APPENDICE

APPENDICECAPITULO PRIMEIROPROVAS MYSTICAS DO INFERNOIDa auctoridade da BibliaNinguem nega que a Biblia contém brilhantes verdades; mas essas brilhantes verdades não nos encantam por estarem na Biblia; em qualquer parte onde as vissemos, as amariamos por seu natural resplendor. Da natureza d'ellas, as encontrais nos escriptos dos antigos sabios. São taes verdades como a noiva dos Cantares: a sua belleza é toda sua, e não reflexa, e todo seu imperio lhes promana da formosura.Porém, a Biblia tambem encerra pensamentos que, pomposamente vestidos, nos tocam o espirito por inverso modo. Quanto mais os examinamos tanto mais os regeitamos. Afóra a visinhança, nada tem commum com as sympathicas verdades, entre as quaes se nos deparam. É-nos, todavia, prohibido de as distinguir,e confiar em uns com desconfiança d'outros; dizem-nos que tudo é verdadeiro, e verdadeiro com o mesmissimo titulo, não porque sejam umas cousas mais ou menos persuasivas que outras, mas porque se acham escriptas n'aquelle livro.Dispensam-nos de procurar na Biblia o cunho interior que Deus gravou na verdade para que a reconheçamos. Caracteres naturaes e distinctivos do erro podem guiar-nos em tudo; mas na Biblia não. N'outros livros é facultativo discernir o justo do injusto; para o quê temos regras certissimas, e instrumentos agudissimos; mas é peccado querer julgar a Biblia. Cumpre-nos, lendo-a, desconfiar do nosso coração, do nosso espirito, de tudo, salvo d'ella. Assiste-nos o direito de dizer, como Platão que Homero ultraja a divina magestade, quando mistura o Olympo com as paixões humanas; porém, quando a Biblia glorifica a perfidia de Jahel, e a cavillação de Judith, e o roubo e carnificina dos chananeos, e faz collaborar Deus em tantas traições e morticinios, não nos é permittido o duvidar. Se Isaias nos figura o Salvador de Israel calcando o povo como o vinhateiro esmaga a uva no lagar, foliando sobre elle e sacudindo com selvagem alegria os seus vestidos aspergidos de sangue, não seu, mas dos homens, devemos dizer:Amen!eis aqui o bom pastor, o cordeiro de Deus, a mansa victima do Calvario, o Christo na sua gloria! E quando o psalmista comparar o Senhor a um homem embriagado do vinho que lhe redobra as forças e lhe faz expedirpavorosos gritos, devemos sem escrupulo responder: Assim seja! Claro é que nenhum de nós quereria similhar-se ao vindimador sanguinolento nem ao guerreiro ebrio; ninguem ousaria assim fallar de Atila recolhido á tenda, com receio de ser ouvido; mas similhantes confrontos que envileceriam Jupiter e offenderiam o rei dos hunos, prodigalisal-os-hemos ao nosso Deus, em seu templo, attendendo a que os prophetas sabiam melhor do que nós quaes são os elogios que lhe prazem. Taes sujeitos nada diziam do seu chefe: tudo que escreviam era o espirito santo que lh'o ditava, desde os successos até ás expressões significativas d'elles. Ora ahi está por que tudo é sagrado quanto a Biblia contém, e por que tal pensamento, que n'outro livro trescalaria a impiedade, é, na Biblia, uma adoravel coisa. Ha n'isso mysterio não menos profundo que o do inferno, se tentarmos esclarecel-o; e tal mysterio, com que se quer demonstrar outro, promove discussões que o catholicismo impugnou sempre, servindo-se d'isso como arma contra os protestantes.O catholicismo diz aos protestantes: Como sabeis que a Biblia é divina? Conhecestes Moysés? Quando Deus lhe fallou do cimo da montanha, estaveis presente? Passastes a pé enxuto o mar vermelho, ou bebestes agua da rocha de Horeb? Quem vos affirmou que aquelle homem era propheta? Que provas vedes na Biblia de que não é toda ella obra de homens? Milagres? Outros livros os contam, e vos fazem rir. Verdades? Outros livros as encerram sem que as imputeisao Espirito Santo. Obscuridades? Coisa naturalissima, sendo tantas em todos os auctores, e nos vossos não menos. Quem sois vós, para que vos acreditemos, quando nos affirmaes inverosimilhanças? Não vos conhecemos. Que caução nos dais? Sois inspirados? Fazeis milagres? Vejamol-os. Não basta dizer: a Biblia é divina; é mister proval-o irrefutavelmente. O numero dos vossos partidarios não faz nada á questão. O livro dos Vedas, que se gosa do foro de divino na Asia, é tão antigo como a Biblia, e não tem menos sequazes. Se a Deus aprouvesse, communicar-se aos homens por meios naturaes, como dizeis, fal-o-hia por lances de bondade, com o fim de os unir, como filhos do mesmo pae, por que, a par e passo que melhor se conhece Deus, mais se conhecem a caridade e justiça. Como é pois que tantas nações, presumindo possuirem taes oraculos, em vez de viverem unidas, luctam discordes, erigindo altar contra altar, injuriando-se, perseguindo-se, e votando-se reciprocamente ás chammas eternas! O que as divide é as obscuridades da Biblia; não é as verdades naturaes que lá se vos deparam. Quem alumiará a escureza em que dizeis está Deus involto, e no seio da qual os homens se dilaceram, desprezando naturaes e luminosissimas verdades? Os judeus entendem as prophecias diversamente do vosso parecer; e, tão de boa fé as interpretam, que sustentam a sua opinião em desterros, carceres, fogueiras, durante seculos, fugindo, e deixando rasto de sangue por toda a parte do mundo. Qual seita protestante não arrancou da espadacontra a sua irmã? Todas tem tido martyres e verdugos. Isso não nos parece prova da divindade da Biblia. Nem sequer lhe podereis provar a authenticidade. Os originaes d'esse livro miraculoso onde param? Perderam-se, comeu-os a traça, como succede por tempo a tudo que é obra de homens. Porção consideravel d'esse antigo monumento acabou ás mãos dos hebreus, depositarios d'elle. O que nos resta são reliquias. Se capitulos inteiros, de que apenas sabemos os titulos, já não existem, quem vos auctorisa a pensar que os capitulos subsistentes não foram alterados? Estariam elles a melhor resguardo? Por quem? Por que? E como? Quem os copiou? Quem os traduziu? Quem abona a fidelidade de tantos copistas, e a intelligencia e sciencia dos traductores? Por que signaes se conhece qual é a melhor entre as copias antigas, e entre as differentes copias antigas? Em qual traducção confiaremos entre tantas diversas? Reportar-nos-hemos ao livreiro, ao impressor, ou ao editor? A quem? A mortos desconhecidos, a vivos ignorantes, ou a sabios sem missão e cuja sciencia nos é ainda problematica? Pois que venha ahi quem quizer, e mostrando um papel rabiscado exclame: eis-aqui a palavra de Deus! E sem mais nem menos ponha-se a gente de joelhos! Á vista d'isso ninguem póde ser accusado de idolatria. Se não tendes á mão outras provas da authenticidade e divindade da Biblia, todo o homem cordato regeitará a Biblia, sem salvar o Novo Testamento. O christianismo foi prégado antes da redacçãodos evangelhos, ás multidões que não sabiam ler. Quando essas prégações começaram a correr escriptas, os evangelhos eram aos cardumes; appareceram logo cincoenta attribuidos aos apostolos e aos discipulos de Jesus.Quem se entenderia n'este cháos? Quem poderia decidir que o evangelho de Thiago não era de Thiago, e que o evangelho de João era de João? Quem poderia discriminar entre o verdadeiro e o falso? Entre o de Deus e o dos homens? Quem poderia discernir e acreditar a boa copia entre as copias falsificadas de João? A coisa não era de si tão luminosa que podessemos aceital-a hoje em dia.No quarto seculo, bem perto dos tempos apostolicos, esta questão enleava gravissimos doutores, um dos quaes, testemunha de taes incertezas, Santo Agostinho, dizia que elle sem o testemunho da Egreja não prestaria fé ao verdadeiro evangelho. Não achava elle portanto nos escriptos de João, de Lucas, de Marcos, de Matheus e de Paulo a prova intrinseca da sua divindade; com mais forte razão não acharia a mesma prova intrinseca nos escriptos de Moysés, de Samuel, de Esdras e outros prophetas.Se eu não debilitei, resumindo-as, as razões com que os catholicos intentam reconduzir ao seu gremio as seitas dissidentes, expuz tudo o que tinha a expor sobre a primeira prova mystica do inferno, extrahida das Escripturas. Passemos á segunda prova que é o testemunho da Egreja.IIDa auctoridade da EgrejaDiz-nos a Egreja catholica que é preciso crêr o que ella nos ensina como se Deus nos fallasse. Quando nos annuncia que todos nós peccamos antes de nascer, e que a Virgem, mãe de Christo, nasceu sem peccado—o que se não acha no evangelho—devemos acredital-o como se o evangelho o dissesse. A Egreja supre o silencio das escripturas, interpreta os textos, umas vezes prende-se á letra, outras descobre um entendimento occulto que só ella vê, o unico verdadeiro. Como possue, com a Biblia, a tradição oral dos patriarchas, dos prophetas e dos apostolos, a nova synagoga continúa no tempo e no espaço a immortal cadêa, guardando, diz ella, o dom de prophecia e o dom dos milagres.A Egreja catholica é mais que a imagem de Jesus Christo: está consubstanciada n'elle como sua esposa. Testemunha do passado, luz do presente e do futuro, legislador infallivel, juiz sem appellação, devemos consideral-a sempre como viva incarnação do Verbo eterno. Seria a Biblia um livro duvidoso em seu texto, se ella não asseverasse a autenticidade d'elle, e duvidoso em seu espirito se não recebesse a missão de o explicar aos homens. De modo que toda a auctoridade n'estemundo, já a da razão, já a dos livros sagrados, sóme-se absorvida na soberana auctoridade d'ella.Esta segunda prova do inferno é de natureza analoga á primeira: é mysterio. Exponho-o sem o discutir. Mas os protestantes discutem-no; negam-o, reprovam-o em nome dos prophetas e dos apostolos, e milhares e centenas de milhares d'elles affrontariam a fome, o frio, a penuria, o exilio, os carceres, a tortura ordinaria e extraordinaria, o poder de Cezar e toda a casta de supplicios, com o denodo dos primitivos martyres, antes de vergar o joelho ante a Egreja—o que elles qualificariam de idolatria. Não posso abster-me de relatar algumas de suas objecções, as quaes, bem que sejam forçadas sobrenaturalmente com versiculos do Apocalypse ou das Visões de Isaias, nem por isso me parecem menos debeis.Temos, dizem, um facil meio de nos certificarmos da infallibilidade da Egreja. Perguntai-lhe o que deve fazer-se em frequentes circumstancias da vida, quando os mais doutos homens se bandeam em dous ou tres arraiaes, dizendo uns: deve fazer-se isto; não,—dizem outros—isso é pessimo—; e os terceiros sustentam que não se deve fazer nada, ainda que a inacção pareça aos outros criminosa. Pelo facto de nos prohibirem actos manifestamente culposos aos olhos da razão, já prohibidos por lei natural, pelo decalogo e pelos philosophos, isso não convence que possuam luzes milagrosas para regerem almas. O que queremos é que nos guiem no lance em que os outrosconductores nos abandonam, nos pontos em que elles se desavém, em que se calam; emfim, na conjunctura em que os homens tem grande interesse em conhecer a verdade que se lhes occulta. Venha a Egreja n'um d'estes casos. Não affrontemos com os casuistas multidão de problemas onde o nosso partido seria grande; busquemos antes, nas relações da vida civil, um só d'esses factos duvidosos, sobre os quaes a sabedoria humana está indecisa. Vá de exemplo o emprestar a juro, e exponhamos primeiro a questão muito pelo alto.Deve emprestar um homem ao seu visinho, dinheiro ou qualquer outro valor, gratuitamente? É, pelo contrario, licito haver parte dos lucros da quantia cujo uso se permitte, por tempo marcado, ao visinho? Como principio, ninguem condemna o emprestimo gratuito, o qual, á maneira da esmola, é um acto de liberalidade muito para louvar-se, mas que seria nocivo, sendo praticado sem discernimento. Todavia, alguns philosophos, e modernamente alguns caudilhos das seitas communistas, defendem que o emprestimo gratuito é o unico bem consoante á equidade natural, e que a minima usura é roubo. Estes philosophos tem sido arregimentados na peor especie de utopistas. Toda a gente sisuda recusa considerar a gratuidade do emprestimo como obrigação moral. Tal preceito usurparia á mediania económica os meios de valer ao indigente laborioso; o pae de familias não arriscaria as migalhas penosamente poupadas, se o não acoroçoasseesperança d'um beneficio adequado ao serviço que presta e aos perigos que corre. Os que nada tem caíriam, por conseguinte, em mais apertada dependencia dos que tem tudo profusamente. Nas modernas sociedades, similhante preceito multiplicaria os invejosos, multiplicando os avarentos. Feriria de esterilidade o campo da viuva, estagnaria o movimento da industria e commercio, e, pelo tanto, o desenvolvimento da riqueza e vantagens moraes que ella proporciona. O emprestimo a juro é logo geralmente admittido como justo e fertil em toda a especie de prosperos resultados. Mas surdem para logo novos obstaculos. Deve-se limitar a taxa do juro que o devedor pede ao crédor? Como se hão de avaliar os prejuizos do devedor, e os lucros conjecturaes do crédor? Ha nada mais hypothetico e variavel! Que differença entre a qualidade e os productos de duas terras convisinhas, entre tal e tal mister, entre a capacidade d'este e a d'aquelle! O juro legal, ás vezes pequenissimo, casos haverá em que seja pezado; mas, como é legal, pezará com todo seu pezo sobre os que menos lh'o podem supportar. Será elle até motivo a encarecerem os generos, e redundará em incommodo e vexame. Tal é, quando menos, a opinião de celeberrimos philosophos.Mas deve-se, como elles querem, deixar livre plenamente a vontade dos contrahentes?Cuidar-se-ha que tudo isto é mera questão de economia politica: não é verdade. Aqui, mais que tudo,militam questões moraes complicadas e de alto melindre, de interesse quotidiano e universal, questões que enliçam elevadissimos espiritos, e sobre as quaes devemos, por isso, interrogar a Egreja.Se consultamos os canones dos concilios, e nomeadamente os de Nicea, d'Arles, de Carthago e de Elvira, achamos que a Egreja condemna, em theoria, o emprestimo a juro. Na pratica, porém, tolera-o. Não insistamos na contradicção. Se é permittido o emprestimo a juro, quaes são as condições? Tem alguem direito de fixar o beneficio do devedor? Quem é? O Estado? Se é o Estado que fixa a taxa do juro, é o Estado quem definitivamente decide do que Deus concede e do que Deus prohibe, do que é e do que não é peccado, e por tanto a lei divina varia