XXVIIIO duelloA entrevista entre o pae e o filho foi grave e terna.Antonino não dissimulou o perigo que corria, batendo-se{331}com um adversario tão habil como pouco escrupuloso.O conde disse-lhe com toda a energia viril:—Como conheces o perigo e conservas, apesar da imminencia d'elle, toda a tua presença de espirito, tens por ti o maior numero de probabilidades.Antonino não necessitava recommendar Laura a seu pae.Participou-lhe apenas a feliz nova da gravidez da sua mulher.O conde abraçou o filho, dizendo:—Mais uma probabilidade a teu favor.O visconde entregou-lhe uma carta volumosa, especie de testamento de coração, que dirigia a sua mulher.O primeiro a chegar, um pouco antes das dez horas, foi Despujolles.O dr. não podia occultar a sua inquietação.Pouco depois chegaram as duas testemunhas e o seu aspecto socegado reanimou um pouco Despujolles.Antonino subiu para uma carruagem com seu pae.As testemunhas e o medico subiram para outra.O conde desejava assistir ao duello, ainda que conservando-se completamente estranho a elle.O dia estava ennevoado, e, para a estação, um pouco frio.{332}Ligeira neblina envolvia as arvores. No espaço passava como que uma nuvem de melancholia.As duas carruagens chegaram á clareira destinada ao duello um pouco antes das onze horas.As testemunhas e o adversario d'Antonino não tinham chegado ainda. O conde não se apeiou.Apertou com força a mão do filho, quando Antonino desceu, e não pronunciou uma só palavra.Pouco depois, porém, quando o conde de Bauriac foi buscar os sabres, o velho, que tremia, não conseguiu entregar as armas á testemunha de seu filho, tanta era a sua commoção.A carruagem conduzindo Lauretto Mina, as testemunhas e o medico do theatro não se fez esperar.As quatro testemunhas approximaram-se com os chapeus nas mãos.Os dois adversarios olharam-se sem se cumprimentar.No rosto de Lauretto percebia-se uma alegria arrogante.O d'Antonino conservava-se impassivel e digno.Nobillet e Gressier, noviços e quasi incorrectos em assumptos d'aquella natureza, deixaram que Bauriac e Chazeuil fizessem o que entendessem.A escolha das armas foi tirada á sorte, conforme tinham convencionado.{333}A sorte designou os sabres de Lauretto Mina.Depois de procederem á medição das laminas, o conde de Bauriac disse para os dois adversarios:—Podem conservar as luvas de passeio, se quizerem.Mas tanto Antonino como Lauretto tinham já descalçado as luvas.Despiram os sobretudos e os casacos.As quatro testemunhas tomaram os respectivos logares.—Vamos, meus senhores, disse Bauriac.Os dois adversarios cumprimentaram-se com os sabres, e cahiram em guarda.Nos primeiros minutos como que se tactearam indecisos.Depois deram a conhecer o jogo.Antonino, solido e como que de bronze, conservava-se evidentemente n'uma calculada defensiva.Prudente e desconfiado, seguia e vigiava o jogo de Lauretto, contentando-se comparar, rapido, mas tranquillo e frio, os botes do adversario.O brilho do seu olhar implacavel causava perturbações ao tenor.Lauretto, ao contrario do visconde, esgremia com extraordinaria presteza.Parecia desconcertar-se, e até por vezes se descobria.{334}Simulava ataques imprudentes, mas coisa alguma fazia com que o visconde mudasse de tactica.O tenor, pouco depois, estava visivelmente cançado.Gotas de suor perlavam-lhe a fronte larga, onde os cabellos, d'um loiro pallido, ondeavam.O assalto durava já por vinte minutos, quando Bauriac disse:—Podem descançar, meus senhores.Lauretto vestiu o sobretudo.O visconde conservou-se em mangas de camisa, com os braços cruzados sobre o peito.Ao cabo de sete ou oito minutos, o barão de Chazeuil, olhando para Lauretto, disse-lhe:—Quando quizer.Ao segundo assalto, o tenor continuou não tendo vantagens sobre o visconde.Perguntava a si proprio se o plano d'Antonino não seria esgotar-lhe as forças, sem duvida menos resistentes do que as do athletico bretão. Mas se assim fosse o duello devia prolongar-se por muito tempo sem resultado definitivo, porque os momentos do descanço que as testemunhas concederiam aos combatentes bastavam para Lauretto se refazer.Depois de muitos minutos passados, foi ainda Bauriac quem disse:—Podem descançar.