VIVimos, no capitulo IV, Domingos Leite e Roque da Cunha esquivarem-se rapidamente á presença do marquez de Gouvêa.Ao separar-se, o allucinado escrivão murmurou sinistramente ao seu funesto amigo:—Conto comtigo, Roque! Se algum de nós faltar ao que deve ao outro, esse seja infame!—Seja!—assentiu o sicario de Pedro Barbosa, sacudindo-lhe a mão com a solemnidade cavalheirosa de um pacto de honra.D'ali, de Pedroiços, onde o marquez residia, até Lisboa, Domingos Leite não desfitou as esporas dos ilhaes do cavallo. (Nota 10.ª)Quando apeava no pateo de sua casa, vinha Maria Izabel,ao longo d'um corredor que conduzia ao jardim, com a menina no collo. A creancinha festejava o pai, batendo palmas, e exuberando de alegria no riso que tanto lhe brincava nos labios como nos olhos. Domingos fitou a mãe com torvo olhar, e apenas de relance olhou para a filha, como se o encaral-a de fito lhe traspassasse a alma.—Olha a creancinha como se ri para ti!..—disse Maria Isabel entre meiga e atemorisada, já quando o marido galgava apressadamente as escadas.Ella, apesar do susto que lhe arfava o coração, seguiu-o até á ante-camara. Ahi, Domingos Leite, voltando-se para a mulher, e repulsando as caricias da menina, disse-lhe com desabrimento:—Largue a creança, e volte, que preciso fallar-lhe!—Que modo de me tratar!—acudiu Maria—Tu que tens, Domingos? Que queres dizer-me? Podes fallar, que a tua filha não entende injurias, se m'as queres dizer...—A minha filha....—atalhou elle casquinando um froixo de riso por entre os dentes cerrados; e logo, arrugando a testa e alteando a cabeça com intimativa, bradou:—Não me percebe!?E, arrancando-lhe a filha do collo, sahiu com ella pendente dos braços, fechando a porta da ante-camara para que a mãe a não seguisse em gritos.A creança, apesar do repellão, olhava para o pae com a mesma jovialidade. Domingos Leite, que parecia buscar a quem entregasse a menina, parou de repente, aconchegou-a do peito, beijou-a, lavou-a de lagrimas, e, soluçando no seio d'ella, queria talvez evitar que amulher lhe ouvisse os gemidos. Deteve-se largo espaço assim, até que uma escrava, passando acaso, o surpresou n'aquelle lance. Como vexado da sua fraqueza, Leite Pereira entregou a menina á negra, e, enxugando o rosto, voltou ao quarto onde Maria Isabel estivera em rogos á Virgem, sem todavia saber que soccorros lhe cumpria pedir.Entrou o marido, fechou-se por dentro, travou do pulso de Maria, empurrou-a para sobre um preguiceiro, sentou-se á beira d'ella, e disse:—Porque treme? A innocencia não costuma assim tremer!... Porque treme?—Pois eu vejo-te enfurecido sem saber que mal te fiz!... Sahiste de casa tão contente commigo...—Quantas vezes a senhora escarneceu o contentamento com que eu sahia e entrava n'esta casa? Tinha alegria ou remorso de me enganar com juramentos sacrilegos, invocando o testemunho de Deus sobre a innocencia da sua vida de solteira?... Que responde?—Voltas ás tuas suspeitas antigas...—balbuciou Maria Isabel, menos affoita do que tinha luctado n'aquella primeira noite.—Não me irrite com referencias estupidas ás suspeitas antigas!—redarguiu o marido enfreando as arremettidas da raiva—Diga-me cá, barregan de clerigo, diga-me que conceito formou de mim, quando, depois de eu ter sahido d'aquella alcôva na primeira noite de meu deshonrado consorcio com uma manceba de padre Luiz da Silveira, voltei, passadas poucas horas, e me ajoelhei a seus pés, pedindo-lhe me perdoasse a injuria que fizera á sua puresa de menina solteira?Maria Isabel soluçava uns gemidos que a estrangulavam.Elle arrancou-lhe as mãos do rosto, e bradou-lhe:—Olhe para mim! Nada de momos! Responda: que juizo fez de mim n'este espaço de tres annos em que a tenho tratado com os extremos de noivo no primeiro dia da sua felicidade? Imaginou que eu fosse um vil, que se habituou á deshonra, a troco de vinte mil cruzados da sua infame mulher? Responda, que o seu silencio obriga-me a arrancar-lhe do coração a resposta!—Não...—Não... o quê?..—Eu nunca te suppuz vil...—Suppoz-me então enganado?...—Enganado... não...—Então, vil... uma das duas coisas... Em que ficamos: vil, conformado com a deshonra, ou enganado, isto é, persuadido de que tinha casado com uma mulher honesta?—Meu Deus!—exclamou ella afflictissima—Matae-me, Senhor!—e punha os olhos sinceramente supplicantes na imagem de Jesus.—Pois que suppunha?—insistiu Domingos Leite—Cuidou que a sua devassa mocidade seria segredo entre Deus e o padre? Nunca lhe gelaram terrores a alma, prevendo que um acaso viria explicar a rasão que eu tive para a injuriar poucas horas depois que lhe dei o meu nome honrado e a minha vida sem mancha? A senhora deve ter tido remorsos de mentir tão torpemente a um homem que tinha direito a encontrar esposa honrada! Bem sabia que eu não era marido que se vendesse, e trocasse a ignominia da pobresa pela ignominia de uma manceba de clerigo com alguns mil cruzados. Quem a privou de me dizer, quando fallou a só commigo;que na sua vida havia desaires que a prohibiam de amar um homem de bem? Recorde-se... Não lhe disse eu que, apesar de lhe querer com toda a alma d'um primeiro amor, como não acreditava na efficacia dos meus meritos, reflectisse antes de me acceitar como marido, e não viesse para os meus braços com o mais pequeno affecto sacrificado á vontade de seus paes?Maria Isabel prostrou-se aos pés do marido, exclamando:—Foi verdade...—Foi verdade!... e a senhora mentiu-me, cobriu-me de lama, fez-me o successor indissoluvel do padre!.. E que sou eu então diante de si e diante do mundo? A irrisão dos meus inimigos, e a compaixão aviltadora dos meus amigos!...E, levantando-se de golpe, sacudiu phreneticamente a mulher, que lhe abraçava os joelhos, e, dados alguns passos, parou em frente d'ella, cruzou os braços, e rouquejou convulsamente:—Ó miseravel! pôde assim, formosa e rica, aos quatorze ou quinze annos, resvalar á voragem das loureiras secretas por entre os braços d'um padre! Amou-o? diga, mulher impudica, amou-o?—Pelas chagas de Jesus Christo!—volveu ella, ajoelhando-se-lhe novamente—Eu sei que vou morrer... Se me tu não matares, heide eu matar-me!. Ai! minha querida filha!... Ó Domingos, não desampares aquella creancinha que é tua filha!...—Matar-se!—replicou sarcasticamente—As mulheres na sua condição não se matam, porque... estão mortas... Quem teve a coragem de se deshonrar perdeu a força moral que dá a rehabilitação...—Eu era uma innocente...—soluçou Maria Isabel—Não sabia o que era deshonra... Passára a minha infancia entre meus paes. Minha mãe era tão virtuosa que nem me precaveu contra a maldade do mundo...E, como os arrancos lhe embargassem a voz, o marido, que parecia ferozmente interessado na confidencia, disse:—Continue... Vae-me contar por miudos a historia da sua... queda... Conte.—Oh!.. pelo divino amor de Deus!—clamou ella—que queres saber d'esta desgraçada?... Eu só soube que estava perdida, quando te amei, porque então senti que era indigna do teu amor!..—E não obstante... diga o mais... Conhecendo-se indigna, fez-me descer na rampa da infamia para me nivelar com a senhora!..—Pois bem!—bradou ella com vehemente resolução—Esmague-me, que eu sou punida, e o senhor vingado!—Heide reflectir...—retrocou Domingos Leite serenamente—Nem todas as mulheres são dignas de morrerem ás mãos de homens honrados. Entretanto, dê-me o infernal praser de lhe ouvir contar a historia dos seus primeiros amores.E, dizendo, sentou-se, indicando-lhe com um tregeito de cabeça que se assentasse a seu lado. Ella hesitou; mas um arremêsso de impaciencia, e duas fortes punhadas que elle deu no espaldar do preguiceiro, incutiram no animo de Maria Isabel a suspeita de não sahir com vida de tamanha angustia.Sentou-se ella, a tremer, com as mãos cruzadas sobre o peito e os olhos piedosos fitos no perfil do marido.—Conte lá,—disse elle com os cotovellos apoiados nas pernas, a face entre as mãos, e os olhos postos no pavimento—conte desde o principio essa historia... Como foi que o padre lhe fez saber que a desejava, e como foi que a menina de quinze annos acceitou as doutrinas do mestre.O dialogo seguido a esta intimação demorou-se meia hora, que devia figurar-se um dia de tormentos a Maria Isabel: tão dilacerantes cortavam as perguntas no pudor d'aquella mulher.Porém, finalmente, no rosto de Domingos Leite Pereira já vislumbravam sentimentos de compaixão, porque os do rancor tinham posto a pontaria em outro alvo.As ultimas palavras d'elle, proferidas com gravidade, mas sem tom de ira, foram estas:—D'hora em diante eu continuo a ser seu marido perante o mundo; mas diante da senhora sou um estranho. Emquanto a mãe de minha filha assim quizer viver commigo, essa creança, que eu adoro, será sua tambem; mas, se este viver lhe não quadrar, eu sahirei com minha filha; e farei que ella nunca saiba quem foi sua mãe. Esta sentença não condemna o delicto da sua impuresa; condemna o enorme crime de me ter acceitado como marido. Concorda na minha proposta?—Sim... concordo... Eu viverei como tua criada, se assim o quizeres; mas não me tires a minha filha.—Retire esse tratamento dotu—voltou o marido com sobrecenho.—Nem uma palavra, nem um gesto que indique a maior ou menor alliança de duas almas que se estimaram, ou tredamente se dissimularam... Esta casa é bastante grande. Podem viver n'ella duas pessoassem se encontrarem. A senhora é rica: administre o que tem: eu não tenho nada que vêr com os seus bens de fortuna. Ficamos entendidos. Qualquer infracção d'este pacto, estalará em tempestade sem bonança.VIIAquelle mercieiro, primo do mestre de Maria Isabel, attribulado agora pelas revelações que fizera a Roque da Cunha, avisou padre Luiz da Silveira, encarecendo os martyrios que lhe arrancaram o segredo.O thesoureiro de S. Miguel de Alfama ponderou o melindre da situação, e maldisse a embriaguez que o levou á imprudencia de se gabar d'um delicto que elle julgava já esquecido e delido como o bôlo avinhado de que lhe espumara aos beiços a jactancia de ter sido amado da esbelta Maria Isabel Traga-malhas.Trazia elle, ao tempo, requerimento bem protegido no paço, pedindo um beneficio na sé de Silves. O aviso do parente esporeou-lhe a diligencia na obtenção da prebenda; para o que, logo na mesma hora, se foi pessoalmente á côrte da Ribeira, e logrou alcançar do secretariode estado a promessa do despacho n'um dos seguintes dias.No entretanto cuidou o padre de enfardelar o mais precioso dos seus haveres, sendo o sobre todos estimadissimo fardel, uma rapariga de bons quilates de bellesa, não sabemos se tambem discipula d'elle, se creatura já amestrada em amores, quando o cauto clerigo a installou na freguezia de S. Mamede, noBêco dos Namorados,—nome gracioso que desdizia da immundicie d'aquella escura alfurja, apenas palmilhada a horas mortas, por um só namorado, que era padre Luiz. Este béco abria por uma das extremidades noTerreirinho do Ximenes, local azado para amantes clandestinos, visto que raro viandante por ali transitava depois das Ave-Marias.Para afugentar o terror que o primo lhe incutira, pintando-lhe Roque da Cunha caudilho de uma horda de quadrilheiros facinorosos, padre Luiz fiava-se na convicção de que ninguem lhe suspeitava a lura, nem por aquelles sitios desfrequentados lhe faria espera. Ainda assim, como o seu mêdo era mais de clerigo do que de homem, e o escandalo o assustasse mais do que a lucta, cingiu um correão de pistolas, envolveu-se na capa longa de arruador nocturno, derrubou a aba do sombreiro aragonez, e, á hora do costume, sahiu com o intento de conduzir para casa do primo tendeiro a moça inquilina doBêco dos Namorados.Meia hora antes de elle entrar noTerreirinho do Ximenes, precederam-no n'aquella paragem, desembocando dasPedras Negras2dois vultos, que pareciam, nomoverem-se umas sombras; e sendo dois homens, tão subtilmente deslisavam que difficil fôra estremar qual d'elles projectasse a sombra do outro.