Ipse ratem conto subigit, velisque ministratEt ferruginea subvectat corpora cymba.Ninguem lhe escapa... Sinto, sinto... Não me esquecerei de a recommendar nas minhas orações...E muito methodico, sua excellencia tomou uma nota a lapis.Amaro, ao sahir do paço, foi direito á Sé. Fechou-se na sacristia, a essa hora deserta: e depois de pensar muito tempo com a cabeça entre os punhos, escreveu ao conego Dias:«Meu caro padre-mestre.—Treme-me a mão ao escrever estas linhas. A infeliz morreu. Eu não posso, bem vê, e vou-me embora, porque, se aqui ficasse, estalava-me o coração. Sua excellentissima irmã láestará tratando do enterro... Eu, como comprehende, não posso. Muito lhe agradeço tudo... Até um dia, se Deus quizer que nos tornemos a vêr. Por mim conto ir para longe, para alguma pobre parochia de pastores, acabar meus dias nas lagrimas, na meditação e na penitencia. Console como puder a desgraça da mãi. Nunca me esquecerei do que lhe devo, emquanto tiver um sopro de vida. E adeus, que nem sei onde tenho a cabeça.—Seu amigo do C.—Amaro Vieira.»«P. S. A criança morreu tambem, já se enterrou.»Fechou a carta com uma obreia preta; e depois d'arranjar os seus papeis, foi abrir o grande portão chapeado de ferro, olhar um momento o pateo, o barracão, a casa do sineiro... As nevoas, as primeiras chuvas já davam áquelle recanto da Sé o seu ar lugubre d'inverno. Adiantou-se devagar, sob o silencio triste dos altos contrafortes, espreitou á vidraça da cozinha do tio Esguelhas: elle lá estava, sentado á chaminé, com o cachimbo na bôca, cuspilhando tristemente para as cinzas. Amaro bateu de leve nos vidros—e quando o sineiro abriu a porta, aquelle interior conhecido, rapidamente entrevisto, a cortina da alcova da Tótó, a escada que ia para o quarto, agitaram o parocho de tantas recordações e de saudades tão bruscas, que não pôde fallar um momento, com a garganta tomada de soluços.—Venho-lhe dizer adeus, tio Esguelhas, murmuroupor fim. Vou a Lisboa, tenho minha irmã a morrer...E acrescentou com os beiços tremulos d'um chôro que ia romper:—Todas as desgraças vêm juntas. Sabe, a pobre Ameliasinha lá morreu de repente...O sineiro emmudeceu, assombrado.—Adeus, tio Esguelhas. Dê cá a mão, tio Esguelhas. Adeus...—Adeus, senhor parocho, adeus! disse o velho com os olhos arrazados d'agua.Amaro fugiu para casa, contendo-se para não soluçar alto pelas ruas. Disse logo á Escolastica que ia partir n'essa noite para Lisboa. O tio Cruz devia mandar-lhe um cavallo, para ir tomar o comboio a Chão de Maçãs.—Eu não tenho senão o dinheiro que é necessario para a jornada. Mas o que ahi me fica em lençoes e toalhas é para vossê...A Escolastica, chorando de perder o senhor parocho, quiz beijar-lhe a mão por tanta generosidade: offereceu-se para fazer a mala...—Eu mesmo a arranjo, Escolastica, não se incommode.Fechou-se no quarto. A Escolastica, ainda choramingando, foi logo recolher, examinar as poucas roupas que estavam pelos armarios. Mas Amaro d'ahi a pouco gritou por ella: diante da janella uma harpa e uma rebeca, em desafinação, tocavam a valsa dosDois mundos.—Dê um tostão a esses homens, disse o padre furioso. E diga-lhe que vão p'r'ó inferno... Que está aqui gente doente!E até ás cinco horas a Escolastica não tornou a sentir rumor no quarto.Quando o moço do Cruz veio com o cavallo, pensando que o senhor parocho adormecera, ella foi-lhe bater devagarinho á porta do quarto, choramingando já da despedida proxima. Elle abriu logo. Estava de capote aos hombros; no meio do quarto prompta e acorreada a mala de lona que devia ir á garupa da egoa. Deu-lhe um maço de cartas para ir entregar n'essa noite à snr.aD. Maria da Assumpção, ao padre Silverio e a Natario: e ia descer, entre os prantos da mulher, quando sentiu na escada um ruido conhecido de muleta, e o tio Esguelhas appareceu muito commovido.