XX

XX

Opapel, que Beatriz representava com as comediantes Camaras, não ajustava ao seu caracter. A senhora, obrigada a valer-se das primas, e a promover o escarnecerem-lhe o pae do seu filho, sentia-se humilhada, e ridicula, em seu marido, rebaixado á condição dos Sganarellos e Dandins de Molière.

As senhoras Camaras, até á hora em que Beatriz lhes appareceu, exorando que a defendessem de alguma suspeita de seu marido, consideravam-n’a esposa immaculada, e abstinham-se de conversarem licenciosamente deante d’ella. Beatriz, ao arrancar de repente a mascara, não sentiu a dôr do impuxão; mas depois, quando ouviu as chacotas allusivas ao marido enganado, teve vergonha, e condoeu-se d’elle.

Figurava, para desopprimir-se, as perfidias do esposo, a ida para Cintra com a franceza, o desapêgo d’alma com que a tratava, e o ar ameaçador com que, por mero orgulho, lhe prescrevia os deveres. Isto podia muito com ella; mas não a rehabilitava aos olhos das senhoras, que, desde aquella hora, na ausencia do marido de uma, a fizera confidente de passagens mais ou menos analogas, e algumas peores de devassidão e escarneo marital.

Beatriz saiu á noite, anojada d’ellas e de si. O marido não estava em casa, nem lá tinha ido averiguar dos criados. Os criados de Mesquita vendiam o seu silencio a Raphael Garção, e lastimar-se-iam na hora em que se rompessem as ligações da fidalga com o mais generoso dos mortaes, que elles haviam conhecido, relacionado com suas amas.

Escreveu no mesmo ponto Beatriz ao primo, relatando o successo de Bemfica, salvos os relanços irrisorios. Raphael deu louvores á sua estrella, e disse comsigo: «É necessario acabar com isto, antes que estalle borrasca! Não desprezemos este aviso!»

Beatriz, porém, afervorava-se mais em ternura desde que presagiára algum desastre. Lembrou-se que Nicoláo, com as provas da deslealdade d’ella, era homem talvez para matal-a, ou repellil-a com desprezo. O pae, o severo Martinho Xavier, aferrolhal-a-ia n’um convento, ou vingaria o marido, n’um rapto de furioso odio. Beatriz precisava contar com o refugio e amparo do homem amante, corajoso, rico, e affrontador de todos os respeitos sociaes por amor d’ella. Faltava-lhe animo e impudor, digamol-o assim, para prevenir Raphael no sentidodos seus presagios. O bizarro moço acudiu ás balbuciações da prima, anhelando a hora em que ella se despenhasse dos respeitos vãos do mundo aos braços defensores do esposo de sua alma. Alentou-se o espirito da senhora. Achou-se mais destemida, e mais segura na rampa da sua perdição.

Escreveu o morgado da Palmeira ao sogro, e dizia-lhe n’um post-scriptum: «Aqui vi Raphael, que chegou de Pariz. Leva uma franceza. Doido até á morte!»

Martinho Xavier respondeu:

«No tocante a Raphael Garção ouso pedir á tua bondade que me não falles mais. Eu fallei muito a respeito d’este homem. Hoje a ti peço, aos mais ordeno que me não fallem n’elle.»

Martinho Xavier, velho amigo do governador civil de Lisboa, sabia, mediante as faceis pesquisas policiaes, onde morava Raphael em Lisboa. Concluiu muito mais além do que a alçada da policia devassou, e calou-se para não ir elle hastear o patibulo da deshonra da filha.

Nicoláo de Mesquita ponderou em nada as palavras do sogro.

Revieram dias serenos, serenos de sobejo para a lethargia de Raphael. Sensação nova para elle! até saudades dos paes o inquietavam! Parecia-lhe que na provincia havia de amar mais poeta, e mais intensamente sua prima.

Este constrangimento adoentou-o sem artificio. Beatriz deu tento de sua tristeza, e considerou-se desamada. Chorou e fez-se aborrecida. A mulher, nas condições de Beatriz, nada vence com lagrimas, e ás vezes dissolve com ellas os filamentos que a prendem á estima que se desfaz. Raphaelqueixou-se amargamente da injustiça e da ingratidão.

—Avalias mal, disse elle, um homem dos meus annos, e com o meu temperamento, que está, ha sete mezes, privado da liberdade, e até de ar, no centro de Lisboa, rodeado de prazeres, attraido pelas diversões de que amante nenhum se abstém.

—Eu cuidei que eras assim feliz!... atalhou ella seccando as lagrimas ao incendio do subito arrependimento.

