XIII

—Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus, senhor parocho! exclamou Amelia rompendo n'um chôro nervoso.—Não chore, disse elle tomando-lhe suavemente a mão entre as suas, muito tremulas. Escute, abra-se commigo... Vá, esteja socegada, tudo se remedeia. Não ha banhos publicados... Diga-lhe que não quer casar, que sabe tudo, que o odeia...Esfregava, apertava devagarinho a mão d'Amelia. E subitamente, com voz d'um ardor brusco:—Não se importa com elle, não é verdade?Ella respondeu muito baixo, com a cabeça cahida sobre o peito:—Não.—Então, ahi tem! fez excitado. E diga-me, gosta d'outro?Ella não respondeu, com o peito a arfar fortemente, os olhos dilatados para o lume.—Gosta? diga, diga!Passou-lhe o braço sobre o hombro, attrahindo-a dôcemente. Ella tinha as mãos abandonadas no regaço; sem se mover voltou devagar para elle os olhos resplandecentes sob uma nevoa de lagrimas, e entreabriu devagar os labios, pallida, toda desfallecida. Elle estendeu os beiços a tremer—e ficaram immoveis, collados n'um só beijo, muito longo, profundo, os dentes contra os dentes.—Minha senhora! minha senhora! gritou de repente, n'um terror, a voz daRuça, dentro.Amaro ergueu-se d'um salto, correu ao quarto da entrevada. Amelia estava tão tremula, que precisou encostar-se á porta da cozinha um momento, com as pernas vergadas, a mão sobre o coração. Recuperou-se, desceu a acordar a mãe.Quando entraram no quarto da idiota, Amaro ajoelhado, com a face quasi sobre o leito, rezava: as duas senhoras rojaram-se no chão; uma respiração accelerada sacudia o peito, as ilhargas da velha; e á medida que o arquejo se tornava mais rouco, o parocho precipitava as suas orações. Subitamente o som agonisante cessou: ergueram-se: a velha estava immovel, com os bugalhos dos olhos sahidos e baços. Expirára.O padre Amaro trouxe logo as senhoras para asala;—e ahi a S. Joanneira, curada, pelo choque, da sua enxaqueca, desabafou, em accessos de chôro, recordando o tempo em que a pobre mana era nova, e que bonita era! e que bom casamento estivera para fazer com o morgado da Vigareira!...—E o genio mais dado, senhor parocho! Uma santa! E quando a Amelia nasceu, e que eu estive tão mal, que não se tirou de ao pé de mim, noite e dia!... E alegre, não havia outra... Ai, Deus da minha alma, Deus da minha alma!Amelia, encostada á vidraça na sombra da janella, olhava entorpecida a noite negra.Bateram então á campainha. Amaro desceu, com uma vela. Era João Eduardo, que ao vêr o parocho áquella hora na casa,—ficou petrificado, junto da porta aberta; emfim balbuciou:—Eu vinha saber se havia novidade...—A pobre senhora expirou agora mesmo...—Ah!Os dois homens olharam-se um instante fixamente.—Se eu sou preciso para alguma coisa... disse João Eduardo.—Não, obrigado. As senhoras vão-se deitar.João Eduardo fez-se pallido da coléra que lhe davam aquelles modos de dono da casa. Esteve ainda um momento, hesitando—mas vendo o parocho abrigar a luz, com a mão, contra o vento da rua:—Bem, boa noite, disse.—Boa noite.O padre Amaro subiu:—e depois de deixar as duas senhoras no quarto da S. Joanneira (porque, cheias de terror, queriam dormir juntas), voltou ao quarto da morta, despertou a vela sobre a mesa, accommodou-se n'uma cadeira, e começou a lêr o Breviario.Mais tarde, quando toda a casa estava silenciosa, o parocho, sentindo o somno entorpecel-o, veio á sala de jantar; reconfortou-se com um calix de vinho do Porto que achára no aparador; e saboreava regaladamente o cigarro, quando ouviu na rua passos de botas fortes que iam, vinham, por baixo das janellas. Como a noite estava escura não pôde distinguir «o passeante».—Era João Eduardo que rondava a casa, furioso.XIIIAo outro dia cedo, a snr.aD. Josepha Dias que entrára, havia pouco, da missa, ficou muito surprehendida, ouvindo a criada que lavava as escadas dizer de baixo:—Está aqui o senhor padre Amaro, snr.aD. Josepha!O parocho ultimamente raras vezes vinha a casa do conego; e D. Josepha gritou logo lisonjeada e já curiosa:—Que suba para aqui, não é de ceremonia! É como de familia. Que suba!Estava na sala de jantar, arranjando n'uma travessa ladrilhos de marmelada, com um vestido de hareje preto esgaçado na ilharga e arqueado em redor dos tornozelos por umacrinolined'um só arco;trazia n'essa manhã oculos azues; e foi logo ao patamar, arrastando os seus medonhos chinelos d'ourêlo, e preparando, por debaixo do lenço preto repuxado sobre a testa, um ar agradavel para o senhor parocho.—Ora ditosos olhos! exclamou. Eu entrei ha bocadinho, e já cá tenho a primeira missinha. Fui hoje á capella de Nossa Senhora do Rosario... Disse-a o padre Vicente. Ai! e que virtude que me fez hoje, senhor parocho! Sente-se. Ahi não, que lhe vem ar da porta... E então a pobre entrevada lá se foi... Conte lá, senhor parocho...O parocho teve de descrever a agonia da entrevada, a dôr da S. Joanneira; como depois de morta a face da velha parecera remoçar; o que as senhoras tinham decidido a respeito da mortalha...—Aqui para nós, D. Josepha, é um grande allivio para a S. Joanneira...—E de repente, puxando-se para a beira da cadeira, assentando as mãos nos joelhos:—E que me diz á do senhor João Eduardo? Já sabe? Foi elle que escreveu o artigo!A velha exclamou, levando as mãos á cabeça:—Ai! nem me falle n'isso, senhor parocho! Nem me falle n'isso, que até tenho estado doente!—Ah, já sabe?—E mais que sei, senhor parocho! O senhor padre Natario, devo-lhe esse favor, esteve aqui hontem e contou-me tudo! Ai, que maroto! Ai, que alma perdida!—E sabe que é o intimo do Agostinho, que sãobebedeiras na redacção até de madrugada, que vai para o bilhar do Terreiro achincalhar a religião...—Ai, por quem é, senhor parocho, nem me diga, nem me diga! Que hontem, quando o senhor padre Natario esteve ahi, até tive escrupulos d'ouvir tanto peccado... Que lhe devo esse favor, ao senhor padre Natario, logo que soube veio-me contar... É de muito delicado... E olhe, senhor parocho, a mim sempre me quiz parecer isso mesmo do homem. Eu nunca o disse, nunca o disse! Que lá isso, esta boquinha nunca se pôz em vidas alheias... Mas tinha cá dentro um palpite. Elle ia á missa, cumpria o jejum; mas eu cá tinha a desconfiança que aquillo era para enganar a S. Joanneira e a pequena. Agora se vê! Eu foi creatura que nunca me cahiu em graça! Nunca, senhor parocho!—E de repente, com os olhinhos luzidios d'uma alegria perversa:—E agora, já se sabe, o casamento desmancha-se?O padre Amaro recostou-se na cadeira, e muito pausadamente:—Elle, minha senhora, seria notorio que uma rapariga de bons principios fosse casar com um pedreiro-livre, que não se confessa ha seis annos!—Credo, senhor parocho! antes vêl-a morta! É necessario dizer tudo á rapariga...O padre Amaro interrompeu, chegando rapidamente a cadeira para ao pé d'ella:—Pois foi justamente para isso que eu a vim procurar, minha senhora. Eu hontem já fallei com a pequena... Mas comprehende, no meio d'aquelledesgosto, com a pobre senhora a expirar ao lado, não pude insistir muito. Emfim disse-lhe o que havia, aconselhei-a por bons modos, expuz-lhe que ia perder a sua alma, ter uma vida desgraçada, etc. Fiz o que pude, minha senhora, como amigo e como parocho. E como era o meu dever (ainda que me custou, realmente custou-me), lembrei-lhe que, como christã e como senhora, tinha obrigação de romper com o escrevente.