XXV

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Ovirtuoso reitor de Vidago, presenciando as lagrimas com que Nicoláo fallava de seu filho, e da impossibilidade de descobrir a paragem d’elle, foi a Chaves, e insuspeitamente averiguou de pessoas intimas de Martinho Xavier, e inimigas do viuvo de Beatriz, que o menino estava em Londres com seu avô, esperando o tempo proprio de entrar em collegio. Este descobrimento arrancou o pae ao seu marasmo. Aquella unica estrella, a espaços, lhe preluzia no futuro, na velhice que elle esperava receber da vontade divina como castigo. Animado pelo sacerdote, Nicoláo foi a Londres, onde esperou inutilmente seis mezes o apparecimento do filho ou do sogro. O imprevisto encontro de um amigo de Lisboa, ligado á diplomacia portugueza, esperançou-o em descobrir a residencia de Martinho Xavier, se elle existia em Londres. De feito, e facilmente se deparou ás investigaçõespoliciaes o velho fidalgo vivendo nos arrabaldes, com modesta decencia, e quasi incommunicavel. Nicoláo, commovido de jubilo, que lhe amaciava as asperezas da indole, apresentou-se de subito ao pae de Beatriz, no momento em que o velho passeiava o menino sobre o chão arrelvado do jardim, ensinando-lhe o nome das flôres e arbustos. Foi uma visita, que Martinho Xavier não prevenira, deixando abertas as portas gradeadas do jardim. Se Nicoláo batesse á porta, não lh’a teriam aberto, sem previas consultações e licença do velho cioso Pygmalião d’aquelle thesouro.

Nicoláo correu arrebatado ao filho. A creança apavorada d’aquelle homem de longas barbas brancas, aconchegou-se do seio do avô, que se acurvara a defendel-o, sem ter ainda reconhecido o genro. O morgado, com os olhos marejados de lagrimas, parou a curta distancia do grupo, e disse affectuosa e tristemente:

—Pois tambem tu me foges e desprezas, filho da minha alma?

O pae de Beatriz fez espanto da desfiguração do genro. O menino reconheceu-o pela voz, e oscillava entre o avô e o pae, dizendo com voz tremida e balbuciante falla:

—O meu papá não morreu? O avô disse que sim.

—Morri, meu filho, morri!—respondeu soluçante o desgraçado.

Martinho Xavier encheu-se de compaixão d’aquelle homem, ferido pela mão divina. Baixou olhos á creança, e disse-lhe:

—Abraça-o, Martinho, que é teu pae.

—E a mamã—perguntou o menino, apertadonos braços do pae.—E a mamã tambem não morreu? Onde está ella?

O rubor da alegria e do alvoroço coou-se instantaneamente no rosto do pae, e um como pedaço de mortalha, amarellecida pelo tempo entre as taboas sepultadas do caixão, lhe cobriu a parte do rosto que as barbas descobriam.

Martinho Xavier comprehendeu a amargura d’aquelle silencio, e houve pejo de não poder levantar a voz em defeza da filha.

Nicoláo, com o menino nos braços, avisinhou-se do sogro, e disse-lhe compungente, e com os olhos quebrados de supplicante amargura:

—Não sei porque me has de odiar, primo Martinho! As minhas desventuras, se fossem sabidas, commoveriam toda a gente, e as minhas culpas seriam perdoadas. Que julgas tu de mim?

—Que és um desgraçado—respondeu serenamente o pae de Beatriz.

—Bem hajas!—volveu Nicoláo.—Escuso perguntar-te se me julgas o assassino de Raphael Garção.

—Que me importaria isso?... redarguiu Martinho. Seria bem morto, se era infame!

—Atrozmente infame!... E quem me assevéra que elle não vive?

Martinho Xavier encarou penetrantemente nos olhos de Nicoláo, e disse:

—Quem matou, pois Raphael? Morto está elle. Raphael tinha um só amigo; era Ricardo de Almeida. Tenho uma carta d’elle. Cartas recebidas todos os paquetes. Ricardo nunca mais teve novas de Raphael... Quem o matou pois?

—Não sei, pela vida de meu filho t’o juro, MartinhoXavier, se a minha palavra perdeu a tua confiança! Deus fulmine este anjo que é tudo o que me resta, se eu comprehendo que morte foi a de Beatriz e se tenho sombra de suspeita do destino que levou o villão, que tantas vezes me apontaste como...

