VII

VII

Saudadesde Margarida Froment?

A pergunta póde abonar a candura, mas não abona a experiencia de quem se dignou fazer-m’a.

Saudades de Margarida, porque havia sido amada apaixonadamente.

Porque era ainda bella, quando foi abandonada.

Porque houvera um homem que a tomára despresada nos braços, e a mostrava ao mundo com soberba de a possuir.

Porque esse homem era moço, gentil, fidalgo, e requestado das mais extremadas formosuras da provincia.

Porque esse homem, em vez de escondel-a nas sombras d’umas arvores, galeava pomposamente com ella, offuscando os olhos pavidos da moral publica.

Porque Margarida tinha prodigiosas graças, de que Nicoláo se estava lembrando agora.

Porque Margarida, sobre ser espirituosa, era um talento que bastava a entreter e lisongear o mais cubiçoso espirito.

Porque Margarida lhe havia sido leal até o momento de ser grosseiramente repellida.

Porque chorava, quando elle cruamente a odiava.

Porque era bella, digamol-o segunda vez, porque era bella.

E mais que tudo, porque era de outro.

Aqui estão osporquêsda miseria do coração de Nicoláo de Mesquita, barro commum da humanidade, miseria deploravel, que importa chorarmos todos, por ser nossa a miseria, e não sabermos como se póde com lodo e lagrimas reconstruir uma coisa melhor do que a fez o Creador.

Peregrina belleza era Beatriz; esposa casta e paciente nenhuma se lhe avantajava; mulher para o ideal, e anjo para a sensação, nenhuma como ella; virtudes, graças, lagrimas do seio sem macula: tudo que mais prende o amor, e a misericordia quando o amor se extingue; tudo superabundava na esposa de dezesete annos; mas Beatriz era de Nicoláo indissoluvelmente, e Margarida estava sendo de Ricardo.

Que repulsivo confronto entre as duas mulheres!

Que mal premiada a honra, sujeita a comparações tão aviltantes!

Ora, a saudade do morgado da Palmeira excruciava-o. Era um ferro candente a fistular-lhe as entranhas. Da quinta do Porto, onde se anojára cinco annos, recordava-se como Lucifer do ceu. Parecia-lhe que Beatriz era o archanjo do montante de fogo,a repulsal-o eternamente das delicias do coração. Fugia de si mesmo como corrido de sua ignominia. Punha os olhos supplicantes no oratorio de sua mãe. Apertava ao seio a esposa, como se esperasse apagar a flamma infernal em contacto da mulher pura. Margarida arrancava-o pelos cabellos dos braços da esposa, arrastava-o até se assentar com elle n’alguma amenidade das florestas, e ahi lhe dizia as phrases embriagantes dos primeiros mezes da sua paixão em Bruxellas, ou, debulhada em lagrimas, se queixava da ingratidão com que elle desamparára a mulher, por amor d’elle perdida, sem amigos, sem marido e talvez sem pão.

Era um supplicio expiador! Nicoláo conheceu que era preciso Deus para a misericordia, logo que lhe reconheceu a mão no peso do castigo. Não bastava o amor desesperançado: cumpria que o remorso lhe envenenasse o sangue: remorso de infamar um amigo e de lhe atirar ao gozo dos homens a mulher infamada!

Tinha momentos de contemplal-o com pavor Beatriz. Falava-lhe, e elle estremecia, articulando desatinos. Punha-lhe a mão no rosto abrazeado, e elle repellia os afagos, e voltava depois a procural-os, chorando.

Beatriz mandou secretamente chamar o pae.

Assim que Nicoláo presentiu Martinho Xavier no pateo de sua casa, saiu enraivecido, e voltou depois envergonhado da sua raiva, sem dar tino da razão da fuga nem da vergonha.

A attribulada senhora contára ao pae a incomprehensivel agitação do marido. Martinho chorava abraçado á filha, quando Nicoláo entrou. O lance foiacerbo! Nicoláo acercou-se de ambos, abraçou-os, e disse com voz balbuciante:

—Eu fiz a vossa desgraça e a minha. Perdoae-me!

Beatriz condoeu-se. O pae levou-o nos braços á sala immediata, gesticulando á filha que os não seguisse, e perguntou:

—Isto que é, primo Mesquita? Que mal te fazemos nós?

—Queixei-me eu de ti ou de Beatriz?—disse maviosamente o morgado.

—É arrependimento de te haveres casado?

—É... Arrependimento de infelicitar a tua filha digna de uma alma estranha aos vicios e ás villanias atrozes.