—Hade passar aqui ou entrar pelo outro lado—disse Roque da Cunha a Domingos Leite—A tua paragem é esta; a minha é a outra. Dou-te o ponto mais arriscado, visto que m'o não cedes. Olha que o padre tem figados, torno a dizer-t'o... Até logo.Domingos Leite retrahiu-se para o escuro de um arco sotoposto ao collegio jesuitico de S. Patricio, e acantoou-se no angulo mais comvisinho da passagem. O quarto de hora, que seguiu esta emboscada traiçoeira, arrastou-se vagaroso e dilacerante por sobre a alma ainda immaculada d'aquelle homem, que se via precipitado a um tal feito; que nem a vaidade nem o pundonor justificavam bastantemente a matar um homem desconhecido, que não o ultrajara, que era innocente nas suas angustias de marido e amante vilipendiado. Era atroz. Mas esse homem, ébrio ou infame, proferira com fatuidade o nome de Maria Isabel, conspurcando-lhe a fama, e assoalhando a deshonra do marido ao sêvo dos seus muitos inimigos, invejosos do patrimonio da esposa ou do rendoso officio com que el-rei lhe premiára intelligentes serviços. O orgulho afinal amordaçara o instincto da justiça; ainda assim, a batalha travada na consciencia de Domingos Leite era despedaçadora. A espaços, mettia-lhe horror na fantasia o pensar que rasgaria a punhaladas o peito do homem, cujo nome havia de ouvir dos labios d'elle mesmo; porém, se lhe negrejava no espirito a horrivel irrisão de encontrar-se rosto a rosto com o seductor da donzella, que se deixára poluir como um anjo de alabastro se deixaria inconscientementedespedaçar ás mãos de um ébrio furioso, então o pulso latejava-lhe iracundo no cabo do punhal, e o ouvido escutava com avidez o rumor de passos que lhe figurava a aproximação da victima.N'este conflicto, ouviu o estampido d'um tiro, a curta distancia, e um grito agudo de voz de mulher. A detonação e o brado soaram do lado doBêco dos Namorados. Promptamente reflectiu Domingos Leite que Roque da Cunha se encontrára com o padre; e, por saber que a arma do seu confidente era o punhal, inferiu que o outro desfechára com elle. Isto colligia correndo ao longo do bêco, de faca arrancada, e os olhos cravados no reluctar de dois corpos, sobre os quaes, a revezes, resvalava o frouxo clarão da lampada de um nicho.Ao avisinhar-se dos dois vultos, entreviu o relampejo da lamina d'aço contra um corpo já cambaleante, e ouviu o rouquejar de moribundo, que pedia misericordia, ao mesmo tempo que de uma adufa de casa proxima estrugiam gritosá-d'el-rei.A supplica de misericordia, que padre Luiz da Silveira vociferára, foi-lhe cortada pelo decimo golpe que Roque lhe vibrou ao peito; e quando Domingos Leite se abeirou do amigo, que alimpava o rosto banhado de sangue, já o mestre de Maria Isabel jazia morto.—O ladrão crivou-me a cara de zagalotes!—murmurou Roque da Cunha—Olha do que eu te livrei, rapaz!... Vê lá se o diabo tuge, e toca a safar, que a barregan não se cala...Domingos Leite olhou de revez para o cadaver que cahira de bruços, esforçou-se para ir examinar-lhe a respiração; mas as pernas tremiam-lhe.—Não vais?!—disse Roque, embebendo na capa o sangue que lhe gotejava da face direita—Tu és covarde ou sandeu, homem?—Podemos ir que elle está morto...—respondeu tiritando Domingos Leite.—Podemos ir que elle está morto?—replicou sorrindo—Cá te avirás com o padre, se ressuscitar—volveu Roque, e sahiu pelo outro lado, descendo a calçada de S. Chrispim; e, atravessando o Beco do Bogio, baixaram até ás Portas do Ferro, onde morava o matador do padre.Examinada a ferida, Domingos Leite decidiu, com a competencia de experto boticario, que o pelouro resvalára na maçan do rosto, sem ferir osso nem cortar veia importante.O ferido, restaurando o sangue esgotado com uma botelha de vinho hespanhol, contou modestamente que o padre vinha entrando aoBeco dos Namorados, quando elle, ouvindo passos, se cozêra com a sombra de um cunhal, afim de o reconhecer, ao tempo que a lumieira do nicho lhe desse na figura; porém, ajunctou elle:—O homem, a trez passos de mim, desembuçou-se, arremetteu commigo, poz-me a pistola tão perto da cára, perguntando-me quem eu era, que, a fallar-te verdade, se eu não tivesse alguma experiencia d'este mundo e a certeza de que ninguem morre duas vezes, talvez dissesse ao padre que fosse em paz e não contendesse com quem estava manso e quieto. Mas hasde tu saber, amigo do coração, que eu, quando tenho medo, mato mais depressa. Um gato brinca com a ratazana que a final estripa; mas, se é cão o inimigo, o gato crava-lhe as unhas logo nos gorgomilos, e não brinca. Deu-secom o perro do clerigo o mesmo cazo. Perguntou-me quem era, de pistola abocada. Respondi-lhe com as punhaladas, que o escrivão do corregedor ámanhã dirá quantas foram. Atirou-me á cabeça ainda antes que eu lhe tocasse. Folgo de ter luctado com um homem. Se eu tivesse matado um poltrão, isso havia de me custar remorsos, palavra de Roque da Cunha! Estás ahi a contemplar-me com uma cara de môço de côro da real capella, homem! Parece que o mestre de tua mulher, se até ha pouco te andava ás cavalleiras da honra, te peza agora ás cavalleiras da consciencia! Vamos a saber: estás contente commigo, ou querias que eu, em vez de matar o padre, lhe pedisse que me contasse historias do seu systema de ensinar raparigas?—Sei que me não queres inxovalhar com esses remoques...—acudiu gravemente Domingos Leite Pereira—Eu sou um homem triste como todos os desgraçados, Roque!.. Se vês em meu rosto o terror, é porque a minha felicidade morreu primeiro que esse homem... que devia morrer. O meu desejo seria tel-o morto, para me apresentar á justiça, e dizer: «fui eu quem o matou; matem-me, que me dispensam d'um martyrio sem fim!..» E, se acontecer que a justiça te culpe, irei eu denunciar-me como matador. Agora, meu amigo, pelo que cumpre á minha obrigação para comtigo, sou a dizer-te que disponhas de tudo que eu valho, e da minha vida, que pouco vale.—Tudo que tenho a pedir-te cifra-se em pouco—respondeu Roque da Cunha—Ámanhã fallas com o corregedor do bairro, e lhe dirás que estou doente: bem vês que não devo apparecer com o carão esfarrapado. Depois, trarás o betume com que se fecham estas gretas, e cuidarásde mim, mandando-me da estalagem do hespanhol doLargo do Fornoumas empadas de gallinha, e do armazem dosSete Cotovêlosalgumas botijas do de Torres Novas. Feito isto estão saldadas as nossas contas; e, quando souberes que tua mulher t'as não dá direitas, abriremos novo saldo.Uma hora depois, Roque da Cunha, affeito a dormir em conjuncturas analogas, admirava-se de não ter ainda adormecido: e Domingos Leite Pereira, entrando em sua caza com todas as precauções para não ser ouvido, fechou-se no seu quarto, abriu a janella para sentir na fronte esbrazeada o frio da noute, vagou a vista errante pelo ceu estrellado; e, chorando como nunca chorára, disse entre si:—Porque sahi eu da tua sombra, meu pobre pai, que a estas horas dormes serenamente no regaço da honra!... Bem me dizias tu, minha sancta mãe, que eu fazia mal em deixar a caza, onde nunca chorara alguem até á hora da minha partida... para este inferno em que estou penando!Ao arraiar da manhã, Domingos Leite ouviu, no corredor contiguo ao quarto, a voz da filha, que, por costume, se erguia de madrugada e ia deitar-se com o pai. Foi abrir a porta, tomou-a do collo da ama, agazalhou-a no peito, porque a menina tremia de frio, aqueceu-lhe o rosto com o respirar febril e cortado de soluços, e longo tempo anceou n'aquella tortura misturada com o desafogo aprasivel das lagrimas.VIIIO assassinio do padre Luiz da Silveira foi explicado por varios modos, tanto que o cadaver appareceu, noBêco dos Namorados, com dez punhaladas no peito.Disse-se que os seus antigos consocios de infidelidade á patria, e contubernaes em patifarias, receiosos que elle lhes delatasse os delictos, visto que medrava na estimação dos ministros de D. João IV, o matariam para se desfazerem de um delator perigoso. Diziam outros, mais plausivelmente, que o padre acabára ás mãos dos vingadores do arcebispo Sebastião de Mattos e seus cumplices, levados ao patibulo pela delação do seu ignobil confidente. Outros finalmente accusavam sem rancor, antes com approvação, um tal licenciado Ruy Pires da Veiga, irmão da manceba do clerigo, desde que a viram abraçada ao morto, e reconheceram n'ella a menina que, dousannos antes, desapparecera de casa de sua familia honesta e abastada.Instaurou-se a devassa.O primeiro que mui secretamente se apresentou a fazer revelações na corregedoria foi aquelle mercieiro, primo do clerigo morto. O testemunho deste sujeito, forçado a confessar a Roque da Cunha o que ouvira respeito á esposa do escrivão do civel da corte, illucidava cabalmente a morte do padre Luiz.No entanto, o escrivão do civel da corte continuava a exercer o seu officio, Roque da Cunha tambem, e ambos desassombradamente fruiam os seus direitos de cidadãos bem procedidos. Não succedeu o mesmo com Ruy Pires da Veiga, que se homisiou, quer envergonhado de ser o irmão da mulher teúda e manteúda do clerigo, quer receoso de que o prendessem por suspeito do homicidio.Sabia-se, porém, e com grande espanto, que o rei mandára suspender a devassa. Os politicos inferiram d'ahi que na morte do antigo official de Miguel de Vasconcellos, e secretario particular do arcebispo de Braga, havia segredo de estado cujo rastro era perigoso farejar.Volvido um anno sobre a morte do thesoureiro de S. Miguel de Alfama, Ruy Pires da Veiga, indigitado homicida pela maioria das opinioens, sabendo que sua irmã era já falecida de paixão em rigorosa clausura, appareceu na côrte a defender-se da calumnia. A voz publica, espicaçada por este novo estimulo, deu vida ao esquecido assumpto, concorrendo bastante o mercieiro com as suas revelações feitas em segredo, mas, a poucas voltas, divulgadas por toda a cidade.Estes murmurios chegaram aos ouvidos de D. João IV, que de sobra sabia quem era o assassino directo ou indirecto do clerigo.O rei estimava Domingos Leite Pereira, já pelos corajosos serviços que lhe prestára nos passos anteriores á sua acclamação, principalmente nos tumultos de Evora e recovagem de recados a Madrid e a Villa Viçosa, já pelos creditos em que o trazia abonado o seu ministro e mordomo-mór marquez de Gouvêa. E, posto que el-rei timbrasse na rigorosa execução das leis, suspendendo agora a devassa, parecia indultar Domingos Leite por que o delicto do padre, seductor da discipula, lhe era odioso; e a circumstancia da delação dos conjurados, feita por um seu confidente, não melhorava em seu particular conceito a condição perversa do traidor.Perguntara o rei ao marquez de Gouvêa, quando se viu forçado a dar satisfação aos boatos que manchavam a justiça dos seus executores, o que sabia de Domingos Leite Pereira e de sua mulher. O marquez respondeu que o seu secretario, desde a morte do padre, nunca mais abrira um sorriso, nem dera azo a que se lhe perguntasse coisa relativa ao seu viver domestico:—Mas vivem com apparencia de bem casados...