II
Omorgado da Palmeira cuidou que facilmente se desatavam os vinculos tenazes do amor-habito. Este amor é tão entranhado e subtil em alguns temperamentos, que até resiste á lima roaz do tedio. Se a mulher fastidiosa desapparece dos olhos fatigados de a verem, não sei de que refolhos da alma rebenta um espinho levemente doloroso, quando inesperadamente fere; mas com o rodar de dias, crava-se, punge, e doe tanto como a saudade da mulher que mais se ama e deseja.
Esta dôr sentiu-a elle, quando se viu no Vidago, ao pé do leito da mãe entrevada, sem sociedade que o distrahisse, além do reitor que o mortificava com perguntas sobre paizes estrangeiros.
Mulheres, n’aquella povoação, não havia uma que lhe prendesse o olhar, nem o fizesse descer á requesta, em competencia com os seus criados. Perguntavaá desmemoriada mãe pelas formosas primas, que deixára, em tal e tal casa. A velha respondia-lhe que umas estavam acabadas, outras mães de filhos, e outras na sepultura. Nicoláo de Mesquita espantava-se de achar extincta a formosura das primas da sua creação. Os homens que não descaem ou fingem não descair da mocidade tão de pressa, assombram-se da mudança que dez annos fazem no rosto e na alma das mulheres suas contemporaneas.
Foi isto grande parte na saudade, que por pouco o não impelliu ao Porto. Se fosse antes de reaccender-se na chamma do seu antigo amor a Margarida, uma nova enchente de tedio lhe apagaria as faiscas instantaneas. Estes amores são relampagos. Nas trevas, que se carregam depois, ha um abafar de coração, angustia incomparavel com a tristeza da saudade.
Elle adivinhava este segredo, que todos sabemos de animo frio, e todos ignoramos, se a paixão nos desluz a razão experimentada nos desvarios proprios e nos alheios. Ainda assim, póde ser que o presagio o não demovesse; conteve-o, por ventura, o receio de expôr-se ás iras do chanceller. Margarida, em quanto a perplexidade do amante durou, recebeu cartas muito amoraveis, que lhe consolaram a vaidade. Respondia ella que a chamasse a viver obscura entre arvores, sem mais alegrias que as das avesinhas, e a certeza de ser precisa á vida d’elle. Estas supplicas demonstram a singeleza ou o errado artificio de Margarida. Se ella tivesse respondido friamente, resignando-se com a ausencia, Nicoláo iria buscal-a. Nós entendemos sempre que a resignação é renuncia. O ciume faz então prodigiosque nivellam o mais descaroado orgulho com a allucinação de Werther ou Othello.
Permaneceu o morgado na indecisão, até que, um dia, foi a Chaves concorrer a um baile, com que seu primo Martinho Xavier de Sousa Vahia celebrava o natalicio de sua filha primogenita Beatriz. Tinha dezeseis annos esta menina. Rosto e candura do ceu. Alegria de borboleta na primavera entre as alvissimas flores do espinheiro.
Nicoláo dançou com sua sobrinha... ou prima. Elle antes queria que Beatriz lhe chamasse primo. Passou a noite: ninguem vira dançar o morgado da Palmeira com outra dama. E a rainha da festa uma vez apenas esvoaçara na sala amparada, senão levemente presa por um dos anneis louros do seu cabello á espadua de outro homem.
De Nicoláo de Mesquita diziam as mulheres:—Parece que tem vinte annos! Como está moço, e que airosidade na dança!
—Pois tem perto de quarenta!—Atalhava um moço de vinte, com um sorriso e abanar de cabeça desdenhoso.
Acabou n’esta noite a indecisão de Nicoláo, respeito a madame Froment.
Recolhendo ao Vidago, encontrou uma carta em que ella amorosamente o ameaçava de ir procural-o, sem consentimento prévio. Apressou-se elle a responder-lhe que se contivesse, a não querer contrarial-o.
Dois dias passados, tornou para Chaves, a cumprir a promessa de quinze dias de hospedagem em casa de seu primo Vahia: quinze dias de jantares e saraus, em que Nicoláo de Mesquita impressionou muitas damas com o leve incommodo de contaranecdotas joviaes, costumes estrangeiros, amores celebrados, aventuras estranhas, coisas de chorar e de rir, iguarias para todos os paladares.
Beatriz era das que folgava das historietas facetas. Casos de lagrimas enterneciam-n’a até lhe molestarem os nervos. Pediu ella a seu primo contos engraçados. E Nicoláo, que nunca em sua vida tivera graça, transverteu-se por milagre de amor, e fez rir a filha de seu primo. A sós comsigo, o morgado da Palmeira, que vira muito e brilhante mundo, quasi que de si mesmo ria.
