XXII
Chegauma hora, em que a mulher, esfacelada pelas cordas em que estrebuxa, quando a mão inexoravel do dever lh’as estira e reaperta, sente em si a desesperada ousadia de pregoar á face do proprio marido o seu amor maldito. Se o insulto á moral se não desprende então dos labios febris da energumena, é porque em todo o coração, congestionado de sangue peçonhento, como que se abre uma valvula por onde os pulmões ingerem um oxigenio purificante. Esta lufada de bom ar não tem que vêr com os orgãos communs das funcções respiratorias. É fluido estranho á sciencia de Bichat e Orfilla: chama-seEsperança.
Foi a esperança que poz mordaça aos delirios de Beatriz. A presença do marido, em cujo rosto reviao escarneo rancoroso, exagitava-a em anciadas remettidas contra os braços que sustinham. N’uma intermittencia de quebranto, a filha de Martinho Xavier tirou da luz do seu inferno um clarão de duvida, e logo o deleite satanico da esperança. E surriu, e atirou com aquelle surriso á cara de Nicoláo de Mesquita.
Avisaram o velho do estado afflictivo de sua filha, pessoas inteiramente alheias ao complicado enredo do infortunio de ambos. Martinho mandou dizer a Beatriz que viesse ao seu quarto. A senhora cobrou forças, e, descomposta de feições, abeirou-se á cama do pae.
—Já não é tempo de evitar o espectaculo da nossa desgraça, Beatriz? perguntou elle.
—É, meu pae,—disse ella.—Eu vou voluntariamente morrer n’um convento: mas deixem-me levar o meu filho.
—O convento que significa? Em que se rehabilita a deshonra, fechada n’um convento? Responde, Beatriz!
—Morre-se... murmurou ella.
—Não morre... desespera-se, e redobram as forças que impellem ao crime. Não te chamei para te propôr convento. O que eu quero é o segredo da tua queda. É preciso que mintas ao mundo. Vai com teu marido para Palmeira. Dilacerem-se a occultas da gente, se não podem reciprocamente perdoar-se. A tua ignominia é ainda ignorada. Teu marido sabe-a?
Beatriz fez um gesto negativo, baixando os olhos e escondendo o rosto.
—Nem desconfia? tornou o pae.
—Não sei... murmurou ella.
—Pois salva-me a mim! Emenda-te, desgraçada! Deixa-me morrer, e depois... depois expõe á sociedade o opprobrio de duas familias, e o teu filho que receba a herança!
Beatriz ajoelhou, beijando soffregamente a mão do pae.
Nicoláo de Mesquita entrou n’esta conjuncção, e disse tranquillamente:
—Estás melhor, primo Martinho?
—Creio que sim... Podeis ir para vossa casa, quando vos aprouver. Eu vou sahir de Chaves para uma de minhas quintas, logo que possa.
—Observo que te impacienta a nossa... ou pelo menos a minha presença...—replicou Nicoláo.—A prima Beatriz, se queres, fica, e eu irei.
—Vão ambos... Beatriz pertence-te.
No dia seguinte, seguiram para Vidago.
No trajecto de algumas leguas não trocaram palavra. Beatriz ia de liteira com o filho. O marido cavalgava, e adeantára-se a grande distancia. Depois, na encruzilhada de duas estradas, avisinhou-se rente com a liteira, e disse:
—Eu vou á quinta de Valdez e demoro-me lá alguns dias.
Apertou a mão da esposa, beijou o filho, e seguiu outra estrada.
Beatriz exultou.
Chegada a Palmeira, escreveu, e mandou o criado de confiança a Fayões com uma carta. Era a carta um grito de angustia, uma invocação á misericordia de Raphael.
O criado foi de Fayões ao Valle d’Aguiar. O morgado estava em casa de Ricardo. Aqui recebeu a carta, e respondeu que ás onze horas da seguintenoite estaria em Palmeira. Beatriz, precavida pelas desconfianças do marido, mandou secretamente indagar, se elle estava na quinta de Valdez. Soube que d’ali, onde descançára uma hora, se encaminhára de noite á Ribeira d’Oura. Beatriz exultou ainda. Margarida Froment abonava-lhe a segurança de uma longa entrevista.
