VI

«D. Sebastião, diz o illustre e fallecido professor, é pela mãe neto de um epileptico[16], e a accumulação da hereditariedade morbida verificou-se sem perturbação.

«Sua mãe é filha de epileptico e neta de doidos[17], sua avó é irmã do mesmo epileptico e filha dos mesmos doidos, sua bisavó é irmã e filha do mesmo epileptico e dos mesmos doidos. Seu avô, por consequencia, é neto de doidos, e seu pae é bisneto dos mesmos doidos.

«Como exemplo de nevropathia accumulada por herança não ha melhor[18]!»

[16]O imperador Carlos V.

[16]O imperador Carlos V.

[17]Joannaa Doidae Filippe I, leviano, perdulario, incapaz de governar.

[17]Joannaa Doidae Filippe I, leviano, perdulario, incapaz de governar.

[18]O Doutor Minerva, pag. 198.

[18]O Doutor Minerva, pag. 198.

Sobre a inconveniencia physiologica dos casamentos consanguineos, repetidos de geração em geração entre as casas reaes de Portugal e Hespanha, vieram accumular-se, pelo enlace do principe D. João com a princeza D. Joanna, as taras hereditarias da epilepsia e da loucura que os dois desposados, primos co-irmãos, tinham recebido dos seus proximos ascendentes communs.

A mãe de D. Sebastião deu provas de uma exaltada hysteria, com allucinações pavorosas, durante o periodo da gravidez.

Este casamento precipitou a morte do principe D. João e aggravou as taras da princeza D. Joanna.

Eram duas creanças, ella de 18 annos[19]elle de 16[20], doentes dos mesmos vicios constitucionaes, e apaixonados um pelo outro. Não conheceram limites ás suas relações amorosas, entregaram-se a uma «demasiada communicação» dilacerando-se carinhosamente em extremos de prazer insaciavel.

[19]D. Joanna tinha nascido a 23 de junho de 1535.

[19]D. Joanna tinha nascido a 23 de junho de 1535.

[20]D. João nasceu em Evora a 3 de junho de 1537.

[20]D. João nasceu em Evora a 3 de junho de 1537.

O principe ardia n'um fogo de voluptuosidade, que o devorou prematuramente. Foi preciso separal-o da princeza, mas já era tarde. Estava perdido na flor dos annos.

Os medicos d'aquella epocha classificaram a doença de--paixão hebetica. Os chronistas explicam que o enfermo sentia uma sêde devoradora; e D. Manuel de Menezes, na chronica que lhe é attribuida, filia esse phenomeno pathologico no desregramento dos prazeres carnaes.

Ora o hebetismo--segundo a medicina do nosso tempo--é um estado morbido, que inutiliza as faculdades intellectuaes, sem comtudo inutilizar a acção dos sentidos: uma especie de embrutecimento devido a commoção cerebral[21].

[21]Dict. de medicine, segundo o plano de Nysten, refundido por Littré e Robin.

[21]Dict. de medicine, segundo o plano de Nysten, refundido por Littré e Robin.

Assim devia ser, pois que o principe D. João precipitára a crise dos seus males hereditarios com um exgotamento nervoso.

Mas a--sêde devoradora--polydipsia, é um symptoma da diabetes saccharina, que anda muitasvezes ligada ás nevroses e, principalmente, á epilepsia.

Não repugna acreditar que a sêde exagerada e continua, que abrazava o principe, derivasse d'esse conjuncto pathologico recebido por herança e aggravado por excessos.

E que os chronistas não empregavam a palavra sêde em sentido figurado, vê-se d'estas palavras da chronica attribuida a D. Manuel de Menezes: «mas elle (o principe) perseguido da sêde levantou-se uma manhã da cama a beber agua da chuva, que achou empoçada ao pé de uma janella, por descuido dos que lhe assistiam, que então o deixaram só, e sendo muita, e choca, fez-lhe muito mais mal, e logo empeiorou, e morreu no dia seguinte».

A princeza, excitada pelas sensações amorosas e pelos sobresaltos da gravidez, redobrou de hysterismos, teve allucinadas visões, pavores imaginarios, de que ficou noticia.

Na véspera do principe cahir doente, estando elle a dormir, julgou ella vêr, á luz da tocha que allumiava a camara conjugal, surgir uma figura de mulher vestida de luto, com larga touca, a qual mulher, crescendo em vulto, ameaçadora, fez estrincar os dedos e, após um assopro que parecia o halito quente d'uma féra, desappareceu.

A princeza ficou n'uma grande perturbação de terror, julgando verdadeira a visão, e interpretou-a no sentido de que o assopro annunciava que todas as suas esperanças haviam de desfazer-se em vento.

Quanto ao trinco com os dedos não interpretou coisa nenhuma ou as chronicas o não dizem.

Tendo fallecido o principe D. João[22]sem que a princeza o soubesse ao certo, posto o suspeitasse, e já nas vésperas do parto, as damas que acompanhavam D. Joanna quizeram leval-a a espairecer na Varanda da Pella, do Paço da Ribeira,

[22]O principe falleceu em terça feira 2 de janeiro de 1554, dezoito dias antes do parto da princeza.

[22]O principe falleceu em terça feira 2 de janeiro de 1554, dezoito dias antes do parto da princeza.

O palacio dos pricipes era o de Alvaro Peres de Andrade, junto ao Arco dos Pregos, mas communicava interiormente com o palacio real.

A princeza, profundamente abatida, deixou-se conduzir. A noite e o silencio favoreceram ainda d'esta vez o terror, sempre contagioso, mórmente entre as impressionaveis damas, que os tristes acontecimentos da côrte traziam sobresaltadas.

Bastaria, portanto, que a princeza tivesse uma visão, para que logo fossem egualmente suggestionadas as suas damas, portuguezas e castelhanas.

