XIII
Chegouao Vidago a noticia do apalavrado casamento de Raphael Garção com a morgada de Santo Aleixo, bella e rica, de primeira stirpe; transmontana, e costumes irreprehensiveis.
—Aqui tens, Beatriz, disse Nicoláo, como teu pae se illudiu com o descredito de Raphael. Quando as cem trombetas atroam a provincia a divulgar escandalos, offerece-se ao generalissimo da desmoralisação um casamento de primeira ordem!...
—É verdade... admira... ella é bonita...—gaguejou Beatriz, humedecendo os labios calcinados do fogo da alma.
—Será elle tão desastrado que regeite a proposta? É de esperar que não. Aquelles ares de reforma, que lhe vimos, não podem ser hypocrisia, comoteu pae diz. Hypocrisia comnosco porque e para que?
—Sim... para que!...
—Vou escrever-lhe a felicital-o, e instigal-o a casar-se...
—Não faças isso, atalhou Beatriz. Sabes tu se elles serão felizes? Deixa-os lá. Se elle um dia se arrepender, escusa de lembrar-se de que o aconselhaste.
—Pensas com acerto, mas sempre quero saber d’elle mesmo se é certo o projecto.
—Isso lá...
—Vejo-te inclinada a julgar de teu primo desfavoravelmente, Beatriz!
—Não... eu... o que entendo é que... a mulher casada com o primo Raphael não ha de ser feliz... porque... é muito cedo para achar prazer á vida tranquilla, que tem sido o que tu sabes em tão pouco tempo... E pode ser que eu me engane... Oxalá...
Escreveu Nicoláo ao morgado de Fayões. Ao outro dia, mostrou a resposta a Beatriz, exclamando:
—O rapaz passou de uma demencia vulgar a uma demencia exquisita! Ha seis mezes era um libertino. Agora não se sabe o que é. Vê lá a resposta de Raphael.
Leu Beatriz:
«Meu presado amigo e excellentissimo primo.«Agradeço os sinceros emboras que se digna enviar-me; lamento, porém, que se baldassem os seus bons desejos emquanto ao meu casamento: As raias da minha doudice não vão tão longe. Todo o tolo tem as suas demarcações.«É certo que pessoas da familia de Santo Aleixo propozeram a meu pae o enlace a que vossa excellencia allude. Meu pae consultou-me, e eu rejeitei. Mas, porque, a rejeição divulgada seria offensiva ao orgulho dos visigodos de Santo Aleixo, resolveu a discrição que se deixasse correr o boato da minha annuencia, até esquecer a proposta. Esta é que é a verdade.«Dir-lhe-hei agora porque não caso: é porque não amo; nem casarei, porque não hei de amar nunca. Se me pergunta em que lamaçaes deixei ficar o coração, abaixo a cabeça, e peço licença para lhe dizer que ainda não prostitui o amor. Entrei nos lamaçaes, é isso verdade, saí sujo, como era forçoso sair, e mais nada. Quanto ao coração, sonhei uma vez que ouvira uma mulher dizer-me: guarda-m’o para m’o restituires no ceu. Foi isto um sonho; porem eu guardo o meu amor para os amores do ceu. O que é a felicidade senão sonho?!«Meu presado primo, a minha mocidade acabou; foi tempestuosa, mas curta.«Adeus. Peço á minha excellentissima prima a graça de receber os meus respeitos, e a vossa excellencia a sincera e profunda convicção de uma inalteravel amizade. Sou, etc.»
«Meu presado amigo e excellentissimo primo.
«Agradeço os sinceros emboras que se digna enviar-me; lamento, porém, que se baldassem os seus bons desejos emquanto ao meu casamento: As raias da minha doudice não vão tão longe. Todo o tolo tem as suas demarcações.
«É certo que pessoas da familia de Santo Aleixo propozeram a meu pae o enlace a que vossa excellencia allude. Meu pae consultou-me, e eu rejeitei. Mas, porque, a rejeição divulgada seria offensiva ao orgulho dos visigodos de Santo Aleixo, resolveu a discrição que se deixasse correr o boato da minha annuencia, até esquecer a proposta. Esta é que é a verdade.
«Dir-lhe-hei agora porque não caso: é porque não amo; nem casarei, porque não hei de amar nunca. Se me pergunta em que lamaçaes deixei ficar o coração, abaixo a cabeça, e peço licença para lhe dizer que ainda não prostitui o amor. Entrei nos lamaçaes, é isso verdade, saí sujo, como era forçoso sair, e mais nada. Quanto ao coração, sonhei uma vez que ouvira uma mulher dizer-me: guarda-m’o para m’o restituires no ceu. Foi isto um sonho; porem eu guardo o meu amor para os amores do ceu. O que é a felicidade senão sonho?!
«Meu presado primo, a minha mocidade acabou; foi tempestuosa, mas curta.
«Adeus. Peço á minha excellentissima prima a graça de receber os meus respeitos, e a vossa excellencia a sincera e profunda convicção de uma inalteravel amizade. Sou, etc.»