—E ella?O padre Amaro fez uma visagem descontente:—Não disse quesimnem quenão. Pôz-se a fazer biquinho, a choramingar. É verdade que estava muito alterada com a morte em casa. Que a rapariga não morre por elle, isso é claro; mas quer casar, tem medo que a mãi morra, que se veja só... Emfim sabe o que são raparigas! Que as minhas palavras fizeram-lhe effeito, ficou muito indignada, etc... Mas emfim, eu pensei que o melhor era a senhora fallar-lhe. A senhora é a amiga da casa, é madrinha, conheceu-a de pequena... Estou certo que no seu testamento havia de lhe deixar uma boa lembrança... Tudo isto são considerações...—Ai, fica por minha conta, senhor parocho! exclamou a velha; hei de lh'as cantar!...—A rapariga o que precisa é quem a dirija. Aqui para nós, precisa quem a confesse! Ella confessa-se ao padre Silverio; mas, sem querer dizer mal, o padre Silverio, coitado, pouco vale. Muito caridoso, muita virtude; mas o que se chamageitonão tem. Para elle a confissão é adesobriga. Pergunta doutrina, depois faz o exame pelos mandamentos da lei de Deus... Veja a senhora!... Está claro que a rapariga não furta, nem mata, nem deseja a mulher do seu proximo! A confissão assim não lhe aproveita: o que ella precisa é um confessortêso, que lhe diga—para alli!e sem réplica. A rapariga é um espirito fraco; como a maior parte das mulheres não se sabe dirigir por si; necessita por isso um confessor que a governe com uma vara de ferro, a quem ella obedeça, a quem conte tudo, de quem tenha medo... É como deve ser um confessor.—O senhor parocho é que lhe servia...Amaro sorriu modestamente:—Não digo que não. Havia de aconselhal-a bem; sou amigo da mãi, acho que ella é boa rapariga e digna da graça de Deus. Que eu, sempre que converso com ella, todos os conselhos que posso, em tudo, dou-lh'os... Mas a senhora comprehende, ha coisas em que se não póde estar a fallar na sala, com gente á volta... Só se está á vontade no confessionario. E é o que me falta, são as occasiões de lhe fallar só. Mas emfim eu não posso ir dizer-lhe: «a menina agora ha de se confessar commigo»! Eu n'isso sou muito escrupuloso...—Mas digo-lh'o eu, senhor parocho! Ah, digo-lh'o eu!...—Ora isso é que era um grande favor! Era um bem que fazia áquella alma! Porque se a rapariga me entrega a direcção da sua alma, então podemosdizer que lhe acabaram as difficuldades, e temol-a no caminho da graça... E quando lhe vai fallar, D. Josepha?D. Josepha, «como julgava peccado adiar», estava decidida a fallar-lhe essa mesma noite.—Não me parece, D. Josepha. Hoje é noite de pezames... O escrevente naturalmente está lá...—Credo, senhor parocho! Pois eu e as outras pequenas havemos de passar a noite debaixo das mesmas telhas com o hereje?—Tem de ser. Emfim o rapaz por ora é considerado da familia... Além d'isso, D. Josepha, a senhora, a D. Maria e as Gansosinhos são pessoas da maior virtude... Mas nós não devemos ter orgulho da nossa virtude. Arriscamo-nos a perder-lhe todos os fructos. E é um acto de humildade, que agrada muito a Deus, o misturar-nos ás vezes com os maus; é como quando um grande fidalgo tem de estar lado a lado com um trabalhador d'enxada... É como se dissessemos: «eu sou-te superior em virtude, mas comparado com o que devia ser para entrar na gloria, quem sabe se não sou tão peccador como tu!...» E esta humilhação da alma é a melhor offerta que podemos fazer a Jesus.D. Josepha escutava-o, babosa; e n'uma admiração:—Ai, senhor parocho, que até dá virtude ouvil-o!Amaro curvou-se:—Deus ás vezes, na sua bondade, inspira-mejustas palavras... Pois minha senhora, eu não quero massar mais. Ficamos entendidos. A senhora falla á pequena ámanhã; e se, como é de crêr, ella consentir em escutar os meus conselhos, traz-m'a á Sé no sabbado, ás oito horas. E falle-lhe têso, D. Josepha!—Deixe-a commigo, senhor parocho!... Então não quer provar da minha marmelada?—Provarei, disse Amaro tomando um ladrilho em que cravou os dentes com dignidade.—É dos marmelos da D. Maria. Sahiu-me melhor que a das Gangosinhos...—Pois adeus, D. Josepha... Ah, é verdade, que diz o nosso conego d'este caso do escrevente?—O mano?...N'este momento a campainha em baixo repicou com furor.—Ha de ser elle, disse logo D. Josepha. E vem zangado!Vinha, com effeito, da fazenda—furioso com o caseiro, o regedor, o governo e a perversidade dos homens. Tinham-lhe roubado uma porção de cebolinho; e, abafado de cólera, alliviava-se repetindo com gozo o nome do Inimigo.—Credo, mano, que até lhe fica mal!—exclamou D. Josepha tomada d'escrupulos.—Ora mana, deixemos essas pieguices para a quaresma! Digoco'os diabos!e repitoco'os diabos! Mas eu lá disse ao caseiro, que se sentir gente na fazenda, carregue a espingarda e faça fogo!—Ha uma falta de respeito pela propriedade... disse Amaro.—Ha uma falta de respeito por tudo! exclamou o conego. Um cebolinho que dava saude só olhar para elle! Pois senhores, lá vai! Isto é o que eu chamo um sacrilegio!... Um desaforado sacrilegio!—acrescentou convictamente; porque o roubo do seu cebolinho, o cebolinho d'um conego, parecia-lhe um acto tão negro d'impiedade como se tivessem sido furtados os vasos santos da Sé.—Falta de temor a Deus, falta de religião, observou D. Josepha.—Qual falta de religião! replicou o conego exasperado. Falta de cabos de policia, é o que é!—E voltando-se para Amaro:—Hoje é o enterro da velha, hein? Inda mais essa! Vá, mana, mande-me lá dentro uma volta lavada e os sapatos de fivela!O padre Amaro então, retomado pela sua preoccupação:—Estavamos cá a fallar do caso do João Eduardo: oCommunicado!—Isso é outra maroteira que tal! fez logo o conego. Vejam essa, tambem! Que quadrilha vai pelo mundo, que quadrilha!—E ficou de braços cruzados, com os olhos arregalados, como contemplando uma legião de monstros, soltos pelo universo, e arremessando-se com impudencia contra as reputações, os principios da Igreja, a honra das familias e o cebolinho do clero.Ao sahir, o padre Amaro renovou ainda as suasrecommendações a D. Josepha, que o acompanhára ao patamar:—Então hoje, noite de pezames, não se faz nada. Ámanhã falla á rapariga, e lá para o fim da semana leva-m'a á Sé. Bem. E convença a rapariga, D. Josepha, trate de salvar aquella alma! Olhe que Deus tem os olhos em si. Falle-lhe têso, falle-lhe têso!... E o nosso conego que se entenda com a S. Joanneira.—Póde ir descansado, senhor parocho. Sou madrinha, e, quer ella queira quer não, hei de pôl-a no caminho da salvação...