Assim, pois, todas julgaram vêr sahir pela Varanda d'El-rei, direitos ao Forte[23], muitos homens vestidos á moirisca, com fatos de variegadas cores, agitando tochas accêsas e soltando repetidas vozes de--Ly, ly, ly. Eira uma especie de dança macabra, em que os moiros revoluteavam, despedindo clarões e gritos; e quando a chorea, percorrendo a Varanda, chegava ao Forte, os moiros precipitavam-se ao Tejo, deixando no silencio da noite uma atmosphera soturna de terror e mysterio.

[23]O Forte, nome que depois conservou o torreão mandado construir por Filippe II, rematava sobre o Tejo, uma vasta galeria com terraço, a meio do qual se erguia uma torre ameiada.

[23]O Forte, nome que depois conservou o torreão mandado construir por Filippe II, rematava sobre o Tejo, uma vasta galeria com terraço, a meio do qual se erguia uma torre ameiada.

As damas fizeram decerto alarma. Acudiriagente do Paço, que não soube explicar a apparição sinistra dos moiros. Reconheceu-se que as portas estavam fechadas; que o ingresso de estranhos era impossivel. Então cresceria o pavor, e com elle a predisposição para repetir-se a visualidade no mesmo local e nas mesmas condições.

Foi o que aconteceu. Poucos dias depois tornou a princeza á Varanda da Pella, fez algum exercicio passeiando; depois sentou-se a uma das janellas e então se lhe renovou a visão dos moiros, com os mesmos trajes, as mesmas tochas, os mesmos gritos--na mesma farandola sinistra.

A princeza e as suas damas fugiram espavoridas sob a mesma suggestão, pelo contagio do terror. Todas «tinham visto» segunda vez os moiros. Lembra-nos, por analogia, um facto que Renan refere nosApostolos. Entre os protestantes perseguidos correu voz de que, nas ruinas de um templo destruido recentemente, se ouviam psalmos cantados pelos anjos; tanto bastou para que todos os protestantes que se aproximavam d'aquellas ruinas, ouvissem os psalmos.

O rei e a rainha, informados do que se passava, recommendaram segredo.

Convinha não excitar mais a superstição popular, que já estava muito exaltada por varios factos anteriores, taes como o desacato praticado por um inglez, logo depois do casamento do principe na capella do Paço; e a apparição de um meteóro luminoso que todas as noites era visivel em Lisboa, quasi em cima da Sé, e parecia tomar a fórma de um athaúde.

Dos nove filhos legitimos de D. João III ficára apenas um, o principe D. João, e o povo já sabiaque elle tinha morrido tambem, posto se occultasse a sua morte.

Se o parto da princeza se mallograsse, acabar-se-ia a successão directa. Portugal perderia a sua independencia, não porque el-rei não tivesse irmãos, que poderiam succeder-lhe no throno, mas porque pelo contrato de casamento da princeza D. Maria, filha de D. João III, com Filippe II, a corôa portugueza passaria para D. Carlos, filho d'aquella princeza.

Por isso o povo, cuidadoso de ver garantida a independencia do reino, «desejava» que a princeza D. Joanna desse á luz um filho varão.

O arcebispo de Lisboa ordenára uma procissão de préces, que se effectuaria logo que a princeza começasse a sentir as dores do parto.

Pela meia noite de 19 a 20 de janeiro[24]de 1554, quando os sinos dos conventos tocavam a matinas, houve rebate de que a princeza experimentava os primeiros symptomas do parto. Logo se organizou a procissão, que sahiu da Sé para S. Domingos. Rompia a manhã quando a procissão ia recolhendo á Sé e então se espalhou «a nova feliz de ter nascido odesejado[25].»

[24]Dia de S. Sebastião, motivo por que recebeu este nome o herdeiro da coroa.

[24]Dia de S. Sebastião, motivo por que recebeu este nome o herdeiro da coroa.

[25]Portugal cuidadoso e lastimado, pag. 2.

[25]Portugal cuidadoso e lastimado, pag. 2.

Desejado foi em verdade D. Sebastião, e duas vezes o foi, antes de ter nascido e depois de ter morrido.

Em taes circunstancias, o nascimento do herdeiro da corôa teve a importancia de um acontecimentonacional, que profundamente interessou a alma popular. Não foi apenas um regosijo privativo da familia real ou da côrte, como acontece sempre que nasce «mais um» principe. Aquelle que tinha nascido era «o unico» fiador possivel da autonomia de Portugal: por isso tal acontecimento poz em jogo o brio, o orgulho, o amor patrio de todos os portuguezes.

Antes do parto, organizam-se devoções propiciatorias, em que o povo se mistura com o alto clero, fundindo suas preces.

Em Santarem até as creanças effectuam procissões nocturnas, piedosa pratica infantil, que foi muito nossa, e que apparecia sempre nas grandes crises nacionaes, revestindo um gracioso caracter de ingenuidade religiosa e de fé simples.

Eram procissões minusculas, com pequenos andores, pequenas lanternas, sendo o prestito constituido por homensinhos lilliputianos, rapazes da rua, creanças do povo, que iam entoando ladainhas e psalmos numa unisonancia de vozes ainda debeis e esganiçadas.

É peculiar á infancia o espirito de imitação, maiormente entre as classes populares. Nos filhos do povo encontram sempre écco os acontecimentos que tomam maior relevo na vida da nação. Dir-se-ia que por viverem na rua são mais depressa sacudidos pela opinião publica do que os filhos dos nobres. Por isso são as creanças da arraya miuda que propagam, inconscientemente, as canções politicas, os hymnos revolucionarios, e que muitas vezes se encarregam de fazer a critica e inventar a parodia dos negocios do Estado e dos mais ruidosos conflictos da administração publica.

As procissões infantis duraram seculos. Viram-n'as os contemporaneos de D. João III. Viu-as Filinto Elysio, que nos descreve uma que todos os annos, pela quaresma, vinha da Ajuda exhibir nas ruas de Lisboa muitos «Senhorsinhos dos Passos» allumiados com rolinhos de cêra. Vi-as ainda eu na minha infancia, que passei n'aquella devota, patriotica e antiga cidade do Porto.

