a sua irmã.

O indio fez a canôa boiar sobre as aguas do rio, e quando tomou a menina nos seus braços para deita-la no barquinho, ella sentio pela primeira vez na sua vida que o coração de Pery palpitava sobre o seu seio.

A tarde estava soberba; os raios do sol no occaso, filtrando por entre as folhas das arvores, douravão as flôres alvas que crescião pela beira do rio.

As rolas começavão a soltar os seus arrulhos no fundo da floresta; e a brisa, que passava ainda tepida das exhalações da terra, vinha impregnada de aromas silvestres.

A canôa resvalou pela flôr d'agua, como uma garça ligeira levada pela correnteza do rio.

Pery remava sentado na prôa.

Cecilia, deitada no fundo, meio apoiada sobre uma alcatifa de folhas que Pery tinha arranjado, engolfava-se nos seus pensamentos, e aspirava as emanações suaves e perfumadas das plantas, e a frescura do ar e das aguas.

Quando seus olhos encontravão os de Pery, os longos cilios descião occultando um momento o seu olhar doce e triste.

A noite estava serena.

A canôa, vogando sobre as aguas do rio, abria essas flôres de espuma, que brilhão um momento á luz das estrellas, e se desfazem como o sorriso da mulher.

A brisa tinha escasseado; e a natureza adormecida respirava a calma tepida e perfumada das noites americanas, tão cheias de enlevo e encanto.

A viagem fora silenciosa; essas duas creaturas abandonadas no meio do deserto, sós em face da natureza, emmudecião, como se temessem despertar o echo profundo da solidão.

Cecilia repassava na memoria toda a sua vida innocente e tranquilla, cujo fio dourado tinha-se rompido de uma maneira tão cruel; mas era sobretudo o ultimo anno dessa existencia, desde o dia do apparecimento imprevisto de Pery, que se desenhava na sua imaginação.

Porque interrogava ella assim os dias que tinha vivido no remanso da felicidade? Porque o seu espirito voltava ao passado, e procurava ligar todos esses factos a que na descuidosa ingenuidade dos primeiros annos dera tão pouco apreço?

Ella mesma não saberia explicar as emoções que sentia; sua alma innocente e ignorante tinha-se illuminado com uma subita revelação: novos horizontes se abrião aos sonhos castos de seu pensamento.

Volvendo ao passado admirava-se de sua existencia, como os olhos se deslumbrão com a claridadade depois de um somno profundo; não se reconhecia na imagem do que fôra outr'ora, na menina isenta e travessa.

Toda a sua vida estava mudada; a desgraça tinha operado essa revolução repentina, e um outro sentimento ainda confuso ia talvez completar a transformação mysteriosa da mulher.

Em torno della tudo se resentia dessa mudança; as côres tinhão tons harmoniosos, o ar perfumes inebriantes, a luz reflexos avelludados, que seus sentidos não conhecião.

Uma flôr que antes era para ella apenas uma bella fórma, parecia-lhe agora uma creatura que sentia e palpitava; a brisa que outr'ora passava como um simples bafejo das auras, murmurava ao seu ouvido nesse momento melodias ineffaveis, notas mysticas que resoavão no seu coração.

Pery, julgando sua senhora adormecida, remava docemente para não perturbar o seu repouso; a fadiga começava a vencê-lo; apezar de sua coragem indomavel e de sua vontade poderosa, as forças estavão exhaustas.

Apenas vencedor da luta terrivel que travára com o veneno, tinha começado a empreza quasi impossivel da salvação de sua senhora; havia tres dias que seus olhos não se cerravão, que seu espirito não repousava um instante.

Tudo quanto a natureza permittia á intelligencia e ao poder do homem, elle tinha feito; e comtudo não era a fadiga do corpo que o vencia, erão sim as emoções violentas por que passára durante esse tempo.

O que elle tinha sentido quando plainava sobre o abysmo, e que a vida de sua senhora dependia de um passo falso, de uma oscillação da haste fragil que lhe servia de ponte pensil, ninguem comprehenderia.

O que soffreu quando Cecilia no seu desespero pela morte de seu pai o accusava por tê-la salvado, e lhe dava ordem de leva-la ao lugar onde repousavão as cinzas do velho fidalgo, é impossivel de descrever.

Forão horas de martyrio, de soffrimento horrivel, em que sua alma succumbiria, se não achasse na sua vontade inflexivel e na sua dedicação sublime um conforto para a dôr, e um estimulo para triumphar de todos os obstaculos.

Erão essas emoções que o vencião, e ainda depois de vencidas, elle conheceu que seus musculos de aço, escravos submissos que obedecião ao seu menor desejo, se destendião como a corda do arco depois do combate. Lembrou-se que sua senhora precisava delle e que devia aproveitar esses momentos em que ella repousava para pedir ao somno novo vigor e novas forças.

Ganhou o meio do rio, e escolhendo um lugar onde não chegava nem um galho das arvores que crescião nas ribanceiras, amarrou a canôa nos nenuphares que boiavão á tona d'agua.

Tudo estava quieto; a terra ficava a uma distancia de muitas braças; portanto podia sua senhora dormir sem perigo sobre esse chão prateado, debaixo da abobada azul do céo; as ondinhas a embalarião no seu berço, as estrellas vigiarião o seu somno.

Livre de inquietação, Pery encostou a cabeça na borda da canôa; um momento depois suas palpebras entorpecidas cerrárão-se a pouco e pouco; seu ultimo olhar, esse olhar vago e incerto que adeja na pupilla já meio adormecida, viu desenhar-se na sombra uma forma alva e graciosa que se reclinava docemente para elle.

Não era um sonho, essa linda visão. Cecilia sentindo a canôa immovel despertou das suas recordações; sentou-se, e debruçando-se um pouco viu que seu amigo dormia, e accusou-se por não ter ha mais tempo exigido delle esse instante de repouso.