—Entre, tio Esguelhas, entre.O sineiro cerrou a porta, e depois de hesitar um momento:—Vossa senhoria ha de desculpar, mas... Tinha-me esquecido de todo, com os desgostos que tenho passado. Já ha tempo que achei no quarto isto, e pensei que...E metteu na mão de Amaro um brinco d'ouro. Elle reconheceu-o logo: era d'Amelia. Muito tempo ella o procurára debalde; soltára-se decerto n'alguma manhã d'amor, sobre a enxerga do sineiro. Amaro então, suffocado, abraçou o tio Esguelhas.—Adeus! Adeus, Escolastica. Lembrem-se por cáde mim. Dê lembranças ao Mathias, tio Esguelhas...O moço afivelou a maleta ao sellim, e Amaro partiu, deixando a Escolastica e o tio Esguelhas, a chorar ambos á porta.Mas depois de ter passado os açudes, ao pé d'uma volta da estrada, teve de apear para compôr o estribo: e ia montar, quando appareceram dobrando o muro o doutor Godinho, o secretario geral e o senhor administrador do concelho, muito amigos agora, e que vinham, depois do passeio, recolhendo para a cidade. Pararam logo a fallar ao senhor parocho—admirando-se de o vêr alli, de maleta na garupa, com ares de jornada...—É verdade, disse, vou para Lisboa!O antigo Bibi e o administrador suspiraram invejando-lhe a felicidade.—Mas quando o parocho fallou da irmã moribunda, affligiram-se com polidez; e o senhor administrador disse:—Deve estar muito sentido, comprehendo... De mais a mais essa outra desgraça na casa d'aquellas senhoras suas amigas... A pobre Ameliasinha, morta assim de repente...O antigo Bibi exclamou:—O quê? A Ameliasinha, aquella bonita que morava na rua da Misericordia? Morreu?O doutor Godinho tambem o ignorava, e pareceu consternado.O senhor administrador soubera-o pela sua criada, que o ouvira da Dionysia. Dizia-se que fôra um aneurisma.—Pois senhor parocho, exclamou Bibi, desculpe se afflijo as suas crenças respeitaveis, que são as minhas de resto... Mas Deus commetteu um verdadeiro crime... Levar-nos a rapariga mais bonita da cidade! Que olhos, senhores! E depois com aquelle picantesinho da virtude...Então, n'um tom de pezames, todos lamentaram aquelle golpe que devia ter affectado tanto o senhor parocho.Elle disse muito grave:—Senti-o deveras... Conhecia-a bem... E com as suas boas qualidades, devia fazer, sem duvida, uma esposa modêlo... Senti-o muito.Apertou silenciosamente as mãos em redor—e emquanto os cavalheiros recolhiam á cidade, o padre Amaro foi trotando pela estrada, que já escurecia, para a estação de Chão de Maçãs.Ao outro dia, pelas onze horas, o enterro d'Amelia sahiu da Ricoça. Era uma manhã aspera: o céo e os campos estavam afogados n'uma nevoa pardacenta; e cahia, muito miuda, uma chuva regelada. Era longe da quinta a capella dos Poyaes. O menino do côro adiante, de cruz alçada, apressava-se, chapinhando a lama a grandes pernadas; o abbade Ferrão, d'estola negra, abrigava-se, murmurando oExultabunt Domino, sob o guardachuva que sustentava ao lado o sacristão com o hyssope; quatro trabalhadoresda quinta, abaixando a cabeça contra a chuva obliqua, levavam n'uma padiola o esquife que tinha dentro o caixão de chumbo; e, sob o vasto guardachuva do caseiro, a Gertrudes de mantéo pela cabeça ia desfiando as suas contas. Ao lado do caminho o valle triste dos Poyaes cavava-se, todo pardo na neblina, n'um grande silencio; e a voz enorme do vigario, mugindo oMiserere, rolava pela quebrada humida onde murmuravam os riachos muito cheios.Mas ás primeiras casas da aldeia os moços do caixão pararam derreados; e então um homem, que estava esperando debaixo d'uma arvore sob o seu guardachuva, veio juntar-se silenciosamente ao enterro. Era João Eduardo, de luvas pretas, carregado de luto, com as olheiras cavadas em dois sulcos negros, grossas lagrimas a correrem-lhe nas faces. E immediatamente, por traz d'elle, vieram collocar-se dois