—Amen, disse o padre Amaro.N'essa noite, com effeito, D. Josepha «não fez nada». Eram os pezames na rua da Misericordia. Estavam em baixo, na saleta, alumiada lugubremente por uma só vela com umabat-jourverde-escuro. A S. Joanneira e Amelia, de luto, occupavam tristemente o canapé ao centro; e em redor, nas fileiras de cadeiras apoiadas á parede, as amigas, cobertas de negro pesado, conservavam-se funebremente immoveis, de faces contristadas, n'um torpôr mudo: ás vezes duas vozes ciciavam, ou d'um canto, na sombra, sahia um suspiro: depois o Libaninho, ou Arthur Couceiro, ia em bicos de pés espevitar o murrão da véla: a snr.aD. Maria da Assumpção expectorava o seu catarrho com um som choroso: e no silencio ouviam tamancos bater o lagedo da rua, ou os quartos d'hora no relogio da Misericordia.A intervallos aRuça, toda de negro, entravacom o taboleiro de dôces e copos de chasada; levantava-se então oabat-jour; e as velhas, que já iam cerrando as palpebras, sentindo a sala mais clara, levavam logo os lenços aos olhos, e, com ais, serviam-se de bolinhos da Encarnação.João Eduardo lá estava, a um canto, ignorado, ao pé da Gansoso surda que dormia com a boca aberta: toda a noite o seu olhar procurara debalde o olhar d'Amelia, que não se movia, com o rosto sobre o peito, as mãos no regaço, torcendo e destorcendo o seu lenço de cambraiela. O padre Amaro e o conego Dias vieram ás nove horas: o parocho com passos graves foi dizer á S. Joanneira:—Minha senhora, o golpe é grande. Mas consolemo-nos, pensando que sua excellentissima mana está a esta hora gozando a companhia de Jesus Christo.Houve em redor uma murmuração de soluços; e como não restavam cadeiras, os dois ecclesiasticos sentaram-se aos dois cantos do canapé, tendo no meio a S. Joanneira e Amelia em lagrimas. Eram assim reconhecidos pessoas de familia; a snr.aD. Maria da Assumpção notou baixinho a D. Joaquina Gansoso:—Ai, até dá gosto vêl-os assim todos quatro!E até ás dez horas a noite de pezames continuou soturna e somnolenta, perturbada apenas pela tosse constante de João Eduardo que estava constipado, e que—na opinião da snr.aD. Josepha Dias que o disse a todos, depois—«tossia só para fazertroça e para achincalhar o respeito aos mortos».D'ahi a dois dias, ás oito horas da manhã, a snr.aD. Josepha Dias e Amelia entraram na Sé—depois de terem fallado no terraço á Amparo, mulher do boticario, que tinha uma criança com sarampo, e, apesar de não ser coisa de cuidado, «viera á cautela fazer uma promessa».O dia estava ennevoado, a igreja tinha uma luz parda. Amelia, pallida sob a sua mantilha de renda, parou defronte do altar de Nossa Senhora das Dôres, deixou-se cahir de joelhos, e ficou immovel, com o rosto sobre o livro de missa. A snr.aD. Josepha Dias, com passos fôfos, depois de se ter prostrado diante da capella do Santíssimo e do altar-mór, foi empurrar devagarinho a porta da sacristia: o padre Amaro lá passeava, com os hombros vergados, as mãos atraz das costas:—Então? perguntou logo, erguendo para D. Josepha a sua face muito barbeada, onde os olhos reluziam inquietos.—Está alli, disse a velha baixinho, n'uma expressão de triumpho. Fui eu mesmo buscal-a! Ai, fallei-lhe têso, senhor parocho, não lh'as poupei! Agora é comsigo!—Obrigado, obrigado, D. Josepha! disse o padre, apertando-lhe as mãos ambas com força. Deus ha de lh'o levar em conta.Olhou em redor, nervoso; apalpou-se para sentir o lenço, a carteira dos papeis; e, cerrando devagarinho a porta da sacristia, desceu á igreja. Amelia ainda estava ajoelhada, fazendo um vulto negro immovel contra o pilar branco.—Pst, fez-lhe D. Josepha.Ella ergueu-se devagar, muito escarlate, compondo tremulamente com as mãos as pregas da mantilha em roda do pescoço.—Aqui lh'a deixo, senhor parocho, disse a velha. Vou á Amparo da botica, e venho depois por ella... Ora vai, filha, vai, Deus t'alumie essa alma!E sahiu, com mesuras a todos os altares.O Carlos da botica—que era inquilino do conego e um pouco ronceiro na renda—desbarretou-se com espalhafato apenas D. Josepha appareceu á porta, e conduziu-a logo acima, á sala de cortinas de cassa, onde a Amparo costurava á janella.—Ai, não se prenda, snr. Carlos, dizia-lhe a velha. Não largue os seus afazeres. Eu deixei a afilhada na Sé, e venho aqui descansar um bocadinho.—Então, se me dá licença... E como vai o nosso conego?—Não tornou a ter a dôr. Mas tem soffrido de tonturas.—Começos da primavera, disse o Carlos que retomára o seu ar magestoso, de pé no meio da sala, com os dedos nas aberturas do collete. Tambem eu me tenho sentido perturbado... Nós, as pessoas sanguíneas, soffremos sempre d'isto que se póde chamaro renascimento da seiva... Ha uma abundancia d'humores no sangue, que, não sendo eliminados pelos canaes proprios, vão, por assim dizer, abrir caminho, aqui e além, pelo corpo, sob a fórma de furunculo, espinha, nascida, ás vezes em logares bem incommodos, e, ainda que em si insignificantes, acompanhados sempre, por assim dizer, d'um cortejo... Perdão, sinto o praticante a palrar... Se me dá licença... Respeitos ao nosso conego. Que use a magnesia de James!D. Josepha então quiz vêr a menina com o sarampo. Mas não passou da porta do quarto, recommendando á pequena, que arregalava uns olhos de febre, muito abafada na roupa, «não se descuidasse das suas oraçõesinhas de manhã e á noite». Aconselhou á Amparo alguns remedios, que eram milagrosos no sarampo; mas se a promessa fôra feita com fé, a menina podia-se considerar curada... Ai, todos os dias dava graças a Deus de se não ter casado! Que filhos eram só para trabalho e canceiras; e com as quezilias que traziam e o tempo que tomavam, eram até causa d'uma mulher se descuidar das suas praticas e metter a alma no inferno...—Tem razão, D. Josepha, disse a Amparo, é um castigo... E eu com cinco! Ás vezes fazem-me tão doida, que me sento aqui na cadeirinha, e ponho-me a chorar só commigo...Tinham voltado para junto da janella, e gozaram muito, espreitando o senhor administrador do concelho, que, por traz da vidraça da repartição, namoravade binoculo a do Telles alfaiate.—Aí, era um escandalo! Que nunca houvera em Leiria auctoridades assim! O secretario geral em um desafôro com a Novaes... Que se podia esperar de homens sem religião, educados em Lisboa, que, segundo D. Josepha, estava predestinada a parecer como Gomorrha pelo fogo do céo?—A Amparo cosia com a cabeça baixa, envergonhada talvez diante d'aquella indignação piedosa, dos desejos culpados que a roiam de vêr o Passeio Publico e de ouvir os cantores em S. Carlos.Mas bem depressa a snr.aD. Josepha começou a fallar do escrevente. A Amparo não sabia nada; e a velha teve a satisfação de contar prolixamente, «tim-tim por tim-tim», a historia doCommunicado, o desgosto na rua da Misericordia, e a campanha de Natario para descobrir oliberal. Alargou-se principalmente sobre o caracter de João Eduardo, a sua impiedade, as suas orgias... E, considerando um dever de christã aniquilar o atheu, deu mesmo a entender que alguns roubos, ultimamente commettidos em Leiria, eram «obra de João Eduardo».A Amparo declarou-se «banzada». O casamento então, com a Ameliasinha...—Isso pertence á historia, declarou com jubilo D. Josepha Dias. Vão pôl-o fóra de casa! E por muito feliz se deve o homem dar em não ir parar ao banco dos réos... Que a mim o deve, e á prudencia do mano e do senhor padre Amaro. Que havia motivos para o ferrar na cadeia!—Mas a pequena gostava d'elle, ao que parece.D. Josepha indignou-se. Credo, a Amelia era uma rapariga de juízo, de muita virtude! Apenas conheceu os desafôros, foi a primeira a dizer que não, e que não! Ai! detestava-o...—E D. Josepha, baixando a voz em confidencia, contou «que era positivo que elle vivia com uma desgraçada para os lados do quartel».—Disse-m'o o senhor padre Natario, affirmou. E aquillo é homem que da sua boca nunca sae senão a verdade pura... Foi muito delicado commigo, devo-lhe esse favor. Apenas soube, veio-m'o logo dizer a casa, pedir-me conselhos... Emfim, muito attencioso.Mas o Carlos appareceu de novo. Tinha a botica desembaraçada um momento (que não o tinham deixado respirar toda a manhã!) e vinha fazer companhia ás senhoras.—Então já sabe, snr. Carlos, exclamou logo D. Josepha, o caso doCommunicadoe do João Eduardo?O pharmaceutico arregalou os seus olhos redondos. Que relação havia entre um artigo tão indigno e esse mancebo que lhe parecia honesto?