O primeiro sentimento que se apoderou da menina, vendo-se só, foi o terror solemne e respeitoso que infunde a solidão no meio do deserto, nas horas mortas da noite.

O silencio parece fallar; as sombras se povoão de seres invisiveis; os objectos, na sua immobilidade, como que oscillão pelo espaço.

E ao mesmo tempo o nada com o seu vacuo profundo, immenso, infinito; e o chãos com a sua confusão, as suas trevas, as suas formas increadas; a alma sente que falta-lhe a vida ou a luz em torno.

Cecilia recebeu essa impressão com um temor religioso; mas não se deixou dominar pelo susto; a desgraça a habituára ao perigo; e a confiança que tinha no seu companheiro era tanta, que mesmo dormindo parecia-lhe que Pery velava sobre ella.

Contemplando essa cabeça adormecida, a menina admirou-se da belleza inculta dos traços, da correcção das linhas do perfil altivo, da expressão de força e intelligencia que animava aquelle busto selvagem moldado pela natureza.

Como era que até então ella não tinha percebido naquelle aspecto senão um rosto amigo? Como seus olhos tinhão passado sem ver sobre essas feições talhadas com tanta energia?

Era que a revelação physica que acabava de illuminar o seu olhar, não era senão o resultado dessa outra revelação moral que esclarecêra o seu espirito; dantes via com os olhos do corpo, agora via com os olhos da alma.

Pery, que durante um anno não fôra para ella senão um amigo dedicado, apparecia-lhe de repente como um heróe; no seio de sua familia estimava-o, no meio dessa solidão admirava-o.

Como os quadros dos grandes pintores que precisão de luz, de um fundo brilhante, e de uma moldura simples, para mostrarem a perfeição de seu colorido e a pureza de suas linhas, o selvagem precisava do deserto para revelar-se em todo o esplendor de sua belleza primitiva.

No meio de homens civilisados, era um indio ignorante, nascido de uma raça barbara, a quem a civilisação repellia, e marcava o lugar de captivo. Embora para Cecilia e D. Antonio fosse um amigo, era apenas um amigo escravo.

Aqui, porém, todas as distincções desapparecião; o filho das mattas, voltando ao seio de sua mãi, recobrava a liberdade; era o rei do deserto, o senhor das florestas, dominando pelo direito da força e da coragem.

As altas montanhas, as nuvens, as catadupas, os grandes rios, as arvores seculares, servião de throno, de docel, de manto e sceptro a esse monarca das selvas cercado de toda a magestade e de todo o esplendor da natureza.

Que effusão de reconhecimento e de admiração não havia no olhar de Cecilia! Era nesse momento que ella comprehendia toda a abnegação do culto santo e respeitoso que o indio lhe votava!

As horas corrêrâo silenciosamente nessa muda contemplação; a aragem fresca que annuncia o despontar do dia bafejou o rosto da menina; e pouco depois o primeiro albor da manhã desmaiou o negrume do horizonte.

Sobre o relevo que formava o perfil escuro da floresta, nas sombras da noite, luzio limpida e brilhante a estrella d'alva; as aguas do rio arfárão docemente; e os leques das palmeiras se agitárão rumorejando.

A menina lembrou-se do seu despertar tão placido de outr'ora, de suas manhãs tão descuidosas, de sua prece alegre e risonha em que agradecia a Deus a ventura que vertia sobre ella e sua familia.

Uma lagrima pendeu nos cilios dourados, e cahio sobre a face de Pery; abrindo os olhos, e vendo ainda a mesma doce visão que o adormecêra, o indio julgou que o sonho continuava.

Cecilia sorrio-lhe; e passou a mãozinha pelas palpebras ainda meio cerradas de seu amigo:

—Dorme, disse ella, dorme; Cecy vela.

A musica dessas palavras despertou completamente o selvagem.

—Não! balbuciou elle envergonhado de ter cedido á fadiga. Pery sente-se forte.

—Mas tu deves ter necessidade de repouso! Ha tão pouco tempo que adormeceste!

—O dia vai raiar; Pery deve velar sobre sua senhora.

—E porque tua senhora não velará tambem sobre ti? Queres tomar tudo; e não me deixas nem mesmo a gratidão!

O indio lançou um olhar cheio de admiração á menina:

—Pery não entende o que tu dizes. A rolinha quando atravessa o campo e sente-se fatigada, descansa sobre a aza de seu companheiro que é mais forte; é elle que guarda o seu ninho emquanto ella dorme, que vai buscar o alimento, que a defende e que a protege. Tu és como a rolinha, senhora.

Cecilia córou da comparação ingénua de seu amigo.

—E tu? perguntou ella confusa e tremula de emoção.

—Pery... é teu escravo, respondeu o indio naturalmente.

A menina abanou a cabeça com uma inflexão graciosa:

—A rolinha não tem escravo.

Os olhos de Pery brilhárão, uma exclamação partio de seus labios:

—Teu...

Cecilia com o seio palpitante, as faces vermelhas, os olhos humidos, levou a mãozinha aos labios de Pery, e reteve a palavra que ella mesma na sua innocente faceirice tinha provocado.

—Tu és meu irmão! disse ella com um sorriso divino.

Pery olhou o céo, para fazê-lo confidente de sua felicidade.

A claridade da alvorada estendia-se sobre a floresta e os campos como um vêo finissimo; a estrella da manhã scintillava em todo o seu fulgor.

Cecilia ajoelhou-se.

—Salve, rainha!...

O indio contemplava-a com uma expressão de ventura ineffavel.

—Tu és christão, Pery! disse ella lançando-lhe um olhar supplicante.

Seu amigo comprehendeu-a, e ajoelhando, juntou as mãos como ella.

—Tu repetirás todas as minhas palavras; e faze por não esquecê-las. Sim?

—Ellas vêm de teus labios, senhora.

—Senhora, não! irmã!