com a phantasia da lei. Se não é o Estado, é o uso da terra? Ha nada mais injusto e irregular? Que principio cumpre adoptar? Onde está o direito? Onde o abuso? Que é da regra? Não ha nenhuma? Não ha. A tal respeito é tamanha a desordem entre os theologos como entre os estadistas, e philosophos, e economistas e jurisconsultos, e entre os confessores e penitentes. Varia em cada diocese a jurisprudencia: não vamos tão longe; varia em cada parochia. Mudai de confessor, e vereis que o mesmo facto, cercado das mesmas circumstancias, muda o nome: peccado mortal, injustiça, expoliação no confessionario á direita, acto licito no confessionario á esquerda, debaixo do mesmo campanario, em nossas opiniões, e o seu facho milagroso vasquejaao pé do mesmo altar. Um parocho vos condemna e outro vos salva. Parece pois que a infallibilidade ecclesiastica é aleijada n'esta questão vital em que os ricos a invocam para tranquillisarem suas consciencias, e os pobres para satisfazerem as necessidade do corpo e as da alma, porque elles pedem de emprestimo para trabalhar, para nutrir os filhos, educal-os, casal-os, auxiliar os seus parentes velhos, e sepultal-os, e para isso é mister que achem quem lhes empreste.Quanto a materia politica, reinam as mesmas contradicções e incertezas dos negocios civis. Ha factos criminosos perante a razão, e todavia são absolvidos e até glorificados por uma parte do clero, sem excepção dos bispos, ao mesmo tempo que uma outra parte da cleresia os condemna a meia voz; mas de modo que a ouçam. A carnificina chamada deSaint Barthélemyfoi approvada em Roma e celebrada em quasi todos os pulpitos. A revocação do edito de Nantes foi approvada pelo Papa e pela maioria dos bispos. Sobejar-nos-hiam exemplos, se os quizessemos, sem ir tão longe. Por outro lado, ha factos legitimos, heroicos, louvaveis, perante a razão, e esses são malsinados e condemnados como crimes por parte do clero, sem excepção dos bispos, ao mesmo passo que outra parte do clero os approva, e ás vezes tem parte n'elles. E tambem do clero ha porção que se abstem de julgar taes actos. As ultimas insurreições da Polonia e Italia nos dão exemplo recente e ainda sanguinolento. Aquillo que um Papa censurou, e outro Papastygmatisou, outros padres applaudiram, alentaram e abençoaram! Estas diversidades de opiniões sobre successos tão graves, e culpaveis, se o são, tão admiraveis pelo contrario, se não são culpaveis, manifestam-se no secreto do tribunal da penitencia como nos escriptos e actos publicos. O confessor de Carlos IX considerou d'Orther subdito rebelde porque recusou ser assassino.O bispo de Abranches talvez negasse a absolvição ao confessor de Carlos IX. Tal italiano, injuriado por um frade, seria festejado pelo seu cura. De maneira que á vista d'uma auctoridade moral infallivel, bastantes catholicos, testemunhas d'este espectaculo, vendo para onde Roma pende, perguntam amargamente se em verdade os povos tem direitos, e meios de fazerem respeitar os seus direitos; se a desobediencia ao rei é só permittida em materia de dogma; se a liberdade, o trabalho do pensamento, da escripta e da voz não merecem ser defendidos, comtanto que vos deixem a liberdade de rezar; se ha outra patria além da Egreja; se o servilismo, já cégo, já illustrado, não é a principal virtude civica; se, emfim, n'este mundo o belprazer dos poderosos não é a suprema justiça. Estas e muitas outras perguntas tem sido contradictoriamente respondidas pela Egreja, que não sabe melhor que nós onde estão bem e mal, virtude e crime, em conjecturas solemnes e frequentes, nas quaes bem e mal, virtude e crime avultam a proporções enormes. A Egreja hesita comnosco, duvida comnosco, bandeia-see apaga-se quando entra nas veredas obscuras em que o genero humano é forçado a entrar, as quaes inevitavelmente conduzem ao céo ou ao inferno. A Egreja sabe que a Virgem foi concebida sem peccado; conhece a gerarchia dos anjos; dogmatisa onde a incerteza seria talvez prudente, e a ignorancia saudavel; porém, se procuramos regras de proceder, esteio e guia nos tempos difficeis em que parece que a infallibilidade vai resplandecer, activar-se e resolver a questão, a Egreja perturba-se, balbucia, contradiz-se e desampara-nos á discrição.Como é então que ella prova a sua infallibilidade? Prohibe-nos de esquadrinhar na Biblia as regras da nossa fé, allegando que a Biblia é livro inintelligivel para nós. E, se lhe pedimos a razão d'isto, abre o livro que incessantemente lemos, esse mesmo livro cuja authenticidade e sentido só ella garante e explica. É ahi que ella pretende mostrar-nos a prova que lhe pedimos; mas nós sustentamos que ahi não ha tal prova. Além d'isso, se é mister crêr primeiro na Egreja quem houver de crêr nas Escripturas e entendel-as, que argumento é esse? Póde qualquer, em um processo, invocar contra o seu adversario um documento de que elle só se constitue interprete e juiz? Contente-se pois a Egreja em affirmar que é infallivel, mas abstenha-se de o provar.Eu por mim não creio. A infallibilidade é um attributo incommunicavel de Deus como a eternidade e a omnipotencia. Se o Papa e os bispos fossem infalliveis,não bastaria respeital-os, seria mister adoral-os. Disso nos defenda Deus! São homens como nós. E, quando o Espirito Santo nos illustra, somos como similhantes aos candelabros do templo, e, sem o querer, confundimos a nossa sombra com a luz que dardejamos em redor.Assim fallam os protestantes. Não digo que taes discursos sejam concludentes: não me compete a mim julgal-os; mas d'este capitulo e do anterior inferimos uma conclusão cuja justiça creio que ninguem contesta.IIIConclusão do que fica ditoA conclusão que eu desejaria tirar do que fica dito é que a Biblia e a Egreja, estas duas auctoridades que se invocam em favor das penas eternas, não tem o mesmo valor no conceito de toda a gente. Um protestante renegaria o inferno, apezar dos anathemas dos Concilios, se a Escriptura lh'o não annunciasse; mas um catholico renegaria o inferno, apezar da lucidez dos textos biblicos, se aprouvesse á Egreja attribuir áquelles textos, segundo o parecer de Origenes, um sentido visivelmente conforme á justiça e bondade de Deus.Tanto em Genebra como em Roma crê-se no inferno; mas por diversas razões; e o que parece argumento decisivo para metade dos christãos, não têm amesma efficacia para a outra metade. Conformam-se sobre a verdade d'um prodigio, recusando de ambas as partes uma das duas testemunhas que o affirmam; os de Genebra considerando a Egreja um professorado do erro; os de Roma sustentando que a Biblia desencaminha aquelles que exclusivamente se fiam n'ella.CAPITULO SEGUNDOResposta a uma objecçãoFallei da multidão dos condemnados, e tirei d'esse facto, contra a eternidade das penas, inferencia que me parece valiosa. É certo que a maioria dos homens seja condemnada? Os fieis, que estudaram este assumpto em livros modernamente escriptos, crêem que não, e vos dizem que os philosophos maliciosamente assacaram aquella opinião aos seus adversarios para os tornar odiosos. Não duvidam que ha inferno; não os inquieta a natureza do supplicio, mas sim a quantidade dos suppliciados. Mil, cem mil, um milhão d'almas a padecerem eternamente parece-lhes coisa muito de crêr-se, moralissima, certissima. Não póde suppôr-se que o inferno esteja vasio; aliás melhor seria supprimil-o. Um milhão ou alguns milhões d'almas,se Deus as abandona, tambem ellas abandonam a Deus; é bastante para exemplo, é bastante para justiça; porém metade do genero humano e mais de metade, é excesso, é monstruoso: não se crê. Não é isso, quer-nos parecer, a boa nova que celebraram ha mil e oito centos annos os magos e os pastores nos caminhos de Bethelem. Mas os velhos dogmas de Israel por tal arte andam baralhados com as verdades christãs, e tanto a primitiva Egreja com elles se identificou formando um corpo doutrinal, que um homem instruido não póde hoje, sem risco de heresia, tentar separal-as.Sem embargo, opera-se no seio do christianismo um singular trabalho, de que o clero não dá tento, bem que a iniciativa de ha muito proceda d'elle mesmo. Este trabalho de que as obras de Sanchez, de Escobar, do padre Annat, do padre Lémoine, e d'outros casuistas, tão agramente invectivados por Pascal, eram apenas indicios, tende a neutralisar cada vez mais a acção n'outro tempo tão vigorosa dos elementos hebraicos do christianimo. Sentimentos, que debalde quereriamos suffocar, rompem á luz; o coração reclama, bem que timidamente, seus direitos; a consciencia, constrangida debaixo do pezo de abafadoras tradições, não repulsa, mas a tremer levanta do peito o fardo, como para respirar. Verdade é que ainda nos pregam os velhos mysterios da synagoga; mas, ao mesmo tempo, cuidam em dissimular-lhes as consesequencias logicas relativas á vida futura, e—notabilissimo caso!—não insistem nas consequencias praticas,no tocante á vida presente. Este ultimo facto, muito significativo, provém dos casuistas. Foram elles quem primeiro quiz achanar aos homens a estrada do céo. Como não soubessem conciliar as necessidades da vida terrestre com as da fé, e não ousassem embarrar pelo inferno, com medo de torriscar os dedos, derruiram audazmente a moral. Graças lhes sejam dadas, que isto de peccados mortaes está por um fio! O assassino, mal lavou as mãos, e o perjuro mal lavou a lingua, são admittidos ao sagrado banquete, O pulpito continua a fuzilar trovoadas minacissimas; é ainda Isaias e S. Paulo a bradarem; mas, no tribunal da penitencia, os coriscos apagam-se; quem confessa é o tolerante padre Lémoine, que perfeitamente percebe que uma duqueza, uma capitalista, uma burgueza opulenta não podem viver de favas, nem trajar de serguilha, nem dormir no taboado, nem imitar sequer de longe a perfeição negativa das santas reclusas, cujas virtudes andam celebradas nos pulpitos. Descobrir, porém, no complexo dos actos dos homens, o limite exacto do dever, isso é desvario: ou prohibir, ou permittir tudo quando se renuncia e dirigir verdadeiramente as peccadoras mundanas para o antigo ideal da abstinencia ascetica. O theatro, o baile, os hombros nús, a maledicencia, as prodigalidades do luxo, a parcimonia das esmolas, a lisonja, a ambição, a cupidez, a ingratidão, as desavenças, tudo passa, tudo é venial, nada impede da desobriga. Nem o juiz nem o penitente conhecem regra. O mais virtuoso e austero padrepóde ser integerrimo no pulpito; mas, no confessionario, treme, receia afugentar a alma que o procura; lembra-lhe o Bom Pastor, o céo promettido ao ladrão que se accusa, o perdão da adultera, e involuntariamente contribue a facilitar as quedas, e as reincidencias, facilitando a expiação. Pois os primitivos christãos não tinham ouvido fallar do bom ladrão, e da mulher adultera, e da parabola do Bom Pastor? Comparem com a disciplina de hoje a de então que eu já referi. Se o padre Lémoine lesse nas catacumbas um capitulo daDevoção commoda, o congresso de fieis e martyres surgiria em pezo contra tal innovador, e o bispo excommungal-o-hia. Tenho minhas duvidas que o proprio S. Francisco de Salles o tractasse bem. É que os primitivos christãos nunca perdiam d'olho Satanaz, peccado original, inferno, e conformavam o seu procedimento, não a tal artigo de fé ageitada a dar alentos á esperança, mas ao complexo tremendo da doutrina que aprendiam.A harmonia que primordialmente se deu entre a disciplina da Egreja e as crenças da Egreja, está por tanto desde muito desacorde. Port-Royal tentou afinal-a. Foi esse o segredo da sua lucta com os casuistas mas os casuistas venceram. A contenda acabou.Meditemos agora nas consequencias logicas dos nossos dogmas, relativos á outra vida, dos esforços que debalde se envidam para lhes amaciar as asperezas e edulcorar-lhes o travor, com medo de que lhes não atirem fóra copo e remedio.Em louvor dos theologos modernos, declaro que poucos ha que possam encarar impassiveis a multidão de pagãos e hereges que regorgita do inferno—multidão que sem intercadencia augmenta com muitos milhares d'almas cada dia, muitos milhares cada anno. Elles, pois, escondem as vinganças divinas, em vez de nol-as mostrarem, no seu trilho aterrador á maneira dos antigos. Quando cuidam em nos animar, tambem elles se animam em seus proprios quebrantamentos, sentindo que a piedade desborda e arrasta a fé; e não só a piedade, mas tambem a justiça.S. Thomaz de Aquino, incapaz de ceder unicamente á piedade, estacou diante d'esse problema de justiça, e diligenciou, a seu modo, resolvêl-o, por feição que podesse, sem offensa da fé, contemporisar com a sua razão.Imaginou um justo fóra da Egreja, ignorando as verdades salvadoras, e predestinado ao inferno por culpa de sua ignorancia. Ora um anjo celestial, quando este justo agonisava, desceu a revelar-lhe a verdade, dando-lhe assim entrada na Egreja por uma porta falsa, e mantendo por este theor milagrosamente a inteireza dos dogmas. Pouco importava a S. Thomaz, tão grande e inflexivel logico, salvar as regras explicitamente formuladas pelos concilios; e, se taes regras podiam ferir a justiça, lá estavam os anjos para concilial-as. O que elle queria era salvar os gentios.Mas, hoje em dia, os theologos avantajam-se a S. Thomaz. Já não ha recorrer a milagre. Dizem que, seentre infieis, e até entre os hereticos, ha pessoas honestas, Deus bem as vê: essas pertencem á Egreja, não corporal, mas espiritualmente; creem implicitamente as verdades que ignoram, e basta isso: são catholicos lá do seu feitio. É pois prohibido condemnar a esmo gentios e hereges, cegos innocentes, virtuosos transviados, erros invenciveis[7]. Já se diz que ninguem é condemnado, tirante os máos, qualquer que seja a religião que professem.Bella é a linguagem, mas tambem é evidentemente illusoria; por onde vamos vêr que tal piedade, bem que sincera, não póde aproveitar a alguem. Vós não condemnais todos os gentios nem todos os hereges; é verdade. Os dogmas que nos ensinais é que os condemnam. Ora, se, acaso, os cinco dogmas tirados do judaismo fossem falsos, bem sabemos que não estava em vossa alçada condemnar, ainda que o quizesseis, um só idolatra, por peor que houvesse sido; mas, ao invez, se taes dogmas são verdadeiros, tambem sabemos que não cabe em vossa alçada salvar um só gentio nem um só herege, ainda que o quizesseis. Mais: em virtude de taes dogmas, é de fé que o homem nasce máo, e que