—observou maliciosamente o rei.—Um viver mais horrivel que a separação com escandalo publico, real senhor!—disse o marquez.—Ha um anno sei eu que nunca mais se fallaram nem viram de portas a dentro. Tem Domingos Leite uma filha que adora. Uma vez unica me fallou da sua desgraça, bem que me não desse novidade; porque eu, antes que elle a conhecesse, já a sabia das atoardas publicas, auctorisadas pelas gabações do clerigo. Então, n'essa vez unicaem que Leite Pereira desafogou commigo, lhe ouvi dizer que pensava em sahir da corte, e recolher-se a Guimarães ao amparo de seu pai; mas que o não faria sem levar comsigo a filha; receava, porém, que a mulher, irritada por se lhe tirar a filha, desse occasião a divulgar-se um opprobrio nocivo á creança que elle queria defender da deshonra da mãe. Fiz quanto pude em despersuadil-o de tal proposito, incutindo-lhe sentimentos generosos de perdão á esposa por amor da filha. Este argumento não o convenceu, antes parecia exasperal-o; pois que, a seu ver, era indigna de misericordia tal mulher que, depois de o ter enganado quanto ao seu passado, e tendo a certeza que a morte do padre ninguem melhor do que ella poderia explical-a, em vez de viver amargurada do despreso do marido, ousava estadear-se nas igrejas e nas ruas com ar de senhora honesta, ou antes de mulher despejada que despreza os malsins da sua reputação, fazendo gala da sua formosura e riqueza...—Tenho ouvido dizer que é muito formosa...—atalhou o rei.—Não ha em Lisboa quem lhe dispute a primasia. Nunca Vossa Magestade viu mais galante mulher, sendo a côrte da rainha, minha senhora, a mais selecta de bellas damas!—E o seu procedimento?—Apparentemente bom—respondeu o mordomo-mór sorrindo—Digo apparentemente, porque não sei quantos astutos velhacos deixou em Lisboa o padre Luiz, nem Vossa Magestade crê que tão sómente os mestres de meninas tem a fortuna de armar em segredo as suas aboizes a estas avezinhas innocentes; e, depois que asavesinhas uma vez deixaram pennas das azas na esparrela, hade ser difficil fazel-as entralhar sem que ellas se guardem de perder a plumagem.—Assim parece—assentiu o rei—Seja como for, Domingos Leite andaria melhor avisado se sahisse da côrte logo que vingou no padre a aleivosia da mulher, se aleivosia houve. Mandei suspender a devassa, quando eram já declarados os criminosos. Não consenti que se prendessem porque bastante causa dera o padre a ser castigado; e, alem disso, ás cegueiras do coração e do brio é mister conceder o que não concedemos aos matadores que matam de animo frio. É tambem culpado na morte do padre, como o marquez deve saber, um Roque da Cunha, que se tem salvo á sombra de Domingos Leite, e de alguns serviços que me fez. Sei que máo homem é, desde que ha seis annos me denunciou Mathias de Albuquerque por motivos de odio pessoal. Mas este e outros eguaes membros gangrenados não os posso amputar cerces, em quanto preciso me for espiar uns infames com outros infames. Se nos não valermos de quem os conhece de intimidade, não teremos quem nos ponha de sobreaviso. Já o marquez sabe a razão porque Roque da Cunha está logrando a impunidade de Domingos Leite. Porém, desde que Ruy Pires da Veiga voltou do seu voluntario desterro e passeia em Lisboa desmentindo e affrontando o boato, que lhe assacava a morte do padre, a devassa tem de proseguir, e os reos, muito a pezar meu, hão de ser presos, se estiverem no reino. Por tanto diga o marquez ao seu secretario que se retire sem demora de Portugal; e o homem, que o serviu na sua vingança, que se retire tambem, se Domingos Leite deseja salvar o cumplice. O julgamento deDomingos Leite correrá os seus tramites, e faremos que a sentença o não prive para sempre da patria.O marquez de Gouvêa, bem que profundamente magoado, não ousou pedir ao rei que a devassa permanecesse suspensa. D. João IV esfriava a coragem dos poucos que privavam da sua confiança, quando dava ordens com tão carregado e resoluto semblante, quanto, antes de acclamado, era com todos os fidalgos ameno de tracto e docil aos votos alheios.Bem quizera o amigo e protector de Domingos Leite rogar ao menos a delonga da partida, e n'esse intuito começou perguntando ao monarcha se era forçosa a sahida do seu secretario ainda n'aquelle mez de fevereiro, que ia em começo.O rei respondeu:—É ámanhã que deve sahir; porque depois de ámanhã fecha-se a devassa, infalivelmente.O mordomo-mór beijou a mão do rei, e sentiu no animo recondita aversão ao soberano aprumo de D. João de Bragança. Latejou-lhe talvez nas arterias o sangue castelhano de seu pai, conde de Portalegre, tronco d'aquella alta vergontea que cahiu com a corôa ducal de Aveiro sob a lamina do algoz em 1759.Sahiu triste o ministro a encontrar-se com o secretario, em seu gabinete. Referiu-lhe o que se passára com el-rei, deplorando a fatalidade que o privava temporariamente de tão bom como infeliz amigo.Domingos Leite ouviu a nova, com exterior de mediano sobresalto.—Agradeço a sua magestade—disse elle—a permissão de levar commigo o homem que associei ao meu funesto desaggravo. V. Ex.ª sabe que eu me furto áspenas da justiça mais para salvar Roque da Cunha. Nada monta para mim a vida, se sou obrigado a desterrar-me, e deixar a minha filha—unico amor que me ficou ao de cima d'este abysmo em que me vejo precipitado com tantas quimeras brilhantes que me enganaram. Todo me sinto perdido, e morto, peor que morto, se heide no exilio agonisar de saudades d'aquella creancinha...—Eu olharei por ella—consolou o marquez—Se não vier tão depressa quanto eu desejo, sr. Leite, creia que heide conseguir mandar-lhe sua filha, logo que ella esteja creada.—Não mande, sr. marquez...—acudiu Domingos Leite.—Que não mande?! Porque não?..—Porque eu não sei se terei lá fora de Portugal um pão que repartir com minha filha...—Pois vm.cenão é rico?—Eu tinha bom officio, e os grandes salarios que v. ex.ª me dava. N'este momento deixei de ser o escrivão do civel da côrte e o secretario do mordomo-mór. Sou um assassino sem patria. Verdade é que meu pae, o cuteleiro de Guimarães, apesar de eu lhe pedir que sahisse da forja e descansasse, com os seus haveres e os meus, o restante da velhice, ainda trabalha: mas eu não sei se elle enviará a um filho apregoado assassino o que adquiriu com o trabalho honrado que eu desprezei, apezar das suas supplicas...—Mas...—atalhou o marquez—O sr. Leite, desde que casou, tem parte no grande patrimonio de...—De Maria Isabel?—acudiu com vehemente repugnancia o secretario—D'essa mulher não tenho senão a parte que me cabe do seu desdouro. E quando eupensava que a minha honra havia de sahir depurada d'este fogo que me devora desde a noite em que vi o cadaver do padre, afinal de contas, sou o mesmo desgraçado que era, e ajunto á desgraça de perder uma mulher que adorava, tres grandes infortunios: não terei de hora ávante patria, nem filha, nem meios de que viver com honrada independencia. Dos bens de Maria Isabel não levarei um ceitil, sr. marquez. Aqui mesmo, se v. ex.ª me permitte, escreverei a meu pae, a fim de o preparar para o golpe. Não posso mentir-lhe. Eu não matei; mas mataria com certeza, se estivesse no posto de Roque da Cunha. É forçoso que eu diga a meu pae que tenho um grande crime; mas que em minha consciencia não perdi o direito de lhe supplicar a esmola que os encarcerados imploram pelas grades das masmorras aos que vão passando.O marquez enxugava as lagrimas, emquanto Domingos Leite Pereira escrevia, parando a cada palavra a penna, á espera que as palpebras embebessem o jorro das lagrimas. Ao dobrar a carta, murmurava o extremoso pai:—Não vou despedir-me de minha querida filhinha... Isso é que eu não posso, meu Deus!.. Sei que não posso... Quando eu tiver partido, mande-a v. ex.ª buscar e falle-lhe de mim... Pede-lh'o esta alma que se me parte de angústia, sr. marquez! Eu queria que ella me não esquecesse; e, a não ser v. ex.ª, quem lhe fallará de seu pai!..—Vá com a certesa de que heide mandar buscar a sua filha muitas vezes, e não desanime de voltar a Portugal, sr. Leite. Eu quero ainda vêl-o hoje á noite. Vá dar os passos que tem a dar, e volte a despedir-se do seu velho e inutil amigo.Debalde o esperou.IXElle disse que não teria animo de se despedir da filha. Animo de partir sem vêl-a é que elle não teve.Sahindo do palacio do marquez seguiu o trilho de sua casa. A cada rua e travessa, por onde podia desviar-se, parava, guinando os olhos tôrvos e cheios de lagrimas, entre os dous caminhos. Em uma d'essas paragens de dolorosa perplexidade avistou Roque da Cunha, que marchava de cara alta, mão na ilharga, consciencia tranquilla no aspecto ridente.Esperou-o Domingos Leite, e disse-lhe offegante:—Ámanhã sahiremos de Lisboa e passaremos a raia. Prepara-te.—Então que ha?—Uma ordem de prisão é o que vae haver contra nós. Fecha-se ámanhã a devassa.—E para onde vamos? já resolveste?—Para Hespanha.—Está claro. O meu dinheiro são oitenta cruzados; mas tu vaes assombrar Madrid com o cofre do Traga-malhas, que Deus tem na gloria dos tanoeiros.—Eu tenho de meu ainda menos do que tu—respondeu Domingos Leite com severidade—Escrevi a meu pae pedindo-lhe alimentos; se elle m'os não der, veremos em que trabalho a Providencia m'os depára.