Dahi a pouco os murmurios das aguas confundião-se com os accentos maviosos da voz de Cecilia que recitava o hymno christão repassado de tanta uncção e poesia.

A palavra de Pery repetia como um écho a phrase sagrada.

Terminada a prece christã, talvez a primeira que tinhão ouvido aqnellas arvores seculares, a viagem continuou.

Logo que o sol chegou ao zenith, Pery procurou como na vespera um abrigo para passar as horas de calma.

A canôa pojou n'um pequeno seio do rio, Cecilia saltou em terra; e seu companheiro escolheu uma sombra onde ella repousasse.

—Espera aqui; Pery já volta.

—Onde vais? perguntou a menina inquieta.

—Ver fructos para ti.

—Não tenho fome.

—Tu os guardarás.

—Pois bem; eu te acompanho.

—Não; Pery não consente.

—E porque? Não me queres junto de ti?

—Olha tuas roupas; olha teus pés, senhora; os espinhos do cardo te offenderião.

Com effeito Cecilia estava vestida com um ligeiro roupão de cambraia; e seu pézinho que descansava sobre a relva, calçava um borzeguim de seda.

—Então me deixas só? disse a menina entristecendo.

O indio ficou um momento indeciso; mas de repente sua physionomia expandio-se.

Cortou a haste de um iris que se balançava ao sopro da aragem, e apresentou a flôr á menina.

—Escuta, disse elle. Os velhos da tribu ouvirão de seus pais, que a alma do homem quando sahe do corpo, se esconde n'uma flôr, e fica alli até que aave do céovem busca-la e leva-la bem longe. É por isso que tu vês oguanumby, saltando de flôr em flôr, beijando uma, beijando outro; e depois batendo as azas e fugindo.

Cecilia, habituada á linguagem poetica do selvagem esperava a ultima palavra que devia fazê-la comprehender o seu pensamento.

O indio continuo:

—Pery não leva a sua alma no corpo, deixa-a nesta flôr. Tu não ficas só.

A menina sorrio, e tomando a flôr escondeu-a no seio.

—Ella me acompanhará. Vai, meu irmão, e volta logo.

—Pery não se afastará; se tu o chamares, elle ouvirá.

—E me responderás, sim?... para que eu te sinta perto de mim...

O indio, antes de partir, circulou a alguma distancia o lugar onde se achava Cecilia de uma corda de pequenas fogueiras feitas de louro, de canella, uratahy e outras arvores aromaticas.

Desta maneira tornava aquelle retiro impenetravel: o rio de um lado, e do outro as chammas que afugentarião os animaes damnihos, e sobretudo os reptis, o fumo odorifero que se escapava das fogueiras afastaria até mesmo os insectos. Pery não soffreria que uma vespa e uma mosca sequer offendesse a cutis de sua senhora, e sugasse uma gota desse sangue precioso; por isso tomára todas essas precauções.

Cecilia devia pois ficar tranquilla como se estivesse em um palacio; e de facto era um palacio de rainha do deserto esse sombrio cheio de frescura a que a relva servia de alcatifa, as folhas de docel, as grinaldas em flôres de cortinas, os sabiás de orchestra, as aguas de espelho, e os raios do sol de arabescos dourados.

A menina vio de longe o desvelo com que seu amigo tratava de sua segurança, e acompanhou-o com o olhar até o momento em que elle desappareceu no mais espesso da matta.

Foi então que ella sentio a soledade estender-se em torno e envolvê-la; insensivelmente levou a mão ao seio e tirou a flôr que Pery lhe tinha dado.

Apezar de sua fé christã, não pôde vencer essa innocente superstição do coração: pareceu-lhe, olhando o iris, que já não estava só e que a alma de Pery a acompanhava.

Qual é o seio de dezaseis annos que não abriga uma dessas illusões encantadoras, nascidas com o fogo dos primeiros raios do amor? Qual é a menina que não consulta o oraculo de um malmequer, e não vê n'uma borboleta negra a sibylla fatidica que lhe annuncia a perda da mais bella esperança?

Como a humanidade na infancia, o coração nos primeiros annos tem tambem a sua mythologia; mythologia mais graciosa e mais poetica do que as creações da Grecia; o amor é o seu Olympo povoado de deosas ou deoses de uma belleza celeste e immortal.

Cecilia amava; a gentil e innocente menina procurava illudir-se a si mesma, attribuindo o sentimento que enchia sua alma a uma affeição fraternal, e occultando, sob o doce nome de irmão, um outro mais doce que titillava nos seus labios, mas que seus labios não ousavão pronunciar.

Mesmo só, de vez em quando um pensamento que passava no seu espirito, incendia-lhe as faces de rubor, fazia palpitar-lhe o seio e pender mollemente a cabeça, como a haste da planta delicada quando o calor do sol fecunda a florescencia.

Em que pensava ella, com os olhos fitos no iris, que o seu habito bafejava, comas palpebras meio cerradas e o corpo reclinado sobre os joelhos?

Pensava no passado que não voltaria; no presente que devia escoar-se rapidamente; e no futuro que lhe apparecia vago, incerto e confuso.

Pensava que de todo o seu mundo só lhe restava um irmão de sangue, cujo destino ignorava, e um irmão d'alma, em que tinha concentrado todas as affeições que perdera.

Um sentimento de tristeza profunda annuviava seu semblante, lembrando-se de seu pai, de sua mãi, de Isabel, de Alvaro, de todos que amava e que formavão o universo para ella; então o que a consolava era a esperança de que os dous unicos corações que lhe restavão não a abandonarião nunca.

E isto a fazia feliz; não desejava mais nada; não pedia a Deos mais ventura do que a que sentiria vivendo junto de seus amigos e enchendo o futuro com as recordações do passado.

A sombra das arvores já beijava as aguas do rio, e Pery ainda não tinha voltado; Cecilia assustou-se, e, temendo que não lhe tivesse succedido alguma cousa, chamou por elle.