o crime que lhe mancha o berço, explica,mas não lhe justifica os erros da vida. Irroga-se culpa a quem se liga á religião de sua familia e patria, quando tal religião não é a genuina. Se assim não fosse, vêde bem que melhor seria ter nascido sarraceno que catholico; que um turco salvar-se-hia procurando de boa fé, como os patriarchas, prazeres que a nós nos perdem para sempre; e o maximo das bençãos seria nascer e morrer selvagem, n'alguma ilha incognita, longe dos formidaveis clarões que nos privam de desculpar com a ignorancia os nossos peccados. Fossem embora salvas alguns milhares de creaturas apenas entre os billiões d'ellas que morrem em peccado original, uma duzia só que fosse, seria que farte para argumentar que ha salvação fóra da Egreja, e sem algum dos soccorros extraordinarios de que ella dispõe. Estes theologos tolerantes não reparam que inutilisam a revelação, que despojam a Egreja das chaves do céo, ou, pelo menos, indiciam que ha chaves em duplicado para lá entrar, e que judeu, musulmano, lutherano, philosopho, todo homem honrado tem uma chave. A opinião assim pelo claro não ousariam elles exhibil-a, e, a bem dizer, tudo aquillo não é opinião sua; é, melhor ainda, expansão de alma que aspira á verdade e justiça; é protesto da humanidade christã contra o judaismo, protesto mais revelante por não ser voluntario, nem saber-se a si mesmo comprehender. O raciocinio não é o essencial do protesto, como em S. Thomaz d'Aquino; quasi que não é parte em taes discursos, pois que os discursadores não concluemcomo deviam, se raciocinam; e não podem fundamentar a sua argumentação sobre ensino authentico da egreja[8]. É mister, por desgraça, renunciar á orthodoxia ou condemnar despiedosamente mais de tres quartos do genero humano. O justo, estranho á Egreja, a quem nos prohibem de offerecer a mão, não existe aos olhos da fé: é um phantasma que avulta á vossa piedade. Se ha ignorancia involuntaria e invencivel, não é a do idiota? Ora ahi está! o idiota, o cretino, o aborto sem olhos nem ouvidos peccaram no ventre materno, peccaram mortalmente, e só pelo baptismo conseguirão justificar-se. Como é então que ha de subtrahir-se ás tentações e ás sincadilhas de que tanto a custo se escapam os filhos da Egreja, um ente egualmente viciado em sua natureza, mas mais livre, se envelheceu sem revelação e sacramentos? Onde ganhará elle amor ao bem e vigor para pratical-o? Tal hypothese é heresia por atacado; só poderemos aceital-a como excepção milagrosa; e, n'essa qualidade, nãovingaria dulcificar o sentir que esperta em nossa alma o perpetuo inferno, onde, ha seis mil annos, se vão acamando as gerações humanas.[7]Veja entre outras obras osEstudos a respeito do Christianismopor Nicolas, tom. III, c. 14. Este livro foi approvado, louvado e recommendado pela auctoridade ecclesiastica, e nomeadamente por Mons. Cardeal Donnet, Arceb. de Bordeaux. O padre Lacordaire protegeu-o assignaladamente, considerando-o a mais completa e melhor apologia da fé catholica.[8]Este ensino multiplicou-se com diversos aspectos: peccado original; necessidade do baptismo; ha uma só fé e um só baptismo; fóra da egreja não ha salvação; necessidade dos sacramentos da penitencia, de confirmação, etc., como auxiliares de nossas enfermidades, depois do baptismo, necessidade e conjunctamente insufficiencia da prégação e da leitura; inefficacia das boas obras sem os sacramentos; manhas e poderio de Satan; impossibilidade de viver e morrer em estado de graça fóra da Egreja que é a dispenseira das graças, etc., etc. Encheriam um volume os decretos, promulgados áquelle intento, e os anathemas fulminados contra quem houvesse dito ou viesse a dizer o contrario d'esses decretos.CAPITULO TERCEIRODA DESCIDA DE CHRISTO AOS INFERNOSDescenditad Inferos; tertià die resurrexit à mortuis; ascendit ad c[oe]los, sedet ad dexteram Patris, indè venturus est judicare vivos et mortuos.Credo in Spiritum sanctum, in sanctam Ecclesiam catholicam et apostolicam, in communionem sanctorum, in remissionem peccatorum, carnis ressurrectionem et vitam æternam. Amen.(Symb. apostolorum).IO Filho do homem, expedindo sobre a cruz sua vida mortal, desceu aos infernos. Não é o Evangelho que o refere; é um documento não menos venerado, o qual, com oPatereAve, é parte das orações que a Egreja ensina aos seus filhos: documento, ao que parece, anterior á redacção dos Evangelhos e resumo da fé apostolica: é oCredo.[9]Jesus morto vai annunciar aos mortos a boa nova:Satanaz vencido, os peccadores resgatados, o céo aberto aos que oram, aos que choram, aos que soffrem. Para estes exclusivamente é que seu sangue aspergiu o chão do calvario. Jesus não dispensa da penitencia os que morreram culpados; mas dá-lhes a esperança que as antigas crenças deixavam luzir na terra sómente, e apagavam no tumulo.Sei de sobra que os theologos querem que o inferno, visitado por Christo, não seja o verdadeiro inferno; mas sim o limbo, o purgatorio, os seis primeiros circulos da Géhenna, e não o ultimo. Esta distincção, porém, não está noCredo. O inferno ahi diz-se com todas as letras, e, mais pelo claro,os infernos, como quem indistinctamente diz todos os logares de soffrimento onde podem penar os mortos.«Desceu aos infernos, diz oCredo, e ao terceiro dia resurgiu dos mortos.»Quem eram esses mortos com quem Jesus passou trez dias? A interpretação natural é—todos os homens que, desde o principio do mundo, haviam desparecido de sobre a terra; não só patriarchas e prophetas, senão todos os judeus; não só todos os judeus, mas todos os gentios. Eis aqui, entendidas ao natural, o que dizem as palavras: «Desceu aos infernos, e habitou trez dias com osmortos.» Quereis dar áquellaspalavras uma accepção espiritual? Temos ainda mais. luz na questão. Os mortos espirituaes são os condemnados, os que eram considerados em perpetua privação dos resplendores eternos. Não são os prophetas, os patriarchas, os eleitos, os santos, nem ainda alguns d'esses que por peccados haviam merecido as penas temporarias, por que não estavam espiritualmente mas só carnalmente mortos, crendo, esperando, amando, vivendo. Seja qual for a interpretação adoptada, leva-nos a concluir o inverso do que os theologos affirmam. Do citado trecho doCredocolhe-se que Jesus desceu, não só ao limbo, mas tambem ao inferno, não só aos patriarchas que esperavam sua vinda,—explicação acanhada e violenta dos hebreus conversos e dos christãos judaisantes—mas aos mortos de todos os tempos e paizes, aos peccadores que a lei antiga e antigas crenças haviam ferido de morte espiritual, eterna, incuravel, da verdadeira morte. O Redemptor, o Crucificado, o Messias visitou-os, mostrou-se-lhes, e elles rejubilaram ao verem-no e choraram lagrimas d'amor d'aquelles olhos aridos. Jesus não destruiu o inferno; converteu-o em purgatorio. Do inferno judaico e gentilico fez o inferno christão, inferno que corrige, inferno onde ha o chorar sem blasphemar, onde ha o soffrer sem desesperança nem rancores.Outras luzes póde dar o symbolo dos apostolos ás almas piedosas. Mais abaixo, diz: «Creio na vida eterna» mas não diz: «Creio na morte eterna.» Este horrivel dogma não se lê no credo apostolico. Se ahi sefalla em infernos é para nos ensinar que Jesus Christo lá foi, e de lá sahiu, mas como devia sahir, vivo, glorioso, triumphante e bemdito.Diz finalmente oCredoque Christo subiu ao céo, onde está sentado á dextra do Padre, d'onde virá a julgarvivos e mortos.Quaes vivos? os justos? Quaes mortos? os peccadores, os ultimos povoadores da terra e os antigos habitantes d'aquellas tenebrosas mansões onde a esperança radiou com o Christo quando tudo foi consummado na Cruz? Não é possivel que uma só palavra tenha dois sentidos com tão breve intervallo. Quereis que os mortos d'entre os quaes resurgiu ao fim do terceiro dia sejam os antigos reprobos? Tambem eu quero. Quereis antes inferir de taes palavras que os nossos avós judeus e os pagãos, quantos então eram mortos, viveriam, n'outra parte, jubilosos ou suppliciados? Tambem eu quero. Adoptai um sentido, ou outro, ou ambos juntamente, que a mim não se me dá d'isso. O que ha de sempre forçosamente reconhecer-se é que a phrase representa a mesma idêa significada uma ou duas linhas abaixo. Será, conseguintemente, preciso confessar que os mortos visitados por Christo são os mesmos que elle virá julgar quando julgar os vivos. Direi pois logo que na descida aos infernos, Jesus morou trez dias não entre os justos esperançados, mas entre os condemnados á desesperação para os ungir de seu sangue, consolal-os e salval-os. E, senão, para que os visitou?Faz-se mister prescindir de entender qualquer palavra divina ou humana, se doCredose colhe o dogma das penas eternas. Não está lá: o contrario é que está. O veneravel texto é mil vezes mais luminoso que todas as glosas dos doutores.[9]Conta-se que os apostolos, antes de se apartarem para levar aos gentios a boa nova, trez annos pouco mais ou menos depois da morte do divino Mestre, se reuniram e compozeram oCredo, elenco das verdades cujo ensino lhes fôra confiado. O Evangelho ainda não corria escripto. Só depois da separação, é que foi composto o de S. Matheus, que antecede a todos. O symbolo da fé apostolica tambem não andava escripto; mas ensinava-se de cór aos fieis, e por isso longo tempo se conservou na Egreja, bem como a tradição egualmente oral da sua origem.IIViveu Origenes quasi coevo dos tempos apostolicos. Toda a gente ouviu fallar da santidade de seu viver, pureza de costumes, alento nas perseguições, vasta sabedoria e raro engenho. Pois ainda assim, aquelle insigne doutor, e illustre confessor de Christo, negava as penas eternas. Acaso receberia elle a verdadeira tradição dos apostolos, ou, á força de reflectir, atinára com a genuina accepção do Evangelho? Não sei. Todavia confesso envergonhadamente que ainda não li as poucas obras restantes que tão assignalado sujeito escreveu sobre tal materia. O que mais sei é que foi condemnado, muito tempo depois que morreu, por um edito do imperador Justiniano, e anathematisado, com a porção da obra relativa ás penas eternas, por o concilio ecumenico de Constantinopla, anno 553.[10]Não se deram os bispos á canceirade provar que elle era ruim logico; declararam-o herege, que era mais summario, e por contagem de votos.É muito para notar que o primeiro concilio ecumenico de Nicea, anno 325, e o segundo de Constantinopla, anno 381, se abstivessem de decidir sobre a doutrina de Origenes, ainda nova e florecentissima, e á conta d'isso mais funesta, se por ventura escondesse perigo. Divergiam sobre o assumpto as opiniões dos padres d'aquelle tempo? Recusariam não se conciliarem? A questão confundil-os-hia? Inclino-me a crer que sim. O mais notavel documento que os dois concilios nos deixaram, denota indecisão de natureza a um tempo estranha e evidentissima: é uma profissão de fé muito particularisada, a mesma que hoje se entôa aos domingos na missa cantada nas egrejas do oriente e occidente.O concilio de Nicea, ao redigir o symbolo da sua fé, desenvolveu em certos pontos o symbolo dos apostolos; mas, quanto ao mais, abreviou aquelle antigo symbolo, e o que mais espanta é a suppressão completa do descendimento aos infernos.O concilio de Constantinopla, adoptando o symbolo de Nicea, aperfeiçoou-o, e additou-lhe alguns artigos, mas não lhe repoz a descida aos infernos.Que quer dizer esta eliminação? Desceu ou não desceu Christo aos infernos? Se desceu, por que o não dizem? Acham que é insignificante o caso? Não merecerá a pena relembral-o?Felizmente o symbolo dos apostolos subsiste, e os de Nicea e Constantinopla não vingarão desluzil-o.[10]No anno 321, Origenes foi denunciado ao Concilio de Alexandria, e interdicto do sacerdocio. S. Jeronymo attribue esta condemnação a ciumes e invejas que inspirava a eloquencia de Origenes aos Padres reunidos n'aquelle Concilio.CAPITULO QUARTOADVERTENCIA FINALIAs idêas que empreguei no discurso d'esta obra andam por tantos livros disseminadas, e prégadas de tantos pulpitos, e tão notorias e populares, que me não temo de que m'as neguem. Diligenciei exprimir claramente os dogmas, preceitos, maximas, opiniões sempre admittidas nas faculdades de theologia, nos seminarios e conventos: era acto de boa fé e tambem de prudencia; que toda minha argumentação claudicaria, se eu attribuisse aos propugnadores do inferno linguagem que não fosse a d'elles.Fui eu quem inventou a queda de Satan, o poder e maleficios da corte infernal, o peccado do Eden, e a maldição dos homens? Fui eu quem encerrou no claustro o ideal da perfeição christã? Fui o auctordas sentenças desesperadoras fulminadas contra o mundo e contra os affectos e luzes naturaes, contra o bom siso e contra a vida? Inventei eu as devotas reflexões, azadas para mirrar os corações das mães e dos filhos, e uns pensamentos afogueados que calcinam o cerebro como o alcool, embrutecendo uns, e desvairando outros em devaneios melancolicos? É culpa minha se o inferno parece coisa atroz? Não suavisei eu em vez de encarecer as pinturas conhecidas? Se é immoral, estava a meu cargo mudar-lhe a condição? Attribui eu ao padre Bohours palavras alheias, ou a S. Bernardo coisa que elle não dissesse?