Foi bom termos tido occasião de falar do povo, pois que tomando por assumpto uma celebridade das ruas, como era o poeta Chiado, já se ia alongando de mais a narrativa sobre a vida da côrte, sem pausa nem fôlego, que désse tempo a pensar em quem vegeta no infimo grau da escala social--tal como no fundo de um poço escuro o musgo rasteiro.

Podemos agora tornar á côrte. D. João III, para não lançar maior perturbação nos espiritos, já muito apprehensivos e agitados, ordenou, pois, que se não divulgasse a visão da princeza na Varanda da Pella.

El-rei, receioso do futuro, sentia o peso de todas as suas responsabilidades politicas, que eram enormes desde que, por um imprudente contrato de casamento, a independencia do reino ficava suspensa do nascimento de um successor varão.

Mas o que D. João III não podia prohibir era que a princeza D. Joanna continuasse a ter visões, que aliás se repetiram.

Uma noite, na sua camara, tornou a princeza a vêr os moiros, que entravam e sahiam em tropel. Cahiu logo desmaiada no regaço de uma dama, e nem essa nem as outras receberam a suggestão, porque a princeza não teve tempo de falar.

Pareceu a todas que apenas seria uma syncope propria da gravidez; mas depois, explicado o caso, apurou-se que ainda mais uma vez tinham «apparecido» os moiros.

A crença popular relaciona sempre o maravilhoso com a vida das altas personagens e a realização dos grandes acontecimentos historicos. É um fundo de superstição commum a todos os povos. Assim, entre nós, encontrou-se uma relação sobrenatural entre a visão dos moiros e a derrota de D. Sebastião em Alcacerquibir.

Que a princeza D. Joanna tivesse allucinações e visualidades pavorosas, cabalmente o pode explicar a medicina; que os phantasmas que ella julgava ver, fossem moiros, basta que o diga a lenda, urdidaa posteriore, depois da perda de D. Sebastião em Africa.

De outras visões falam ainda as chronicas, todas n'um sentido lugubre e presago, como era proprio do estado morbido da princeza e das suas condições physiologicas.

Accordava de noite em sobresalto, queixando-se de não ver nada, de ter ouvido estrondos mysteriosos, vozes afflictivas, taes como suspiros maguados, gemidos cortantes.

No leito de dois doentes foi gerado um filho doentissimo, cuja cabeça, por desgraça nossa, havia de cingir a corôa de Portugal.

Depois do parto, o hysterismo da princeza tornou-se essencialmente mystico, tanto em Portugal como em Castella, para onde voltou.

Contribuiram para esta evolução, aliás naturalissima em taes circumstancias, as relações de D. Joanna com o padre Francisco de Borja, primeiroem Lisboa, depois em Madrid. Essas relações, por demasiado assiduas, chegaram a tornar-se suspeitas; e Francisco de Borja, que se retirou para Portugal quando a suspeição cresceu, teve de procurar justificar-se n'uma carta que, em 1561, dirigiu do Porto a Filippe II.

D. Joanna fundou em Madrid um convento á imitação do da Madre de Deus, de Lisboa[26]; é o dasDescalzas Reales, cuja historia Ricardo Sepulveda traçou n'um dos capitulos da sua interessante obraMadrid viejo.

[26]Hist. Gen., t. III, pag. 559

[26]Hist. Gen., t. III, pag. 559

Tal foi a princeza que o bispo de Coimbra D. Fr. João Soares e o duque de Aveiro foram receber á fronteira do Alemtejo, quando ella veiu desposar o mallogrado principe D. João[27].

[27]D. Joanna morreu com 38 annos, no Escorial, a 7 de setembro de 1573.

[27]D. Joanna morreu com 38 annos, no Escorial, a 7 de setembro de 1573.

Decoração de capítulo

Por que foi que D. João III escolheu, entre todos os prelados portuguezes, o bispo de Coimbra D. Frei João Soares, para ir á fronteira esperar a princeza?

Houve, para isso, razões especiaes.

Frei João, religioso eremita de Santo Agostinho e varão distincto em letras, tinha sido mestre do herdeiro da corôa e de seu irmão D. Filippe[28], alem de ser prégador e confessor de el-rei, o que bastaria a explicar a preferencia.

[28]D. Filippe foi o 6.ofilho de D. João III. Pela morte de seus irmãos, chegou a ser jurado herdeiro do reino. Falleceu com seis annos de edade.

[28]D. Filippe foi o 6.ofilho de D. João III. Pela morte de seus irmãos, chegou a ser jurado herdeiro do reino. Falleceu com seis annos de edade.

Das virtudes que aHistoria genealogica[29]attribue a D. Frei João Soares, não se pode falar comtanta segurança como de suas letras; Alexandre Herculano[30], baseando-se n'umas instrucções de Paulo III, attribue lhe audacia e ambição; vida dissoluta; espirito de rebellião contra a Santa Sé.

[29]Tom. III, pag. 552.

[29]Tom. III, pag. 552.

[30]Da origem e estabelecimento da inquisição em Portugal.

[30]Da origem e estabelecimento da inquisição em Portugal.

É verdade que os diocesanos de Coimbra o estimaram; que os pobres e os necessitados recebiam d'elle esmolas; que favoreceu a Misericordia d'aquella cidade; que doou á respectiva Sé muitos guisamentos, entre os quaes um valioso cális de oiro; e que na mesma Sé mandou construir a capella do Santissimo, de galante e excellente architectura[31].

[31]Noticia historica e descriptiva da Sé Velha de Coimbra, por A. M. Simões de Castro.

[31]Noticia historica e descriptiva da Sé Velha de Coimbra, por A. M. Simões de Castro.

Toda a diocese o pranteou na morte, o que parece mostrar que era mais estimado em Coimbra do que em Roma.

As instrucçóes de Paulo III, citadas por Herculano, tambem o dão como frade de poucas letras.

