—Se não podes dar-me vida, Alvaro—dizia ella—que vem aqui fazer esta gente, a quem o espectaculo da dor enfada?! Cuidas tu que os move a piedade d'este meu estado? Deixa de ser a candida alma, que tens sido, meu primo! Estas familias, que vieram a um teu aceno, souberam que eu vivia miseravel nos Olivaes, e encarregavam-se de exaltar a Providencia Divina, dizendo que eu estava expiando; e, como o valerem-me seria contrariar a vontade de Deus, abandonaram-me... Se me eu tivesse esvaido de sangue n'aquella casinha, onde o nosso fatal anjo te encaminhou, estes parentes, obrigados a fallarem de mim a quem lhes perguntasse a razão do seu lucto, diriam que o meu fim desastrado tinha sido o natural remate das minhas loucuras. Por que não estudaste o mundo, Alvaro? Quando te eu ralava o coração de desgostos, se tu cedesses á curiosidade interesseira do mundo que te chamava, serias a esta hora feliz!...
—Feliz!...—atalhou Alvaro, contemplando Leonor, e cuidando vêl-a formosa, como a tinha amado, quando amava e esperava.
—Feliz, sim; terias odiado, e esquecido a tua pobre Leonor... Se a visses infamada, e perdida nos mais baixos sedimentos da sociedade, passarias por ella, sem que o pejo te dissesse que era nobre estender-me a tua mão. A sociedade não ousaria dizer-te: «valha áquella mulher!» porque a sociedade, se censurasse a tua indiferença la fóra, ao pisar os tapetes das tuas escadas, subiria estudando phrases de louvor á tua probidade. E tu, meu Alvaro, louvado e querido em particular e em publico, andarias feliz e convencido de tua honra. Muita gente diria de ti: «E tão nobre que nem falla d'ella, nem dá margem a que lhe fallem. Os seus amigos, com medo de lhe ferirem o nobre coração, não se atrevem a pedir-lhe que dê as migalhas da sua toalha a Leonor.» E não eras tu assim tão venturoso, Alvaro?! De que te ha servido a tua riqueza? Poderás dizer-me que tens remediado a pobreza de muita gente, principiando por mim e acabando por essas famílias indigentes, cujas bençãos te enchem a alma de thesouros do céo. Pois sim; mas que contentamento é esse da alma, que te não transparece no rosto?! Por que te vejo eu sempre triste?! Por que não ha-de a virtude ostentar as exterioridades de jubilo, que eu muitas vezes senti, sendo tão culpada e contando tantas horas cortadas de desgostos?
Alvaro reprimiu a resposta que, repulsa dos lábios, fallou em lagrimas. Leonor tomou-lhe as mãos com estremecimento carinhoso, e disse-lhe:
—Por que é, meu querido primo? Por que te não dá Deus a felicidade que mereces?
—Dá, minha Leonor...—balbuciou o internecido moço—Dá... é a tua amisade... são as melhores lagrimas do teu coração... Que lhe tenho eu pedido? N'aquelle tempo em que eu olhava para esta época, e te via continuando a estação de felicidade que minha santa mãe me trouxera do seu carcere... n'aquelle tempo, Leonor, gozei horas de alegria celestial... Eu, sem ti, não sabia recordal-as, e nem o bem da saudade me era dado. Agora, quer Deus que a minha alma se alumie á luz dos meus dias alegres... pallida luz, como a da lampada do sacrario ao amanhecer... mas, aqui estou vendo os olhos, que me viram feliz... E tu, Leonor, o teu espirito vive e falla... O melhor de ti era o sentimento que hontem acordou... e a amisade sem os dissabores da paixão... N'aquelle tempo...
—Oh! por piedade, cala-te, Alvaro!...—atalhou Leonor, afogada de soluços...—Não me castigues tu, meu anjo de desgraça e de compaixão...
....Já dava no rosto a friagemda noite da eternidade; só faltava regelarde todo... e cahir.
A. F. DE CASTILHO (Fr. F. deMonte-Alverne).
Leonor, ao cabo de dous annos de padecer, difficultosamente sahia do leito. A extrema fraqueza e tremor espasmodico das pernas seguiu-se a paralysia, e a inteira inactividade. Se a tiravam do leito, transferiam-na a uma poltrona de rodas, que Alvaro com sua mão conduzia a uma varanda envidraçada, onde Leonor ficava horas embebecida nas bellezas do céo, e do valle de Santarem. Duas maravilhas então occorreram: nunca mais Leonor se lastimou da sua desgraça. E se acontecia Maria ou Alvaro olharem-na com piedade, sorria ella, e dizia:
—O espirito é feliz; e as dôres abrandaram muito, desde que metade do corpo morreu. Vejo-me meia morta, e não me aterro.