—Feliz... de certo fui e sou; mas custa-me que tu chores, quando eu me queixo que não posso com esta vida... Tens tu força de mover teu marido a ir para a provincia?

—Eu não tenho força nenhuma, primo...

—Experimenta, Beatriz: diz-lhe que estás doente: póde ser que elle te deixe ir para Palmeira. Se elle quizer ficar com a franceza, que te faz isso?

—A mim que me ha de fazer?!... Pois sim, eu lhe pedirei que me deixe ir para Palmeira... E perdoa-me, disse ella, enternecedora, perdoa-me, Raphael, que bem conheço que estás doente, e aborrecido como eu de Lisboa. Quem me dera nas minhas arvores, e á margem do meu Tamega!... Amei-te com tanto coração n’aquelles sitios!... Tenho saudades da gruta em que eu ia buscar as tuas cartas e levar as minhas! Conheço todas as plantas d’onde tu colheste uma flôr, que deixavas cair entre as murtas para eu a murchar ao calor do meu seio. Tambem te lembras?

—De tudo, minha filha!...—disse Raphael commovido.—De tudo me lembro em que teus olhos pousaram um instante. Voltaremos nós áquelleceu?... Vêr-nos-ha uma d’aquellas noites estrelladas da nossa terra?

Estavam mais liricos que o seu costume. O morgado de Fayões era alma pouco puxada á fieira do idillio. As estrellas distraiam-n’o mediocremente, e a lua incommodava-o com demasias de luz, nas suas escaramuças nocturnas á pacifica honestidade dos infelizes, como o pharmaceutico, e o coronel, e outros de lacrimavel memoria. No tocante a Beatriz, até áquella hora, minguára-lhe tempo aos devaneios pelo azul dos céus da sua terra e canteiros do seu jardim. Nos romances, que lêra, se alguns amantes se detinham em palestras concernentes ás estrellas, e sombras de platanos, admirava-se ella da impertinencia dos authores, que tão pouco, em certas conjuncções, conheciam o coração de duas pessoas apaixonadas, ardentes, novas, doidas, escondidas uma n’outra como dois anjos, que não entendem o mundo.

Desde este dia, ou noite, Beatriz ficou pensando sempre em voltar á aldeia. Tambem ella esperava que o seu Raphael centuplicasse os carinhos, além, n’aquelles convidativos bosques, onde parece que o coração se dilata, e enche do amor dos mil amores que a natureza espira.

Pediu ao marido que a levasse a Palmeira, se elle queria passar o verão em Lisboa.

Nicoláo respondeu que não podia ir, nem viver sem ella.

—E se te eu disser que me sinto deperecer, e brevemente morrerei em Lisboa?—replicou ella.

—Não morrerás, menina. Pelo contrario, a vida da aldeia ser-te-ia hoje um incessante fastio.

—Como quizeres, primo...—tornou Beatrizcom despeito.—Ainda assim, has de consentir que eu, se me sentir peior, escreva a meu pae, pedindo-lhe que me venha buscar. Tenho um filho, e quero viver para meu filho.

—Pois vive em Lisboa, priminha, que estes ares são purissimos, se me não engano.

—Tu nunca te enganas, meu primo—retorquiu, surrindo amargamente;—mas tambem não enganas ninguem.

—Explica-te!

—Mais tarde...

—Porque não ha de ser já?!

—Porque ainda se não gastou a paciencia... Não me faças mais perguntas, visto que eu tenho a delicadeza de te não responder. Se um dia me queixar, não ha de ser de ti.

Nicoláo recolheu a colera e a interrogação imprudente. Compreendeu que Beatriz lhe conhecia deslealdade; e, do aprumo glacial com que ella o invectivou, tambem inferiu que não era amado.

Resignou-se, e protestou acautelar-se, visto que ainda era tempo. As cautelas consistiram em sondar e precatar a fidelidade dos criados. Ia bem n’aquelle rumo!

Passados dias, voltou Beatriz a pedir-lhe que a levasse para Palmeira. Nicoláo respondeu:

—Póde ser na semana que vem.

Escreveu a um amigo de Chaves, perguntando-lhe se Raphael Garção tinha casado com a Angela de Santo Aleixo. Disseram-lhe que Angela havia casado, quatro mezes antes, com o morgado das Boticas, e que o morgado de Fayões ninguem sabia d’elle, porque não escrevia a ninguem.