Ora isto não é exacto. D Frei João Soares produziu obras varias[32], em que affirmou competencia doutrinaria e dicção gentil. Como prégador, se a principio não agradou em Portugal, porque discursava em castelhano muito cerrado, pois havia estudado em Salamanca, chegou depois, quando readquiriu o manejo da lingua portugueza, a ter grande fama e clientela. Não se pode exceder o elogio que lhe faz Frei Luiz de Souza: «Foi eminentissimo no ministerio do pulpito; tanto que osmaiores pregadores do seu tempo lhe reconheciam a vantagem, e como a segundo Demosthenes o veneravam[33].»

[32]Veja-seDicc. Bib., de Innocencio, vol. IV, pag. 38, vol. X, pag. 350.

[32]Veja-seDicc. Bib., de Innocencio, vol. IV, pag. 38, vol. X, pag. 350.

[33]Vida de D. Frei Bartholomeu dos Martyres, liv. II, cap. XVII.

[33]Vida de D. Frei Bartholomeu dos Martyres, liv. II, cap. XVII.

Alem d'estes predicados literarios, possuia especial graça no dizer, dom natural que não seria o menos attractivo para lhe conquistar sympathias e facilidades na côrte.

D. Frei João Soares nasceu em S. Miguel de Urró, concelho de Arrifana, hoje Penafiel. Parece que pertenceu a uma familia illustre, pois que elle algumas vezes assignou tambem o appellido Albergaria.

Foi deputado do Santo-Officio, e governou a diocese de Coimbra desde 1545 até 1572; como prelado portuguez, assistiu ao concilio de Trento, onde o respeitaram como orador e theologo.

Falleceu com 65 annos de edade a 26 de novembro de 1572. Por humildade quiz ser sepultado no chão, fóra da capella do Santissimo que mandára edificar.

Se algum defeito toma maior vulto na individualidade d'este prelado, é o gosto pela ostentação.

Conta Frei Luiz de Sousa que se apresentou no concilio de Trento com um fausto proprio de principe secular, fazendo-se representar com esplendor e magnificencia notaveis.

«E porque se visse--diz o chronista dominicano--que fôra isto força do estado, mais que deanimo vão, passada a occasião do Concilio se poz em caminho de Jerusalem recompensando com a moderação de peregrino voluntaria, as superfluidades de senhor forçadas.»

Talvez que este procedimento fosse determinado por indicação ou censura da Santa Sé, a qual, como já vimos, não lhe era demasiadamente affecta.

A tendencia do prelado conimbricense levava-o effectivamente para a ostentação.

Na commissão que desempenhou com o duque de Aveiro, quando foi á raia de Castella buscar a princeza D. Joanna, já havia pompeado o mesmo esplendor e magnificencia que depois exhibiu no concilio de Trento.

Um manuscripto de Pedro Alvares Nogueira, existente no cartorio do cabido de Coimbra, diz sobre o modo por que o bispo desempenhou aquella commissão: «Levou muita gente de cavallo mui bem concertada, no que gastou muito de sua renda».

AChronicaattribuida a D. Manuel de Menezes ainda é mais explicita quando diz:

«Não menos adornado (que o duque de Aveiro) veiu o Reverendo Bispo D. Frei João Soares, com grande numero de cavalleiros, nobremente ataviados, conforme o seu estado; e a sua divisa, que trazia nos reposteiros eram suas Armas, e a letra que dizia:Soli Deo honor et gloria, e quer dizer:A honra e gloria se dê somente a Deus.E isto com muitas trombetas, e charamelas, e outros instrumentos, e cantores para o effeito de tão regia funcção, como convinha».

O chronista Francisco de Andrade afina pelo mesmo diapasão, dizendo:

«O bispo de Coimbra tambem por sua parte se apercebeu para esta jornada com o fausto e apparato, que se requeria para a honra d'este reino, para a auctoridade de sua pessoa, e para o grave negocio para que fôra eleito, porque ajuntou para o acompanhar muita e muito lustrosa gente de cavallo, e os que o acompanhavam a pé tambem iam da mesma maneira, e não lhe faltou então cousa alguma de quantas se uzam, e são importantes e necessarias nos negocios d'esta qualidade, sem perdoar por isso a grandes gastos e despesa».

Apenas uma voz zombeteira se levantou para tirar effeitos comicos do apparato com que o bispo de Coimbra entrou em Lisboa quando se dirigia á raia de Castella.

Apenas um carcaz despejou todas as suas settas, vibradas por adestrada mão, em menoscabo do cortejo que rodeiava o bispo de Coimbra, conde de Arganil, senhor de Coja, alcaide-mór de Avô.

Essa voz foi a de Antonio Ribeiro, o Chiado, cuja carta sobre este assumpto lembra os artigos dos jornaes republicanos de hoje em dia quando procuram amesquinhar a pompa das festas monarchicas.

N'aquelle tempo, não deixou de ser um acto de perigosa audacia a satyra com que o Chiado visou tão alta personagem como era o bispo de Coimbra, em occasião tão solemne para a côrte como era o casamento do principe herdeiro da corôa.

Aggravado o bispo, el-rei o desagravaria contra quem quer que fosse, se elle se queixasse.

Do valimento do prelado conimbricense junto de D. João III não ha que duvidar; bastava a justifical-o a sua qualidade de confessor d'el-rei, e não chega a ser preciso admittir, como se diz nas instrucções de Paulo III, que a pretexto da confissão obtivesse a solução de muitos negocios.

Chiado era, porém, destemido como todos os bohemios e dizidores do seu tempo, incluindo o proprio Camões. E a fortuna ajuda os audazes... pelo menos algumas vezes. Não consta que Chiado fosse molestado por causa d'esta sua satyra em prosa, de que talvez o bispo nem chegasse a ter conhecimento.

Simula o auctor escrever a um seu amigo de Coimbra, visto que lhe diz--«estas novas da entrada do vosso bispo.»

É um artificio literario, para justificar a origem da satyra. Manifestamente, vindo o cortejo de Coimbra, não precisava ninguem d'aquella diocese que lhe dessem novas do modo como vinha organizado. Lá o saberiam perfeitamente ou perfeitamente o poderiam saber.