—A Providencia, amigo Leite,—replicou o folião—não tem n'este mundo secretario das mercês conhecido, a não ser o padre santo. Este anda ás avessas com portuguezes, e não me parece que deva ser assaz amigo de quem lhe bate seriamente nos padres. Leva dinheiro, homem; que um portuguez pobre em Madrid vale menos que um judeu rico em Lisboa. Mas não esmoreças se fizeste voto de ir por Castella dentro com esclavina e bordão de peregrino. Lá está em Madrid minha mãe. Se ella me reconhecer e não tiver pejo de me haver gerado, não nos hade faltar boa meza em casa de meu padrasto o desembargador do Paço Francisco Leitão...—Não percamos tempo—interrompeu Domingos Leite, aborrecido do tom jovial do interlocutor—Á noite, serei em tua casa, e de manhã partiremos.—Olha lá, Domingos Leite,—volveu Roque, cingindo-lhe o braço pelas espaduas—conselho de amigo que anda cá n'este vale de lama ha quarenta e oito annos...—Que é?—Não deixes a mãe de tua filha á matroca, com lastro de vinte mil cruzados na falua, e vinte e dois annos de edade, e com mais tentações no rosto que todas asmoiras juntas em noite de S. João. Convento com ella, ouviste?Domingos Leite encarou torvamente Roque, e respondeu-lhe, passados dois segundos:—Que me importa isso a mim? Sabes que, ha um anno, vivo ao lado da mãe de minha filha, como se entre nós se mettesse a pedra que separa duas sepulturas. Nunca pensei em lhe dar maior castigo que o do meu despreso. O enclausural-a dentro dos ferros do mosteiro não a lavava da mancha indelevel de donzella que foi as delicias d'um padre. Eu sentia por ella alguma coisa mais implacavel que o odio: era o nôjo. Que me faz a mim já agora que essa mulher cave com as proprias mãos mais um palmo no seu abysmo de lôdo?—Palavrorio!—replicou o quadrilheiro—Se tua mulher te não fosse leal, enforcaval-a como o alcaide de Belmonte fez á mulher por causa de outro clerigo da casta do padre Luiz da Silveira. (Nota 11.ª) Contava-me o caso minha avó, que era do tempo em que se enforcavam as fidalgas adulteras.—Acabemos esta semsaboria...—cortou Domingos Leite com trejeitos desabridos—Cuida de ti, e não entrevenhas nas coisas alheias da tua alçada...—Intervim de mais...—murmurou Roque estomagado do repellão—Cá vou tratar de mim, amigo Leite... Sempre será bom que me não ponham a prumo no logar onde eu puz o padre de bruços, por intervir de mais nas coisas alheias da minha alçada. Até á noite.Ao separarem-se assim irritados, Leite Pereira, pezaroso da sua impertinencia, ainda se voltou para chamar o amigo e dar-lhe satisfação das palavras rudes;mas Roque da Cunha estugára o passo, como quem ia mais preoccupado da devassa que da offensa.Este incidente carregou mais a treva d'aquella alma. Zoavam-lhe estridores metalicos na cabeça, e confragia-se-lhe a fronte crivada de dores como se esgarçassem por ella os espinhos mordentes de uma corôa. A revezes, parava, porque o respirar lhe dava afflições, ou o pavimento se lhe figurava um despenhadeiro. Quando chegou a sua casa, á Porta do Salvador, sentou-se no escabello do pateo, e arquejou largo espaço, olhando para a escada, ainda indeciso se subiria a despedir-se da filha, se encarregaria um criado de lhe levar a sua bagagem a casa de Roque da Cunha.N'este comenos, entrava Maria Isabel, vinda de fóra, com a creancinha pela mão.Estremeceu dando de rosto com o marido. Leite Pereira, ao vêl-a, ainda se esforçou por evital-a; mas a filha corrêra contra elle, com os braços abertos, balbuciando palavras cariciosas. O pae sentou-a sobre os joelhos, e rompeu em alto choro, que a menina acompanhava em gritos, affagando-lhe as faces e beijando-lh'as com ternissima anciedade.N'isto, levantou-se de golpe, aconchegou do seio a filha, e subiu acceleradamente as escaleiras.Seguiu-o Maria Isabel, sinceramente consternada, dizendo-lhe palavras maviosas; e, quando elle entrava no seu quarto e fazia menção de se fechar por dentro, a mulher, arrostando o perigo de soffrer o embate da meia-porta, rompeu de poz o marido, e, pondo-se de joelhos, exclamou:—Se podes ser mais feliz com a minha morte, peço-te que me acabes de uma vez!.. Eu já não posso com o teudespreso; tenho procurado viver por amor desta creança; hoje creio que ella já não precisa de mim, visto que tu a amas, e a Virgem do céo attendeu os meus rogos. Desde que me abandonaste, não cessei de pedir a Deus que te voltasse o coração para a nossa filha, embora eu fosse a odiada. Agora que o meu querido anjo tem o teu amparo, peço a Deus que me tire d'este supplicio; peço-te a ti que me dês uma morte bem rapida, de modo que eu não possa vêr na minha agonia de morte esta menina a chorar!...Domingos Leite, que havia sentado a filha sobre o leito, ouviu a exclamação de Maria Isabel, fitando-a com terrivel immobilidade de olhos. E, quando ella acabou a supplica, e parecia de mãos postas esperar a morte, o marido, avançando para ella os dois passos interpostos, disse-lhe com serena voz:—Levante-se e escute-me!Ella ergueu-se encarando-o espantada, e abeirou-se do leito em que a menina, de pé e tremente, relançava olhares espavoridos entre o pae e a mãe.—Sou obrigado a desterrar-me, senhora!—disse elle pausadamente—Á mulher, que fez da sua mocidade o opprobrio do marido, e que fez do marido um assassino, é preciso que eu n'esta hora lhe diga que ámanhã a justiça me pedirá contas da vida d'um homem que devia morrer, visto que elle matára a honra da mulher de Domingos Leite. Vou homisiar-me, e não mais voltarei a Portugal, porque vae commigo a ignominia que lá fóra me hade espedaçar...—Ó Domingos...—exclamou Maria Isabel—Ó filho do meu coração, leva-nos comtigo!..—Não me atormente com interrupções frivolas!—obstouelle mal assombrado—Deve saber, senhora, que eu vou sahir de sua casa extremamente desvalido, pobrissimo, com umas migalhas que hontem recebi dos meus ordenados. Hade encontrar de portas a dentro tudo que seus paes lhe deixaram, e o mais que eu lhe pude accrescentar com os meus recursos. Se alguem na sua presença me alcunhar de homicida, não me defenda; mas, se lhe disserem que eu no desterro mitigo as saudades da patria com os haveres da mulher que a fatalidade me deu, negue, negue, senhora, porque eu fui cinco annos seu marido, e não toquei em um cruzado do seu patrimonio. Prouvera a Deus que esta creança tivesse a necessaria intelligencia para me ser testemunha da minha pobre honra, por essa parte illesa! Oxalá que depois da minha morte esta menina podesse dizer que seu pae foi um desgraçado sem nodoa na sua probidade!..Fez uma dilatada pausa, porque os soluços lhe cortavam as palavras, emquanto Maria Isabel, tomando a filha nos braços, lhe ajoelhava outra vez.—Não serve de nada essa humildade, senhora!—volveu elle com desalento e desesperação—Levante-se; peço-lhe que se levante, se alguma pena tem de mim. Eu necessito pedir-lhe que seja boa mãe... que ame esta creança, que reduza a sua existencia em lhe preparar o futuro. Lembre-se que eu lá do desterro lhe estou sempre pedindo que se sacrifique á minha filha. Expie a sua culpa, formando-lhe o coração com as virtudes que até as mães pessimas conhecem quando chegam a ter pezar do seu vilipendio. Faça tudo que entender preciso para que sua filha não leve com um pouco de ouro um grande cabedal de infamia a seu marido.Vigie-lhe os passos da mocidade afim de que o marido, que lhe escolher, não tenha de apartar-se d'ella com o ferrete de assassino na fronte. Não tenho mais que lhe pedir. Agora, rogo-lhe que me deixe.—Não, não te deixamos...—tornou a esposa—Ó Angela, ó minha querida filha, pede com as mãos erguidas a teu pae que nos deixe acompanhal-o!A creança ajoelhou, supplicando:—Deixe, deixe, meu pae!..Domingos Leite poz na mulher um olhar enfurecido, fez arremêço de indignação, e bradou:—Quem lhe disse, mulher, que eu lhe perdoei?! Se estava morta para mim, como heide eu dar-lhe vida de esposa, fazel-a minha companheira do desterro, quando a justiça me persegue porque eu lhe matei o amante?E, ao proferir a palavra indecorosa, olhou vertiginosamente para a filha, travou d'ella com impeto phrenetico, ergueu-a á altura dos labios, e murmurou:—Eu morreria de vergonha, se me tivesses comprehendido!..E, voltando-se para Maria Isabel, que tiritava apoiada no espaldar de uma cadeira, bradou-lhe:—Deixa-me levar minha filha? deixa-m'a levar só a ella?..—Meu Deus!—exclamou a mãe.—Diga, diga!—instou elle com crescente vehemencia—Fica-lhe tudo, riquesa, mocidade, liberdade, tudo; mas deixe-me levar Angela... Não deixa?—Não posso, não posso!.. Mate-me, mate-me, e depois leve-a!..—Que a mate!.. Olhe que eu não tenho sangue nas minhas mãos, mulher!.. Veja-as, que estão limpas... eulevo sobre a consciencia o peso de uma enorme vergonha; não levo o peso de um cadaver, percebeu-me?... Pois cuida que as entranhas que tanto amam uma filha podem ser as d'um carniceiro? Poderia matal-a o homem que viveu anno e meio n'esta mesma casa, sem vêr a mulher que o mundo chamava minha esposa, e que viveu aqui, e d'aqui sahia todas as manhãs com apparencias de feliz, para que o mundo duvidasse de que a senhora tinha sido a recatada amante de...Soffreou de novo a palavra infamante; e, cravando os olhos nos de Angela, parecia indeciso sobre a intelligencia da creança.—Ó infindo tormento!—clamou Domingos Leite apertando a cabeça, e debruçando-se prostrado sobre o leito.N'este lance, Maria aproximou-se do marido, poz-lhe a mão no hombro, e murmurou:—Olha, Domingos, escuta... Leva a nossa filha.—O quê?! bradou elle, erguendo-se.—Leva a creança. Queres ir com teu pae, Angela?A menina deteve-se a responder, olhando para ambos alternadamente.—Queres ir commigo, filha?—perguntou o pae.—E a mãe tambem vae?—disse a menina assustada e irresoluta.—Eu vou-me embora, e nunca mais volto—tornou o pae—Não me tornas a vêr. Queres ir com o teu pae?—E não torno a vêr a mãe?—Hasde vêr, menina—acudiu Maria Isabel engulindo as lagrimas—Tu depois has de pedir ao pae que me deixe ir vêr-te, sim?.. pedes, filhinha?Angela, sem perceber a profundesa do trance que alise passava, abraçou-se na mãe, chorando. Domingos Leite cruzou os braços contemplando mãe e filha que se estreitavam num abraço convulso como o estorcer de suprema angustia. Volvidos alguns segundos, disse com o desanimo d'alma emfim sossobrada:—Irei só. Tu ficas, Angela. Deus não quer que o anjo de innocencia vá nos braços d'um pae homicida mendigar o pão de estranhos. Não deves ter quinhão do meu castigo, pobre menina!... Agora, peço de novo á sua compaixão... Maria Isabel... que leve sua filha, e me deixe só...A esposa sahiu com vacilantes passos, levando a menina á força. Domingos Leite volveu de novo a beijal-a, e impelliu-a brandamente para fóra do quarto. Depois, correndo a lingua da chave, voltou-se para um Senhor Crucificado, e disse mentalmente:—Forças, meu Deus! Guardae-me os maiores tormentos para o desterro, e dae-me alento n'este lance!
Vimos, no capitulo IV, Domingos Leite e Roque da Cunha esquivarem-se rapidamente á presença do marquez de Gouvêa.