—Pois bem, Nicoláo... remediemos o remediavel. Se a presença de minha filha te atormenta, eu levo-a para minha casa, que tambem é tua e d’ella. Se o amor tornar, vae buscal-a; se, sem Beatriz, viveres mais tranquillo, ella que fique em Chaves.

—Não!... atalhou o morgado.—A minha desgraça não se remedeia assim, nem d’outro modo. É um anathema! e um calix intransitivo. Hei de bebel-o trago a trago!...

—Santo Deus!—acudiu Martinho Xavier—que segredo é esse da tua vida? Se eu te visse na sociedade, cuidaria que te apaixonaste, primo! E então appellaria do teu coração para a tua honra.

—E se eu não tivesse honra!...—exclamou Nicoláo, e saiu impetuosamente da sala.

Martinho perguntou á filha:

—Teu marido recebe cartas suspeitas?

—Não, que eu saiba, meu pae. Recebe jornaes, e raras vezes tem cartas de França.

—E essas cartas sabes o que ellas conteem?

—Sei, porque são de um portuguez, e nada dizem de suspeito. Só, aqui ha tempos, li uma, que falava n’uma Margarida, e entendi que era a franceza do Ricardo de Almeida. Vim a saber que ella era casada, porque diz assim, pouco mais ou menos: «o marido de Margarida está gordo e devasso; e desforra-se.» Não percebi isto, nem me importou. Perguntei ao primo se a tal franceza era casada, e elle respondeu-me bruscamente que não sabia, nem eu me devia importar com as cartas que elle recebia. Porque me pergunta o pae se elle recebe cartas suspeitas?

—Nada, filha.

—Desconfia que elle ame outra mulher!—instou ella alvorotada.

—Desconfiei.

—É impossivel! exclamou Beatriz—Quem hade ser? Aqui ninguem vem; nós não vamos a parte nenhuma.

—Então que suppões tu d’esta pasmosa torvação de teu marido?

—Que me aborrece.

—Não é assim.

—É, meu pae. Elle não póde deixar de sentir por mim o que eu sinto por elle.

—Pois não o amas, Beatriz?

—Como hei de eu amal-o n’este martyrio? Sabe lá o que eu soffro ha dez mezes! E então, nos ultimos tres, não tenho refrigerio... Uma hora abraça-me, outra repelle-me. Já temi que elle endoudecesse... Meu pae,—proseguiu ella com vehemente fervor de supplica—tire-me d’aqui, leve-me para si,restitua-me uma parte da satisfação que eu tinha de viver, antes d’esta fatalidade!

—Paciencia por alguns dias, filha!—replicou o pae enternecido a pranto.—Isso não póde ser assim. O mundo assacaria aleivosias deshonrosas para todos. Já agora tem força por mais algum tempo; é o teu bom pae que t’o pede.

—Terei—disse resignada Beatriz.

Martinho deteve-se alguns dias no Vidago e saia com frequencia a longos passeios de cavallo com o genro. Da mesmeidade dos annos, da amizade da infancia e sobre tudo da necessidade da expansão, resultou que o morgado da Palmeira, n’um d’aquelles passeios, communicasse ao primo os pormenores todos da sua angustia. O assombro de Martinho Xavier foi afflictivo. Pôde muito comsigo que não lançasse em rosto ao marido de sua filha a protervia, a perfidia, a villania com que tramára o engano, do encontro com a franceza em Villa Pouca; e mais ainda o villipendio do emparelhar o amor de sua filha com o de uma collareja transmissivel de homem para homem. Era santa a indignação do pae!

Ouviu-o silencioso, e apenas lhe disse:

—Vence-te, se poderes; se te não poderes vencer, dá-me minha filha, e vae disputar essa mulher a teu primo Ricardo, que eu creio que lh’a tiras; e elle ou outro, quando estiveres saciado, t’a virão tirar.

Nicoláo pungiu-se e arrependeu-se da revelação.

Exigiu-lhe o juramento de calar o segredo a sua mulher. Martinho Xavier respondeu:

—Quando se trata de affrontar minha filha, escuso de jurar que não hei de affrontal-a. O que tepeço é que a deixes ir estar quinze dias em minha companhia.

—Pois sim, mas dispensa-me de acompanhal-a. Espero que a solidão e meditação me curem. Logo que eu me sinta mais tratavel, irei buscal-a, e passarei comtigo algumas semanas. Iremos todos a Madrid; eu mudarei de vida, entrarei outra vez no mundo; e darei á minha pobre Beatriz o contentamento que lhe roubei.

—Deus te ouça!—exclamou jubilosamente Martinho Xavier.