Tambem, por outro artificio literario, diz o Chiado «que não viu a entrada do bispo em Lisboa». Mas tão minuciosamente a descreve que bem se reconhece ter sido testemunha presencial. D'este modo, abria uma valvula de segurança para o caso de lhe imporem a responsabilidade da satyra: teria feito obra por informações inexactas.

Claramente se percebe que o Chiado viu a chegada do cortejo plantando-se entre a multidão em alguma rua do transito e chasqueando no meio de um grupo de clientes que lhe admiravam a veia sarcastica.

A sua narração é a de um impressionista, que surprehendeu o espectaculo em flagrante.

E tal homem como o Chiado não poderia estar calado nem indifferente por muito tempo, quando toda a população de Lisboa se alvoroçava para assistir a um acontecimento anormal, muito annunciado e não menos pomposo.

A carta de Chiado é, segundo o moderno falar, umacharge; pertence aos dominios da caricatura escripta, que madrugou com os primeiros alvores da nossa literatura, antecipando-se alguns seculos á caricatura desenhada.

Assim é que já noCancioneiro da Vaticanaencontramos a seguinte chistosa caricatura de um cavalleiro da idade-média:

caval'agudo que semelha forom, em cima d'el un velho selegon, sem estrebeyras e con roto bardon, nem porta loriga, nem porta lorigon, nen geolheiras quaes de ferro son, mays trax perponto roto sen algodon, e cuberturas d'un velho zarelhon, lança de pinh'e de bragal o pendon, e chapel de ferro que x'i lhi mui mal pon; e sobarçad' un velh' espadarron; cuytel'a cachas, cintas sen forcilhom, duas esporas destras, ca sestras non som, maça de fusto que lhi pende do arçom.

Etc.

Este fragmento é o avô da caricatura portugueza nos dominios da literatura.

Vamos vêr como Antonio Ribeiro o Chiado, navegando nas mesmas aguas, caricaturou ao correr da penna a entrada do bispo de Coimbra em Lisboacom todo o seu cortejo de pagens, escudeiros, varletes, azemolas, trombetas, atabales e charamelas.

Diz o documento, tal como se me deparou na miscellanea, que pertenceu á livraria do convento da Graça:

