XXDiogo Soares, previsto e diligentissimo em proporcionar aos assassinos enviados os meios de facil fugida, mandara uma chalupa do porto do Ferrol para os receber na barra de Lisboa; mas o portador, que por terra trouxera o aviso ao mercador Simão Serges, não o encontrando no dia 19 de junho, segundo as ordens que trazia, foi na noite de 20 a Passo d'Arcos fazer signal de erguerem ancora aos da chalupa. Simão Serges, áquella hora em que o buscavam, temeroso do resultado da tentativa, passara o Tejo, e esperava em Aldeia Gallega a noticia das occorrencias. O manuscripto, que nos esclarece as escuridades da historia, diz a tal respeito: «N'este tempo estava Roque da Cunha com os cavallos esperando-o ao Postigo da Graça, onde foi ter com elle Domingos Leite, e que lhe contou o que passára;e é de saber que na mesma tarde foi visto em Passo d'Arcos um barco longo de Castella, e que havendo descuido em ir a elle de noute, fugiu este, e desappareceu, e os dois foram por terra.»Ao mesmo tempo, Bernardo, que passára a noite e o dia em oração, quando viu terminadas as festas do Triumpho, e nenhum caso extraordinario se contava em Lisboa, nem voz humana proferia o nome de seu amo, deu fervorosas graças ao Senhor, porque attendera ás suas preces.O apparecimento de Roque e Domingos Leite em Madrid foi acolhido com frieza dos fidalgos portuguezes e dos ministros de Filippe IV. Diogo Soares, rindo da historia pueril da visão da menina que paralisára o braço do pai, disse que os covardes, antes de se affrontarem com emprezas grandes, deviam medir a sua altura pela das meninas que lhes podessem apparecer na hora da prova. Roque da Cunha transmittiu a phrase, qual a recebêra, a Domingos Leite.O frustrado regicida volvêra-se á vida solitaria com a sua dôr exacerbada pela nota de covarde e digno marido da meretriz Traga-malhas. Quem mais lhe carregava a mão no peccado da mulher era D. Vicencia, filha da Barbara da rua dos Cabides. Insidiosamente lhe escreviam satyras celebrando-lhe a façanhosa jornada a Lisboa, e offerecendo-lhe outra commenda para se ir a Pariz matar Luiz XIV, e duas commendas para ir ao inferno matar o diabo.Na correnteza d'estas coisas, fallecêra em Madrid um padre da companhia de Jesus, a quem D. João IV estipendiara grandiosamente na espionagem dos planos de guerra. Esta pêrda contrariava o rei, e mais ainda oimpedimento de substituir sem dilação a sagacidade do jesuita, que sahira bem amestrado do gyneceu de padre Antonio Vieira.Arrolando os portuguezes mais infamados que demoravam em Hespanha, D. João lembrou-se de Roque da Cunha. Conhecia-o pela falsa delação de Mathias de Albuquerque, e por homicidios que a obscuridade protegera, como o do pai de Miguel de Vasconcellos, divulgado em 1640, e indultado pela politica. E, bem que soubesse da sua parceria com Domingos Leite no assassinio do padre Luiz, intendêra o rei que o sicario, vendido ao marido de Maria Isabel, estava em almoeda para quem o quizesse comprar.No proposito de chatinal-o, enviou Gaspar de Faria Severim a Madrid pessoa idonea, e conhecida de Roque da Cunha. Era quasi sempre um clerigo ou frade de inculcada virtude e erudição theologica, por parte das duas nações irreconciliaveis, o espia ou o cathequista d'essas personagens indispensaveis na diplomacia d'aquelles tempos, assim como o algoz era o artigo fundamental da arte de reinar. Apenas restaurado o reino, fôra fr. Diogo Seyner espião de Castella em Portugal, e tambem um padre Azevedo, que acabou envenenado em Angola. Em compensação, as denuncias mais importantes que vinham de Hespanha, quanto ás intenções de invasão, procediam da companhia de Jesus, pois que os Philippes, com quanto patricios do sancto fundador da ordem, nunca se avençaram politicamente com a theocracia da omnipotente roupêta. Ainda n'aquelle anno de 1647, a Hespanha festejava a perfida passagem do jesuita flamengo, o padre Cosmander, que vestiu as insignias de sargento-mór de batalha, depois de as terjá usado no exercito portuguez. Este sacerdote, que timbrava de engenheiro, viria outra vez ajudar os nossos a repellir os estrangeiros, se não morresse debaixo das baterias portuguezas; no entanto, emquanto viveu, deu de si boa conta, espiando as duas nações, visto que nenhuma era sua.Com este se intendêra o padre portuguez, e ambos com Roque da Cunha.A proposta era em termos de seduzir um aventureiro com dous terços menos da perversidade de Roque. D. João IV enviava-lhe o perdão do crime de homicidio na pessoa do padre Luiz, aproveitavel quando a sua continuação em Castella fosse desnecessaria, e elle quizesse voltar ao reino. Enviava-lhe como comêço de gratificação trez mil cruzados, e promessa de ao diante o ir premiando com dinheiro á medida dos seus serviços e habilidade nas pesquisas. Quanto ao futuro, quando Roque se repatriasse perdoado, despachal-o-hia em pingue emprego na caza da India e Mina.Seduziram-no; jactavam-se os dois jesuitas de o terem seduzido; mas a verdade é que o infame não deu ansa a que os seductores provassem os dotes de corrupção: rendeu-se logo.Dias depois, Roque da Cunha, ao despedir-se do agente portuguez, disse-lhe com mysterioso recato:—Diga V. Reverencia a el-rei nosso Senhor que eu só entrarei em Portugal, quando lá fôr para o salvar da morte.O padre não obteve illucidações d'estas vagas palavras.Assim as revelou a D. João IV, que lhes deu a maxima ponderação, sem todavia suspeitar de qual dos fidalgoshomisiados poderia proceder a tentativa, se dos Mascarenhas, se dos Lencastres, se do conde de Miranda, se do conde de Figueiró, se dos Tavoras, se dos Taroucas, se de todos. De Domingos Leite Pereira não se lembrou, ou apenas se lembrava quando Maria Isabel lhe dizia:—Vossa magestade, mais dia menos dia, acha-me assassinada por elle...Oellesubstituia a palavra que tanto repugnava ao rei como á princeza do seu economico serralho.Sorria-se el-rei; e por delicadeza com a dama lhe não replicava que o expatriado lhe havia dado provas de se prezar mais a si no seu orgulho do que a ella na sua belleza.Quando Roque enviou o recado a D. João, já sabia que Domingos Leite deliberára voltar a Lisboa se não renovar a tentativa. Flagelavam-no os apodos e zombarias que secretamente lhe iam em cartas anonymas, e as censuras de Roque da Cunha, não á covardia de homem, mas á pusillanimidade de pai.Houve horas em que o desgraçado acariciou a ideia do suicidio; porém, lá vinha a imagem da filha arrancar-lhe o veneno como lhe arrancara a cravina. N'esta reluctancia atroz, obsediou-o o pensamento de passar a Lisboa, esconder-se em caza de Bernardo, espiar a hora em que Maria Isabel estivesse com o amante, entrar de sobresalto na caza d'ella, fugir com a filha para Castella, passar-se a Amsterdão, buscando o amparo de Francisco Mendes Nobre.Revelou o alvitre a Roque da Cunha, que lhe respondeu:—A final, vejo que não és marido, nem homem: és pai.—Queres dizer que não sou honrado? —acudiu Domingos Leite.—Não... mas ha quem duvide que o sejas...—Se o duvidas tu, dize-o que eu a ti provarei que sou homem; e, se ha covardes que façam de ti pelourinho de injurias, que venham depois de ti ou junctamente.—Os meus cincoenta annos perdoam os teus vinte e seis—disse serenamente Roque—Entretanto bom é que saibas, amigo Leite, que nenhum homem, antes de ti, me insultou assim, nem depois de ti receio que me insulte. Se não estivessemos sós, dar-me-hías uma satisfação. Assim... ninguem irá dizer que o matador do amante de certa dama ouviu tamanha vilta do marido de Maria Isabel. Estás perdoado, porque és fraco, fraco do coração onde tens muitas lagrimas e pouco sangue. Pagas mal a quem duas vezes expoz por ti a vida, e não se esquiva de a expor terceira vez.—Não exporás, Roque. Não ha para quê. O meu intento já sabes que não é matar o rei; é resgatar minha filha.—E, se te descobrirem, se te agarrarem...—Serei julgado como assassino, sentenciado á morte, e morrerei, sem denunciar que o matador foste tu.—Mercês... A justiça sabe quem matou, provavelmente... A minha questão é outra, Domingos Leite. Eu preciso tanto como tu sahir de Hespanha. A nodoa de covardia tanto innegrece a tua reputação como a minha. Os enviados a matar D. João fomos dois: o covarde não póde ser só um. Se vaes a Lisboa, irei comtigo: dar-me-has agazalho no teu escondedouro, e eu te ensinarei modo de passarmos a Hollanda, com tuafilha, sem tornarmos a Castella, onde o desprezo pode ter as consequencias do odio, e o veneno que estava para hervar a bala do duque de Bragança servir para nós. Se queres roubar a pequena á mãe, eu te ajudarei. Os estorvos que t'o empecerem, derrubal-os-hei. Se quizeres que eu estrangule os gritos no pescoço de Maria Isabel em quanto foges com tua filha, ninguem lhe ouvirá um soluço. Se nada quizeres de mim, ao menos dá-me em Lisboa um valhacoito d'onde eu possa arranjar passagem para onde quer que seja. Que mal te faz que eu vá comtigo?—Vem, meu amigo, que eu estou tão longe de t'o impedir, que t'o agradeço—respondeu Domingos Leite abraçando-o extremosamente.Accordaram na partida para 18 de julho.Communicou Roque á Junta dos fidalgos, que Domingos Leite resolvêra voltar a Lisboa e matar o rei, face a face, ou á traição, consoante se lhe occasionasse o ensejo; mas tirou a partido que ninguem se intenderia com elle sobre tal determinação, porque a sua honra se queria desligada de compromissos politicos, visto que se desaffrontava a si e não a Filippe IV nem aos fidalgos de sua parcialidade.Riram da honra do plebeu nobilitado com a commenda de Castella; mas acceitaram a clausula como coisa de todo o ponto indifferente. A Juncta chamada da Inconfidencia deu dois mil cruzados ao interprete de Domingos Leite e renovou as ordens ao marquez de Molinguen. O pai de Angela nem d'esta feita nem da outra soubera que Roque da Cunha recebêra dinheiro; e, por que lh'o via em abundancia, suppunha-lh'o de seus salarios e liberalidades de D. Vicencia.No dia 18 de julho sahiram de Madrid, caminho da fronteira.Escutemos o chronista-mór do reino, fr. Francisco Brandão: «Ha muito para reparar na força do destino que chamava Domingos Leite... Depois que sahiu de Madrid entrou logo em desconfiança do companheiro, presumindo que o havia de entregar, como por vezes lhe disse no caminho, declarando que sonhára uma d'aquellas noites que elle o entregava, e se via mandar fazer em quartos; e chegou a tanto a suspeita que tinha que, uma das vezes, se poz de joelhos diante de Roque da Cunha, e, abraçando-o pelos pés, lhe rogou encarecidamente o não quizesse entregar á justiça. Estando em Badajoz na estalagem, entrou uma menina de pouca edade, e pondo os olhos em ambos, lhes disse:Uno de vos outros és traidor. E apontando em particular para o Cunha, disse:Tu tienes ojos de traidor!... Reparou logo o Leite, nas palavras, e com o annuncio d'ella renovou ao companheiro a presumpção que d'elle trazia, e continuou com a supplica de que lhe fosse fiel. Grande cegueira—prosegue Brandão—que, tendo as presumpções tão vivas, não melhorasse partido, sendo-lhe facil!..»10Se prestamos mediana fé á perspicacia da mocinha de Badajoz que lia a traição nos olhos de Roque da Cunha, facilmente cremos que o traidor, a relanços, se temeu das suspeitas de Domingos Leite, em termos de velar as noites com medo do punhal e da cravina que o companheiro cuidadosamente aconchegava do leito.Ás vezes era Roque da Cunha quem se prostrava aos pés da victima exorando-lhe que não suspeitasse de sua lealdade, ou então o repulsasse de si como ao mais abjecto scelerado. «Grandes foram as cautelas de Cunha—confirma fr. Francisco Brandão—para assegurar bom animo ao companheiro, receando que lhe fugisse a preza, e não quizesse entrar em Portugal, ou depois de entrado, se voltasse para Castella sem passar a Lisboa; e não foram de menos consideração as cautelas que teve para se assegurar d'elle, receoso de que o matasse com as suspeitas.11Á quem de Badajoz sahiram da estrada real; e por veredas desfrequentadas e conhecidas de Roque, venceram grande espaço, para se desencontrarem das tropas portuguezas, em um dia e noite. No termo da violenta jornada de oitenta e cinco leguas em dez dias, o cavallo de Domingos Leite abrira dos peitos, e na aldeia, onde se albergaram, não houve modo de allugar cavalgadura. Notou Roque da Cunha ao companheiro que o presistirem alli, sem esperanças de remedio, era perder tempo, e talvez perigoso; que elle iria adiante agenciar cavallo nos Pegoens, e lh'o enviaria, a não querer o seu amigo ir n'essa diligencia, e enviar-lh'o.—E para que vá mais leve, e menos sugeito a que me roubem, fica tu com os meus alforges, onde estão quatro mil cruzados...—ajuntou Roque.—Oh!—exclamou Domingos Leite gracejando—Ninguem dirá que vaes do desterro! Parece que chegas de governar a India! Quatro mil cruzados!...—Ahi t'os deixo como refens...—Mal de mim se este dinheiro fosse o abono datua lealdade, Roque! Se tens tenção de me atraiçoar, leva-o, e atraiçoa-me, para que me não taxem de ladrão quando me prenderem.Roque fez um esgar de fingida magoa ou de terror de sua mesma ignominia. Domingos Leite interpretou a primeira supposição, e emendou as palavras duras com tocar-lhe amoravelmente no rosto, dizendo-lhe:—É brincadeira, meu homem! Vai, leva ou deixa o dinheiro, como quizeres; manda-me o cavallo, e espera por mim na Povoa de S. Martinho, d'aqui cinco leguas. Levas-me de avanço apenas algumas horas, se ámanhã cedo me mandares o cavallo, e elle não fôr aleijado. Devo lá chegar por noite, se a estrada real estiver desembaraçada de tropa; senão terei de dar grandes voltas.Roque abriu o alforge, contou cem mil reis e disse:—Levo commigo este dinheiro, porque talvez tenha de comprar o teu cavallo, se m'o não quizerem alugar; e quem sabe se o meu tambem vai a terra, que hontem já o não sentia entre os acicates...—Não deixes o dinheiro!—instou Leite Pereira.—Já te disse que receio ser roubado. Que me faz deixal-o ou leval-o? Adeus, até ámanhã.Abraçaram-se. Domingos Leite olhou-o muito de fito, e disse-lhe:—Não me vendas... visto que estás rico!Roque sahiu de arremesso, cavalgou, e esporeou a desapoderado galope, caminho dos Pegoens. «Não me vendas...» dissera o desgraçado. Assizadamente escrevia depois o frade:Ha muito para reparar na força do destino que o chamava...XXIDecorrêra o restante d'aquelle dia 28 de julho, e parte do seguinte sem novas de Roque da Cunha. Cerca do meio dia, chegou um guia, portador de um bilhete para Domingos Leite. Dizia-lhe o fementido que, não encontrando cavallo que comprasse ou alugasse em Gaifões, passara a Rilvas, onde achara um sendeiro estropiado, que alugou para si, e lhe enviava a elle o cavallo para que a jornada lhe fosse menos enfadonha.Domingos Leite sentiu-se captivo d'esta deferencia; mas, apenas montou, conheceu que o cavallo estava por tanta maneira escalavrado que só muito a passo alcançaria vencer as seis leguas, que o distanciavam da Povoa de D. Martinho, até á noute do dia seguinte.O arrieiro que o guiava recommendou-lhe pouca espora, se queria chegar com o cavallo vivo á Povoa.—Não havia em Rilvas uma besta que se vendesse?—perguntou Domingos Leite.—Havia um cavallo de comer tres leguas por hora, que se vendia por trinta cruzados.—Porque o não disseste á pessoa que te mandou com este?—Quem me mandou foi o estalajadeiro, e nada mais sei, nem fallei com essa pessoa que vossemecê diz.O cavallo elogiado pelo arrieiro comprara-o Roque da Cunha, e n'elle cavalgára caminho de Lisboa, deixando tractada com o estalajadeiro a remessa do seu e o bilhete á aldeia onde ficára o seu companheiro.Dizendo Domingos Leite ao criado que talvez comprasse em Rilvas a cavalgadura, observou-lhe o arrieiro que tinha ordem de o guiar por fora dos povoados, sem saber a razão porquê.—Andam soldados na estrada real?—perguntou Leite.—Que eu saiba, não, senhor.Reparou na precaução o cavalleiro; e não viu a voragem. Cada vez nos encostamos com melhor juizo ao dizer de fr. Francisco Brandão:Ha muito para reparar na força do destino que o chamava.Suggeriu-se-lhe de novo o pensamento da perfidia; quedou-se alguns segundos luctando com o palpite de retroceder; nada obstante, seguiu avante, dizendo entre si:—Que pensaria de mim Roque da Cunha se está innocente nas minhas suspeitas, e eu me voltasse a Hespanha com o seu dinheiro!...Quando elle assim lidava em conjecturas que se destruiam, já Roque da Cunha estava em Lisboa, e no Paço da Ribeira. Pediu ao corregedor Pero Fernandes Monteiro, que sahia da corte, o apresentasse a el-rei para negocio da maior urgencia. D. João IV, ouvindo o nome do seu recente espia em Madrid, e recordando o recado de Roque da Cunha, transmittido pelo jesuita, quanto a salvar-lhe a vida, teve grande alvoroço com a nova, e mandou-o entrar. Poz-se em joelhos o delactor, começando por implorar o perdão de seus delictos, e confessando que tivera parte em uma tentativa contra a vida de sua magestade; porém, accrescentava que se el-rei, seu senhor, lhe não perdoasse, morreria contente, levando a Deus sua alma purificada de remorsos.Sorriu D. João IV dos remorsos de Roque da Cunha, e disse gravemente:—Estás perdoado. Dize o que tens a dizer, e levanta-te.Referiu Roque a tentativa de regicidio em 20 de junho, com os pormenores sabidos do leitor, e aggravou o crime de Domingos Leite com a reincidencia no intento que o trazia a Portugal.Escutou-o D. João com torvo aspecto. Turturava-o a situação de Maria Isabel. Passou-lhe talvez no espirito o pensamento de encarregar o infame delactor de matar, em segredo, Domingos Leite, e salvar assim a viuva e a filha da ignominia que do alto da forca baixaria sobre ellas. Mas não era Roque o homem amoldado á observancia do mysterio que tal acto requeria.Mandou recolher o espia a um quarto baixo do paço, e ordenou que viessem á sua presença o fidalgomais possante de sua côrte, Luiz da Silva Telles, e outro não menos destemido D. Francisco de Faro e Noronha, conde de Odemira. Contou-lhes o que passára com Roque da Cunha, e enviou-os a prender Domingos Leite Pereira onde o denunciante os conduzisse.Ao mesmo tempo, ordenava a Antonio Cavide que sem perda de tempo fizesse entrar em uma caleça Maria Isabel e sua filha, e elle mesmo as conduzisse a um mosteiro de Tras-os-Montes, á escolha do seu secretario; que nem palavra lhes dissesse a respeito de Domingos Leite, e se desculpasse com a ignorancia dos motivos que el-rei tivera para dar semelhante ordem.Maria Isabel e Angela colhiam, ao empardecer do dia, nos canteiros do seu jardim de Alcantara, um ramilhete de flores, quando o escudeiro annunciou a chegada do secretario de estado, e a recommendação de se apressar S. Senhoria a recebel-o.Assustou-se a dama. Sempre que este homem a procurava soavam-lhe rebates de medo no inquieto coração. Tinham-lhe dito que Cavide lisongeava o rei, alcofando-lhe novas amantes quando o sentia fatigado das antigas. Esta seria a causa da repugnancia. Angela, essa então odiava-o de instincto, sem saber precisar aquelle rancor tão desnatural em sua edade.O estranho aspeito de Cavide incutia maior temor em Maria Isabel.—Minha senhora—disse elle entre melancolico e solemne—ordena el-rei, meu amo e senhor, que vossa senhoria e sua filha se aprestem activamente para ao romper da manhã sahirem de Lisboa...—Para onde?!—interrompeu Maria Isabel.—Para um mosteiro na provincia de Traz-os-Montes.—Mosteiro!...—Sim, senhora minha.—Não quero!—bradou a dama.Sorriu-se o fidalgo, e disse:—Quer el-rei, nosso senhor.—Mas que fiz eu? por que me manda el-rei para um convento?—Ignoro. Segredos de sua magestade. Não discutamos inutilmente: é sacrilegio duvidar da prudencia de sua magestade nas ordens que se dignou transmittir-lhe. Senhora D. Maria Isabel, ás tres horas da manhã está o meu coche á porta de vossa senhoria, e fora de portas estará a caleça que nos hade levar onde el-rei ordena. Não posso deter-me, salvo se tem ordens a dar-me...A esposa de Domingos Leite abraçou-se na filha em pranto desfeito, ao passo que o secretario se retirava a passo magestoso, dignando-se saudar d'entre o reposteiro a senhora que não o via.Quando ella ás onze horas d'aquella noite de 30 de julho enfardelava com as lacrimosas criadas os seus fatos e de sua filha nos bahús, entrava Domingos Leite Pereira na Povoa de S. Martinho, áquem do Tejo, trez leguas distante de Lisboa.Conforme a senha concertada, deu trez pancadas na porta da estalagem com a coronha da cravina. Desceu Roque da Cunha embrulhado em um gibão e em menores, affectando sahir da cama. Abriu a porta mansamente, e disse:—Eu já não te esperava...—Tambem eu cuidei que não chegaria hoje... O teu cavallo vai fazer companhia ao meu na immortalidadedas cavalgaduras heroicas e pôdres... Quem está por aqui na locanda?—Ninguem afora um ou dois vilões desconhecidos. Dá cá as redeas, que eu recolho o cavallo.E dizendo, tirou pela besta, afim de distancear o coldre das pistolas do alcance de Domingos Leite, e servir-se d'ellas em conjuntura apertada.Seguia Domingos Leite o cavallo; e, no momento de entrar na cavallariça, frouxamente allumiada, sentiu-se agarrado de sobresalto. Eram os braços de ferro de Luiz Telles que o cingiam do peito ás costas, emquanto o conde de Odemira lhe arrancava das mãos a caravina.Leite nem levemente escabujou nas garras dos dois fidalgos. Cravou os olhos no rosto de Roque da Cunha, e disse:—Agradeço-te esta morte, ó infame. Todo o infeliz que chegou a conhecer n'este mundo um homem como tu, deve desejar morrer. Podem largar-me, que eu não lhes fujo nem lhes resisto, sr. Luiz Telles e sr. conde.D'ahi a momentos, á porta da estalagem chegava uma escolta de paisanos armados. Domingos Leite foi conduzido ao centro da escolta pelo conde de Odemira, que, voltado ao preso, disse:—Se tentar fugir, sr. Leite, é espingardeado.E com grande silencio o levaram a Lisboa, diz o manuscripto.Silencio comprehensivel! Os dois fidalgos que, por ordem de el-rei, o apertaram nas roscas de aço dos seus musculos, sabiam que a mulher d'aquelle homem, inevitavelmente levado ao patibulo, era amante de D. João IV. A sua abjecta mensagem de esbirros ainda lhes consentiaque sentissem o opprobrio d'ella. Roque, na saga da escolta, não podemos, não poderá ninguem esgaravatar que herpes lhe mordiam a consciencia. Homens assim nem o Creador sabe decifrar o enigma que elles são. Querem que Deus deva saber o que fez. Saberá.Domingos Leite era o unico do prestito sinistro que levava o rosto nobremente erguido, e parecia olhar para o ceo pedindo ás estrellas a luz da fé, para que na morte lhe não faltasse a esperança de outra existencia.Entrou em Lisboa na madrugada de 31 de julho. Levaram-no ao palacio do conde de Odemira, onde respondeu ao primeiro interrogatorio com a altivez nunca vista em reo. Confessou tudo, sem nunca balbuciar o nome da mulher. Matava el-rei, disse elle, em desaggravo da sua honra.Nem um instante de quebranto, de pavor ou de supplica!Entrou na casa do conde de Odemira, diz o doutor fr. Francisco Brandão no opusculo referido,com um desafogo tal que parecia mais alvitrista dos contrabandos d'el-rei D. João que cumplice dos maiores servidores do rei de Castella. Com esta mesma segurança de animo se portou em todos os mais lanços em que foi examinado; tendo só de bem confirmar sempre na confissão com o companheiro que o deu á prisão, e com a primeira confissão que uma vez lhe ouviram; de maneira que correndo por todo o exame e rigor das interrogações que o direito dispõe não faltou nunca na mesma rectificação de quanto sem as maiores violencias havia confessado; imperfeita virtude no maior defeito!Em um d'esses interrogatorios,sem as maiores violencias(quer dizer que a tortura não foi das mais requintadas) fizeram-lhe esta pergunta:—Porque não atiraste a el-rei, tendo a escupeta apontada sobre o sagrado corpo de sua magestade?