A outra maravilha foi o remoçar-se-lhe o rosto, até á formosura que ella naturalmente conservaria, com vida quieta e bonançosa, nos seus vinte e nove annos. A nutrição encheu-lhe os sulcos das faces; a pelle amaciou-se e restaurou a antiga alvura; volveram as cores purpurinas, e contornou-se o oval do rosto. Eufemia esmerava-se em toucal-a, em quanto ella, sorrindo, dizia:
—Queres por força que a morte se namore de mim!
Alvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e extasiava-se nos olhos d'ella; mas que amargura elle escondia n'aquelles extasis!
—Vejo os teus dezoito annos, Leonor!—disse-lhe elle um dia.
—Valho hoje mais, Alvaro! Perdi meio corpo, e ganhei o coração!—respondeu ella—A primeira paralysia era a peor...
Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe:
—Vaes ouvir-me, sem sobresalto, meu Alvaro. Eu tenho até hoje escondido de ti o unico segredo, que devia esconder—a sensivel aproximação do meu fim.
—Que é, minha mãe?!—exclamou o filho, correndo a abraçal-a.
—Não é isso o que eu te pedi, Alvaro!... Escuta-me com socego: sê até ao meu ultimo dia o homem forte. Pedi ao meu medico que nunca te revelasse a minha molestia, depois que lhe arranquei a confissão de que ella é incuravel. Eu morro do coração. Os rebates d'esta dolorosa doença senti-os no meu primeiro anno de convento. A minha vida tem sido um milagre. Quiz Deus por intercessão das almas que me presaram, que eu chegasse até aos teus vinte e sete annos, filho. E choras como aos dez, Alvaro! e tiras-me assim as forças de que eu tanto carecia para te dizer o fim para que te chamei!...
—Diga, minha mãe...—atalhou Alvaro com simulada quietação.
—Pois, sim; socega, escuta-me, filho... Que farás tu, depois da minha morte? Em que destino tens tu pensado? Assistirás á agonia de Leonor, ou acabarás por pedir ao mundo um quinhão do contentamento qualquer que te compense da triste vida que tens vivido!? Acharás um dia uma esposa com o coração de tua mãe, ou ficarás esperando a tua hora final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te amortalhará, meu pobre Alvaro!?
—Hei-de eu amortalhar-me, minha mãe—respondeu elle tranquillamente após alguns instantes de concentração—Agora, rogo-lhe, por quanto amor lhe tenho, que me não faça mais perguntas.
No dia seguinte, pediu licença a sua mãe, e foi Alvaro a Lisboa. Apresentou-se ao cardeal-patriarcha, e demorou-se algumas horas em pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa, e voltou ao valle. No caminho encontrara o medico de sua mãe, e, como quem ouvira da enferma o terrivel segredo, obteve do medico a confirmação d'uma breve morte. Era a doença um scirro no coração, já em seu periodo final.
Alvaro encontrou sua mãe animada, fóra do leito, ouvindo Leonor, que lia os manuscriptos de seu primo, na maior parte traducções, feitas no collegio. A que ella estava lendo, era a do «Cura do Wakefield» de Goldsmith. Reviam lagrimas suaves os olhos de ambas, quando Leonor lia o XXIX capitulo que eu inculco muito d'alma a todos os desgraçados, e que vem assim intitulado:Demonstração da equidade da Providencia para com felizes e infelizes. Resulta da propria natureza do prazer e da dôr, que os desgraçados devem encontrar na vida futura compensação dos seus soffrimentos.
Alvaro não consentiu que Leonor fechasse o manuscripto, e sentou-se a ouvil-a, até estas linhas que a leitora já lêra a custo, de turvada que tinha a vista por lagrimas: «A morte nada é, e todo homem póde mostrar-lhe rosto sereno; mas os tormentos é que são provações horriveis, que poucos sabem supportar.»
—Não leias mais, filha...—disse Maria da Gloria—conta-nos o que fizeste em Lisboa, Alvaro... Devia de parecer-te nova a cidade! Ha tres annos que lá não tinhas ido!... Com quem fallaste, filho?
—Com poucas pessoas, minha mãe. Passados dias, tenho de me lá demorar algum tempo para negocios nossos.