Carta que o Chiado escreveu a um seu amigo da entrada do Bispo de Coimbra em Lisboa, quando veio para ir pela Princeza a Castella que é mãe d'El-Rei D. Sebastião.Quereis saber quanto póde a importunação, que muito contra minha vontade vos escrevo estas novas da entrada do vosso bispo n'esta cidade, só por cumprir com o que tanto me tendes rogado. Vêde-as em nome de quem quizerdes, que eu não quero senão fallar comvosco.Deixarei sua estada no Lumiar, que durou tres dias, onde preparou e proveu de sapatos, de pescoços[34]e atacas[35]toda a sua gente, que vinham algum tanto damnificados do caminho.[34]Como quem diz--gargantilhas[35]Ligas, correias, etc.N'este tempo foi Sua Senhoria mais nomeado por Lisboa que assada quente[36]e todos com olhos longos por sua entrada, a qual eu não vi. Dizem que a 25 de outubro de 553 annos ás tres horas depois do meio dia entrou o vosso bispo, o qual vinha na maneira seguinte, todos de dous em dous, como cachos em redea[37], sómente as azemolas, se o eram, vinham um cacho por redea:--Primeiramente vinha deante de tudo um villão, por nome Amador Colaço, a quem a natureza negou barbas, o qual foi moço de pé d'este bispo, que a ventura bem casou nessa cidade, em cima de um rocim de meia sela, chapeu branco, vestido preto com peças d'ouro em certos logares, que denunciam festa, o qual, como se o villão do almocreve, desordenava, tornava atraz e tirava o pé do estribo, que era um madeiro, e pegava-lhe, cousa que lhe fazia mostrar as bragas que o capotim de côr traria coberto de más linguas.[36]Allusão ao pregão das castanhas assadas.[37]Restea de uvas; isto é, reste de cachos de pendura (Moraes). Reste, corda feita de peças trançadas; v. g. uma reste de alhos, de cebolas, etc.Quarenta bestas vinham n'esta ordem, suas mataduras cobertas com reposteiros que lá se fizeram. Já sabeis quejandos eram.No couce vinham duas escolhidas para aquella hora, que traziam cama e cofre, acompanhadas de seis villãos, cada um comsua partezana nas mãos, tão frouxos que os desarmariam sem gafas[38]; e logo no rabo vinha um estribeiro, que o outro bispo creou, tão triste e descontente que parecia que se arrependera do que accettara.[38]Sem gafas, o mesmo que--sem esforço, nem violencia. Gafa era o gancho com que se puxava a corda da bésta para armal-a.Nas costas d'estes todos vinham a procissão da gente, onde não faltaram cavallinhos fuscos. Só o sagitario esqueceu.Vinha deante um molho de trombetas; em vez de virem vermelhas vinham amarellas, e logo os atabaleiros que já não traziam braços.Os das charamelas, já sabeis que são pão de rala, não puderam mudar cor. Como uns acabavam uns versos, outros começavam, sempre os ouvidos tinham que fazer, como os olhos que vêr. As cavalgaduras d'estes todos eram ossos sem posta de polpa.Detraz vinham trinta moços da camara, todos almagrados,[39]os quaes parece que os comprou o bispo por junto e lhes deram as encavalgaduras todas em cima, e de chapeus brancos, como romeiros, e os mais delles com calças e sapatos, sem espadas, gente religiosa, algum tanto no vestir castelhanos, porque quem levava luvas faltavam-lhe as esporas.[39]Pintados de almagre ou almagra; isto é, de vermelho.E logo na dita ordem vinham os coimbrãos tão tristes e descontentes, que pareciam que perderam todos suas fazendas. Nomear umpor um será muita honra sua e canceira minha e enfadamento vosso; basta que alguns d'elles traziam frenos[40]de ouro, mas mal pelas mulheres que ficam sem arrecadas, todos em cavallos de tornas, tirando o chanceller que vinha momo feito, outrosim pagem do arremeção,[41]que não havia mais no sel'o.[42][40]Freios.[41]Talvez pagem da lança, porque arremessão (melhor graphia que arremeção) significava, segundo o Dic. da Academia, qualquer arma missiva ou de arremesso, como lança, dardo etc.[42]Isto é, mais acabado e perfeito.Inofre Francisco vinha bem acompanhado e bem encavalgado, todos os seus feitos rosmaninhos[43]e bem encavalgados. A todos pareceu bem; só um senão lhe acharam, que não levava o ferro do arremeção esfolado.[43]Engalanados. Hoje diriamos--uns palmitos.O meirinho Gaspar Dias não se achava ahi sem vara, acompanhado de dous beleguins, que lhe foram sempre fieis, um lhe trazia um cabresto com que vinha silhado, o outro lhe trazia uma ferradura que lhe cahiu no campo de Alvalade.[44][44]O Campo Grande actual, com a differença de que n'aquelle tempo era bosque silvestre, muito povoado de rouxinoes, como se vê daUlysippode Jorge Ferreira de Vasconcellos, quando diz (acto IV, scen. 5.a): «Vós estaveis mais namorado que um rouxinol de Alvalade.»Só no reinado de D. Maria I foi que o campo de Alvalade começou a ser transformado em alameda publica.Os mais, que aqui não vão, traziam tanto que dizer que será nunca acabar. Quandonos virmos ambos, então vos representarei a farça.Passado este chuveiro d'escudeiros tornou melhor dia, Arthur de Sá e Francisco Pereira, seu irmão, honestos no trajo, confiados na fidalguia. Mas então disseram que trazia Arthur de Sá feita a petição do morgado, perguntando uns aos outros quanto renderia o praso.E n'isto appareceu Dom João, Bispo Conde, tres pessoas, um só frade, cercado de vinte e tantos villãos, que todos pareciam paes d'orfãos de Jesus, desazados, barbas d'estrigas, todos molares, sem vir entre elles nenhum só duvazio, vestidos em uns alqueceres[45]brancos e azues, que lhes davam pelos artelhos. O mais que de S. S.adisseram, não direi eu por não pôr a mão em sagrado.[45]Alquice ou alquicer, capa mourisca.Toda a outra clerezia vinha má com boa, como romãs de Castella, esta ordem levaram todos pela Rua dos que padecem martyrio,[46]levando nas unhas[47]o Rocio e toda a Rua Nova[48]até chegarem ao Terreiro do Paço,donde muitos descavalgaram sem criados, ficando os ginetes tão mansos, que nem as apupadas dos rapazes, nem o rumor da gente teve poder para os fazer rinchar.[46]Era a rua que, tomando se por ponto de referencia o Rocio, conduzia ao Campo de Santa Barbara, então chamadoda Forca(Lisboa antiga, 2.aparte, tomo V, pag. 65 e 78; tomo VI, pag. 65 e 68.) Não quero asseverar que correspondesse á actual rua direita dos Anjos, porque o Campo da Forca era muito mais vasto então; estendia se desde o sitio dos Anjos até ao actual largo de Arroyos.[47]Ainda hoje dizemos «na ponta da unha» para designar a maxima velocidade.[48]A Rua Nova dos Ferros correspondia, approximadamente, á actual rua dos Capellistas. Diz-se que foi mandada construir por el-rei D. Diniz.El-Rei nosso senhor, com a Rainha e Principe, os esperavam na varanda, onde lhes S. S.abeijou as mãos e lhe fizeram arrazoado agazalhado. Acabado elle os dous irmãos Sá Pereira fizeram outro tanto e apoz estes, «cabeça em cu, que não fique nenhu». Alvaro Mendes, contador da Universidade, foi por cá.Acabado o officio, tornou-se Sua Senhoria a seus paços, e ao descer da escada encostado a um pagem, que dizem ser seu sobrinho, o qual fez muito ruins mesuras, vinha caiado de novo, trazia umas pontinhas de ouro no capello da capa d'onde nunca tirou o olho, que tão recatado vinha da tezoura.Ao bispo tornaram a arripiar carreira algum tanto a procissão desfeita, fazendo cada um caminho para suas pousadas, e de maneira os enguliu Lisboa, que nunca mais appareceram nem fizeram mossa.Isto tudo passou na verdade, que m'o disseram homens de respeito. Se mais quizerdes peitae lampreas[49], que os homens d'essa terran'isso desenfornam todos seus cumprimentos. Nosso Senhor vos dê muita saude e vida e muito dinheiro, e vos livre d'estas trovoadas que o tiram e gastam.»[49]Comprai-me, subornai-me com lampreas. Vê-se que sempre tiveram grande fama as lampreas do rio Mondego; e que de Coimbra as mandavam como mimo para outras terras do paiz. Era gentileza vulgar dos conimbricenses. A lamprea cozinhada na famosa estalagem do Paço do Conde foi, em nossos dias, um piteo muito celebrado por estudantes.

Carta que o Chiado escreveu a um seu amigo da entrada do Bispo de Coimbra em Lisboa, quando veio para ir pela Princeza a Castella que é mãe d'El-Rei D. Sebastião.

Quereis saber quanto póde a importunação, que muito contra minha vontade vos escrevo estas novas da entrada do vosso bispo n'esta cidade, só por cumprir com o que tanto me tendes rogado. Vêde-as em nome de quem quizerdes, que eu não quero senão fallar comvosco.

Deixarei sua estada no Lumiar, que durou tres dias, onde preparou e proveu de sapatos, de pescoços[34]e atacas[35]toda a sua gente, que vinham algum tanto damnificados do caminho.

[34]Como quem diz--gargantilhas

[34]Como quem diz--gargantilhas

[35]Ligas, correias, etc.

[35]Ligas, correias, etc.