—Porque tive uma visão santissima: foi a mão de um anjo do ceo, que me levou para si os olhos e a alma.D'esta resposta formaram os fantasistas da historia uma parvoiçada de aureolas luzentissimas que esconderam aos olhos do regicida o etherio corpo de D. João de Bragança.Transferido da caza do conde para o segredo do Limoeiro, divulgou-se em Lisboa a noticia.As turbas correram á porta do carcere pedindo que lhe entregassem Domingos Leite Pereira para o espedaçarem. Acudiram os ministros, clamando ao povo que o prezo era apenas reo de morte na pessoa do padre Luiz da Silveira, e conseguiram debandar a chusma dos carrascos voluntarios, ebrios de civismo.Bernardo, quando soube da captura de seu amo, abordou-se ao cajado de peregrino, e foi caminho de Guimarães dizer a Antonio Leite que seu filho morria em desaffronta de sua honra.Ao fim de 16 dias de prisão, Domingos Leite foi sentenciado.Eis a sentença integralmente trasladada da original, e publicada em 1833 pelo desembargador Gouvêa Pinto:12SENTENÇAQue se proferiu contra Domingos Leite Pereira Escrivão da Correição do Civel da Côrte, por querer atreçoadamente matar a El-Rei o Senhor D. João o IV.Acordam em Relação etc. Visto estes Autos, que pela calidade, e detestação do caso, prova d'elle se fizeram summarios.Mostra-se que o ReoDomingos Leite Pereira, sendo natural d'este Reino, e Proprietario do Officio de Escrevão do Civel da Corte, se passou d'elle para o de Castella no anno passado, a titulo de um seu homezio, e estando em Madrid, foi n'elle despachado com o Habito de Christo, e outras mercêz, e d'aly com ordem de certos Ministros de El-Rei de Castella foi mandado a este Reino para matar a El-Rei Nosso Senhor, dando-lhe para este effeito quatrocentos escudos e uma espingarda com quartos, e um pelouro e dous vasos de peçonha para os poder ervar, e Cartas do mesmo Rei de Castella para o Marquez de Molenguem, Governador das Armas da Cidade de Badajoz, o deixar passar livremente.Mostra-se que vindo o Reo com animo de efectuar o sobredito, chegou a esta Cidade com outro companheiro em seis do Mez de Maio do anno prezente aonde andou escondido té os vinte dias do Mez de Junho, dia da Procissão geral doCorpo de Deus, em que determinava dar á execução o seu damnado, e abominado intento, para cujo effeito, por meio do dito seu companheiro alugou tres moradas de cazas no principio da Rua dos Torneiros, por onde havia de passar a dita Procissão, e n'ella acompanhando o dito Senhor, na forma do costumado pelos Senhores Reis d'este Reino,com tal apercebimento que uma das ditas casas ficassem com a dita porta para outra rua diferente por onde facilmente, depois do caso feito podesse escapar sem ser tomado, rompendo com uma alavanca de ferro as ditas trez moradas de cazas, para mais facil expedição da sua fugida.Mostra-se, que no dito dia da Procissão ao tempo que o dito Senhor chegou á dita rua, e casas, e o Reo com a mesma rezolução, e deliberação do animo, o estava esperando em um buraco, que para o mesmo effeito abriu nas ditas cazas, com a dita espingarda nas mãos carregada dos ditos doze quartos, e um pelouro ervado com a dita peçonha, e tanto que a Real Pessoa do dito Senhor, elle mesmo confessa, que se lhe representou umaSuperior Magestade do Ceo, que lhe fez cahir das mãos a dita espingarda sem poder executar o intento, que de antes tinha, e no mesmo dia se sahiu desfarçado das ditas cazas, deixando n'ellas a dita espingarda, e alavanca, e vazos de peçonha; e se foi ao postigo de Nossa Senhora da Graça aonde o dito seu companheiro o estava aguardando com dous cavallos, que já alli tinha preparados para sua fugida, e n'elles se tornaram ambos para Madrid.Mostra-se, que ahi se tornou o Reo a vêr com os mesmos Ministros de Castella, que o haviam mandado dando-lhe outras desculpas de não effectuar o promettido por sua parte, e elles acceitando-lhas o tornaram a mandar ao mesmo effeito, com os mesmos passaportes, e promessas de aventejadas mercêz, dando-lhe mais dous mil cruzados em dinheiro; e partindo o Reo com o mesmo intento, e deliberação, e o dito seu companheiro, o mandou diante a esta Cidade a buscarcazas aonde se podessem agazalhar, e que o fosse esperar ao Lugar da Povoa de D. Martinho, para que ambos podessem entrar mais escondidos na Cidade.Mostra-se, que o companheiro do dito Reo, uzando de melhor concelhorevelou tudo aos sobreditos Ministros da Justiça, do dito Senhor em os trinta e um dias do Mez de Julho, em que o Reo chegou ao dito logar da Povoa, o entregou n'ella á prizão, e o Reo no mesmo dia fez inteira e plenaria confissão do seu damnado e deliberado intento, contestando em tudo o acima referido; e que fazendo-se diligencia, e visturia nas ditas cazas se acharam furadas, na forma referida, e n'ellas os dois vasos de peçonha, escondidos no proprio lugar, que o Reo declarou, um d'elles ainda cheio, outro já diminuto, pelo que elle havia tirado, para ervar os ditos quartos e pelouro.Não mostra o Reo por sua parte descarga alguma em sua defeza, sendo-lhe dado vista, e Procurador para allegar de sua justiça e direito.O que tudo Visto, e o mais dos Autos, disposição de direito em tal caso, declaram ao dito Reo, por traidor aleivoso, parrecida, assassino, e haver incorrido no detestavel crime de Leza Magestade de primeira cabeça, e como a tal o condemnam, e mandam, que com baraço, e pregão pelas ruas publicas, e costumadas seja levado á rasto á forca, aonde sendo-lhe primeiro decepadas as mãos no Pelourinho morra enforcado de morte cruel, e o seu corpo seja posto em uma fugueira e n'ella feito em pó, e em cinza, para que d'elle não fique memoria; e o condemnam outro sim em perdimento de seus bens para o Fisco, e Camara Real, e que seus descendentes hájam as penas, que por direito lhessão impostas: e esta Sentença se não publicará sem primeiro se dar conta ao dito Senhor, na fórma de suas ordens: e pague o R. os Autos. Lisboa 12 de Agosto de 1647.—Marcham, Monteiro, Beja, Marz.º, Stacio, Porto.—————Ao alvorejar da manhã de 21 de Agosto de 1647, sahiu o regicida do oratorio, onde permaneceu tranquillo, já orando, já conversando affectuosa e christãmente com o sacerdote. Se algumas vezes orava com fervor de lagrimas, e o padre lhe asseverava que nosso Senhor Jesus Christo, pai de misericordias, lhe perdoava, o padecente respondia que estava pedindo a Deus lhe tirasse d'este mundo uma filha que tinha, e cá ficava sob o pezo da ignominia de seu pai.Apontava o sol, quando os algozes entravam no recinto a tosquiar-lhe a cabeça, a vestir-lhe a alva, e enroscar-lhe no pescoço e cintura a corda por onde haviam arrastal-o. Levado, á beira do padre, até ao atrio do Limoeiro, ahi mandaram-o estender-se sobre um esteirão, ao qual aprezilharam as cordas da garganta e da cinta, de geito que, ao repuxal-as, o não molestassem de modo que a vida perigasse.As ruas desbordavam de povo que ululava gritos de colera, e premia os flancos da escolta.Chegado ao Pelourinho, mandaram-no erguer, conduziram-no pela corda a um patamar de taboado, no centro do qual estava um cepo de madeira escura pintalgado ainda do sangue dos conjurados de 1641 e de Francisco de Lucena. Domingos Leite estendeu os braços no cepo, e o carrasco decepou-lhe as mãos de dois golpes. A forca da Ribeira hasteava-se a distancia deduzentos passos. Do Pelourinho ao patibulo o suppliciado revelou enormes dores nos estorcimentos dos braços que jorravam sangue em jactos fumegantes. O frade da agonia, lavado em lagrimas, murmurava-lhe tudo que o homem pode dizer em honra de Deus e esperanças do ceo.Chegou o instante da piedade humana: o carrasco, balouçando-se-lhe nas espaduas, quando o corpo se inteiriçava pendente do triangulo, fez um gesto significativo de ter cumprido a justiça d'el-rei D. João IV.Faltava ainda o complemento da sentença.O verdugo cortou a corda. O cadaver baqueou no tablado. E logo dois ajudantes do executor o esquartejaram em quatro partes que encravaram com cavilhas de ferro em uns altos postes arvorados em quatro pontos da cidade, os quaes ahi estiveram expostos até que a podridão aconselhou o queimal-os, e arrojal-os ao Tejo.Assim acabou Domingos Leite Pereira, o mancebo ardente que se devotára ao duque de Bragança com patriotico desprezo da vida, e o marido brioso, que respeitára em si o esposo trahido, e odiára no rei o adultero infamador de sua honra.CONCLUSÃOPelo que é de Domingos Leite Pereira está tudo concluido.Mas a narrativa não pode parar aqui.Ficam-lhe no mundo a filha, a esposa, o pai... e o traidor.Oh! Roque da Cunha viu aquella tragedia, viu acabeça esqualida no poste da rua dos Torneiros, e ficou debaixo do ceo, para onde o frade apontava com o Christo, quando o padecente tiritava nas horrentes dores da mutilação!..Vamos rastrear os destinos de Angela, visto que a Providencia a não levou d'esta vida, quando o padecente lh'o rogava no oratorio. E, se no rastro escuro ou luminoso da amada e innocente creatura, resvalarmos aos lodaçaes, pode ser que lá topemos os personagens repugnantes de cujo destino o leitor nos pede conta.O livro hade chamar-seA FILHA DO REGICIDA. (Nota final.)FIMNOTASNota 1.ªDiogo de Alvarado foi grande tangedor detecla, que é o mesmo que deorgão. Viveu longa vida e conservou sempre a mesma destreza e agilidade no tanger d'aquelle instrumento. Quarenta e trez annos exerceu o officio na capella real no tempo dos Philippes, e ainda trez no reinado de D. João IV. Está sepultado na egreja de Nossa Senhora dos Martyres, onde tem este epitaphio:Sepultura de Diogo de Alvarado tangedor de tecla na capella real 43 annos, e de sua mulher, o qual falleceu em 12 de fevereiro de 1643. «Memorias (ineditas) de Diogo de Paiva de Andrade.» EstasMemoriasreferem-se á antiga egreja arrazada pelo terremoto de 1755. D'este musico não encontramos outra noticia, nem d'elle a teve o cardeal patriarcha D. Frei Francisco de S. Luiz naLista de alguns artistas portuguezes. (Lisboa, 1839).A referencia que acima se faz a>Guerreiro, intende com o padre portuguez Francisco Guerreiro, mestre da capella da Sancta Igreja de Sevilha, o qual, como elle mesmo refere no seuItinerario da Terra Sancta, estando em Veneza por agosto de 1588, ahi mandara imprimir os seus livros de musica.Nota 2.ªEsta novidade da morte de Bernardim Ribeiro Pacheco, a tiro, na rua Nova, deparou-n'ol-a um manuscripto que possuimos intitulado MEMORIAS COLLIGIDAS POR DIOGO DE PAIVA DE ANDRADE.D'estes nomes e appellidos houve tio e sobrinho. O primeiro foi grande theologo e mui sizudo padre que decerto não ferragearia os escandalos que enxameam nas MEMORIAS. O sobrinho, mais mundanal, e auctor doCasamento perfeito, seria o collector de biographias, um tanto airadas, entre as quaes está a do amador da infanta Beatriz. Diogo de Paiva nasceu em 1576 e morreu em 1660.Nota 3.ªMemoriascitadas. Concordam com a supposição de Manuel Faria e Sousa nosCommentarios ás rimasde Luiz de Camões, e nomeadamente áCançãoVII e aoSonetoLXXVII.Nota 4.ªO fidalgo, que assim ameaçou brutalmente uma senhora, foi D. Carlos de Noronha. Este sujeito havia sido estrenuo cortezão da côrte de Madrid, e recompensado por Filippe III largamente; porém, como pedisse uma graça que o rei lhe não concedeu, voltou aggravado para Portugal, e inscreveu-se entre os conjurados com arrebatado patriotismo. Como a cobiça fosse o estimulo mais energico dos seus actos, curou de se enriquecer, litigando a posse dos bens a quem os tinha. Questionou a casa de Linhares a D. Miguel de Noronha, e perdeu a demanda. (Veja-se aHistoria Genealogica da Casa Real, T. 5.º, pagina 270). Em seguida, como o marquez de Villa Real fosse degolado, demandou a corôa sobre a successão da casa do sentenciado: perdeu a demanda. (Veja-se aHistoria Genealogica da Casa Real, T. 2.º, livro 3.º pagina 521). Como lhe não rendesse nada o vampirisar nos cadaveres dos justiçados, fez unsEstatutos da Ordem de Avisem que constituiu visitador geral das ordens militares de Portugal o presidente da Mesa da Consciencia. Ora, como elle foi toda a sua vida presidente da referida Mesa, e pelo conseguinte visitador vitalicio, arranjou por este engenhoso meio traças de se locupletar, pondo em almoeda as suas concessões. Eis aqui um dos noventa heroes de 1640! Quem os quizer contar leia aHistoria da Acclamaçãoetc., por Roque Pereira Lobo.Nota 5.ªPedro Barbosa foi assassinado em 1621, quando recolhia da Relação para sua casa, que era um palacio na Ribeira. Este palacio, depois de 1640, passou a um dos conjurados, de appellidoNoronha, e era dos marquezes de Angeja, quando o terremoto de 1755 o alluiu. Pedro Barbosa de Luna era de Vianna do Minho.Nota 6.ªO receio de que nos arguam de injusto n'esta apreciação dofundador da dynastia bragantina, obriga-nos a dar cópia exacta de um autographo, que possuimos, de D. João IV: são os apontamentos que o rei deu a Pedro Vieira da Silva como bazes do seu testamento. Quem leu oTestamento delRey D. João IVno tomo IV dasProvas da Historia Genealogica da casa realpor D. Antonio Caetano de Sousa, pagina 764 e seguintes, e o reputou da lavra do monarcha, tem rasão, se formar bom conceito da intelligencia do testador; quem porém vir os traços fundamentaes d'esse documento, duvidará que elle haja sido o auctor do livro de musica. Aqui está o traslado textual do testamento escripto do punho de D. João IV:«Jesus Maria a quem emcomendo minha alma, nomeio primeiramente por herdeiro de meus Reynos, e Senhorios ao Princepe D. Afonso meu filho como a quem directamente pertensem e por que elle se acha em menor edade declaro por Regente de meos Reynos e tutora de meos filhos a Raynha minha sobre todas prezada mulher; e por que ella pode morrer ainda durante amenor idade de meu filho em tal cazo podera nomear os Tutores ou Tutor Governador ou governadores para meus filhos e estes Reynos e Senhorios pello conhecimento que tem delles e de meus vaçalos e porquanto fio dela e de sua prudencia e do amor que me tem que detudo o que aentregar fara o que eu fizera por ella a nomeio por minha testamenteira e que faça pella minha alma tudo quanto a ella lhe parecer que me comvém.«Ordeno que meu corpo seja enterrado no convento de S. Vicente defora para onde se tresladarão os ossos de meu filho o Princepe D. Theodozio e os de minha filha a Infanta D. Joanna para o que se faram sepulturas decentes e no dito convento se diram coatro missas cotudianas duas pella minha alma e duas pello Princepe e Infanta.«Deixo que os meus bens livres serepartão por meus filhos conforme a cada hum tocar e peço ao Princepe lhe conserve as doaçoens que tenho feito, e espero delle o faça e lhe acrecente outras visto que eu por não defraudar o patrimonio Real lhas dei tão limitadas. Deixo aminha terça ao Princepe mui sobre todos prezado filho e que della setirem vinte mil cruzados que a Rainha minha testamenteira repartirâ em obras pias cazando orfas e donzellas e dando esmollas a viuvas e pobres e porque destes ha muitos que são meus criados mando que seião (sejam) preferidos, e porque Antonio Cabide tem de todos inteiro conhecimento a Rainha se informara delle para saber quaes são os mais benemeritos e trez nomeadamente cujos nomes dira o meu confesçor.«De Antonio cabide tenho inteira satisfação pello modo e zello com que sempre mecervio e asim peço a Rainha sequeira servir delle no mesmo modo com que eu me cervia por que fio delle o fara com toda a satisfação, e por que muitos tempos correu com toda a minha fazenda e medeu dela inteira conta o dou por quitee livre e que este lhe cirva de quitação. Declaro que tenho huma filha por nome D. Maria de huma mulher Limpa que esta no convento de Carnide a quem deixo a comenda mayor de santhiago para a formatura da qual tenho passado decretos a mesa da conciencia e ordens e se impetrarão do Papa os breves necessarios e asim mais as villas de Torres vedras colares, e os lugares de Azinhaga, e cartaxo, que logo os faço villas com jurisdição a parte com todas suas doaçoens de juro, e herdade sempre sojeitas a Ley mental, e porque nestas doaçõns pode aver ao diante duvida algua mando ao Princepe meu filho lhas satisfaça emquanto eqivalente, e sincoenta mil cruzados para por sua casa. E porque no modo e Estado que ella ouver de tomar tive alguns intentos de que tudo sabe Antonio Cabide pesso a Raynha informada delle siga minha mesma vontade.13Tenho tratado casar minha filha D. Catherina com El Rey de Franca por asim mo averem pedido Menistros daquella coroa e por que de todos estes negocios sabe a Raynha lhe pesso siga nelles meus proprios intentos.«A Antonio Cabide dava todos os annos atitolo decerto cerviço meu das Rendas da casa de Bragança dous mil cruzados, a D. Maria minha filha mando se lhe dem na mesma forma athe tomar estado.«Tenho satisfeito os testamentos de meus Avos principalmente tudo o que meu Senhor e Pay mandou e por que ao Morgado da Cruz conforme sua mesma instituição devo acrecentar Vinte mil cruzados de renda mando que dos meus bens se acrecentem.«Os Reys mais que os outros homens devem dar ao mundo razão de suas acçõens. E asim digo que me restituhi a estes Reynos, e Senhorios por entender o devia fazer em conceencia por livrar a meus vaçalos do dominio, e violencia estrangeira e esta razam me obrigou a fazer huma couza que poderia ser contra meu natural. A Justiça e a observancia della conserva as Monarchias máis que as armas e asim encomendo ao Princepe meu filho siga nesta materia inviolavelmente esta acção.«De todos meus criados tenho inteira satisfacam por me averem servido com lialdade zelo, e trabalho principalmente os officiaes de minha caza, Mordo mor (Mordomo-mor) Estrebeiro mor, cappelão mor, Porteiro mor, e os mais, que aqui hei por expreços, e declarados, e peço ao Princepe meu filho se sirva delles porque o faram como eu sempre experementey. O conde Camareiro mor do meu concelho de Estado me tem servido nesta doença como nas mais comtodo cudado e trabalho asim mando ao Princepe meu filho lhe faca toda a honra e Estimação que mereceo e mando se lhe entregue mil cruzados para repartir com os Mocos da camara que me cervirão nesta doença. Declaro que governei este Reyno com toda a Justiça comforme entendi e se herrei em alguma de minhas acçoens como homem foi sempre cudadozo qual hera o melhor que se devia obrar.«Tenho declarado a Raynha hum pessoa para Ayo do Principe que ella nomeará quando lhe parecer.«Tenho muitos papeis tocantes ao governo d'este Reyno, e conhesimento de meus vasalos que podem servir á Raynha e ao Principe e porque da publicação delles pode rezultar perjuizo amuitas pessoas mando que o Bispo meu confessor e Antonio Cabide fassão inventario delles, e os entreguem a Rainha.«Fuy muito corioso da minha livraria da muzica, e asim para que se conserve lhe deixo corenta mil reis todos os annos para fabrica, e mando que esteja sempre na caza em que está, e que se empetre hum breve do Papa com excumunhão reservada para que senão trezlade digo tire d'ella Livro nem papel nem se trezlade, e nomeio para Biblioticario della a Antonio Barbosa com cecenta mil reis de ordenado, e por Ajudante a Domingos do Vale seu irmão, e faltando estas pessoas se hirão nomeando outras para sempre estes cento e corenta mil reis (que) fara a Rainha logo assentar no melhor parado da minha fazenda declarando se não tire nunca das rendas da capella.«A minha capella mando se acabe do mesmo modo que eu tinha ordenado com Santuario Retabulo e çacrario e porque Antonio Cabide sabe o modo com que eu queria isto o deixo por superintendente desta obra.«Tenho mandado a Holanda empremir as obras de João Soares Rabello da qual Impresão lhe faço merce rezervando para aminha Livraria vinte Livros e os outros espalhara por Italia e Castela.14«E como na observancia da Justiça consiste a conservação do Reyno declaro que os Governadores das armas não terão nas Justiças mais jurisdição que a que tem os capitaens de Africa.Fim do testamento.»Quem estiver de pachorra confronte este modêlo de supina ignorancia dos rudimentos da arte de escrever, com o estylo garrafal e engalanado do secretario de estado Pedro Vieira da Silva.E depois, se poder, acredite em D. Antonio Caetano de Sousa (Hist. Genealog. da Casa Real, tomo VII, pag. 240) quando lhe diz que D. João IV ditara a Antonio Cavide a maior parte ou todas asRelaçoensanonymas das campanhas entre Hespanha e Portugal, impressas entre 1641 e 1643, com o fim deter contentes os animos dos seus vassalos, e satisfeitos com os bons successos de suas armas. O linhagista da casa de Bragança não satisfez o seu encarecimento servil com menos de inventar um litterato no fragueiro monteador de veados em Villa Viçosa.Convem notar que o redactor do testamento procedeu sensatamente expungindo dos regios apontamentos a clauzula de impetrar do Papa excommunhão para quem trasladasse algum livro da Bibliotheca da musica. Villão espirito e rancorosa alma que ainda almejavam sobreviver-se no2 tumulo! D'essa estupenda biblioteca, no dia 1 de novembro de 1755, não deixou o terremoto sequer um livro!O autographo de D. João IV, aqui trasladado, pertenceu á livraria do ministro de estado Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas.Nota 7.ªRemechendo com infatigavel curiosidade o archivo das memorias que ha vinte annos vamos collegindo ácêrca de filhas de bispos e outros coitos damnados, encontramos um apontamento que dillucida a obscuridade do manuscripto, e nos declara a ascendencia da menina regeitada por Domingos Leite Pereira. É o seguinte caso, salva melhor interpretação:O infante D. Fernando, pai de el-rei D. Manuel, teve uma filha bastarda que se chamou Leonor. A rainha D. Leonor, mulher de D. João II, e meia irmã d'aquella menina, levou-a para o paço, e educou-a com esmero e carinho de irmã. Sahiu a dama muito namoradeira e desatinada, com immenso dissabor da rainha, que a reprehendeu repetidas vezes inutilmente. Até que um dia, estando a côrte em Santarem, a irmã colheu a bastarda de sobresalto galanteando da janella para a rua um cavalleiro que deu de esporas ao presentir a rainha. Travou-se altercação rija entre as duas Leonores, rompendo a bastarda no excesso de reguingar que havia de casar-se com quem muito lhe quadrasse. «Isso não!—replicou a mulher de D. João II—hasde casar com quem eu muito bem quizer; e hade ser com o primeiro homem que passar na rua, se fôr solteiro.» N'este lance, apontou na extrema da rua um homem ordinario, de nome Alvaro Fernandes, correeiro de officio. Chamou-o a rainha, deu-lhe um dote, e ordenou ao capellão que os cazasse. Tiveram filhos. O padre Jeronymo Fernandes, de Santarem, era bisneto da tal casquilha, filha do infante D. Fernando, e irmã d'el-rei D. Manuel e tambem por tanto bisneto do tal Fernandes correeiro. O padre allegou e provou a Filippe II queera terceiro neto do infante D. Fernando, e obteve a mitra do Funchal. Este devia ser avô da noiva regeitada.Nota 8.ªA rua dos Tanoeiros ou Tanoaria principiava ao pé do Paço da Côrte Real, e seguia até ao Arco do Ouro junto ao Terreiro do Paço. N'esta rua se arruavam os tanoeiros em 1318, em numero de quinze. Quanto aoSancto Antonio de frei Bartholomeu dos Martyres, sabe-se o seguinte para explicar o texto: em casa humilde nasceu n'esta rua o veneravel arcebispo de Braga frei Bartholomeu dos Martyres; e na fachada da casa onde nasceu, ainda antes de 1755 havia um nicho com a imagem de Santo Antonio que o arcebispo, quando estudantinho, fizera com um canivete. Este Santo Antonio era festejado todos os annos á custa dos devotos da rua, e conservou sempre lampadario acceso, de noite e dia, porque toda a freguezia dos Martyres se apegava com o milagroso Sancto nas suas necessidades.Nota 9.ªÉ notavel este facto omittido pelos historiadores, esquecido na tradição, e consignado nasMemoriascolligidas porDiogo de Paiva de Andrade. «D. Rodrigo da Camara, terceiro conde de Villa Franca, foi preso por culpas de sedomia na inquisição de Lisboa, sendo inquisidor geral o bispo da Guarda D. Francisco de Castro. Não faltou quem dissesse que a soberba de um ministro d'aquelle tribunal o culpára ao conde sem causa; porque tratando o conde de amores uma parenta do dito ministro, este o avisára que cazasse com ella; e, tendo em resposta que só para amiga lhe podia servir, lhe castigára o dito com um testemunho. Houve votos de que sahisse publicamente na procissão doAuto da fé; porém, o principe D. Theodosio embaraçou isto dizendo a D. Francisco de Castro que, se não mudasse de proposito, deitaria fogo á Inquisição; do que, sentido o bispo, se travaram de razões, e estas se atearam por maneira que o principe lhe deu de bofetadas. O certo é que o conde não veiu a publico, e sahiu em acto particular na sala da Inquisição. Disse-se que o principe era muito avesso ás baixas manhas do inquisidor, e não aprovava que el-rei seu pae honrasse com a prelazia o denunciador dos máus portuguezes que padeceram em 1641.»D'este principe D. Theodosio que dava bofetadas no Inquisidor-geral formou o nosso amigo Pinheiro Chagas, na sua valiosissimaHistoria de Portugal(tomo VI, pagina 110) conceito muito mais ameno, quando escreveu: «mancebo ascetico, melancolico e fanatico... dirigindo os seus estudos em sentido mystico, etc.». Se Diogo de Paiva não desfazia no genio pacifico do primogenito de D. João IV, a cara do inquisidor-geral, bispo da Guarda, protestacontra o ascetico fanatismo do principe; e já o arcebispo de Lisboa protestaria tambem quando o futuro rei lhe fez chacota da magreza, dizendo-lhe quesó um embalsamado podia trazer-lhe a noticia de que elle seria principe do outro mundo, referindo-se ao Brazil. Era maiscalemburistaque asceta o irmão de Affonso VI, quer-nos parecer.Nota 10.ªO palacio dos duques de Aveiro que tambem foram depois marquezes de Gouveia, foi mandado em 1758 arrazar em Belem, em seguimento ao supplicio de D. José Mascarenhas. O marquez D. Manrique da Silva, cujo secretario foi Domingos Leite, era quarto avô do ultimo duque de Aveiro, e habitou o palacio de Pedroiços, no local onde ainda hoje se vê afogado em cazinholas um padrão commemorativo do delicto.Nota 11.ª«D. Maria de Castello Branco, filha de D. João de Castello Branco, alcaide-mór da villa de seu appellido, cazou com Fernão Cabral, alcaide-mór de Belmonte. Apaixonou-se esta dama por um clerigo com tanta loucura, que trocou em odio o amor conjugal, e persuadiu o dito clerigo que lhe matasse o marido. Descobriu-se o crime e a aleivosia, e por elle foi sentenciada a morrer morte natural por justiça sem lhe valer a grandeza do nascimento, nem a valia de seus muitos e illustres parentes».Memorias de Diogo de Paiva de Andrade.Não marca Diogo de Paiva o tempo d'este successo; mas conjecturamol-o no meado do seculo XV, reinando D. João II. Este Fernão Cabral, que levou a mulher ao patibulo, era quinto neto de Alvaro Gil Cabral, que el-rei D. João I fizera alcaide-mór de Azurara. Computando o lapso das gerações poderão os curiosos, favorecidos por algum linhagista menos indulgente, determinar a época da tragedia. D. Maria era neta do almirante Nuno Vaz Castello Branco, e bisneta por sua avó paterna de Micer Antão Peçanha, almirante, que viveu no começo do reinado de D. Affonso V. De um dos filhos d'esta senhora decapitada procedeu Pedro Alvares Cabral, o descobridor do Brazil.Nota 12.