—Honesto!? ganiu a snr.aD. Josepha Dias. Foi elle que o escreveu, snr. Carlos!E vendo o Carlos morder o beiço de surpreza, D. Josepha, enthusiasmada, repetiu a historia da «maroteira».—Que lhe parece, snr. Carlos, que lhe parece?O pharmaceutico deu a sua opinião, n'uma voz vagarosa, sobrecarregada da auctoridade d'um vasto entendimento:—N'esse caso digo, e todas as pessoas de bem o dirão commigo, é uma vergonha para Leiria. Eu já tinha observado, quando li oCommunicado: a religião é a base da sociedade, e minal-a é, por assim dizer, querer aluir o edificio... É uma desgraça que haja na cidade d'esses sectarios do materialismo e da republica, que, como é sabido, querem destruir tudo o que existe: proclamam que os homens e as mulheres se devem unir com a promiscuidade de cães e cadellas... (Desculpem exprimir-me assim, mas a sciencia é a sciencia). Querem ter o direito de entrar em minha casa, levar-me as pratas e o suor do meu rosto; não admittem que haja auctoridades, e se os deixassem seriam capazes de cuspir na sagrada hostia...D. Josepha encolheu-se com um gritinho, muito arripiada.—E ousa esta seita fallar em liberdade! Eu tambem sou liberal... Que, francamente o digo, eu não sou fanatico... Nem pelo facto d'um homem pertencer ao sacerdocio, o julgo um santo, não... Por exemplo, sempre embirrei com o parocho Migueis... Era uma giboia! Desculpe-me a senhora, mas era uma giboia. Disse-lh'o na cara, porque a lei das rolhas já lá vai... Derramamos o nosso sangue nas trincheiras do Porto, justamente para não haver lei das rolhas... Disse-lh'o na cara: «v. s.aé uma giboia!»Mas, emfim, quando um homem veste uma batina deve ser respeitado... E oCommunicado, repito, é um vergonha para Leiria... E tambem lhe digo, com esses atheus, esses republicanos, não deve haver consideração!... Eu sou homem pacifico, aqui a Amparosinho conhece-me bem; pois se eu tivesse d'aviar uma receita para um republicano declarado, não tinha duvida, em logar de lhe dar uma d'essas composições beneficas que são o orgulho de nossa sciencia, de lhe mandar uma dóse d'acido prussico... Não, não direi que lhe mandasse acido prussico... mas se estivesse no banco dos jurados havia de lhe fazer cahir em cima todo o peso da lei!E balançou-se um momento sobre a ponta das chinelas, lançando um grande gesto em redor, como se esperasse os applausos d'um conselho de districto ou d'uma municipalidade em sessão.Mas na Sé bateram então devagar as onze; e D. Josepha embrulhou-se á pressa no seu mantelete para ir buscar a pequena, coitada, que havia d'estar farta d'esperar.O Carlos acompanhou-a, desbarretando-se, e dizendo-lhe (como um mimo que remettia ao seu senhorio):—Repita ao nosso conego quaes são as minhas opiniões... Que n'essa questão doCommunicadoe d'ataques ao clero, estou d'alma e coração com suas senhorias... Criado seu, minha senhora... O tempo vai-se a embrulhar.Quando D. Josepha entrou na igreja, Amelia estavaainda no confessionario. A velha tossiu alto, ajoelhou, e, com as mãos sobre a face, abysmou-se n'uma devoção á Senhora do Rosario. A igreja ficou n'uma immobilidade e n'um silencio. Depois D. Josepha, voltando-se para o confessionario, espreitou por entre os dedos; Amelia conservava-se immovel, com a mantilha muito puxada para o rosto, a roda do vestido negro espalhada em redor; e D. Josepha recahiu na sua reza. Uma chuva fina fustigava agora os vidros d'uma janella ao lado. Emfim houve no confessionario um rangido da madeira, um frou-frou de vestidos nas lages,—e D. Josepha, voltando-se, viu de pé diante d'ella Amelia com a face escarlate e o olhar reluzindo muito.—Está ha muito tempo á espera, madrinha!—Um bocadinho. Estás promptinha, hein?Ergueu-se, persignou-se, e as duas senhoras sahiram da Sé. Ainda cahia uma chuva fina; mas o snr. Arthur Couceiro, que passava no largo com officios para o governo civil, foi leval-as á rua da Misericordia debaixo do seu guardachuva.XIVJoão Eduardo, á noitinha, ia sahir de casa para a rua da Misericordia, levando debaixo do braço um rolo de amostras de papel de parede para Amelia escolher, quando á porta encontrou aRuçaque ia puxar a campainha.—Que é,Ruça?—As senhoras foram passar a noite fóra de casa, e aqui está esta carta que manda a menina.João Eduardo sentiu apertar-se-lhe o coração, e seguia com o olhar pasmado aRuça, que descia a rua, batendo os tamancos. Foi ao pé do candieiro, defronte, abriu a carta:«Snr. João Eduardo.«O que estava decidido a respeito do nosso casamento era na persuasão que era v. s.auma pessoade bem e que me poderia fazer feliz; mas como se sabe tudo, e que foi o senhor que escreveu o artigo doDistricto, e calumniou os amigos da casa e me insultou a mim, e como os seus costumes não me dão garantia de felicidade na vida de casada, deve desde hoje considerar tudo acabado entre nós, pois não ha banhos publicados nem despezas feitas. E eu espero, bem como a mamã, que o senhor seja bastante delicado para não nos voltar a casa, nem perseguir-nos na rua. O que tudo lhe communico por ordem da mamã, e sou«criada de v. s.a«Amelia Caminha».João Eduardo ficou a olhar estupidamente a parede defronte onde batia a claridade do candieiro, immovel como uma pedra, com o seu rolo de papeis pintados debaixo do braço. Machinalmente voltou a casa. As mãos tremiam-lhe tanto, que mal podia accender o candieiro. De pé, junto da mesa, releu a carta. Depois ficou alli, fatigando a vista contra a chamma da torcida, com uma sensação arrefecedora de Immobilidade e de Silencio, como se subitamente, sem choque, toda a vida universal tivesse emmudecido e parado. Pensou onde teriamellasido passar a noite. Lembranças de serões felizes na rua da Misericordia atravessaram-lhe devagar na memoria: Amelia trabalhava, com a cabeça baixa, e entre ocabello muito preto e o collar muito branco o seu pescoço tinha uma pallidez que a luz amaciava... Então a idéa de que a perdera para sempre varou-lhe o coração com um frio de punhalada. Apertou as fontes entre as mãos, tonto. Que havia de fazer? que havia de fazer? Resoluções bruscas relampejavam-lhe um momento no espirito, esvaiam-se. Queria escrever-lhe! tiral-a por justiça! ir para o Brazil! saber quem descobrira que elle era o auctor do artigo!—E como isto era o mais practicavel áquella hora, correu á redacção daVoz do Districto.Agostinho, estirado no canapé, com a véla ao pé sobre uma cadeira, saboreava os jornaes de Lisboa. A face decomposta de João Eduardo assustou-o.—Que é?—É que me perdeste, maroto!E d'um só fôlego accusou furiosamente o corcunda de o ter trahido.Agostinho erguera-se devagar, procurando imperturbavel a bolsa do tabaco na algibeira da jaqueta.—Homem, disse, nada d'espalhafatos... Eu dou-te a minha palavra d'honra que não disse a ninguem doCommunicado. É verdade que ninguem me perguntou...—Mas quem foi, então? gritou o escrevente.Agostinho enterrou a cabeça nos hombros.—Eu o que sei é que os padres andavam n'uma azafama para saber quem era. O Natario esteve ahi uma manhã, por causa do annuncio de uma viuva que recorre á caridade publica, mas doCommunicadonão se disse nem palavra... O doutor Godinho é que sabia, entende-te com elle! Mas então fizeram-te alguma?