N'este tempo foi Sua Senhoria mais nomeado por Lisboa que assada quente[36]e todos com olhos longos por sua entrada, a qual eu não vi. Dizem que a 25 de outubro de 553 annos ás tres horas depois do meio dia entrou o vosso bispo, o qual vinha na maneira seguinte, todos de dous em dous, como cachos em redea[37], sómente as azemolas, se o eram, vinham um cacho por redea:--Primeiramente vinha deante de tudo um villão, por nome Amador Colaço, a quem a natureza negou barbas, o qual foi moço de pé d'este bispo, que a ventura bem casou nessa cidade, em cima de um rocim de meia sela, chapeu branco, vestido preto com peças d'ouro em certos logares, que denunciam festa, o qual, como se o villão do almocreve, desordenava, tornava atraz e tirava o pé do estribo, que era um madeiro, e pegava-lhe, cousa que lhe fazia mostrar as bragas que o capotim de côr traria coberto de más linguas.

[36]Allusão ao pregão das castanhas assadas.

[36]Allusão ao pregão das castanhas assadas.

[37]Restea de uvas; isto é, reste de cachos de pendura (Moraes). Reste, corda feita de peças trançadas; v. g. uma reste de alhos, de cebolas, etc.

[37]Restea de uvas; isto é, reste de cachos de pendura (Moraes). Reste, corda feita de peças trançadas; v. g. uma reste de alhos, de cebolas, etc.

Quarenta bestas vinham n'esta ordem, suas mataduras cobertas com reposteiros que lá se fizeram. Já sabeis quejandos eram.

No couce vinham duas escolhidas para aquella hora, que traziam cama e cofre, acompanhadas de seis villãos, cada um comsua partezana nas mãos, tão frouxos que os desarmariam sem gafas[38]; e logo no rabo vinha um estribeiro, que o outro bispo creou, tão triste e descontente que parecia que se arrependera do que accettara.

[38]Sem gafas, o mesmo que--sem esforço, nem violencia. Gafa era o gancho com que se puxava a corda da bésta para armal-a.

[38]Sem gafas, o mesmo que--sem esforço, nem violencia. Gafa era o gancho com que se puxava a corda da bésta para armal-a.

Nas costas d'estes todos vinham a procissão da gente, onde não faltaram cavallinhos fuscos. Só o sagitario esqueceu.

Vinha deante um molho de trombetas; em vez de virem vermelhas vinham amarellas, e logo os atabaleiros que já não traziam braços.

Os das charamelas, já sabeis que são pão de rala, não puderam mudar cor. Como uns acabavam uns versos, outros começavam, sempre os ouvidos tinham que fazer, como os olhos que vêr. As cavalgaduras d'estes todos eram ossos sem posta de polpa.

Detraz vinham trinta moços da camara, todos almagrados,[39]os quaes parece que os comprou o bispo por junto e lhes deram as encavalgaduras todas em cima, e de chapeus brancos, como romeiros, e os mais delles com calças e sapatos, sem espadas, gente religiosa, algum tanto no vestir castelhanos, porque quem levava luvas faltavam-lhe as esporas.

[39]Pintados de almagre ou almagra; isto é, de vermelho.

[39]Pintados de almagre ou almagra; isto é, de vermelho.

E logo na dita ordem vinham os coimbrãos tão tristes e descontentes, que pareciam que perderam todos suas fazendas. Nomear umpor um será muita honra sua e canceira minha e enfadamento vosso; basta que alguns d'elles traziam frenos[40]de ouro, mas mal pelas mulheres que ficam sem arrecadas, todos em cavallos de tornas, tirando o chanceller que vinha momo feito, outrosim pagem do arremeção,[41]que não havia mais no sel'o.[42]

[40]Freios.

[40]Freios.

[41]Talvez pagem da lança, porque arremessão (melhor graphia que arremeção) significava, segundo o Dic. da Academia, qualquer arma missiva ou de arremesso, como lança, dardo etc.

[41]Talvez pagem da lança, porque arremessão (melhor graphia que arremeção) significava, segundo o Dic. da Academia, qualquer arma missiva ou de arremesso, como lança, dardo etc.

[42]Isto é, mais acabado e perfeito.

[42]Isto é, mais acabado e perfeito.

Inofre Francisco vinha bem acompanhado e bem encavalgado, todos os seus feitos rosmaninhos[43]e bem encavalgados. A todos pareceu bem; só um senão lhe acharam, que não levava o ferro do arremeção esfolado.

[43]Engalanados. Hoje diriamos--uns palmitos.

[43]Engalanados. Hoje diriamos--uns palmitos.

O meirinho Gaspar Dias não se achava ahi sem vara, acompanhado de dous beleguins, que lhe foram sempre fieis, um lhe trazia um cabresto com que vinha silhado, o outro lhe trazia uma ferradura que lhe cahiu no campo de Alvalade.[44]

[44]O Campo Grande actual, com a differença de que n'aquelle tempo era bosque silvestre, muito povoado de rouxinoes, como se vê daUlysippode Jorge Ferreira de Vasconcellos, quando diz (acto IV, scen. 5.a): «Vós estaveis mais namorado que um rouxinol de Alvalade.»Só no reinado de D. Maria I foi que o campo de Alvalade começou a ser transformado em alameda publica.

[44]O Campo Grande actual, com a differença de que n'aquelle tempo era bosque silvestre, muito povoado de rouxinoes, como se vê daUlysippode Jorge Ferreira de Vasconcellos, quando diz (acto IV, scen. 5.a): «Vós estaveis mais namorado que um rouxinol de Alvalade.»

Só no reinado de D. Maria I foi que o campo de Alvalade começou a ser transformado em alameda publica.

Os mais, que aqui não vão, traziam tanto que dizer que será nunca acabar. Quandonos virmos ambos, então vos representarei a farça.

Passado este chuveiro d'escudeiros tornou melhor dia, Arthur de Sá e Francisco Pereira, seu irmão, honestos no trajo, confiados na fidalguia. Mas então disseram que trazia Arthur de Sá feita a petição do morgado, perguntando uns aos outros quanto renderia o praso.