ªEstas miudesas do meuM. S.são corroboradas com a seguinte noticia extractada dasMemorias de Diogo de Paiva de Andrade: «Vicencia Correia, chamada depoisDonaVicencia, foi filha de uma grande alcayota e bebeda, chamada Barbara, que morou na rua dos Cabides em Lisboa, reinando el-rei D. Sebastião, e tão perita no seu officio que o exercitava com destreza esquisita. Os seus primeiros annos passou bem divertida por industria da mãee habilidade propria, e vivendo de mancebia com um fulano Cunha, teve d'elle um filho chamado Roque, e d'outro fulano Pereira teve uma filha chamada Marianna. Mudou depois de amorios com Francisco Leitão, com o qual casou; e este fazia tanta estimação da sogra, da mulher e da enteada, que todos viviam junctos, comiam á mesma mesa; e morrendo a enteada, que quiz casar com o porteiro que então era do Juizo de India e Mina e elle não quiz, tomou lucto publico. Servia n'este tempo Francisco Leitão de Juiz de India e Mina. Foi depois (por valias, e não por merecimentos, por ser homem de poucas lettras, falto de honra e atraiçoado) fidalgo da casa real, cavalleiro da Ordem de Christo, desembargador do Paço, do conselho de Portugal em Madrid, e lá teve grandes estimações, e a mulher, que era visitada dos grandes e senhores da corte. E da mesma sorte o foi n'este reino, onde o nosso D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa, bem conhecido pela sua litteratura, visitava D. Vicencia, e a presenteava.»Acho noticia d'este marido de D. Vicencia em um dos papeis que appareceram em Madrid, por 1637, assignados peloManuelinho de Evora, que symbolisava o espirito revolucionario de Portugal. Como peça desconhecida, extrahimos o mais curioso d'ella. É uma satyra intituladaQuadras que se mandaram a Sua Magestade para uma sala de bom retiro. Figuram Philippe IV, as damas da corte, Diogo Soares, Miguel de Vasconcellos, Francisco Leitão,15o conde do Prado e Thomaz Dibio, o marquez de la Puebla, D. Jorge Mascarenhas, D. Antonio de Athaide, Mathias de Albuquerque e o conde da Vidigueira. Aqui se deparam ao leitor alguns nomes e appellidos que, rodados poucos annos, realçam em Portugal pela sua dedicação.Diogo Soares tem um livro na mão com esta lettra:Este livro ensina os modosDe roubar os povos todos.Miguel de Vasconcellos revê-se em uma taça de vinho com esta lettra:Nos bofes fel e vergonha;E em ser ladrão atrevidoSahi a meu pai cuspido.Vai Francisco Leitão com esta lettra:Nasci de quem nasci,Cazei com quem cazei,E o prazo renoveiE á margem:Filius meretricis.Vae o conde do Prado e diz este mote:A missa ouço em S. Roque,Beijo o chão antes que acabe,A tenção só Deus a sabe.Thomaz Dibio glosa-lhe o mote:As palavras são de um sancto;Mas as obras joeiradasSão malicias refinadas.O marquez de la Puebla é pintado a espreitar por uma porta com este mote:Desterrado y ocioso,Miro solo la destresaCon que hurta su Altesa.E diz D. Jorge de Mascarenhas:Com capa de zelo vossoMuito dinheiro ajuntei,Sem elle e sem vós fiqueiMathias de Albuquerque, Jorge de Athaide, e o conde da Vidigueira, em camisa com uma vela na mão, tem esta lettra de D. Antonio:Mentir, calar, e fingirVerbos de que tenho usadoMe pozeram n'este estado.O mote de Mathias de Albuquerque diz:Sem tiro e golpe de espadaA Pernambuco larguei,São e rico me fiquei.Mote do conde da Vidigueira:Estes como eu fugiram,E escaparam por taes modos,Que eu vim a pagar por todos.Diz o bispo do Porto:Sou de geração humilde;Mas mui sagaz e astutoCom duas pedras de p...Tem ementa á margem da trova, cuja ultima palavra é umcalemburgoque finge estar no tempo presente, modo indicativo doverbodeputar. Diz a glossa:Este bispo, n'este anno, fez tudo aquillo que quiz, pondo e dispondo á sua vontade.Em livro mais de molde a demoradas exhumações historicas, darei ao leitor curiosa e ampliada noticia d'este prelado, definido peloManuelinho de Evora.A nota, que já se vae delongando, não é despecienda como amostra do genero tão fallado como desconhecido que usaram os fermentadores da restauração, a despeito da espionagem que rastreava os audacissimos secretarios doManuelinho.Nota 18.ªProvavelmente, n'este anno de 1647, já Philippe IV e os seus ministros conheciam o timido animo do rei de Portugal, que mais covardemente se manifestou em 1650, depois da paz de Westphalia. N'este anno, pois, encarregou D. João IV o padre Antonio Vieira de negociar desde Roma o casamento do principe D. Theodosio com a infanta de Hespanha, dando esse enlace como caução unica e segura á fuzão iberica; por quanto, não tendo Philippe IV filho varão, áquelle tempo, succediam no throno de Portugal o principe portuguez e a princeza hespanhola; acontecendo, porém, a superveniencia de filho varão, reinariam em distinctos reinos, com alliança offensiva e defensiva. Além d'isso, dado que o rei de Hespanha teimasse em negar a legitimidade de D. João IV, este abdicaria no filho e na infanta. O padre Vieira tractou o negocio com os jesuitas castelhanos, em Roma, resalvando que Lisboa se constituisse a capital dos dois reinos fundidos em uma monarchia grandiosa. A proposta abjecta foi desprezada em Madrid. D. João IV, dando assim o pulso ao exame do poderoso inimigo, revelava quão depauperado lhe girava o sangue nas veias. E pelo que respeita ao jesuita medianeiro de tamanha protervia, teve de fugir de Roma onde o espiavam os sicarios do embaixador hespanhol. Judiciosamente escreve o sr. Manuel Pinheiro Chagas, relatando os pormenores d'este vilipendio: «Lembraremos ao leitor que n'isto se prova que se, depois da restauração de Portugal, houve algum traidor que, por interesses pessoaes ou de familia, projectasse vender á Hespanha a independencia da patria, esse traidor foi... D. João IV.»Historia de Portugal, tomo 6, pagina 106 e seguintes.Nota 19.ªNarra fr. Claudio da Conceição, nomeando os filhos de D. João IV: «Teve fóra do matrimonio a senhora D. Maria, nascida a 31 de abril de 1644, de uma senhora limpa de sangue, que entrando depois no convento de Chellas professou a vida religiosa. Educada em casa do secretario de Estado Antonio de Cavide, entrou a 25 de março de 1650 no Mosteiro de Sancta Thereza de Jesus, das Carmelitas Descalças de Carnide, por ordem de el-rei seu pae areceber as instrucções da Madre Michaella Margarida de Sancta Anna, filha do imperador Mathias, e parenta do mesmo senhor rei D. João IV,16fundadora do dito mosteiro de Carnide em 1612, sendo vinte e dois annos successivos priora. Estimou el-rei muito esta filha, o que assás prova a seguinte carta que lhe escreveu antes de morrer: «Minha filha, foi Deus servido que a primeira vez que tendes carta minha, seja despedindo-me de vós, dando-vos a minha benção acompanhada de Deus que fique comvosco, e lembrai-vos sempre de mim como eu o fio de vós. Escripta em Lisboa a 4 de novembro de 1656. Vosso pai, que fica com grande sentimento de vos não vêr.» (Traslada os legados do rei á filha; segue uma carta de D. Pedro, regente, á irmã; e prosegue na edificante biographia da virtuosa senhora). «A rainha D. Maria Francisca a foi visitar a Carnide, e lhe fez grandes honras merendando no seu apozento. A côrte lhe dava o tratamento de Alteza. Viveu sempre n'este mosteiro em habito de religiosa, ainda que era de materia mais fina. Propondo-se-lhe para esposo o duque de Cadaval com approvação regia, respondeu: que não sahiria da clausura senão em postas a tomar outro esposo, pois que já o tinha ha muito tempo»... Depois d'outros lanços assim piedosos, remata fr. Claudio: «Falleceu recebendo todos os sacramentos com summa edificação a 7 de fevereiro de 1693 quando contava quarenta e nove annos de edade»Gabinete Historico, Tomo IV, pag. 214 e seg.Da mãe de D. Maria não houve frade nem chronista que sequer nos contasse como lá se foi derretendo em lagrimas a vida da freira que o rei dera como esposa a Jesus, depois de se enfastiar d'ella como barregan.Nota 20.ª«O sr. rei D. João IV... vendo um dia meu pai que tinha a honra de ser seu trinchante mor com um Porpoint guarnecido com uma rendilha de prata, lhe disse:vindes mui bizarro D. Antonio!; mas nunca fui tão rico que podesse ter outro similhante. E assim era, porque sempre se vestiu de estamenha... E mandou que nenhum (vassallo) viesse ao Paço com os seus cabellos, por que elle os não conservava, e todos se tosquiaram».Carta de Luiz da Cunha ao Principe D. José.Nota 21.ªEsta allusão epigrammatica do christão novo requer illucidação necessaria aos leitores descuriosos de genealogias. No reinado d'el-rei D. Manoel veio a Portugal um rico mercador genovez,chamado João Francisco de Lafeta ou Lafetá. De amores com uma fidalga de nome Guiomar Freire, teve um filho illegitimo, e tambem teve uma cutilada legitima na cara, com que o brindou um parente da senhora namorada, e teve ainda outro filho de uma Judia fanqueira de Setubal, chamada Branca de Castro. É indeciso nos linhagistas se o successor de João Francisco era filho da fidalga, se da judia. É certo que o seu successor Agostinho de Lafeta administrou o vinculo que seu pai instituira, foi trinchante de el-rei D. João III, e casou com D. Maria de Tavora, filha de Ruy Lourenço de Tavora. Deste matrimonio nasceram dois filhos: João e Cosme. O primeiro casou com D. Antonia de Mello filha de Ruy Gomes de Azevedo, alcaide mor de Alemquer; o segundo casou na India com a filha de um advogado que lá chamavam por alcunha oconde da barba rapada. Os filhos d'este assignaram-se Tavoras, e os do segundo Lafetas. Emquanto o pae, cazando segunda vez com uma filha de Manuel de Mello, eivava de judaismo e melhor sangue ostrogodo, um filho de João Lafeta cazava com D. Maria de Vilhena, filha de Henriques Jacques de Magalhães, e D. Violante de Vilhena. D'este consorcio, procederam Christovão de Lafeta, que casou com sua prima D. Brites da Silva, filha do primeiro visconde de Fonte Arcada, e D. Violante de Vilhena que casou com Gonçalo Garcez Palha. D'estas ultimas allianças por diante, o appellido Lafeta é absorvido nos mais illustres das raças historicas, por modo que, no dizer de um genealogico de inexoravel critica, apenas haverá em Portugal trez familias tradicionaes que não estejam inquinadas do judaismo dos Lafetas genovezes, e da Branca de Castro, fanqueira de Setubal. Que lhes preste.Nota 22.ª«Bem poderia referir outras muitas precauções que este principe (D. João IV) tomava para não ser enganado pelos seus ministros; e comtudo, conhecendo elle a innocencia de Francisco de Lucena, seu secretario de estado, o deixou condemnar á morte, porque os fidalgos o fizeram passar por traidor, não podendo soffrer que elle lhe aconselhasse que lhes não devia alguma obrigação em lhe porem a côroa na cabeça, pois lhe era devida, afim de que se não julgassem credores de grandes recompensas. Os descendentes d'este ministro justificaram depois de muitos annos a sua innocencia, e sua magestade lhes veiu a restituir as honras e os bens, em que eu tive alguma parte estando em Madrid.»Carta de D. Luiz da Cunha ao Principe D. José.Esta carta muito notavel e pouco lida, publicou-a Antonio Lourenço Caminha em 1821, sob o titulo:Obras ineditas do grande exemplar da sciencia do estado D. Luiz da Cunha, etc.Observa avisadamente o erudito sr. Innocencio Francisco da Silva queescaparam na edição numerosissimos erros que ás vezes transtornam o sentido e intelligencia dos periodos. É exactissima a censura. Possuo a mesmacarta manuscripta, trasladada pelo academico Foyos, e que envergonha as incurias do editor da impressa.O que raras pessoas terão visto sem lhe saberem a procedencia, é a peça explicativa do odio dos fidalgos, que acclamaram D. João IV, ao secretario de estado Francisco de Lucena. Encontrei-a entre os manuscriptos ineditos do chantre Manuel Severim de Faria (1583-1655). Intitula-se:Carta de parabens, advertencias, avisos e conselhos que se suppõem e figura escrever do outro mundo o duque de Bragança D. Theodosio a seu filho o sr. D. João o Quarto, logo depois que pela lealdade da patria foi acclamado legitimo Senhor e Rey de Portugal. É attribuida a Francisco de Lucena, e escripta em 1641. Trasladamos os conselhos do pae ao filho, ou antes do ministro ao principe: «...Resta que vos façaes tambem temer e respeitar dos maiores fidalgos, que, como vos viram nascer vassallo, e elles, por portuguezes, são invejosos e soberbos, mais com rigor e medo se sujeitam que com amor e brandura; e assim a vossa affabilidade com que os trataes, a vossa facilidade com que os admittis e ouvis, a confiança com que de ordinario comeis perante elles, o trage inferior de que, por dardes exemplo, vos vestis, tudo isto os faz a elles peores, mais ousados, menos comedidos. Filho, não é ainda tempo d'isto; virá ao diante, em que isto se vos estimará muito. Agora, o que n'este particular fazeis, tão fóra está de se vos gabar e estimar, que antes lhes serve de o motejarem uns com outros, attribuindo tudo a faltas naturaes, e que são avisos divinos, ao diante lhe virão assim a parecer.«Até agora, filho, lidastes com vassallos que sempre foram vossos; agora lidaes com os que ha só dois mezes que o são. Não vos hajais com elles como se sempre o foram, comei raras vezes em publico para que se estime quando o fizerdes. Ouvi a todos que quizerem requerer deante de vós; mas não converseis com nenhum, para que, quando n'esta materia lhes fizerdes algum favor, o tenham por mercê.«Olhai, Filho, que, como muitos d'esses fidalgos riram e folgaram comvosco sendo duque, com pouco azo que lhes deis, vos perderão o respeito devido como a Rey; e, se assim fôr, dai-vos por acabado, porque a principal guarda das coroas e sceptros é o respeito... A este fim vos digo que n'estes principios não soffrais nem dissimuleis aos fidalgos mais poderosos serem desmandados contra a vossa real pessoa, e contra a lealdade que vos devem: lembre-vos que o dissimular estes crimes é dar ousadia a maiores.«Para os enfreardes ponde ferro em fogo em quem o merecer, e com o castigo de dois se emendarão os mais, e com o dissimulardes com elles todos se acabarão de damnar, porque os mais não vos hão de guardar e defender; e mais certo é que vos hão de vender e trahir, e, se poderem, matar».Assim predispunha o secretario das mercês o animo do reicontra os conjurados de 1641; e relevantemente se mostrou serviçal, collaborando com o carrasco, pois que emprestou para a degollação dos fidalgos o cutello que trouxera de Madrid, por haver sido com elle decapitado D. Rodrigo Calderon.Nota 23.ªIsto de ser agarrado pelas costas o duque de Vizeu, quando o Luiz XI portuguez o esfaqueou, não se vislumbra da historia, porque a historia dos governos monarchicos tem sempre sido escripta de joelhos sobre os estrados dos thronos. De feito, D. João II, quando resolveu matar o duque guarda-roupa das casas de Nuno da Cunha em Setubal, convidou trez homenspara testemunhasdo feito: Diogo de Azambuja, Lopo Mendes do Rio, e D. Pedro d'Eça, alcaide de Moura. Este ultimo era um dos mais valentes homens de Portugal. D'elle diz Diogo de Paiva de Andrade, nas suasMemorias:foy um Fidalgo a quem a natureza dotou de muito animo e grandes forças, e por isto El-Rey D. João II o escolheu quando quiz matar a D. Diogo, Duque de Vizeu a quem abraçou por detraz. Eis aqui a singular missão datestemunha!E, como prova da coragem de D. Pedro d'Eça e dos medianos espiritos do covarde matador do duque, refere Diogo de Paiva um bonito lance: Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus (do alcaide) foram-se dois irmãos do morto queixar a El-Rey, e disseram-lhe que D. Pedro lh'o mandára. Pelo que, El-Rey o mandou vir á côrte, e esteve n'ella mais de dois annos, posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro, disse a El-Rey, que pois sua Alteza não queria crêr que elle não tinha culpa na morte do homem, e os que o accusavam eram dois, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos, para assim se purificar: do que, agastando-se El-Rey lhe disse: «que tomára elle ser um dos dois». E D. Pedro lhe respondeu: «Não fôra Vossa Alteza meu Rey, e fosse com elles o terceiro».Nota 24.ªNão é impertinente a noticia do processo de empeçonhar as balas. Acceitemol-a do livro inedito de um Mestre de Campo do exercito de D. Pedro II: «Tomarão licoctomum, que he outra casta de aconito ou de Rozalgar (não alteramos a orthographia do texto) e Napello, dos quais espremerão o sumo com hua empressa, que se receberá em hua vazilha de vidro, precatando-se de não lhe toccar com as mãos, a qual vazilha será exposta ao sol no mez de julho por espaço de 30 dias, recolhendo-a todas as tardes ao por do sol em hua cestinha coberta e guardada em logar calido, izento de todo cheiro forte, como de alhos ou cebollas, por os tais lhe embotarem a força; e ó outro dia ao sair do sol se torne a expor n'elle a vazilha até que osumo se engrosse a modo de unguento que será pouco mais ou menos ao cabo do tempo dito; advertindo que na madrugada, antes que se tire a vazilha do cesto, para a expôr ao sol, hão de descobrir o sesto desviando-a d'elle, e o deixarão assim aberto por espaço de boa meia hora, antes de pegar na vazilha, e á tarde, antes de a arrecadar no sesto a cobriram com alguma cousa, o corpo mais desviado que poder ser. Despois tomaram trez ou quatro Rubetos que são sapos de sylvas grandes, e cheios de nodoas de varias côres, muito peçonhentos, e tanto mais o serão quando sejam apanhados em logares sombrios e frios como nos paues cheios de palha tabua. Estes serão metidos em uma vasilha de cobre de fundo redondo, capaz de os receber commodamente, com sua tapadoura que venha justamente com a boca da vazilha, que terá uma azêlha por cima pela qual poderá entrar a ponta de hua aste para delonge a poderem descobrir; ao lado da vazilha hum pouco por cima do seu fundo haverá huas cavas em forma de hua meia laranja, situado em modo de Bebedouros de Gayolas, e no meio do fundo da vazilha haverá hua fença ou abertura estreita que dará em hum segundo fundo, do mesmo metal, a modo de funil. As ditas covas a modo de Bebedouros, se encherão de oleo de Escorpião; feito o que, os sapos se meterão na vazilha que será bem e justamente coberta com sua tapadoura e assentada sobre uma trenpe, em modo que a ponta do funil do segundo fundo dê em a bocca de hua garrafa de vidro, assentada em hua tigella de agua fria, e a coisa assim desposta se fará hua cama em redondo de ladrilhos da altura da trempe que a cercará toda ao redor, na largura de dois palmos até dois palmos e meio, em cima da qual se accenderá um fogo de roda brando e moderado de carvoens afastados da vazilha um palmo, mediante o que a vazilha irá aquecendo pouco e pouco, dentro da qual os sapos sentindo a quentura não acostumada, de sequiosos e suados, arremetterão a beber o olio de Escorpião dos Bebedouros, que lhes fará bomitar toda a peçonha que dentro em si tiverem, a qual, cahindo pela abertura do fundo da vazilha no segundo fundo do funil, e deste á garrafa, continuará o fogo, no mesmo estado por espaço de 4 a 5 horas, e assim o deixarão athe o outro dia, em o qual, querendo abrir a vazilha, terão em sentido virar as costas da parte do vento, e com hua vara ou aste hum pouco comprida, que passará pela azelha da tapadoura, desviando se o corpo da vazilha, o mais que poder, a destaparão e deixarão assim aberta por espaço de outras 4 ou 5 horas, ao cabo das quaes seguramente se poderão chegar á vazilha, e recolher o veneno da garrafa, ao qual se poderá ajuntar o sumo das ervas dos aconitos dantes exprimidos, e juntamente anemona, sicuta, meimendro, mendragora, malla insana, berengella, pés de ganços de todas as castas, ranunculos, erva Moura, arsenico branco, e cerebros de rato e de gato».É de recear que o leitor desconfie da capacidade d'este sugeito que mandava hervar as balas com succos de pés de ganço e miolos de gato e rato! Saiba, pois, que o auctor da receita foi um militar de elevada patente que exerceu em Portugal no reinado de D. Pedro II cargos importantissimos na guerra. Possuo com grande estimação dois manuscriptos ineditos de Miguel de Lescolle, que assim se chamava o Mestre de Campo. Um, é este de que trasladamos o processo de hervar as balas, e intitula-se: Recopillação de alguns fogos artificiaes, para offensa e defensa de praças, e embarcações, e de alguns outros para as alegrias e recreaçoens feitos pelo Mestre de Campo Miguel de Lescolle. O outro manuscripto, de primoroso calligrapho do começo do seculo XVIII, é:Liçoens de Artelharia recopilladas e feitas por Miguel de Lescolle, Mestre de Campo intertenido na Provincia de Entre Douro e Minho, a cujo cargo está a conservação do trem de Artelharia, Armas e Muniçoens d'ella, e as fortificaçoens das Praças de sua fronteira por mandado do snr. Marquez das Minas, dos Conselhos de Sua Alteza, Mestre de Campo general, e Governador das Armas da mesma provincia.Um homem d'este vulto, se acreditava na peçonha dos pés de ganço e do cerebro dos ratos, é porque realmente, n'aquelles dias, a toxicologia era mais investigada que hoje.NOTA FINALAs pessoas lidas na historia patria estão affeitas a encontrar, n'este caso da tentativa de morte contra D. João IV, que houve um denunciante de Domingos Leite, chamadoManoel da Cunha, e nãoRoque da Cunha, como eu o denomino. Arguem-me pois de inventar nomes desnecessarios á novella com aggravo da historia. É injustiça que me fazem. Todos os historiadores que o leitor conhece o enganaram involuntariamente ou por negligencia de quem fiou de mais nos seus antecessores e guias. Tenho presentes o conde da Ericeira, (Portugal restaurado) Fr. Claudio da Conceição, (Gabinete historico) D. Antonio Caetano de Sousa (Historia Genealogica da Casa Real Portugueza), Roque Ferreira Lobo, (Historia da acclamação de D. João IV) Ferdinand Denis, (Portugal Pittoresco) João Baptista de Castro, (Mappa de Portugal) o sr. Viale, (Resumo da historia de Portugal) e melhor que todos o sr. Manuel Pinheiro Chagas, (Historia de Portugal). Dizem todos invariavelmente que o delactor de Domingos Leite eraManuel Roque, porque todos invariavelmente se guiaram pelo conde da Ericeira, que escrevia 32 annos depois do successo. O mais curial seria averiguar nos escriptores coevos, e nomeadamente as relações escriptas no mesmo anno de 1647. O investigador laborioso encontraria, ácerca d'este assumpto, afóra a citada noticia deFr. Francisco Brandãoimpressa em 1647, duas mais do mesmo anno, uma deAntonio de Sousa de Macedo, e outra deD. FranciscoManuel de Mello. São duas peças declamatorias: rethorica em barda, e muita pobresa de particularidades. O documento mais precioso é do chronista-mór do reino. O conde da Ericeira não o leu; que farte revela ignorancia dos elementos que o deviam esclarecer. Diz que Domingos Leite Pereira era de Lisboa, e de familia distincta. Quanto a ser de Lisboa, claramente contradiz a affirmativa do escriptor coetaneo que o faz de Guimarães n'este trecho da sua relação:Foi o executor da maquina... Domingos Leite Pereira indigno de haver nascido na nobre e leal villa de Guimarães, que sempre abominará tão monstruoso aborto. E em outra passagem, já referida no texto, nos conta que Domingos Leite, da primeira vez que viera de Castella a Lisboa, fôra procurado em Guimarães. Pelo que respeita ao nome do traidor, em varios lanços o nomeiaRoque da Cunha, e em um d'elles, por signál, a critica de Brandão desmerece grandemente dos creditos alcançados n'outros escriptos. Senão, vejam:Dia de S. Roque, a 21 de agosto, se executou a sentença no delinquente, e o ser Roque da Cunha o companheiro que o entregou á justiça, faz crivel que por ser este Sancto um dos tutelares do reino, escolhido pelo sr. rei D. João III, de que na capella real ha particular confraria, accudiu á vingança merecida contra os legitimos reis d'esta corôa.FIM DAS NOTAS
Diogo Soares, previsto e diligentissimo em proporcionar aos assassinos enviados os meios de facil fugida, mandara uma chalupa do porto do Ferrol para os receber na barra de Lisboa; mas o portador, que por terra trouxera o aviso ao mercador Simão Serges, não o encontrando no dia 19 de junho, segundo as ordens que trazia, foi na noite de 20 a Passo d'Arcos fazer signal de erguerem ancora aos da chalupa. Simão Serges, áquella hora em que o buscavam, temeroso do resultado da tentativa, passara o Tejo, e esperava em Aldeia Gallega a noticia das occorrencias. O manuscripto, que nos esclarece as escuridades da historia, diz a tal respeito: «N'este tempo estava Roque da Cunha com os cavallos esperando-o ao Postigo da Graça, onde foi ter com elle Domingos Leite, e que lhe contou o que passára;e é de saber que na mesma tarde foi visto em Passo d'Arcos um barco longo de Castella, e que havendo descuido em ir a elle de noute, fugiu este, e desappareceu, e os dois foram por terra.»
