XVII

XVII

Ásdez horas da noite d’esse dia, Ricardo de Almeida fez pavor a Raphael Garção, quando lhe entrou no quarto, nohotel de Italia, tartamudeando offegante umas phrases sem tino, cortadas por soluços.

Atirou-se aos braços do primo com desalento mulheril, e chorou mais copiosamente do que a razão critica das senhoras viris concede que chore um homem.

Com espaçosas intercadencias de anciado silencio, contou Ricardo o violento dialogo com Margarida. O morgado de Fayões escutou-o com o desprazer que incutem as debilidades do coração alheio aos homens de rija tempera, e disse:

—Eu repito as palavras de Margarida: «agora dignidade, Ricardo.» Sae de Lisboa. Não te aconselhoque busques diversões ao espirito no grande mundo, nem aqui nem n’outra parte. Os homens da tua convivencia devem ser odiosos em Lisboa: os infames foram elles; mas o ridiculo és tu. Fóra de Lisboa tambem te aconselho que desistas de distracções, que as não encontrarás. Nas salas ha alegrias, o mais afiado golpe que te póde atirar a indifferença. Vae para a tua aldeia, concentra-te, padece, esquece á força de ninguem te suscitar reminiscencias d’ella. Isto é duro de ouvir-se; mas quem te prometter outras consolações, engana-te primo. Dignidade sobretudo. Eu amava Beatriz com a paixão de homem de minha indole, que seis mezes se esconde a devorar-se na duvida, e a purificar-se para merecel-a. Ao fim de seis mezes, Beatriz desenganou-me. Invoquei o meu dever! e antes de trinta dias, estava distrahido, não te direi honestamente, mas estava curado da ferida, que já não podia sangrar, sem desdouro da minha consciencia... Nota lá, primo Ricardo que a nossa provincia está recamada de bonitas mulheres, portuguezas de lei, materia excellente com o espirito necessario. Lembro-te o que já te disse, respeito ao desfalque de tua casa, ao infortunio de não ter nenhuma, e á tua inhabilidade para recuperares o grande patrimonio sacrificado. Se resistes ás admoestações, que te faz um doido no seu lucido intervallo, maldigo a hora em que me intrometti nas coisas da tua vida.

Ricardo parecia attendel-o com uma fixidez de olhar espavorido: é provavel que o não ouvisse. N’este comenos, entrou no quarto o criado de Raphael, alvoroçadamente.

—Que tens?!—perguntou o amo.

—Acaba de entrar na hospedaria o senhor Nicoláo.

Raphael ergueu-se, relanceando a vista ás pistolas.

—Entrou com elle uma senhora—continuou o criado.

Ergueu-se Ricardo de salto, exclamando:

—É ella!... é Margarida!

—Eu estava no quarto do porteiro—continuou o criado—quando elles saltaram de uma sége. Poucos minutos antes, tinham chegado uns gallegos carregados de malas, e disseram que as mandava um senhor, que ás quatro horas tinha falado com o dono da hospedaria. Eu escondi-me assim que o conheci, e dei tino de que a mulher, que entrou com elle, falava estrangeiro.

Ricardo fez um salto arrebatado á porta. Raphael reteve-o, exclamando:

—Alto ahi, mentecapto! Que vaes fazer?

—Apunhalal-os.

—É justo; mas manda saber primeiro o numero do quarto em que os has de matar—replicou o de Fayões com agastada ironia.—Se não tivesse compaixão de ti, despresava-te, Ricardo!

E, voltando ao criado, mandou-o observar o que podesse.

—Vamos sair ambos—tornou elle ao primo, que arquejava prostrado no sophá.—D’aqui a pouco, o Mesquita sabe que estou em Lisboa, se o não sabe já. Pobre Beatriz! Calcula a minha afflicção, Ricardo! Trata-se da honra e talvez da vida d’aquelle anjo... e, todavia, olha se me vês mudar de côr! Que miseraveis somos! Attraimos o raio da desgraça, e choramos como mulheres, assim que ouvimoso trovão! Ergue-te d’ahi, coisa, que pareces homem! Vaes comigo para outro hotel?

—Irei.

—E brevemente iremos para a provincia, que Beatriz não se demora em Lisboa, ou é fechada em algum convento.

Pouco depois, voltou o criado, informando que Nicoláo tomara o segundo andar do hotel, e que os criados andavam a mudar a bagagem dos hospedes para o primeiro, e a trastejar ricamente os quartos. Accrescentou que a estrangeira era franceza, segundo ouvira dizer, e se chamava Margarida, porque elle mesmo espreitára e ouvíra o senhor morgado da Palmeira chamal-a assim.