{335}O segundo descanço foi apenas de cinco minutos.Lauretto tinha quasi a certeza que Antonino atacaria n'aquelle terceiro assalto, para pôr fim ao duello.Portanto começou a esgrimir com toda a presteza, como fizera ao principio.Dirigiu um bote ao visconde, mas Antoninoparou-oeripostoucom energia.Depois conservaram-se por alguns segundos immoveis, espiando-se, tacteando os ferros, com sensivel crescimento d'irritação mutua.Repentinamente Antonino fez um movimento e cahiu a fundo, com a rapidez do raio.Laurettoparou em primaeripostou.Foi tão rapido o jogo do tenor que o visconde não teve tempo deparare foitocado..Ao mesmo tempo, porém, com um bote fortissimo, Antonino attingiu Lauretto, trespassando-o.O visconde cahiu desmaiado, e o tenor cahiu morto.Despujolles precipitou-se para Antonino, e descobriu-lhe o ferimento.—Justamente a duas polegadas da cicatriz feita por Pozzoli! disse o dr.O conde de Bizeux correu, afflicto, mas Despujolles gritou-lhe:—Socegue! d'esta vez o ferimento não é grave! D'aqui a oito dias está curado!{336}Durante esse tempo o medico do theatro constatava a morte de Lauretto Mina, que Nobillet e Gressier, aterrados, transportaram para a carruagem que os conduzira.Duas horas depois a carruagem d'Antonino parava á porta da casa da rua de Boudreau.Despujolles foi o primeiro a descer, para prevenir Laura. Logo que abriram a porta, ella correu para o medico.Felizmente, porém, o aspecto de Despujolles indicava uma alegria extraordinaria.—Ah! Antonino está vivo, não é verdade? perguntou-lhe Laura.—O que!... Pois sabia?—Adivinhei... Mas diga-me, elle está ferido?...—Está, ligeiramente. Se assim não fosse eu não estaria alegre. Já vae ver.Alguns instantes depois, Laura, ajoelhada junto do leito em que fôra deitado Antonino, que tinha entre as suas as mãos de seu pae, dizia-lhe:—Meu querido Antonino!... é a terceira vez que expões a tua vida por minha causa!—E agora abandonarás tudo por mim?—Ah! sim! E não terás completamente apenas a esposa, terás tambem a mãe!FIM{337}
A entrevista entre o pae e o filho foi grave e terna.
Antonino não dissimulou o perigo que corria, batendo-se{331}com um adversario tão habil como pouco escrupuloso.
O conde disse-lhe com toda a energia viril:
—Como conheces o perigo e conservas, apesar da imminencia d'elle, toda a tua presença de espirito, tens por ti o maior numero de probabilidades.
Antonino não necessitava recommendar Laura a seu pae.
Participou-lhe apenas a feliz nova da gravidez da sua mulher.
O conde abraçou o filho, dizendo:
—Mais uma probabilidade a teu favor.
O visconde entregou-lhe uma carta volumosa, especie de testamento de coração, que dirigia a sua mulher.
O primeiro a chegar, um pouco antes das dez horas, foi Despujolles.
O dr. não podia occultar a sua inquietação.
Pouco depois chegaram as duas testemunhas e o seu aspecto socegado reanimou um pouco Despujolles.
Antonino subiu para uma carruagem com seu pae.
As testemunhas e o medico subiram para outra.
O conde desejava assistir ao duello, ainda que conservando-se completamente estranho a elle.
O dia estava ennevoado, e, para a estação, um pouco frio.{332}
Ligeira neblina envolvia as arvores. No espaço passava como que uma nuvem de melancholia.
As duas carruagens chegaram á clareira destinada ao duello um pouco antes das onze horas.
As testemunhas e o adversario d'Antonino não tinham chegado ainda. O conde não se apeiou.
Apertou com força a mão do filho, quando Antonino desceu, e não pronunciou uma só palavra.
Pouco depois, porém, quando o conde de Bauriac foi buscar os sabres, o velho, que tremia, não conseguiu entregar as armas á testemunha de seu filho, tanta era a sua commoção.
A carruagem conduzindo Lauretto Mina, as testemunhas e o medico do theatro não se fez esperar.
As quatro testemunhas approximaram-se com os chapeus nas mãos.
Os dois adversarios olharam-se sem se cumprimentar.
No rosto de Lauretto percebia-se uma alegria arrogante.
O d'Antonino conservava-se impassivel e digno.
Nobillet e Gressier, noviços e quasi incorrectos em assumptos d'aquella natureza, deixaram que Bauriac e Chazeuil fizessem o que entendessem.
A escolha das armas foi tirada á sorte, conforme tinham convencionado.{333}
A sorte designou os sabres de Lauretto Mina.