—Mataram-me! disse João Eduardo lugubremente.Ficou um momento a fixar o soalho, aniquilado, e sahiu arremessando a porta. Passeou na Praça; foi ao acaso pelas ruas; depois, attrahido pela obscuridade, á estrada de Marrazes. Abafava, sentindo uma intoleravel palpitação surda latejar-lhe interiormente contra as fontes; apesar de ventar forte nos campos, parecia-lhe seguir n'um silencio universal; por vezes a idéa da sua desgraça rasgava-lhe subitamente o coração, e então imaginava vêr toda a paizagem oscillar e o chão da estrada afigurava-se-lhe molle como um lamaçal. Voltou pela Sé quando batiam onze horas; e achou-se na rua da Misericordia, com o olhar cravado para a janella da sala de jantar, onde havia ainda luz; a vidraça do quarto d'Amelia alumiou-se tambem; ella ia deitar-se, decerto... Veio-lhe um desejo furioso da sua belleza, do seu corpo, dos seus beijos. Fugiu para casa: uma fadiga intoleravel prostrou-o sobre a cama; depois uma saudade indefinida, profunda, foi-o amollecendo, e chorou muito tempo, enternecendo-se mais com o som dos seus proprios soluços,—até que ficou adormecido, de bruços, n'uma massa inerte.Ao outro dia, cedo, Amelia vinha da rua da Misericordiapara a Praça, quando ao pé do Arco João Eduardo lhe sahiu d'emboscada.—Quero-lhe fallar, menina Amelia.Ella recuou assustada, disse a tremer:—Não tem que me fallar...Mas elle plantára-se diante d'ella, muito decidido, com os olhos vermelhos como carvões:—Quero-lhe dizer... Lá do artigo, é verdade, fui eu que o escrevi, foi uma desgraça; mas a menina tinha-me ralado de ciumes... Mas o que a menina diz de maus costumes é uma calumnia. Eu sempre fui um homem de bem...—O senhor padre Amaro é que o conhece! Faz favor de me deixar passar...Ao nome do parocho, João Eduardo fez-se livido de raiva:—Ah! é o senhor padre Amaro! É o maroto do padre! Pois veremos! Ouça...—Faz favor de me deixar passar! disse ella irritada, tão alto, que um sujeito gordo de chale-manta parou olhando.João Eduardo recuou, tirando o chapéo; e ella, immediatamente, refugiou-se na loja do Fernandes.Então, n'um desespero, correu a casa do doutor Godinho. Já na vespera, por entre os seus-accessos de chôro, sentindo-se tão abandonado, se lembrára do doutor Godinho. Fôra outr'ora seu escrevente; ecomo por pedido d'elle entrára no cartorio do Nunes Ferral, e por sua influencia ia ser accommodado no governo civil, julgava-o uma Providencia prodiga e inesgotavel! Demais, desde que escrevera oCommunicadoconsiderava-se da redacção daVoz do Districto, do grupo da Maia; agora, que era atacado pelos padres, devia claramente ir acolher-se á forte protecção do seu chefe, do doutor Godinho, do inimigo da reacção, o «Cavour de Leiria», como dizia, arregalando os olhos, o bacharel Azevedo, auctor dosFerrões.—E João Eduardo, dirigindo-se ao casarão amarello, ao pé do Terreiro onde o doutor vivia, ia n'um alvoroço d'esperanças, contente com se refugiar, como um cão escorraçado, entre as pernas d'aquelle colosso.O doutor Godinho descera já ao escriptorio, e repoltreado na sua poltrona abbacial de prégos amarellos, com os olhos no tecto de carvalho escuro, acabava com beatitude o charuto do almoço. Recebeu com magestade os «bons dias» de João Eduardo.—Então que temos, amigo?As altas estantes d'in-folios graves, as resmas d'autos, o apparatoso painel representando o marquez de Pombal, de pé n'um terraço sobre o Tejo, expulsando com o dedo a esquadra ingleza—acanharam como sempre João Eduardo; e foi com voz embaraçada que disse vinha alli para que sua excellencia lhe désse remedio n'uma desgraça que lhe succedia.—Desordens, bordoada?—Não, senhor, negocios de familia.Contou então, prolixamente, a sua historia desde a publicação doCommunicado: leu muito commovido, a carta d'Amelia; descreveu a scena ao pé do Arco... Alli estava agora, escorraçado da rua da Misericordia por obras do senhor parocho! E parecia-lhe a elle, apesar de não ser formado em Coimbra, que contra um padre que se introduzia n'uma familia, desinquietava uma menina simples, a levava por intrigas a romper com o noivo e ficava de portas a dentro senhor d'ella—devia haver leis!—Eu não sei, senhor doutor, mas deve haver leis!O doutor Godinho parecia contrariado.—Leis!? exclamou traçando vivamente a perna. Que leis quer vossê que haja? Quer querelar do parocho?... Porque? Elle bateu-lhe? roubou-lhe o relogio? insultou-o pela imprensa? Não. Então?...—Oh, senhor doutor! mas intrigou-me com as senhoras! Eu nunca fui homem de maus costumes, senhor doutor! Calumniou-me!—Tem testemunhas?—Não, senhor.—Então?E o doutor Godinho, assentando os cotovêlos sobre a banca, declarou que como advogado não tinha nada a fazer. Os tribunaes não tomavam conhecimento d'essas questões, d'esses dramas moraes por assim dizer, que se passavam nas alcovas domesticas... Como homem, como particular, como Alipio de Vasconcellos Godinho tambem não podia intervirporque não conhecia o senhor padre Amaro, nem essas senhoras da rua da Misericordia... Lamentava o facto, porque emfim fôra novo, sentira a poesia da mocidade, e sabia (infelizmente sabia!) o que eram esses transes do coração... E ahi está tudo o que elle podia fazer—lamentar! Tambem para que tinha elle dado a sua affeição a uma beata?...João Eduardo interrompeu-o:—A culpa não é d'ella, senhor doutor! A culpa é do padre que a anda a desencaminhar! A culpa é d'essa canalha do cabido!O doutor Godinho estendeu com severidade a mão, e aconselhou o snr. João Eduardo que tivesse cuidado com semelhantes asserções! Nada provava que o senhor parocho possuisse n'essa casa outra influencia que não fosse a d'um habil director espiritual... E recommendava ao snr. João Eduardo, com a auctoridade que lhe davam os annos e a sua posição no paiz, que não fosse espalhar, por despeito, accusações que só serviam para destruir o prestigio do sacerdocio, indispensavel n'uma sociedade bem constituida!—Sem elle, tudo seria anarchia e orgia!E recostou-se, pensando, satisfeito, que estava n'essa manhã com «o dom da palavra».Mas a face consternada do escrevente, que não se movia, de pé junto á banca, impacientava-o; e disse com seccura, puxando para diante de si um volume d'autos:—Emfim, acabemos, que quer o amigo? Já vê, eu não lhe posso dar remedio.João Eduardo replicou, com um movimento de coragem desesperada:—Eu imaginei que o senhor doutor podia fazer alguma coisa por mim... Porque emfim eu fui uma victima... Tudo isto vem de se saber que eu escrevi oCommunicado. E tinha-se combinado que havia de ser segredo. O Agostinho não o disse, só o senhor doutor o sabia...O doutor pulou de indignação na sua cadeira abbacial:—Que quer o senhor insinuar? Quer-me dar a entender que fui eu que o disse? Não disse... Isto é, disse; disse-o a minha mulher, porque n'uma familia bem constituida não deve haver segredos entre esposo e esposa. Ella perguntou-me, disse-lh'o... Mas supponhamos que fui eu que o espalhei pelas ruas. De duas uma: ou oCommunicadoera uma calumnia, e então sou eu que devo accusal-o de ter polluido um jornal honrado com um acervo de diffamaçães; ou era verdade, e então que homem é o senhor que se envergonha das verdades que solta, e que não se atreve a manter á luz do dia as opiniões que redigiu na escuridão da noite?Duas lagrimas ennevoaram os olhos de João Eduardo. Então, diante d'aquella expressão esmorecida, satisfeito de o ter esmagado com uma argumentação tão logica e tão poderosa, o doutor Godinho abrandou:—Bem, não nos zanguemos, disse. Não se fallamais era pontos d'honra... O que póde acreditar é que lamento o seu desgosto.Deu-lhe conselhos de uma solicitude paternal. Que não succumbisse; havia mais meninas em Leiria e meninas de bons principios que não viviam sob a direcção da sotaina. Que fosse forte, e que se consolasse pensando que elle, doutor Godinho—e era elle!