Ao separar-se, o allucinado escrivão murmurou sinistramente ao seu funesto amigo:
—Conto comtigo, Roque! Se algum de nós faltar ao que deve ao outro, esse seja infame!
—Seja!—assentiu o sicario de Pedro Barbosa, sacudindo-lhe a mão com a solemnidade cavalheirosa de um pacto de honra.
D'ali, de Pedroiços, onde o marquez residia, até Lisboa, Domingos Leite não desfitou as esporas dos ilhaes do cavallo. (Nota 10.ª)
Quando apeava no pateo de sua casa, vinha Maria Izabel,ao longo d'um corredor que conduzia ao jardim, com a menina no collo. A creancinha festejava o pai, batendo palmas, e exuberando de alegria no riso que tanto lhe brincava nos labios como nos olhos. Domingos fitou a mãe com torvo olhar, e apenas de relance olhou para a filha, como se o encaral-a de fito lhe traspassasse a alma.
—Olha a creancinha como se ri para ti!..—disse Maria Isabel entre meiga e atemorisada, já quando o marido galgava apressadamente as escadas.
Ella, apesar do susto que lhe arfava o coração, seguiu-o até á ante-camara. Ahi, Domingos Leite, voltando-se para a mulher, e repulsando as caricias da menina, disse-lhe com desabrimento:
—Largue a creança, e volte, que preciso fallar-lhe!
—Que modo de me tratar!—acudiu Maria—Tu que tens, Domingos? Que queres dizer-me? Podes fallar, que a tua filha não entende injurias, se m'as queres dizer...
—A minha filha....—atalhou elle casquinando um froixo de riso por entre os dentes cerrados; e logo, arrugando a testa e alteando a cabeça com intimativa, bradou:
—Não me percebe!?
E, arrancando-lhe a filha do collo, sahiu com ella pendente dos braços, fechando a porta da ante-camara para que a mãe a não seguisse em gritos.
A creança, apesar do repellão, olhava para o pae com a mesma jovialidade. Domingos Leite, que parecia buscar a quem entregasse a menina, parou de repente, aconchegou-a do peito, beijou-a, lavou-a de lagrimas, e, soluçando no seio d'ella, queria talvez evitar que amulher lhe ouvisse os gemidos. Deteve-se largo espaço assim, até que uma escrava, passando acaso, o surpresou n'aquelle lance. Como vexado da sua fraqueza, Leite Pereira entregou a menina á negra, e, enxugando o rosto, voltou ao quarto onde Maria Isabel estivera em rogos á Virgem, sem todavia saber que soccorros lhe cumpria pedir.
Entrou o marido, fechou-se por dentro, travou do pulso de Maria, empurrou-a para sobre um preguiceiro, sentou-se á beira d'ella, e disse:
—Porque treme? A innocencia não costuma assim tremer!... Porque treme?
—Pois eu vejo-te enfurecido sem saber que mal te fiz!... Sahiste de casa tão contente commigo...
—Quantas vezes a senhora escarneceu o contentamento com que eu sahia e entrava n'esta casa? Tinha alegria ou remorso de me enganar com juramentos sacrilegos, invocando o testemunho de Deus sobre a innocencia da sua vida de solteira?... Que responde?
—Voltas ás tuas suspeitas antigas...—balbuciou Maria Isabel, menos affoita do que tinha luctado n'aquella primeira noite.
—Não me irrite com referencias estupidas ás suspeitas antigas!—redarguiu o marido enfreando as arremettidas da raiva—Diga-me cá, barregan de clerigo, diga-me que conceito formou de mim, quando, depois de eu ter sahido d'aquella alcôva na primeira noite de meu deshonrado consorcio com uma manceba de padre Luiz da Silveira, voltei, passadas poucas horas, e me ajoelhei a seus pés, pedindo-lhe me perdoasse a injuria que fizera á sua puresa de menina solteira?
Maria Isabel soluçava uns gemidos que a estrangulavam.Elle arrancou-lhe as mãos do rosto, e bradou-lhe:
—Olhe para mim! Nada de momos! Responda: que juizo fez de mim n'este espaço de tres annos em que a tenho tratado com os extremos de noivo no primeiro dia da sua felicidade? Imaginou que eu fosse um vil, que se habituou á deshonra, a troco de vinte mil cruzados da sua infame mulher? Responda, que o seu silencio obriga-me a arrancar-lhe do coração a resposta!
—Não...
—Não... o quê?..
—Eu nunca te suppuz vil...
—Suppoz-me então enganado?...
—Enganado... não...
—Então, vil... uma das duas coisas... Em que ficamos: vil, conformado com a deshonra, ou enganado, isto é, persuadido de que tinha casado com uma mulher honesta?
—Meu Deus!—exclamou ella afflictissima—Matae-me, Senhor!—e punha os olhos sinceramente supplicantes na imagem de Jesus.
—Pois que suppunha?—insistiu Domingos Leite—Cuidou que a sua devassa mocidade seria segredo entre Deus e o padre? Nunca lhe gelaram terrores a alma, prevendo que um acaso viria explicar a rasão que eu tive para a injuriar poucas horas depois que lhe dei o meu nome honrado e a minha vida sem mancha? A senhora deve ter tido remorsos de mentir tão torpemente a um homem que tinha direito a encontrar esposa honrada! Bem sabia que eu não era marido que se vendesse, e trocasse a ignominia da pobresa pela ignominia de uma manceba de clerigo com alguns mil cruzados. Quem a privou de me dizer, quando fallou a só commigo;que na sua vida havia desaires que a prohibiam de amar um homem de bem? Recorde-se... Não lhe disse eu que, apesar de lhe querer com toda a alma d'um primeiro amor, como não acreditava na efficacia dos meus meritos, reflectisse antes de me acceitar como marido, e não viesse para os meus braços com o mais pequeno affecto sacrificado á vontade de seus paes?
Maria Isabel prostrou-se aos pés do marido, exclamando:
—Foi verdade...
—Foi verdade!... e a senhora mentiu-me, cobriu-me de lama, fez-me o successor indissoluvel do padre!.. E que sou eu então diante de si e diante do mundo? A irrisão dos meus inimigos, e a compaixão aviltadora dos meus amigos!...
E, levantando-se de golpe, sacudiu phreneticamente a mulher, que lhe abraçava os joelhos, e, dados alguns passos, parou em frente d'ella, cruzou os braços, e rouquejou convulsamente:
—Ó miseravel! pôde assim, formosa e rica, aos quatorze ou quinze annos, resvalar á voragem das loureiras secretas por entre os braços d'um padre! Amou-o? diga, mulher impudica, amou-o?
—Pelas chagas de Jesus Christo!—volveu ella, ajoelhando-se-lhe novamente—Eu sei que vou morrer... Se me tu não matares, heide eu matar-me!. Ai! minha querida filha!... Ó Domingos, não desampares aquella creancinha que é tua filha!...
—Matar-se!—replicou sarcasticamente—As mulheres na sua condição não se matam, porque... estão mortas... Quem teve a coragem de se deshonrar perdeu a força moral que dá a rehabilitação...
—Eu era uma innocente...—soluçou Maria Isabel—Não sabia o que era deshonra... Passára a minha infancia entre meus paes. Minha mãe era tão virtuosa que nem me precaveu contra a maldade do mundo...
E, como os arrancos lhe embargassem a voz, o marido, que parecia ferozmente interessado na confidencia, disse:
—Continue... Vae-me contar por miudos a historia da sua... queda... Conte.
—Oh!.. pelo divino amor de Deus!—clamou ella—que queres saber d'esta desgraçada?... Eu só soube que estava perdida, quando te amei, porque então senti que era indigna do teu amor!..
—E não obstante... diga o mais... Conhecendo-se indigna, fez-me descer na rampa da infamia para me nivelar com a senhora!..
—Pois bem!—bradou ella com vehemente resolução—Esmague-me, que eu sou punida, e o senhor vingado!
—Heide reflectir...—retrocou Domingos Leite serenamente—Nem todas as mulheres são dignas de morrerem ás mãos de homens honrados. Entretanto, dê-me o infernal praser de lhe ouvir contar a historia dos seus primeiros amores.
E, dizendo, sentou-se, indicando-lhe com um tregeito de cabeça que se assentasse a seu lado. Ella hesitou; mas um arremêsso de impaciencia, e duas fortes punhadas que elle deu no espaldar do preguiceiro, incutiram no animo de Maria Isabel a suspeita de não sahir com vida de tamanha angustia.
Sentou-se ella, a tremer, com as mãos cruzadas sobre o peito e os olhos piedosos fitos no perfil do marido.
—Conte lá,—disse elle com os cotovellos apoiados nas pernas, a face entre as mãos, e os olhos postos no pavimento—conte desde o principio essa historia... Como foi que o padre lhe fez saber que a desejava, e como foi que a menina de quinze annos acceitou as doutrinas do mestre.
O dialogo seguido a esta intimação demorou-se meia hora, que devia figurar-se um dia de tormentos a Maria Isabel: tão dilacerantes cortavam as perguntas no pudor d'aquella mulher.
Porém, finalmente, no rosto de Domingos Leite Pereira já vislumbravam sentimentos de compaixão, porque os do rancor tinham posto a pontaria em outro alvo.
As ultimas palavras d'elle, proferidas com gravidade, mas sem tom de ira, foram estas:
—D'hora em diante eu continuo a ser seu marido perante o mundo; mas diante da senhora sou um estranho. Emquanto a mãe de minha filha assim quizer viver commigo, essa creança, que eu adoro, será sua tambem; mas, se este viver lhe não quadrar, eu sahirei com minha filha; e farei que ella nunca saiba quem foi sua mãe. Esta sentença não condemna o delicto da sua impuresa; condemna o enorme crime de me ter acceitado como marido. Concorda na minha proposta?
—Sim... concordo... Eu viverei como tua criada, se assim o quizeres; mas não me tires a minha filha.
—Retire esse tratamento dotu—voltou o marido com sobrecenho.—Nem uma palavra, nem um gesto que indique a maior ou menor alliança de duas almas que se estimaram, ou tredamente se dissimularam... Esta casa é bastante grande. Podem viver n'ella duas pessoassem se encontrarem. A senhora é rica: administre o que tem: eu não tenho nada que vêr com os seus bens de fortuna. Ficamos entendidos. Qualquer infracção d'este pacto, estalará em tempestade sem bonança.
Aquelle mercieiro, primo do mestre de Maria Isabel, attribulado agora pelas revelações que fizera a Roque da Cunha, avisou padre Luiz da Silveira, encarecendo os martyrios que lhe arrancaram o segredo.
O thesoureiro de S. Miguel de Alfama ponderou o melindre da situação, e maldisse a embriaguez que o levou á imprudencia de se gabar d'um delicto que elle julgava já esquecido e delido como o bôlo avinhado de que lhe espumara aos beiços a jactancia de ter sido amado da esbelta Maria Isabel Traga-malhas.
Trazia elle, ao tempo, requerimento bem protegido no paço, pedindo um beneficio na sé de Silves. O aviso do parente esporeou-lhe a diligencia na obtenção da prebenda; para o que, logo na mesma hora, se foi pessoalmente á côrte da Ribeira, e logrou alcançar do secretariode estado a promessa do despacho n'um dos seguintes dias.
No entretanto cuidou o padre de enfardelar o mais precioso dos seus haveres, sendo o sobre todos estimadissimo fardel, uma rapariga de bons quilates de bellesa, não sabemos se tambem discipula d'elle, se creatura já amestrada em amores, quando o cauto clerigo a installou na freguezia de S. Mamede, noBêco dos Namorados,—nome gracioso que desdizia da immundicie d'aquella escura alfurja, apenas palmilhada a horas mortas, por um só namorado, que era padre Luiz. Este béco abria por uma das extremidades noTerreirinho do Ximenes, local azado para amantes clandestinos, visto que raro viandante por ali transitava depois das Ave-Marias.