—Que te parece o espiritualismo do rapaz? perguntou Nicoláo á esposa que disfarçava o tremor das mãos.
—Que singularidade!... tartamudeou Beatriz.
—Estou em crêr que lhe extrairam o sangue máo que elle tinha, com os grãos de chumbo das costas! tornou Nicoláo sorrindo. Hei de mandar esta carta a teu pae.
—Para que?! interrompeu ella com ancia. Tu já sabes que meu pae lhe chamou impostor...
—Por isso mesmo: quero convencel-o.
—Vaes inquietal-o, primo... Que nos importa a nós o juizo que forma o pae? Raphael não solicita amizade d’elle... para que has de tu solicital-a!
—Tens razão, menina. Farto de disputações estou eu.
Facilmente salta ao espirito do leitor a repugnancia de Beatriz. Bem lembrada estava ella da carta surpreendida pelo pae. As ultimas linhas de Raphael eram a resposta. Martinho Xavier se as lesse, saltaria do leito, e correria furioso ao Vidago para esconjurar a procella sobranceira.
Nicoláo, como quem se diverte, replicou em longa carta, recheiada de jocosidades, ácerca do sonho e da reserva do coração para as nupcias celestiaes. Gracejava a respeito do ceu, e de muitas outras figurações, que os padres e os amantes inventam, no intuito de irem apanhando o melhor que podem as bellas coisas da terra. A escrever, Nicoláo de Mesquita remoçava aos espiritos dos vinte annos, com seus laivos de facecia um tanto cynica.
Leu esta carta a Beatriz, e viu que lhe desagradava.
—Em parte não a entendo—disse ella—bem sabes que eu sei quasi nada, e tu empregas ahi palavras que eu não conheço; mas parece-me que tu não sentes o que dizes, quando fazes zombaria do ceu e dos padres para escarnecer a tal mulher do sonho...
—Pois de certo, Beatriz, redarguiu o marido ingenuamente, eu escrevo isto como brincadeira de nenhum peso no animo de Raphael. A minha ideiaé o passatempo de uma correspondencia que deve ser preciosa por parte de um rapaz de espirito, perdido nas supremas regiões do bello.
—Então sim... compreendo agora que...
Se ella continuasse em voz alta a idéa, diria:que é este um meio honesto de eu ter semanalmente uma carta indirecta de Raphael. Assim foi.
Ao fim de dois mezes, Nicoláo de Mesquita possuia um interessante epistolario, que o recreava infinitamente. A remontada poesia de Raphael denotava um espirito igualmente apaixonado que opulento dos atavios do mais selecto romancista. A erudição tambem não lhe era esquiva: marchetava as suas cartas de sentenças, hauridas de prosadores e lyricos que melhor trataram os theoremas do espiritualismo.
Beatriz estava contente. A occultas do marido, relia, decifrava, e illucidava as phrases obscuras. Sobejava-lhe agudeza de coração para adivinhar até as citações francezas.
Isto durou assim n’este remançoso contentamento conjugal, até que Martinho Xavier inesperadamente appareceu em Palmeira.
Antes de vêr a filha, e sem consentir que o lacaio recolhesse os cavallos, chamou o genro ao bosque do jardim, e disse-lhe:
—Tens tido uma correspondencia de dois mezes com Raphael.
—Tenho.
—Com que fim?
—Nenhum fim, um divertimento... coisa de nenhuma significação.
—Peço-te que me mostres as cartas de Raphael.
—Immediatamente: sobe, que a leitura é demorada.
—Não subo: espero aqui.
—Os cavallos ficam no pateo?!
—Ficam: não me demoro.
—E não vens vêr tua filha?
—Ainda não; traz-me as cartas.
Beatriz tremeu e descorou, quando viu Nicoláo tirar da papeleira o masso das cartas.
—Que é?! perguntou ella agitada.
—Que ha de ser?... a demencia de teu pae... Quer vêr as cartas.
—Disseste-lhe...
—Não, não lhe disse coisa nenhuma; foi elle que m’as pediu... Affliges-te, filha?... Isto dispara em nada, Beatriz!
Assim que o marido saiu, tomou o filho nos braços, e correu os salões da casa, sem atinar com algum intento.
Martinho Xavier leu vagarosamente as cartas, pedindo a traducção dos dizeres em francez.
Acabada a leitura exclamou:
—Este homem é um infame!
—Porque?
—Porque estas cartas são uma cilada á tua honra e á minha, e á honra de minha filha.
—Explica-te, primo Xavier! acudiu com arrebatamento Nicoláo.
—Expliquei-me de mais ao marido de minha filha... Agora... agora, Nicoláo de Mesquita, lavei as mãos! Arranquei da consciencia o ultimo espinho. Fiz o que pude, disse o que podia dizer. Faz o que a tua dignidade te ordenar.
Ia retirar-se; mas o marido de Beatriz susteve-o, exclamando:
—Has de repetir-me essas palavras em presença de minha mulher.