—Algum tempo!—disse Leonor—e com que placidez de espirito dizes isso, primo! Pois tu deixas-nos por algum tempo!? E podes, Alvaro?
—São sacrificios necessarios, minha prima. Eu hei-de aligeirar a minha demora o mais que possa...
—Soubeste—atalhou Maria—se teem sido cumpridas as nossas determinações?
—As mezadas?... tem sido pontualmente pagas, minha mãe... Parece-me que a vejo reanimada!...
—Estou, filho... Por que te admiras?! No final das jornadas parece que o vigor do caminhante se recobra para maior caminho. A esperança é tudo, meu Alvaro, e, a morte é nada... não o ouviste ainda agora?
Nos tres dias consecutivos, Maria padeceu muito, e perguntou placidamente ao seu medico se seria chegado o termo. Não era. As dôres abrandaram; e o descanço de alguns dias faria reviver esperanças a quem as tivesse vivas e anciosas no espirito.
Leonor, desde que sua tia acamou, pediu que lhe não dessem outro local, senão o quarto d'ella; Alvaro entregou-lhe á sua vigilancia a mãe, e foi para Lisboa.
Ao termo de quatro dias, foi chamado por uma carta de Leonor, atribulada pelo receio de ver morrer sua tia, posto dizer a enferma que não morreria sem ver seu filho, com um ar de certeza e contentamento que parecia instincto do céo. Em carta, escripta de seu proprio punho ao filho, dizia ella: «não te apresses nem alvoroces, filho, que eu pão morro sem te dar o ultimo suspiro.»
A tempo foram as cartas de estar cumprida a diligencia que o levara a Lisboa. Sem respiro, transpoz Alvaro as doze leguas que o separavam de sua moribunda mãe. Diziam as criadas, e Leonor com ellas, que Maria da Gloria, sem delirio nem fraqueza de espirito, horas antes da chegada do filho, estava sempre dizendo, com sombra de jubilo, estas e outras exclamações:
—Como elle vem triste; mas que linda é a sua auréola de justo!
—O senhor condoeu-se da mãe innocente, e deu-lhe aquelle filho. Bemdito seja o Senhor no improfundavel mysterio dos seus juizos!
Foi Aivaro offegante ao quarto de sua mãe, que tinha a cabeça encostada ao peito de Eufemia, e os olhos postos no crucifixo. Maria, ao vêr o filho, nem sequer se aterrou no rosto, a não ser o sorriso instantaneo, que se abriu, na custosa articulação d'estas palavras:
—Não te disse eu que não era pressa, filho? Estou agora socegada; e, se assim morrer, suave é a morte. Tinham-me dito que o morrer d'este mal era horrivel de agonias! Deus faz o que os medicos não sabem... Estás fatigado, Alvaro? Vai descançar... Almoçaste, filho? Vai tratar d'elle, Eufemia... A nossa Leonor, coitadinha, não póde ir... A tua irmã querida... Deixo-t'a como filha.
—Eu vou comtigo, Alvaro?—disse com muita doçura Leonor—Ajuda-me? levas comtigo este meu esquife?
—A mãe quer estar sósinha?—disse Alvaro.
—Quero, filho: está ahi o meu confessor...
Sahiram da camara, e acharam fóra o confessor e o medico. O segundo pediu venia ao medico da alma para vêr a doente. Demorou-se instantes, e disse ao padre:
—Agora é toda sua a missão. Eu não venho em cata de esperanças; vinha espantar-me da serenidade da moribunda.
Depois de confessada, preparou-se o quarto para a recepção do Sagrado Viatico.
Alvaro, quando soube que sua mãe ia ser ungida, entrou no quarto, beijou-lhe a mão com torrentes de lagrimas, e pediu-lhe licença para vir da igreja acompanhando o Senhor. Maria fez um gesto de gostoso assentimento.
Soava já o toque lugubre da campainha, e o «bemdito» do povo, que acompanhava a extrema-unção. Os servos da casa ajoelharam na ante-camara da agonisante. Leonor estava já aos pés do leito, n'um recanto escuro, com as mãos erguidas.
Entrou o ostiario, e ao lado d'elle um outro sacerdote com as ambulas dos santos-oleos.
Ouviu-se um ai agudo, e o nome de Alvaro proferido com espanto. Leonor reconheceu-o, Maria descerrou as palpebras, e balbuciou:
—Não está aqui meu filho!?