É verdade que eu muitas vezes poderia auctorisar-me com textos, e dizer em grego ou latim, ou italiano ou allemão, em nome d'outrem, o que expuz a meu modo. Mas que tinha eu a ganhar com esse systema? Nenhuma das idêas que discuti pertence nominalmente a este ou áquelle theologo; junta ou separadamente todas lhes pertencem: é dominio commum. Seria apoucar e abater a questão conferir a uma crença tradicional visos de opinião particular. Acato a virtude, admiro o engenho, onde quer que os encontro, até nos mesmos que me ameaçam com as penas eternas; não mal-quero por tanto a S. Gregorio, nem a S. Jeronymo, nem ao padre Nicole, nem a algum theologo morto ou vivo. Não me estive a quebrar lanças com personagens mais ou menos eminentes: que são apenas eccos de doutrinas que vogaram muito antes d'elles. Se eu tivesse em cada pagina citado um doutor, julgar-se-hiaque os outros doutores, não mencionados, depunham contra mim. Não aconteceu isso a Pascal? Nomeia elle as suas testemunhas, transcreve-lhes litteralmente as proposições, e vos remette ao volume e pagina d'onde as trasladou; pois responderam-lhe que se as proposições que elle combate estão nos livros d'onde as copiou, a culpa é dos auctores, e não da companhia que os instruiu. Claro está que eu tenho por mim auctoridades muito mais embaraçosas que os padres Petau, Penterau, Hurtado, Bille, Sanchez, Suarez, Escobard, Bauny, Molina, Reginaldo, Tannero, Filicitius e Azor. Tenho-as numerosissimas, a ponto de a mim mesmo me embaraçarem. Qual hei de escolher entre tantas? Que mais vale uma do que outra? Um capuchinho canonizado vale ou não vale um papa não canonizado, mas fallandoex-cathedrâ? E de mais um só auctor, por extremo que fosse o gráo de sua respeitabilidade, bastaria a tapar a bôcca aos altercadores? Quantos textos seria preciso adduzir para authenticar certas phrases alcunhadas de perigosas, levianas, absurdas e escandalosas? Quantos padres, papas, bispos e doutores teria eu de dispôr em batalha a meu favor? Confesso que não sei. Fui, pois, sobrio em citações, não por mingua do assumpto, mas antes por excesso. Convençam-se de que não ha linha n'este livro á qual eu não podesse cerzir, se me aprouvesse, paginas inteiras, senão volumes de annotações justificativas, hauridas nas fontes mais puras, mais frequentadas e veneradas.Similhante lavor, porém, ainda que eu o compendiasse á essencia do debate, cansaria a paciencia dos leitores, que se dispensam de tão barbaro apparato para saberem ao que devem atter-se do que lhe ensinaram desde o berço. Mas as provas de memoria as sabem; sobejam-lhes nas suas livrarias; não carecem de folhear concilios, obras de santos padres, bullarios, constituições de bispados, revelações de Santa Catharina, Santa Thereza, e outras bem-aventuradas; não se lhes faz preciso consultar Bossuet, Bourdaloue, Massillon, nem outros illustrissimos oraculos que nem sempre nos estão á mão. Mais boas de encontrar são as minhas provas: acham-se nos labios e nos ouvidos das creanças que estudam o cathecismo; acham-se em mãos de nossas irmãs, esposas, e mães, na suaImitação, noQuotidiano christão, noCombate espiritual, naVida dos Santos, noLivro d'ouro, noPensai-o-bem, e em milhares de livrinhos d'este jaez, approvados pelos bispos e universalmente manuseados.Os paladinos do inferno, se os houvesse, não ousariam, talvez, atacar as passagens d'este livro, de antemão atalaiadas d'uma guarnição formidavel de batinas, de chapeos vermelhos e de barretes; mas quem sabe se atacariam como abastardados, alterados, e erroneos os trechos que eu desprecavidamente não defendesse? Em tal caso, nada me valeria amontoar notas. Se m'as pedirem, eu lh'as darei em quantidade que lhes pareça de mais. Convenho, se quizerem, em incommodar com ellas os adversarios; mas tão sómenteos adversarios; quanto ao publico, a minha intenção não é adormecêl-o; antes eu quizera acordal-o, esclarecêl-o e agradar-lhe. Mal andaria eu se, a proposito de taes polemicas, sacudia aos olhos dos leitores a poeira dos meus livros traçados!IISe não podem accusar-me de má fé na exposição dos principios que tentei impugnar, não faltará quem me accuse de máo juiz em tudo o mais. Estejam certos que não ficará aqui. O inferno tem seus devotos que não sacrificam ás Graças, mas ás Eumenides. Bem os ouço gritar: impio! incredulo! ignorante! detestavel pensador! monstro! scelerado! por que o não prendem, e mandam ás galés! Ousar descrer das penas eternas! Que faz o ministerio publico? Onde está o carrasco? Em França já não há lenha para uma fogueira? Votamos pelo inferno, queremos que os nossos paes e os nossos filhos sejam condemnados. Ao fogo com os selvagens, idolatras musulmanos, judeus, indianos, herejes! Ao fogo com os peccadores recalcitrantes! fogo eterno com os philosophos impenitentes! Não nos esbulhem d'esta amavel crença. Que havia de ser da moral? Queremos inferno e diabo, a maldição e o mal. Se muita gente se condemna, peior é isso, mas a culpa é d'ella. Que ardam para sempre! É vontade de Deus. O teu debil sopro, ruim pensador,não apagará as chammas salutares que não corrigem os mortos, que pouco emendam os vivos, mas fazem tremer as freiras nas suas cellas e alegrar os santos no paraiso. Viva o inferno! Se se elle apagasse, haviamos de accendêl-o com os teus livros. Queremos o inferno e seus supplicios, embora lá vamos cahir com as nossas mães e com as creancinhas que riem no collo d'ellas. Sem inferno não ha fé, nem Egreja, nem religião, nem lei, nem familia, nem moralidade, não ha nada. Conservemos o inferno! É absurdo? mais um motivo.Crédo quia absurdum.Parece-te isto injusto, incredulo, impio, perverso que não queres acreditar que Deus creasse tantos entes fracos para perdel-os sem missão! Imprudente! que ousas escutar a tua consciencia, quando a tradição falla! Malvado! coração de pedra que não dás dinheiro ao Papa para lhe redourar a thiara e vais dal-o a pobres e proscriptos, e estás ahi a lastimar os billiões de creaturas que povoam o abysmo. Ó sandeu! Ó miseravel! Algum proveito colhes atacando verdades tão uteis. És como os malfeitores que quebram os lampeões. Se assim vais, arrasarás os carceres. É bem de vêr, lá tens as tuas razões para querer destruir o inferno; se fosses de melhor casta havias de crêr n'elle.IIIAdvogados do inferno, que sabeis a tal respeito? Sereis acaso mais innocentes do que eu? É verdade que sou peccador. Se todavia as minhas acções e as vossas fossem pezadas, talvez eu podesse estar a respeito do futuro tão tranquillo como vós. Mas Deus não me ha de comparar comvosco para absolver-me ou condemnar-me: será com o modêlo de perfeição que eu tenho no espirito, e que eu devêra ter copiado no decurso de minha vida. Não pratiquei—de mais o sei—todo o bem que podia; condescendi com fraquezas que vós, por ventura, não conhecestes; mas talvez que eu, sem que o soubesseis, me esforçasse e vencesse nos conflictos em que succumbistes. Eu não vos julgo, ó crentes no inferno, que encaraes sem impallidecer; eu, porém, que não creio no vosso inferno, não posso sem pavor meditar no julgamento divino. Não desespero na bondade de Deus, mas creio em sua justiça, e nutro viventissimo sentimento da perfeição evangelica, e por isso mesmo sinto grandissimo pezar de minhas culpas, e não me considero isento de expiação.Oxalá que eu podesse dar de mim melhor testemunho! Podesse eu chegar mais confiadamente ao tribunal do soberano juiz! Tivesse eu tão socegado o espirito como inculcais o vosso, ou tão puro como vósimaginais que o tendes! Quem me dera ser santo, não aos meus proprios olhos, como dir-se-ha que sois aos vossos, mas aos olhos das pessoas de bem e das multidões. Então impugnaria eu a eternidade das penas, não já com melhores razões, nem com argumentos de mais justiça, mas com a auctoridade que uma vida santa e reconhecida como tal imprime na palavra humana. Ha ahi quem se não renda ao vigor de um discurso, e se docilise á virtude ou ao renome de quem discorre.Não discutamos, pois, a minha vida, que eu não tenho que entender com a vossa. Em meu soccorro valho-me unicamente do raciocinio; desadoro outro prestigio, e não me dobro a outro poder. Refutai-me, se podeis, com razões tão claras como as minhas; mas deixemo-nos de insinuações calumniosas; nada de injurias. Isso que prova? Quando fosse verdade que todos sois pessoas virtuosas que vão direitas ao paraizo, e que eu sou máo, e o peor dos homens, sêde francos, seria isso prova de que eu argumento mal, e vós argumentais bem? Inferirieis d'ahi o que quer que seja contra a infinita misericordia de Deus? A isto é que é preciso responder, senhores. Eu por mim digo que a dôr, n'este e no outro mundo, é meio de expiação; digo que a dôr, n'este e no outro mundo, acarêa a piedade; digo que o castigo mais justo deve ter fim, e que o perdão é o fim, a corôa, a perfeição e explendor das obras da justiça; que um castigo infindo seria um castigo desarrasoado, sem escopo, semmoralidade, inutil ao culpado, ás testemunhas e ao juiz;—um acto de colera, de odio e furor—um feito sombrio e sinistro como transportes de demencia incuravel. Digo que tal crença é mal cimentada, e assim funesta em este mundo, como odiosa no outro; que nem o mal nem o castigo são eternos; que eterno é só o bem, a omnipotencia, a bondade, a justiça e misericordia de Deus, e que estas coisas, que separais, são inseparaveis em Deus. Digo, conforme a S. Paulo, que ceo e terra hão de passar; que a fé ha de passar tambem, e tambem ha de passar a Esperança, e que tudo ha de acabar, salvante a Caridade.Que vos parece isto? que redarguís? Ser-vos-ha mister mudar a propriedade das palavras, crear linguagem nova, dirimir as leis da razão, e cuidar em extinguir tanto em vós como nos outros as vivas luzes da consciencia, se quereis impugnar estas proposições.IVMas ninguem póde desluzir de seu espirito o reflexo que ahi lampeja a verdadeira luz, se uma vez a entre-viu. Quando houverdes lido este livro, ser-vos-ha aprasivel fechar os olhos, e injuriar-me; não obstante, sentir-vos-heis alumiados, crentes na verdade a vosso pezar; e, embora o negueis, é a vós mesmos que mentis. Negal-o-heis com a bôcca; mas não com a consciencia.VEspero resignadamente as insolencias. Se m'as não disserem alto, dil-as-hão baixinho. Este livro irá aoIndex, e tal, que o não tiver lido, se julgará abundantemente auctorisado a prohibil-o aos outros, como livro pernicioso. Vedar-se-ha ao peccador inveterado, contentissimo de sua recente conversão, de buscar aqui motivos para ser mais humilde; vedar-se-ha á viuva lagrimosa de procurar consolar-se n'esta leitura. Divulgar-se-ha que este livro étição do inferno, que queima os dedos que lhe tocam. E ha de haver muito quem o diga na melhor boa fé.A Egreja não alenta curiosidades de espirito. Porquê? De que se teme? Profunde-se cada vez mais a moral de Christo; que ella nos irradiará cada vez mais formosa, mais salutar e verdadeira. Por si mesma se justifica; dispensa pregões; nos labios d'um menino inflora-se tão bella como nos discursos d'um sabio.As leis moraes não são arbitrarias; não são caprichos divinos nem tenebrosos decretos cuja sabedoria se esconde á nossa intelligencia. São perfeitamente adequadas á nossa natureza e necessidades. Não ha uma só, cuja inobservancia não surta graves desordens; uma só que não proteja a dignidade humana, a liberdade, o direito, o debil contra o forte, o innocente contra o cavilloso. São freio de paixões, luz e regrasdas acções publicas ou clandestinas, particulares ou collectivas, condição que influe no desenvolvimento de nossas faculdades, caução de nosso repouso, e complexamente de todos os nossos actos.A Egreja, n'este ponto, desconhece a sua força, se a discussão a intimida; mas, por outro lado, cumpre confessar que ella desconheceria sua fraqueza, se tolerasse discussão de certos dogmas, e em particular do dogma das penas eternas. Se quer que haja crença no inferno com fé egual á crença da redempção; se quer a mesma fé para a colera sem fim e para o amor illimitado, imponha silencio a respeito de tudo, que é prudente. Mas d'essa imposição de silencio o resultado é este:VIResulta que os fieis creiam cegamente coisas profundamente contradictorias—a verdade radiosa e o erro inintelligivel, Deus e inferno. Tambem resulta que as multidões sempre a multiplicarem-se rejeitem cegamente o inferno, e com o inferno os mais idoneos dictames da moral, indiscretamente sumidos n'esse abysmo. Imaginam uns que a mesma voz que ensina uma injustiça não póde ensinar uma verdade; imaginam outros que a mesma voz que ensina consoladoras verdades, não póde ensinar erros. A má educação, que, no rodar de muitos seculos, lhes deram, torna-osa todos egualmente incapazes de discernir o que é falso do que é verdadeiro, na mesma idêa: encaram-na a vulto, qual lh'a offerecem, e ou a guardam ou rejeitam á tôa, verdade e mentira de mistura, porque ambas as idêas estão identificadas em uma no espirito d'elles.Todavia todos os partidos são máos, e nenhum póde, relativamente á questão presente, socegar a alma. Ainda não encontrei fiel que se me confessasse impassivel ao horror das penas eternas, quando pensava n'isso. E tambem não encontrareis incredulo que não haja confusamente sentido a precisão de sobreviver a si proprio, e não haja suspirado pela justiça do céo, vendo as iniquidades da terra. A verdade falla assim ao coração de todo homem, alvoroçando-o até que elle a comprehenda.O fiel diz de si para comsigo: «Deus é cruel»; mas, reportando-se á Egreja, cuida que as inspirações de sua consciencia são suggestões diabolicas, e vai aterrado rezar diante da cruz um acto de fé em um Deus sem misericordia. Pelo contrario, o incredulo diz entre si: «Deus existe; os máos serão castigados»; e, se em seguida se aturde e apaga no intimo aquelle presentimento lucido da justiça divina, é porque lhe estão sempre figurando o brazido inextinguivel e as atrocidades sem fim que enterneceriam tigres e fariam chorar as pedras sobre o destino dos condemnados.VIITal é hoje em dia o estado das almas relativamente a um dos mais importantes dogmas da religião. Fé cega, incredulidade cega, fé que acceita um Deus vingativo e exclue do céo a piedade, incredulidade que busca um Deus compadecido, e, por que não acha piedade no céo, exclue de lá a justiça. E entre estes dois bandos de almas atormentadas, está uma corporação docente, que se inculca infallivel, mas que, no intento de proteger sua infalibilidade, anathematisa a razão humana e excommunga a consciencia.VIIIEu tenho tido parte nas angustias da fé que, até de olhos fechados, conhece que a transviam; e, se, mais tarde, abre os olhos afeitos á escuridão, como os de Saul deslumbrado, nada vê, e caminha ás apalpadellas. São passados esses dias de turvação; mas talvez n'este livro negrejem vestigios d'elles.Não achareis n'esta obra um tratado methodico cujas partes se encadeiam e deduzem logicamente, desde a primeira até á ultima pagina. Em questão, a um tempo, tão complexa e excitante, ser-me-hia custoso sujeitar-me aos vagares do methodo. A tal qualordem que trava as peças d'este escripto, vem como compendiada no assentamento das reflexões e meditações que a formam. Ninguem melhor do que eu sabe quanta deficiencia desvalia o escripto. Não importa. Eu, por mim, rodeei o alcaçar de Satan; e, se lhe não puz cerco segundo as regras da arte, não lhe deixei parede nem pedra que não soffresse algum abalo. Não se faz mister tempestade para lh'o baquear: um leve sôpro o fará cahir.FIM