Para afugentar o terror que o primo lhe incutira, pintando-lhe Roque da Cunha caudilho de uma horda de quadrilheiros facinorosos, padre Luiz fiava-se na convicção de que ninguem lhe suspeitava a lura, nem por aquelles sitios desfrequentados lhe faria espera. Ainda assim, como o seu mêdo era mais de clerigo do que de homem, e o escandalo o assustasse mais do que a lucta, cingiu um correão de pistolas, envolveu-se na capa longa de arruador nocturno, derrubou a aba do sombreiro aragonez, e, á hora do costume, sahiu com o intento de conduzir para casa do primo tendeiro a moça inquilina doBêco dos Namorados.
Meia hora antes de elle entrar noTerreirinho do Ximenes, precederam-no n'aquella paragem, desembocando dasPedras Negras2dois vultos, que pareciam, nomoverem-se umas sombras; e sendo dois homens, tão subtilmente deslisavam que difficil fôra estremar qual d'elles projectasse a sombra do outro.
—Hade passar aqui ou entrar pelo outro lado—disse Roque da Cunha a Domingos Leite—A tua paragem é esta; a minha é a outra. Dou-te o ponto mais arriscado, visto que m'o não cedes. Olha que o padre tem figados, torno a dizer-t'o... Até logo.
Domingos Leite retrahiu-se para o escuro de um arco sotoposto ao collegio jesuitico de S. Patricio, e acantoou-se no angulo mais comvisinho da passagem. O quarto de hora, que seguiu esta emboscada traiçoeira, arrastou-se vagaroso e dilacerante por sobre a alma ainda immaculada d'aquelle homem, que se via precipitado a um tal feito; que nem a vaidade nem o pundonor justificavam bastantemente a matar um homem desconhecido, que não o ultrajara, que era innocente nas suas angustias de marido e amante vilipendiado. Era atroz. Mas esse homem, ébrio ou infame, proferira com fatuidade o nome de Maria Isabel, conspurcando-lhe a fama, e assoalhando a deshonra do marido ao sêvo dos seus muitos inimigos, invejosos do patrimonio da esposa ou do rendoso officio com que el-rei lhe premiára intelligentes serviços. O orgulho afinal amordaçara o instincto da justiça; ainda assim, a batalha travada na consciencia de Domingos Leite era despedaçadora. A espaços, mettia-lhe horror na fantasia o pensar que rasgaria a punhaladas o peito do homem, cujo nome havia de ouvir dos labios d'elle mesmo; porém, se lhe negrejava no espirito a horrivel irrisão de encontrar-se rosto a rosto com o seductor da donzella, que se deixára poluir como um anjo de alabastro se deixaria inconscientementedespedaçar ás mãos de um ébrio furioso, então o pulso latejava-lhe iracundo no cabo do punhal, e o ouvido escutava com avidez o rumor de passos que lhe figurava a aproximação da victima.
N'este conflicto, ouviu o estampido d'um tiro, a curta distancia, e um grito agudo de voz de mulher. A detonação e o brado soaram do lado doBêco dos Namorados. Promptamente reflectiu Domingos Leite que Roque da Cunha se encontrára com o padre; e, por saber que a arma do seu confidente era o punhal, inferiu que o outro desfechára com elle. Isto colligia correndo ao longo do bêco, de faca arrancada, e os olhos cravados no reluctar de dois corpos, sobre os quaes, a revezes, resvalava o frouxo clarão da lampada de um nicho.
Ao avisinhar-se dos dois vultos, entreviu o relampejo da lamina d'aço contra um corpo já cambaleante, e ouviu o rouquejar de moribundo, que pedia misericordia, ao mesmo tempo que de uma adufa de casa proxima estrugiam gritosá-d'el-rei.
A supplica de misericordia, que padre Luiz da Silveira vociferára, foi-lhe cortada pelo decimo golpe que Roque lhe vibrou ao peito; e quando Domingos Leite se abeirou do amigo, que alimpava o rosto banhado de sangue, já o mestre de Maria Isabel jazia morto.
—O ladrão crivou-me a cara de zagalotes!—murmurou Roque da Cunha—Olha do que eu te livrei, rapaz!... Vê lá se o diabo tuge, e toca a safar, que a barregan não se cala...
Domingos Leite olhou de revez para o cadaver que cahira de bruços, esforçou-se para ir examinar-lhe a respiração; mas as pernas tremiam-lhe.
—Não vais?!—disse Roque, embebendo na capa o sangue que lhe gotejava da face direita—Tu és covarde ou sandeu, homem?
—Podemos ir que elle está morto...—respondeu tiritando Domingos Leite.
—Podemos ir que elle está morto?—replicou sorrindo—Cá te avirás com o padre, se ressuscitar—volveu Roque, e sahiu pelo outro lado, descendo a calçada de S. Chrispim; e, atravessando o Beco do Bogio, baixaram até ás Portas do Ferro, onde morava o matador do padre.
Examinada a ferida, Domingos Leite decidiu, com a competencia de experto boticario, que o pelouro resvalára na maçan do rosto, sem ferir osso nem cortar veia importante.
O ferido, restaurando o sangue esgotado com uma botelha de vinho hespanhol, contou modestamente que o padre vinha entrando aoBeco dos Namorados, quando elle, ouvindo passos, se cozêra com a sombra de um cunhal, afim de o reconhecer, ao tempo que a lumieira do nicho lhe desse na figura; porém, ajunctou elle:
—O homem, a trez passos de mim, desembuçou-se, arremetteu commigo, poz-me a pistola tão perto da cára, perguntando-me quem eu era, que, a fallar-te verdade, se eu não tivesse alguma experiencia d'este mundo e a certeza de que ninguem morre duas vezes, talvez dissesse ao padre que fosse em paz e não contendesse com quem estava manso e quieto. Mas hasde tu saber, amigo do coração, que eu, quando tenho medo, mato mais depressa. Um gato brinca com a ratazana que a final estripa; mas, se é cão o inimigo, o gato crava-lhe as unhas logo nos gorgomilos, e não brinca. Deu-secom o perro do clerigo o mesmo cazo. Perguntou-me quem era, de pistola abocada. Respondi-lhe com as punhaladas, que o escrivão do corregedor ámanhã dirá quantas foram. Atirou-me á cabeça ainda antes que eu lhe tocasse. Folgo de ter luctado com um homem. Se eu tivesse matado um poltrão, isso havia de me custar remorsos, palavra de Roque da Cunha! Estás ahi a contemplar-me com uma cara de môço de côro da real capella, homem! Parece que o mestre de tua mulher, se até ha pouco te andava ás cavalleiras da honra, te peza agora ás cavalleiras da consciencia! Vamos a saber: estás contente commigo, ou querias que eu, em vez de matar o padre, lhe pedisse que me contasse historias do seu systema de ensinar raparigas?
—Sei que me não queres inxovalhar com esses remoques...—acudiu gravemente Domingos Leite Pereira—Eu sou um homem triste como todos os desgraçados, Roque!.. Se vês em meu rosto o terror, é porque a minha felicidade morreu primeiro que esse homem... que devia morrer. O meu desejo seria tel-o morto, para me apresentar á justiça, e dizer: «fui eu quem o matou; matem-me, que me dispensam d'um martyrio sem fim!..» E, se acontecer que a justiça te culpe, irei eu denunciar-me como matador. Agora, meu amigo, pelo que cumpre á minha obrigação para comtigo, sou a dizer-te que disponhas de tudo que eu valho, e da minha vida, que pouco vale.
—Tudo que tenho a pedir-te cifra-se em pouco—respondeu Roque da Cunha—Ámanhã fallas com o corregedor do bairro, e lhe dirás que estou doente: bem vês que não devo apparecer com o carão esfarrapado. Depois, trarás o betume com que se fecham estas gretas, e cuidarásde mim, mandando-me da estalagem do hespanhol doLargo do Fornoumas empadas de gallinha, e do armazem dosSete Cotovêlosalgumas botijas do de Torres Novas. Feito isto estão saldadas as nossas contas; e, quando souberes que tua mulher t'as não dá direitas, abriremos novo saldo.
Uma hora depois, Roque da Cunha, affeito a dormir em conjuncturas analogas, admirava-se de não ter ainda adormecido: e Domingos Leite Pereira, entrando em sua caza com todas as precauções para não ser ouvido, fechou-se no seu quarto, abriu a janella para sentir na fronte esbrazeada o frio da noute, vagou a vista errante pelo ceu estrellado; e, chorando como nunca chorára, disse entre si:
—Porque sahi eu da tua sombra, meu pobre pai, que a estas horas dormes serenamente no regaço da honra!... Bem me dizias tu, minha sancta mãe, que eu fazia mal em deixar a caza, onde nunca chorara alguem até á hora da minha partida... para este inferno em que estou penando!
Ao arraiar da manhã, Domingos Leite ouviu, no corredor contiguo ao quarto, a voz da filha, que, por costume, se erguia de madrugada e ia deitar-se com o pai. Foi abrir a porta, tomou-a do collo da ama, agazalhou-a no peito, porque a menina tremia de frio, aqueceu-lhe o rosto com o respirar febril e cortado de soluços, e longo tempo anceou n'aquella tortura misturada com o desafogo aprasivel das lagrimas.
O assassinio do padre Luiz da Silveira foi explicado por varios modos, tanto que o cadaver appareceu, noBêco dos Namorados, com dez punhaladas no peito.
Disse-se que os seus antigos consocios de infidelidade á patria, e contubernaes em patifarias, receiosos que elle lhes delatasse os delictos, visto que medrava na estimação dos ministros de D. João IV, o matariam para se desfazerem de um delator perigoso. Diziam outros, mais plausivelmente, que o padre acabára ás mãos dos vingadores do arcebispo Sebastião de Mattos e seus cumplices, levados ao patibulo pela delação do seu ignobil confidente. Outros finalmente accusavam sem rancor, antes com approvação, um tal licenciado Ruy Pires da Veiga, irmão da manceba do clerigo, desde que a viram abraçada ao morto, e reconheceram n'ella a menina que, dousannos antes, desapparecera de casa de sua familia honesta e abastada.
Instaurou-se a devassa.
O primeiro que mui secretamente se apresentou a fazer revelações na corregedoria foi aquelle mercieiro, primo do clerigo morto. O testemunho deste sujeito, forçado a confessar a Roque da Cunha o que ouvira respeito á esposa do escrivão do civel da corte, illucidava cabalmente a morte do padre Luiz.
No entanto, o escrivão do civel da corte continuava a exercer o seu officio, Roque da Cunha tambem, e ambos desassombradamente fruiam os seus direitos de cidadãos bem procedidos. Não succedeu o mesmo com Ruy Pires da Veiga, que se homisiou, quer envergonhado de ser o irmão da mulher teúda e manteúda do clerigo, quer receoso de que o prendessem por suspeito do homicidio.
Sabia-se, porém, e com grande espanto, que o rei mandára suspender a devassa. Os politicos inferiram d'ahi que na morte do antigo official de Miguel de Vasconcellos, e secretario particular do arcebispo de Braga, havia segredo de estado cujo rastro era perigoso farejar.
Volvido um anno sobre a morte do thesoureiro de S. Miguel de Alfama, Ruy Pires da Veiga, indigitado homicida pela maioria das opinioens, sabendo que sua irmã era já falecida de paixão em rigorosa clausura, appareceu na côrte a defender-se da calumnia. A voz publica, espicaçada por este novo estimulo, deu vida ao esquecido assumpto, concorrendo bastante o mercieiro com as suas revelações feitas em segredo, mas, a poucas voltas, divulgadas por toda a cidade.
