XXVII
Nicoláode Mesquita, em 1850, voltou para Inglaterra com o seu filho, a residir nocottagede seu sogro. O menino, aos sete annos, entrou em collegio, e passava os dias feriados com seu pae.
N’uma estação de ferias, o morgado saiu com o filho a passar uns dias em Pariz, em companhia de uma familia ingleza, proprietaria da residencia em que fallecera Martinho Xavier, e a quem Nicoláo devia o obsequioso cuidado de attentar nas necessidades do filho sem mãe e sem carinhos de mulher, aos quaes se aquece o coração das creanças, e as virtudes fermentam n’elle. O aspecto macilento e sempre sombrio do portuguez acareára a discreta piedade da familia ingleza.
Adivinhavam n’elle um desmarcado infeliz, talvez um delinquente: mas, o remorso ou pena immerecida,o que elle inspirava nas almas contemplativas era compaixão.
Estavam, pois, em Pariz, no anno de 1852, quando Nicoláo, ao sair da egreja de Notre-Dame, onde fôra ouvir prégar Lacordaire, ouviu entre a multidão uma voz muito proxima do ouvido, que lhe dizia:
—Nicoláo de Mesquita.
Olhou de golpe, e viu Margarida Froment. Estremeceu. Aquella mulher devia ter quarenta annos; a decadencia era justificada; mas a velhice, quasi repellente, não.
—Custa-me a reconhecel-a, madame!—disse Nicoláo com os olhos afogados em lagrimas.
A franceza deteve-se entalada pela angustia da humilhação, e disse:
—Não venho pedir-lhe nada: quiz que me visse. Reduziu-me a isto, senhor Mesquita.
—Eu!... santo Deus!—atalhou Nicoláo enxugando as lagrimas.
—Aqui tem a Margarida Froment de 1834—proseguiu ella.—Casualmente nos achamos á porta do templo em que ambos saltámos da carruagem de meu marido para visitarmos as antiguidades d’esta egreja. Recorde-se da mulher de então: sou eu. É esta Margarida que empenhou hontem o seu melhor vestido para ter hoje um almoço. Já lhe disse que não venho pedir nada; quero que me veja.
—Mas a senhora attribula-me horrivelmente!—exclamou Nicoláo entalado de gemidos.—Não foi Margarida quem abandonou a casa de que era senhora? Expulsei-a eu?
—Não lhe respondo, senhor Mesquita. Olhe de cima do despenhadeiro onde me poz, e pergunte áProvidencia por que estou aqui, porque sou isto que vê!
—Pois que hei de eu fazer-lhe agora, senhora! Que quer de mim? Eu sou muito desgraçado; mas sou rico ainda. Quer recursos para viver decentemente? Diga sem repugnancia.
—Não, senhor; nada lhe pedi: quero que me veja!
—Mas, infeliz, que vida foi a sua que...?
—A minha vida é isto!—interrompeu Margarida com vehemencia.—Perguntei-lhe eu que vida era a sua? Leio-lh’a no rosto. A minha historia aqui está tambem escripta na cara de Margarida Froment de 1834. Eu tinha então vinte annos, vinte mil libras para gastar cada anno, e o respeito do mundo, o amor de meu marido, que reduzi á libertinagem extrema para me esquecer, e á derradeira indigencia para com o tinido do oiro ensurdecer-se ao grito da infamia, que lhe deixei perpetuamente nos ouvidos. Póde ser que Ernesto Froment ainda lhe peça uma esmola, senhor Mesquita. Dê-lh’a, que o desgraçado não saberá quem lh’a dá. Dê-lhe a elle a esmola que eu rejeito, porque o hospital reserva-me duas taboas, e a pedra da mesa anatomica um funeral condigno.
Nicoláo soluçava; Margarida bateu-lhe no hombro, e exclamou surdamente:
—Viu-me? Agora... adeus!
E sumiu-se entre a multidão.