Voltou a casa onde o chamára o aviso de estar a mãe em perigo de vida. Assistiu-lhe á morte, fez-lhe enterro pomposo, encerrou-se por oito dias, pagou as visitas, e voltou para Chaves.
D’este successo não deu parte a Margarida nem respondeu ás cartas, que encontrára, queixosas do seu silencio. A esposa de Ernesto Froment tinha morrido para o amante como para o marido. A Providencia ordenára á formosa de Chaves que lançasse a prevaricadora no fogo expiatorio, não lavareda devorante, mas brazido lento, que lhe fosse queimando fibra por fibra os orgãos todos onde a vida humana pode soffrer e morrer mil vezes. Nicoláo lembrava-se d’ella com susto, e ás vezes com remorso; o susto de a vêr atravessar-se em seus designios; o remorso de atiral-a a um caminho, sem saida que não seja garganta de voragem.
Adeante! Nicoláo de Mesquita conhecia milhares de exemplos. Em Paris, cada homem dos admirados e invejados no bosque de Bolonha, no café Tortoni, nos centros da mocidade insigne, podia contar dezenas d’aquellas historias, laudas da biographiadolorosa que as mulheres das salas repetiam sem horror.
O horror das mulheres das salas era para as victimas.
Homens sacrificados é que elle não conhecêra. Homens que immolassem os melhores annos da sua mocidade a um dever, que o mundo chama um escandalo. Homens que, em cada primavera do coração, arrancassem os renovos promettedores de muitas alegrias, e os atirassem fenecidos aos pés de uma como estatua, incapaz de avaliar a renunciação, ou, peior ainda, persuadida do dever do sacrificio.
N’isto cogitára elle em todos os dias dos seis annos de captiveiro.
Agora, na liberdade, era preciso ser homem como todos, ser forte para não ser infeliz e ridiculo: porque a desgraça dos penitentes, que não podem nobilitar, com alguma sombra de moral commum, o grandioso holocausto de sua liberdade, é irrisoria.
E depois, quem sabe?
Margarida voltará para França, onde tem o marido, e a mãe. Se o marido a recebe, feliz culpa que a mette ao caminho da rehabilitação! Se a rejeita, a mãe lhe abrirá os braços e o sanctuario da familia lhe purificará o espirito. Esta moralidade, subitamente formada no animo do morgado, é uma zombaria da virtude. Faz-se muita moralidade assim; a sociedade ás vezes applaude-a, e sae em auxilio dos moralisadores.
Com estas hypotheses combatia Nicoláo de Mesquita o impertinente remorso, quando ia para Chaves. Porém assim que se refugiou sob os olhos tutelaresde Beatriz, a chimera da consciencia fugiu espavorida.
Martinho Xavier perguntára a sua filha se o primo de Vidago lhe dizia particularmente palavras indicativas de algum sentimento mais forte que o do parentesco e amisade.
Beatriz córou. O pae ficou satisfeito.
E, n’outro ensejo, perguntou-lhe:
—Gostas do primo Nicoláo? Sê sincera, minha filha.
—Não desgosto... balbuciou a pomba.
—E, se elle quizesse ser teu marido, acceitarias de boa vontade?
—Querendo meu pae...
—Eu não quero, nem deixo de querer. Consulto a tua vontade.
—Eu...
—Acceitas?
—Pois sim...
—Mas—tornou Martinho Xavier—tu, antes da vinda de Nicoláo, parece que acceitavas a côrte do primo de Fayoens, que foi creado comtigo.
Beatriz córou e calou-se. O pae achou prudente calar-se tambem, n’este artigo melindroso, e volveu ao essencial.
—Nicoláo perguntou-me se o teu coração estava livre. Respondi que o suppunha desprendido de affeição seria. Quiz elle saber se tu quererias ligar a tua mocidade aos annos já adeantados de um homem, que te amaria como esposo, e estremeceria como pae. Vou dar-lhe a tua resposta, se é que lh’a não déste.
A menina fez um gesto de assentimento.
O morgado da Palmeira, no dia seguinte, disse a Beatriz:
—Quer meditar algum tempo antes de ser minha esposa, prima Beatriz?
—Já respondi, primo Nicoláo.
—Despede-se sem saudades da sua mocidade? Não deixa impressão que a possa magoar?
—Não...