O indio respondeu de longe, e pouco depois appareceu entre as arvores; o seu tempo não tinha sido inutilmente empregado, a julgar pelos objectos que trazia.

—Como tardaste!... disse-lhe Cecilia erguendo-se e indo ao seu encontro.

—Tu estavas socegado; Pery aproveitou para não te deixar amanhã.

—Amanhã só?

—Sim, porque depois chegaremos.

—Aonde? perguntou a menina com vivacidade.

—Aos campos dos Goytacazes, á cabana de Pery, onde tu mandarás a todos os guerreiros da tribu.

—E depois, como iremos ao Rio de Janeiro?

—Não te inquietes; os Goytacazes temigarasgrandes como aquella arvore que toca ás nuvens; quando elles atirão o remo, ellas voão sobre as aguas como aatyatyde azas brancas. Antes que a lua, que vai nascer, tenha desapparecido, Pery te deixará com a irmã de teu pai.

—Deixará!... exclamou a menina, empallidecendo. Tu queres me abandonar?

—Pery é um selvagem, disse o indio tristemente; não póde viver na taba dos brancos.

—Porque? perguntou a menina com anciedade. Não és tu christão como Cecy?

—Sim; porque era preciso ser christão para te salvar; mas Pery morrerá selvagem como Ararê.

—Oh! não, disse a menina, eu te ensinarei a conhecer Deus, Nossa Senhora, as suas virgens e os seus anginhos. Tu viverás comigo e não me deixarás nunca!

—Vê, senhora: a flor que Pery te deu já murchou porque sahio de sua planta; e a flôr estava no teu seio. Pery na taba dos brancos, ainda mesmo junto de ti, será como esta flôr; tu terás vergonha de olhar para elle.

—Pery!... exclamou a menina offendida.

—Tu és boa; mas todas as que têm a tua côr não têm o teu coração. Lá, o selvagem seria um escravo dos escravos; e quem nasceu o primeiro póde ser teu escravo; mas é senhor dos campos, e mando aos mais fortes.

Cecilia, admirando o reflexo de nobre orgulho que brilhava na fronte do indio, sentio que não podia combater a sua resolução dictada por um sentimento elevado. Reconheceu que havia no fundo de suas palavras uma grande verdade, que o seu instincto adivinhava; ella tinha a prova na revolução que se operára no seu espirito, vendo Pery no meio do deserto, livre, grande, magestoso com um rei.

Qual não seria pois a consequencia dessa outra transição, muito mais brusca? N'uma cidade, no meio da civilisação, o que seria um selvagem, senão um captivo, tratado por todos com desprezo?

No intimo de sua alma quasi que approvava a resolução de Pery; mas não podia afazer-se á idéa de perder seu amigo, seu companheiro, a unica affeição que talvez ainda lhe restava no mundo.

Durante esse tempo, o indio preparava a simples refeição que lhes offerecia a natureza. Deitou sobre uma folha larga os fructos que tinha colhido: erão os aracás, os jambos corados, os ingás de polpa macia, os cocos de varias especies.

A outra folha continha favos de uma pequena abelha, que fabricára a sua colmeia no tronco de uma cabuiba, de sorte que o mel puro e claro tinha perfumes deliciosos: dir-se-hia mel de flôres.

O indio tornou concava uma palma larga e encheu-a com o succo do ananaz, cuja fragrancia é como a essencia do sabor: era o vinho que devia servir ao banquete frugal.

N'uma segunda palma tambem concava, apanhou a agua crystallina da corrente que murmurava a alguns passos; devia servir para Cecilia lavar as mãos depois da refeição.

Quando acabou esses preparativos que elle fazia com uma satisfação inexprimivel, Pery sentou-se junto da menina, e começou a trabalhar n'um arco de que precisava. O arco era sua arma favorita, e sem elle, embora possuisse a clavinha e as munições que por precaução deitára na canôa para servirem a D. Antonio de Mariz, não tinha tranquillidade de espirito e confiança plena na sua agilidade.

Reparando, porém, que sua senhora não tocava nos alimentos, ergueu a cabeça e vio o rosto da menina banhado de lagrimas, que cahião em perolas sobre os fructos, e os rociavão como gotas de orvalho.

Não era preciso adivinhar, para conhecer a causa dessas lagrimas.

—Não chores, senhora, disse o indio afflicto; Pery te fallou o que sentia; manda, e Pery fará a tua vontade.

Cecilia olhou-o com uma expressão de melancolia que partia a alma.

—Queres que Pery fique comtigo? Elle ficará; todos serão seus inimigos; todos o tratarão mal; desejará defender-te e não poderá; quererá servir-te e não o deixarão; mas Pery ficará.

—Não, respondeu Cecilia; não exijo de ti esse ultimo sacrificio. Deves viver onde nasceste, Pery.

—Mas tu vais ainda chorar!

—Vê, disse a menina enxugando as lagrimas; estou contente.

—Agora toma uma fructa.

—Sim; jantaremos juntos, como jantavas outr'ora no meio das mattas com tua irmã.

—Pery nunca teve irmã.

—Mas tens agora, respondeu ella sorrindo.

E como uma filha das florestas, uma verdadeira americana, a gentil menina fez a sua refeição partilhando-a com seu companheiro, e acompanhando-a dos gestos innocentes e faceiros que só ella sabia ter.

Pery admirava-se da mudança brusca que se tinha operado em sua senhora, e no fundo do seu coração sentia um aperto, pensando que ella se consolára bem depressa com a lembrança da separação.

Mas elle não era egoista, e preferia a alegria de sua senhora a seu prazer; porque vivia antes da vida della do que da sua propria.

Depois da refeição, Pery voltou ao seu trabalho.

Cecilia, que desde o primeiro dia sentia-se abatida e languida, tinha recobrado um pouco de sua vivacidade e gentileza dos bons dias.