—tambem tivera em moço desgostos do coração. Que evitasse o dominio das paixões que lhe seria prejudicial na carreira publica. E que se o não fizesse por seu interesse proprio, o fizesse ao menos em attenção a elle, doutor Godinho!João Eduardo sahiu do escriptorio, indignado, julgando-se «trahido» pelo doutor.—Isto succede-me a mim, resmungava, porque sou um pobre diabo, não dou votos nas eleições, não vou ássoiréesdo Novaes, não subscrevo para o club. Ah, que mundo! Se eu tivesse um par de contos de reis!...Veio-lhe então um desejo furioso de se vingar dos padres, dos ricos, e da religião que os justifica. Voltou muito decidido ao escriptorio, e entreabrindo a porta:—Vossa excellencia ao menos agora dá licença que eu desabafe no jornal?... Queria contar esta maroteira, cascar n'essa canalha...Esta audacia do escrevente indignou o doutor. Endireitou-se com severidade na poltrona, e cruzando terrivelmente os braços:—O snr. João Eduardo está realmente a abusar! Pois o senhor vem-me pedir que transforme um jornal d'idéas n'um jornal de diffamações!? Vá, não se prenda! Peça-me que insulte os principios da religião, que achincalhe o Redemptor, que repita as babuseiras de Renan, que ataque as leis fundamentaes do Estado, que injurie o rei, que vitupere a instituição da familia! O senhor está ebrio!—Oh, senhor doutor!—O senhor está ebrio! Cuidado, meu caro amigo, cuidado, olhe que vai por um declive! É por esse caminho que se chega a perder o respeito da auctoridade, da lei, das coisas santas e do lar. É por esse caminho que se vai ao crime! Escusa d'arregalar os olhos... Ao crime, digo-lh'o eu! Tenho a experiencia de vinte annos de fôro. Homem, detenha-se! refreie essas paixões! Safa! Que idade tem o senhor?—Vinte e seis annos.—Pois não ha desculpa para um homem de vinte e seis annos ter essas idéas subversivas. Adeus, feche a porta. E escute: escusa de pensar em mandar outroCommunicadopara outro qualquer jornal. Não lh'o consinto, eu que o tenho protegido sempre! Havia de querer fazer espalhafato... Escusa de negar, estou-lh'o a lêr nos olhos. Pois não lh'o consinto! É para seu bem, para lhe poupar uma má acção social!Tomou uma grande attitude na poltrona, repetiu com força:—Uma pessima acção social! Aonde nos querem os senhores levar com os seus materialismos, os seus atheismos?! Quando tiverem dado cabo da religião de nossos paes, que têm os senhores para a substituir?! Que têm?! Mostre lá!A expressão embaraçada de João Eduardo (que não tinha alli, para a mostrar, uma religião que substituisse a de nossos paes) fez triumphar o doutor.—Não têm nada! Têm lama, quando muito têm palavriado! Mas emquanto eu fôr vivo, pelo menos em Leiria, ha de ser respeitada a Fé e o principio da Ordem! Podem pôr a Europa a fogo e sangue, em Leiria não hão de erguer cabeça. Em Leiria estou eu álerta, e juro que lhes hei de ser funesto!João Eduardo recebia d'hombros vergados estas ameaças, sem as comprehender. Como podia o seuCommunicadoe as intrigas da rua da Misericordia produzirem assim catastrophes sociaes e revoluções religiosas! Tanta severidade aniquilava-o. Ia perder decerto a amizade do doutor, o emprego no governo civil... Quiz abrandal-o:—Oh, senhor doutor, mas vossa excellencia bem vê...O doutor interrompeu-o com um grande gesto:—Eu vejo perfeitamente. Vejo que as paixões, a vingança o vão levando por um caminho fatal... O que espero é que os meus conselhos o detenham. Bem, adeus. Feche a porta. Feche a porta, homem!João Eduardo sahiu acabrunhado. Que havia defazer agora? O doutor Godinho, aquelle colosso, repellia-o com palavras tremendas! E que podia elle, pobre escrevente de cartorio, contra o padre Amaro que tinha por si o clero, o chantre, o cabido, os bispos, o Papa, classe solidaria e compacta que lhe apparecia como uma medonha cidadella de bronze erguendo-se até ao céo?! Eram elles que tinham causado a resolução d'Amelia, a sua carta, a dureza das suas palavras. Era uma intriga de parochos, conegos e beatas. Se elle pudesse arrancal-a áquella influencia, ella tornaria a ser bem depressa a sua Ameliasinha que lhe bordava chinelas, e que vinha toda córada vêl-o passar á janella! As suspeitas que outr'ora tivera tinham-se desvanecido n'aquelles serões felizes, depois de decidido o casamento, quando ella, costurando junto do candieiro, fallava da mobilia que havia de comprar e dos arranjos da sua casinha. Ella amava-o, decerto... Mas quê! tinham-lhe dito que elle era o auctor doCommunicado, que era hereje, que tinha costumes devassos; o parocho, na sua voz pedante, ameaçára-a com o inferno; o conego, furioso, e todo poderoso na rua da Misericordia porque dava para a panella, fallára têso—e a pobre menina, assustada, dominada, com aquelle bando tenebroso de padres e de beatas a cochicharem-lhe ao ouvido, coitada, cedera! Estava talvez persuadida, de boa fé, que elle era uma fera! E áquella hora, emquanto elle alli andava pelas ruas, escorraçado e desgraçado, o padre Amaro, na saleta da rua da Misericordia, enterrado na poltrona, senhorda casa e senhor da rapariga, de perna traçada, palrava d'alto! Canalha! E não haver leis que o vingassem! e não poder sequer «fazer escandalo», agora que aVoz do Districtose lhe tornava inaccessivel!Vinham-lhe então desejos furiosos de demolir o parocho aos murros, com a força do padre Brito. Mas o que o satisfaria mais seriam artigos tremendos n'um jornal que revelassem as intrigas da rua da Misericordia, amotinassem a opinião, cahissem sobre o padre como catastrophes, o forçassem a elle, ao conego e aos outros a desapparecerem corridos da casa da S. Joanneira! Ah! estava certo que a Ameliasinha, livre d'aquelles galfarros, correria logo aos seus braços, com lagrimas de reconciliação...Procurava assim á força convencer-se que «a culpa não era d'ella»; recordava os mezes de felicidade antes da chegada do parocho; arranjava explicações naturaes para aquellas maneirinhas ternas que ella outr'ora tinha para o padre Amaro, e que lhe tinham dado ciumes desesperados:—era o desejo, coitada, de ser agradavel ao hospede, ao amigo do senhor conego, de o reter para vantagem da mãi e da casa! E além d'isso, como ella andava contente depois de resolvido o casamento! A sua indignação contra oCommunicado, estava certo, não era natural d'ella—vinha-lhe soprada pelo parocho e pelas beatas. E achava uma consolação n'esta idéa que não era repellido como namorado, como marido—mas que era uma victima das intrigas do torpe padre Amaro, que lhe desejava a noiva e que oodiava como liberal! Isto accumulava-lhe na alma um rancor desordenado contra o padre; descendo a rua procurava anciosamente uma vingança, atirando a imaginação aqui e além—mas vinha-lhe sempre a mesma idéa, o artigo de jornal, a verrina, a imprensa! A certeza da sua fraqueza desprotegida revoltava-o. Ah, se tivesse por si um «figurão»!Um homem do campo, amarello como uma cidra, que ia caminhando devagar, com o braço ao peito, deteve-o a perguntar-lhe onde morava o doutor Gouvêa.