criados de farda, com as calças muito arregaçadas e tochas na mão—dois lacaios que mandára o Morgado, para honrar o enterro d'uma d'essas senhoras da Ricoça, amigas do abbade.Então, vendo estas duas librés que vinham afidalgar o prestito, o menino do côro rompeu logo, erguendo mais alto a cruz; os quatro homens, já sem fadiga, impertigaram-se ás varas da padiola: o sacristão bramiu umRequiemtremendo. E pelas lamas do íngreme caminho da aldeia foi subindo o enterro, emquanto às portas as mulheres se ficavam persignando, olhando as sobrepellizes brancas e o caixão de galões d'ouro, que se iam afastando seguidosdo grupo de guardachuvas abertos, sob a chuva triste.A capella era no alto, n'um adro de carvalheiras: o sino dobrava: e o enterro sumiu-se para o interior da igreja escura, ao canto doSubvenite sanctique o sacristão entoou em ronco.—Mas os dois criados de farda não entraram porque o senhor Morgado assim o tinha ordenado.Ficaram á porta, sob o guardachuva, escutando, batendo os pés regelados. Dentro seguia o cantochão; depois era um ciciar d'orações que se amortecia: e de repente latins funebres lançados pela voz grossa do vigario.Então os dois homens, enfastiados, desceram do adro, entraram um momento na taberna do tio Seraphim. Dois moços de gado da quinta do Morgado, que bebiam em silencio o seu quartilho, ergueram-se logo vendo apparecer os dois criados de farda.—Á vontade, rapazes, é sentar e beber, disse o velho baixito que acompanhava João Eduardo a cavallo. Nós lá estamos, na massada do enterro... Boas tardes, snr. Seraphim.Apertaram a mão ao Seraphim, que lhes mediu duas aguardentes—e informou-se se a defunta era a noiva do snr. Joãosinho. Tinham-lhe dito que morrera d'uma veia rebentada.O baixito riu:—Qual veia rebentada! Não lhe rebentou coisa nenhuma. O que lhe rebentou foi um rapagão pelo ventre...—Obra do snr. Joãosinho? perguntou o Seraphim, arregalando o olho bréjeiro.—Não me parece, disse o outro com importancia. O snr. Joãosinho estava em Lisboa... Obra d'algum cavalheiro da cidade... Sabe vossemecê de quem eu desconfio, snr. Seraphim?...Mas a Gertrudes, esbaforida, rompeu pela taberna gritando que o sahimento já ia ao pé do cemiterio, e que não faltavam senão «aquelles senhores»! Os lacaios abalaram logo, e alcançaram o enterro quando ia passando a pequena grade do cemiterio, ao ultimo versiculo doMiserere. João Eduardo agora levava uma vela na mão, ia logo atraz do caixão d'Amelia, tocando-o quasi, com os olhos ennevoados de lagrimas fitos no velludilho negro que o cobria. Sem cessar o sino na capella dobrava desoladamente. A chuva cahia mais miuda. E todos calados, no silencio fusco do cemiterio, com passos abafados pela terra molle, iam-se dirigindo para o canto do muro onde estava cavada de fresco a cova d'Amelia, negra e profunda entre a relva humida. O menino do côro cravou no chão a haste da cruz prateada, e o abbade Ferrão, adiantando-se até á beira do buraco escuro, murmurou oDeus cujus miseratione... Então João Eduardo, muito pallido, vacillou de repente, e o guardachuva cahiu-lhe das mãos; um dos criados de farda correu, segurou-o pela cinta; queriam-no levar, arrancal-o d'ao pé da cova; mas elle resistiu, e alli ficou, com os dentes cerrados, segurando-se desesperadamente á manga do criado, vendoo coveiro e os dois moços amarrarem as cordas no caixão, fazerem-no resvalar devagar entre a terra esfarellada que rolava, com um ranger de taboas mal pregadas.—Requiem aeternam donna ei, Domine!—Et lux perpetua luceat ei, mugiu o sacristão.O caixão bateu no fundo com uma pancada surda: o abbade espalhou em cima uma pouca de terra em fórma de cruz: e sacudindo lentamente o hyssope sobre o velludilho, a terra, a relva em redor:—Requiescat in pace.—Amen, responderam a voz cava do sacristão e a voz aguda do menino do côro.