—Não! não!—exclamou o velho movido a lagrimas—Não! que eu matal-a-ia se ella ousasse injuriar esta dignidade de pae que a defende! Tua mulher está sem macula na face, Nicoláo, pelos ossos de meu pae t’o juro! Mas perante mim, se ella ousar mentir-te, o braço de pae vingará a tua honra.
Saiu impetuosamente, e saltou á sélla com o vigor frenetico dos vinte annos.
O morgado estacou. Atormentava-o um dilemma cruelissimo: era sua mulher criminosa, ou seu sogro mentecapto?
Subiu ao quarto de Beatriz: encontrou-a com o filho no collo, e o rosto purpureado da escandecencia das lagrimas mal enxutas. Contemplou-a silencioso, e ella não pôde supportar os coriscos dos olhos d’elle.
—Que segredo da tua deshonra tem teu pae, Beatriz!?—perguntou elle com terrivel placidez.
—Da minha deshonra? nenhum! Eu nunca trahi os meus deveres...
—Não é sómente a deshonestidade a quebra dos deveres. Pergunto eu que ha entre ti e Raphael Garção?
—Nada, absolutamente nada existe. Morto veja eu n’este instante o filhinho em meus braços, se eu te minto!
Nicoláo recordou mentalmente as palavras de Martinho Xavier:Tua mulher está sem macula na face; pelos ossos de teu pae t’o juro. Refrigerou-se-lhe o sangue. O juramento da esposa, sobre a vida dofilho, podia muito com elle. Saiu a passo lento do quarto; fechou-se no seu gabinete, e repassou detidamente as cartas de Raphael Garção.
Julgal-o-hieis desencavernado do antro de Trophonius, quando saiu do quarto. Era uma amargura de semblante em que facil se prevê que nunca mais se ha de abrir um riso. Nicoláo vira tudo, adivinhára tudo a um clarão do inferno, e tambem vira a essa luz o vulto de Ernesto Froment. Porém, o que elle vira e adivinhára era pouco para considerar-se tão punido quanto offensor. Via o fundo do abysmo; mas via-o de alto. Sua mulher era amada; mas o amador esperava galardoar-se no ceu. Isto, se não consola, offende medianamente um marido. Era ainda incerto que ella o amasse; era ainda perdoavel que ella o tivesse amado em solteira; seria até possivel e quasi desculpavel que ella lhe promettesse esposal-o na bem-aventurança. Meditou estas e outras coisas entre as arvores, e voltou ao gabinete a relêr as cartas. Recordou os relanços em que sua mulher fizera especial reparo, quando elle as lia. Notou, combinou, inferiu, e confortou-se com as noventa e nove probabilidades da pureza de sua esposa, salvando o espirito d’esta conclusão purificante.
Voltou ao quarto de Beatriz, e disse-lhe com brandura, mas torvado o aspeito:
—Mataste a minha felicidade... e a tua. D’hora ávante seremos dois desgraçados que se contemplam. Vives, porque a tua honestidade ainda não está morta. Foi a alma que peccou; convém que a alma soffra. Quando os corpos estão manchados, então é honra espedaçal-os. É occasião de te contar que, ha cento e tantos annos, houve n’esta casauma adultera. Deitou-se uma noite tranquillamente ao lado do marido, e foi ao outro dia tirada do leito para ser amortalhada. As cinzas d’ella estão alli na capella no jazigo da esquerda. Não se recolheu ainda áquella sepultura nenhum cadaver. Eu quizera que não fosses tu a companheira dos ossos da unica adultera d’esta familia em quinhentos annos sabidos.
—Mas eu estou innocente, meu Deus!—exclamou Beatriz, tirando pelas madeixas com tresvariada angustia.
—Bem sei—disse soturnamente o marido.
—Pois, se sabes, porque me insultas?
—Eu conversei comtigo, Beatriz: os lacaios é que insultam. Meu terceiro avô não me consta que insultasse a minha terceira avó, que está alli no jazigo do lado esquerdo.
—Pois bem!... mata-me e mata-me já, que eu do fundo de minha alma te abomino, e perdôo. Esta creança te amaldiçoará em meu nome.
Era sublime o exaspero de Beatriz, com o filho nos braços, contorcendo-se em altos gritos. Nicoláo tirou-lhe a creança, apertou-a ao seio, beijou-a, lavou-a de lagrimas, e exclamou:
—Tu não me amaldiçoarás, meu filho!... Porque tu és meu filho, és, sinto-te entranhado em meu coração!...
D’ahi a horas, o morgado ordenava aos seus criados que preparassem as liteiras para jornada longa.
Dois dias depois, os fidalgos de Palmeira sairam caminho de Lisboa. E Raphael Garção recebia da mão de uma mulher entrajada de mendiga estas linhas:
«Vamos para Lisboa. Meu pae denunciou tudo.Sou uma martyr. Não me esqueças, anjo da minha vida. Eu perdoei-te, e amo-te mais que nunca. Maldito seja este homem, que me ameaça com a morte!... No ceu, no ceu nos veremos, meu R. Adeus. Sei que não torno a ver-te.»
Raphael Garção, á terceira leitura, disse entre si:
—Verás!