—Basta! interrompeu o velho, está aqui uma creança, que Deus dotou com precoce entendimento. Ha dois nomes que eu exijo que este menino esqueça. Vens buscar teu filho?

—Não, primo: venho pedir-te que voltes com elle e commigo a Portugal.

—Não: leva-o, e deixa-me morrer, onde mais não veja a sombra de minha filha.

—Ficarei comtigo, Martinho Xavier, e com meu filho, disse Nicoláo. Virei eu perturbar o teu socego?

—Vens: mas eu acceito de boa vontade o que está determinado por Deus. Ficarás comnosco. Assistirás á educação de Martinho; e, quando elle tiver a sabedoria, que contrabalança as desventuras, e fortalece o animo para subjugal-as, então ireis para a patria, e eu estarei já morto e esquecido.

Nicoláo de Mesquita apresentou-se na vivenda do sogro, sem intentar melhoral-a. Afóra os contentamentos aspirados nos labios da creança, o restante da sua vida era dôr sem intermissão. Nenhuma variedade procurava ás suas meditações, não podia sequer conversar com o primo em assumptos ligados ao nome de Beatriz. Se o pae, do secreto de alma, lhe havia perdoado, envergonhar-se-hia de confessal-o. Como já não podia maldizel-a, tambem fugia de suscitar reminiscencias d’ella.

Assim passaram, n’esta angustiosa e contemplativa mudez, um anno.

Martinho, observando com dôr o desperecimentodo genro, suggeriu a ideia de irem vêr França. Nicoláo approvou-a indifferentemente. Como conhecia as miudezas de Paris e outras cidades, disse que a todas iriam excepto Leão. Aqui devia viver o marido de Margarida Froment.

Foram, e ao terceiro dia de residencia em Pariz, Nicoláo viu noboulevard dos Italianosum homem conhecido, encostado á vidraça de um estabelecimento de modas; era o chanceller, que havia sido do consulado francez no Porto. D’ahi a segundos, viu sahir uma mulher de bello exterior, e dar o braço áquelle homem: era Margarida Froment.

De maneira que o brioso amigo do marido da infame, como elle a catalogára, o campeão voluntario da honra de Ernesto, degenerára tanto em pundonor de espiritos, que aberta a conjuncção prospera, tomou conta da mulher do seu amigo.

Margarida cravou os olhos em Nicoláo e fez pé atraz de espantada. O morgado inclinára-se a ouvir uma pergunta do filho. Martinho Xavier fôra estranho ao lanço.

Volvidos quinze dias, Nicoláo, passando no bosque de Bolonha, viu um homem que guiava um phaetonte, em que iam duas mulheres de imponente belleza, e brilhantemente vestidas, inclinadas para o elegante conductor de fogosos cavallos. Reconheceu-o.

Ao pé d’elle estava uma roda de francezes, um dos quaes, apontando o transeunte do phaetonte, dizia aos outros:

—Ahi vae Ernesto Froment espalhando os ultimos dez mil francos da fabrica vendida.

Outro ajuntou:

—Em dez annos gastou duzentos mil francos.

Ainda um terceiro:

—Com seis magnificas mulheres. Diz elle que os ultimos mil francos ha de engulil-os como Gilbert enguliu a chave.

—A comparação é modesta! observou um.

—Gilbert, acudiu outro, estremece de horror sabendo que foi parodiado por uma bêsta maior da marca.

Nicoláo passou ávante, e dizia entre si:

—Ernesto e Margarida não expiam, porque se não devem nada.

Vista a grande cidade, Martinho Xavier desejou a quietação da sua casinha suburbana de Londres. Nicoláo seguiu-o automaticamente, discutindo em segredo a ordem das leis providenciaes. A inducção que vimos inferir da impunidade de Margarida, e do alegre viver de Ernesto, prova que o homem principiava a formar um systema racional em materia de expiações.

Tem escapado a muito philosopho e theologo a grande verdade, que elle apanhou pela incoercivel guedelha. É effectivamente verdade que uns certos maridos de umas certas mulheres não expiam, porque não se devem nada.

A respeito d’estes e d’estas parece que a Providencia diz em linguagem chã:

«Lá se entendam e lá se avenham.»

Margarida, Nicoláo e Raphael foram exceptuados d’este menospreço da Providencia.


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