E n'isto appareceu Dom João, Bispo Conde, tres pessoas, um só frade, cercado de vinte e tantos villãos, que todos pareciam paes d'orfãos de Jesus, desazados, barbas d'estrigas, todos molares, sem vir entre elles nenhum só duvazio, vestidos em uns alqueceres[45]brancos e azues, que lhes davam pelos artelhos. O mais que de S. S.adisseram, não direi eu por não pôr a mão em sagrado.

[45]Alquice ou alquicer, capa mourisca.

[45]Alquice ou alquicer, capa mourisca.

Toda a outra clerezia vinha má com boa, como romãs de Castella, esta ordem levaram todos pela Rua dos que padecem martyrio,[46]levando nas unhas[47]o Rocio e toda a Rua Nova[48]até chegarem ao Terreiro do Paço,donde muitos descavalgaram sem criados, ficando os ginetes tão mansos, que nem as apupadas dos rapazes, nem o rumor da gente teve poder para os fazer rinchar.

[46]Era a rua que, tomando se por ponto de referencia o Rocio, conduzia ao Campo de Santa Barbara, então chamadoda Forca(Lisboa antiga, 2.aparte, tomo V, pag. 65 e 78; tomo VI, pag. 65 e 68.) Não quero asseverar que correspondesse á actual rua direita dos Anjos, porque o Campo da Forca era muito mais vasto então; estendia se desde o sitio dos Anjos até ao actual largo de Arroyos.

[46]Era a rua que, tomando se por ponto de referencia o Rocio, conduzia ao Campo de Santa Barbara, então chamadoda Forca(Lisboa antiga, 2.aparte, tomo V, pag. 65 e 78; tomo VI, pag. 65 e 68.) Não quero asseverar que correspondesse á actual rua direita dos Anjos, porque o Campo da Forca era muito mais vasto então; estendia se desde o sitio dos Anjos até ao actual largo de Arroyos.

[47]Ainda hoje dizemos «na ponta da unha» para designar a maxima velocidade.

[47]Ainda hoje dizemos «na ponta da unha» para designar a maxima velocidade.

[48]A Rua Nova dos Ferros correspondia, approximadamente, á actual rua dos Capellistas. Diz-se que foi mandada construir por el-rei D. Diniz.

[48]A Rua Nova dos Ferros correspondia, approximadamente, á actual rua dos Capellistas. Diz-se que foi mandada construir por el-rei D. Diniz.

El-Rei nosso senhor, com a Rainha e Principe, os esperavam na varanda, onde lhes S. S.abeijou as mãos e lhe fizeram arrazoado agazalhado. Acabado elle os dous irmãos Sá Pereira fizeram outro tanto e apoz estes, «cabeça em cu, que não fique nenhu». Alvaro Mendes, contador da Universidade, foi por cá.

Acabado o officio, tornou-se Sua Senhoria a seus paços, e ao descer da escada encostado a um pagem, que dizem ser seu sobrinho, o qual fez muito ruins mesuras, vinha caiado de novo, trazia umas pontinhas de ouro no capello da capa d'onde nunca tirou o olho, que tão recatado vinha da tezoura.

Ao bispo tornaram a arripiar carreira algum tanto a procissão desfeita, fazendo cada um caminho para suas pousadas, e de maneira os enguliu Lisboa, que nunca mais appareceram nem fizeram mossa.

Isto tudo passou na verdade, que m'o disseram homens de respeito. Se mais quizerdes peitae lampreas[49], que os homens d'essa terran'isso desenfornam todos seus cumprimentos. Nosso Senhor vos dê muita saude e vida e muito dinheiro, e vos livre d'estas trovoadas que o tiram e gastam.»

[49]Comprai-me, subornai-me com lampreas. Vê-se que sempre tiveram grande fama as lampreas do rio Mondego; e que de Coimbra as mandavam como mimo para outras terras do paiz. Era gentileza vulgar dos conimbricenses. A lamprea cozinhada na famosa estalagem do Paço do Conde foi, em nossos dias, um piteo muito celebrado por estudantes.

[49]Comprai-me, subornai-me com lampreas. Vê-se que sempre tiveram grande fama as lampreas do rio Mondego; e que de Coimbra as mandavam como mimo para outras terras do paiz. Era gentileza vulgar dos conimbricenses. A lamprea cozinhada na famosa estalagem do Paço do Conde foi, em nossos dias, um piteo muito celebrado por estudantes.

Esta carta, que não pudemos encontrar em 1889, não completa ainda o espolio literario do Chiado, porque não tem sido possivel encontrar exemplares de outras especies, taes como oAuto de Gonçalo Chambão, que, segundo Barbosa, teve nada menos de trez edições.

Mas constitue um achado, que reputei feliz, e que me deixou contente quando se me deparou n'uma epoca em que eu versava com enthusiasmo assumptos literarios.

Se hoje dou a lume esta carta de Chiado, foi porque para esse effeito encontrei as maiores facilidades n'uma empreza editora, que se tem assignalado por bons serviços ás letras patrias.

Não é que eu fie do exito d'esta monographia e fique imaginando que hão de acudir a compral-a numerosas legiões de leitores.

Em Portugal só o romance francez tem procura no mercado.

Qualquer outra especie literaria representa um desastre de livraria.

Por haver chegado a esta convicção é que nunca pensei em fazer segunda edição dasObras do poeta Chiado, que bem podia ter sido enriquecida com a materia do presente opusculo e com variascorrecções que me foram indicadas, sobre a difficil interpretação dos textos, pelos srs. visconde de Castilho, Antonio Francisco Barata e professor Epiphanio.

Mas seria perder tempo, e o tempo é a vida. Esperdiçal-a era desatino. Poupemol-a.

Estou n'este ponto de vista ha muito tempo.

Lisboa, 9 de julho de 1901.

Decoração de Fim de Livro


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