O dia seguinte fôra tumultuoso em duas aldeias proximas do Vidago, entre as quaes estava situada a casa de Palmeira. Os malhadores de duas casas, enrixadas desde muito, haviam-se travado na vespera, ao encontrarem-se as respectivas esturdias ou festas de cada malhada. As rebecas, violas, clarinetes e bombos, de parte a parte, ficaram pedaços no campo da sanguinolenta briga. Os dois mais valentes jogadores de pau tinham mordido a poeira, deslombados pelos formidaveis manguaes, cuja pancada é mortal.
Os sinos das duas freguezias tangeram a rebate, e os moradores sairam armados a guardarem as raias do seu territorio.
O dia immediato era santificado, e, na capelinha do cume da serra, havia romagem. Esperava-se alli desordem que se avantajou á espectativa.
As espingardas retroaram toda a tarde, na quebrada das duas serras sotopostas á chã da romaria. Alguns bravos tinham por lá expedido a alma entre as urzes dos matagaes. Os vencedores perseguiram os vencidos até ás raias da sua freguezia, e ahi, desde o lusco fusco, ficaram atalaias até alta noite.
Raphael saira ao fim da tarde do dia anterior, caminho de Fayões. Amelia chorara ao despedir-se d’elle. Laura quizera demovel-o da partida, sem percebero intento. Ricardo pedira-lhe que escrevesse a Beatriz, contando-lhe a morte do seu criado, o dialogo com Martinho Xavier e a absoluta necessidade de acabarem ou espaçarem-se os seus perigosos encontros.
—Tudo lhe direi em viva voz—continuou Raphael Garção.—Não ir é fraqueza e desdouro, sobre ser crueza. Esta mulher, que assim escreve, é desgraçadissima.
—Melhoras a situação d’ella?—replicou Ricardo.
—Convencel-a-hei a conformar-se. E aqui te dou a minha palavra de honra que ámanhã terminam as nossas relações. Falla muito em mim a tua cunhada que eu amo deveras.
Foi Raphael a casa no intuito de armar dois criados de provada coragem, e cingir ao pulso uma manilha de ouro com um retrato de Beatriz. Esta prenda lhe déra a prima em Lisboa. O retrato, copiado de outro, que Nicoláo de Mesquita lhe mandára tirar, era em marfim, admiravelmente perfeito. Na manilha, em cuja rosca interior estava o cabello de Beatriz, mandára Raphael abrir as iniciaes de ambos, e gravar a data d’aquella noite de embriaguez de cabeça e coração. Jurára elle morrer com a manilha no braço; e, bem que violasse o juramento, depondo-a como incommoda, e reparavel á cunhada de Ricardo, não quiz apparecer a Beatriz sem ella.
Depois, com os seus dois valentes a pé, e elle cavalgado no seu garboso frisão, foram caminho de Palmeira, por caminhos transversaes.
Raphael ia triste. Nunca os prantos de sua mãe o compungiram assim! O pae descêra ao pateo edera-lhe um abraço, estando já Raphael com o pé no estribo. Os criados esperavam-n’o fóra da aldeia, para não alvoroçarem os velhos.
Ás dez horas e meia da noite, o morgado de Fayões apeou além Tamega, d’onde se enxergavam alvejantes chaminés e claras-boias da casa de Palmeira. Raphael esperou o signal convencionado—uma luz na alta janella d’um mirante acastellado. Ás onze horas illuminou-se o mirante e elle aproximou-se, entregando o cavallo á guarda dos criados com ordem de voltarem na noite seguinte. Cingiu-se á fachada do edificio, d’onde costumava ver Beatriz n’uma janella para lhe indicar qual das portas estava aberta.
—Espera!—disse-lhe ella—que ainda não pude mandar abrir a porta. Andam fora dois criados, por causa das desordens da romaria.
Raphael tinha ouvido o tiroteio, de distancia de meia legua, e entendeu a referencia.
Beatriz continuou:
—Os criados estão ali para baixo com outros homens, e não podem tardar... A noite está linda... havemos de passear no jardim?
—Sim, filha.
—Amas-me ainda? tens pena da tua desgraçada Beatriz?
—Amo-te, prima; não vejo, porém, motivo de compaixão.
—Se tu soubesses o que eu tenho soffrido... o que eu soffri em Chaves. Espera!
Ouviram grande fallario.