Ninguem nega que a Biblia contém brilhantes verdades; mas essas brilhantes verdades não nos encantam por estarem na Biblia; em qualquer parte onde as vissemos, as amariamos por seu natural resplendor. Da natureza d'ellas, as encontrais nos escriptos dos antigos sabios. São taes verdades como a noiva dos Cantares: a sua belleza é toda sua, e não reflexa, e todo seu imperio lhes promana da formosura.

Porém, a Biblia tambem encerra pensamentos que, pomposamente vestidos, nos tocam o espirito por inverso modo. Quanto mais os examinamos tanto mais os regeitamos. Afóra a visinhança, nada tem commum com as sympathicas verdades, entre as quaes se nos deparam. É-nos, todavia, prohibido de as distinguir,e confiar em uns com desconfiança d'outros; dizem-nos que tudo é verdadeiro, e verdadeiro com o mesmissimo titulo, não porque sejam umas cousas mais ou menos persuasivas que outras, mas porque se acham escriptas n'aquelle livro.

Dispensam-nos de procurar na Biblia o cunho interior que Deus gravou na verdade para que a reconheçamos. Caracteres naturaes e distinctivos do erro podem guiar-nos em tudo; mas na Biblia não. N'outros livros é facultativo discernir o justo do injusto; para o quê temos regras certissimas, e instrumentos agudissimos; mas é peccado querer julgar a Biblia. Cumpre-nos, lendo-a, desconfiar do nosso coração, do nosso espirito, de tudo, salvo d'ella. Assiste-nos o direito de dizer, como Platão que Homero ultraja a divina magestade, quando mistura o Olympo com as paixões humanas; porém, quando a Biblia glorifica a perfidia de Jahel, e a cavillação de Judith, e o roubo e carnificina dos chananeos, e faz collaborar Deus em tantas traições e morticinios, não nos é permittido o duvidar. Se Isaias nos figura o Salvador de Israel calcando o povo como o vinhateiro esmaga a uva no lagar, foliando sobre elle e sacudindo com selvagem alegria os seus vestidos aspergidos de sangue, não seu, mas dos homens, devemos dizer:Amen!eis aqui o bom pastor, o cordeiro de Deus, a mansa victima do Calvario, o Christo na sua gloria! E quando o psalmista comparar o Senhor a um homem embriagado do vinho que lhe redobra as forças e lhe faz expedirpavorosos gritos, devemos sem escrupulo responder: Assim seja! Claro é que nenhum de nós quereria similhar-se ao vindimador sanguinolento nem ao guerreiro ebrio; ninguem ousaria assim fallar de Atila recolhido á tenda, com receio de ser ouvido; mas similhantes confrontos que envileceriam Jupiter e offenderiam o rei dos hunos, prodigalisal-os-hemos ao nosso Deus, em seu templo, attendendo a que os prophetas sabiam melhor do que nós quaes são os elogios que lhe prazem. Taes sujeitos nada diziam do seu chefe: tudo que escreviam era o espirito santo que lh'o ditava, desde os successos até ás expressões significativas d'elles. Ora ahi está por que tudo é sagrado quanto a Biblia contém, e por que tal pensamento, que n'outro livro trescalaria a impiedade, é, na Biblia, uma adoravel coisa. Ha n'isso mysterio não menos profundo que o do inferno, se tentarmos esclarecel-o; e tal mysterio, com que se quer demonstrar outro, promove discussões que o catholicismo impugnou sempre, servindo-se d'isso como arma contra os protestantes.

O catholicismo diz aos protestantes: Como sabeis que a Biblia é divina? Conhecestes Moysés? Quando Deus lhe fallou do cimo da montanha, estaveis presente? Passastes a pé enxuto o mar vermelho, ou bebestes agua da rocha de Horeb? Quem vos affirmou que aquelle homem era propheta? Que provas vedes na Biblia de que não é toda ella obra de homens? Milagres? Outros livros os contam, e vos fazem rir. Verdades? Outros livros as encerram sem que as imputeisao Espirito Santo. Obscuridades? Coisa naturalissima, sendo tantas em todos os auctores, e nos vossos não menos. Quem sois vós, para que vos acreditemos, quando nos affirmaes inverosimilhanças? Não vos conhecemos. Que caução nos dais? Sois inspirados? Fazeis milagres? Vejamol-os. Não basta dizer: a Biblia é divina; é mister proval-o irrefutavelmente. O numero dos vossos partidarios não faz nada á questão. O livro dos Vedas, que se gosa do foro de divino na Asia, é tão antigo como a Biblia, e não tem menos sequazes. Se a Deus aprouvesse, communicar-se aos homens por meios naturaes, como dizeis, fal-o-hia por lances de bondade, com o fim de os unir, como filhos do mesmo pae, por que, a par e passo que melhor se conhece Deus, mais se conhecem a caridade e justiça. Como é pois que tantas nações, presumindo possuirem taes oraculos, em vez de viverem unidas, luctam discordes, erigindo altar contra altar, injuriando-se, perseguindo-se, e votando-se reciprocamente ás chammas eternas! O que as divide é as obscuridades da Biblia; não é as verdades naturaes que lá se vos deparam. Quem alumiará a escureza em que dizeis está Deus involto, e no seio da qual os homens se dilaceram, desprezando naturaes e luminosissimas verdades? Os judeus entendem as prophecias diversamente do vosso parecer; e, tão de boa fé as interpretam, que sustentam a sua opinião em desterros, carceres, fogueiras, durante seculos, fugindo, e deixando rasto de sangue por toda a parte do mundo. Qual seita protestante não arrancou da espadacontra a sua irmã? Todas tem tido martyres e verdugos. Isso não nos parece prova da divindade da Biblia. Nem sequer lhe podereis provar a authenticidade. Os originaes d'esse livro miraculoso onde param? Perderam-se, comeu-os a traça, como succede por tempo a tudo que é obra de homens. Porção consideravel d'esse antigo monumento acabou ás mãos dos hebreus, depositarios d'elle. O que nos resta são reliquias. Se capitulos inteiros, de que apenas sabemos os titulos, já não existem, quem vos auctorisa a pensar que os capitulos subsistentes não foram alterados? Estariam elles a melhor resguardo? Por quem? Por que? E como? Quem os copiou? Quem os traduziu? Quem abona a fidelidade de tantos copistas, e a intelligencia e sciencia dos traductores? Por que signaes se conhece qual é a melhor entre as copias antigas, e entre as differentes copias antigas? Em qual traducção confiaremos entre tantas diversas? Reportar-nos-hemos ao livreiro, ao impressor, ou ao editor? A quem? A mortos desconhecidos, a vivos ignorantes, ou a sabios sem missão e cuja sciencia nos é ainda problematica? Pois que venha ahi quem quizer, e mostrando um papel rabiscado exclame: eis-aqui a palavra de Deus! E sem mais nem menos ponha-se a gente de joelhos! Á vista d'isso ninguem póde ser accusado de idolatria. Se não tendes á mão outras provas da authenticidade e divindade da Biblia, todo o homem cordato regeitará a Biblia, sem salvar o Novo Testamento. O christianismo foi prégado antes da redacçãodos evangelhos, ás multidões que não sabiam ler. Quando essas prégações começaram a correr escriptas, os evangelhos eram aos cardumes; appareceram logo cincoenta attribuidos aos apostolos e aos discipulos de Jesus.

Quem se entenderia n'este cháos? Quem poderia decidir que o evangelho de Thiago não era de Thiago, e que o evangelho de João era de João? Quem poderia discriminar entre o verdadeiro e o falso? Entre o de Deus e o dos homens? Quem poderia discernir e acreditar a boa copia entre as copias falsificadas de João? A coisa não era de si tão luminosa que podessemos aceital-a hoje em dia.

No quarto seculo, bem perto dos tempos apostolicos, esta questão enleava gravissimos doutores, um dos quaes, testemunha de taes incertezas, Santo Agostinho, dizia que elle sem o testemunho da Egreja não prestaria fé ao verdadeiro evangelho. Não achava elle portanto nos escriptos de João, de Lucas, de Marcos, de Matheus e de Paulo a prova intrinseca da sua divindade; com mais forte razão não acharia a mesma prova intrinseca nos escriptos de Moysés, de Samuel, de Esdras e outros prophetas.

Se eu não debilitei, resumindo-as, as razões com que os catholicos intentam reconduzir ao seu gremio as seitas dissidentes, expuz tudo o que tinha a expor sobre a primeira prova mystica do inferno, extrahida das Escripturas. Passemos á segunda prova que é o testemunho da Egreja.

Diz-nos a Egreja catholica que é preciso crêr o que ella nos ensina como se Deus nos fallasse. Quando nos annuncia que todos nós peccamos antes de nascer, e que a Virgem, mãe de Christo, nasceu sem peccado—o que se não acha no evangelho—devemos acredital-o como se o evangelho o dissesse. A Egreja supre o silencio das escripturas, interpreta os textos, umas vezes prende-se á letra, outras descobre um entendimento occulto que só ella vê, o unico verdadeiro. Como possue, com a Biblia, a tradição oral dos patriarchas, dos prophetas e dos apostolos, a nova synagoga continúa no tempo e no espaço a immortal cadêa, guardando, diz ella, o dom de prophecia e o dom dos milagres.

A Egreja catholica é mais que a imagem de Jesus Christo: está consubstanciada n'elle como sua esposa. Testemunha do passado, luz do presente e do futuro, legislador infallivel, juiz sem appellação, devemos consideral-a sempre como viva incarnação do Verbo eterno. Seria a Biblia um livro duvidoso em seu texto, se ella não asseverasse a autenticidade d'elle, e duvidoso em seu espirito se não recebesse a missão de o explicar aos homens. De modo que toda a auctoridade n'estemundo, já a da razão, já a dos livros sagrados, sóme-se absorvida na soberana auctoridade d'ella.

Esta segunda prova do inferno é de natureza analoga á primeira: é mysterio. Exponho-o sem o discutir. Mas os protestantes discutem-no; negam-o, reprovam-o em nome dos prophetas e dos apostolos, e milhares e centenas de milhares d'elles affrontariam a fome, o frio, a penuria, o exilio, os carceres, a tortura ordinaria e extraordinaria, o poder de Cezar e toda a casta de supplicios, com o denodo dos primitivos martyres, antes de vergar o joelho ante a Egreja—o que elles qualificariam de idolatria. Não posso abster-me de relatar algumas de suas objecções, as quaes, bem que sejam forçadas sobrenaturalmente com versiculos do Apocalypse ou das Visões de Isaias, nem por isso me parecem menos debeis.

Temos, dizem, um facil meio de nos certificarmos da infallibilidade da Egreja. Perguntai-lhe o que deve fazer-se em frequentes circumstancias da vida, quando os mais doutos homens se bandeam em dous ou tres arraiaes, dizendo uns: deve fazer-se isto; não,—dizem outros—isso é pessimo—; e os terceiros sustentam que não se deve fazer nada, ainda que a inacção pareça aos outros criminosa. Pelo facto de nos prohibirem actos manifestamente culposos aos olhos da razão, já prohibidos por lei natural, pelo decalogo e pelos philosophos, isso não convence que possuam luzes milagrosas para regerem almas. O que queremos é que nos guiem no lance em que os outrosconductores nos abandonam, nos pontos em que elles se desavém, em que se calam; emfim, na conjunctura em que os homens tem grande interesse em conhecer a verdade que se lhes occulta. Venha a Egreja n'um d'estes casos. Não affrontemos com os casuistas multidão de problemas onde o nosso partido seria grande; busquemos antes, nas relações da vida civil, um só d'esses factos duvidosos, sobre os quaes a sabedoria humana está indecisa. Vá de exemplo o emprestar a juro, e exponhamos primeiro a questão muito pelo alto.

Deve emprestar um homem ao seu visinho, dinheiro ou qualquer outro valor, gratuitamente? É, pelo contrario, licito haver parte dos lucros da quantia cujo uso se permitte, por tempo marcado, ao visinho? Como principio, ninguem condemna o emprestimo gratuito, o qual, á maneira da esmola, é um acto de liberalidade muito para louvar-se, mas que seria nocivo, sendo praticado sem discernimento. Todavia, alguns philosophos, e modernamente alguns caudilhos das seitas communistas, defendem que o emprestimo gratuito é o unico bem consoante á equidade natural, e que a minima usura é roubo. Estes philosophos tem sido arregimentados na peor especie de utopistas. Toda a gente sisuda recusa considerar a gratuidade do emprestimo como obrigação moral. Tal preceito usurparia á mediania económica os meios de valer ao indigente laborioso; o pae de familias não arriscaria as migalhas penosamente poupadas, se o não acoroçoasseesperança d'um beneficio adequado ao serviço que presta e aos perigos que corre. Os que nada tem caíriam, por conseguinte, em mais apertada dependencia dos que tem tudo profusamente. Nas modernas sociedades, similhante preceito multiplicaria os invejosos, multiplicando os avarentos. Feriria de esterilidade o campo da viuva, estagnaria o movimento da industria e commercio, e, pelo tanto, o desenvolvimento da riqueza e vantagens moraes que ella proporciona. O emprestimo a juro é logo geralmente admittido como justo e fertil em toda a especie de prosperos resultados. Mas surdem para logo novos obstaculos. Deve-se limitar a taxa do juro que o devedor pede ao crédor? Como se hão de avaliar os prejuizos do devedor, e os lucros conjecturaes do crédor? Ha nada mais hypothetico e variavel! Que differença entre a qualidade e os productos de duas terras convisinhas, entre tal e tal mister, entre a capacidade d'este e a d'aquelle! O juro legal, ás vezes pequenissimo, casos haverá em que seja pezado; mas, como é legal, pezará com todo seu pezo sobre os que menos lh'o podem supportar. Será elle até motivo a encarecerem os generos, e redundará em incommodo e vexame. Tal é, quando menos, a opinião de celeberrimos philosophos.

Mas deve-se, como elles querem, deixar livre plenamente a vontade dos contrahentes?

Cuidar-se-ha que tudo isto é mera questão de economia politica: não é verdade. Aqui, mais que tudo,militam questões moraes complicadas e de alto melindre, de interesse quotidiano e universal, questões que enliçam elevadissimos espiritos, e sobre as quaes devemos, por isso, interrogar a Egreja.

Se consultamos os canones dos concilios, e nomeadamente os de Nicea, d'Arles, de Carthago e de Elvira, achamos que a Egreja condemna, em theoria, o emprestimo a juro. Na pratica, porém, tolera-o. Não insistamos na contradicção. Se é permittido o emprestimo a juro, quaes são as condições? Tem alguem direito de fixar o beneficio do devedor? Quem é? O Estado? Se é o Estado que fixa a taxa do juro, é o Estado quem definitivamente decide do que Deus concede e do que Deus prohibe, do que é e do que não é peccado, e por tanto a lei divina varia com a phantasia da lei. Se não é o Estado, é o uso da terra? Ha nada mais injusto e irregular? Que principio cumpre adoptar? Onde está o direito? Onde o abuso? Que é da regra? Não ha nenhuma? Não ha. A tal respeito é tamanha a desordem entre os theologos como entre os estadistas, e philosophos, e economistas e jurisconsultos, e entre os confessores e penitentes. Varia em cada diocese a jurisprudencia: não vamos tão longe; varia em cada parochia. Mudai de confessor, e vereis que o mesmo facto, cercado das mesmas circumstancias, muda o nome: peccado mortal, injustiça, expoliação no confessionario á direita, acto licito no confessionario á esquerda, debaixo do mesmo campanario, em nossas opiniões, e o seu facho milagroso vasquejaao pé do mesmo altar. Um parocho vos condemna e outro vos salva. Parece pois que a infallibilidade ecclesiastica é aleijada n'esta questão vital em que os ricos a invocam para tranquillisarem suas consciencias, e os pobres para satisfazerem as necessidade do corpo e as da alma, porque elles pedem de emprestimo para trabalhar, para nutrir os filhos, educal-os, casal-os, auxiliar os seus parentes velhos, e sepultal-os, e para isso é mister que achem quem lhes empreste.