Ricardo escutava-o com o ar estupido de um surdo-mudo.

—Fecha as minhas malas, ordenou Raphael. Queres tu, Ricardo? Vamos para tua casa. Vou ser teu hospede! Tens tu champagne, ou absyntho, ou a demencia engarrafada em casa? Vamo-nos embriagar, e depois reflectiremos. Se entramos com a razão n’este labyrintho, estamos perdidos. Valeu?

—Vamos, disse Ricardo.

—Conduz as bagagens ao largo de Andaluz, tornou Raphael ao criado. Os gallegos que te guiem. Paga a conta no hotel, e voltarás depois a saber, com disfarce, se o sr. Mesquita se demorou, ou pernoitou aqui.

Sairam cautelosamente, e mandaram parar a sége perto da casa de Ricardo. Informou-se o morgado com os criados. Margarida Froment, ao escurecer, fechára os seus bahus, e mandára entregal-os a gallegos. Ás nove horas e meia, parára uma carruagem particular com libré defronte do palacete, e oguarda portão vira, á claridade das lanternas, que estava dentro um homem embuçado fumando. Margarida saiu, sem dar palavra aos criados, e saltou ao estribo.

Depois ouviram-n’a dar um ai já dentro, quando se fechava a portinhola da carruagem que despediu á desfilada.

—Quem dá aqui ordens, sou eu! disse jovialmente Raphael. Sôr escudeiro, mande pôr a ceia, se ha ceia n’esta casa. Os melhores vinhos! ordem ao escanção!

Sentaram-se á mesa. Ricardo emborcava á competencia com o hospede os licores mais excitantes.

Raphael comeu á proporção do liquido. Ricardo difficilmente deglutia, e cada bocado lhe anceava entalado. A revezes, aguavam-se-lhe os olhos. O de Fayões exclamava:

—Execração e bebedeira estupida áquelle que puder chorar coisa que não seja vinho!

Antes de finda a ceia, Ricardo perdêra as côres rubras da vinolencia, e desfallecêra prostrado em serena embriaguez. Garção e dois criados transportaram-n’o ao leito.

A embriaguez do hospede era de outra especie: carecia de ar e agitação, de algum enorme desatino ou façanha de estrondo. Crepitaram-lhe no peito fumegante umas lavaredas de amor incendiario a sua prima. A cabeça alcoolisada chammejou. Sobresaltou-o uma vertigem. A sége estava ás ordens. Mandou que a levasse um raio á porta dohotel de Italia. Chamou o criado. Era meia noite. Perguntou-lhe se Nicoláo ainda estava. Disse o criado que elle dera ordem ao bolieiro para chegar á uma hora. Raphael mandou picar para o largo do Corpo Santo.Apeou. Entrou no pateo dohotel francez. Subiu ao terceiro andar. Abriu a porta da sala: era Beatriz que esperava e suppunha seu marido. Raphael entrou, sem dar tempo a que o vissem os criados. Era a primeira vez que ali entrava. Beatriz caia-lhe convulsa de medo nos braços; e elle abrazava-lhe a cutis livida com os labios, que reviam lume.

—Nicoláo não póde demorar-se, ó primo!... tu perdes-me; eu morro ás mãos d’elle!—murmurou abafada Beatriz.

—Nicoláo vem á uma hora.

—Por que o sabes? onde está elle?

—Com Margarida, no hotel em que eu morava.

—Com a franceza!...—exclamou ella espavorida.

—Sim!... com a franceza, que ha duas horas tirou de casa de Ricardo... Abençoado crime, que me restitue a tua alma inteira! Era o destino!... Eras minha, anjo da infancia! As penas do infinito inferno para a minha alma, se eu deixar de amar-te n’este mundo e no outro... Olha como é bella a nossa vida!... Oh! tu não endoudeces de prazer, Beatriz?...

—Ó Raphael!... tu atterras-me!...—clamou ella, afogando-lhe no peito as altas aspirações, que saiam gementes.—É possivel que eu esteja em teus braços, ó meu amor!... Que alegria e que medo eu sinto!... Foge, que não vá ser este o primeiro e ultimo instante da minha felicidade!... Foge, Raphael!... Oiço chorar o meu filhinho... isto é agouro... a creança chama-me... é o anjo que me está accusando...

A eloquencia persuasiva de Raphael contra asappreensões de Beatriz, era de todo o ponto nulla em quanto á expressão, mas de seus labios mudos resaltavam scintillas, que offuscavam os olhos de Beatriz. Fechou-os ella para não vêr o incendio; mas o mixto de lacerante peçonha e prazer vertiginoso que lhe escaldou as veias, só havemos de comparal-o á infernal deleitação da primeira mulher, que um dia pôde dizer: «Caí; mas vinguei-me.»