Depois de procederem á medição das laminas, o conde de Bauriac disse para os dois adversarios:
—Podem conservar as luvas de passeio, se quizerem.
Mas tanto Antonino como Lauretto tinham já descalçado as luvas.
Despiram os sobretudos e os casacos.
As quatro testemunhas tomaram os respectivos logares.
—Vamos, meus senhores, disse Bauriac.
Os dois adversarios cumprimentaram-se com os sabres, e cahiram em guarda.
Nos primeiros minutos como que se tactearam indecisos.
Depois deram a conhecer o jogo.
Antonino, solido e como que de bronze, conservava-se evidentemente n'uma calculada defensiva.
Prudente e desconfiado, seguia e vigiava o jogo de Lauretto, contentando-se comparar, rapido, mas tranquillo e frio, os botes do adversario.
O brilho do seu olhar implacavel causava perturbações ao tenor.
Lauretto, ao contrario do visconde, esgremia com extraordinaria presteza.
Parecia desconcertar-se, e até por vezes se descobria.{334}
Simulava ataques imprudentes, mas coisa alguma fazia com que o visconde mudasse de tactica.
O tenor, pouco depois, estava visivelmente cançado.
Gotas de suor perlavam-lhe a fronte larga, onde os cabellos, d'um loiro pallido, ondeavam.
O assalto durava já por vinte minutos, quando Bauriac disse:
—Podem descançar, meus senhores.
Lauretto vestiu o sobretudo.
O visconde conservou-se em mangas de camisa, com os braços cruzados sobre o peito.
Ao cabo de sete ou oito minutos, o barão de Chazeuil, olhando para Lauretto, disse-lhe:
—Quando quizer.
Ao segundo assalto, o tenor continuou não tendo vantagens sobre o visconde.
Perguntava a si proprio se o plano d'Antonino não seria esgotar-lhe as forças, sem duvida menos resistentes do que as do athletico bretão. Mas se assim fosse o duello devia prolongar-se por muito tempo sem resultado definitivo, porque os momentos do descanço que as testemunhas concederiam aos combatentes bastavam para Lauretto se refazer.
Depois de muitos minutos passados, foi ainda Bauriac quem disse:
—Podem descançar.{335}
O segundo descanço foi apenas de cinco minutos.
Lauretto tinha quasi a certeza que Antonino atacaria n'aquelle terceiro assalto, para pôr fim ao duello.
Portanto começou a esgrimir com toda a presteza, como fizera ao principio.
Dirigiu um bote ao visconde, mas Antoninoparou-oeripostoucom energia.
Depois conservaram-se por alguns segundos immoveis, espiando-se, tacteando os ferros, com sensivel crescimento d'irritação mutua.
Repentinamente Antonino fez um movimento e cahiu a fundo, com a rapidez do raio.
Laurettoparou em primaeripostou.
Foi tão rapido o jogo do tenor que o visconde não teve tempo deparare foitocado..
Ao mesmo tempo, porém, com um bote fortissimo, Antonino attingiu Lauretto, trespassando-o.
O visconde cahiu desmaiado, e o tenor cahiu morto.
Despujolles precipitou-se para Antonino, e descobriu-lhe o ferimento.
—Justamente a duas polegadas da cicatriz feita por Pozzoli! disse o dr.
O conde de Bizeux correu, afflicto, mas Despujolles gritou-lhe:
—Socegue! d'esta vez o ferimento não é grave! D'aqui a oito dias está curado!{336}
Durante esse tempo o medico do theatro constatava a morte de Lauretto Mina, que Nobillet e Gressier, aterrados, transportaram para a carruagem que os conduzira.
Duas horas depois a carruagem d'Antonino parava á porta da casa da rua de Boudreau.
Despujolles foi o primeiro a descer, para prevenir Laura. Logo que abriram a porta, ella correu para o medico.
Felizmente, porém, o aspecto de Despujolles indicava uma alegria extraordinaria.
—Ah! Antonino está vivo, não é verdade? perguntou-lhe Laura.
—O que!... Pois sabia?
—Adivinhei... Mas diga-me, elle está ferido?...
—Está, ligeiramente. Se assim não fosse eu não estaria alegre. Já vae ver.
Alguns instantes depois, Laura, ajoelhada junto do leito em que fôra deitado Antonino, que tinha entre as suas as mãos de seu pae, dizia-lhe:
—Meu querido Antonino!... é a terceira vez que expões a tua vida por minha causa!
—E agora abandonarás tudo por mim?
—Ah! sim! E não terás completamente apenas a esposa, terás tambem a mãe!
FIM{337}