—Amen, disseram todos n'um murmurio, que ciciou, se perdeu entre os cyprestes, as hervas, os tumulos e as nevoas frias d'aquelle triste dia de dezembro.XXVINos fins de maio de 1871 havia grande alvoroço na Casa Havaneza, ao Chiado, em Lisboa. Pessoas esbaforidas chegavam, rompiam pelos grupos que atulhavam a porta, e alçando-se em bicos de pés esticavam o pescoço, por entre a massa dos chapeus, para a grade do balcão, onde n'uma taboleta suspensa se collavam os telegrammas daAgencia Havas; sujeitos de faces espantadas sahiam consternados, exclamando logo para algum amigo mais pacato que os esperára fóra:—Tudo perdido! Tudo a arder!Dentro, na multidão de grulhas que se apertava contra o balcão, questionava-se forte; e pelo passeio, no largo do Loreto, defronte ao pé do estanco, pelo Chiado até ao Magalhães, era, por aquelle dia já quentedo começo de verão, toda uma gralhada de vozes impressionadas onde as palavras—Communistas! Versailles! Petroleiros! Thiers! Crime! Internacional!voltavam a cada momento, lançadas com furor, entre o ruido das tipoias e os pregões dos garotos gritandosupplementos.Com effeito, a cada hora, chegavam telegrammas annunciando os episodios successivos da insurreição batalhando nas ruas de Paris: telegrammas despedidos de Versailles n'um terror dizendo os palacios que ardiam, as ruas que se aluiam; fuzilamentos em massa nos pateos dos quarteis e entre os mausoleus dos cemiterios; a vingança que ia saciar-se até á escuridão dos esgotos; a fatal demencia que desvairava as fardas e as blusas; e a resistencia que tinha o furor de uma agonia com os methodos d'uma sciencia, e fazia saltar uma velha sociedade pelo petroleo, pela dynamite e pelo nitro-glycerina! Uma convulsão, um fim de mundo—que vinte, trinta palavras de repente mostravam, n'um relance, a um clarão de fogueira.O Chiado lamentava com indignação aquella ruina de Paris. Recordavam-se com exclamações os edificios ardidos, o Hotel de Ville, «tão bonito», a rua Royale, «aquella riqueza». Havia individuos tão furiosos com o incendio das Tulherias como se fosse uma propriedade sua: os que tinham estado em Paris um ou dois mezes abriam-se em invectivas, arrogando-se uma participação de parisiense na riqueza da cidade, escandalisados por a insurreição não ter respeitado monumentos em que elles tinham posto os seus olhos.—Vejam vossês! exclamava um sujeito gordo. O palacio da Legião d'Honra destruido! Ainda não ha um mez que eu lá estive com minha mulher... Que infamia! Que patifaria!Mas espalhára-se que o ministerio recebera outro telegramma mais desolador: toda a linha doboulevardda Bastilha á Magdalena ardia, e ainda a praça da Concordia, e as avenidas dos Campos-Elyseos até ao Arco do Triumpho. E assim tinha a revolta arrazado, n'uma demencia, todo aquelle systema de restaurantes, cafés-concertos, bailes publicos, casas de jogo e ninhos de prostitutas! Então houve por todo o largo do Loreto até ao Magalhães um estremecimento de furor. Tinham pois as chammas aniquilado aquella centralisação tão commoda da patuscada! Oh que infamia! O mundo acabava! Onde se comeria melhor que em Paris? Onde se encontrariam mulheres mais experientes? Onde se tornaria a vêr aquelle desfilar prodigioso d'uma volta de Bois, nos dias asperos e seccos d'inverno, quando as victorias das cocottes resplandeciam ao pé dos phaetons dos agentes da Bolsa? Que abominação! Esqueciam-se as bibliothecas e os museus: mas a saudade era sincera pela destruição dos cafés e pelo incendio dos lupanares. Era o fim de Paris, era o fim da França!N'um grupo ao pé da Casa Havaneza os questionadores politicavam: pronunciava-se o nome de Proudhon que, por esse tempo, se começava a citar vagamente em Lisboa como um monstro sanguinolento; e as invectivas rompiam contra Proudhon. Amaior parte imaginava que