O rosto mimoso conservava ainda a sombra melancolica que lhe deixarão impressas as scenas tristes de que fora testemunha, e sobretudo a ultima desgraça que a tinha privado de seu pai e de sua mãi.

Mas essa mágoa tomava nas suas feições uma expressão angelica, e tal mansuetude e suavidade que dava novo encanto á sua belleza ideal.

Deixando seu companheiro distrahido com a sua obra, chegou á beira do rio e sentou-se junto de uma moita de uvaias, á qual estava amarrada a canôa.

Pery viu-a afastar-se, e, sempre seguindo-a com os olhos, continuou a preparar a vergontea que devia servir-lhe de arco, e as cannas selvagens, ás quaes o seu braço ia dar o vôo da ave altaneira.

A menina com a face apoiada na mão e os olhos postos na correnteza do rio, scimava; ás vezes as palpebras cerravão-se; os labios se agitavão imperceptivelmente; nesses momentos parecia que conversava com algum espirito invisivel.

Outras vezes, um doce sorriso despontava nos seus labios e desfazia-se logo, como se o pensamento que viera pousar ali voltasse a esconder-se no fundo do coração, donde se tinha escapado.

Por fim ergueu a fronte com o meneio de rainha, que ás vezes tomava a sua cabecinha loura, á qual só faltava o diadema; a physionomia mostrou uma expressão de energia, que lembrava o caracter de D. Antonio de Mariz.

Tinha tomado uma resolução; uma resolução firme, inabalavel, que ia cumprir com a mesma força de vontade e coragem que herdára de seu pai, e dormia no fundo de sua alma, para só revelar-se nas occasiões extremas.

Levantou os olhos ao céo, e pedio a Deos um perdão para uma falta, e ao mesmo tempo uma esperança para uma boa acção que ia praticar; sua oração foi breve, mas ardente e cheia de fervor.

Emquanto isso se passava, Pery, vendo que as sombras da terra já se deitavão sobre o leito do Parahyba, conheceu que era tempo de partir, e preparou-se para continuar a viagem.

No momento em que levantava-se, Cecilia, correu para elle, e collocou-se em face, de modo a lhe occultar a vista do rio.

—Tu sabes? disse ella sorrindo; tenho uma cousa a pedir-te.

Esta só palavra bastava para que Pery não visse mais nada senão os olhos e os labios de sua senhora, que ião dizer-lhe o que ella desejava.

—Quero que apanhes muito algodão para mim e me tragas uma pelle bonita. Sim?

—Para que? perguntou o indio admirado.

—Do algodão fiarei um vestido; da pelle tu cobrirás os meus pés.

Pery, cada vez mais admirado, ouvia sua senhora sem comprehendê-la:

—Assim, disse a menina sorrindo, tu me deixarás acompanhar-te, os espinhos não me farão mal.

O espanto do indio tinha-o tornado immovel, mas de repente soltou um grito, e quiz precipitar-se para o rio.

A mãozinha de Cecilia apoiando-se no seu peito, reteve-o.

—Espera!

—Olha; respondeu o indio inquieto apontando o rio.

A canôa desprendida do tronco a que estava amarrada resvalava á discrição das aguas, e, gyrando sobre si, desapparecia levada pela correnteza.

Cecilia depois de olhar se voltou sorrindo:

—Fui eu que soltei!

—Tu senhora! Porque?

—Porque não precisamos mais della.

Fitando então no seu amigo os lindos olhos azues, disse com o tom grave e lento que revela um pensamento profundamente reflectido e uma resolução inabalavel.

—Pery não póde viver junto de sua irmã na cidade dos brancos; sua irmã fica com elle no deserto, no meio das florestas.

Era essa a idéa que ella ha pouco acariciava no seu espirito, e para a qual tinha invoeado a graça divina.

Não foi sem algum esforço que ella conseguio dominar os primeiros temores que a assaltárão, quando encarou em face essa existencia longe da sociedade, na solidão, no isolamento.

Mas qual era o laço que a prendia ao mundo civilisado? Não era ella quasi uma filha desses campos, criada com o seu ar puro e livre, com as suas aguas crystallinas?

A cidade lhe apparecia apenas como uma recordação da primeira infancia, como um sonho do berço; deixara o Rio de Janeiro aos cinco annos, e nunca mais alli voltára.

O campo, esse tinha para ella outras recordações ainda vivas e palpitantes; a flor da sua mocidade tinha sido bafejada por essas auras; o botão desatára aos raios desse sol esplendido.

Toda a sua vida, todos os seus bellos dias, todos os seus prazeres infantis vivião alli, fallavão naquelles échos da solidão, naquelles murmurios confusos, naquelle silencio mesmo.

Ella pertencia, pois, mais ao deserto do que á cidade; era mais uma virgem brazileira do que uma menina cortezã; seus habitos e seus gostos prendião-se mais ás pompas singelas da natureza, do que ás festas e ás galas da arte e da civilisação.

Decidio ficar.

A unica felicidade que ainda podia gozar neste mundo, depois da perda de sua familia, era viver com os dous entes que a amavão; essa felicidade não era possivel; devia escolher entre um delles.

Ahi o seu coração foi impellido pela força invencivel que o arrastava; mas depois, envergonhando-se de ter cedido tão depressa, procurou desculpar-se a si mesma.

Disse então que entre seus dous irmãos era justo que acompanhasse antes aquelle que só vivia para ella, que não tinha um pensamento, um cuidado, um desejo que não fosse inspirado por ella.

D. Diogo era um fidalgo, herdeiro do nome de seu pai; tinha um futuro diante de si, tinha uma missão a cumprir no mundo; elle escolheria uma companheira para suavisar-lhe a existencia.

Pery tinha abandonado tudo por ella; seu passado, seu presente, seu futuro, sua ambição, sua vida, sua religião mesmo; tudo era ella, e unicamente ella; não havia pois que hesitar.