—Na primeira rua, á esquerda, o portão verde ao pé do lampeão, disse João Eduardo.E uma esperança immensa alumiou-lhe bruscamente a alma: o doutor Gouvêa é que o podia salvar! O doutor era seu amigo: tratava-o portudesde que o curára havia tres annos da pneumonia; approvava muito o seu casamento com Amelia; havia ainda semanas perguntára-lhe ao pé da Praça:—«Então, quando se faz essa rapariga feliz?» E que respeitado, que temido na rua da Misericordia! Era medico de todas as amigas da casa que, apesar de se escandalisarem com a sua irreligião, dependiam humildemente da sua sciencia para os achaques, os flatos, os xaropes. Além d'isso, o doutor Gouvêa, inimigo decidido da «padraria», decerto se ia indignar com aquella intriga beata: e João Eduardo via-se já entrando na rua da Misericordia atraz do doutor Gouvêa, que reprehendia a S. Joanneira, arrasavao padre Amaro, convencia as velhas,—e a sua felicidade recomeçava, inabalavel agora!—O senhor doutor está? perguntou elle quasi alegre, á criada que no pateo estendia a roupa ao sol.—Está na consulta, snr. Joãosinho, faça favor d'entrar.Em dias de mercado os doentes do campo affluiam sempre. Mas áquella hora—quando os visinhos das freguezias se reunem nas tabernas—havia só um velho, uma mulher com uma criança ao collo e o homem do braço ao peito, esperando n'uma saleta baixa com bancos, dois manjaricões na janella e uma grande gravura da Coroação da Rainha Victoria. Apesar do sol claro que entrava do pateo, e de uma fresca folhagem de tilia que roçava o peitoril da janella, a saleta dava tristeza, como se as paredes, os bancos, os mesmos manjaricões estivessem saturados da melancolia das doenças que alli tinham passado. João Eduardo entrou e sentou-se a um canto.Tinha batido meio dia, e a mulher estava-se queixando de ter esperado tanto: era de uma freguezia distante, deixára no mercado a irmã, e havia uma hora que o senhor doutor estava com duas senhoras! A cada momento a criança rabujava, ella sacudia-a nos braços: calavam-se depois: o velho arregaçava a calça, contemplava com satisfação uma chaga na canella envolta em trapos: e o outro homem dava bocejos desconsolados que tornavam mais lugubre a sua longa face amarella. Aquella demoraenervava, amollecia o escrevente; sentia perder gradualmente o animo de occupar o doutor Gouvêa; preparava laboriosamente a sua historia, mas ella parecia-lhe agora bem insufficiente para o interessar. Vinha-lhe então um desalento, que as faces insipidas dos doentes tornavam ainda mais intenso. Positivamente era uma coisa bem triste esta vida, cheia só de miserias, de sentimentos trahidos, de afflicções, de doenças! Erguia-se; e com as mãos atraz das costas ia olhar desconsoladamente a Coroação da Rainha Victoria.De vez em quando a mulher entreabria a porta, a espreitar se as duas senhoras ainda lá estariam. Lá estavam; e através do batente de baeta verde, que fechava o gabinete do doutor, sentia-se as suas vozes pachorrentas palrarem.—Em cahindo aqui é dia perdido! rosnava o velho.Tambem elle deixára a cavalgadura á porta do Fumaça, e a rapariga na praça... E o que teria a esperar na botica, depois! Com tres legoas ainda a fazer para voltar á freguezia!... Ser doente é bom, mas para quem é rico e tem vagares!A idéa da doença, da solidão que ella traz, faziam agora parecer a João Eduardo mais amarga a perda de Amelia. Se adoecesse teria de ir para o hospital. O malvado do padre tirára-lhe tudo—mulher, felicidade, confortos de familia, dôces companhias da vida!Emfim sentiram no corredor as duas senhorasque sahiam. A mulher com a criança apanhou o seu cabaz, precipitou-se. E o velho, apoderando-se logo do banco junto da porta, disse com satisfação:—Agora cá o patrão!—Vossemecê tem muito que consultar? perguntou-lhe João Eduardo.—Não senhor, é só receber a receita.E immediatamente contou a historia da sua chaga: fôra uma trave que lhe cahira em cima; não fizera caso; depois a ferida assanhára-se; e agora alli estava, manco e cortidinho de dôres.—E vossa senhoria, é coisa de cuidado? perguntou elle.—Eu não estou doente, disse o escrevente. São negocios com o senhor doutor.Os dois homens olharam-n'o com inveja.Emfim foi a vez do velho, depois a do homem amarello de braço ao peito. João Eduardo, só, passeava nervoso pela saleta. Parecia-lhe agora muito difficil ir assim, sem ceremonia, pedir protecção ao doutor. Com que direito?... Lembrou-se de se queixar primeiro de dôres do peito ou desarranjos de estomago, e depois, incidentalmente, contar os seus infortunios...Mas a porta abriu-se. O doutor estava diante d'elle, com a sua longa barba grisalha que lhe cahia sobre a quinzena de velludo preto, o largo chapéo desabado na cabeça, calçando as luvas de fio d'Escocia.—Ólá! és tu, rapaz! Ha novidade na rua da Misericordia?João Eduardo córou.—Não senhor, senhor doutor, queria-lhe fallar em particular.Seguiu-o ao gabinete—o conhecido gabinete do doutor Gouvêa, que com o seu cahos de livros, o seu tom poeirento, uma panoplia de flechas selvagens e duas cegonhas empalhadas, tinha na cidade a reputação d'uma «cella d'alchimista».O doutor puxou o seucebolão.—Um quarto para as duas. Sê breve.A face do escrevente exprimiu o embaraço de condensar uma narração tão complicada.—Está bom, disse o doutor, explica-te como puderes. Não ha nada mais difficil que ser claro e breve; é necessario ter genio. Que é?João Eduardo então tartamudeou a sua historia, insistindo sobretudo na perfidia do padre, exagerando a innocencia de Amelia...O doutor escutava-o, cofiando a barba.—Vejo o que é. Tu e o padre, disse elle, quereis ambos a rapariga. Como elle é o mais esperto e o mais decidido, apanhou-a elle. É lei natural: o mais forte despoja, elimina o mais fraco; a femea e a prêsa pertencem-lhe.Aquillo pareceu a João Eduardo um gracejo. Disse com a voz perturbada:—Vossa excellencia está a caçoar, senhor doutor, mas a mim retalha-se-me o coração!—Homem, acudiu o doutor com bondade, estou a philosophar, não estou a caçoar... Mas emfim, que queres tu que eu te faça?Era o que o doutor Godinho lhe tinha dito, tambem, com mais pompa!—Eu tenho a certeza que se vossa excellencia lhe fallasse...O doutor sorriu:—Eu posso receitar á raparigaeste ou aquelle xarope, mas não lhe posso impôreste ou aquelle homem! Queres que lhe vá dizer: «A menina ha de preferir aqui o snr. João Eduardo?» Queres que vá dizer ao padre, um maganão que eu nunca vi: «O senhor faz favor de não seduzir esta menina?»—Mas calumniaram-me, senhor doutor, apresentaram-me como um homem de maus costumes, um patife...—Não, não te calumniaram. Sob o ponto de vista do padre e d'aquellas senhoras que jogam á noite o quino na rua da Misericordia tu és um patife: um christão que nos periodicos vitupera abbades, conegos, curas, personagens tão importantes para se communicar com Deus e para se salvar a alma, é um patife. Não te calumniaram, amigo!—Mas, senhor doutor...