Decorridos cincoenta e oito minutos, Raphael entrava na sége, a tempo que a carruagem de Nicoláo de Mesquita parava á porta do hotel.

O marido de Beatriz entrou com alegre sombra na sala e á esposa que não ousava encaral-o, disse:

—Estás zangada, filha? tens razão; demorei-me com os primos Albuquerques, forçado por etiquetas aborrecidas... Por que te não deitaste, priminha?

—Não era meu costume...

—Pois, sim, mas de hora em deante, quando eu me demorar além das onze horas, deita-te, sem susto da minha demora. Alguns amigos conseguiram de mim que eu os coadjuvasse n’umas conspirações politicas contra o conde de Thomar. É forçoso contribuir para a salvação da patria, quando menos tempo nos resta para viver n’ella. Os annos trazem comsigo o amor da patria; e por este motivo, póde ser que eu me detenha por fóra, extraordinariamente; e desgosta-me muito se me esperares; porque não estou por lá descançado. Fazes-me isso, sim, prima?

—Pois sim... deitar-me-hei.

—Bonita! o menino como tem passado a noite?

—Bem.

—E tu que fizeste? Lêste?

—Li.

—Gostas dasMeditaçõesde Lamartine?—disse elle, tomando o livro de sobre a almofada do canapé.

—Muito... São tristes...—respondeu ella.

—Qual te fala mais ao coração?

—ATristeza.

—Bem sei...—acudiu elle, recitando de cór:

De mes jours pâllissans le flambeau se consume,Il s’éteint par degrés au souffle du malheur,Ou, s’il jette parfois une faible lueurC’est quand ton souvenir dans mon sein se rallume.

—Mas—proseguiu o morgado—o que ha no teu coração é osouvenirdo poeta de Elvira.

—Ha.

—Qual?!...

—A recordação do anjo da minha mocidade.

—Teu primo?—atalhou irado o marido.

—Não... o anjo da minha innocencia.

Nicoláo sorriu-se, compondo o desmancho do rosto, e disse com maviosidade:

—Queria vêr-te feliz, prima!

—Feliz... como tu?

Esta pergunta deu-lhe uma pancada na alma. A reflexão combateu o preconceito, e respondeu:

—Sim, feliz como eu, que te adoro, e te perdôo as maguas todas com que por vezes perturbas a immensa felicidade de te haver merecido...

—São quasi duas horas...—observou Beatriz, depois de uma longa expansão de termos affectuosos do marido.

—Queres dormir, prima?

—Se eu podesse... doe-me tanto a cabeça!...

—Pois sim, vae, meu amor: eu espertei com o muito café que bebi, e aproveito a vigilia para ir escrever aos feitores. Vou alugar um palacete onde o encontrar. Aqui estamos incommodados com a pequena casa, e a bulha da rua. Gostas de ficar em Lisboa alguns mezes?

—É-me indifferente.

—Dizem que teremos bello theatro lyrico. Tomarei um camarote de assignatura. As primas Camaras e as primas Mesquitas irão comtigo, quando os embaraços da politica me não deixarem... Diz-me cá, prima... Tu desejarias ser viscondessa do Vidago? Offerece-se-me excellente occasião, assim que o ministerio cair. Vê lá, queres?

—O que tu quizeres, primo... O que eu agora muito queria era dormir... Sinto-me tão desfallecida!...

—Pois vae, filha, vae; mas ama-me muito, sim? Vem dar-me um beijo... e até ámanhã.

Nicoláo abancou a escrever aos feitores. Eis aqui o specimen de uma das cartas aos feitores:

«Ainda me sinto estremecer debaixo da electricidade dos teus olhos... Abro ao acaso asMeditaçõesde Lamartine, e leio noCanto d’amor:«Laissez-moi respirer sur ces lèvres vermeilles«Ce souffle parfumé!... Qu’ai je fait?«..........................................«Parle-moi!... que ta voix me touche!«Chaque parole sur ta bouche«Est un écho mélodieux!...«.......................................................»

«Ainda me sinto estremecer debaixo da electricidade dos teus olhos... Abro ao acaso asMeditaçõesde Lamartine, e leio noCanto d’amor:

«Laissez-moi respirer sur ces lèvres vermeilles«Ce souffle parfumé!... Qu’ai je fait?«..........................................«Parle-moi!... que ta voix me touche!«Chaque parole sur ta bouche«Est un écho mélodieux!...

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Esta carta começa lyrica de mais para um feitor!


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