Depois Cecilia tinha ainda um pensamento que lhe sorria: queria abrir ao seu amigo o céo que ella entrevia na sua fé christã; queria dar-lhe um lugar perto della na mansão dos justos, aos pés do throno celeste do Creador.

É impossivel descrever o que se passou no espirito do selvagem ouvindo as palavras de Cecilia: sua intelligencia inculta, mas brilhante, capaz de elevar-se aos mais altos pensamentos, não podia comprehender aquella idéa; duvidou do que escutava.

—Cecilia fica no deserto!... balbuciou elle.

—Sim! respondeu a menina tomando-lhe as mãos; Cecilia fica comtigo e não te deixará. Tu és rei destas florestas, destes campos, destas montanhas; tua irmã te acompanhará!

—Sempre?...

—Sempre!.... Viveremos juntos como hontem, como hoje, como amanhã. Tu cuidas?... Eu tambem sou filha desta terra; tambem me criei no seio desta natureza. Amo este bello paiz!...

—Mas, senhora, tu não vês que tuas mãos forão feitas para as flores e não para os espinhos; teus pés para brincar e não para andar; teu corpo para a sombra e não para o sol e a chuva?

—Oh! Eu sou forte! exclamou a menina erguendo a cabeça com altivez. Junto de ti não tenho medo. Quando eu estiver cansada, tu me levarás nos teus braços. A rolinha não se apoia sobre a aza de seu companheiro?

Era preciso ver a gentileza e a garridice com que ella dizia todas essas phrases graciosas, que borbulhavão dos seus labios! A irradiação do seu olhar, a animação do seu rosto e a travessura de seu gesto fascinavão.

Pery ficou estatico diante da perspectiva dessa felicidade immensa, com a qual nunca sonhara; mas jurou de novo em sua alma que cumpriria a promessa feita a D. Antonio.

A tarde descahia; e era preciso tratar de prover aos meios de passar a noite em terra, o que seria muito mais perigoso; não para elle a quem bastava o galho de uma arvore; mas para Cecilia.

Seguindo pela margem para escolher o lugar mais favoravel, Pery soltou uma palavra de surpreza vendo a canôa que se tinha embaraçado numa dessas ilhas fluctuantes feitas pelas parasitas do rio que boião sobre as aguas.

Era o melhor leito que podia ter a menina no meio do deserto; puxou a canôa, alcatifou o fundo com as folhas macias das palmeiras, e, tomando Cecilia nos braços, deitou-a no seu berço.

A menina não consentio que Pery remasse; e a canôa deslisou docemente pelo leito do rio, apenas impellida pela correnteza.

Cecilia brincava; debruçava-se sobre as aguas para colher uma flôr de passavem, para perseguir um peixe que beijava a face lisa das ondas, para ter o prazer de molhar as mãos nessa agua crystallina, para rever a sua imagem nesse espelho vacillante.

Quando tinha brincado bastante, voltava-se para seu amigo e fallava-lhe com o gazeio argentino, mimoso chilrear dos labios travessos de uma linda menina, onde as cousas mais ligeiras e mais frivolas revestem encantos e graça suprema.

Pery estava distrahido; seu olhar fitava-se no horizonte com uma attenção extraordinaria; a inquietação que se desenhava no seu semblante era indicio de algum perigo, embora ainda remoto.

Sobre a linha azulada da cordilheira dos Orgãos, que se destacava n'um fundo de purpura e rosicler, amontoavão-se grossas nuvens escuras e pesadas, que, feridas pelos raios do occaso, lançavão reflexos acobreados.

Dahi a pouco a serrania desappareceu envolta nesse manto côr de bronze, que se elevava como as columnas e abobadas de stalactites que se encontrão nas grutas das nossas montanhas. O azul puro e risonho que cobria o resto do firmamento contrastava com a cinta escura, que ia ennegrecendo gradualmente á medida que a noite cahia.

Pery voltou-se.

—Tu queres ir para terra, senhora?

—Não; estou tão bem aqui! Não foste tu que me trouxeste?

—Sim; mas...

—O que?

—Nada; pódes dormir sem receio!

Elle tinha-se lembrado que entre dous perigos o melhor era preferir o mais remoto; aquelle que ainda estava longe e talvez não viesse.

Por isso resolveu não dizer nada a Cecilia, e conservar-se attento e vigilante para salva-la, se o que elle temia se realisasse.

Pery havia lutado com o tigre, os homens, com uma tribu de selvagens, com o veneno; e tinha vencido. Era chegada a occasião de lutar com os elementos; com a mesma confiança calma e impassivel, esperou prompto a aceitar o combate.

Anoiteceu.

O horizonte, sempre negro e fechado, se illuminava ás vezes com um lampejo phosphorescente: um tremor surdo parecia correr pelas entranhas da terra e fazia ondular a superficie das aguas, como o seio de uma vela enfunada pelo vento.

Entretanto, ao redor tudo estava quieto; as estrellas recamavão o azul do céo; a viração aninhava-se nas folhas das arvores; os murmurios doces da solidão cantavão o hymno da noite.

Cecilia adormeceu no seu berço, murmurando uma prece.

Era alta noite; sombras espessas cobrião as margens do Parahyba.

De repente um rumor surdo e abafado, como de um tremor subterraneo, propagando-se por aquella solidão, quebrou o silencio profundo do ermo.

Pery estremeceu: ergueu a cabeça e estendeu os olhos pela larga esteira do rio, que, enroscando-se como uma serpente monstruosa de escamas prateadas, ia perder-se no fundo negro da floresta.

O espelho das aguas, liso e polido como um crystal, reflectia a claridade das estrellas, que já desmaiavão com a aproximação do dia; tudo estava immovel e quêdo.

O indio curvou-se sobre a borda da canôa, e de novo applicou o ouvido; pela superficie do rio rolava um som estrepitoso, semelhante ao quebrar-se da catadupa precipitando-se do alto dos rochedos.