era elle que tinha incendiado. Mas o poeta estimado dasFlôres e Aisacudiu dizendo «que, à parte as asneiras que Proudhon dizia, era ainda assim um estylista bastante ameno». Então o jogador França berrou:—Qual estylo, qual cabaça! Se aqui o pilhasse no Chiado rachava-lhe os ossos!E rachava. Depois do cognac o França era uma fera.Alguns moços porém, a quem o elemento dramatico da catastrophe revolvia o instincto romantico, applaudiam a heroicidade da Communa—Vermorel abrindo os braços como o Crucificado, e sob as balas que o trespassavam gritando: Viva a humanidade! O velho Delecluze, com um fanatismo de santo, dictando do seu leito d'agonia as violencias da resistencia...—São grandes homens! exclamava um rapaz exaltado.Em redor as pessoas graves rugiam. Outras afastavam-se pallidas, vendo já as suas casas na Baixa a escorrer de petroleo e a mesma Casa Havaneza presa de chammas socialistas. Então era em todos os grupos um furor d'auctoridade e repressão: era necessario que a sociedade, atacada pela Internacional, se refugiasse na força dos seus principios conservadores e religiosos, cercando-os bem de baionetas! Burguezes com tendas de capellistas fallavam da «canalha» com o desdem imponente d'um La Tremouille ou d'um Ossuna. Sujeitos, palitando os dentes, decretavam a vingança. Vadios pareciam furiosos «contra o operarioque quer viver como principe». Fallava-se com devoção na propriedade, no capital!D'outro lado eram moços verbosos, localistas excitados que declamavam contra o velho mundo, a velha idéa, ameaçando-os d'alto, propondo-se a derruil-os em artigos tremendos.E assim uma burguezia entorpecida esperava deter, com alguns policias, uma evolução social: e uma mocidade, envernizada de litteratura, decidia destruir n'um folhetim uma sociedade de dezoito seculos. Mas ninguem se mostrava mais exaltado que um guarda-livros de hotel, que do alto do degrau da Casa Havaneza brandia a bengala, aconselhando á França a restauração dos Bourbons.Então um homem vestido de preto, que sahira do estanco e atravessava por entre os grupos, parou, sentindo uma voz espantada que exclamava ao lado:—Ó padre Amaro! ó maganão!Voltou-se: era o conego Dias. Abraçaram-se com vehemencia, e para conversarem mais tranquillamente foram andando até ao largo de Camões, e alli pararam, junto á estatua:—Então vossê quando chegou, padre-mestre?Tinha chegado na vespera. Trazia uma demanda com os Pimentas da Pojeira por causa d'uma servidão na quinta, tinha appellado para a Relação, e vinha seguir de perto a questão na capital.—E vossê, Amaro? Na ultima carta dizia-me que tinha vontade de sahir de Santo Thyrso.Era verdade. A parochia tinha vantagens; masvagára Villa-Franca, e elle, para estar mais perto da capital, viera fallar com o senhor conde de Ribamar, o seu conde, que lá andava obtendo a transferencia. Devia-lhe tudo, sobretudo á senhora condessa!—E de Leiria? A S. Joanneira, vai melhor?—Não, coitada... Vossê sabe, ao principio tivemos um susto dos diabos... Pensavamos que lhe ia succeder como á Amelia. Mas não, era hydropesia... E alli o que ha é anasarca...—Coitada, santa senhora! E o Natario?—Avelhado. Tem tido seus desgostos. Muita lingua.—E diga lá, padre-mestre, o Libaninho?—Eu escrevi-lhe a esse respeito, disse o conego rindo.O padre Amaro riu tambem: e durante um momento os dois sacerdotes pararam, apertando as ilhargas.—Pois é verdade, disse emfim o conego. A coisa tinha sido realmente escandalosa... Porque emfim, repare o amigo que o pilharam com o sargento, de tal modo que não havia a duvidar... E ás dez horas da noite, na alameda! Já é imprudencia... Mas emfim a coisa esqueceu, e quando o Mathias morreu, lá lhe demos o logar de sacristão, que é bem boa posta... Muito melhor que o que elle tinha no cartorio... E ha de cumprir com zelo!