Estes murmurios chegaram aos ouvidos de D. João IV, que de sobra sabia quem era o assassino directo ou indirecto do clerigo.
O rei estimava Domingos Leite Pereira, já pelos corajosos serviços que lhe prestára nos passos anteriores á sua acclamação, principalmente nos tumultos de Evora e recovagem de recados a Madrid e a Villa Viçosa, já pelos creditos em que o trazia abonado o seu ministro e mordomo-mór marquez de Gouvêa. E, posto que el-rei timbrasse na rigorosa execução das leis, suspendendo agora a devassa, parecia indultar Domingos Leite por que o delicto do padre, seductor da discipula, lhe era odioso; e a circumstancia da delação dos conjurados, feita por um seu confidente, não melhorava em seu particular conceito a condição perversa do traidor.
Perguntara o rei ao marquez de Gouvêa, quando se viu forçado a dar satisfação aos boatos que manchavam a justiça dos seus executores, o que sabia de Domingos Leite Pereira e de sua mulher. O marquez respondeu que o seu secretario, desde a morte do padre, nunca mais abrira um sorriso, nem dera azo a que se lhe perguntasse coisa relativa ao seu viver domestico:
—Mas vivem com apparencia de bem casados...—observou maliciosamente o rei.
—Um viver mais horrivel que a separação com escandalo publico, real senhor!—disse o marquez.—Ha um anno sei eu que nunca mais se fallaram nem viram de portas a dentro. Tem Domingos Leite uma filha que adora. Uma vez unica me fallou da sua desgraça, bem que me não desse novidade; porque eu, antes que elle a conhecesse, já a sabia das atoardas publicas, auctorisadas pelas gabações do clerigo. Então, n'essa vez unicaem que Leite Pereira desafogou commigo, lhe ouvi dizer que pensava em sahir da corte, e recolher-se a Guimarães ao amparo de seu pai; mas que o não faria sem levar comsigo a filha; receava, porém, que a mulher, irritada por se lhe tirar a filha, desse occasião a divulgar-se um opprobrio nocivo á creança que elle queria defender da deshonra da mãe. Fiz quanto pude em despersuadil-o de tal proposito, incutindo-lhe sentimentos generosos de perdão á esposa por amor da filha. Este argumento não o convenceu, antes parecia exasperal-o; pois que, a seu ver, era indigna de misericordia tal mulher que, depois de o ter enganado quanto ao seu passado, e tendo a certeza que a morte do padre ninguem melhor do que ella poderia explical-a, em vez de viver amargurada do despreso do marido, ousava estadear-se nas igrejas e nas ruas com ar de senhora honesta, ou antes de mulher despejada que despreza os malsins da sua reputação, fazendo gala da sua formosura e riqueza...
—Tenho ouvido dizer que é muito formosa...—atalhou o rei.
—Não ha em Lisboa quem lhe dispute a primasia. Nunca Vossa Magestade viu mais galante mulher, sendo a côrte da rainha, minha senhora, a mais selecta de bellas damas!
—E o seu procedimento?
—Apparentemente bom—respondeu o mordomo-mór sorrindo—Digo apparentemente, porque não sei quantos astutos velhacos deixou em Lisboa o padre Luiz, nem Vossa Magestade crê que tão sómente os mestres de meninas tem a fortuna de armar em segredo as suas aboizes a estas avezinhas innocentes; e, depois que asavesinhas uma vez deixaram pennas das azas na esparrela, hade ser difficil fazel-as entralhar sem que ellas se guardem de perder a plumagem.
—Assim parece—assentiu o rei—Seja como for, Domingos Leite andaria melhor avisado se sahisse da côrte logo que vingou no padre a aleivosia da mulher, se aleivosia houve. Mandei suspender a devassa, quando eram já declarados os criminosos. Não consenti que se prendessem porque bastante causa dera o padre a ser castigado; e, alem disso, ás cegueiras do coração e do brio é mister conceder o que não concedemos aos matadores que matam de animo frio. É tambem culpado na morte do padre, como o marquez deve saber, um Roque da Cunha, que se tem salvo á sombra de Domingos Leite, e de alguns serviços que me fez. Sei que máo homem é, desde que ha seis annos me denunciou Mathias de Albuquerque por motivos de odio pessoal. Mas este e outros eguaes membros gangrenados não os posso amputar cerces, em quanto preciso me for espiar uns infames com outros infames. Se nos não valermos de quem os conhece de intimidade, não teremos quem nos ponha de sobreaviso. Já o marquez sabe a razão porque Roque da Cunha está logrando a impunidade de Domingos Leite. Porém, desde que Ruy Pires da Veiga voltou do seu voluntario desterro e passeia em Lisboa desmentindo e affrontando o boato, que lhe assacava a morte do padre, a devassa tem de proseguir, e os reos, muito a pezar meu, hão de ser presos, se estiverem no reino. Por tanto diga o marquez ao seu secretario que se retire sem demora de Portugal; e o homem, que o serviu na sua vingança, que se retire tambem, se Domingos Leite deseja salvar o cumplice. O julgamento deDomingos Leite correrá os seus tramites, e faremos que a sentença o não prive para sempre da patria.
O marquez de Gouvêa, bem que profundamente magoado, não ousou pedir ao rei que a devassa permanecesse suspensa. D. João IV esfriava a coragem dos poucos que privavam da sua confiança, quando dava ordens com tão carregado e resoluto semblante, quanto, antes de acclamado, era com todos os fidalgos ameno de tracto e docil aos votos alheios.
Bem quizera o amigo e protector de Domingos Leite rogar ao menos a delonga da partida, e n'esse intuito começou perguntando ao monarcha se era forçosa a sahida do seu secretario ainda n'aquelle mez de fevereiro, que ia em começo.
O rei respondeu:
—É ámanhã que deve sahir; porque depois de ámanhã fecha-se a devassa, infalivelmente.
O mordomo-mór beijou a mão do rei, e sentiu no animo recondita aversão ao soberano aprumo de D. João de Bragança. Latejou-lhe talvez nas arterias o sangue castelhano de seu pai, conde de Portalegre, tronco d'aquella alta vergontea que cahiu com a corôa ducal de Aveiro sob a lamina do algoz em 1759.
Sahiu triste o ministro a encontrar-se com o secretario, em seu gabinete. Referiu-lhe o que se passára com el-rei, deplorando a fatalidade que o privava temporariamente de tão bom como infeliz amigo.
Domingos Leite ouviu a nova, com exterior de mediano sobresalto.
—Agradeço a sua magestade—disse elle—a permissão de levar commigo o homem que associei ao meu funesto desaggravo. V. Ex.ª sabe que eu me furto áspenas da justiça mais para salvar Roque da Cunha. Nada monta para mim a vida, se sou obrigado a desterrar-me, e deixar a minha filha—unico amor que me ficou ao de cima d'este abysmo em que me vejo precipitado com tantas quimeras brilhantes que me enganaram. Todo me sinto perdido, e morto, peor que morto, se heide no exilio agonisar de saudades d'aquella creancinha...
—Eu olharei por ella—consolou o marquez—Se não vier tão depressa quanto eu desejo, sr. Leite, creia que heide conseguir mandar-lhe sua filha, logo que ella esteja creada.
—Não mande, sr. marquez...—acudiu Domingos Leite.
—Que não mande?! Porque não?..
—Porque eu não sei se terei lá fora de Portugal um pão que repartir com minha filha...
—Pois vm.cenão é rico?
—Eu tinha bom officio, e os grandes salarios que v. ex.ª me dava. N'este momento deixei de ser o escrivão do civel da côrte e o secretario do mordomo-mór. Sou um assassino sem patria. Verdade é que meu pae, o cuteleiro de Guimarães, apesar de eu lhe pedir que sahisse da forja e descansasse, com os seus haveres e os meus, o restante da velhice, ainda trabalha: mas eu não sei se elle enviará a um filho apregoado assassino o que adquiriu com o trabalho honrado que eu desprezei, apezar das suas supplicas...
—Mas...—atalhou o marquez—O sr. Leite, desde que casou, tem parte no grande patrimonio de...
—De Maria Isabel?—acudiu com vehemente repugnancia o secretario—D'essa mulher não tenho senão a parte que me cabe do seu desdouro. E quando eupensava que a minha honra havia de sahir depurada d'este fogo que me devora desde a noite em que vi o cadaver do padre, afinal de contas, sou o mesmo desgraçado que era, e ajunto á desgraça de perder uma mulher que adorava, tres grandes infortunios: não terei de hora ávante patria, nem filha, nem meios de que viver com honrada independencia. Dos bens de Maria Isabel não levarei um ceitil, sr. marquez. Aqui mesmo, se v. ex.ª me permitte, escreverei a meu pae, a fim de o preparar para o golpe. Não posso mentir-lhe. Eu não matei; mas mataria com certeza, se estivesse no posto de Roque da Cunha. É forçoso que eu diga a meu pae que tenho um grande crime; mas que em minha consciencia não perdi o direito de lhe supplicar a esmola que os encarcerados imploram pelas grades das masmorras aos que vão passando.
O marquez enxugava as lagrimas, emquanto Domingos Leite Pereira escrevia, parando a cada palavra a penna, á espera que as palpebras embebessem o jorro das lagrimas. Ao dobrar a carta, murmurava o extremoso pai:
—Não vou despedir-me de minha querida filhinha... Isso é que eu não posso, meu Deus!.. Sei que não posso... Quando eu tiver partido, mande-a v. ex.ª buscar e falle-lhe de mim... Pede-lh'o esta alma que se me parte de angústia, sr. marquez! Eu queria que ella me não esquecesse; e, a não ser v. ex.ª, quem lhe fallará de seu pai!..
—Vá com a certesa de que heide mandar buscar a sua filha muitas vezes, e não desanime de voltar a Portugal, sr. Leite. Eu quero ainda vêl-o hoje á noite. Vá dar os passos que tem a dar, e volte a despedir-se do seu velho e inutil amigo.
Debalde o esperou.
Elle disse que não teria animo de se despedir da filha. Animo de partir sem vêl-a é que elle não teve.
Sahindo do palacio do marquez seguiu o trilho de sua casa. A cada rua e travessa, por onde podia desviar-se, parava, guinando os olhos tôrvos e cheios de lagrimas, entre os dous caminhos. Em uma d'essas paragens de dolorosa perplexidade avistou Roque da Cunha, que marchava de cara alta, mão na ilharga, consciencia tranquilla no aspecto ridente.
Esperou-o Domingos Leite, e disse-lhe offegante:
—Ámanhã sahiremos de Lisboa e passaremos a raia. Prepara-te.
—Então que ha?
—Uma ordem de prisão é o que vae haver contra nós. Fecha-se ámanhã a devassa.
—E para onde vamos? já resolveste?
—Para Hespanha.
—Está claro. O meu dinheiro são oitenta cruzados; mas tu vaes assombrar Madrid com o cofre do Traga-malhas, que Deus tem na gloria dos tanoeiros.
—Eu tenho de meu ainda menos do que tu—respondeu Domingos Leite com severidade—Escrevi a meu pae pedindo-lhe alimentos; se elle m'os não der, veremos em que trabalho a Providencia m'os depára.
—A Providencia, amigo Leite,—replicou o folião—não tem n'este mundo secretario das mercês conhecido, a não ser o padre santo. Este anda ás avessas com portuguezes, e não me parece que deva ser assaz amigo de quem lhe bate seriamente nos padres. Leva dinheiro, homem; que um portuguez pobre em Madrid vale menos que um judeu rico em Lisboa. Mas não esmoreças se fizeste voto de ir por Castella dentro com esclavina e bordão de peregrino. Lá está em Madrid minha mãe. Se ella me reconhecer e não tiver pejo de me haver gerado, não nos hade faltar boa meza em casa de meu padrasto o desembargador do Paço Francisco Leitão...