Beatriz cuidou de abafar de alegria, quando o pae lhe noticiou a ida. Tratou de emmalar os seus adornos com tal prestesa, e de tamanho afogadilho, que de sobra denotava a levesa dos dezesete annos, e a facil transposição do seu espirito da dôr para o contentamento. Nicoláo despediu-se d’ella com os olhos a reverem lagrimas. Os de Beatriz nem de leve se marejaram. Partiram.

N’este mesmo dia abriu Nicoláo de Mesquita aCoalisão, jornal portuense, e, acaso, relanceando a vista ao folhetim, depararam-se-lhe as palavrasMargarida Froment. Leu o folhetim, que se intitulava:

Á BEIRA-MAR

Era uma mescla de verso e prosa, consoante o gosto dos litteratos amphibios d’aquelle tempo. Começava assim n’este estylo fraldoso e apopletico, vulgarmente chamado biblico:

«.........................................«E o teu cantar é saudoso como o das filhas de Israel ás abras das aguas plangitivas do Euphrates.«E as harpas eolias gemem bafejadas por teus labios, como a cythara de Saul.«Oh Agar, sentada nas areias estuosas do deserto de Berzabé! Canta, canta, oh filha das lagrimas!Ai! quantas vezes, ó triste,Esse teu amargo prantoDesafogaste no canto!Ai! quantas vezes sentisteMais precisão de chorar!...Ai! canta, canta, que ha lagrimasNo teu dorido cantar!.............................................Ao cantar te acode a infanciaCom seus sorrisos e flores;Feres notas que te falamComo falavam amores,Outras são gemidos d’alma;Mas todos teem seu gozar!Ai! canta, canta, anjo triste,Quando quizeres chorar!.............................................«E o archanjo d’aquelles hymnos tem sobre a terra um nome. Na linguagem de homens chama-seMargarida Froment; mas, nos archivos do céu, o nome que tem éMartyr do Coração.«Por que o teu seio foi alanceado fibra a fibra pelo primeiro precito, que te esculpiu um anathema na fronte, onde os raios fulgidos do sol desciam a roubar seu esplendor!«E esse maldito de Deus feriu-te na aza de anjo, ó pomba dos paramos olympicos, e tu caiste ao tremedal da humanidade.«Ó Margarida! quem sabe ahi dizer sobre a terra a alegria das tuas angustias!«E eu vi-te por uma d’essas noites esplendidas, como as sonha o arabe no dulcissimo torpor dos seus magicos narcoticos!«Illuminava o inferno d’este mundo, oh houri, enviada pelo Deus dos ismaelitas.«A tua belleza era o arrebol matutino.«E os teus olhos afuzilavam torrentes electricas como os relampagos abertos da mão de Jehovah nas cumiadas do Sinay.«E os teus labios desprenderam um cantar, cuja maviosidade fazia chorar os anjos no ceu, e os demonios no inferno.«E o homem, que te havia roubado aos braços do esposo, esse não chorava, porque uma aragem da região glacial das trevas lhe tinha congelado as glandulas, e o sangue nos pulmões, e fizera d’aquelle coração um cinerario hediondo, como os pomos de Pentapolis!«Oh Margarida, que dôr será a tua, insondavel e immensissima, quando o coração te paira por terras de França, e vês a mãe que te carpe, e o marido que aperta ao seio o inutil punhal de sua vingança!...«Ai! canta, canta, que ha lagrimasNo teu dorido cantar!Ai quantas vezes sentisteMais precisão de chorar...Ai! canta, canta, anjo triste!».............................................

«.........................................

«E o teu cantar é saudoso como o das filhas de Israel ás abras das aguas plangitivas do Euphrates.

«E as harpas eolias gemem bafejadas por teus labios, como a cythara de Saul.

«Oh Agar, sentada nas areias estuosas do deserto de Berzabé! Canta, canta, oh filha das lagrimas!

Ai! quantas vezes, ó triste,Esse teu amargo prantoDesafogaste no canto!Ai! quantas vezes sentisteMais precisão de chorar!...Ai! canta, canta, que ha lagrimasNo teu dorido cantar!

.............................................

Ao cantar te acode a infanciaCom seus sorrisos e flores;Feres notas que te falamComo falavam amores,Outras são gemidos d’alma;Mas todos teem seu gozar!Ai! canta, canta, anjo triste,Quando quizeres chorar!

.............................................

«E o archanjo d’aquelles hymnos tem sobre a terra um nome. Na linguagem de homens chama-seMargarida Froment; mas, nos archivos do céu, o nome que tem éMartyr do Coração.