Quanto a materia politica, reinam as mesmas contradicções e incertezas dos negocios civis. Ha factos criminosos perante a razão, e todavia são absolvidos e até glorificados por uma parte do clero, sem excepção dos bispos, ao mesmo tempo que uma outra parte da cleresia os condemna a meia voz; mas de modo que a ouçam. A carnificina chamada deSaint Barthélemyfoi approvada em Roma e celebrada em quasi todos os pulpitos. A revocação do edito de Nantes foi approvada pelo Papa e pela maioria dos bispos. Sobejar-nos-hiam exemplos, se os quizessemos, sem ir tão longe. Por outro lado, ha factos legitimos, heroicos, louvaveis, perante a razão, e esses são malsinados e condemnados como crimes por parte do clero, sem excepção dos bispos, ao mesmo passo que outra parte do clero os approva, e ás vezes tem parte n'elles. E tambem do clero ha porção que se abstem de julgar taes actos. As ultimas insurreições da Polonia e Italia nos dão exemplo recente e ainda sanguinolento. Aquillo que um Papa censurou, e outro Papastygmatisou, outros padres applaudiram, alentaram e abençoaram! Estas diversidades de opiniões sobre successos tão graves, e culpaveis, se o são, tão admiraveis pelo contrario, se não são culpaveis, manifestam-se no secreto do tribunal da penitencia como nos escriptos e actos publicos. O confessor de Carlos IX considerou d'Orther subdito rebelde porque recusou ser assassino.

O bispo de Abranches talvez negasse a absolvição ao confessor de Carlos IX. Tal italiano, injuriado por um frade, seria festejado pelo seu cura. De maneira que á vista d'uma auctoridade moral infallivel, bastantes catholicos, testemunhas d'este espectaculo, vendo para onde Roma pende, perguntam amargamente se em verdade os povos tem direitos, e meios de fazerem respeitar os seus direitos; se a desobediencia ao rei é só permittida em materia de dogma; se a liberdade, o trabalho do pensamento, da escripta e da voz não merecem ser defendidos, comtanto que vos deixem a liberdade de rezar; se ha outra patria além da Egreja; se o servilismo, já cégo, já illustrado, não é a principal virtude civica; se, emfim, n'este mundo o belprazer dos poderosos não é a suprema justiça. Estas e muitas outras perguntas tem sido contradictoriamente respondidas pela Egreja, que não sabe melhor que nós onde estão bem e mal, virtude e crime, em conjecturas solemnes e frequentes, nas quaes bem e mal, virtude e crime avultam a proporções enormes. A Egreja hesita comnosco, duvida comnosco, bandeia-see apaga-se quando entra nas veredas obscuras em que o genero humano é forçado a entrar, as quaes inevitavelmente conduzem ao céo ou ao inferno. A Egreja sabe que a Virgem foi concebida sem peccado; conhece a gerarchia dos anjos; dogmatisa onde a incerteza seria talvez prudente, e a ignorancia saudavel; porém, se procuramos regras de proceder, esteio e guia nos tempos difficeis em que parece que a infallibilidade vai resplandecer, activar-se e resolver a questão, a Egreja perturba-se, balbucia, contradiz-se e desampara-nos á discrição.

Como é então que ella prova a sua infallibilidade? Prohibe-nos de esquadrinhar na Biblia as regras da nossa fé, allegando que a Biblia é livro inintelligivel para nós. E, se lhe pedimos a razão d'isto, abre o livro que incessantemente lemos, esse mesmo livro cuja authenticidade e sentido só ella garante e explica. É ahi que ella pretende mostrar-nos a prova que lhe pedimos; mas nós sustentamos que ahi não ha tal prova. Além d'isso, se é mister crêr primeiro na Egreja quem houver de crêr nas Escripturas e entendel-as, que argumento é esse? Póde qualquer, em um processo, invocar contra o seu adversario um documento de que elle só se constitue interprete e juiz? Contente-se pois a Egreja em affirmar que é infallivel, mas abstenha-se de o provar.

Eu por mim não creio. A infallibilidade é um attributo incommunicavel de Deus como a eternidade e a omnipotencia. Se o Papa e os bispos fossem infalliveis,não bastaria respeital-os, seria mister adoral-os. Disso nos defenda Deus! São homens como nós. E, quando o Espirito Santo nos illustra, somos como similhantes aos candelabros do templo, e, sem o querer, confundimos a nossa sombra com a luz que dardejamos em redor.

Assim fallam os protestantes. Não digo que taes discursos sejam concludentes: não me compete a mim julgal-os; mas d'este capitulo e do anterior inferimos uma conclusão cuja justiça creio que ninguem contesta.

A conclusão que eu desejaria tirar do que fica dito é que a Biblia e a Egreja, estas duas auctoridades que se invocam em favor das penas eternas, não tem o mesmo valor no conceito de toda a gente. Um protestante renegaria o inferno, apezar dos anathemas dos Concilios, se a Escriptura lh'o não annunciasse; mas um catholico renegaria o inferno, apezar da lucidez dos textos biblicos, se aprouvesse á Egreja attribuir áquelles textos, segundo o parecer de Origenes, um sentido visivelmente conforme á justiça e bondade de Deus.

Tanto em Genebra como em Roma crê-se no inferno; mas por diversas razões; e o que parece argumento decisivo para metade dos christãos, não têm amesma efficacia para a outra metade. Conformam-se sobre a verdade d'um prodigio, recusando de ambas as partes uma das duas testemunhas que o affirmam; os de Genebra considerando a Egreja um professorado do erro; os de Roma sustentando que a Biblia desencaminha aquelles que exclusivamente se fiam n'ella.

Fallei da multidão dos condemnados, e tirei d'esse facto, contra a eternidade das penas, inferencia que me parece valiosa. É certo que a maioria dos homens seja condemnada? Os fieis, que estudaram este assumpto em livros modernamente escriptos, crêem que não, e vos dizem que os philosophos maliciosamente assacaram aquella opinião aos seus adversarios para os tornar odiosos. Não duvidam que ha inferno; não os inquieta a natureza do supplicio, mas sim a quantidade dos suppliciados. Mil, cem mil, um milhão d'almas a padecerem eternamente parece-lhes coisa muito de crêr-se, moralissima, certissima. Não póde suppôr-se que o inferno esteja vasio; aliás melhor seria supprimil-o. Um milhão ou alguns milhões d'almas,se Deus as abandona, tambem ellas abandonam a Deus; é bastante para exemplo, é bastante para justiça; porém metade do genero humano e mais de metade, é excesso, é monstruoso: não se crê. Não é isso, quer-nos parecer, a boa nova que celebraram ha mil e oito centos annos os magos e os pastores nos caminhos de Bethelem. Mas os velhos dogmas de Israel por tal arte andam baralhados com as verdades christãs, e tanto a primitiva Egreja com elles se identificou formando um corpo doutrinal, que um homem instruido não póde hoje, sem risco de heresia, tentar separal-as.

Sem embargo, opera-se no seio do christianismo um singular trabalho, de que o clero não dá tento, bem que a iniciativa de ha muito proceda d'elle mesmo. Este trabalho de que as obras de Sanchez, de Escobar, do padre Annat, do padre Lémoine, e d'outros casuistas, tão agramente invectivados por Pascal, eram apenas indicios, tende a neutralisar cada vez mais a acção n'outro tempo tão vigorosa dos elementos hebraicos do christianimo. Sentimentos, que debalde quereriamos suffocar, rompem á luz; o coração reclama, bem que timidamente, seus direitos; a consciencia, constrangida debaixo do pezo de abafadoras tradições, não repulsa, mas a tremer levanta do peito o fardo, como para respirar. Verdade é que ainda nos pregam os velhos mysterios da synagoga; mas, ao mesmo tempo, cuidam em dissimular-lhes as consesequencias logicas relativas á vida futura, e—notabilissimo caso!—não insistem nas consequencias praticas,no tocante á vida presente. Este ultimo facto, muito significativo, provém dos casuistas. Foram elles quem primeiro quiz achanar aos homens a estrada do céo. Como não soubessem conciliar as necessidades da vida terrestre com as da fé, e não ousassem embarrar pelo inferno, com medo de torriscar os dedos, derruiram audazmente a moral. Graças lhes sejam dadas, que isto de peccados mortaes está por um fio! O assassino, mal lavou as mãos, e o perjuro mal lavou a lingua, são admittidos ao sagrado banquete, O pulpito continua a fuzilar trovoadas minacissimas; é ainda Isaias e S. Paulo a bradarem; mas, no tribunal da penitencia, os coriscos apagam-se; quem confessa é o tolerante padre Lémoine, que perfeitamente percebe que uma duqueza, uma capitalista, uma burgueza opulenta não podem viver de favas, nem trajar de serguilha, nem dormir no taboado, nem imitar sequer de longe a perfeição negativa das santas reclusas, cujas virtudes andam celebradas nos pulpitos. Descobrir, porém, no complexo dos actos dos homens, o limite exacto do dever, isso é desvario: ou prohibir, ou permittir tudo quando se renuncia e dirigir verdadeiramente as peccadoras mundanas para o antigo ideal da abstinencia ascetica. O theatro, o baile, os hombros nús, a maledicencia, as prodigalidades do luxo, a parcimonia das esmolas, a lisonja, a ambição, a cupidez, a ingratidão, as desavenças, tudo passa, tudo é venial, nada impede da desobriga. Nem o juiz nem o penitente conhecem regra. O mais virtuoso e austero padrepóde ser integerrimo no pulpito; mas, no confessionario, treme, receia afugentar a alma que o procura; lembra-lhe o Bom Pastor, o céo promettido ao ladrão que se accusa, o perdão da adultera, e involuntariamente contribue a facilitar as quedas, e as reincidencias, facilitando a expiação. Pois os primitivos christãos não tinham ouvido fallar do bom ladrão, e da mulher adultera, e da parabola do Bom Pastor? Comparem com a disciplina de hoje a de então que eu já referi. Se o padre Lémoine lesse nas catacumbas um capitulo daDevoção commoda, o congresso de fieis e martyres surgiria em pezo contra tal innovador, e o bispo excommungal-o-hia. Tenho minhas duvidas que o proprio S. Francisco de Salles o tractasse bem. É que os primitivos christãos nunca perdiam d'olho Satanaz, peccado original, inferno, e conformavam o seu procedimento, não a tal artigo de fé ageitada a dar alentos á esperança, mas ao complexo tremendo da doutrina que aprendiam.

A harmonia que primordialmente se deu entre a disciplina da Egreja e as crenças da Egreja, está por tanto desde muito desacorde. Port-Royal tentou afinal-a. Foi esse o segredo da sua lucta com os casuistas mas os casuistas venceram. A contenda acabou.

Meditemos agora nas consequencias logicas dos nossos dogmas, relativos á outra vida, dos esforços que debalde se envidam para lhes amaciar as asperezas e edulcorar-lhes o travor, com medo de que lhes não atirem fóra copo e remedio.

Em louvor dos theologos modernos, declaro que poucos ha que possam encarar impassiveis a multidão de pagãos e hereges que regorgita do inferno—multidão que sem intercadencia augmenta com muitos milhares d'almas cada dia, muitos milhares cada anno. Elles, pois, escondem as vinganças divinas, em vez de nol-as mostrarem, no seu trilho aterrador á maneira dos antigos. Quando cuidam em nos animar, tambem elles se animam em seus proprios quebrantamentos, sentindo que a piedade desborda e arrasta a fé; e não só a piedade, mas tambem a justiça.

S. Thomaz de Aquino, incapaz de ceder unicamente á piedade, estacou diante d'esse problema de justiça, e diligenciou, a seu modo, resolvêl-o, por feição que podesse, sem offensa da fé, contemporisar com a sua razão.

Imaginou um justo fóra da Egreja, ignorando as verdades salvadoras, e predestinado ao inferno por culpa de sua ignorancia. Ora um anjo celestial, quando este justo agonisava, desceu a revelar-lhe a verdade, dando-lhe assim entrada na Egreja por uma porta falsa, e mantendo por este theor milagrosamente a inteireza dos dogmas. Pouco importava a S. Thomaz, tão grande e inflexivel logico, salvar as regras explicitamente formuladas pelos concilios; e, se taes regras podiam ferir a justiça, lá estavam os anjos para concilial-as. O que elle queria era salvar os gentios.

Mas, hoje em dia, os theologos avantajam-se a S. Thomaz. Já não ha recorrer a milagre. Dizem que, seentre infieis, e até entre os hereticos, ha pessoas honestas, Deus bem as vê: essas pertencem á Egreja, não corporal, mas espiritualmente; creem implicitamente as verdades que ignoram, e basta isso: são catholicos lá do seu feitio. É pois prohibido condemnar a esmo gentios e hereges, cegos innocentes, virtuosos transviados, erros invenciveis[7]. Já se diz que ninguem é condemnado, tirante os máos, qualquer que seja a religião que professem.

Bella é a linguagem, mas tambem é evidentemente illusoria; por onde vamos vêr que tal piedade, bem que sincera, não póde aproveitar a alguem. Vós não condemnais todos os gentios nem todos os hereges; é verdade. Os dogmas que nos ensinais é que os condemnam. Ora, se, acaso, os cinco dogmas tirados do judaismo fossem falsos, bem sabemos que não estava em vossa alçada condemnar, ainda que o quizesseis, um só idolatra, por peor que houvesse sido; mas, ao invez, se taes dogmas são verdadeiros, tambem sabemos que não cabe em vossa alçada salvar um só gentio nem um só herege, ainda que o quizesseis. Mais: em virtude de taes dogmas, é de fé que o homem nasce máo, e que o crime que lhe mancha o berço, explica,mas não lhe justifica os erros da vida. Irroga-se culpa a quem se liga á religião de sua familia e patria, quando tal religião não é a genuina. Se assim não fosse, vêde bem que melhor seria ter nascido sarraceno que catholico; que um turco salvar-se-hia procurando de boa fé, como os patriarchas, prazeres que a nós nos perdem para sempre; e o maximo das bençãos seria nascer e morrer selvagem, n'alguma ilha incognita, longe dos formidaveis clarões que nos privam de desculpar com a ignorancia os nossos peccados. Fossem embora salvas alguns milhares de creaturas apenas entre os billiões d'ellas que morrem em peccado original, uma duzia só que fosse, seria que farte para argumentar que ha salvação fóra da Egreja, e sem algum dos soccorros extraordinarios de que ella dispõe. Estes theologos tolerantes não reparam que inutilisam a revelação, que despojam a Egreja das chaves do céo, ou, pelo menos, indiciam que ha chaves em duplicado para lá entrar, e que judeu, musulmano, lutherano, philosopho, todo homem honrado tem uma chave. A opinião assim pelo claro não ousariam elles exhibil-a, e, a bem dizer, tudo aquillo não é opinião sua; é, melhor ainda, expansão de alma que aspira á verdade e justiça; é protesto da humanidade christã contra o judaismo, protesto mais revelante por não ser voluntario, nem saber-se a si mesmo comprehender. O raciocinio não é o essencial do protesto, como em S. Thomaz d'Aquino; quasi que não é parte em taes discursos, pois que os discursadores não concluemcomo deviam, se raciocinam; e não podem fundamentar a sua argumentação sobre ensino authentico da egreja[8]. É mister, por desgraça, renunciar á orthodoxia ou condemnar despiedosamente mais de tres quartos do genero humano. O justo, estranho á Egreja, a quem nos prohibem de offerecer a mão, não existe aos olhos da fé: é um phantasma que avulta á vossa piedade. Se ha ignorancia involuntaria e invencivel, não é a do idiota? Ora ahi está! o idiota, o cretino, o aborto sem olhos nem ouvidos peccaram no ventre materno, peccaram mortalmente, e só pelo baptismo conseguirão justificar-se. Como é então que ha de subtrahir-se ás tentações e ás sincadilhas de que tanto a custo se escapam os filhos da Egreja, um ente egualmente viciado em sua natureza, mas mais livre, se envelheceu sem revelação e sacramentos? Onde ganhará elle amor ao bem e vigor para pratical-o? Tal hypothese é heresia por atacado; só poderemos aceital-a como excepção milagrosa; e, n'essa qualidade, nãovingaria dulcificar o sentir que esperta em nossa alma o perpetuo inferno, onde, ha seis mil annos, se vão acamando as gerações humanas.