Cecilia dormia tranquillamente; sua respiração ligeira resoava com a harmonia doce e subtil das folhas da canna quando estremecem ao sopro tenue da aragem.

Pery lançou um olhar de desespero para as margens que se destacavão a alguma distancia sobre a corrente placida do rio. Quebrou o laço que prendia a canôa, e impellio-a para a terra com toda a força do remo, que fendeu a agua rapidamente.

Á beira do rio elevava-se uma bella palmeira, cujo alto tronco era coroado pela grande cupola verde, formada com os leques de suas folhas lindas e graciosas. Os cipós e as parasitas, engrazando-se pelos ramos das arvores vizinhas, descião até o chão, formando grinaldas e cortinas de folhagem, que se prendião ás hastes da palmeira.

Tocando a margem, Pery saltou em terra, tomou Cecilia meio adormecida nos seus braços, e ia entranhar-se pela matta virgem que se elevava diante delle.

Nesse momento, o rio arquejou como um gigante estorcendo-se em convulsões, e deitou-se de novo no seu leito, soltando um gemido profundo e cavernoso.

Ao longe o crystal da corrente achamalotou-se; as aguas frisárão-se; e um lençol de espuma estendeu-se sobre essa face lisa e polida, semelhante a uma vaga do mar desenrolando-se pela arêa da praia.

Logo todo o leito do rio cobrio-se com esse delgado sendal que se desdobrava com uma velocidade espantosa, rumorejando como um manto de seda.

Então no fundo da floresta troou um estampido horrivel, que veio reboando pelo espaço; dir-se-hia o trovão correndo nas quebradas da serrania.

Era tarde!

Não havia tempo para fugir; a agua tinha soltado o seu primeiro bramido, e, erguendo o collo, precipitava-se furiosa, invencivel, devorando o espaço como algum monstro do deserto.

Pery tomou a resolução prompta que exigia a eminencia do perigo: em vez de ganhar a matta, suspendeu-se a um dos cipós, e galgando o cimo da palmeira, ahi abrigou-se com Cecilia.

A menina, despertada violentamente e procurando conhecer o que se passava, interrogou seu amigo.

—A agua!... respondeu elle, apontando para o horizonte.

Com effeito, uma montanha branca, phosphorescente, assomou entre as arcarias gigantescas formadas pela floresta, e atirou-se sobre o leito do rio, mugindo como o oceano quando açouta os rochedos com as suas vagas.

A torrente passou, rapida, veloz, vencendo na carreira o tapir das selvas ou a ema do deserto; seu dorso enorme se estorcia e enrolava pelos troncos diluvianos das grandes arvores, que estremecião com o embate herculeo.

Depois, outra montanha, e outra, e outra, se elevarão no fundo da floresta; arremessando-se no turbilhão, lutárão corpo a corpo, esmagando com o peso tudo que se oppunha á sua passagem.

Dir-se-hia que algum monstro enorme, dessas giboias tremendas quo vivem nas profundezas da agua, mordendo a raiz de uma rocha, fazia gyrar a cauda immensa, apertando nas suas mil voltas a matta que se estendia pelas margens.

Ou que o Parahyba, levantando-se qual novo Briareo no meio do deserto, estendia os cem braços titanicos, e apertava ao peito, estrangulando-a em uma convulsão horrivel, toda essa floresta secular que nascêra com o mundo.

As arvores estalavão; arrancadas do seio da terra ou partidas pelo tronco, prostravão-se vencidas sobre o gigante, que, carregando-as ao hombro, precipitava-se para o oceano.

O estrondo dessas montanhas d'agua que se quebravão, o estampido da torrente, os trôos do embate desses rochedos movediços, que se pulverisavão enchendo o espaço de neblina espessa, formavão um concerto horrivel, digno do drama magestoso que se representava no grande scenario.

As trevas envolvião o quadro, e apenas deixavão ver os reflexos prateados da espuma e a muralha negra que cingia esse vasto recinto, onde um dos elementos reinava como soberano.

Cecilia, apoiada ao hombro de seu amigo, assistia horrorisada a esse espectaculo pavoroso; Pery sentia o seu corpinho estremecer; mas os labios da menina não soltárão uma só queixa, um só grito de susto.

Em face desses trances solemnes, desses grandes cataclysmas da natureza, a alma humana sente-se tão pequena, anihila-se tanto, que se esquece da existencia; o receio é substituido pelo pavor, pelo respeito, pela emoção que emmudece e paralysa.

O sol, dissipando as trevas da noite, assomou no oriente; seu aspecto magestoso illuminou o deserto; as ondas de sua luz brilhante derramárão-se em cascatas sobre um lago immenso, sem horizontes.

Tudo era agua e céo.

A inundação tinha coberto as margens do rio até onde a vista podia alcançar; as grandes massas d'agua, que o temporal durante uma noite inteira vertêra sobre as cabeceiras dos confluentes do Parahyba, descêrão das serranias, e, de torrente em torrente, havião formado essa tromba gigantesca que se abatêra sobre a varzea.

A tempestade continuava ainda ao longo de toda a cordilheira, que apparecia coberta por um nevoeiro escuro; mas o céo, azul e limpido, sorria mirando-se no espelho das aguas.

A inundação crescia sempre; o leito do rio elevava-se gradualmente; as arvores pequenas desapparecião; e a folhagem dos soberbos jacarandás sobrenadava já como grandes moitas de arbustos.

A cupola da palmeira, em que se achavão Pery e Cecilia, parecia uma ilha de verdura banhando-se nas aguas da corrente; as palmas que se abrião formavão no centro um berço mimoso, onde os dous amigos, estreitando-se, pedião ao céo para ambos uma só morte, pois uma só era a sua vida.