«Por que o teu seio foi alanceado fibra a fibra pelo primeiro precito, que te esculpiu um anathema na fronte, onde os raios fulgidos do sol desciam a roubar seu esplendor!

«E esse maldito de Deus feriu-te na aza de anjo, ó pomba dos paramos olympicos, e tu caiste ao tremedal da humanidade.

«Ó Margarida! quem sabe ahi dizer sobre a terra a alegria das tuas angustias!

«E eu vi-te por uma d’essas noites esplendidas, como as sonha o arabe no dulcissimo torpor dos seus magicos narcoticos!

«Illuminava o inferno d’este mundo, oh houri, enviada pelo Deus dos ismaelitas.

«A tua belleza era o arrebol matutino.

«E os teus olhos afuzilavam torrentes electricas como os relampagos abertos da mão de Jehovah nas cumiadas do Sinay.

«E os teus labios desprenderam um cantar, cuja maviosidade fazia chorar os anjos no ceu, e os demonios no inferno.

«E o homem, que te havia roubado aos braços do esposo, esse não chorava, porque uma aragem da região glacial das trevas lhe tinha congelado as glandulas, e o sangue nos pulmões, e fizera d’aquelle coração um cinerario hediondo, como os pomos de Pentapolis!

«Oh Margarida, que dôr será a tua, insondavel e immensissima, quando o coração te paira por terras de França, e vês a mãe que te carpe, e o marido que aperta ao seio o inutil punhal de sua vingança!...

«Ai! canta, canta, que ha lagrimasNo teu dorido cantar!Ai quantas vezes sentisteMais precisão de chorar...Ai! canta, canta, anjo triste!»

.............................................

Seria crueza dar a copia integral do folhetim, que ao deante, era muito mais puxado do peito, e menos intelligivel.

O poeta datara-o na Foz em outubro de 1840.

Uma local do mesmo numero da gazeta, dizia:

«Á beira-mar.Com este titulo publicamos hoje um folhetim de um nosso amigo, que tão brilhantementese estreia. As letras patrias devem esperar d’este mancebo fructos tão sasoados quanto as flores são bellas. Á parte o talento senão genio, do mavioso poeta, devemos confessar que o motivo de sua inspiração não podia sair com menos de uma obra prima. Tambem nós tivemos a honra e o jubilo de escutar hontem á noite a voz melodiosissima de mad. Margarida Froment, dama já conhecida por sua belleza e intelligencia. Agradecemos cordealmente ao cavalheiro Ricardo de Almeida o convite que nos proporcionou ajuntarmos o nosso brado de admiração ao de tantos, que se gosaram o prazer de ouvir a hospeda de sua excellencia. Do folhetim do nosso jovem amigo infere-se que ha profundas e ao mesmo tempo sublimes dôres no coração d’esta senhora. Ai da consciencia do refalsado caracter que privou a sociedade de uma gloria!«Que o mundo é inexoravel com as desgraçadas, que, ainda abatidas do ceu, roçam as nuvens com a fronte. Silencio! Saudemos o formoso anjo da harmonia, e não perguntemos a Deus por que não teve mão d’esta filha querida, ao despenhar-se!»

«Á beira-mar.Com este titulo publicamos hoje um folhetim de um nosso amigo, que tão brilhantementese estreia. As letras patrias devem esperar d’este mancebo fructos tão sasoados quanto as flores são bellas. Á parte o talento senão genio, do mavioso poeta, devemos confessar que o motivo de sua inspiração não podia sair com menos de uma obra prima. Tambem nós tivemos a honra e o jubilo de escutar hontem á noite a voz melodiosissima de mad. Margarida Froment, dama já conhecida por sua belleza e intelligencia. Agradecemos cordealmente ao cavalheiro Ricardo de Almeida o convite que nos proporcionou ajuntarmos o nosso brado de admiração ao de tantos, que se gosaram o prazer de ouvir a hospeda de sua excellencia. Do folhetim do nosso jovem amigo infere-se que ha profundas e ao mesmo tempo sublimes dôres no coração d’esta senhora. Ai da consciencia do refalsado caracter que privou a sociedade de uma gloria!

«Que o mundo é inexoravel com as desgraçadas, que, ainda abatidas do ceu, roçam as nuvens com a fronte. Silencio! Saudemos o formoso anjo da harmonia, e não perguntemos a Deus por que não teve mão d’esta filha querida, ao despenhar-se!»

Nicoláo de Mesquita leu a chorar as ultimas linhas d’esta noticia.


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