E o levita, que entrára a par do vigário, aproximou-se da cabeceira do leito, e disse:
—Aqui estou, minha mãe.
Maria da Gloria estremeceu, estendeu os braços ao vulto que fallára na voz de seu filho, abriu a boca para deixar sahir a respiração convulsa, correu as mãos na face de Alvaro, que se aproximára da sua, e pôde exclamar:
—Tu!... Alvaro!... tu!... ministro de Jesus!
—Já vê que fico amortalhado, minha santa mãe...—disse o padre Alvaro.
Maria poz as mãos, cerrou os olhos, e murmurou:
—Infinitas graças, meu divino Senhor! Bemdito seja o vosso nome, Virgem Mãe de Jesus! Joanna das Cinco Chagas, santa, filha escolhida do meu Deus! pede um raio da tua gloria para a alma da tua serva!
Ajoelharam todos. Maria commungou, e foi ungida. Terminada a ceremonia, e desempedido o quarto, a moribunda acenou ao filho, que continuava de joelhos. Alvaro foi, e curvou-se sobre o leito, applicando-lhe o ouvido aos labios. Os labios de Maria já não tinham palavras; se estavam ainda quentes, era o calor do ultimo suspiro. Tomou-o Alvaro no coração quando a boca se entre-abria proferindo a palavra «mãe!»
Fez-se o terror do silencio alli n'aquelle quarto. Ninguem se desafogou em gritos, porque era de todos a dôr que os afoga na garganta.
Oublie-toi! dévoue-toi! sacrifie-toi!
J. SIMON (Le devoir.)
E não ha um remançoso abrigo onde saiam a repousar-se e a deleitar-nos estes desafortunados dos prazeres reaes da vida!
De força ha-de o animo do leitor compenetrar-se dos regalos intimos da virtude, para entender que a virtude é boa?
Quando raiará o dia de felicidade para Alvaro?
Quando entardeceu o dia de contentamento para Maria da Gloria?
Peccaminosa pergunta, se o leitor duvida das consolações mysteriosas com que Deus acode e se amerceia dos que o confessam e chamam nas atribulações.
Que ante gosto da bemaventurança não provou Maria, abraçando aquella mortalha de seu filho! Que suave doer, e dulcissimo anhelar a Deus não será o d'aquelle levita na correnteza dos annos, de penitencia voluntaria, e de evangelica abnegação? Não duvidemos: abaste-nos o orgulho da nossa miseria, e não façamos do nosso scepticismo um cadafalso injurioso á dor e á fé. Se em volta de nós não vemos senão imagens nossas, e almas aferidas no padrão vulgar; se a nossa idéa do prazer a aceitamos do vulgo, remodelada nas suas apreciações; será justo que não desdenhemos a felicidade que nos fica incomprehensivel áquem da baliza onde o curto alcance do espirito viciado nos leva.
Se Alvaro foi feliz?! Perguntemos a Deus se os seus martyres correm n'este mundo os estadios de suas dores, sem que a luz ineffavel de seus olhos os não guie ao horisonte da bemaventurança, assignalado pela cruz! E o caminhar sem desvio nem tropeços á patria infinita que nome tem, se não é a felicidade suprema?
Oito dias depois do trespasse de Maria da Gloria, padre Alvaro fallou a sua prima, n'um tom de voz e magestade de postura, que denotava a mudança do homem, ou o esforço d'elle sobre o coração do homem amortalhado.
—Leonor—disse elle—bem me vês: vesti-me assim para a mim me vêr e convencer de que tudo se acabou para mim, menos a vida da alma e as voluntarias mortificações do meu sacrificio. Este caminho é o das alegrias da virtude, por elle irei indo ao lado da sombra de minha mãe, até me identificar com a luz da sua gloria. Se errar o passo dificultoso, a santa pedirá por mim ao Pae compassivo dos que se levantam da queda, chorando. Aqui tens o amigo da tua infancia, minha prima: os teus infortunios ganharam para sempre a dedicação, que a tua paciencia merece, e me ensina a praticar. Deus perdoar-me-ia se te eu agora contasse a longa historia, os longos trabalhos que me custou o morrer do coração. Tu é que me não desculparias a inutil crueza de te dar um espectaculo de angustias, que eu de mim proprio forcejava por esconder. Lá vai tudo. Agora, perdão e paz. Nem lagrimas me dês ás cinzas da paixão desgraçada! Escuta, Leonor, tu tens nos Olivaes uma casa em ruinas. Venho-te pedir que m'a cedas para os dias todos da minha vida.