—Ha de cumprir com zelo, concordou muito sérioo padre Amaro. E a proposito, a D. Maria da Assumpção?—Homem, rosnam-se coisas... Criado novo... Um carpinteiro que morava defronte... O rapaz anda no trinque.—Palavra?—No trinque. Charuto, relogio, luva! Tem pilheria, hein?—É divino!—As Gansosos na mesma, continuou o conego. Têm agora a sua criada, a Escolastica.—E da besta do João Eduardo?—Eu mandei-lhe dizer, não? Lá está ainda nos Poyaes. O Morgado está mal do figado. E o João Eduardo diz que está tisico... que eu não sei, nunca mais o vi... Quem m'o disse foi o Ferrão.—Como vai elle, o Ferrão?—Bem. Sabe quem eu vi ha dias? A Dionysia.—E então?O conego disse uma palavra baixo ao ouvido do padre Amaro.—Deveras, padre-mestre?—Na rua das Sousas, a dois passos da sua antiga casa. O D. Luiz da Barrosa é que lhe deu o dinheiro para montar o estabelecimento. Pois aqui estão as novidades. E vossê está mais forte, homem! Fez-lhe bem a mudança...E pondo-se diante, galhofando:—Ó Amaro, e vossê a escrever-me que queriaretirar-se para a serra, ir para um convento, passar a vida em penitencia...O padre Amaro encolheu os hombros:—Que quer vossê, padre-mestre?... N'aquelles primeiros momentos... Olhe que me custou! Mas tudo passa...—Tudo passa, disse o conego. E depois d'uma pausa:—Ah! Mas Leiria já não é Leiria!Passearam então um momento em silencio, n'uma recordação que lhes vinha do passado, os quinos divertidos da S. Joanneira, as palestras ao chá, as passeatas ao Morenal, oAdeuse oDescridocantados pelo Arthur Couceiro e acompanhados pela pobre Amelia, que agora lá dormia, no cemiterio dos Poyaes, sob as flôres silvestres...—E que me diz vossê a estas coisas de França, Amaro? exclamou de repente o conego.—Um horror, padre-mestre... O arcebispo, uma sucia de padres fuzilados!... Que brincadeira!—Má brincadeira, rosnou o conego.E o padre Amaro:—E cá pelo nosso canto parece que começam tambem essas idéas...O conego assim o ouvira. Então indignaram-se contra essa turba de maçons, de republicanos, de socialistas, gente que quer a destruição de tudo o que é respeitavel—o clero, a instrucção religiosa, a familia, o exercito e a riqueza... Ah! a sociedade estava ameaçada por monstros desencadeados! Eramnecessarias as antigas repressões, a masmorra e a forca. Sobretudo inspirar aos homens a fé e o respeito pelo sacerdote.—Ahi ó que está o mal, disse Amaro, é que nos não respeitam! Não fazem senão desacreditar-nos... Destroem no povo a veneração pelo sacerdocio...—Calumniam-nos infamamente, disse n'um tom profundo o conego.Então junto d'elles passaram duas senhoras, uma já de cabellos brancos, o ar muito nobre; a outra, uma creaturinha delgada e pallida, d'olheiras batidas, os cotovêlos agudos collados a uma cinta d'esterilidade,pouffenorme no vestido, cuia forte, tacões de palmo.—Caspitè! disse o conego baixo, tocando o cotovêlo do collega. Hein, seu padre Amaro?... Aquillo é que vossê queria confessar.—Já lá vai o tempo, padre-mestre, disse o parocho rindo, já as não confesso senão casadas!O conego abandonou-se um momento a uma grande hilaridade; mas retomou o seu ar ponderoso de padre obeso, vendo Amaro tirar profundamente o chapéo a um cavalheiro de bigode grisalho e oculos d'ouro, que entrava na praça, do lado do Loreto, com o charuto cravado nos dentes e o guardasol debaixo do braço.Era o senhor conde de Ribamar. Adiantou-se com bonhomia para os dois sacerdotes; e Amaro, descoberto e perfilado, apresentou «o seu amigo, o senhor conego Dias, da Sé de Leiria». Conversaram um momentoda estação, que já ia quente. Depois o padre Amaro fallou dos ultimos telegrammas.