Como descêra até ali Margarida Froment?
Uma palavra o diz: envelhecêra.
Os ultimos quatro annos da sua vida tinham sido o vasquejar, os relampagos da luz que vae apagar-se. Os amantes não quizeram assistir ás trevas. Viram-lhe a primeira ruga na fronte, o amortiçar-se oraio coruscante dos olhos, o artificio da pelle, o lustroso sobrenatural das madeixas.
Fugiram-lhe, e ella, orgulhosa sempre, não solicitava piedade.
Desenganou-se, despida dos artificios. O espelho foi-lhe a garganta do abysmo. Viu-se e despenhou-se á extrema devassidão, cuidando que morria assim mais depressa.
Ernesto encontrou-a no portico doMont-de-Piété. Ella saia de empenhar o chale, elle entrava a empenhar o casaco. Não se reconheceram. O empregado na recepção de penhores, ao escrever o appellido de Ernesto, disse-lhe:
—Sahiu n’este instante uma Froment. É sua parenta Margarida Froment?
—Saiu agora?
—Agora mesmo.
—Desgraçada?
—Aqui não vem ninguem feliz?
—Que signaes tem?
—Uma cara de fome, um mantelete de côr duvidosa. Empenhou um chale por quatro francos.
Ernesto desceu rapidamente. Era difficil encontral-a. Fitou em rosto as mulheres todas que denunciavam fome, e trajavam manteletes de côr duvidosa. Não viu Margarida em nenhum, e pozera os olhos n’ella, a ultima que vira comprar um pão.
Margarida reparou no homem que a fitava. A desfiguração de Ernesto era menos sensivel. Conheceu-o, e disse-lhe:
—Queres metade d’este pão, Ernesto?
—Quem és tu?!—perguntou elle.
—Uma condemnada por Deus, que te pede a morte.
—És Margarida?—perguntou Ernesto serenamente.
—Sou.
—Não te matei, quando era honra matar-te. Agora, vive, e segue o teu caminho. Deus ha-de cumular sobre ti a pena do teu crime, e a pena egual aos tormentos que soffro, sem ter sido culpado. Vae teu caminho.
Vivia ainda em Leão a mãe de Margarida. Pela terceira vez a desamparada se lhe foi lançar aos pés. Foi repulsada sempre pelas criadas de sua mãe.
Tinha um irmão rico nas Antilhas. Pediu-lhe tres vezes perdão do seu infortunio, e uma esmola. A segunda e terceira cartas não foram abertas.
O francez morreu solteiro e rico, no momento de retirar-se a França.
A mãe de Margarida herdou muitos milhares de francos. Os jornaes contaram o successo. Margarida foi quarta vez ajoelhar-se á porta do quarto de sua mãe.
—Não tenho filha,—respondeu a descaroada.—Não cuides que terás quinhão na riqueza de meu filho. Eu gastarei o que tenho em obras piedosas.
E, quando scismava em dar brado com as suas obras piedosas, morreu n’um como deliramento de amor da humanidade.
Margarida Froment recolheu quatrocentos mil francos. Mandou procurar o marido a Pariz. Encontraram-n’o secretario de uma companhia de cavallinhos, a franco por dia.
Ernesto recebeu lettras de duzentos mil francos, e estas breves linhas:
«Dava-te metade do meu pão: hoje dou-te metadeda minha fortuna, e a outra, se a quizeres.»
Ernesto acceitou a sua quota parte, e desistiu da outra, muito em conformidade com a lei, dispensando-se até de administrar a massa do casal, o que em boa jurisprudencia lhe era permittido.
Margarida, se fosse solteira, podia escolher bons casamentos. Dizia-se em Leão que ella era os melhores quarenta annos e as mais bellas ruinas que ainda tinham visto os olhos dos seus pretensores, offuscados pela prefulgencia de duzentos mil francos.