Ao mesmo tempo, Bernardo, que passára a noite e o dia em oração, quando viu terminadas as festas do Triumpho, e nenhum caso extraordinario se contava em Lisboa, nem voz humana proferia o nome de seu amo, deu fervorosas graças ao Senhor, porque attendera ás suas preces.
O apparecimento de Roque e Domingos Leite em Madrid foi acolhido com frieza dos fidalgos portuguezes e dos ministros de Filippe IV. Diogo Soares, rindo da historia pueril da visão da menina que paralisára o braço do pai, disse que os covardes, antes de se affrontarem com emprezas grandes, deviam medir a sua altura pela das meninas que lhes podessem apparecer na hora da prova. Roque da Cunha transmittiu a phrase, qual a recebêra, a Domingos Leite.
O frustrado regicida volvêra-se á vida solitaria com a sua dôr exacerbada pela nota de covarde e digno marido da meretriz Traga-malhas. Quem mais lhe carregava a mão no peccado da mulher era D. Vicencia, filha da Barbara da rua dos Cabides. Insidiosamente lhe escreviam satyras celebrando-lhe a façanhosa jornada a Lisboa, e offerecendo-lhe outra commenda para se ir a Pariz matar Luiz XIV, e duas commendas para ir ao inferno matar o diabo.
Na correnteza d'estas coisas, fallecêra em Madrid um padre da companhia de Jesus, a quem D. João IV estipendiara grandiosamente na espionagem dos planos de guerra. Esta pêrda contrariava o rei, e mais ainda oimpedimento de substituir sem dilação a sagacidade do jesuita, que sahira bem amestrado do gyneceu de padre Antonio Vieira.
Arrolando os portuguezes mais infamados que demoravam em Hespanha, D. João lembrou-se de Roque da Cunha. Conhecia-o pela falsa delação de Mathias de Albuquerque, e por homicidios que a obscuridade protegera, como o do pai de Miguel de Vasconcellos, divulgado em 1640, e indultado pela politica. E, bem que soubesse da sua parceria com Domingos Leite no assassinio do padre Luiz, intendêra o rei que o sicario, vendido ao marido de Maria Isabel, estava em almoeda para quem o quizesse comprar.
No proposito de chatinal-o, enviou Gaspar de Faria Severim a Madrid pessoa idonea, e conhecida de Roque da Cunha. Era quasi sempre um clerigo ou frade de inculcada virtude e erudição theologica, por parte das duas nações irreconciliaveis, o espia ou o cathequista d'essas personagens indispensaveis na diplomacia d'aquelles tempos, assim como o algoz era o artigo fundamental da arte de reinar. Apenas restaurado o reino, fôra fr. Diogo Seyner espião de Castella em Portugal, e tambem um padre Azevedo, que acabou envenenado em Angola. Em compensação, as denuncias mais importantes que vinham de Hespanha, quanto ás intenções de invasão, procediam da companhia de Jesus, pois que os Philippes, com quanto patricios do sancto fundador da ordem, nunca se avençaram politicamente com a theocracia da omnipotente roupêta. Ainda n'aquelle anno de 1647, a Hespanha festejava a perfida passagem do jesuita flamengo, o padre Cosmander, que vestiu as insignias de sargento-mór de batalha, depois de as terjá usado no exercito portuguez. Este sacerdote, que timbrava de engenheiro, viria outra vez ajudar os nossos a repellir os estrangeiros, se não morresse debaixo das baterias portuguezas; no entanto, emquanto viveu, deu de si boa conta, espiando as duas nações, visto que nenhuma era sua.
Com este se intendêra o padre portuguez, e ambos com Roque da Cunha.
A proposta era em termos de seduzir um aventureiro com dous terços menos da perversidade de Roque. D. João IV enviava-lhe o perdão do crime de homicidio na pessoa do padre Luiz, aproveitavel quando a sua continuação em Castella fosse desnecessaria, e elle quizesse voltar ao reino. Enviava-lhe como comêço de gratificação trez mil cruzados, e promessa de ao diante o ir premiando com dinheiro á medida dos seus serviços e habilidade nas pesquisas. Quanto ao futuro, quando Roque se repatriasse perdoado, despachal-o-hia em pingue emprego na caza da India e Mina.
Seduziram-no; jactavam-se os dois jesuitas de o terem seduzido; mas a verdade é que o infame não deu ansa a que os seductores provassem os dotes de corrupção: rendeu-se logo.
Dias depois, Roque da Cunha, ao despedir-se do agente portuguez, disse-lhe com mysterioso recato:
—Diga V. Reverencia a el-rei nosso Senhor que eu só entrarei em Portugal, quando lá fôr para o salvar da morte.
O padre não obteve illucidações d'estas vagas palavras.
Assim as revelou a D. João IV, que lhes deu a maxima ponderação, sem todavia suspeitar de qual dos fidalgoshomisiados poderia proceder a tentativa, se dos Mascarenhas, se dos Lencastres, se do conde de Miranda, se do conde de Figueiró, se dos Tavoras, se dos Taroucas, se de todos. De Domingos Leite Pereira não se lembrou, ou apenas se lembrava quando Maria Isabel lhe dizia:
—Vossa magestade, mais dia menos dia, acha-me assassinada por elle...
Oellesubstituia a palavra que tanto repugnava ao rei como á princeza do seu economico serralho.
Sorria-se el-rei; e por delicadeza com a dama lhe não replicava que o expatriado lhe havia dado provas de se prezar mais a si no seu orgulho do que a ella na sua belleza.
Quando Roque enviou o recado a D. João, já sabia que Domingos Leite deliberára voltar a Lisboa se não renovar a tentativa. Flagelavam-no os apodos e zombarias que secretamente lhe iam em cartas anonymas, e as censuras de Roque da Cunha, não á covardia de homem, mas á pusillanimidade de pai.
Houve horas em que o desgraçado acariciou a ideia do suicidio; porém, lá vinha a imagem da filha arrancar-lhe o veneno como lhe arrancara a cravina. N'esta reluctancia atroz, obsediou-o o pensamento de passar a Lisboa, esconder-se em caza de Bernardo, espiar a hora em que Maria Isabel estivesse com o amante, entrar de sobresalto na caza d'ella, fugir com a filha para Castella, passar-se a Amsterdão, buscando o amparo de Francisco Mendes Nobre.
Revelou o alvitre a Roque da Cunha, que lhe respondeu:
—A final, vejo que não és marido, nem homem: és pai.
—Queres dizer que não sou honrado? —acudiu Domingos Leite.
—Não... mas ha quem duvide que o sejas...
—Se o duvidas tu, dize-o que eu a ti provarei que sou homem; e, se ha covardes que façam de ti pelourinho de injurias, que venham depois de ti ou junctamente.
—Os meus cincoenta annos perdoam os teus vinte e seis—disse serenamente Roque—Entretanto bom é que saibas, amigo Leite, que nenhum homem, antes de ti, me insultou assim, nem depois de ti receio que me insulte. Se não estivessemos sós, dar-me-hías uma satisfação. Assim... ninguem irá dizer que o matador do amante de certa dama ouviu tamanha vilta do marido de Maria Isabel. Estás perdoado, porque és fraco, fraco do coração onde tens muitas lagrimas e pouco sangue. Pagas mal a quem duas vezes expoz por ti a vida, e não se esquiva de a expor terceira vez.
—Não exporás, Roque. Não ha para quê. O meu intento já sabes que não é matar o rei; é resgatar minha filha.
—E, se te descobrirem, se te agarrarem...
—Serei julgado como assassino, sentenciado á morte, e morrerei, sem denunciar que o matador foste tu.
—Mercês... A justiça sabe quem matou, provavelmente... A minha questão é outra, Domingos Leite. Eu preciso tanto como tu sahir de Hespanha. A nodoa de covardia tanto innegrece a tua reputação como a minha. Os enviados a matar D. João fomos dois: o covarde não póde ser só um. Se vaes a Lisboa, irei comtigo: dar-me-has agazalho no teu escondedouro, e eu te ensinarei modo de passarmos a Hollanda, com tuafilha, sem tornarmos a Castella, onde o desprezo pode ter as consequencias do odio, e o veneno que estava para hervar a bala do duque de Bragança servir para nós. Se queres roubar a pequena á mãe, eu te ajudarei. Os estorvos que t'o empecerem, derrubal-os-hei. Se quizeres que eu estrangule os gritos no pescoço de Maria Isabel em quanto foges com tua filha, ninguem lhe ouvirá um soluço. Se nada quizeres de mim, ao menos dá-me em Lisboa um valhacoito d'onde eu possa arranjar passagem para onde quer que seja. Que mal te faz que eu vá comtigo?
—Vem, meu amigo, que eu estou tão longe de t'o impedir, que t'o agradeço—respondeu Domingos Leite abraçando-o extremosamente.
Accordaram na partida para 18 de julho.
Communicou Roque á Junta dos fidalgos, que Domingos Leite resolvêra voltar a Lisboa e matar o rei, face a face, ou á traição, consoante se lhe occasionasse o ensejo; mas tirou a partido que ninguem se intenderia com elle sobre tal determinação, porque a sua honra se queria desligada de compromissos politicos, visto que se desaffrontava a si e não a Filippe IV nem aos fidalgos de sua parcialidade.
Riram da honra do plebeu nobilitado com a commenda de Castella; mas acceitaram a clausula como coisa de todo o ponto indifferente. A Juncta chamada da Inconfidencia deu dois mil cruzados ao interprete de Domingos Leite e renovou as ordens ao marquez de Molinguen. O pai de Angela nem d'esta feita nem da outra soubera que Roque da Cunha recebêra dinheiro; e, por que lh'o via em abundancia, suppunha-lh'o de seus salarios e liberalidades de D. Vicencia.
No dia 18 de julho sahiram de Madrid, caminho da fronteira.
Escutemos o chronista-mór do reino, fr. Francisco Brandão: «Ha muito para reparar na força do destino que chamava Domingos Leite... Depois que sahiu de Madrid entrou logo em desconfiança do companheiro, presumindo que o havia de entregar, como por vezes lhe disse no caminho, declarando que sonhára uma d'aquellas noites que elle o entregava, e se via mandar fazer em quartos; e chegou a tanto a suspeita que tinha que, uma das vezes, se poz de joelhos diante de Roque da Cunha, e, abraçando-o pelos pés, lhe rogou encarecidamente o não quizesse entregar á justiça. Estando em Badajoz na estalagem, entrou uma menina de pouca edade, e pondo os olhos em ambos, lhes disse:Uno de vos outros és traidor. E apontando em particular para o Cunha, disse:Tu tienes ojos de traidor!... Reparou logo o Leite, nas palavras, e com o annuncio d'ella renovou ao companheiro a presumpção que d'elle trazia, e continuou com a supplica de que lhe fosse fiel. Grande cegueira—prosegue Brandão—que, tendo as presumpções tão vivas, não melhorasse partido, sendo-lhe facil!..»10
Se prestamos mediana fé á perspicacia da mocinha de Badajoz que lia a traição nos olhos de Roque da Cunha, facilmente cremos que o traidor, a relanços, se temeu das suspeitas de Domingos Leite, em termos de velar as noites com medo do punhal e da cravina que o companheiro cuidadosamente aconchegava do leito.
Ás vezes era Roque da Cunha quem se prostrava aos pés da victima exorando-lhe que não suspeitasse de sua lealdade, ou então o repulsasse de si como ao mais abjecto scelerado. «Grandes foram as cautelas de Cunha—confirma fr. Francisco Brandão—para assegurar bom animo ao companheiro, receando que lhe fugisse a preza, e não quizesse entrar em Portugal, ou depois de entrado, se voltasse para Castella sem passar a Lisboa; e não foram de menos consideração as cautelas que teve para se assegurar d'elle, receoso de que o matasse com as suspeitas.11
Á quem de Badajoz sahiram da estrada real; e por veredas desfrequentadas e conhecidas de Roque, venceram grande espaço, para se desencontrarem das tropas portuguezas, em um dia e noite. No termo da violenta jornada de oitenta e cinco leguas em dez dias, o cavallo de Domingos Leite abrira dos peitos, e na aldeia, onde se albergaram, não houve modo de allugar cavalgadura. Notou Roque da Cunha ao companheiro que o presistirem alli, sem esperanças de remedio, era perder tempo, e talvez perigoso; que elle iria adiante agenciar cavallo nos Pegoens, e lh'o enviaria, a não querer o seu amigo ir n'essa diligencia, e enviar-lh'o.
—E para que vá mais leve, e menos sugeito a que me roubem, fica tu com os meus alforges, onde estão quatro mil cruzados...—ajuntou Roque.
—Oh!—exclamou Domingos Leite gracejando—Ninguem dirá que vaes do desterro! Parece que chegas de governar a India! Quatro mil cruzados!...
—Ahi t'os deixo como refens...
—Mal de mim se este dinheiro fosse o abono datua lealdade, Roque! Se tens tenção de me atraiçoar, leva-o, e atraiçoa-me, para que me não taxem de ladrão quando me prenderem.
Roque fez um esgar de fingida magoa ou de terror de sua mesma ignominia. Domingos Leite interpretou a primeira supposição, e emendou as palavras duras com tocar-lhe amoravelmente no rosto, dizendo-lhe:
—É brincadeira, meu homem! Vai, leva ou deixa o dinheiro, como quizeres; manda-me o cavallo, e espera por mim na Povoa de S. Martinho, d'aqui cinco leguas. Levas-me de avanço apenas algumas horas, se ámanhã cedo me mandares o cavallo, e elle não fôr aleijado. Devo lá chegar por noite, se a estrada real estiver desembaraçada de tropa; senão terei de dar grandes voltas.
Roque abriu o alforge, contou cem mil reis e disse:
—Levo commigo este dinheiro, porque talvez tenha de comprar o teu cavallo, se m'o não quizerem alugar; e quem sabe se o meu tambem vai a terra, que hontem já o não sentia entre os acicates...
—Não deixes o dinheiro!—instou Leite Pereira.
—Já te disse que receio ser roubado. Que me faz deixal-o ou leval-o? Adeus, até ámanhã.
Abraçaram-se. Domingos Leite olhou-o muito de fito, e disse-lhe:
—Não me vendas... visto que estás rico!
Roque sahiu de arremesso, cavalgou, e esporeou a desapoderado galope, caminho dos Pegoens. «Não me vendas...» dissera o desgraçado. Assizadamente escrevia depois o frade:Ha muito para reparar na força do destino que o chamava...
Decorrêra o restante d'aquelle dia 28 de julho, e parte do seguinte sem novas de Roque da Cunha. Cerca do meio dia, chegou um guia, portador de um bilhete para Domingos Leite. Dizia-lhe o fementido que, não encontrando cavallo que comprasse ou alugasse em Gaifões, passara a Rilvas, onde achara um sendeiro estropiado, que alugou para si, e lhe enviava a elle o cavallo para que a jornada lhe fosse menos enfadonha.
Domingos Leite sentiu-se captivo d'esta deferencia; mas, apenas montou, conheceu que o cavallo estava por tanta maneira escalavrado que só muito a passo alcançaria vencer as seis leguas, que o distanciavam da Povoa de D. Martinho, até á noute do dia seguinte.O arrieiro que o guiava recommendou-lhe pouca espora, se queria chegar com o cavallo vivo á Povoa.
—Não havia em Rilvas uma besta que se vendesse?—perguntou Domingos Leite.
—Havia um cavallo de comer tres leguas por hora, que se vendia por trinta cruzados.
—Porque o não disseste á pessoa que te mandou com este?
—Quem me mandou foi o estalajadeiro, e nada mais sei, nem fallei com essa pessoa que vossemecê diz.
O cavallo elogiado pelo arrieiro comprara-o Roque da Cunha, e n'elle cavalgára caminho de Lisboa, deixando tractada com o estalajadeiro a remessa do seu e o bilhete á aldeia onde ficára o seu companheiro.
Dizendo Domingos Leite ao criado que talvez comprasse em Rilvas a cavalgadura, observou-lhe o arrieiro que tinha ordem de o guiar por fora dos povoados, sem saber a razão porquê.
—Andam soldados na estrada real?—perguntou Leite.
—Que eu saiba, não, senhor.
Reparou na precaução o cavalleiro; e não viu a voragem. Cada vez nos encostamos com melhor juizo ao dizer de fr. Francisco Brandão:Ha muito para reparar na força do destino que o chamava.
Suggeriu-se-lhe de novo o pensamento da perfidia; quedou-se alguns segundos luctando com o palpite de retroceder; nada obstante, seguiu avante, dizendo entre si:
—Que pensaria de mim Roque da Cunha se está innocente nas minhas suspeitas, e eu me voltasse a Hespanha com o seu dinheiro!...
Quando elle assim lidava em conjecturas que se destruiam, já Roque da Cunha estava em Lisboa, e no Paço da Ribeira. Pediu ao corregedor Pero Fernandes Monteiro, que sahia da corte, o apresentasse a el-rei para negocio da maior urgencia. D. João IV, ouvindo o nome do seu recente espia em Madrid, e recordando o recado de Roque da Cunha, transmittido pelo jesuita, quanto a salvar-lhe a vida, teve grande alvoroço com a nova, e mandou-o entrar. Poz-se em joelhos o delactor, começando por implorar o perdão de seus delictos, e confessando que tivera parte em uma tentativa contra a vida de sua magestade; porém, accrescentava que se el-rei, seu senhor, lhe não perdoasse, morreria contente, levando a Deus sua alma purificada de remorsos.
Sorriu D. João IV dos remorsos de Roque da Cunha, e disse gravemente:
—Estás perdoado. Dize o que tens a dizer, e levanta-te.
Referiu Roque a tentativa de regicidio em 20 de junho, com os pormenores sabidos do leitor, e aggravou o crime de Domingos Leite com a reincidencia no intento que o trazia a Portugal.
Escutou-o D. João com torvo aspecto. Turturava-o a situação de Maria Isabel. Passou-lhe talvez no espirito o pensamento de encarregar o infame delactor de matar, em segredo, Domingos Leite, e salvar assim a viuva e a filha da ignominia que do alto da forca baixaria sobre ellas. Mas não era Roque o homem amoldado á observancia do mysterio que tal acto requeria.
Mandou recolher o espia a um quarto baixo do paço, e ordenou que viessem á sua presença o fidalgomais possante de sua côrte, Luiz da Silva Telles, e outro não menos destemido D. Francisco de Faro e Noronha, conde de Odemira. Contou-lhes o que passára com Roque da Cunha, e enviou-os a prender Domingos Leite Pereira onde o denunciante os conduzisse.
Ao mesmo tempo, ordenava a Antonio Cavide que sem perda de tempo fizesse entrar em uma caleça Maria Isabel e sua filha, e elle mesmo as conduzisse a um mosteiro de Tras-os-Montes, á escolha do seu secretario; que nem palavra lhes dissesse a respeito de Domingos Leite, e se desculpasse com a ignorancia dos motivos que el-rei tivera para dar semelhante ordem.
Maria Isabel e Angela colhiam, ao empardecer do dia, nos canteiros do seu jardim de Alcantara, um ramilhete de flores, quando o escudeiro annunciou a chegada do secretario de estado, e a recommendação de se apressar S. Senhoria a recebel-o.
Assustou-se a dama. Sempre que este homem a procurava soavam-lhe rebates de medo no inquieto coração. Tinham-lhe dito que Cavide lisongeava o rei, alcofando-lhe novas amantes quando o sentia fatigado das antigas. Esta seria a causa da repugnancia. Angela, essa então odiava-o de instincto, sem saber precisar aquelle rancor tão desnatural em sua edade.
O estranho aspeito de Cavide incutia maior temor em Maria Isabel.
—Minha senhora—disse elle entre melancolico e solemne—ordena el-rei, meu amo e senhor, que vossa senhoria e sua filha se aprestem activamente para ao romper da manhã sahirem de Lisboa...
—Para onde?!—interrompeu Maria Isabel.
—Para um mosteiro na provincia de Traz-os-Montes.
—Mosteiro!...
—Sim, senhora minha.
—Não quero!—bradou a dama.
Sorriu-se o fidalgo, e disse:
—Quer el-rei, nosso senhor.
—Mas que fiz eu? por que me manda el-rei para um convento?
—Ignoro. Segredos de sua magestade. Não discutamos inutilmente: é sacrilegio duvidar da prudencia de sua magestade nas ordens que se dignou transmittir-lhe. Senhora D. Maria Isabel, ás tres horas da manhã está o meu coche á porta de vossa senhoria, e fora de portas estará a caleça que nos hade levar onde el-rei ordena. Não posso deter-me, salvo se tem ordens a dar-me...
A esposa de Domingos Leite abraçou-se na filha em pranto desfeito, ao passo que o secretario se retirava a passo magestoso, dignando-se saudar d'entre o reposteiro a senhora que não o via.
Quando ella ás onze horas d'aquella noite de 30 de julho enfardelava com as lacrimosas criadas os seus fatos e de sua filha nos bahús, entrava Domingos Leite Pereira na Povoa de S. Martinho, áquem do Tejo, trez leguas distante de Lisboa.