—Escuta. E a rapariga, descartando-se de ti em obediencia ás instrucções do senhor padre fulano ou sicrano, comporta-se como uma boa catholica. É o que te digo. Toda a vida do bom catholico, os seus pensamentos, as suas idéas, os seus sentimentos, assuas palavras, o emprego dos seus dias e das suas noites, as suas relações de familia e de visinhança, os pratos do seu jantar, o seu vestuario e os seus divertimentos—tudo isto é regulado pela auctoridade ecclesiastica (abbade, bispo ou conego), approvado ou censurado pelo confessor, aconselhado e ordenado pelodirector da consciencia. O bom catholico, como a tua pequena, não se pertence; não tem razão, nem vontade, nem arbitrio, nem sentir proprio; o seu cura pensa, quer, determina, sente por ella. O seu unico trabalho n'este mundo, que é ao mesmo tempo o seu unico direito e o seu unico dever, é aceitar esta direcção; aceital-a sem a discutir; obedecer-lhe, dê por onde der; se ella contraria as suas idéas, deve pensar que as suas idéas são falsas; se ella fere as suas affeições, deve pensar que as suas affeições são culpadas. Dado isto, se o padre disse á pequena que não devia nem casar, nem sequer fallar comtigo, a creatura prova, obedecendo-lhe, que é uma boa catholica, uma devota consequente, e que segue na vida, logicamente, a regra moral que escolheu. Aqui está, e desculpa o sermão.João Eduardo ouvia com respeito, com espanto estas phrases, a que a face placida, a bella barba grisalha do doutor davam uma auctoridade maior. Parecia-lhe agora quasi impossivel recuperar Amelia, se ella pertencia assim tão absolutamente, alma e sentidos, ao padre que a confessava. Mas emfim, porque era elle considerado um marido prejudicial?—Eu comprehenderia, disse, se fosse um homemde maus costumes, senhor doutor. Mas eu porto-me bem; eu não faço senão trabalhar; eu não frequento tabernas nem troças; eu não bebo, eu não jógo; as minhas noites passo-as na rua da Misericordia, ou em casa a fazer serão para o cartorio...—Meu rapaz, tu pódes ter socialmente todas as virtudes; mas, segundo a religião de nossos paes, todas as virtudes que não são catholicas são inuteis e perniciosas. Ser trabalhador, casto, honrado, justo, verdadeiro, são grandes virtudes; mas para os padres e para a Igreja não contam. Se tu fôres um modelo de bondade mas não fôres á missa, não jejuares, não te confessares, não te desbarretares para o senhor cura—és simplesmente um maroto. Outros personagens maiores que tu, cuja alma foi perfeita e cuja regra de vida foi impeccavel, têm sido julgados verdadeiros canalhas porque não foram baptisados antes de ter sido perfeitos. Has de ter ouvido fallar de Socrates, d'um outro chamado Platão, de Catão, etc... Foram sujeitos famosos pelas suas virtudes. Pois um certo Bossuet, que é o grande chavão da doutrina, disse que das virtudes d'esses homens estava cheio o inferno... Isto prova que a moral catholica é differente da moral natural e da moral social... Mas são coisas que tu comprehendes mal... Queres tu um exemplo? Eu sou, segundo a doutrina catholica, um dos grandes desavergonhados que passeiam as ruas da cidade; e o meu visinho Peixoto, que matou a mulher com pancadas e que vai dando cabo pelo mesmo processo de umafilhita de dez annos, é entre o clero um homem excellente porque cumpre os seus deveres de devoto e toca figle nas missas cantadas. Emfim, amigo, estas coisas são assim. E parece que são boas, porque ha milhares de pessoas respeitaveis que as consideram boas, o Estado mantem-as, gasta até um dinheirão para as manter, obriga-nos mesmo a respeital-as—e eu, que estou aqui a fallar, pago todos os annos um quartinho para que ellas continuem a ser assim. Tu naturalmente pagas menos...—Pago sete vintens, senhor doutor.—Mas emfim vaes ás festas, ouves musica, sermão, desforras-te dos teus sete vintens. Eu, o meu quartinho perco-o; consolo-me apenas com a idéa de que vai ajudar a manter o esplendor da Igreja—da Igreja que em vida me considera um bandido, e que para depois de morto me tem preparado um inferno de primeira classe. Emfim, parece-me que temos cavaqueando bastante... Que queres mais?João Eduardo estava acabrunhado. Agora que escutava o doutor, parecia-lhe, mais que nunca, que se um homem de palavras tão sabias, de tantas idéas, se interessasse por elle, toda a intriga seria facilmente desfeita e a sua felicidade, o seu logar na rua da Misericordia recobrados para sempre.—Então vossa excellencia não póde fazer nada por mim? disse muito desconsolado.—Eu posso talvez curar-te d'outra pneumonia. Tens outra pneumonia a curar? Não? Então...João Eduardo suspirou:—Sou uma victima, senhor doutor!—Fazes mal. Não deve haver victimas, quando não seja senão para impedir que haja tyrannos—disse o doutor, pondo o seu largo chapéo desabado.—Porque no fim de tudo, exclamou ainda João Eduardo que se prendia ao doutor com uma sofreguidão d'afogado, no fim de tudo o que o patife do parocho quer, com todos os seus pretextos, é a rapariga! Se ella fosse um camafeu, bem se importava o maroto que eu fosse um impio ou não! O que elle quer é a rapariga!O doutor encolheu os hombros.—É natural, coitado—disse, já com a mão no fecho da porta. Que queres tu? Elle tem para as mulheres, como homem, paixões e orgãos; como confessor, a importancia d'um Deus. É evidente que ha de utilisar essa importancia para satisfazer essas paixões; e que ha de cobrir essa satisfação natural com as apparencias e com os pretextos do serviço divino... É natural.João Eduardo então, vendo-o abrir a porta, desvanecer-se a esperança que o trouxera alli, disse, furioso, vergastando o ar com o chapéo:—Canalha de padres! Foi raça que sempre detestei! Queria-a vêr varrida da face da terra, senhor doutor!—Isso é outra tolice, disse o doutor, resignando-se a escutal-o ainda, e parando á porta do quarto. Ouve lá. Tu crês em Deus? no Deus do céo, no Deusque lá está no alto do céo, e que é lá de cima o principio de toda a justiça e de toda a verdade?João Eduardo, surprehendido, disse:—Eu creio, sim senhor.—E no peccado original?—Tambem...—Na vida futura, na redempção, etc?—Fui educado n'essas crenças...—Então para que queres varrer os padres da face da terra? Deves pelo contrario ainda achar que são poucos. És um liberal racionalista nos limites da Carta, ao que vejo... Mas se crês no Deus do céo, que nos dirige lá de cima, e no peccado original, e na vida futura, precisas d'uma classe de sacerdotes que te expliquem a doutrina e a moral revelada de Deus, que te ajudem a purificar da macula original e te preparem o teu logar no paraiso! Tu necessitas dos padres. E parece-me mesmo uma terrivel falta de logica que os desacredites pela imprensa...João Eduardo, attonito, balbuciou:—Mas vossa excellencia, senhor doutor... Desculpe-me vossa excellencia, mas...—Dize, homem. Eu quê?—Vossa excellencia não precisa dos padres n'este mundo...—Nem no outro. Eu não preciso dos padres no mundo, porque não preciso do Deus do céo. Isto quer dizer, meu rapaz, que tenho o meu Deus dentro em mim, isto é, o principio que dirige as minhas acções e os meus juizos. Vulgo Consciencia... Talveznão comprehendas bem... O facto é que estou aqui a expôr doutrinas subversivas... E realmente são tres horas...E mostrou-lhe ocebolão.Á porta do pateo, João Eduardo disse-lhe ainda:—Vossa excellencia então desculpe, senhor doutor...—Não ha de quê... Manda a rua da Misericordia ao diabo!João Eduardo interrompeu com calor:—Isso é bom de dizer, senhor doutor, mas quando a paixão está a roer cá por dentro!...—Ah! fez o doutor, é uma bella e grande coisa a paixão! O amor é uma das grandes forças da civilisação. Bem dirigida levanta um mundo e bastava para nos fazer a revolução moral...—E mudando de tom:—Mas escuta. Olha que isso ás vezes não é paixão, não está no coração... O coração é ordinariamente um termo de que nos servimos, por decencia, para designar outro orgão. É precisamente esse orgão o unico que está interessado, a maior parte das vezes, em questões de sentimento. E n'esses casos o desgosto não dura. Adeus, estimo que seja isso!

«Snr. João Eduardo.

«criada de v. s.a«Amelia Caminha».


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