Ernesto foi para Londres. Metteu nos bancos o seu capital, e deu-se a uma vida de confortos modestos, e reparação da saude. Tonisado pela regularidade e sadia alimentação ingleza, achou que a inercia lhe pesava. Como tivera fabrica de estôfos, entrou em negocio de algodões, não para anumerar aos seus cabedaes, mas para entreter-se.
A familia ingleza, relacionada com Nicoláo de Mesquita, possuia fabrica em Manchester, e comprava algodões aos importadores. Ernesto Froment negociava com os Smitts, necessariamente haviam de ser Smitts, ou Johns.
Uma vez estava Ernesto no escriptorio dos Smitts, ou Johns, e entrou um homem de barbas intonsas e alvissimas, com um menino pela mão.
O fabricante inglez chamou-lhe: «Master Nicoláo de Mesquita.»
Ernesto, como se lhe dessem com uma bala na face esquerda, voltou a cabeça á direita, e perguntou em inglez:
—É de Portugal estea knight(cavalheiro)?
—Sim, das visinhanças do eden do vinho—respondeu o industrial.
Mediu-o de alto a baixo.
Nicoláo estremeceu involuntariamente, e perguntou:
—É inglez, o senhor?
Ernesto não respondeu. O britanico é que disse:
—É francez. E eu lhe apresento mr. Ernesto Froment, honrado mercador de algodões.
Nenhum dos apresentados se moveu. O inglez espantou-se, e disse entre si: «Inelegancy! improper!...»
Ernesto Froment saíu, sem inclinar a vista a Nicoláo.
Smitt ou John perguntou ao portuguez a significação d’aquella frieza.
Mesquita respondeu com um sorriso, e uma lividez de torvação espavorida.
Subiu com o filho aos aposentos das ladys, e, convulso de lagrimas, pediu que lhe não desamparassem o filho, se elle morresse.
Alvorotaram-se as senhoras, e a um tempo interrogaram a terrivel presumpção de morte breve. Nicoláo gelava com a sua taciturnidade. Cuidaram as damas que o secreto desgosto da existencia d’este homem lhe transtornára o espirito. Relataram ao honrado velho as lagrimas e rogos do portuguez.
O commerciante foi procurar Ernesto Froment, e pediu-lhe encarecidamente o mysterio da sua vida com a de Nicoláo de Mesquita.
O francez fingiu estranhar a desconchavada pergunta; porém, instado pelo commovido inglez, contou a sua vida, desde a infamissima perfidia de Nicoláo, seu commensal durante a emigração, até á escaleira de opprobrios a que descêra, despedaçando o trabalho de seus paes, para esquecer a affronta.
O inglez chorava, e odiava Nicoláo de Mesquita.
—Qual é agora o seu intento a respeito do portuguez? perguntou o velho.
—Matal-o!
—Oh!...—exclamou Smith ou John.
—Matal-o inevitavelmente!—repetiu Ernesto.
—Oh!...
Passada uma breve pausa, o inglez saíu, dizendo-lhe:—espere-me duas horas que eu venho.
Antes das duas horas, entrou o inglez no escriptorio de Ernesto Froment, com um menino de dez annos pela mão, e disse enternecido a prantos:
—Este menino é filho de Nicoláo de Mesquita, e vem aqui de joelhos pedir a vida de seu pae.
Martinho ajoelhou. Ernesto levantou a cabeça, estendeu a mão ao fabricante, e disse em voz tremente:
—As nossas negociações estão fechadas.
—Oh!... porque?
—Porque me retiro ámanhã de Inglaterra.
Assim foi. Ernesto saíu para Italia.
O inglez, porém, procurou Nicoláo, entregou-lhe o menino, e disse-lhe:
—A sua vida não corre perigo, senhor Nicoláo; tenho, porém, a observar-lhe que não posso ser seu amigo, nem a minha casa póde recebel-o.
Fez uma breve cortezia, e sahiu.