—Que diz vossa excellencia a estas coisas de França, senhor conde?O estadista agitou as mãos, n'uma desolação que lhe assombreava a face:—Nem me falle n'isso, senhor padre Amaro, nem me falle n'isso... Vêr meia duzia de bandidos destruir Paris... O meu Paris!... Creiam vossas senhorias que tenho estado doente.Os dois sacerdotes, com uma expressão consternada, uniram-se á dôr do estadista.E então o conego:—E qual pensa vossa excellencia que será o resultado?O senhor conde de Ribamar, com pausa, em palavras que sabiam devagar, sobrecarregadas do peso das idéas, disse:—O resultado?... Não é difficil prevel-o. Quando se tem alguma experiencia da Historia e da Politica, o resultado de tudo isto vê-se distinctamente. Tão distinctamente como os vejo a vossas senhorias.Os dois sacerdotes pendiam dos labios propheticos do homem de governo.—Suffocada a insurreição—continuou o senhor conde olhando a direito diante de si com o dedo no ar, como seguindo, apontando os futuros historicos que a sua pupilla, ajudada pelos oculos d'ouro, penetrava—suffocada a insurreição, dentro de tres mezes temos de novo o imperio... Se vossas senhoriastivessem visto como eu uma recepção nas Tulherias ou no Hotel de Ville, nos tempos do imperio, haviam de dizer, como eu, que a França é profundamente imperialista e só imperialista... Temos pois Napoleão III: ou talvez elle abdique, e a imperatriz tome a regencia na menoridade do principe imperial... Eu aconselharia antes, e já o fiz saber, que era esta talvez a solução mais prudente. Como consequencia immediata temos o Papa em Roma outra vez senhor do poder temporal... Eu, a fallar a verdade, e já o fiz saber, não approvo uma restauração papal. Mas eu não lhes estou aqui a dizer o que approvo, ou o que reprovo. Felizmente não sou o dono da Europa... Seria um encargo superior á minha idade e ás minhas enfermidades. Estou a dizer o que a minha experiencia da Politica e da Historia me aponta como certo... Dizia eu...? Ah! a imperatriz no throno de França, Pio Nono no throno de Roma, ahi temos a democracia esmagada entre estas duas forças sublimes, e creiam vossas senhorias um homem que conhece a sua Europa e os elementos de que se compõe a sociedade moderna, creiam que depois d'este exemplo da Communa não se torna a ouvir fallar de republica, nem de questão social, nem de povo, n'estes cem annos mais chegados!...—Deus Nosso Senhor o ouça, senhor conde, fez com unção o conego.Mas Amaro, radiante de se achar alli, n'uma praçade Lisboa, em conversação intima com um estadista illustre, perguntou ainda, pondo nas palavras uma anciedade de conservador assustado:—E crê vossa excellencia que essas idéas de republica, de materialismo, se possam espalhar entre nós?O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois padres, até quasi junto das grades que cercam a estatua de Luiz de Camões:—Não lhes dê isso cuidado, meus senhores, não lhes dê isso cuidado! É possivel que haja ahi um ou dois esturrados que se queixem, digam tolices sobre a decadencia de Portugal, e que estamos n'um marasmo, e que vamos cahindo no embrutecimento, e que isto assim não póde durar dez annos. etc. etc. Babuseiras!...Tinha-se encostado quasi ás grades da estatua, e tomando uma attitude de confiança:—A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros invejam-nos... E o que vou a dizer não é para lisonjear a vossas senhorias: mas emquanto n'este paiz houver sacerdotes respeitaveis como vossas senhorias, Portugal ha de manter com dignidade o seu logar na Europa! Porque a fé, meus senhores, é a base da ordem!—Sem duvida, senhor conde, sem duvida, disseram com força os dois sacerdotes.