—São elles que vem ahi, proseguiu ella agitada. Olha, Raphael; esconde-te alli ao lado da casa... Está lá um aqueducto aberto; entra para dentro, edeixa-os passar. Logo que os dois criados, em que não tenho confiança, entrarem, vou eu mesma abrir-te a porta do jardim. Tem paciencia...
—Sim, filha!... eu espero que elles passem, e aproveito a frescura do aqueducto, disse surrindo Raphael; e, acostado á parede do jardim, foi indo até encontrar a bocca da mina.
Os criados pararam ainda, conversando com os seus companheiros sobre a batalha da tarde. Dizia um d’elles:
—O que eu tenho pena é de levar esta bala para casa na clavina!
—Tambem eu!
—Por hoje não ha mais que vêr! disse um terceiro. Vamos embora.
—Querem vocês que nós dêmos a ultima descarga?
—Valeu! clamaram todos.
—Aqui não! disse um dos criados de Beatriz, que a fidalga toma medo. Vão descarregar os bacamartes ahi para diante.
Despediram-se dos que ficaram uns quatro que seguiram, aperrando as armas, e polvorisando as pederneiras.
Quando chegaram a pouca distancia da mina, em que Raphael se escondêra, disse um:
—Se vocês querem vêr o que é berrar uma clavina, vamos estoiral-as dentro da mina. Isso faz ahi um trovão, que nem peça de artilheria.
—Está dito.
Raphael devêra ouvir a proposta, se a este tempo não viesse do outro lado uma estropeada de dois cavallos, que perpassavam deante da mina.
Os cavalleiros, cirurgiões das cercanias, estiveramconversando com os homens armados, e contando que vinham de examinar os feridos e os mortos nos montados da romaria.
A este tempo já Beatriz estava á janella, maldizendo a paragem dos homens n’aquelle sitio. Os cavalleiros seguiram o seu caminho, e os das clavinas disseram:
—Vá! é agora! os tiros todos a um tempo!
E desfecharam os quatro bacamartes contra a bocca da mina.
Raphael Garção, como empurrado pelas duas balas que lhe entraram no peito, recuou alguns passos e caiu de bôrco, e os braços cruzados entre o peito e a terra.
Os lavradores, depois da descarga, levantaram grande grita e apupada. D’além, dos confins da freguezia, irrompeu medonha celeuma de brados, e estrondear de tiros.
Observou um dos homens:
—Querem vocês vêr que os patifes entraram na freguezia? Carrega e avança, rapazes!...
E correram em direitura ao ponto da vozearia.
Beatriz esperou alguns minutos, dizendo entre si:
—Elle agora já podia sair da mina, que por aqui não está ninguem!
Esperou ainda alguns segundos... e disse á sua criada confidente, que estava com ella:
—Isto que será?! Elle não apparece!... Tu que pensas?...
—Eu não sei, fidalga! respondeu a criada. Terá medo de ser visto, por alguem, que nós d’aqui não enxerguemos, e o fidalgo veja lá de dentro da mina...
—Ha de ser isso... mas olha... a noite estátão clara... e eu não vejo ninguem por alli!... Vamos nós lá?
—Pois vamos, senhora... eu não tenho medo nenhum.
—Nem eu... Estará elle já no jardim?
Desceram de mansinho ao jardim, olharam os recantos sombrios, descerraram a porta, sairam ao caminho, e paráram á bocca da mina.
—Raphael!... chamou ella, primo Raphael!... Não falla! Onde está elle?... Ó meu filho!...
Ouviu um gemido no interior da mina.
—Ouviste? perguntou Beatriz á criada, que tremia—ouviste um gemido?
—Ouvi, fidalga!... Santo Deus, misericordia! que será?!
—Raphael! Raphael!... clamou a brados Beatriz, e entrou mina dentro, chamando sempre, até tropeçar e cair sobre um corpo inerte.
—Uma luz, uma luz!—exclamou ella.—Raphael! tu estás morto?!
—Morto!...—balbuciou elle—Adeus!...
E remexeu-se no vasquejar da suprema agonia.
—Uma luz!... bradou ainda Beatriz.
A criada corrêra a casa, e saira logo com uma vela.
Quando entrou na mina, viu sua ama prostrada sobre o cadaver, e a face ensanguentada, por havel-a roçado ao cair, nas pedras esquinadas que saiam das paredes do aqueducto!