[7]Veja entre outras obras osEstudos a respeito do Christianismopor Nicolas, tom. III, c. 14. Este livro foi approvado, louvado e recommendado pela auctoridade ecclesiastica, e nomeadamente por Mons. Cardeal Donnet, Arceb. de Bordeaux. O padre Lacordaire protegeu-o assignaladamente, considerando-o a mais completa e melhor apologia da fé catholica.[8]Este ensino multiplicou-se com diversos aspectos: peccado original; necessidade do baptismo; ha uma só fé e um só baptismo; fóra da egreja não ha salvação; necessidade dos sacramentos da penitencia, de confirmação, etc., como auxiliares de nossas enfermidades, depois do baptismo, necessidade e conjunctamente insufficiencia da prégação e da leitura; inefficacia das boas obras sem os sacramentos; manhas e poderio de Satan; impossibilidade de viver e morrer em estado de graça fóra da Egreja que é a dispenseira das graças, etc., etc. Encheriam um volume os decretos, promulgados áquelle intento, e os anathemas fulminados contra quem houvesse dito ou viesse a dizer o contrario d'esses decretos.

[7]Veja entre outras obras osEstudos a respeito do Christianismopor Nicolas, tom. III, c. 14. Este livro foi approvado, louvado e recommendado pela auctoridade ecclesiastica, e nomeadamente por Mons. Cardeal Donnet, Arceb. de Bordeaux. O padre Lacordaire protegeu-o assignaladamente, considerando-o a mais completa e melhor apologia da fé catholica.

[8]Este ensino multiplicou-se com diversos aspectos: peccado original; necessidade do baptismo; ha uma só fé e um só baptismo; fóra da egreja não ha salvação; necessidade dos sacramentos da penitencia, de confirmação, etc., como auxiliares de nossas enfermidades, depois do baptismo, necessidade e conjunctamente insufficiencia da prégação e da leitura; inefficacia das boas obras sem os sacramentos; manhas e poderio de Satan; impossibilidade de viver e morrer em estado de graça fóra da Egreja que é a dispenseira das graças, etc., etc. Encheriam um volume os decretos, promulgados áquelle intento, e os anathemas fulminados contra quem houvesse dito ou viesse a dizer o contrario d'esses decretos.

Descenditad Inferos; tertià die resurrexit à mortuis; ascendit ad c[oe]los, sedet ad dexteram Patris, indè venturus est judicare vivos et mortuos.Credo in Spiritum sanctum, in sanctam Ecclesiam catholicam et apostolicam, in communionem sanctorum, in remissionem peccatorum, carnis ressurrectionem et vitam æternam. Amen.(Symb. apostolorum).

Descenditad Inferos; tertià die resurrexit à mortuis; ascendit ad c[oe]los, sedet ad dexteram Patris, indè venturus est judicare vivos et mortuos.

Credo in Spiritum sanctum, in sanctam Ecclesiam catholicam et apostolicam, in communionem sanctorum, in remissionem peccatorum, carnis ressurrectionem et vitam æternam. Amen.

(Symb. apostolorum).

O Filho do homem, expedindo sobre a cruz sua vida mortal, desceu aos infernos. Não é o Evangelho que o refere; é um documento não menos venerado, o qual, com oPatereAve, é parte das orações que a Egreja ensina aos seus filhos: documento, ao que parece, anterior á redacção dos Evangelhos e resumo da fé apostolica: é oCredo.[9]

Jesus morto vai annunciar aos mortos a boa nova:Satanaz vencido, os peccadores resgatados, o céo aberto aos que oram, aos que choram, aos que soffrem. Para estes exclusivamente é que seu sangue aspergiu o chão do calvario. Jesus não dispensa da penitencia os que morreram culpados; mas dá-lhes a esperança que as antigas crenças deixavam luzir na terra sómente, e apagavam no tumulo.

Sei de sobra que os theologos querem que o inferno, visitado por Christo, não seja o verdadeiro inferno; mas sim o limbo, o purgatorio, os seis primeiros circulos da Géhenna, e não o ultimo. Esta distincção, porém, não está noCredo. O inferno ahi diz-se com todas as letras, e, mais pelo claro,os infernos, como quem indistinctamente diz todos os logares de soffrimento onde podem penar os mortos.

«Desceu aos infernos, diz oCredo, e ao terceiro dia resurgiu dos mortos.»

Quem eram esses mortos com quem Jesus passou trez dias? A interpretação natural é—todos os homens que, desde o principio do mundo, haviam desparecido de sobre a terra; não só patriarchas e prophetas, senão todos os judeus; não só todos os judeus, mas todos os gentios. Eis aqui, entendidas ao natural, o que dizem as palavras: «Desceu aos infernos, e habitou trez dias com osmortos.» Quereis dar áquellaspalavras uma accepção espiritual? Temos ainda mais. luz na questão. Os mortos espirituaes são os condemnados, os que eram considerados em perpetua privação dos resplendores eternos. Não são os prophetas, os patriarchas, os eleitos, os santos, nem ainda alguns d'esses que por peccados haviam merecido as penas temporarias, por que não estavam espiritualmente mas só carnalmente mortos, crendo, esperando, amando, vivendo. Seja qual for a interpretação adoptada, leva-nos a concluir o inverso do que os theologos affirmam. Do citado trecho doCredocolhe-se que Jesus desceu, não só ao limbo, mas tambem ao inferno, não só aos patriarchas que esperavam sua vinda,—explicação acanhada e violenta dos hebreus conversos e dos christãos judaisantes—mas aos mortos de todos os tempos e paizes, aos peccadores que a lei antiga e antigas crenças haviam ferido de morte espiritual, eterna, incuravel, da verdadeira morte. O Redemptor, o Crucificado, o Messias visitou-os, mostrou-se-lhes, e elles rejubilaram ao verem-no e choraram lagrimas d'amor d'aquelles olhos aridos. Jesus não destruiu o inferno; converteu-o em purgatorio. Do inferno judaico e gentilico fez o inferno christão, inferno que corrige, inferno onde ha o chorar sem blasphemar, onde ha o soffrer sem desesperança nem rancores.

Outras luzes póde dar o symbolo dos apostolos ás almas piedosas. Mais abaixo, diz: «Creio na vida eterna» mas não diz: «Creio na morte eterna.» Este horrivel dogma não se lê no credo apostolico. Se ahi sefalla em infernos é para nos ensinar que Jesus Christo lá foi, e de lá sahiu, mas como devia sahir, vivo, glorioso, triumphante e bemdito.

Diz finalmente oCredoque Christo subiu ao céo, onde está sentado á dextra do Padre, d'onde virá a julgarvivos e mortos.

Quaes vivos? os justos? Quaes mortos? os peccadores, os ultimos povoadores da terra e os antigos habitantes d'aquellas tenebrosas mansões onde a esperança radiou com o Christo quando tudo foi consummado na Cruz? Não é possivel que uma só palavra tenha dois sentidos com tão breve intervallo. Quereis que os mortos d'entre os quaes resurgiu ao fim do terceiro dia sejam os antigos reprobos? Tambem eu quero. Quereis antes inferir de taes palavras que os nossos avós judeus e os pagãos, quantos então eram mortos, viveriam, n'outra parte, jubilosos ou suppliciados? Tambem eu quero. Adoptai um sentido, ou outro, ou ambos juntamente, que a mim não se me dá d'isso. O que ha de sempre forçosamente reconhecer-se é que a phrase representa a mesma idêa significada uma ou duas linhas abaixo. Será, conseguintemente, preciso confessar que os mortos visitados por Christo são os mesmos que elle virá julgar quando julgar os vivos. Direi pois logo que na descida aos infernos, Jesus morou trez dias não entre os justos esperançados, mas entre os condemnados á desesperação para os ungir de seu sangue, consolal-os e salval-os. E, senão, para que os visitou?

Faz-se mister prescindir de entender qualquer palavra divina ou humana, se doCredose colhe o dogma das penas eternas. Não está lá: o contrario é que está. O veneravel texto é mil vezes mais luminoso que todas as glosas dos doutores.

[9]Conta-se que os apostolos, antes de se apartarem para levar aos gentios a boa nova, trez annos pouco mais ou menos depois da morte do divino Mestre, se reuniram e compozeram oCredo, elenco das verdades cujo ensino lhes fôra confiado. O Evangelho ainda não corria escripto. Só depois da separação, é que foi composto o de S. Matheus, que antecede a todos. O symbolo da fé apostolica tambem não andava escripto; mas ensinava-se de cór aos fieis, e por isso longo tempo se conservou na Egreja, bem como a tradição egualmente oral da sua origem.

[9]Conta-se que os apostolos, antes de se apartarem para levar aos gentios a boa nova, trez annos pouco mais ou menos depois da morte do divino Mestre, se reuniram e compozeram oCredo, elenco das verdades cujo ensino lhes fôra confiado. O Evangelho ainda não corria escripto. Só depois da separação, é que foi composto o de S. Matheus, que antecede a todos. O symbolo da fé apostolica tambem não andava escripto; mas ensinava-se de cór aos fieis, e por isso longo tempo se conservou na Egreja, bem como a tradição egualmente oral da sua origem.

Viveu Origenes quasi coevo dos tempos apostolicos. Toda a gente ouviu fallar da santidade de seu viver, pureza de costumes, alento nas perseguições, vasta sabedoria e raro engenho. Pois ainda assim, aquelle insigne doutor, e illustre confessor de Christo, negava as penas eternas. Acaso receberia elle a verdadeira tradição dos apostolos, ou, á força de reflectir, atinára com a genuina accepção do Evangelho? Não sei. Todavia confesso envergonhadamente que ainda não li as poucas obras restantes que tão assignalado sujeito escreveu sobre tal materia. O que mais sei é que foi condemnado, muito tempo depois que morreu, por um edito do imperador Justiniano, e anathematisado, com a porção da obra relativa ás penas eternas, por o concilio ecumenico de Constantinopla, anno 553.[10]Não se deram os bispos á canceirade provar que elle era ruim logico; declararam-o herege, que era mais summario, e por contagem de votos.

É muito para notar que o primeiro concilio ecumenico de Nicea, anno 325, e o segundo de Constantinopla, anno 381, se abstivessem de decidir sobre a doutrina de Origenes, ainda nova e florecentissima, e á conta d'isso mais funesta, se por ventura escondesse perigo. Divergiam sobre o assumpto as opiniões dos padres d'aquelle tempo? Recusariam não se conciliarem? A questão confundil-os-hia? Inclino-me a crer que sim. O mais notavel documento que os dois concilios nos deixaram, denota indecisão de natureza a um tempo estranha e evidentissima: é uma profissão de fé muito particularisada, a mesma que hoje se entôa aos domingos na missa cantada nas egrejas do oriente e occidente.

O concilio de Nicea, ao redigir o symbolo da sua fé, desenvolveu em certos pontos o symbolo dos apostolos; mas, quanto ao mais, abreviou aquelle antigo symbolo, e o que mais espanta é a suppressão completa do descendimento aos infernos.

O concilio de Constantinopla, adoptando o symbolo de Nicea, aperfeiçoou-o, e additou-lhe alguns artigos, mas não lhe repoz a descida aos infernos.

Que quer dizer esta eliminação? Desceu ou não desceu Christo aos infernos? Se desceu, por que o não dizem? Acham que é insignificante o caso? Não merecerá a pena relembral-o?

Felizmente o symbolo dos apostolos subsiste, e os de Nicea e Constantinopla não vingarão desluzil-o.

[10]No anno 321, Origenes foi denunciado ao Concilio de Alexandria, e interdicto do sacerdocio. S. Jeronymo attribue esta condemnação a ciumes e invejas que inspirava a eloquencia de Origenes aos Padres reunidos n'aquelle Concilio.

[10]No anno 321, Origenes foi denunciado ao Concilio de Alexandria, e interdicto do sacerdocio. S. Jeronymo attribue esta condemnação a ciumes e invejas que inspirava a eloquencia de Origenes aos Padres reunidos n'aquelle Concilio.

As idêas que empreguei no discurso d'esta obra andam por tantos livros disseminadas, e prégadas de tantos pulpitos, e tão notorias e populares, que me não temo de que m'as neguem. Diligenciei exprimir claramente os dogmas, preceitos, maximas, opiniões sempre admittidas nas faculdades de theologia, nos seminarios e conventos: era acto de boa fé e tambem de prudencia; que toda minha argumentação claudicaria, se eu attribuisse aos propugnadores do inferno linguagem que não fosse a d'elles.

Fui eu quem inventou a queda de Satan, o poder e maleficios da corte infernal, o peccado do Eden, e a maldição dos homens? Fui eu quem encerrou no claustro o ideal da perfeição christã? Fui o auctordas sentenças desesperadoras fulminadas contra o mundo e contra os affectos e luzes naturaes, contra o bom siso e contra a vida? Inventei eu as devotas reflexões, azadas para mirrar os corações das mães e dos filhos, e uns pensamentos afogueados que calcinam o cerebro como o alcool, embrutecendo uns, e desvairando outros em devaneios melancolicos? É culpa minha se o inferno parece coisa atroz? Não suavisei eu em vez de encarecer as pinturas conhecidas? Se é immoral, estava a meu cargo mudar-lhe a condição? Attribui eu ao padre Bohours palavras alheias, ou a S. Bernardo coisa que elle não dissesse?