Conforme a senha concertada, deu trez pancadas na porta da estalagem com a coronha da cravina. Desceu Roque da Cunha embrulhado em um gibão e em menores, affectando sahir da cama. Abriu a porta mansamente, e disse:
—Eu já não te esperava...
—Tambem eu cuidei que não chegaria hoje... O teu cavallo vai fazer companhia ao meu na immortalidadedas cavalgaduras heroicas e pôdres... Quem está por aqui na locanda?
—Ninguem afora um ou dois vilões desconhecidos. Dá cá as redeas, que eu recolho o cavallo.
E dizendo, tirou pela besta, afim de distancear o coldre das pistolas do alcance de Domingos Leite, e servir-se d'ellas em conjuntura apertada.
Seguia Domingos Leite o cavallo; e, no momento de entrar na cavallariça, frouxamente allumiada, sentiu-se agarrado de sobresalto. Eram os braços de ferro de Luiz Telles que o cingiam do peito ás costas, emquanto o conde de Odemira lhe arrancava das mãos a caravina.
Leite nem levemente escabujou nas garras dos dois fidalgos. Cravou os olhos no rosto de Roque da Cunha, e disse:
—Agradeço-te esta morte, ó infame. Todo o infeliz que chegou a conhecer n'este mundo um homem como tu, deve desejar morrer. Podem largar-me, que eu não lhes fujo nem lhes resisto, sr. Luiz Telles e sr. conde.
D'ahi a momentos, á porta da estalagem chegava uma escolta de paisanos armados. Domingos Leite foi conduzido ao centro da escolta pelo conde de Odemira, que, voltado ao preso, disse:
—Se tentar fugir, sr. Leite, é espingardeado.
E com grande silencio o levaram a Lisboa, diz o manuscripto.
Silencio comprehensivel! Os dois fidalgos que, por ordem de el-rei, o apertaram nas roscas de aço dos seus musculos, sabiam que a mulher d'aquelle homem, inevitavelmente levado ao patibulo, era amante de D. João IV. A sua abjecta mensagem de esbirros ainda lhes consentiaque sentissem o opprobrio d'ella. Roque, na saga da escolta, não podemos, não poderá ninguem esgaravatar que herpes lhe mordiam a consciencia. Homens assim nem o Creador sabe decifrar o enigma que elles são. Querem que Deus deva saber o que fez. Saberá.
Domingos Leite era o unico do prestito sinistro que levava o rosto nobremente erguido, e parecia olhar para o ceo pedindo ás estrellas a luz da fé, para que na morte lhe não faltasse a esperança de outra existencia.
Entrou em Lisboa na madrugada de 31 de julho. Levaram-no ao palacio do conde de Odemira, onde respondeu ao primeiro interrogatorio com a altivez nunca vista em reo. Confessou tudo, sem nunca balbuciar o nome da mulher. Matava el-rei, disse elle, em desaggravo da sua honra.
Nem um instante de quebranto, de pavor ou de supplica!Entrou na casa do conde de Odemira, diz o doutor fr. Francisco Brandão no opusculo referido,com um desafogo tal que parecia mais alvitrista dos contrabandos d'el-rei D. João que cumplice dos maiores servidores do rei de Castella. Com esta mesma segurança de animo se portou em todos os mais lanços em que foi examinado; tendo só de bem confirmar sempre na confissão com o companheiro que o deu á prisão, e com a primeira confissão que uma vez lhe ouviram; de maneira que correndo por todo o exame e rigor das interrogações que o direito dispõe não faltou nunca na mesma rectificação de quanto sem as maiores violencias havia confessado; imperfeita virtude no maior defeito!
Em um d'esses interrogatorios,sem as maiores violencias(quer dizer que a tortura não foi das mais requintadas) fizeram-lhe esta pergunta:
—Porque não atiraste a el-rei, tendo a escupeta apontada sobre o sagrado corpo de sua magestade?
—Porque tive uma visão santissima: foi a mão de um anjo do ceo, que me levou para si os olhos e a alma.
D'esta resposta formaram os fantasistas da historia uma parvoiçada de aureolas luzentissimas que esconderam aos olhos do regicida o etherio corpo de D. João de Bragança.
Transferido da caza do conde para o segredo do Limoeiro, divulgou-se em Lisboa a noticia.
As turbas correram á porta do carcere pedindo que lhe entregassem Domingos Leite Pereira para o espedaçarem. Acudiram os ministros, clamando ao povo que o prezo era apenas reo de morte na pessoa do padre Luiz da Silveira, e conseguiram debandar a chusma dos carrascos voluntarios, ebrios de civismo.
Bernardo, quando soube da captura de seu amo, abordou-se ao cajado de peregrino, e foi caminho de Guimarães dizer a Antonio Leite que seu filho morria em desaffronta de sua honra.
Ao fim de 16 dias de prisão, Domingos Leite foi sentenciado.
Eis a sentença integralmente trasladada da original, e publicada em 1833 pelo desembargador Gouvêa Pinto:12
Que se proferiu contra Domingos Leite Pereira Escrivão da Correição do Civel da Côrte, por querer atreçoadamente matar a El-Rei o Senhor D. João o IV.
Acordam em Relação etc. Visto estes Autos, que pela calidade, e detestação do caso, prova d'elle se fizeram summarios.
Mostra-se que o ReoDomingos Leite Pereira, sendo natural d'este Reino, e Proprietario do Officio de Escrevão do Civel da Corte, se passou d'elle para o de Castella no anno passado, a titulo de um seu homezio, e estando em Madrid, foi n'elle despachado com o Habito de Christo, e outras mercêz, e d'aly com ordem de certos Ministros de El-Rei de Castella foi mandado a este Reino para matar a El-Rei Nosso Senhor, dando-lhe para este effeito quatrocentos escudos e uma espingarda com quartos, e um pelouro e dous vasos de peçonha para os poder ervar, e Cartas do mesmo Rei de Castella para o Marquez de Molenguem, Governador das Armas da Cidade de Badajoz, o deixar passar livremente.
Mostra-se que vindo o Reo com animo de efectuar o sobredito, chegou a esta Cidade com outro companheiro em seis do Mez de Maio do anno prezente aonde andou escondido té os vinte dias do Mez de Junho, dia da Procissão geral doCorpo de Deus, em que determinava dar á execução o seu damnado, e abominado intento, para cujo effeito, por meio do dito seu companheiro alugou tres moradas de cazas no principio da Rua dos Torneiros, por onde havia de passar a dita Procissão, e n'ella acompanhando o dito Senhor, na forma do costumado pelos Senhores Reis d'este Reino,com tal apercebimento que uma das ditas casas ficassem com a dita porta para outra rua diferente por onde facilmente, depois do caso feito podesse escapar sem ser tomado, rompendo com uma alavanca de ferro as ditas trez moradas de cazas, para mais facil expedição da sua fugida.
Mostra-se, que no dito dia da Procissão ao tempo que o dito Senhor chegou á dita rua, e casas, e o Reo com a mesma rezolução, e deliberação do animo, o estava esperando em um buraco, que para o mesmo effeito abriu nas ditas cazas, com a dita espingarda nas mãos carregada dos ditos doze quartos, e um pelouro ervado com a dita peçonha, e tanto que a Real Pessoa do dito Senhor, elle mesmo confessa, que se lhe representou umaSuperior Magestade do Ceo, que lhe fez cahir das mãos a dita espingarda sem poder executar o intento, que de antes tinha, e no mesmo dia se sahiu desfarçado das ditas cazas, deixando n'ellas a dita espingarda, e alavanca, e vazos de peçonha; e se foi ao postigo de Nossa Senhora da Graça aonde o dito seu companheiro o estava aguardando com dous cavallos, que já alli tinha preparados para sua fugida, e n'elles se tornaram ambos para Madrid.
Mostra-se, que ahi se tornou o Reo a vêr com os mesmos Ministros de Castella, que o haviam mandado dando-lhe outras desculpas de não effectuar o promettido por sua parte, e elles acceitando-lhas o tornaram a mandar ao mesmo effeito, com os mesmos passaportes, e promessas de aventejadas mercêz, dando-lhe mais dous mil cruzados em dinheiro; e partindo o Reo com o mesmo intento, e deliberação, e o dito seu companheiro, o mandou diante a esta Cidade a buscarcazas aonde se podessem agazalhar, e que o fosse esperar ao Lugar da Povoa de D. Martinho, para que ambos podessem entrar mais escondidos na Cidade.
Mostra-se, que o companheiro do dito Reo, uzando de melhor concelhorevelou tudo aos sobreditos Ministros da Justiça, do dito Senhor em os trinta e um dias do Mez de Julho, em que o Reo chegou ao dito logar da Povoa, o entregou n'ella á prizão, e o Reo no mesmo dia fez inteira e plenaria confissão do seu damnado e deliberado intento, contestando em tudo o acima referido; e que fazendo-se diligencia, e visturia nas ditas cazas se acharam furadas, na forma referida, e n'ellas os dois vasos de peçonha, escondidos no proprio lugar, que o Reo declarou, um d'elles ainda cheio, outro já diminuto, pelo que elle havia tirado, para ervar os ditos quartos e pelouro.
Não mostra o Reo por sua parte descarga alguma em sua defeza, sendo-lhe dado vista, e Procurador para allegar de sua justiça e direito.
O que tudo Visto, e o mais dos Autos, disposição de direito em tal caso, declaram ao dito Reo, por traidor aleivoso, parrecida, assassino, e haver incorrido no detestavel crime de Leza Magestade de primeira cabeça, e como a tal o condemnam, e mandam, que com baraço, e pregão pelas ruas publicas, e costumadas seja levado á rasto á forca, aonde sendo-lhe primeiro decepadas as mãos no Pelourinho morra enforcado de morte cruel, e o seu corpo seja posto em uma fugueira e n'ella feito em pó, e em cinza, para que d'elle não fique memoria; e o condemnam outro sim em perdimento de seus bens para o Fisco, e Camara Real, e que seus descendentes hájam as penas, que por direito lhessão impostas: e esta Sentença se não publicará sem primeiro se dar conta ao dito Senhor, na fórma de suas ordens: e pague o R. os Autos. Lisboa 12 de Agosto de 1647.—Marcham, Monteiro, Beja, Marz.º, Stacio, Porto.
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Ao alvorejar da manhã de 21 de Agosto de 1647, sahiu o regicida do oratorio, onde permaneceu tranquillo, já orando, já conversando affectuosa e christãmente com o sacerdote. Se algumas vezes orava com fervor de lagrimas, e o padre lhe asseverava que nosso Senhor Jesus Christo, pai de misericordias, lhe perdoava, o padecente respondia que estava pedindo a Deus lhe tirasse d'este mundo uma filha que tinha, e cá ficava sob o pezo da ignominia de seu pai.
Apontava o sol, quando os algozes entravam no recinto a tosquiar-lhe a cabeça, a vestir-lhe a alva, e enroscar-lhe no pescoço e cintura a corda por onde haviam arrastal-o. Levado, á beira do padre, até ao atrio do Limoeiro, ahi mandaram-o estender-se sobre um esteirão, ao qual aprezilharam as cordas da garganta e da cinta, de geito que, ao repuxal-as, o não molestassem de modo que a vida perigasse.
As ruas desbordavam de povo que ululava gritos de colera, e premia os flancos da escolta.
Chegado ao Pelourinho, mandaram-no erguer, conduziram-no pela corda a um patamar de taboado, no centro do qual estava um cepo de madeira escura pintalgado ainda do sangue dos conjurados de 1641 e de Francisco de Lucena. Domingos Leite estendeu os braços no cepo, e o carrasco decepou-lhe as mãos de dois golpes. A forca da Ribeira hasteava-se a distancia deduzentos passos. Do Pelourinho ao patibulo o suppliciado revelou enormes dores nos estorcimentos dos braços que jorravam sangue em jactos fumegantes. O frade da agonia, lavado em lagrimas, murmurava-lhe tudo que o homem pode dizer em honra de Deus e esperanças do ceo.
Chegou o instante da piedade humana: o carrasco, balouçando-se-lhe nas espaduas, quando o corpo se inteiriçava pendente do triangulo, fez um gesto significativo de ter cumprido a justiça d'el-rei D. João IV.
Faltava ainda o complemento da sentença.
O verdugo cortou a corda. O cadaver baqueou no tablado. E logo dois ajudantes do executor o esquartejaram em quatro partes que encravaram com cavilhas de ferro em uns altos postes arvorados em quatro pontos da cidade, os quaes ahi estiveram expostos até que a podridão aconselhou o queimal-os, e arrojal-os ao Tejo.
Assim acabou Domingos Leite Pereira, o mancebo ardente que se devotára ao duque de Bragança com patriotico desprezo da vida, e o marido brioso, que respeitára em si o esposo trahido, e odiára no rei o adultero infamador de sua honra.
Pelo que é de Domingos Leite Pereira está tudo concluido.
Mas a narrativa não pode parar aqui.
Ficam-lhe no mundo a filha, a esposa, o pai... e o traidor.
Oh! Roque da Cunha viu aquella tragedia, viu acabeça esqualida no poste da rua dos Torneiros, e ficou debaixo do ceo, para onde o frade apontava com o Christo, quando o padecente tiritava nas horrentes dores da mutilação!..
Vamos rastrear os destinos de Angela, visto que a Providencia a não levou d'esta vida, quando o padecente lh'o rogava no oratorio. E, se no rastro escuro ou luminoso da amada e innocente creatura, resvalarmos aos lodaçaes, pode ser que lá topemos os personagens repugnantes de cujo destino o leitor nos pede conta.
O livro hade chamar-seA FILHA DO REGICIDA. (Nota final.)
FIM
NOTASNota 1.ªDiogo de Alvarado foi grande tangedor detecla, que é o mesmo que deorgão. Viveu longa vida e conservou sempre a mesma destreza e agilidade no tanger d'aquelle instrumento. Quarenta e trez annos exerceu o officio na capella real no tempo dos Philippes, e ainda trez no reinado de D. João IV. Está sepultado na egreja de Nossa Senhora dos Martyres, onde tem este epitaphio:Sepultura de Diogo de Alvarado tangedor de tecla na capella real 43 annos, e de sua mulher, o qual falleceu em 12 de fevereiro de 1643. «Memorias (ineditas) de Diogo de Paiva de Andrade.» EstasMemoriasreferem-se á antiga egreja arrazada pelo terremoto de 1755. D'este musico não encontramos outra noticia, nem d'elle a teve o cardeal patriarcha D. Frei Francisco de S. Luiz naLista de alguns artistas portuguezes. (Lisboa, 1839).A referencia que acima se faz a>Guerreiro, intende com o padre portuguez Francisco Guerreiro, mestre da capella da Sancta Igreja de Sevilha, o qual, como elle mesmo refere no seuItinerario da Terra Sancta, estando em Veneza por agosto de 1588, ahi mandara imprimir os seus livros de musica.Nota 2.ªEsta novidade da morte de Bernardim Ribeiro Pacheco, a tiro, na rua Nova, deparou-n'ol-a um manuscripto que possuimos intitulado MEMORIAS COLLIGIDAS POR DIOGO DE PAIVA DE ANDRADE.D'estes nomes e appellidos houve tio e sobrinho. O primeiro foi grande theologo e mui sizudo padre que decerto não ferragearia os escandalos que enxameam nas MEMORIAS. O sobrinho, mais mundanal, e auctor doCasamento perfeito, seria o collector de biographias, um tanto airadas, entre as quaes está a do amador da infanta Beatriz. Diogo de Paiva nasceu em 1576 e morreu em 1660.Nota 3.ªMemoriascitadas. Concordam com a supposição de Manuel Faria e Sousa nosCommentarios ás rimasde Luiz de Camões, e nomeadamente áCançãoVII e aoSonetoLXXVII.Nota 4.ªO fidalgo, que assim ameaçou brutalmente uma senhora, foi D. Carlos de Noronha. Este sujeito havia sido estrenuo cortezão da côrte de Madrid, e recompensado por Filippe III largamente; porém, como pedisse uma graça que o rei lhe não concedeu, voltou aggravado para Portugal, e inscreveu-se entre os conjurados com arrebatado patriotismo. Como a cobiça fosse o estimulo mais energico dos seus actos, curou de se enriquecer, litigando a posse dos bens a quem os tinha. Questionou a casa de Linhares a D. Miguel de Noronha, e perdeu a demanda. (Veja-se aHistoria Genealogica da Casa Real, T. 5.º, pagina 270). Em seguida, como o marquez de Villa Real fosse degolado, demandou a corôa sobre a successão da casa do sentenciado: perdeu a demanda. (Veja-se aHistoria Genealogica da Casa Real, T. 2.º, livro 3.º pagina 521). Como lhe não rendesse nada o vampirisar nos cadaveres dos justiçados, fez unsEstatutos da Ordem de Avisem que constituiu visitador geral das ordens militares de Portugal o presidente da Mesa da Consciencia. Ora, como elle foi toda a sua vida presidente da referida Mesa, e pelo conseguinte visitador vitalicio, arranjou por este engenhoso meio traças de se locupletar, pondo em almoeda as suas concessões. Eis aqui um dos noventa heroes de 1640! Quem os quizer contar leia aHistoria da Acclamaçãoetc., por Roque Pereira Lobo.Nota 5.ªPedro Barbosa foi assassinado em 1621, quando recolhia da Relação para sua casa, que era um palacio na Ribeira. Este palacio, depois de 1640, passou a um dos conjurados, de appellidoNoronha, e era dos marquezes de Angeja, quando o terremoto de 1755 o alluiu. Pedro Barbosa de Luna era de Vianna do Minho.Nota 6.ªO receio de que nos arguam de injusto n'esta apreciação dofundador da dynastia bragantina, obriga-nos a dar cópia exacta de um autographo, que possuimos, de D. João IV: são os apontamentos que o rei deu a Pedro Vieira da Silva como bazes do seu testamento. Quem leu oTestamento delRey D. João IVno tomo IV dasProvas da Historia Genealogica da casa realpor D. Antonio Caetano de Sousa, pagina 764 e seguintes, e o reputou da lavra do monarcha, tem rasão, se formar bom conceito da intelligencia do testador; quem porém vir os traços fundamentaes d'esse documento, duvidará que elle haja sido o auctor do livro de musica. Aqui está o traslado textual do testamento escripto do punho de D. João IV:«Jesus Maria a quem emcomendo minha alma, nomeio primeiramente por herdeiro de meus Reynos, e Senhorios ao Princepe D. Afonso meu filho como a quem directamente pertensem e por que elle se acha em menor edade declaro por Regente de meos Reynos e tutora de meos filhos a Raynha minha sobre todas prezada mulher; e por que ella pode morrer ainda durante amenor idade de meu filho em tal cazo podera nomear os Tutores ou Tutor Governador ou governadores para meus filhos e estes Reynos e Senhorios pello conhecimento que tem delles e de meus vaçalos e porquanto fio dela e de sua prudencia e do amor que me tem que detudo o que aentregar fara o que eu fizera por ella a nomeio por minha testamenteira e que faça pella minha alma tudo quanto a ella lhe parecer que me comvém.«Ordeno que meu corpo seja enterrado no convento de S. Vicente defora para onde se tresladarão os ossos de meu filho o Princepe D. Theodozio e os de minha filha a Infanta D. Joanna para o que se faram sepulturas decentes e no dito convento se diram coatro missas cotudianas duas pella minha alma e duas pello Princepe e Infanta.«Deixo que os meus bens livres serepartão por meus filhos conforme a cada hum tocar e peço ao Princepe lhe conserve as doaçoens que tenho feito, e espero delle o faça e lhe acrecente outras visto que eu por não defraudar o patrimonio Real lhas dei tão limitadas. Deixo aminha terça ao Princepe mui sobre todos prezado filho e que della setirem vinte mil cruzados que a Rainha minha testamenteira repartirâ em obras pias cazando orfas e donzellas e dando esmollas a viuvas e pobres e porque destes ha muitos que são meus criados mando que seião (sejam) preferidos, e porque Antonio Cabide tem de todos inteiro conhecimento a Rainha se informara delle para saber quaes são os mais benemeritos e trez nomeadamente cujos nomes dira o meu confesçor.«De Antonio cabide tenho inteira satisfação pello modo e zello com que sempre mecervio e asim peço a Rainha sequeira servir delle no mesmo modo com que eu me cervia por que fio delle o fara com toda a satisfação, e por que muitos tempos correu com toda a minha fazenda e medeu dela inteira conta o dou por quitee livre e que este lhe cirva de quitação. Declaro que tenho huma filha por nome D. Maria de huma mulher Limpa que esta no convento de Carnide a quem deixo a comenda mayor de santhiago para a formatura da qual tenho passado decretos a mesa da conciencia e ordens e se impetrarão do Papa os breves necessarios e asim mais as villas de Torres vedras colares, e os lugares de Azinhaga, e cartaxo, que logo os faço villas com jurisdição a parte com todas suas doaçoens de juro, e herdade sempre sojeitas a Ley mental, e porque nestas doaçõns pode aver ao diante duvida algua mando ao Princepe meu filho lhas satisfaça emquanto eqivalente, e sincoenta mil cruzados para por sua casa. E porque no modo e Estado que ella ouver de tomar tive alguns intentos de que tudo sabe Antonio Cabide pesso a Raynha informada delle siga minha mesma vontade.13Tenho tratado casar minha filha D. Catherina com El Rey de Franca por asim mo averem pedido Menistros daquella coroa e por que de todos estes negocios sabe a Raynha lhe pesso siga nelles meus proprios intentos.«A Antonio Cabide dava todos os annos atitolo decerto cerviço meu das Rendas da casa de Bragança dous mil cruzados, a D. Maria minha filha mando se lhe dem na mesma forma athe tomar estado.«Tenho satisfeito os testamentos de meus Avos principalmente tudo o que meu Senhor e Pay mandou e por que ao Morgado da Cruz conforme sua mesma instituição devo acrecentar Vinte mil cruzados de renda mando que dos meus bens se acrecentem.«Os Reys mais que os outros homens devem dar ao mundo razão de suas acçõens. E asim digo que me restituhi a estes Reynos, e Senhorios por entender o devia fazer em conceencia por livrar a meus vaçalos do dominio, e violencia estrangeira e esta razam me obrigou a fazer huma couza que poderia ser contra meu natural. A Justiça e a observancia della conserva as Monarchias máis que as armas e asim encomendo ao Princepe meu filho siga nesta materia inviolavelmente esta acção.«De todos meus criados tenho inteira satisfacam por me averem servido com lialdade zelo, e trabalho principalmente os officiaes de minha caza, Mordo mor (Mordomo-mor) Estrebeiro mor, cappelão mor, Porteiro mor, e os mais, que aqui hei por expreços, e declarados, e peço ao Princepe meu filho se sirva delles porque o faram como eu sempre experementey. O conde Camareiro mor do meu concelho de Estado me tem servido nesta doença como nas mais comtodo cudado e trabalho asim mando ao Princepe meu filho lhe faca toda a honra e Estimação que mereceo e mando se lhe entregue mil cruzados para repartir com os Mocos da camara que me cervirão nesta doença. Declaro que governei este Reyno com toda a Justiça comforme entendi e se herrei em alguma de minhas acçoens como homem foi sempre cudadozo qual hera o melhor que se devia obrar.«Tenho declarado a Raynha hum pessoa para Ayo do Principe que ella nomeará quando lhe parecer.«Tenho muitos papeis tocantes ao governo d'este Reyno, e conhesimento de meus vasalos que podem servir á Raynha e ao Principe e porque da publicação delles pode rezultar perjuizo amuitas pessoas mando que o Bispo meu confessor e Antonio Cabide fassão inventario delles, e os entreguem a Rainha.«Fuy muito corioso da minha livraria da muzica, e asim para que se conserve lhe deixo corenta mil reis todos os annos para fabrica, e mando que esteja sempre na caza em que está, e que se empetre hum breve do Papa com excumunhão reservada para que senão trezlade digo tire d'ella Livro nem papel nem se trezlade, e nomeio para Biblioticario della a Antonio Barbosa com cecenta mil reis de ordenado, e por Ajudante a Domingos do Vale seu irmão, e faltando estas pessoas se hirão nomeando outras para sempre estes cento e corenta mil reis (que) fara a Rainha logo assentar no melhor parado da minha fazenda declarando se não tire nunca das rendas da capella.«A minha capella mando se acabe do mesmo modo que eu tinha ordenado com Santuario Retabulo e çacrario e porque Antonio Cabide sabe o modo com que eu queria isto o deixo por superintendente desta obra.«Tenho mandado a Holanda empremir as obras de João Soares Rabello da qual Impresão lhe faço merce rezervando para aminha Livraria vinte Livros e os outros espalhara por Italia e Castela.14«E como na observancia da Justiça consiste a conservação do Reyno declaro que os Governadores das armas não terão nas Justiças mais jurisdição que a que tem os capitaens de Africa.Fim do testamento.»Quem estiver de pachorra confronte este modêlo de supina ignorancia dos rudimentos da arte de escrever, com o estylo garrafal e engalanado do secretario de estado Pedro Vieira da Silva.E depois, se poder, acredite em D. Antonio Caetano de Sousa (Hist. Genealog. da Casa Real, tomo VII, pag. 240) quando lhe diz que D. João IV ditara a Antonio Cavide a maior parte ou todas asRelaçoensanonymas das campanhas entre Hespanha e Portugal, impressas entre 1641 e 1643, com o fim deter contentes os animos dos seus vassalos, e satisfeitos com os bons successos de suas armas. O linhagista da casa de Bragança não satisfez o seu encarecimento servil com menos de inventar um litterato no fragueiro monteador de veados em Villa Viçosa.Convem notar que o redactor do testamento procedeu sensatamente expungindo dos regios apontamentos a clauzula de impetrar do Papa excommunhão para quem trasladasse algum livro da Bibliotheca da musica. Villão espirito e rancorosa alma que ainda almejavam sobreviver-se no2 tumulo! D'essa estupenda biblioteca, no dia 1 de novembro de 1755, não deixou o terremoto sequer um livro!O autographo de D. João IV, aqui trasladado, pertenceu á livraria do ministro de estado Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas.Nota 7.