—A casa é tua, Alvaro; é teu tudo quanto o mundo chamava meu...
—Não sei se eram minhas as ruinas dos Olivaes, Leonor; sei que sinto prazer em pedir-t'as.
—E poderemos alli viver, Alvaro?—atalhou Leonor.
—Eu viverei.
—Tu! e eu não, meu primo?!
—Não, Leonor—respondeu o padre com um ar de firmeza, que não animava a ser contrariado—Ficas aqui, com as criadas de minha mãe, senhora d'estes nadas que pouco importam á tua triste existencia; mas o teu lugar é este onde recende ainda o perfume da mulher virtuosa, que nos levou a Deus a conta das nossas lagrimas.
—E queres que eu aqui fique, Alvaro? não poderei pedir-te que me deixes escolher outra residencia? Respeitarás, ou terás piedade do coração que t'a pede, do coração que não morreu ainda?
—Escolhe, Leonor; quererás voltar a Lisboa? queres antes viver na casa que lá temos?
—Não, meu primo. Dá-me uma cella n'um convento, e uma criada, que me sirva.
—E a chorar me pedes um convento, Leonor?
—Quem deixaria de chorar a esta hora, Alvaro!...
—Eu, bem vês.
—Tu, sim, primo... Só podiam ser do coração as tuas lagrimas!...
—Não são, não devem ser...—Alvaro concentrou-se, levantou ao céo os olhos, e continuou:
—Irás para um convento, deixando-me sem condições a licença de regular a tua casa. As criadas de minha mãe irão comtigo, menos Eufemia, que me embalou o berço, e me ha-de fechar o caixão. Ámanhã iremos para Lisboa. Se, durante a noite a reflexão alterar o teu proposito, dir-m'ohas, Leonor.
No proximo dia, sahiu Leonor com as suas criadas para Lisboa. O padre Alvaro anticipou-se algumas horas, e foi em direitura ao convento de Santa Joanna, e d'alli ao conseguimento das licenças ecclesiasticas para a reclusão de sua prima.
N'esse mesmo dia, entrou Leonor de Brito no mosteiro de franciscanas, e depós ella uma sumptuosa mobilia.
O padre abraçou-a no portico do convento, e disse-lhe:
—A paciencia faz os anjos: pedirás a Deus por mim, quando te sentires alumiada da graça que fortalece e santifica.
Leonor soluçava em gemidos, que lhe tomavam a voz. Alvaro pôz-lhe a mão de leve no rosto, e murmurou:
—Não sejam as ultimas que chores por saudade de nossa mãe... Nossa, de certo, minha irmã!... Juntos seremos em cada prece que ella fizer a Deus.
Alvaro cortejou a prioreza e outras religiosas que assistiam á entrada de Leonor, e sahiu.
No mesmo dia, foi o padre para as ruinas dos Olivaes, onde Eufemia o estava esperando. Em quanto fazia habitavel uma parte do edificio alluido, viveu na casinha, onde encontrara Leonor esvaida de sangue. Reconstruída uma pequena porção do palacio, transferiu-se para lá, e decorou-a com parte dos moveis, que conhecia desde a sua infancia em casa de Sebastião de Brito. Entre estes objectos, de sua casa levara apenas o leito em que morrera sua mãe, e o retrato de João de Mattos.
Os bens de fortuna de padre Alvaro Teixeira eram ainda grandes. Adjudicou a maior parte d'elles ao tratamento de Leonor, e a pensões de algumas religiosas necessitadas do convento d'ella. Para si tomou uma pequena parte dos rendimentos de um capital, que doara a Eufemia. Dizia elle muitas vezes á velha criada «que estava vivendo da beneficencia d'ella.»
Este viver assim durou desde 1839 até 1859. Vinte annos!
N'este longo termo, quando alguem acertava de perguntar por aquelle exquisito Alvaro Teixeira, os melhores informadores diziam em tom de plangente hypocrisia que o pobre moço endoudecera. Lembrem-se do que a tal respeito o sacerdote me disse. Como ninguem soubesse atinar com a razão d'aquella virtude, os mais cordatos chamavam-lhe misanthropia, e os poetas achavam-no digno de ser cantado; mas ninguem cantou o heroe obscuro: a piedade era assumpto mingoado para o estro ambicioso dos romanticos d'aquella época. Esqueceu, por tanto, Alvaro Teixeira amortalhado no seu habito.
É de crêr que lêsse muito, porque a sua instrucção era admiravel, e que soffresse muito porque os seus quarenta e cinco annos eram a decrepidez.