Cecilia esperava o seu ultimo momento com a sublime resignação evangelica, que só dá a religião de Christo; morria feliz; Pery tinha confundido as suas almas na derradeira prece que expirára dos seus labios.

—Podemos morrer, meu amigo! disse ella com uma expressão sublime.

Pery estremeceu; ainda nessa hora suprema seu espirito revoltava-se contra aquella idéa, e não podia conceber que a vida de sua senhora tivesse de perecer como a de um simples mortal.

—Não! exclamou elle. Tu não podes morrer.

A menina sorrio docemente.

—Olha? disse ella com a sua voz maviosa, a agua sobe, sobe...

—Que importa! Pery vencerá a agua, como venceu a todos os teus inimigos.

—Se fosse um inimigo, tu o vencerias, Pery. Mas é Deos... É o seu poder infinito!

—Tu não sabes? disse o indio como inspirado pelo seu amor ardente, o Senhor do céo manda ás vezes áquelles a quem ama um bom pensamento!

E o indio ergueu os olhos com uma expressão ineffavel de reconhecimento.

Fallou com um tom solemne:

«Foi longe, bem longe dos tempos de agora. As aguas cahirão, e começárão a cobrir toda a terra. Os homens subirão ao alto dos montes; um só ficou na varzea com sua esposa.

«Era Tamandaré; forte entre os fortes; sabia mais que todos. O Senhor fallava-lhe de noite; e de dia elle ensinava aos filhos da tribu o que aprendia do céo.

«Quando todos subirão aos montes, elle disse:—Ficai comigo; fazei como eu, e deixai que venha a agua.

«Os outros não o escutárão; e forão para o alto; e deixárão elle só na varzea com sua companheira, que não o abandonou.

«Tamandaré tomou sua mulher nos braços e subio com ella ao olho da palmeira; ahi esperou que a agua viesse e passasse; a palmeira dava fructos que os alimentavão.

«A agua veio, subio e cresceu; o sol mergulhou e surgio uma, duas e tres vezes. A terra desappareceu; a arvore desappareceu; a montanha desappareceu.

«A agua tocou o céo; e o Senhor mandou então que parasse. O sol olhando só viu céo e agua, e entre a agua e o céo, a palmeira que boiava levando Tamandaré e sua companheira.

«A corrente cavou a terra; cavando a terra, arrancou a palmeira; arrancando a palmeira, subio com ella; subió acima do valle, acima da arvore, acima da montanha.

«Todos morrêrão. A agua tocou o céo tres sões com tres noites; depois baixou: baixou até que descobrio a terra.

«Quando veio o dia, Tamandaré viu que a palmeira estava plantada no meio da varzea; e ouvio a avezinha do céo, o guanumby, que batia as azas.

«Desceu com a sua companheira, e povoou a terra.»

Pery tinha fallado com o tom inspirado que dão as crenças profundas; com o enthusiasmo das almas ricas de poesia e sentimento.

Cecilia o ouvia sorrindo, e bebia uma a uma as suas palavras como se fossem as particulas do ar que respirava; parecia-lhe que a alma de seu amigo, essa alma nobre e bella, se desprendia do seu corpo em cada uma das phrases solemnes, e vinha embeber-se no seu coração, que se abria para recebê-la.

A agua subindo molhou as pontas das largas folhas da palmeira, e uma gota, resvalando pelo leque, foi embeber-se na alva cambraia das roupas de Cecilia.

A menina, por um movimento instinctivo de terror, conchegou-se ao seu amigo; e nesse momento supremo, em que a inundação abria fauce enorme para traga-los, murmurou docemente:

—Meu Deus!... Pery!...

Então passou-se sobre esse vasto deserto d'agua e céo uma scena estupenda, heroica, sobrehumana; um espectaculo grandioso, uma sublime loucura.

Pery hallucinado suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavão pelos ramos das arvores já cobertas d'agua, e com esforço desesperado cingindo o tronco da palmeira nos seus braços hirtos, abalou-o até ás raizes.

Tres vezes os seus musculos de aço, estorcendo-se, inclinárão a haste robusta; e tres vezes o seu corpo vergou, cedendo á retracção violenta da arvore, que voltava ao lugar que a natureza lhe havia marcado.

Luta terrivel, espantosa, louca, esvairada, luta da vida contra a materia; luta do homem contra a terra; luta da força contra a immobilidade.

Houve um momento de repouso em que o homem, concentrando todo o seu poder, estorceu-se de novo contra a arvore; o impeto foi terrivel; e pareceu que o corpo ia despedaçar-se nessa distensão horrivel.

Ambos, arvore e homem, embalançáráo-se no seio das aguas: a haste oscillou; as raizes desprendêrão-se da terra já minada profundamente pela torrente.

A cupola da palmeira, embalançando-se graciosamente, resvalou pela flôr d'agua como um ninho de garças ou alguma ilha fluctuante, formada pelas vegetações aquaticas.

Pery estava de novo sentado junto de sua senhora quasi inanimada; e, tomando-a nos braços, disse-lhe com um accento de ventura suprema:

—Tu viverás!

Cecilia abrio os olhos, e vendo seu amigo junto della, ouvindo ainda suas palavras, sentio o enlevo que deve ser o gozo da vida eterna.

—Sim?... murmurou ella; viveremos!... lá no céo, no seio de Deos, junto daquelles que amamos!...

O anjo espanejava-se para remontarão berço.

—Sobre aquelle azul que tu vês, continuou ella, Deos mora no seu throno, rodeado dos que o adorão. Nós iremos lá, Pery! Tu viverás com tua irmã, sempre!..

Ella embebeu os olhos nos olhos do seu amigo, e languida reclinou a loura fronte.

O halito ardente de Pery bafejou-lhe a face.

Fez-se no semblante da virgem um ninho de castos rubores e limpidos sorrisos: os labios abrirão como as azas purpureas de um beijo soltando o vôo.

A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia...

E sumio-se no horizonte.


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