—Não percamos tempo—interrompeu Domingos Leite, aborrecido do tom jovial do interlocutor—Á noite, serei em tua casa, e de manhã partiremos.
—Olha lá, Domingos Leite,—volveu Roque, cingindo-lhe o braço pelas espaduas—conselho de amigo que anda cá n'este vale de lama ha quarenta e oito annos...
—Que é?
—Não deixes a mãe de tua filha á matroca, com lastro de vinte mil cruzados na falua, e vinte e dois annos de edade, e com mais tentações no rosto que todas asmoiras juntas em noite de S. João. Convento com ella, ouviste?
Domingos Leite encarou torvamente Roque, e respondeu-lhe, passados dois segundos:
—Que me importa isso a mim? Sabes que, ha um anno, vivo ao lado da mãe de minha filha, como se entre nós se mettesse a pedra que separa duas sepulturas. Nunca pensei em lhe dar maior castigo que o do meu despreso. O enclausural-a dentro dos ferros do mosteiro não a lavava da mancha indelevel de donzella que foi as delicias d'um padre. Eu sentia por ella alguma coisa mais implacavel que o odio: era o nôjo. Que me faz a mim já agora que essa mulher cave com as proprias mãos mais um palmo no seu abysmo de lôdo?
—Palavrorio!—replicou o quadrilheiro—Se tua mulher te não fosse leal, enforcaval-a como o alcaide de Belmonte fez á mulher por causa de outro clerigo da casta do padre Luiz da Silveira. (Nota 11.ª) Contava-me o caso minha avó, que era do tempo em que se enforcavam as fidalgas adulteras.
—Acabemos esta semsaboria...—cortou Domingos Leite com trejeitos desabridos—Cuida de ti, e não entrevenhas nas coisas alheias da tua alçada...
—Intervim de mais...—murmurou Roque estomagado do repellão—Cá vou tratar de mim, amigo Leite... Sempre será bom que me não ponham a prumo no logar onde eu puz o padre de bruços, por intervir de mais nas coisas alheias da minha alçada. Até á noite.
Ao separarem-se assim irritados, Leite Pereira, pezaroso da sua impertinencia, ainda se voltou para chamar o amigo e dar-lhe satisfação das palavras rudes;mas Roque da Cunha estugára o passo, como quem ia mais preoccupado da devassa que da offensa.
Este incidente carregou mais a treva d'aquella alma. Zoavam-lhe estridores metalicos na cabeça, e confragia-se-lhe a fronte crivada de dores como se esgarçassem por ella os espinhos mordentes de uma corôa. A revezes, parava, porque o respirar lhe dava afflições, ou o pavimento se lhe figurava um despenhadeiro. Quando chegou a sua casa, á Porta do Salvador, sentou-se no escabello do pateo, e arquejou largo espaço, olhando para a escada, ainda indeciso se subiria a despedir-se da filha, se encarregaria um criado de lhe levar a sua bagagem a casa de Roque da Cunha.
N'este comenos, entrava Maria Isabel, vinda de fóra, com a creancinha pela mão.
Estremeceu dando de rosto com o marido. Leite Pereira, ao vêl-a, ainda se esforçou por evital-a; mas a filha corrêra contra elle, com os braços abertos, balbuciando palavras cariciosas. O pae sentou-a sobre os joelhos, e rompeu em alto choro, que a menina acompanhava em gritos, affagando-lhe as faces e beijando-lh'as com ternissima anciedade.
N'isto, levantou-se de golpe, aconchegou do seio a filha, e subiu acceleradamente as escaleiras.
Seguiu-o Maria Isabel, sinceramente consternada, dizendo-lhe palavras maviosas; e, quando elle entrava no seu quarto e fazia menção de se fechar por dentro, a mulher, arrostando o perigo de soffrer o embate da meia-porta, rompeu de poz o marido, e, pondo-se de joelhos, exclamou:
—Se podes ser mais feliz com a minha morte, peço-te que me acabes de uma vez!.. Eu já não posso com o teudespreso; tenho procurado viver por amor desta creança; hoje creio que ella já não precisa de mim, visto que tu a amas, e a Virgem do céo attendeu os meus rogos. Desde que me abandonaste, não cessei de pedir a Deus que te voltasse o coração para a nossa filha, embora eu fosse a odiada. Agora que o meu querido anjo tem o teu amparo, peço a Deus que me tire d'este supplicio; peço-te a ti que me dês uma morte bem rapida, de modo que eu não possa vêr na minha agonia de morte esta menina a chorar!...
Domingos Leite, que havia sentado a filha sobre o leito, ouviu a exclamação de Maria Isabel, fitando-a com terrivel immobilidade de olhos. E, quando ella acabou a supplica, e parecia de mãos postas esperar a morte, o marido, avançando para ella os dois passos interpostos, disse-lhe com serena voz:
—Levante-se e escute-me!
Ella ergueu-se encarando-o espantada, e abeirou-se do leito em que a menina, de pé e tremente, relançava olhares espavoridos entre o pae e a mãe.
—Sou obrigado a desterrar-me, senhora!—disse elle pausadamente—Á mulher, que fez da sua mocidade o opprobrio do marido, e que fez do marido um assassino, é preciso que eu n'esta hora lhe diga que ámanhã a justiça me pedirá contas da vida d'um homem que devia morrer, visto que elle matára a honra da mulher de Domingos Leite. Vou homisiar-me, e não mais voltarei a Portugal, porque vae commigo a ignominia que lá fóra me hade espedaçar...
—Ó Domingos...—exclamou Maria Isabel—Ó filho do meu coração, leva-nos comtigo!..
—Não me atormente com interrupções frivolas!—obstouelle mal assombrado—Deve saber, senhora, que eu vou sahir de sua casa extremamente desvalido, pobrissimo, com umas migalhas que hontem recebi dos meus ordenados. Hade encontrar de portas a dentro tudo que seus paes lhe deixaram, e o mais que eu lhe pude accrescentar com os meus recursos. Se alguem na sua presença me alcunhar de homicida, não me defenda; mas, se lhe disserem que eu no desterro mitigo as saudades da patria com os haveres da mulher que a fatalidade me deu, negue, negue, senhora, porque eu fui cinco annos seu marido, e não toquei em um cruzado do seu patrimonio. Prouvera a Deus que esta creança tivesse a necessaria intelligencia para me ser testemunha da minha pobre honra, por essa parte illesa! Oxalá que depois da minha morte esta menina podesse dizer que seu pae foi um desgraçado sem nodoa na sua probidade!..
Fez uma dilatada pausa, porque os soluços lhe cortavam as palavras, emquanto Maria Isabel, tomando a filha nos braços, lhe ajoelhava outra vez.
—Não serve de nada essa humildade, senhora!—volveu elle com desalento e desesperação—Levante-se; peço-lhe que se levante, se alguma pena tem de mim. Eu necessito pedir-lhe que seja boa mãe... que ame esta creança, que reduza a sua existencia em lhe preparar o futuro. Lembre-se que eu lá do desterro lhe estou sempre pedindo que se sacrifique á minha filha. Expie a sua culpa, formando-lhe o coração com as virtudes que até as mães pessimas conhecem quando chegam a ter pezar do seu vilipendio. Faça tudo que entender preciso para que sua filha não leve com um pouco de ouro um grande cabedal de infamia a seu marido.Vigie-lhe os passos da mocidade afim de que o marido, que lhe escolher, não tenha de apartar-se d'ella com o ferrete de assassino na fronte. Não tenho mais que lhe pedir. Agora, rogo-lhe que me deixe.
—Não, não te deixamos...—tornou a esposa—Ó Angela, ó minha querida filha, pede com as mãos erguidas a teu pae que nos deixe acompanhal-o!
A creança ajoelhou, supplicando:
—Deixe, deixe, meu pae!..
Domingos Leite poz na mulher um olhar enfurecido, fez arremêço de indignação, e bradou:
—Quem lhe disse, mulher, que eu lhe perdoei?! Se estava morta para mim, como heide eu dar-lhe vida de esposa, fazel-a minha companheira do desterro, quando a justiça me persegue porque eu lhe matei o amante?
E, ao proferir a palavra indecorosa, olhou vertiginosamente para a filha, travou d'ella com impeto phrenetico, ergueu-a á altura dos labios, e murmurou:
—Eu morreria de vergonha, se me tivesses comprehendido!..
E, voltando-se para Maria Isabel, que tiritava apoiada no espaldar de uma cadeira, bradou-lhe:
—Deixa-me levar minha filha? deixa-m'a levar só a ella?..
—Meu Deus!—exclamou a mãe.
—Diga, diga!—instou elle com crescente vehemencia—Fica-lhe tudo, riquesa, mocidade, liberdade, tudo; mas deixe-me levar Angela... Não deixa?
—Não posso, não posso!.. Mate-me, mate-me, e depois leve-a!..
—Que a mate!.. Olhe que eu não tenho sangue nas minhas mãos, mulher!.. Veja-as, que estão limpas... eulevo sobre a consciencia o peso de uma enorme vergonha; não levo o peso de um cadaver, percebeu-me?... Pois cuida que as entranhas que tanto amam uma filha podem ser as d'um carniceiro? Poderia matal-a o homem que viveu anno e meio n'esta mesma casa, sem vêr a mulher que o mundo chamava minha esposa, e que viveu aqui, e d'aqui sahia todas as manhãs com apparencias de feliz, para que o mundo duvidasse de que a senhora tinha sido a recatada amante de...
Soffreou de novo a palavra infamante; e, cravando os olhos nos de Angela, parecia indeciso sobre a intelligencia da creança.
—Ó infindo tormento!—clamou Domingos Leite apertando a cabeça, e debruçando-se prostrado sobre o leito.
N'este lance, Maria aproximou-se do marido, poz-lhe a mão no hombro, e murmurou:
—Olha, Domingos, escuta... Leva a nossa filha.
—O quê?! bradou elle, erguendo-se.
—Leva a creança. Queres ir com teu pae, Angela?
A menina deteve-se a responder, olhando para ambos alternadamente.
—Queres ir commigo, filha?—perguntou o pae.
—E a mãe tambem vae?—disse a menina assustada e irresoluta.
—Eu vou-me embora, e nunca mais volto—tornou o pae—Não me tornas a vêr. Queres ir com o teu pae?
—E não torno a vêr a mãe?
—Hasde vêr, menina—acudiu Maria Isabel engulindo as lagrimas—Tu depois has de pedir ao pae que me deixe ir vêr-te, sim?.. pedes, filhinha?
Angela, sem perceber a profundesa do trance que alise passava, abraçou-se na mãe, chorando. Domingos Leite cruzou os braços contemplando mãe e filha que se estreitavam num abraço convulso como o estorcer de suprema angustia. Volvidos alguns segundos, disse com o desanimo d'alma emfim sossobrada:
—Irei só. Tu ficas, Angela. Deus não quer que o anjo de innocencia vá nos braços d'um pae homicida mendigar o pão de estranhos. Não deves ter quinhão do meu castigo, pobre menina!... Agora, peço de novo á sua compaixão... Maria Isabel... que leve sua filha, e me deixe só...
A esposa sahiu com vacilantes passos, levando a menina á força. Domingos Leite volveu de novo a beijal-a, e impelliu-a brandamente para fóra do quarto. Depois, correndo a lingua da chave, voltou-se para um Senhor Crucificado, e disse mentalmente:
—Forças, meu Deus! Guardae-me os maiores tormentos para o desterro, e dae-me alento n'este lance!