—Então que é isto?—perguntava Nicoláo á suarazão esclarecida.—O homem disse-me em Cintra que ia para casa, e ninguem sabe d’elle!... Não negou que ia casar com Angela, e Angela estava casada!... Mas, se elle estivesse em Lisboa, e Beatriz o soubesse, seria um contra-senso querer ella ir para a provincia! Isto não falha aos dictames de uma razão escorreita! Já sei o que é: o doido escondeu-se por aqui, ou no Porto, ou na provincia com a franceza. É o que é. Martinho Xavier sabe-o, e, irado contra esse escandalo, prohibe que lhe fallem n’elle. Minha mulher é estranha a tudo isto. Vejo-a doente, e receio que ella se queixe ao pae. Sabe a minha vida misteriosa, e, se eu a contrario, é capaz de me denunciar. Martinho Xavier vem a Lisboa, e toma conta da filha. Remediemos as eventualidades. Vou para Palmeira com minha mulher, e preparo residencia á franceza na minha quinta de Ribeira d’Oura. No inverno seguinte, deixo Beatriz em Chaves com o pae, e volto a Lisboa com Margarida.

Beatriz recebeu a nova da partida. Avisou Raphael, que antecedeu oito dias a jornada, entrando outra vez em Hespanha. A mobilia da casa de Andaluz foi vendida em globo, em nome do seu criado. O desabafado moço cuidou que saia de Lisboa com um pulmão desfeito, e o outro atacado de tuberculos.

Entrou Raphael Garção em Chaves, com dois caixotes de encommendas de Pariz, mandadas comprar no Chiado. Andou entregando os objectos ás primas, com as quaes fallava difficilmente o portuguez. As senhoras achavam-n’o assim mais interessante. As donzellas gostavam de ser chamadasmamaséllesechères cousines, pronuncia que feria osouvidos lusitanissimos das velhas. De Chaves foi para Fayões, onde se espantou de não encontrar cincoenta e tantas cartas, que havia escripto a seus paes, de differentes cidades do mundo. Os velhos choravam abraçados n’elle, como se o filho, por milagre de Jesus, quebrasse a campa. Julgavam-n’o como morto, não obstante Ricardo de Almeida, compadecido d’elles, lhes haver asseverado, de mez a mez, que Raphael Garção vivia. O morgado queixou-se acremente da inconstancia da prima de Santo Aleixo, e protestou casar-se por vindicta com a mais rica herdeira.

Passados dias, foi visitar Ricardo ao castello de Aguiar. Viu Laura, a pomba do ceu, que depuzera o ramo de oliveira no coração do amante de Margarida. Inclinou-se com ingenuo respeito deante da mulher, que o recebia com um surriso de estima. Sabia ella quanto seu esposo devia a Raphael Garção, perdido no conceito publico, e ao mesmo tempo bajulado dos paes, querido das mulheres, e invejado dos homens. Ricardo pintára-lhe vantajosamente o caracter de Raphael, omittindo o desdouro dos seus amores adulteros. Laura uma vez lhe revelára a esperança de vêr uma das suas irmãs casadas com o morgado de Fayões. Ricardo singelamente lhe disse:

—Não penses em tal. Raphael ha de morrer solteiro, porque ha de morrer novo.

Regosijou-se a dama brazileira de vêr Raphael com saudavel exterior, e uns vislumbres de espirito fatigado de correr mundo á procura das aventuras vãs e estragadoras do coração. Julgava ella que as leviandades do fidalgo eram amar sem destino, gastar o sentimento em affectos inconsequentes, e com mulheres devastadas pelas paixões, falsas paixõesque desluzem as illusões candidas da alma, como as côres postiças corroem a natural purpura do rosto.

Largas horas praticaram os dois amigos em passeios na serra, por onde Raphael tragava saude, e renovava o sangue. Fallava de Beatriz com saudade, por que a distancia lh’a aureolava com o resplendor de outros tempos. Revelava os seus intentos a Ricardo, que, sem fortalecer o discurso com axiomas, lhe pedia que rompesse uma alliança, promettedora de cortar-se mais tarde com mais doloroso golpe.

—E cuidas tu que Beatriz não morre, deixando-a agora eu?—dizia entre piedoso e fatuo o de Fayões.

—Cuido que não morreria, primo Raphael. Merecia a pena experimentares quinze dias.

—Fez-te barbaro a felicidade, Ricardo!... Assim, queres tu que eu faça uma fria e selvagem experiencia na vida da mulher que me ama, e que tem posto a risco a honra e a vida por amor de mim?

—Não, primo... O que eu queria era induzir-te a salvar-lhe a honra, que a vida não tem marido que lh’a tire.

—E, depois,—redarguiu Raphael, que querias tu fazer de mim?

—O mesmo que tu indirectamente fizeste do teu primo Ricardo.

—Levar-me ao casamento?

—Levar-te á honra, e a honra depois que te inspirasse, meu amigo.


Back to IndexNext