—Nenhum homem que lhe inquietasse o coração?...
—Nenhum...
—Acredito-a, Beatriz. Pois saiba que ha-de ser venturosa, quanto os anjos podem ser n’este mundo. Hei de obrigal-a com extremos de amor a ser minha amiga. Vêr-me-ha invelhecer, e então sentirá por mim affecto de filha. O homem, na minha edade, sabe como se faz a felicidade de uma mulher. Entrego-lhe o coração maculado, mas ainda forte de vida, a vida do coração, que é a poesia das almas enthusiastas. Se eu me sentisse gasto e insensivel, a prima Beatriz, com o segredo que teve de influir um sagrado fogo no gelo da minha vida moral, havia de fazer o menor milagre de remoçar-me. Será feliz, minha prima: juro-lh’o, beijando-lhe esta mão pura!
Beatriz cedeu facilmente a mão, para não prejudicar o ritual do juramento.
Se Deus fosse carne, e tivesse labios susceptiveis de obedecerem ás contracções convulsas dos musculos faciaes, ria-se sardonicamente d’aquelle juramento.
O lance, digno de ser pintado com as branduras de Bernardin de S. Pierre, foi interrompido por um criado, que apresentava a Nicoláo de Mesquita umacarta, vinda em mão propria, de Villa Pouca de Aguiar, distante de Chaves tres ou quatro leguas.
O morgado viu o sobrescripto, e mudou de côr.
Era a lettra de Margarida Froment, que havia chegado a Villa Pouca na tarde do dia anterior.
O contheudo eram duas palavras:ESTOU AQUI.
Beatriz ergueu-se em ponta de pés. Adoravel curiosidade! Viu; mas não entendeu. Era em francez. Encarou no primo e disse sobresaltada:
—Que é?!
—Um amigo que me chama a Villa Pouca, tartamudeou.
—E porque não vem cá? replicou a innocente com a cavillosa dialectica de uma senhora já esquecida do tempo em que passou pelas varzeas floridas da innocencia.
—É um francez, meu amigo, que vae de passagem para Hespanha, e precisa de recursos.
—Não se assignou?! redarguiu candidamente Beatriz.
—Não, porque... porque é perseguido em Portugal, e receiou que se desencaminhasse a carta.
—E vae, primo?
—Sem demora. Devo-lhe obsequios.
Estas palavras já foram ditas com toda a quietação de animo. Beatriz socegou; mas, depois que Nicoláo saiu, inquietou-se e mandou, a occultas do pae, um criado a Villa Pouca, espiar os passos do morgado da Palmeira.
Amava-o: estou em crêr que o amava.
Nicoláo de Mesquita ia chammejando de raiva a Margarida. Esporeava o cavallo que devorou as leguas em furiosa desfilada. Soffreava a brida instantaneamente, para meditar no que faria. Baralhavam-se-lheos planos, todos miseraveis, senão abjectos.
Apeou á porta da estalagem.
A franceza esperou-o no topo da escada, abrindo os braços. Nicoláo apertou-lhe a mão, e disse-lhe glacialmente:
—Que é isto?
Margarida transfigurou-se. Deixou cair mortalmente os braços, e disse então dorida e irritada:
—Para que veio aqui?
—Pois a tua carta que significa? Diz.
—Nada. Respondesse: «Não conheço a desgraçada, a perdida, a infame que me escreve. Desgracei-a eu, perdi-a eu, infamei-a eu; mas não a conheço.» Respondesse assim, senhor Nicoláo de Mesquita. Antes isto, que repellir a mulher que de braços abertos lhe offerece o coração traspassado de dôres.
—Vem cá, Margarida! tornou o morgado, simulando meiguice. Vem conversar commigo. Tu és injusta, ou estás enganada.
A franceza abriu a porta do seu quarto. Nicoláo sentou-se a limpar as bagas de suor. E ella ficou em pé defronte d’elle, hirta, sublime, formosa, e formidavel de odio, de amor, de desesperação, de ternura, um indefinivel conjuncto de demonio da soberba, e anjo da agonia.
E elle estava como se a não visse, fitando-a nos olhos coruscantes. Latejavam-lhe as fontes batidas de dentro por clavas de ferro. Seria um atroz pezadelo, se não fosse um abafar de vergonha e rancor.
Margarida esperou alguns segundos, e disse:
—Conversemos, pois.
Nicoláo ergueu-se de golpe, e exclamou:
—Desprézo a ironia!
—Isso é uma miseria, senhor Nicoláo, retorquiu serenamente a franceza. Conversemos, pois!