ªRemechendo com infatigavel curiosidade o archivo das memorias que ha vinte annos vamos collegindo ácêrca de filhas de bispos e outros coitos damnados, encontramos um apontamento que dillucida a obscuridade do manuscripto, e nos declara a ascendencia da menina regeitada por Domingos Leite Pereira. É o seguinte caso, salva melhor interpretação:O infante D. Fernando, pai de el-rei D. Manuel, teve uma filha bastarda que se chamou Leonor. A rainha D. Leonor, mulher de D. João II, e meia irmã d'aquella menina, levou-a para o paço, e educou-a com esmero e carinho de irmã. Sahiu a dama muito namoradeira e desatinada, com immenso dissabor da rainha, que a reprehendeu repetidas vezes inutilmente. Até que um dia, estando a côrte em Santarem, a irmã colheu a bastarda de sobresalto galanteando da janella para a rua um cavalleiro que deu de esporas ao presentir a rainha. Travou-se altercação rija entre as duas Leonores, rompendo a bastarda no excesso de reguingar que havia de casar-se com quem muito lhe quadrasse. «Isso não!—replicou a mulher de D. João II—hasde casar com quem eu muito bem quizer; e hade ser com o primeiro homem que passar na rua, se fôr solteiro.» N'este lance, apontou na extrema da rua um homem ordinario, de nome Alvaro Fernandes, correeiro de officio. Chamou-o a rainha, deu-lhe um dote, e ordenou ao capellão que os cazasse. Tiveram filhos. O padre Jeronymo Fernandes, de Santarem, era bisneto da tal casquilha, filha do infante D. Fernando, e irmã d'el-rei D. Manuel e tambem por tanto bisneto do tal Fernandes correeiro. O padre allegou e provou a Filippe II queera terceiro neto do infante D. Fernando, e obteve a mitra do Funchal. Este devia ser avô da noiva regeitada.Nota 8.ªA rua dos Tanoeiros ou Tanoaria principiava ao pé do Paço da Côrte Real, e seguia até ao Arco do Ouro junto ao Terreiro do Paço. N'esta rua se arruavam os tanoeiros em 1318, em numero de quinze. Quanto aoSancto Antonio de frei Bartholomeu dos Martyres, sabe-se o seguinte para explicar o texto: em casa humilde nasceu n'esta rua o veneravel arcebispo de Braga frei Bartholomeu dos Martyres; e na fachada da casa onde nasceu, ainda antes de 1755 havia um nicho com a imagem de Santo Antonio que o arcebispo, quando estudantinho, fizera com um canivete. Este Santo Antonio era festejado todos os annos á custa dos devotos da rua, e conservou sempre lampadario acceso, de noite e dia, porque toda a freguezia dos Martyres se apegava com o milagroso Sancto nas suas necessidades.Nota 9.ªÉ notavel este facto omittido pelos historiadores, esquecido na tradição, e consignado nasMemoriascolligidas porDiogo de Paiva de Andrade. «D. Rodrigo da Camara, terceiro conde de Villa Franca, foi preso por culpas de sedomia na inquisição de Lisboa, sendo inquisidor geral o bispo da Guarda D. Francisco de Castro. Não faltou quem dissesse que a soberba de um ministro d'aquelle tribunal o culpára ao conde sem causa; porque tratando o conde de amores uma parenta do dito ministro, este o avisára que cazasse com ella; e, tendo em resposta que só para amiga lhe podia servir, lhe castigára o dito com um testemunho. Houve votos de que sahisse publicamente na procissão doAuto da fé; porém, o principe D. Theodosio embaraçou isto dizendo a D. Francisco de Castro que, se não mudasse de proposito, deitaria fogo á Inquisição; do que, sentido o bispo, se travaram de razões, e estas se atearam por maneira que o principe lhe deu de bofetadas. O certo é que o conde não veiu a publico, e sahiu em acto particular na sala da Inquisição. Disse-se que o principe era muito avesso ás baixas manhas do inquisidor, e não aprovava que el-rei seu pae honrasse com a prelazia o denunciador dos máus portuguezes que padeceram em 1641.»D'este principe D. Theodosio que dava bofetadas no Inquisidor-geral formou o nosso amigo Pinheiro Chagas, na sua valiosissimaHistoria de Portugal(tomo VI, pagina 110) conceito muito mais ameno, quando escreveu: «mancebo ascetico, melancolico e fanatico... dirigindo os seus estudos em sentido mystico, etc.». Se Diogo de Paiva não desfazia no genio pacifico do primogenito de D. João IV, a cara do inquisidor-geral, bispo da Guarda, protestacontra o ascetico fanatismo do principe; e já o arcebispo de Lisboa protestaria tambem quando o futuro rei lhe fez chacota da magreza, dizendo-lhe quesó um embalsamado podia trazer-lhe a noticia de que elle seria principe do outro mundo, referindo-se ao Brazil. Era maiscalemburistaque asceta o irmão de Affonso VI, quer-nos parecer.Nota 10.ªO palacio dos duques de Aveiro que tambem foram depois marquezes de Gouveia, foi mandado em 1758 arrazar em Belem, em seguimento ao supplicio de D. José Mascarenhas. O marquez D. Manrique da Silva, cujo secretario foi Domingos Leite, era quarto avô do ultimo duque de Aveiro, e habitou o palacio de Pedroiços, no local onde ainda hoje se vê afogado em cazinholas um padrão commemorativo do delicto.Nota 11.ª«D. Maria de Castello Branco, filha de D. João de Castello Branco, alcaide-mór da villa de seu appellido, cazou com Fernão Cabral, alcaide-mór de Belmonte. Apaixonou-se esta dama por um clerigo com tanta loucura, que trocou em odio o amor conjugal, e persuadiu o dito clerigo que lhe matasse o marido. Descobriu-se o crime e a aleivosia, e por elle foi sentenciada a morrer morte natural por justiça sem lhe valer a grandeza do nascimento, nem a valia de seus muitos e illustres parentes».Memorias de Diogo de Paiva de Andrade.Não marca Diogo de Paiva o tempo d'este successo; mas conjecturamol-o no meado do seculo XV, reinando D. João II. Este Fernão Cabral, que levou a mulher ao patibulo, era quinto neto de Alvaro Gil Cabral, que el-rei D. João I fizera alcaide-mór de Azurara. Computando o lapso das gerações poderão os curiosos, favorecidos por algum linhagista menos indulgente, determinar a época da tragedia. D. Maria era neta do almirante Nuno Vaz Castello Branco, e bisneta por sua avó paterna de Micer Antão Peçanha, almirante, que viveu no começo do reinado de D. Affonso V. De um dos filhos d'esta senhora decapitada procedeu Pedro Alvares Cabral, o descobridor do Brazil.Nota 12.ªEstas miudesas do meuM. S.são corroboradas com a seguinte noticia extractada dasMemorias de Diogo de Paiva de Andrade: «Vicencia Correia, chamada depoisDonaVicencia, foi filha de uma grande alcayota e bebeda, chamada Barbara, que morou na rua dos Cabides em Lisboa, reinando el-rei D. Sebastião, e tão perita no seu officio que o exercitava com destreza esquisita. Os seus primeiros annos passou bem divertida por industria da mãee habilidade propria, e vivendo de mancebia com um fulano Cunha, teve d'elle um filho chamado Roque, e d'outro fulano Pereira teve uma filha chamada Marianna. Mudou depois de amorios com Francisco Leitão, com o qual casou; e este fazia tanta estimação da sogra, da mulher e da enteada, que todos viviam junctos, comiam á mesma mesa; e morrendo a enteada, que quiz casar com o porteiro que então era do Juizo de India e Mina e elle não quiz, tomou lucto publico. Servia n'este tempo Francisco Leitão de Juiz de India e Mina. Foi depois (por valias, e não por merecimentos, por ser homem de poucas lettras, falto de honra e atraiçoado) fidalgo da casa real, cavalleiro da Ordem de Christo, desembargador do Paço, do conselho de Portugal em Madrid, e lá teve grandes estimações, e a mulher, que era visitada dos grandes e senhores da corte. E da mesma sorte o foi n'este reino, onde o nosso D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa, bem conhecido pela sua litteratura, visitava D. Vicencia, e a presenteava.»Acho noticia d'este marido de D. Vicencia em um dos papeis que appareceram em Madrid, por 1637, assignados peloManuelinho de Evora, que symbolisava o espirito revolucionario de Portugal. Como peça desconhecida, extrahimos o mais curioso d'ella. É uma satyra intituladaQuadras que se mandaram a Sua Magestade para uma sala de bom retiro. Figuram Philippe IV, as damas da corte, Diogo Soares, Miguel de Vasconcellos, Francisco Leitão,15o conde do Prado e Thomaz Dibio, o marquez de la Puebla, D. Jorge Mascarenhas, D. Antonio de Athaide, Mathias de Albuquerque e o conde da Vidigueira. Aqui se deparam ao leitor alguns nomes e appellidos que, rodados poucos annos, realçam em Portugal pela sua dedicação.Diogo Soares tem um livro na mão com esta lettra:Este livro ensina os modosDe roubar os povos todos.Miguel de Vasconcellos revê-se em uma taça de vinho com esta lettra:Nos bofes fel e vergonha;E em ser ladrão atrevidoSahi a meu pai cuspido.Vai Francisco Leitão com esta lettra:Nasci de quem nasci,Cazei com quem cazei,E o prazo renoveiE á margem:Filius meretricis.Vae o conde do Prado e diz este mote:A missa ouço em S. Roque,Beijo o chão antes que acabe,A tenção só Deus a sabe.Thomaz Dibio glosa-lhe o mote:As palavras são de um sancto;Mas as obras joeiradasSão malicias refinadas.O marquez de la Puebla é pintado a espreitar por uma porta com este mote:Desterrado y ocioso,Miro solo la destresaCon que hurta su Altesa.E diz D. Jorge de Mascarenhas:Com capa de zelo vossoMuito dinheiro ajuntei,Sem elle e sem vós fiqueiMathias de Albuquerque, Jorge de Athaide, e o conde da Vidigueira, em camisa com uma vela na mão, tem esta lettra de D. Antonio:Mentir, calar, e fingirVerbos de que tenho usadoMe pozeram n'este estado.O mote de Mathias de Albuquerque diz:Sem tiro e golpe de espadaA Pernambuco larguei,São e rico me fiquei.Mote do conde da Vidigueira:Estes como eu fugiram,E escaparam por taes modos,Que eu vim a pagar por todos.Diz o bispo do Porto:Sou de geração humilde;Mas mui sagaz e astutoCom duas pedras de p...Tem ementa á margem da trova, cuja ultima palavra é umcalemburgoque finge estar no tempo presente, modo indicativo doverbodeputar. Diz a glossa:Este bispo, n'este anno, fez tudo aquillo que quiz, pondo e dispondo á sua vontade.Em livro mais de molde a demoradas exhumações historicas, darei ao leitor curiosa e ampliada noticia d'este prelado, definido peloManuelinho de Evora.A nota, que já se vae delongando, não é despecienda como amostra do genero tão fallado como desconhecido que usaram os fermentadores da restauração, a despeito da espionagem que rastreava os audacissimos secretarios doManuelinho.Nota 18.ªProvavelmente, n'este anno de 1647, já Philippe IV e os seus ministros conheciam o timido animo do rei de Portugal, que mais covardemente se manifestou em 1650, depois da paz de Westphalia. N'este anno, pois, encarregou D. João IV o padre Antonio Vieira de negociar desde Roma o casamento do principe D. Theodosio com a infanta de Hespanha, dando esse enlace como caução unica e segura á fuzão iberica; por quanto, não tendo Philippe IV filho varão, áquelle tempo, succediam no throno de Portugal o principe portuguez e a princeza hespanhola; acontecendo, porém, a superveniencia de filho varão, reinariam em distinctos reinos, com alliança offensiva e defensiva. Além d'isso, dado que o rei de Hespanha teimasse em negar a legitimidade de D. João IV, este abdicaria no filho e na infanta. O padre Vieira tractou o negocio com os jesuitas castelhanos, em Roma, resalvando que Lisboa se constituisse a capital dos dois reinos fundidos em uma monarchia grandiosa. A proposta abjecta foi desprezada em Madrid. D. João IV, dando assim o pulso ao exame do poderoso inimigo, revelava quão depauperado lhe girava o sangue nas veias. E pelo que respeita ao jesuita medianeiro de tamanha protervia, teve de fugir de Roma onde o espiavam os sicarios do embaixador hespanhol. Judiciosamente escreve o sr. Manuel Pinheiro Chagas, relatando os pormenores d'este vilipendio: «Lembraremos ao leitor que n'isto se prova que se, depois da restauração de Portugal, houve algum traidor que, por interesses pessoaes ou de familia, projectasse vender á Hespanha a independencia da patria, esse traidor foi... D. João IV.»Historia de Portugal, tomo 6, pagina 106 e seguintes.Nota 19.ªNarra fr. Claudio da Conceição, nomeando os filhos de D. João IV: «Teve fóra do matrimonio a senhora D. Maria, nascida a 31 de abril de 1644, de uma senhora limpa de sangue, que entrando depois no convento de Chellas professou a vida religiosa. Educada em casa do secretario de Estado Antonio de Cavide, entrou a 25 de março de 1650 no Mosteiro de Sancta Thereza de Jesus, das Carmelitas Descalças de Carnide, por ordem de el-rei seu pae areceber as instrucções da Madre Michaella Margarida de Sancta Anna, filha do imperador Mathias, e parenta do mesmo senhor rei D. João IV,16fundadora do dito mosteiro de Carnide em 1612, sendo vinte e dois annos successivos priora. Estimou el-rei muito esta filha, o que assás prova a seguinte carta que lhe escreveu antes de morrer: «Minha filha, foi Deus servido que a primeira vez que tendes carta minha, seja despedindo-me de vós, dando-vos a minha benção acompanhada de Deus que fique comvosco, e lembrai-vos sempre de mim como eu o fio de vós. Escripta em Lisboa a 4 de novembro de 1656. Vosso pai, que fica com grande sentimento de vos não vêr.» (Traslada os legados do rei á filha; segue uma carta de D. Pedro, regente, á irmã; e prosegue na edificante biographia da virtuosa senhora). «A rainha D. Maria Francisca a foi visitar a Carnide, e lhe fez grandes honras merendando no seu apozento. A côrte lhe dava o tratamento de Alteza. Viveu sempre n'este mosteiro em habito de religiosa, ainda que era de materia mais fina. Propondo-se-lhe para esposo o duque de Cadaval com approvação regia, respondeu: que não sahiria da clausura senão em postas a tomar outro esposo, pois que já o tinha ha muito tempo»... Depois d'outros lanços assim piedosos, remata fr. Claudio: «Falleceu recebendo todos os sacramentos com summa edificação a 7 de fevereiro de 1693 quando contava quarenta e nove annos de edade»Gabinete Historico, Tomo IV, pag. 214 e seg.Da mãe de D. Maria não houve frade nem chronista que sequer nos contasse como lá se foi derretendo em lagrimas a vida da freira que o rei dera como esposa a Jesus, depois de se enfastiar d'ella como barregan.Nota 20.ª«O sr. rei D. João IV... vendo um dia meu pai que tinha a honra de ser seu trinchante mor com um Porpoint guarnecido com uma rendilha de prata, lhe disse:vindes mui bizarro D. Antonio!; mas nunca fui tão rico que podesse ter outro similhante. E assim era, porque sempre se vestiu de estamenha... E mandou que nenhum (vassallo) viesse ao Paço com os seus cabellos, por que elle os não conservava, e todos se tosquiaram».Carta de Luiz da Cunha ao Principe D. José.Nota 21.ªEsta allusão epigrammatica do christão novo requer illucidação necessaria aos leitores descuriosos de genealogias. No reinado d'el-rei D. Manoel veio a Portugal um rico mercador genovez,chamado João Francisco de Lafeta ou Lafetá. De amores com uma fidalga de nome Guiomar Freire, teve um filho illegitimo, e tambem teve uma cutilada legitima na cara, com que o brindou um parente da senhora namorada, e teve ainda outro filho de uma Judia fanqueira de Setubal, chamada Branca de Castro. É indeciso nos linhagistas se o successor de João Francisco era filho da fidalga, se da judia. É certo que o seu successor Agostinho de Lafeta administrou o vinculo que seu pai instituira, foi trinchante de el-rei D. João III, e casou com D. Maria de Tavora, filha de Ruy Lourenço de Tavora. Deste matrimonio nasceram dois filhos: João e Cosme. O primeiro casou com D. Antonia de Mello filha de Ruy Gomes de Azevedo, alcaide mor de Alemquer; o segundo casou na India com a filha de um advogado que lá chamavam por alcunha oconde da barba rapada. Os filhos d'este assignaram-se Tavoras, e os do segundo Lafetas. Emquanto o pae, cazando segunda vez com uma filha de Manuel de Mello, eivava de judaismo e melhor sangue ostrogodo, um filho de João Lafeta cazava com D. Maria de Vilhena, filha de Henriques Jacques de Magalhães, e D. Violante de Vilhena. D'este consorcio, procederam Christovão de Lafeta, que casou com sua prima D. Brites da Silva, filha do primeiro visconde de Fonte Arcada, e D. Violante de Vilhena que casou com Gonçalo Garcez Palha. D'estas ultimas allianças por diante, o appellido Lafeta é absorvido nos mais illustres das raças historicas, por modo que, no dizer de um genealogico de inexoravel critica, apenas haverá em Portugal trez familias tradicionaes que não estejam inquinadas do judaismo dos Lafetas genovezes, e da Branca de Castro, fanqueira de Setubal. Que lhes preste.Nota 22.ª«Bem poderia referir outras muitas precauções que este principe (D. João IV) tomava para não ser enganado pelos seus ministros; e comtudo, conhecendo elle a innocencia de Francisco de Lucena, seu secretario de estado, o deixou condemnar á morte, porque os fidalgos o fizeram passar por traidor, não podendo soffrer que elle lhe aconselhasse que lhes não devia alguma obrigação em lhe porem a côroa na cabeça, pois lhe era devida, afim de que se não julgassem credores de grandes recompensas. Os descendentes d'este ministro justificaram depois de muitos annos a sua innocencia, e sua magestade lhes veiu a restituir as honras e os bens, em que eu tive alguma parte estando em Madrid.»Carta de D. Luiz da Cunha ao Principe D. José.Esta carta muito notavel e pouco lida, publicou-a Antonio Lourenço Caminha em 1821, sob o titulo:Obras ineditas do grande exemplar da sciencia do estado D. Luiz da Cunha, etc.Observa avisadamente o erudito sr. Innocencio Francisco da Silva queescaparam na edição numerosissimos erros que ás vezes transtornam o sentido e intelligencia dos periodos. É exactissima a censura. Possuo a mesmacarta manuscripta, trasladada pelo academico Foyos, e que envergonha as incurias do editor da impressa.O que raras pessoas terão visto sem lhe saberem a procedencia, é a peça explicativa do odio dos fidalgos, que acclamaram D. João IV, ao secretario de estado Francisco de Lucena. Encontrei-a entre os manuscriptos ineditos do chantre Manuel Severim de Faria (1583-1655). Intitula-se:Carta de parabens, advertencias, avisos e conselhos que se suppõem e figura escrever do outro mundo o duque de Bragança D. Theodosio a seu filho o sr. D. João o Quarto, logo depois que pela lealdade da patria foi acclamado legitimo Senhor e Rey de Portugal. É attribuida a Francisco de Lucena, e escripta em 1641. Trasladamos os conselhos do pae ao filho, ou antes do ministro ao principe: «...Resta que vos façaes tambem temer e respeitar dos maiores fidalgos, que, como vos viram nascer vassallo, e elles, por portuguezes, são invejosos e soberbos, mais com rigor e medo se sujeitam que com amor e brandura; e assim a vossa affabilidade com que os trataes, a vossa facilidade com que os admittis e ouvis, a confiança com que de ordinario comeis perante elles, o trage inferior de que, por dardes exemplo, vos vestis, tudo isto os faz a elles peores, mais ousados, menos comedidos. Filho, não é ainda tempo d'isto; virá ao diante, em que isto se vos estimará muito. Agora, o que n'este particular fazeis, tão fóra está de se vos gabar e estimar, que antes lhes serve de o motejarem uns com outros, attribuindo tudo a faltas naturaes, e que são avisos divinos, ao diante lhe virão assim a parecer.«Até agora, filho, lidastes com vassallos que sempre foram vossos; agora lidaes com os que ha só dois mezes que o são. Não vos hajais com elles como se sempre o foram, comei raras vezes em publico para que se estime quando o fizerdes. Ouvi a todos que quizerem requerer deante de vós; mas não converseis com nenhum, para que, quando n'esta materia lhes fizerdes algum favor, o tenham por mercê.«Olhai, Filho, que, como muitos d'esses fidalgos riram e folgaram comvosco sendo duque, com pouco azo que lhes deis, vos perderão o respeito devido como a Rey; e, se assim fôr, dai-vos por acabado, porque a principal guarda das coroas e sceptros é o respeito... A este fim vos digo que n'estes principios não soffrais nem dissimuleis aos fidalgos mais poderosos serem desmandados contra a vossa real pessoa, e contra a lealdade que vos devem: lembre-vos que o dissimular estes crimes é dar ousadia a maiores.«Para os enfreardes ponde ferro em fogo em quem o merecer, e com o castigo de dois se emendarão os mais, e com o dissimulardes com elles todos se acabarão de damnar, porque os mais não vos hão de guardar e defender; e mais certo é que vos hão de vender e trahir, e, se poderem, matar».Assim predispunha o secretario das mercês o animo do reicontra os conjurados de 1641; e relevantemente se mostrou serviçal, collaborando com o carrasco, pois que emprestou para a degollação dos fidalgos o cutello que trouxera de Madrid, por haver sido com elle decapitado D. Rodrigo Calderon.Nota 23.ªIsto de ser agarrado pelas costas o duque de Vizeu, quando o Luiz XI portuguez o esfaqueou, não se vislumbra da historia, porque a historia dos governos monarchicos tem sempre sido escripta de joelhos sobre os estrados dos thronos. De feito, D. João II, quando resolveu matar o duque guarda-roupa das casas de Nuno da Cunha em Setubal, convidou trez homenspara testemunhasdo feito: Diogo de Azambuja, Lopo Mendes do Rio, e D. Pedro d'Eça, alcaide de Moura. Este ultimo era um dos mais valentes homens de Portugal. D'elle diz Diogo de Paiva de Andrade, nas suasMemorias:foy um Fidalgo a quem a natureza dotou de muito animo e grandes forças, e por isto El-Rey D. João II o escolheu quando quiz matar a D. Diogo, Duque de Vizeu a quem abraçou por detraz. Eis aqui a singular missão datestemunha!E, como prova da coragem de D. Pedro d'Eça e dos medianos espiritos do covarde matador do duque, refere Diogo de Paiva um bonito lance: Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus (do alcaide) foram-se dois irmãos do morto queixar a El-Rey, e disseram-lhe que D. Pedro lh'o mandára. Pelo que, El-Rey o mandou vir á côrte, e esteve n'ella mais de dois annos, posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro, disse a El-Rey, que pois sua Alteza não queria crêr que elle não tinha culpa na morte do homem, e os que o accusavam eram dois, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos, para assim se purificar: do que, agastando-se El-Rey lhe disse: «que tomára elle ser um dos dois». E D. Pedro lhe respondeu: «Não fôra Vossa Alteza meu Rey, e fosse com elles o terceiro».Nota 24.