É verdade que eu muitas vezes poderia auctorisar-me com textos, e dizer em grego ou latim, ou italiano ou allemão, em nome d'outrem, o que expuz a meu modo. Mas que tinha eu a ganhar com esse systema? Nenhuma das idêas que discuti pertence nominalmente a este ou áquelle theologo; junta ou separadamente todas lhes pertencem: é dominio commum. Seria apoucar e abater a questão conferir a uma crença tradicional visos de opinião particular. Acato a virtude, admiro o engenho, onde quer que os encontro, até nos mesmos que me ameaçam com as penas eternas; não mal-quero por tanto a S. Gregorio, nem a S. Jeronymo, nem ao padre Nicole, nem a algum theologo morto ou vivo. Não me estive a quebrar lanças com personagens mais ou menos eminentes: que são apenas eccos de doutrinas que vogaram muito antes d'elles. Se eu tivesse em cada pagina citado um doutor, julgar-se-hiaque os outros doutores, não mencionados, depunham contra mim. Não aconteceu isso a Pascal? Nomeia elle as suas testemunhas, transcreve-lhes litteralmente as proposições, e vos remette ao volume e pagina d'onde as trasladou; pois responderam-lhe que se as proposições que elle combate estão nos livros d'onde as copiou, a culpa é dos auctores, e não da companhia que os instruiu. Claro está que eu tenho por mim auctoridades muito mais embaraçosas que os padres Petau, Penterau, Hurtado, Bille, Sanchez, Suarez, Escobard, Bauny, Molina, Reginaldo, Tannero, Filicitius e Azor. Tenho-as numerosissimas, a ponto de a mim mesmo me embaraçarem. Qual hei de escolher entre tantas? Que mais vale uma do que outra? Um capuchinho canonizado vale ou não vale um papa não canonizado, mas fallandoex-cathedrâ? E de mais um só auctor, por extremo que fosse o gráo de sua respeitabilidade, bastaria a tapar a bôcca aos altercadores? Quantos textos seria preciso adduzir para authenticar certas phrases alcunhadas de perigosas, levianas, absurdas e escandalosas? Quantos padres, papas, bispos e doutores teria eu de dispôr em batalha a meu favor? Confesso que não sei. Fui, pois, sobrio em citações, não por mingua do assumpto, mas antes por excesso. Convençam-se de que não ha linha n'este livro á qual eu não podesse cerzir, se me aprouvesse, paginas inteiras, senão volumes de annotações justificativas, hauridas nas fontes mais puras, mais frequentadas e veneradas.

Similhante lavor, porém, ainda que eu o compendiasse á essencia do debate, cansaria a paciencia dos leitores, que se dispensam de tão barbaro apparato para saberem ao que devem atter-se do que lhe ensinaram desde o berço. Mas as provas de memoria as sabem; sobejam-lhes nas suas livrarias; não carecem de folhear concilios, obras de santos padres, bullarios, constituições de bispados, revelações de Santa Catharina, Santa Thereza, e outras bem-aventuradas; não se lhes faz preciso consultar Bossuet, Bourdaloue, Massillon, nem outros illustrissimos oraculos que nem sempre nos estão á mão. Mais boas de encontrar são as minhas provas: acham-se nos labios e nos ouvidos das creanças que estudam o cathecismo; acham-se em mãos de nossas irmãs, esposas, e mães, na suaImitação, noQuotidiano christão, noCombate espiritual, naVida dos Santos, noLivro d'ouro, noPensai-o-bem, e em milhares de livrinhos d'este jaez, approvados pelos bispos e universalmente manuseados.

Os paladinos do inferno, se os houvesse, não ousariam, talvez, atacar as passagens d'este livro, de antemão atalaiadas d'uma guarnição formidavel de batinas, de chapeos vermelhos e de barretes; mas quem sabe se atacariam como abastardados, alterados, e erroneos os trechos que eu desprecavidamente não defendesse? Em tal caso, nada me valeria amontoar notas. Se m'as pedirem, eu lh'as darei em quantidade que lhes pareça de mais. Convenho, se quizerem, em incommodar com ellas os adversarios; mas tão sómenteos adversarios; quanto ao publico, a minha intenção não é adormecêl-o; antes eu quizera acordal-o, esclarecêl-o e agradar-lhe. Mal andaria eu se, a proposito de taes polemicas, sacudia aos olhos dos leitores a poeira dos meus livros traçados!

Se não podem accusar-me de má fé na exposição dos principios que tentei impugnar, não faltará quem me accuse de máo juiz em tudo o mais. Estejam certos que não ficará aqui. O inferno tem seus devotos que não sacrificam ás Graças, mas ás Eumenides. Bem os ouço gritar: impio! incredulo! ignorante! detestavel pensador! monstro! scelerado! por que o não prendem, e mandam ás galés! Ousar descrer das penas eternas! Que faz o ministerio publico? Onde está o carrasco? Em França já não há lenha para uma fogueira? Votamos pelo inferno, queremos que os nossos paes e os nossos filhos sejam condemnados. Ao fogo com os selvagens, idolatras musulmanos, judeus, indianos, herejes! Ao fogo com os peccadores recalcitrantes! fogo eterno com os philosophos impenitentes! Não nos esbulhem d'esta amavel crença. Que havia de ser da moral? Queremos inferno e diabo, a maldição e o mal. Se muita gente se condemna, peior é isso, mas a culpa é d'ella. Que ardam para sempre! É vontade de Deus. O teu debil sopro, ruim pensador,não apagará as chammas salutares que não corrigem os mortos, que pouco emendam os vivos, mas fazem tremer as freiras nas suas cellas e alegrar os santos no paraiso. Viva o inferno! Se se elle apagasse, haviamos de accendêl-o com os teus livros. Queremos o inferno e seus supplicios, embora lá vamos cahir com as nossas mães e com as creancinhas que riem no collo d'ellas. Sem inferno não ha fé, nem Egreja, nem religião, nem lei, nem familia, nem moralidade, não ha nada. Conservemos o inferno! É absurdo? mais um motivo.Crédo quia absurdum.Parece-te isto injusto, incredulo, impio, perverso que não queres acreditar que Deus creasse tantos entes fracos para perdel-os sem missão! Imprudente! que ousas escutar a tua consciencia, quando a tradição falla! Malvado! coração de pedra que não dás dinheiro ao Papa para lhe redourar a thiara e vais dal-o a pobres e proscriptos, e estás ahi a lastimar os billiões de creaturas que povoam o abysmo. Ó sandeu! Ó miseravel! Algum proveito colhes atacando verdades tão uteis. És como os malfeitores que quebram os lampeões. Se assim vais, arrasarás os carceres. É bem de vêr, lá tens as tuas razões para querer destruir o inferno; se fosses de melhor casta havias de crêr n'elle.

Advogados do inferno, que sabeis a tal respeito? Sereis acaso mais innocentes do que eu? É verdade que sou peccador. Se todavia as minhas acções e as vossas fossem pezadas, talvez eu podesse estar a respeito do futuro tão tranquillo como vós. Mas Deus não me ha de comparar comvosco para absolver-me ou condemnar-me: será com o modêlo de perfeição que eu tenho no espirito, e que eu devêra ter copiado no decurso de minha vida. Não pratiquei—de mais o sei—todo o bem que podia; condescendi com fraquezas que vós, por ventura, não conhecestes; mas talvez que eu, sem que o soubesseis, me esforçasse e vencesse nos conflictos em que succumbistes. Eu não vos julgo, ó crentes no inferno, que encaraes sem impallidecer; eu, porém, que não creio no vosso inferno, não posso sem pavor meditar no julgamento divino. Não desespero na bondade de Deus, mas creio em sua justiça, e nutro viventissimo sentimento da perfeição evangelica, e por isso mesmo sinto grandissimo pezar de minhas culpas, e não me considero isento de expiação.

Oxalá que eu podesse dar de mim melhor testemunho! Podesse eu chegar mais confiadamente ao tribunal do soberano juiz! Tivesse eu tão socegado o espirito como inculcais o vosso, ou tão puro como vósimaginais que o tendes! Quem me dera ser santo, não aos meus proprios olhos, como dir-se-ha que sois aos vossos, mas aos olhos das pessoas de bem e das multidões. Então impugnaria eu a eternidade das penas, não já com melhores razões, nem com argumentos de mais justiça, mas com a auctoridade que uma vida santa e reconhecida como tal imprime na palavra humana. Ha ahi quem se não renda ao vigor de um discurso, e se docilise á virtude ou ao renome de quem discorre.

Não discutamos, pois, a minha vida, que eu não tenho que entender com a vossa. Em meu soccorro valho-me unicamente do raciocinio; desadoro outro prestigio, e não me dobro a outro poder. Refutai-me, se podeis, com razões tão claras como as minhas; mas deixemo-nos de insinuações calumniosas; nada de injurias. Isso que prova? Quando fosse verdade que todos sois pessoas virtuosas que vão direitas ao paraizo, e que eu sou máo, e o peor dos homens, sêde francos, seria isso prova de que eu argumento mal, e vós argumentais bem? Inferirieis d'ahi o que quer que seja contra a infinita misericordia de Deus? A isto é que é preciso responder, senhores. Eu por mim digo que a dôr, n'este e no outro mundo, é meio de expiação; digo que a dôr, n'este e no outro mundo, acarêa a piedade; digo que o castigo mais justo deve ter fim, e que o perdão é o fim, a corôa, a perfeição e explendor das obras da justiça; que um castigo infindo seria um castigo desarrasoado, sem escopo, semmoralidade, inutil ao culpado, ás testemunhas e ao juiz;—um acto de colera, de odio e furor—um feito sombrio e sinistro como transportes de demencia incuravel. Digo que tal crença é mal cimentada, e assim funesta em este mundo, como odiosa no outro; que nem o mal nem o castigo são eternos; que eterno é só o bem, a omnipotencia, a bondade, a justiça e misericordia de Deus, e que estas coisas, que separais, são inseparaveis em Deus. Digo, conforme a S. Paulo, que ceo e terra hão de passar; que a fé ha de passar tambem, e tambem ha de passar a Esperança, e que tudo ha de acabar, salvante a Caridade.

Que vos parece isto? que redarguís? Ser-vos-ha mister mudar a propriedade das palavras, crear linguagem nova, dirimir as leis da razão, e cuidar em extinguir tanto em vós como nos outros as vivas luzes da consciencia, se quereis impugnar estas proposições.

Mas ninguem póde desluzir de seu espirito o reflexo que ahi lampeja a verdadeira luz, se uma vez a entre-viu. Quando houverdes lido este livro, ser-vos-ha aprasivel fechar os olhos, e injuriar-me; não obstante, sentir-vos-heis alumiados, crentes na verdade a vosso pezar; e, embora o negueis, é a vós mesmos que mentis. Negal-o-heis com a bôcca; mas não com a consciencia.

Espero resignadamente as insolencias. Se m'as não disserem alto, dil-as-hão baixinho. Este livro irá aoIndex, e tal, que o não tiver lido, se julgará abundantemente auctorisado a prohibil-o aos outros, como livro pernicioso. Vedar-se-ha ao peccador inveterado, contentissimo de sua recente conversão, de buscar aqui motivos para ser mais humilde; vedar-se-ha á viuva lagrimosa de procurar consolar-se n'esta leitura. Divulgar-se-ha que este livro étição do inferno, que queima os dedos que lhe tocam. E ha de haver muito quem o diga na melhor boa fé.

A Egreja não alenta curiosidades de espirito. Porquê? De que se teme? Profunde-se cada vez mais a moral de Christo; que ella nos irradiará cada vez mais formosa, mais salutar e verdadeira. Por si mesma se justifica; dispensa pregões; nos labios d'um menino inflora-se tão bella como nos discursos d'um sabio.

As leis moraes não são arbitrarias; não são caprichos divinos nem tenebrosos decretos cuja sabedoria se esconde á nossa intelligencia. São perfeitamente adequadas á nossa natureza e necessidades. Não ha uma só, cuja inobservancia não surta graves desordens; uma só que não proteja a dignidade humana, a liberdade, o direito, o debil contra o forte, o innocente contra o cavilloso. São freio de paixões, luz e regrasdas acções publicas ou clandestinas, particulares ou collectivas, condição que influe no desenvolvimento de nossas faculdades, caução de nosso repouso, e complexamente de todos os nossos actos.

A Egreja, n'este ponto, desconhece a sua força, se a discussão a intimida; mas, por outro lado, cumpre confessar que ella desconheceria sua fraqueza, se tolerasse discussão de certos dogmas, e em particular do dogma das penas eternas. Se quer que haja crença no inferno com fé egual á crença da redempção; se quer a mesma fé para a colera sem fim e para o amor illimitado, imponha silencio a respeito de tudo, que é prudente. Mas d'essa imposição de silencio o resultado é este:

Resulta que os fieis creiam cegamente coisas profundamente contradictorias—a verdade radiosa e o erro inintelligivel, Deus e inferno. Tambem resulta que as multidões sempre a multiplicarem-se rejeitem cegamente o inferno, e com o inferno os mais idoneos dictames da moral, indiscretamente sumidos n'esse abysmo. Imaginam uns que a mesma voz que ensina uma injustiça não póde ensinar uma verdade; imaginam outros que a mesma voz que ensina consoladoras verdades, não póde ensinar erros. A má educação, que, no rodar de muitos seculos, lhes deram, torna-osa todos egualmente incapazes de discernir o que é falso do que é verdadeiro, na mesma idêa: encaram-na a vulto, qual lh'a offerecem, e ou a guardam ou rejeitam á tôa, verdade e mentira de mistura, porque ambas as idêas estão identificadas em uma no espirito d'elles.

Todavia todos os partidos são máos, e nenhum póde, relativamente á questão presente, socegar a alma. Ainda não encontrei fiel que se me confessasse impassivel ao horror das penas eternas, quando pensava n'isso. E tambem não encontrareis incredulo que não haja confusamente sentido a precisão de sobreviver a si proprio, e não haja suspirado pela justiça do céo, vendo as iniquidades da terra. A verdade falla assim ao coração de todo homem, alvoroçando-o até que elle a comprehenda.

O fiel diz de si para comsigo: «Deus é cruel»; mas, reportando-se á Egreja, cuida que as inspirações de sua consciencia são suggestões diabolicas, e vai aterrado rezar diante da cruz um acto de fé em um Deus sem misericordia. Pelo contrario, o incredulo diz entre si: «Deus existe; os máos serão castigados»; e, se em seguida se aturde e apaga no intimo aquelle presentimento lucido da justiça divina, é porque lhe estão sempre figurando o brazido inextinguivel e as atrocidades sem fim que enterneceriam tigres e fariam chorar as pedras sobre o destino dos condemnados.

Tal é hoje em dia o estado das almas relativamente a um dos mais importantes dogmas da religião. Fé cega, incredulidade cega, fé que acceita um Deus vingativo e exclue do céo a piedade, incredulidade que busca um Deus compadecido, e, por que não acha piedade no céo, exclue de lá a justiça. E entre estes dois bandos de almas atormentadas, está uma corporação docente, que se inculca infallivel, mas que, no intento de proteger sua infalibilidade, anathematisa a razão humana e excommunga a consciencia.

Eu tenho tido parte nas angustias da fé que, até de olhos fechados, conhece que a transviam; e, se, mais tarde, abre os olhos afeitos á escuridão, como os de Saul deslumbrado, nada vê, e caminha ás apalpadellas. São passados esses dias de turvação; mas talvez n'este livro negrejem vestigios d'elles.

Não achareis n'esta obra um tratado methodico cujas partes se encadeiam e deduzem logicamente, desde a primeira até á ultima pagina. Em questão, a um tempo, tão complexa e excitante, ser-me-hia custoso sujeitar-me aos vagares do methodo. A tal qualordem que trava as peças d'este escripto, vem como compendiada no assentamento das reflexões e meditações que a formam. Ninguem melhor do que eu sabe quanta deficiencia desvalia o escripto. Não importa. Eu, por mim, rodeei o alcaçar de Satan; e, se lhe não puz cerco segundo as regras da arte, não lhe deixei parede nem pedra que não soffresse algum abalo. Não se faz mister tempestade para lh'o baquear: um leve sôpro o fará cahir.

FIM


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