—Senão, vejam vossas senhorias isto! Que paz, que animação, que prosperidade!E com um grande gesto mostrava-lhes o largo doLoreto, que áquella hora, n'um fim de tarde serena concentrava a vida da cidade. Tipoias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia e tacão alto, com os movimentos derreados, a pallidez chlorotica d'uma degeneração de raça; n'alguma magra pileca, ia trotando algum moço de nome historico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos da praça gente estirava-se n'um torpôr de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos sobre as suas altas rodas, era como o symbolo de agriculturas atrazadas de seculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burguez enfastiado lia nos cartazes o annuncio d'operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operarios havia como a personificação das industrias moribundas... E todo este mundo decrepito se movia lentamente, sob um céo lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a loteria e a batota publica, e rapazitos de voz plangente offerecendo oJornal das pequenas novidades: e iam, n'um vagar madraço, entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam tres taboletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de taberna, e desembocavam, com um tom sujo d'esgoto aberto, as viellas de todo um bairro de prostituição e de crime.—Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta paz, esta prosperidade, este contentamento... Meus senhores, não admira realmente que sejamos a inveja da Europa!E o homem d'estado, os dois homens de religião, todos tres em linha, junto ás grades do monumento, gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do seu paiz,—alli ao pé d'aquelle pedestal, sob o frio olhar de bronze do velho poeta, erecto e nobre, com os seus largos hombros de cavalleiro forte, a epopeia sobre o coração, a espada firme, cercado dos chronistas e dos poetas heroicos da antiga patria—patria para sempre passada, memoria quasi perdida!Outubro 1878—Outubro 1879.Lista de erros corrigidosAqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:OriginalCorrecção#pág. 81?uz...luz#pág. 88arcepispo...arcebispo#pág. 95branços...braços#pág. 152elle...ella#pág. 344demolissse...demolisse#pág. 357religão...religião#pág. 357Infelimente...Infelizmente#pág. 357podia ter ter...podia ter#pág. 360tataruga...tartaruga#pág. 372patite...patife#pág. 396exemplicar...exemplificar#pág. 397cebeça...cabeça#pág. 425installado-se...installando-se#pág. 428encondo...encontrado#pág. 430iria em em...iria em#pág. 436enconder...esconder#pág. 460atravessassse...atravessasse#pág. 463malacia...malicia#pág. 478grades...grandes#pág. 489necesario...necessario#pág. 489viessa...viesse#pág. 492entercimento...enternecimento#pág. 558appareeeu...appareceu#pág. 634cruxifico...crucifixoO original não tem capítulo XI, no entanto, a numeração das páginas não apresenta quebra na narração. Optámos por não corrigir a numeração dos capítulos.
Ipse ratem conto subigit, velisque ministratEt ferruginea subvectat corpora cymba.
Lista de erros corrigidosAqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:OriginalCorrecção#pág. 81?uz...luz#pág. 88arcepispo...arcebispo#pág. 95branços...braços#pág. 152elle...ella#pág. 344demolissse...demolisse#pág. 357religão...religião#pág. 357Infelimente...Infelizmente#pág. 357podia ter ter...podia ter#pág. 360tataruga...tartaruga#pág. 372patite...patife#pág. 396exemplicar...exemplificar#pág. 397cebeça...cabeça#pág. 425installado-se...installando-se#pág. 428encondo...encontrado#pág. 430iria em em...iria em#pág. 436enconder...esconder#pág. 460atravessassse...atravessasse#pág. 463malacia...malicia#pág. 478grades...grandes#pág. 489necesario...necessario#pág. 489viessa...viesse#pág. 492entercimento...enternecimento#pág. 558appareeeu...appareceu#pág. 634cruxifico...crucifixoO original não tem capítulo XI, no entanto, a numeração das páginas não apresenta quebra na narração. Optámos por não corrigir a numeração dos capítulos.
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O original não tem capítulo XI, no entanto, a numeração das páginas não apresenta quebra na narração. Optámos por não corrigir a numeração dos capítulos.