ªNão é impertinente a noticia do processo de empeçonhar as balas. Acceitemol-a do livro inedito de um Mestre de Campo do exercito de D. Pedro II: «Tomarão licoctomum, que he outra casta de aconito ou de Rozalgar (não alteramos a orthographia do texto) e Napello, dos quais espremerão o sumo com hua empressa, que se receberá em hua vazilha de vidro, precatando-se de não lhe toccar com as mãos, a qual vazilha será exposta ao sol no mez de julho por espaço de 30 dias, recolhendo-a todas as tardes ao por do sol em hua cestinha coberta e guardada em logar calido, izento de todo cheiro forte, como de alhos ou cebollas, por os tais lhe embotarem a força; e ó outro dia ao sair do sol se torne a expor n'elle a vazilha até que osumo se engrosse a modo de unguento que será pouco mais ou menos ao cabo do tempo dito; advertindo que na madrugada, antes que se tire a vazilha do cesto, para a expôr ao sol, hão de descobrir o sesto desviando-a d'elle, e o deixarão assim aberto por espaço de boa meia hora, antes de pegar na vazilha, e á tarde, antes de a arrecadar no sesto a cobriram com alguma cousa, o corpo mais desviado que poder ser. Despois tomaram trez ou quatro Rubetos que são sapos de sylvas grandes, e cheios de nodoas de varias côres, muito peçonhentos, e tanto mais o serão quando sejam apanhados em logares sombrios e frios como nos paues cheios de palha tabua. Estes serão metidos em uma vasilha de cobre de fundo redondo, capaz de os receber commodamente, com sua tapadoura que venha justamente com a boca da vazilha, que terá uma azêlha por cima pela qual poderá entrar a ponta de hua aste para delonge a poderem descobrir; ao lado da vazilha hum pouco por cima do seu fundo haverá huas cavas em forma de hua meia laranja, situado em modo de Bebedouros de Gayolas, e no meio do fundo da vazilha haverá hua fença ou abertura estreita que dará em hum segundo fundo, do mesmo metal, a modo de funil. As ditas covas a modo de Bebedouros, se encherão de oleo de Escorpião; feito o que, os sapos se meterão na vazilha que será bem e justamente coberta com sua tapadoura e assentada sobre uma trenpe, em modo que a ponta do funil do segundo fundo dê em a bocca de hua garrafa de vidro, assentada em hua tigella de agua fria, e a coisa assim desposta se fará hua cama em redondo de ladrilhos da altura da trempe que a cercará toda ao redor, na largura de dois palmos até dois palmos e meio, em cima da qual se accenderá um fogo de roda brando e moderado de carvoens afastados da vazilha um palmo, mediante o que a vazilha irá aquecendo pouco e pouco, dentro da qual os sapos sentindo a quentura não acostumada, de sequiosos e suados, arremetterão a beber o olio de Escorpião dos Bebedouros, que lhes fará bomitar toda a peçonha que dentro em si tiverem, a qual, cahindo pela abertura do fundo da vazilha no segundo fundo do funil, e deste á garrafa, continuará o fogo, no mesmo estado por espaço de 4 a 5 horas, e assim o deixarão athe o outro dia, em o qual, querendo abrir a vazilha, terão em sentido virar as costas da parte do vento, e com hua vara ou aste hum pouco comprida, que passará pela azelha da tapadoura, desviando se o corpo da vazilha, o mais que poder, a destaparão e deixarão assim aberta por espaço de outras 4 ou 5 horas, ao cabo das quaes seguramente se poderão chegar á vazilha, e recolher o veneno da garrafa, ao qual se poderá ajuntar o sumo das ervas dos aconitos dantes exprimidos, e juntamente anemona, sicuta, meimendro, mendragora, malla insana, berengella, pés de ganços de todas as castas, ranunculos, erva Moura, arsenico branco, e cerebros de rato e de gato».É de recear que o leitor desconfie da capacidade d'este sugeito que mandava hervar as balas com succos de pés de ganço e miolos de gato e rato! Saiba, pois, que o auctor da receita foi um militar de elevada patente que exerceu em Portugal no reinado de D. Pedro II cargos importantissimos na guerra. Possuo com grande estimação dois manuscriptos ineditos de Miguel de Lescolle, que assim se chamava o Mestre de Campo. Um, é este de que trasladamos o processo de hervar as balas, e intitula-se: Recopillação de alguns fogos artificiaes, para offensa e defensa de praças, e embarcações, e de alguns outros para as alegrias e recreaçoens feitos pelo Mestre de Campo Miguel de Lescolle. O outro manuscripto, de primoroso calligrapho do começo do seculo XVIII, é:Liçoens de Artelharia recopilladas e feitas por Miguel de Lescolle, Mestre de Campo intertenido na Provincia de Entre Douro e Minho, a cujo cargo está a conservação do trem de Artelharia, Armas e Muniçoens d'ella, e as fortificaçoens das Praças de sua fronteira por mandado do snr. Marquez das Minas, dos Conselhos de Sua Alteza, Mestre de Campo general, e Governador das Armas da mesma provincia.Um homem d'este vulto, se acreditava na peçonha dos pés de ganço e do cerebro dos ratos, é porque realmente, n'aquelles dias, a toxicologia era mais investigada que hoje.NOTA FINALAs pessoas lidas na historia patria estão affeitas a encontrar, n'este caso da tentativa de morte contra D. João IV, que houve um denunciante de Domingos Leite, chamadoManoel da Cunha, e nãoRoque da Cunha, como eu o denomino. Arguem-me pois de inventar nomes desnecessarios á novella com aggravo da historia. É injustiça que me fazem. Todos os historiadores que o leitor conhece o enganaram involuntariamente ou por negligencia de quem fiou de mais nos seus antecessores e guias. Tenho presentes o conde da Ericeira, (Portugal restaurado) Fr. Claudio da Conceição, (Gabinete historico) D. Antonio Caetano de Sousa (Historia Genealogica da Casa Real Portugueza), Roque Ferreira Lobo, (Historia da acclamação de D. João IV) Ferdinand Denis, (Portugal Pittoresco) João Baptista de Castro, (Mappa de Portugal) o sr. Viale, (Resumo da historia de Portugal) e melhor que todos o sr. Manuel Pinheiro Chagas, (Historia de Portugal). Dizem todos invariavelmente que o delactor de Domingos Leite eraManuel Roque, porque todos invariavelmente se guiaram pelo conde da Ericeira, que escrevia 32 annos depois do successo. O mais curial seria averiguar nos escriptores coevos, e nomeadamente as relações escriptas no mesmo anno de 1647. O investigador laborioso encontraria, ácerca d'este assumpto, afóra a citada noticia deFr. Francisco Brandãoimpressa em 1647, duas mais do mesmo anno, uma deAntonio de Sousa de Macedo, e outra deD. FranciscoManuel de Mello. São duas peças declamatorias: rethorica em barda, e muita pobresa de particularidades. O documento mais precioso é do chronista-mór do reino. O conde da Ericeira não o leu; que farte revela ignorancia dos elementos que o deviam esclarecer. Diz que Domingos Leite Pereira era de Lisboa, e de familia distincta. Quanto a ser de Lisboa, claramente contradiz a affirmativa do escriptor coetaneo que o faz de Guimarães n'este trecho da sua relação:Foi o executor da maquina... Domingos Leite Pereira indigno de haver nascido na nobre e leal villa de Guimarães, que sempre abominará tão monstruoso aborto. E em outra passagem, já referida no texto, nos conta que Domingos Leite, da primeira vez que viera de Castella a Lisboa, fôra procurado em Guimarães. Pelo que respeita ao nome do traidor, em varios lanços o nomeiaRoque da Cunha, e em um d'elles, por signál, a critica de Brandão desmerece grandemente dos creditos alcançados n'outros escriptos. Senão, vejam:Dia de S. Roque, a 21 de agosto, se executou a sentença no delinquente, e o ser Roque da Cunha o companheiro que o entregou á justiça, faz crivel que por ser este Sancto um dos tutelares do reino, escolhido pelo sr. rei D. João III, de que na capella real ha particular confraria, accudiu á vingança merecida contra os legitimos reis d'esta corôa.FIM DAS NOTAS
Diogo de Alvarado foi grande tangedor detecla, que é o mesmo que deorgão. Viveu longa vida e conservou sempre a mesma destreza e agilidade no tanger d'aquelle instrumento. Quarenta e trez annos exerceu o officio na capella real no tempo dos Philippes, e ainda trez no reinado de D. João IV. Está sepultado na egreja de Nossa Senhora dos Martyres, onde tem este epitaphio:Sepultura de Diogo de Alvarado tangedor de tecla na capella real 43 annos, e de sua mulher, o qual falleceu em 12 de fevereiro de 1643. «Memorias (ineditas) de Diogo de Paiva de Andrade.» EstasMemoriasreferem-se á antiga egreja arrazada pelo terremoto de 1755. D'este musico não encontramos outra noticia, nem d'elle a teve o cardeal patriarcha D. Frei Francisco de S. Luiz naLista de alguns artistas portuguezes. (Lisboa, 1839).
A referencia que acima se faz a>Guerreiro, intende com o padre portuguez Francisco Guerreiro, mestre da capella da Sancta Igreja de Sevilha, o qual, como elle mesmo refere no seuItinerario da Terra Sancta, estando em Veneza por agosto de 1588, ahi mandara imprimir os seus livros de musica.
Esta novidade da morte de Bernardim Ribeiro Pacheco, a tiro, na rua Nova, deparou-n'ol-a um manuscripto que possuimos intitulado MEMORIAS COLLIGIDAS POR DIOGO DE PAIVA DE ANDRADE.D'estes nomes e appellidos houve tio e sobrinho. O primeiro foi grande theologo e mui sizudo padre que decerto não ferragearia os escandalos que enxameam nas MEMORIAS. O sobrinho, mais mundanal, e auctor doCasamento perfeito, seria o collector de biographias, um tanto airadas, entre as quaes está a do amador da infanta Beatriz. Diogo de Paiva nasceu em 1576 e morreu em 1660.
Memoriascitadas. Concordam com a supposição de Manuel Faria e Sousa nosCommentarios ás rimasde Luiz de Camões, e nomeadamente áCançãoVII e aoSonetoLXXVII.
O fidalgo, que assim ameaçou brutalmente uma senhora, foi D. Carlos de Noronha. Este sujeito havia sido estrenuo cortezão da côrte de Madrid, e recompensado por Filippe III largamente; porém, como pedisse uma graça que o rei lhe não concedeu, voltou aggravado para Portugal, e inscreveu-se entre os conjurados com arrebatado patriotismo. Como a cobiça fosse o estimulo mais energico dos seus actos, curou de se enriquecer, litigando a posse dos bens a quem os tinha. Questionou a casa de Linhares a D. Miguel de Noronha, e perdeu a demanda. (Veja-se aHistoria Genealogica da Casa Real, T. 5.º, pagina 270). Em seguida, como o marquez de Villa Real fosse degolado, demandou a corôa sobre a successão da casa do sentenciado: perdeu a demanda. (Veja-se aHistoria Genealogica da Casa Real, T. 2.º, livro 3.º pagina 521). Como lhe não rendesse nada o vampirisar nos cadaveres dos justiçados, fez unsEstatutos da Ordem de Avisem que constituiu visitador geral das ordens militares de Portugal o presidente da Mesa da Consciencia. Ora, como elle foi toda a sua vida presidente da referida Mesa, e pelo conseguinte visitador vitalicio, arranjou por este engenhoso meio traças de se locupletar, pondo em almoeda as suas concessões. Eis aqui um dos noventa heroes de 1640! Quem os quizer contar leia aHistoria da Acclamaçãoetc., por Roque Pereira Lobo.
Pedro Barbosa foi assassinado em 1621, quando recolhia da Relação para sua casa, que era um palacio na Ribeira. Este palacio, depois de 1640, passou a um dos conjurados, de appellidoNoronha, e era dos marquezes de Angeja, quando o terremoto de 1755 o alluiu. Pedro Barbosa de Luna era de Vianna do Minho.
O receio de que nos arguam de injusto n'esta apreciação dofundador da dynastia bragantina, obriga-nos a dar cópia exacta de um autographo, que possuimos, de D. João IV: são os apontamentos que o rei deu a Pedro Vieira da Silva como bazes do seu testamento. Quem leu oTestamento delRey D. João IVno tomo IV dasProvas da Historia Genealogica da casa realpor D. Antonio Caetano de Sousa, pagina 764 e seguintes, e o reputou da lavra do monarcha, tem rasão, se formar bom conceito da intelligencia do testador; quem porém vir os traços fundamentaes d'esse documento, duvidará que elle haja sido o auctor do livro de musica. Aqui está o traslado textual do testamento escripto do punho de D. João IV:
«Jesus Maria a quem emcomendo minha alma, nomeio primeiramente por herdeiro de meus Reynos, e Senhorios ao Princepe D. Afonso meu filho como a quem directamente pertensem e por que elle se acha em menor edade declaro por Regente de meos Reynos e tutora de meos filhos a Raynha minha sobre todas prezada mulher; e por que ella pode morrer ainda durante amenor idade de meu filho em tal cazo podera nomear os Tutores ou Tutor Governador ou governadores para meus filhos e estes Reynos e Senhorios pello conhecimento que tem delles e de meus vaçalos e porquanto fio dela e de sua prudencia e do amor que me tem que detudo o que aentregar fara o que eu fizera por ella a nomeio por minha testamenteira e que faça pella minha alma tudo quanto a ella lhe parecer que me comvém.
«Ordeno que meu corpo seja enterrado no convento de S. Vicente defora para onde se tresladarão os ossos de meu filho o Princepe D. Theodozio e os de minha filha a Infanta D. Joanna para o que se faram sepulturas decentes e no dito convento se diram coatro missas cotudianas duas pella minha alma e duas pello Princepe e Infanta.
«Deixo que os meus bens livres serepartão por meus filhos conforme a cada hum tocar e peço ao Princepe lhe conserve as doaçoens que tenho feito, e espero delle o faça e lhe acrecente outras visto que eu por não defraudar o patrimonio Real lhas dei tão limitadas. Deixo aminha terça ao Princepe mui sobre todos prezado filho e que della setirem vinte mil cruzados que a Rainha minha testamenteira repartirâ em obras pias cazando orfas e donzellas e dando esmollas a viuvas e pobres e porque destes ha muitos que são meus criados mando que seião (sejam) preferidos, e porque Antonio Cabide tem de todos inteiro conhecimento a Rainha se informara delle para saber quaes são os mais benemeritos e trez nomeadamente cujos nomes dira o meu confesçor.
«De Antonio cabide tenho inteira satisfação pello modo e zello com que sempre mecervio e asim peço a Rainha sequeira servir delle no mesmo modo com que eu me cervia por que fio delle o fara com toda a satisfação, e por que muitos tempos correu com toda a minha fazenda e medeu dela inteira conta o dou por quitee livre e que este lhe cirva de quitação. Declaro que tenho huma filha por nome D. Maria de huma mulher Limpa que esta no convento de Carnide a quem deixo a comenda mayor de santhiago para a formatura da qual tenho passado decretos a mesa da conciencia e ordens e se impetrarão do Papa os breves necessarios e asim mais as villas de Torres vedras colares, e os lugares de Azinhaga, e cartaxo, que logo os faço villas com jurisdição a parte com todas suas doaçoens de juro, e herdade sempre sojeitas a Ley mental, e porque nestas doaçõns pode aver ao diante duvida algua mando ao Princepe meu filho lhas satisfaça emquanto eqivalente, e sincoenta mil cruzados para por sua casa. E porque no modo e Estado que ella ouver de tomar tive alguns intentos de que tudo sabe Antonio Cabide pesso a Raynha informada delle siga minha mesma vontade.13Tenho tratado casar minha filha D. Catherina com El Rey de Franca por asim mo averem pedido Menistros daquella coroa e por que de todos estes negocios sabe a Raynha lhe pesso siga nelles meus proprios intentos.
«A Antonio Cabide dava todos os annos atitolo decerto cerviço meu das Rendas da casa de Bragança dous mil cruzados, a D. Maria minha filha mando se lhe dem na mesma forma athe tomar estado.
«Tenho satisfeito os testamentos de meus Avos principalmente tudo o que meu Senhor e Pay mandou e por que ao Morgado da Cruz conforme sua mesma instituição devo acrecentar Vinte mil cruzados de renda mando que dos meus bens se acrecentem.
«Os Reys mais que os outros homens devem dar ao mundo razão de suas acçõens. E asim digo que me restituhi a estes Reynos, e Senhorios por entender o devia fazer em conceencia por livrar a meus vaçalos do dominio, e violencia estrangeira e esta razam me obrigou a fazer huma couza que poderia ser contra meu natural. A Justiça e a observancia della conserva as Monarchias máis que as armas e asim encomendo ao Princepe meu filho siga nesta materia inviolavelmente esta acção.
«De todos meus criados tenho inteira satisfacam por me averem servido com lialdade zelo, e trabalho principalmente os officiaes de minha caza, Mordo mor (Mordomo-mor) Estrebeiro mor, cappelão mor, Porteiro mor, e os mais, que aqui hei por expreços, e declarados, e peço ao Princepe meu filho se sirva delles porque o faram como eu sempre experementey. O conde Camareiro mor do meu concelho de Estado me tem servido nesta doença como nas mais comtodo cudado e trabalho asim mando ao Princepe meu filho lhe faca toda a honra e Estimação que mereceo e mando se lhe entregue mil cruzados para repartir com os Mocos da camara que me cervirão nesta doença. Declaro que governei este Reyno com toda a Justiça comforme entendi e se herrei em alguma de minhas acçoens como homem foi sempre cudadozo qual hera o melhor que se devia obrar.
«Tenho declarado a Raynha hum pessoa para Ayo do Principe que ella nomeará quando lhe parecer.
«Tenho muitos papeis tocantes ao governo d'este Reyno, e conhesimento de meus vasalos que podem servir á Raynha e ao Principe e porque da publicação delles pode rezultar perjuizo amuitas pessoas mando que o Bispo meu confessor e Antonio Cabide fassão inventario delles, e os entreguem a Rainha.
«Fuy muito corioso da minha livraria da muzica, e asim para que se conserve lhe deixo corenta mil reis todos os annos para fabrica, e mando que esteja sempre na caza em que está, e que se empetre hum breve do Papa com excumunhão reservada para que senão trezlade digo tire d'ella Livro nem papel nem se trezlade, e nomeio para Biblioticario della a Antonio Barbosa com cecenta mil reis de ordenado, e por Ajudante a Domingos do Vale seu irmão, e faltando estas pessoas se hirão nomeando outras para sempre estes cento e corenta mil reis (que) fara a Rainha logo assentar no melhor parado da minha fazenda declarando se não tire nunca das rendas da capella.
«A minha capella mando se acabe do mesmo modo que eu tinha ordenado com Santuario Retabulo e çacrario e porque Antonio Cabide sabe o modo com que eu queria isto o deixo por superintendente desta obra.
«Tenho mandado a Holanda empremir as obras de João Soares Rabello da qual Impresão lhe faço merce rezervando para aminha Livraria vinte Livros e os outros espalhara por Italia e Castela.14
«E como na observancia da Justiça consiste a conservação do Reyno declaro que os Governadores das armas não terão nas Justiças mais jurisdição que a que tem os capitaens de Africa.Fim do testamento.»
Quem estiver de pachorra confronte este modêlo de supina ignorancia dos rudimentos da arte de escrever, com o estylo garrafal e engalanado do secretario de estado Pedro Vieira da Silva.E depois, se poder, acredite em D. Antonio Caetano de Sousa (Hist. Genealog. da Casa Real, tomo VII, pag. 240) quando lhe diz que D. João IV ditara a Antonio Cavide a maior parte ou todas asRelaçoensanonymas das campanhas entre Hespanha e Portugal, impressas entre 1641 e 1643, com o fim deter contentes os animos dos seus vassalos, e satisfeitos com os bons successos de suas armas. O linhagista da casa de Bragança não satisfez o seu encarecimento servil com menos de inventar um litterato no fragueiro monteador de veados em Villa Viçosa.
Convem notar que o redactor do testamento procedeu sensatamente expungindo dos regios apontamentos a clauzula de impetrar do Papa excommunhão para quem trasladasse algum livro da Bibliotheca da musica. Villão espirito e rancorosa alma que ainda almejavam sobreviver-se no2 tumulo! D'essa estupenda biblioteca, no dia 1 de novembro de 1755, não deixou o terremoto sequer um livro!
O autographo de D. João IV, aqui trasladado, pertenceu á livraria do ministro de estado Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas.
Remechendo com infatigavel curiosidade o archivo das memorias que ha vinte annos vamos collegindo ácêrca de filhas de bispos e outros coitos damnados, encontramos um apontamento que dillucida a obscuridade do manuscripto, e nos declara a ascendencia da menina regeitada por Domingos Leite Pereira. É o seguinte caso, salva melhor interpretação:
O infante D. Fernando, pai de el-rei D. Manuel, teve uma filha bastarda que se chamou Leonor. A rainha D. Leonor, mulher de D. João II, e meia irmã d'aquella menina, levou-a para o paço, e educou-a com esmero e carinho de irmã. Sahiu a dama muito namoradeira e desatinada, com immenso dissabor da rainha, que a reprehendeu repetidas vezes inutilmente. Até que um dia, estando a côrte em Santarem, a irmã colheu a bastarda de sobresalto galanteando da janella para a rua um cavalleiro que deu de esporas ao presentir a rainha. Travou-se altercação rija entre as duas Leonores, rompendo a bastarda no excesso de reguingar que havia de casar-se com quem muito lhe quadrasse. «Isso não!—replicou a mulher de D. João II—hasde casar com quem eu muito bem quizer; e hade ser com o primeiro homem que passar na rua, se fôr solteiro.» N'este lance, apontou na extrema da rua um homem ordinario, de nome Alvaro Fernandes, correeiro de officio. Chamou-o a rainha, deu-lhe um dote, e ordenou ao capellão que os cazasse. Tiveram filhos. O padre Jeronymo Fernandes, de Santarem, era bisneto da tal casquilha, filha do infante D. Fernando, e irmã d'el-rei D. Manuel e tambem por tanto bisneto do tal Fernandes correeiro. O padre allegou e provou a Filippe II queera terceiro neto do infante D. Fernando, e obteve a mitra do Funchal. Este devia ser avô da noiva regeitada.
A rua dos Tanoeiros ou Tanoaria principiava ao pé do Paço da Côrte Real, e seguia até ao Arco do Ouro junto ao Terreiro do Paço. N'esta rua se arruavam os tanoeiros em 1318, em numero de quinze. Quanto aoSancto Antonio de frei Bartholomeu dos Martyres, sabe-se o seguinte para explicar o texto: em casa humilde nasceu n'esta rua o veneravel arcebispo de Braga frei Bartholomeu dos Martyres; e na fachada da casa onde nasceu, ainda antes de 1755 havia um nicho com a imagem de Santo Antonio que o arcebispo, quando estudantinho, fizera com um canivete. Este Santo Antonio era festejado todos os annos á custa dos devotos da rua, e conservou sempre lampadario acceso, de noite e dia, porque toda a freguezia dos Martyres se apegava com o milagroso Sancto nas suas necessidades.
É notavel este facto omittido pelos historiadores, esquecido na tradição, e consignado nasMemoriascolligidas porDiogo de Paiva de Andrade. «D. Rodrigo da Camara, terceiro conde de Villa Franca, foi preso por culpas de sedomia na inquisição de Lisboa, sendo inquisidor geral o bispo da Guarda D. Francisco de Castro. Não faltou quem dissesse que a soberba de um ministro d'aquelle tribunal o culpára ao conde sem causa; porque tratando o conde de amores uma parenta do dito ministro, este o avisára que cazasse com ella; e, tendo em resposta que só para amiga lhe podia servir, lhe castigára o dito com um testemunho. Houve votos de que sahisse publicamente na procissão doAuto da fé; porém, o principe D. Theodosio embaraçou isto dizendo a D. Francisco de Castro que, se não mudasse de proposito, deitaria fogo á Inquisição; do que, sentido o bispo, se travaram de razões, e estas se atearam por maneira que o principe lhe deu de bofetadas. O certo é que o conde não veiu a publico, e sahiu em acto particular na sala da Inquisição. Disse-se que o principe era muito avesso ás baixas manhas do inquisidor, e não aprovava que el-rei seu pae honrasse com a prelazia o denunciador dos máus portuguezes que padeceram em 1641.»
D'este principe D. Theodosio que dava bofetadas no Inquisidor-geral formou o nosso amigo Pinheiro Chagas, na sua valiosissimaHistoria de Portugal(tomo VI, pagina 110) conceito muito mais ameno, quando escreveu: «mancebo ascetico, melancolico e fanatico... dirigindo os seus estudos em sentido mystico, etc.». Se Diogo de Paiva não desfazia no genio pacifico do primogenito de D. João IV, a cara do inquisidor-geral, bispo da Guarda, protestacontra o ascetico fanatismo do principe; e já o arcebispo de Lisboa protestaria tambem quando o futuro rei lhe fez chacota da magreza, dizendo-lhe quesó um embalsamado podia trazer-lhe a noticia de que elle seria principe do outro mundo, referindo-se ao Brazil. Era maiscalemburistaque asceta o irmão de Affonso VI, quer-nos parecer.
O palacio dos duques de Aveiro que tambem foram depois marquezes de Gouveia, foi mandado em 1758 arrazar em Belem, em seguimento ao supplicio de D. José Mascarenhas. O marquez D. Manrique da Silva, cujo secretario foi Domingos Leite, era quarto avô do ultimo duque de Aveiro, e habitou o palacio de Pedroiços, no local onde ainda hoje se vê afogado em cazinholas um padrão commemorativo do delicto.
«D. Maria de Castello Branco, filha de D. João de Castello Branco, alcaide-mór da villa de seu appellido, cazou com Fernão Cabral, alcaide-mór de Belmonte. Apaixonou-se esta dama por um clerigo com tanta loucura, que trocou em odio o amor conjugal, e persuadiu o dito clerigo que lhe matasse o marido. Descobriu-se o crime e a aleivosia, e por elle foi sentenciada a morrer morte natural por justiça sem lhe valer a grandeza do nascimento, nem a valia de seus muitos e illustres parentes».Memorias de Diogo de Paiva de Andrade.