Visitava Leonor ás temporadas, e a secular de Santa Joanna vinha á grade, transportada na sua poltrona de rodas, e chorava a cada traço novo de extemporanea velhice, que divisava no rosto de Alvaro.
Algumas vezes supplicou-lhe que a deixasse ir estar com elle, algum tempo, nas suas ruinas. Alvaro respondia que o seu pacto com ella era encontrarem-se na presença de Deus.
Tinha o padre um amigo em Lisboa; era o seu mestre de inglez, aquelle homem que assistiu commigo ao sublime espectaculo da morte do justo. Accrescentado pelas liberalidades do sacerdote, o professor abandonara o officio, e chegara a merecer por suas virtudes uma distincta posição entre os homens uteis d'este paiz. Se elle tivesse passado, e se a gloria da virtude não fosse a modestia, eu escreveria aqui o nome do amigo digno de Alvaro Teixeira.
Não sei que mais lhes possa dizer da vida d'aquelle padre dos Olivaes. Recordem os primeiros capitulos, e suave lhes será relembrar os santos dictames d'aquella boca ungida das lagrimas que lhe sulcavam o rosto venerando.
Já sabem porque elle se esquecia contemplando a janella fronteira das suas ruinas. N'aquella janella ouvira elle, em noite de baile, vinte e nove annos antes, as palavras de Leonor com que o seu amor inflorára a garganta do abysmo onde cahira entre os braços da piedade e da honra. Tambem se lembram da rapida sabida, que elle fez para Lisboa, ao annunciarem-lhe a agonia de Leonor.
Eu fui ao convento de Santa Joanna, e perguntei a historia dos ultimos instantes da entrevada. Disseram-me, debulhadas em pranto as religiosas, que a morte de Leonor fora o remate de um colloquio com o espirito de Maria da Gloria. E, como eu me detivesse em amiudar os pormenores d'este vago dizer, tiveram as senhoras a bondade de me contar que o rosto de Leonor, nos seus ultimos mezes, brilhava de um resplendor, que não era natural; e, ao sahir d'aquelles extasis, dizia ás suas amigas que estivera vendo no céo a imagem de sua tia. N'um d'estes arrobamentos é que Leonor expediu o espirito, dizendo estas palavras: «Abre-nos o teu seio, santa! leva para ti os teus dous filhos, e não me lances de ti, que as minhas lagrimas purificaram-me.»
Eu quiz, não por duvidar, mas por escrupulo, combinar dous factos inconciliaveis.
—Se Leonor morreu de repente, como foi avisado o padre Alvaro de que ella estava em agonia da morte?
—Não se lhe deu tal aviso;—respondeu a prioreza—Leonor, na vespera do seu trespasse, tinha dito que, se o seu primo não viesse vêl-a até ás quatro horas do dia seguinte, só na presença de Deus a veria, Ora, nós tanta confiança tinhamos nas previsões da virtuosa senhora, que nos apressamos a chamal-o.
—Deu-se, por tanto um milagre!—atalhei eu.
—Milagre foi, louvado seja por isso o Senhor, que escolheu a sua serva para nos edificar—respondeu a prelada—O padre Alvaro chegou minutos depois da hora que ella dissera.
—Serei importuno fazendo mais uma pergunta?
—Queira dizer.
—Leonor tinha reminiscencias magoadas, ou mesmo saudosas d'um passado, anterior a trinta annos?
—Não sabemos—respondeu promptamente a prioreza—o que podemos dizer-lhe é que Leonor, logo que entrou n'esta casa, quiz que as suas criadas lhe chamassem Magdalena.
Pensei na palavra, e puz ponto na minha curiosidade.
Já fóra da portaria do convento, meditei no que teriam sido vinte annos de horrivel immobilidade, de paralysia, com o coração vivo, e o fogo da indole e do instincto inextinguivel n'elle. Não me entendia com o mysterio de semelhante conversão.
Alheado n'estes pensamentos ingratos e inconcludentes, ouvi uns sons de orgão, cuja toada vinha do templo do mosteiro. Retrocedi, entrei na igreja, ajoelhei, orei, e tudo comprehendi, encarando no retabulo de um dos altares. Era o painel significativo da contrição de S. Pedro; e, á orla inferior, li estas palavras:Flevit amàre: CHOROU AMARGAMENTE.
Os infelizes chorem, que á ultima lagrima da penitencia segue-se a primeira da santificação.