Não marca Diogo de Paiva o tempo d'este successo; mas conjecturamol-o no meado do seculo XV, reinando D. João II. Este Fernão Cabral, que levou a mulher ao patibulo, era quinto neto de Alvaro Gil Cabral, que el-rei D. João I fizera alcaide-mór de Azurara. Computando o lapso das gerações poderão os curiosos, favorecidos por algum linhagista menos indulgente, determinar a época da tragedia. D. Maria era neta do almirante Nuno Vaz Castello Branco, e bisneta por sua avó paterna de Micer Antão Peçanha, almirante, que viveu no começo do reinado de D. Affonso V. De um dos filhos d'esta senhora decapitada procedeu Pedro Alvares Cabral, o descobridor do Brazil.
Estas miudesas do meuM. S.são corroboradas com a seguinte noticia extractada dasMemorias de Diogo de Paiva de Andrade: «Vicencia Correia, chamada depoisDonaVicencia, foi filha de uma grande alcayota e bebeda, chamada Barbara, que morou na rua dos Cabides em Lisboa, reinando el-rei D. Sebastião, e tão perita no seu officio que o exercitava com destreza esquisita. Os seus primeiros annos passou bem divertida por industria da mãee habilidade propria, e vivendo de mancebia com um fulano Cunha, teve d'elle um filho chamado Roque, e d'outro fulano Pereira teve uma filha chamada Marianna. Mudou depois de amorios com Francisco Leitão, com o qual casou; e este fazia tanta estimação da sogra, da mulher e da enteada, que todos viviam junctos, comiam á mesma mesa; e morrendo a enteada, que quiz casar com o porteiro que então era do Juizo de India e Mina e elle não quiz, tomou lucto publico. Servia n'este tempo Francisco Leitão de Juiz de India e Mina. Foi depois (por valias, e não por merecimentos, por ser homem de poucas lettras, falto de honra e atraiçoado) fidalgo da casa real, cavalleiro da Ordem de Christo, desembargador do Paço, do conselho de Portugal em Madrid, e lá teve grandes estimações, e a mulher, que era visitada dos grandes e senhores da corte. E da mesma sorte o foi n'este reino, onde o nosso D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa, bem conhecido pela sua litteratura, visitava D. Vicencia, e a presenteava.»
Acho noticia d'este marido de D. Vicencia em um dos papeis que appareceram em Madrid, por 1637, assignados peloManuelinho de Evora, que symbolisava o espirito revolucionario de Portugal. Como peça desconhecida, extrahimos o mais curioso d'ella. É uma satyra intituladaQuadras que se mandaram a Sua Magestade para uma sala de bom retiro. Figuram Philippe IV, as damas da corte, Diogo Soares, Miguel de Vasconcellos, Francisco Leitão,15o conde do Prado e Thomaz Dibio, o marquez de la Puebla, D. Jorge Mascarenhas, D. Antonio de Athaide, Mathias de Albuquerque e o conde da Vidigueira. Aqui se deparam ao leitor alguns nomes e appellidos que, rodados poucos annos, realçam em Portugal pela sua dedicação.
Diogo Soares tem um livro na mão com esta lettra:
Este livro ensina os modosDe roubar os povos todos.
Miguel de Vasconcellos revê-se em uma taça de vinho com esta lettra:
Nos bofes fel e vergonha;E em ser ladrão atrevidoSahi a meu pai cuspido.
Vai Francisco Leitão com esta lettra:
Nasci de quem nasci,Cazei com quem cazei,E o prazo renovei
E á margem:Filius meretricis.
Vae o conde do Prado e diz este mote:
A missa ouço em S. Roque,Beijo o chão antes que acabe,A tenção só Deus a sabe.
Thomaz Dibio glosa-lhe o mote:
As palavras são de um sancto;Mas as obras joeiradasSão malicias refinadas.
O marquez de la Puebla é pintado a espreitar por uma porta com este mote:
Desterrado y ocioso,Miro solo la destresaCon que hurta su Altesa.
E diz D. Jorge de Mascarenhas:
Com capa de zelo vossoMuito dinheiro ajuntei,Sem elle e sem vós fiquei
Mathias de Albuquerque, Jorge de Athaide, e o conde da Vidigueira, em camisa com uma vela na mão, tem esta lettra de D. Antonio:
Mentir, calar, e fingirVerbos de que tenho usadoMe pozeram n'este estado.
O mote de Mathias de Albuquerque diz:
Sem tiro e golpe de espadaA Pernambuco larguei,São e rico me fiquei.
Mote do conde da Vidigueira:
Estes como eu fugiram,E escaparam por taes modos,Que eu vim a pagar por todos.
Diz o bispo do Porto:
Sou de geração humilde;Mas mui sagaz e astutoCom duas pedras de p...
Tem ementa á margem da trova, cuja ultima palavra é umcalemburgoque finge estar no tempo presente, modo indicativo doverbodeputar. Diz a glossa:Este bispo, n'este anno, fez tudo aquillo que quiz, pondo e dispondo á sua vontade.
Em livro mais de molde a demoradas exhumações historicas, darei ao leitor curiosa e ampliada noticia d'este prelado, definido peloManuelinho de Evora.
A nota, que já se vae delongando, não é despecienda como amostra do genero tão fallado como desconhecido que usaram os fermentadores da restauração, a despeito da espionagem que rastreava os audacissimos secretarios doManuelinho.
Provavelmente, n'este anno de 1647, já Philippe IV e os seus ministros conheciam o timido animo do rei de Portugal, que mais covardemente se manifestou em 1650, depois da paz de Westphalia. N'este anno, pois, encarregou D. João IV o padre Antonio Vieira de negociar desde Roma o casamento do principe D. Theodosio com a infanta de Hespanha, dando esse enlace como caução unica e segura á fuzão iberica; por quanto, não tendo Philippe IV filho varão, áquelle tempo, succediam no throno de Portugal o principe portuguez e a princeza hespanhola; acontecendo, porém, a superveniencia de filho varão, reinariam em distinctos reinos, com alliança offensiva e defensiva. Além d'isso, dado que o rei de Hespanha teimasse em negar a legitimidade de D. João IV, este abdicaria no filho e na infanta. O padre Vieira tractou o negocio com os jesuitas castelhanos, em Roma, resalvando que Lisboa se constituisse a capital dos dois reinos fundidos em uma monarchia grandiosa. A proposta abjecta foi desprezada em Madrid. D. João IV, dando assim o pulso ao exame do poderoso inimigo, revelava quão depauperado lhe girava o sangue nas veias. E pelo que respeita ao jesuita medianeiro de tamanha protervia, teve de fugir de Roma onde o espiavam os sicarios do embaixador hespanhol. Judiciosamente escreve o sr. Manuel Pinheiro Chagas, relatando os pormenores d'este vilipendio: «Lembraremos ao leitor que n'isto se prova que se, depois da restauração de Portugal, houve algum traidor que, por interesses pessoaes ou de familia, projectasse vender á Hespanha a independencia da patria, esse traidor foi... D. João IV.»Historia de Portugal, tomo 6, pagina 106 e seguintes.
Narra fr. Claudio da Conceição, nomeando os filhos de D. João IV: «Teve fóra do matrimonio a senhora D. Maria, nascida a 31 de abril de 1644, de uma senhora limpa de sangue, que entrando depois no convento de Chellas professou a vida religiosa. Educada em casa do secretario de Estado Antonio de Cavide, entrou a 25 de março de 1650 no Mosteiro de Sancta Thereza de Jesus, das Carmelitas Descalças de Carnide, por ordem de el-rei seu pae areceber as instrucções da Madre Michaella Margarida de Sancta Anna, filha do imperador Mathias, e parenta do mesmo senhor rei D. João IV,16fundadora do dito mosteiro de Carnide em 1612, sendo vinte e dois annos successivos priora. Estimou el-rei muito esta filha, o que assás prova a seguinte carta que lhe escreveu antes de morrer: «Minha filha, foi Deus servido que a primeira vez que tendes carta minha, seja despedindo-me de vós, dando-vos a minha benção acompanhada de Deus que fique comvosco, e lembrai-vos sempre de mim como eu o fio de vós. Escripta em Lisboa a 4 de novembro de 1656. Vosso pai, que fica com grande sentimento de vos não vêr.» (Traslada os legados do rei á filha; segue uma carta de D. Pedro, regente, á irmã; e prosegue na edificante biographia da virtuosa senhora). «A rainha D. Maria Francisca a foi visitar a Carnide, e lhe fez grandes honras merendando no seu apozento. A côrte lhe dava o tratamento de Alteza. Viveu sempre n'este mosteiro em habito de religiosa, ainda que era de materia mais fina. Propondo-se-lhe para esposo o duque de Cadaval com approvação regia, respondeu: que não sahiria da clausura senão em postas a tomar outro esposo, pois que já o tinha ha muito tempo»... Depois d'outros lanços assim piedosos, remata fr. Claudio: «Falleceu recebendo todos os sacramentos com summa edificação a 7 de fevereiro de 1693 quando contava quarenta e nove annos de edade»Gabinete Historico, Tomo IV, pag. 214 e seg.Da mãe de D. Maria não houve frade nem chronista que sequer nos contasse como lá se foi derretendo em lagrimas a vida da freira que o rei dera como esposa a Jesus, depois de se enfastiar d'ella como barregan.
«O sr. rei D. João IV... vendo um dia meu pai que tinha a honra de ser seu trinchante mor com um Porpoint guarnecido com uma rendilha de prata, lhe disse:vindes mui bizarro D. Antonio!; mas nunca fui tão rico que podesse ter outro similhante. E assim era, porque sempre se vestiu de estamenha... E mandou que nenhum (vassallo) viesse ao Paço com os seus cabellos, por que elle os não conservava, e todos se tosquiaram».Carta de Luiz da Cunha ao Principe D. José.
Esta allusão epigrammatica do christão novo requer illucidação necessaria aos leitores descuriosos de genealogias. No reinado d'el-rei D. Manoel veio a Portugal um rico mercador genovez,chamado João Francisco de Lafeta ou Lafetá. De amores com uma fidalga de nome Guiomar Freire, teve um filho illegitimo, e tambem teve uma cutilada legitima na cara, com que o brindou um parente da senhora namorada, e teve ainda outro filho de uma Judia fanqueira de Setubal, chamada Branca de Castro. É indeciso nos linhagistas se o successor de João Francisco era filho da fidalga, se da judia. É certo que o seu successor Agostinho de Lafeta administrou o vinculo que seu pai instituira, foi trinchante de el-rei D. João III, e casou com D. Maria de Tavora, filha de Ruy Lourenço de Tavora. Deste matrimonio nasceram dois filhos: João e Cosme. O primeiro casou com D. Antonia de Mello filha de Ruy Gomes de Azevedo, alcaide mor de Alemquer; o segundo casou na India com a filha de um advogado que lá chamavam por alcunha oconde da barba rapada. Os filhos d'este assignaram-se Tavoras, e os do segundo Lafetas. Emquanto o pae, cazando segunda vez com uma filha de Manuel de Mello, eivava de judaismo e melhor sangue ostrogodo, um filho de João Lafeta cazava com D. Maria de Vilhena, filha de Henriques Jacques de Magalhães, e D. Violante de Vilhena. D'este consorcio, procederam Christovão de Lafeta, que casou com sua prima D. Brites da Silva, filha do primeiro visconde de Fonte Arcada, e D. Violante de Vilhena que casou com Gonçalo Garcez Palha. D'estas ultimas allianças por diante, o appellido Lafeta é absorvido nos mais illustres das raças historicas, por modo que, no dizer de um genealogico de inexoravel critica, apenas haverá em Portugal trez familias tradicionaes que não estejam inquinadas do judaismo dos Lafetas genovezes, e da Branca de Castro, fanqueira de Setubal. Que lhes preste.
«Bem poderia referir outras muitas precauções que este principe (D. João IV) tomava para não ser enganado pelos seus ministros; e comtudo, conhecendo elle a innocencia de Francisco de Lucena, seu secretario de estado, o deixou condemnar á morte, porque os fidalgos o fizeram passar por traidor, não podendo soffrer que elle lhe aconselhasse que lhes não devia alguma obrigação em lhe porem a côroa na cabeça, pois lhe era devida, afim de que se não julgassem credores de grandes recompensas. Os descendentes d'este ministro justificaram depois de muitos annos a sua innocencia, e sua magestade lhes veiu a restituir as honras e os bens, em que eu tive alguma parte estando em Madrid.»Carta de D. Luiz da Cunha ao Principe D. José.Esta carta muito notavel e pouco lida, publicou-a Antonio Lourenço Caminha em 1821, sob o titulo:Obras ineditas do grande exemplar da sciencia do estado D. Luiz da Cunha, etc.Observa avisadamente o erudito sr. Innocencio Francisco da Silva queescaparam na edição numerosissimos erros que ás vezes transtornam o sentido e intelligencia dos periodos. É exactissima a censura. Possuo a mesmacarta manuscripta, trasladada pelo academico Foyos, e que envergonha as incurias do editor da impressa.
O que raras pessoas terão visto sem lhe saberem a procedencia, é a peça explicativa do odio dos fidalgos, que acclamaram D. João IV, ao secretario de estado Francisco de Lucena. Encontrei-a entre os manuscriptos ineditos do chantre Manuel Severim de Faria (1583-1655). Intitula-se:Carta de parabens, advertencias, avisos e conselhos que se suppõem e figura escrever do outro mundo o duque de Bragança D. Theodosio a seu filho o sr. D. João o Quarto, logo depois que pela lealdade da patria foi acclamado legitimo Senhor e Rey de Portugal. É attribuida a Francisco de Lucena, e escripta em 1641. Trasladamos os conselhos do pae ao filho, ou antes do ministro ao principe: «...Resta que vos façaes tambem temer e respeitar dos maiores fidalgos, que, como vos viram nascer vassallo, e elles, por portuguezes, são invejosos e soberbos, mais com rigor e medo se sujeitam que com amor e brandura; e assim a vossa affabilidade com que os trataes, a vossa facilidade com que os admittis e ouvis, a confiança com que de ordinario comeis perante elles, o trage inferior de que, por dardes exemplo, vos vestis, tudo isto os faz a elles peores, mais ousados, menos comedidos. Filho, não é ainda tempo d'isto; virá ao diante, em que isto se vos estimará muito. Agora, o que n'este particular fazeis, tão fóra está de se vos gabar e estimar, que antes lhes serve de o motejarem uns com outros, attribuindo tudo a faltas naturaes, e que são avisos divinos, ao diante lhe virão assim a parecer.
«Até agora, filho, lidastes com vassallos que sempre foram vossos; agora lidaes com os que ha só dois mezes que o são. Não vos hajais com elles como se sempre o foram, comei raras vezes em publico para que se estime quando o fizerdes. Ouvi a todos que quizerem requerer deante de vós; mas não converseis com nenhum, para que, quando n'esta materia lhes fizerdes algum favor, o tenham por mercê.
«Olhai, Filho, que, como muitos d'esses fidalgos riram e folgaram comvosco sendo duque, com pouco azo que lhes deis, vos perderão o respeito devido como a Rey; e, se assim fôr, dai-vos por acabado, porque a principal guarda das coroas e sceptros é o respeito... A este fim vos digo que n'estes principios não soffrais nem dissimuleis aos fidalgos mais poderosos serem desmandados contra a vossa real pessoa, e contra a lealdade que vos devem: lembre-vos que o dissimular estes crimes é dar ousadia a maiores.
«Para os enfreardes ponde ferro em fogo em quem o merecer, e com o castigo de dois se emendarão os mais, e com o dissimulardes com elles todos se acabarão de damnar, porque os mais não vos hão de guardar e defender; e mais certo é que vos hão de vender e trahir, e, se poderem, matar».
Assim predispunha o secretario das mercês o animo do reicontra os conjurados de 1641; e relevantemente se mostrou serviçal, collaborando com o carrasco, pois que emprestou para a degollação dos fidalgos o cutello que trouxera de Madrid, por haver sido com elle decapitado D. Rodrigo Calderon.
Isto de ser agarrado pelas costas o duque de Vizeu, quando o Luiz XI portuguez o esfaqueou, não se vislumbra da historia, porque a historia dos governos monarchicos tem sempre sido escripta de joelhos sobre os estrados dos thronos. De feito, D. João II, quando resolveu matar o duque guarda-roupa das casas de Nuno da Cunha em Setubal, convidou trez homenspara testemunhasdo feito: Diogo de Azambuja, Lopo Mendes do Rio, e D. Pedro d'Eça, alcaide de Moura. Este ultimo era um dos mais valentes homens de Portugal. D'elle diz Diogo de Paiva de Andrade, nas suasMemorias:foy um Fidalgo a quem a natureza dotou de muito animo e grandes forças, e por isto El-Rey D. João II o escolheu quando quiz matar a D. Diogo, Duque de Vizeu a quem abraçou por detraz. Eis aqui a singular missão datestemunha!
E, como prova da coragem de D. Pedro d'Eça e dos medianos espiritos do covarde matador do duque, refere Diogo de Paiva um bonito lance: Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus (do alcaide) foram-se dois irmãos do morto queixar a El-Rey, e disseram-lhe que D. Pedro lh'o mandára. Pelo que, El-Rey o mandou vir á côrte, e esteve n'ella mais de dois annos, posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro, disse a El-Rey, que pois sua Alteza não queria crêr que elle não tinha culpa na morte do homem, e os que o accusavam eram dois, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos, para assim se purificar: do que, agastando-se El-Rey lhe disse: «que tomára elle ser um dos dois». E D. Pedro lhe respondeu: «Não fôra Vossa Alteza meu Rey, e fosse com elles o terceiro».
Não é impertinente a noticia do processo de empeçonhar as balas. Acceitemol-a do livro inedito de um Mestre de Campo do exercito de D. Pedro II: «Tomarão licoctomum, que he outra casta de aconito ou de Rozalgar (não alteramos a orthographia do texto) e Napello, dos quais espremerão o sumo com hua empressa, que se receberá em hua vazilha de vidro, precatando-se de não lhe toccar com as mãos, a qual vazilha será exposta ao sol no mez de julho por espaço de 30 dias, recolhendo-a todas as tardes ao por do sol em hua cestinha coberta e guardada em logar calido, izento de todo cheiro forte, como de alhos ou cebollas, por os tais lhe embotarem a força; e ó outro dia ao sair do sol se torne a expor n'elle a vazilha até que osumo se engrosse a modo de unguento que será pouco mais ou menos ao cabo do tempo dito; advertindo que na madrugada, antes que se tire a vazilha do cesto, para a expôr ao sol, hão de descobrir o sesto desviando-a d'elle, e o deixarão assim aberto por espaço de boa meia hora, antes de pegar na vazilha, e á tarde, antes de a arrecadar no sesto a cobriram com alguma cousa, o corpo mais desviado que poder ser. Despois tomaram trez ou quatro Rubetos que são sapos de sylvas grandes, e cheios de nodoas de varias côres, muito peçonhentos, e tanto mais o serão quando sejam apanhados em logares sombrios e frios como nos paues cheios de palha tabua. Estes serão metidos em uma vasilha de cobre de fundo redondo, capaz de os receber commodamente, com sua tapadoura que venha justamente com a boca da vazilha, que terá uma azêlha por cima pela qual poderá entrar a ponta de hua aste para delonge a poderem descobrir; ao lado da vazilha hum pouco por cima do seu fundo haverá huas cavas em forma de hua meia laranja, situado em modo de Bebedouros de Gayolas, e no meio do fundo da vazilha haverá hua fença ou abertura estreita que dará em hum segundo fundo, do mesmo metal, a modo de funil. As ditas covas a modo de Bebedouros, se encherão de oleo de Escorpião; feito o que, os sapos se meterão na vazilha que será bem e justamente coberta com sua tapadoura e assentada sobre uma trenpe, em modo que a ponta do funil do segundo fundo dê em a bocca de hua garrafa de vidro, assentada em hua tigella de agua fria, e a coisa assim desposta se fará hua cama em redondo de ladrilhos da altura da trempe que a cercará toda ao redor, na largura de dois palmos até dois palmos e meio, em cima da qual se accenderá um fogo de roda brando e moderado de carvoens afastados da vazilha um palmo, mediante o que a vazilha irá aquecendo pouco e pouco, dentro da qual os sapos sentindo a quentura não acostumada, de sequiosos e suados, arremetterão a beber o olio de Escorpião dos Bebedouros, que lhes fará bomitar toda a peçonha que dentro em si tiverem, a qual, cahindo pela abertura do fundo da vazilha no segundo fundo do funil, e deste á garrafa, continuará o fogo, no mesmo estado por espaço de 4 a 5 horas, e assim o deixarão athe o outro dia, em o qual, querendo abrir a vazilha, terão em sentido virar as costas da parte do vento, e com hua vara ou aste hum pouco comprida, que passará pela azelha da tapadoura, desviando se o corpo da vazilha, o mais que poder, a destaparão e deixarão assim aberta por espaço de outras 4 ou 5 horas, ao cabo das quaes seguramente se poderão chegar á vazilha, e recolher o veneno da garrafa, ao qual se poderá ajuntar o sumo das ervas dos aconitos dantes exprimidos, e juntamente anemona, sicuta, meimendro, mendragora, malla insana, berengella, pés de ganços de todas as castas, ranunculos, erva Moura, arsenico branco, e cerebros de rato e de gato».
É de recear que o leitor desconfie da capacidade d'este sugeito que mandava hervar as balas com succos de pés de ganço e miolos de gato e rato! Saiba, pois, que o auctor da receita foi um militar de elevada patente que exerceu em Portugal no reinado de D. Pedro II cargos importantissimos na guerra. Possuo com grande estimação dois manuscriptos ineditos de Miguel de Lescolle, que assim se chamava o Mestre de Campo. Um, é este de que trasladamos o processo de hervar as balas, e intitula-se: Recopillação de alguns fogos artificiaes, para offensa e defensa de praças, e embarcações, e de alguns outros para as alegrias e recreaçoens feitos pelo Mestre de Campo Miguel de Lescolle. O outro manuscripto, de primoroso calligrapho do começo do seculo XVIII, é:Liçoens de Artelharia recopilladas e feitas por Miguel de Lescolle, Mestre de Campo intertenido na Provincia de Entre Douro e Minho, a cujo cargo está a conservação do trem de Artelharia, Armas e Muniçoens d'ella, e as fortificaçoens das Praças de sua fronteira por mandado do snr. Marquez das Minas, dos Conselhos de Sua Alteza, Mestre de Campo general, e Governador das Armas da mesma provincia.
Um homem d'este vulto, se acreditava na peçonha dos pés de ganço e do cerebro dos ratos, é porque realmente, n'aquelles dias, a toxicologia era mais investigada que hoje.
As pessoas lidas na historia patria estão affeitas a encontrar, n'este caso da tentativa de morte contra D. João IV, que houve um denunciante de Domingos Leite, chamadoManoel da Cunha, e nãoRoque da Cunha, como eu o denomino. Arguem-me pois de inventar nomes desnecessarios á novella com aggravo da historia. É injustiça que me fazem. Todos os historiadores que o leitor conhece o enganaram involuntariamente ou por negligencia de quem fiou de mais nos seus antecessores e guias. Tenho presentes o conde da Ericeira, (Portugal restaurado) Fr. Claudio da Conceição, (Gabinete historico) D. Antonio Caetano de Sousa (Historia Genealogica da Casa Real Portugueza), Roque Ferreira Lobo, (Historia da acclamação de D. João IV) Ferdinand Denis, (Portugal Pittoresco) João Baptista de Castro, (Mappa de Portugal) o sr. Viale, (Resumo da historia de Portugal) e melhor que todos o sr. Manuel Pinheiro Chagas, (Historia de Portugal). Dizem todos invariavelmente que o delactor de Domingos Leite eraManuel Roque, porque todos invariavelmente se guiaram pelo conde da Ericeira, que escrevia 32 annos depois do successo. O mais curial seria averiguar nos escriptores coevos, e nomeadamente as relações escriptas no mesmo anno de 1647. O investigador laborioso encontraria, ácerca d'este assumpto, afóra a citada noticia deFr. Francisco Brandãoimpressa em 1647, duas mais do mesmo anno, uma deAntonio de Sousa de Macedo, e outra deD. FranciscoManuel de Mello. São duas peças declamatorias: rethorica em barda, e muita pobresa de particularidades. O documento mais precioso é do chronista-mór do reino. O conde da Ericeira não o leu; que farte revela ignorancia dos elementos que o deviam esclarecer. Diz que Domingos Leite Pereira era de Lisboa, e de familia distincta. Quanto a ser de Lisboa, claramente contradiz a affirmativa do escriptor coetaneo que o faz de Guimarães n'este trecho da sua relação:Foi o executor da maquina... Domingos Leite Pereira indigno de haver nascido na nobre e leal villa de Guimarães, que sempre abominará tão monstruoso aborto. E em outra passagem, já referida no texto, nos conta que Domingos Leite, da primeira vez que viera de Castella a Lisboa, fôra procurado em Guimarães. Pelo que respeita ao nome do traidor, em varios lanços o nomeiaRoque da Cunha, e em um d'elles, por signál, a critica de Brandão desmerece grandemente dos creditos alcançados n'outros escriptos. Senão, vejam:Dia de S. Roque, a 21 de agosto, se executou a sentença no delinquente, e o ser Roque da Cunha o companheiro que o entregou á justiça, faz crivel que por ser este Sancto um dos tutelares do reino, escolhido pelo sr. rei D. João III, de que na capella real ha particular confraria, accudiu á vingança merecida contra os legitimos reis d'esta corôa.
FIM DAS NOTAS