Chapter 5

.....vivo sedilia saxo.O matto deu a lenha para a cosinha; o rio deu a agua; os vasos e os comestiveis, traziam-n-os ellas, e por mustarda e salsas a sua alegria folgasan, a lida, e as cantigas. Nada faltou; nem o arroz doce, de leite recem-mugido.Terminaram com uma dança no areal, por não haver melhor, e debandaram, cada uma atraz do seu gado, quando já lá por cima branquejavam estrellas. A fogueira serviçal lá ficou sosinha, remirando-se ainda na corrente soturna, e olhando com saudades a quem d'ella egualmente as levaria.Innocentes leviandades são todas estas, e, mais ou menos, parecidas com o que por toda a parte vai n'esse praso do anno. Mas, travada com ellas, uma usança ha ali, que só ali ha, e que eu aponto, não só porque me ajuda no retrato d'aquella gente optima, se não porque dará luz para se entender o poema que a diante vai, com o titulo deDomingo gordo dos montanhezes.N'este dia, pois, logo de manhan, acodem á matta de S. Sebastião, que já sabeis orla o passal pela banda do poente, todos osmoços solteiros da freguesia, a plantar cada um um sovereiro, ou carvalho novo; findo o quê, e bebida sua malga de uma talha de vinho verde, que já para isso a Confraria do mesmo Santo ali lhes tem prevenida, se tornam para suas terras a folgar.Nem o introductor, nem o tempo da introducção d'esta pratica, são já hoje conhecidos. É uma tradição piedosa, uma lei moral, sem nenhum genero de comminação, mas tão á risca obedecida, como se as tivera.É, mormente em tal dia, e para gente em flor de annos, um bello exemplo de desinteresse; pois na plantação quem só ganha é a selva, que se dilata, e o Santo, a quem se engrossam os rendimentos.Se de S. Gonçalo ou Santo Antonio fôra a capellinha, ou de algum outro Bemaventurado, com fama de boa-mão para casamentos, ainda se aventaria um motivo pessoal para o obsequio; ¡mas S. Sebastião, que só da peste é advogado!...Seja o que fôr: o amavel instituto persevéra, ¡e oxalá dure sempre! ¡e oxalá por muitas partes o imitassem!*Para que a Paschoa dos montanhezes deixe a perder de vista a de nós outros, bastam duas considerações: a d'elles é festa do espirito, e mais do corpo; a nossa nem do corpo o é, nem do espirito.Digo que é do espirito a sua, porque a Fé viva lhes faz estar vendo ressurgido do sepulcro o Divino Amigo da especie humana;e do corpo tambem, porque o brodio paschal, opíparo, rescendente, de viandas succulentas e escolhidas, lhes dá mate á longa e bem jejuada quarentena.Move suavemente os corações acompanhar a procissão, que da egreja sai depois da Missa cantada, com os seus cirios accezos, cantando as aleluias, atravessa o amplo adro alcatifado de bordada relva, sombreado das suas cerejeiras já revestidas, atravessa o passal por entre as alas das pacificas oliveiras, vai pela matta de S. Sebastião, e se espairece ao longe, como uma piedosa exultação, por entre os mattos rejuvenescentes.O aroma do incenso ama casar-se com a fragrancia agreste das moitas. As arvores figuram ensoberbecer-se de estender o seu pallio verde recamado de sol por cima do Filho de David. Cada hervinha pôz por fora todas suas galas para ver passar o seu Creador. Como elle, toda a Natureza parece ressuscitada, vivaz, e gloriosa. Os passaros lhe entôam canticos, como os homens, as mulheres, e as creanças. A aleluia ressôa em toda a parte; lagrimas involuntarias aljofram todos os rostos; em todos os corações ferve o amor de Deus, o amor da Natureza, e o amor mutuo.¡Oh! ¡que bem que se chegam ali a entender os arroubados requebros do Esposo e da Esposa dos Cantares! ¡Oh! ¡que permutar de boas-festas! Mal o presumem, os que todas as cifram em cinco ou seis letras gothicas n'um cartão alvibrunido, com uma das quatro pontas bem dobrada.Recolhida a procissão, tornam-se todoscorrendo a suas casas, a acabar de as pôr prestes para a proxima visita do seu Parocho. Atapetam-se de ramos os pavimentos; guarnecem-se as mezas com as melhores baixellas; crepíta o lume na cosinha revôlta; idéia-se um simulacro de altar, ou se enroupa uma cama de lavado para aposentar o Santo Christo, emquanto o senhor Prior, com a sua pequena comitiva, lhes der o gosto de provar (quando mais não seja) dos seus guizados e do seu vinho. Ninguem da familia falta á porta para receber a aspersão de agua benta, que elle ao entrar lhes liberalisa risonho, com as palavras rituaes da benção: «Paz a esta casa, e a todos que n'ella moram.»Tal visitação, que (já se vê) se não conclue no primeiro, nem muitas vezes, no segundo dia, paga bem o seu pequeno custo; não pela moeda de prata, de meio tostão ou seis vintens, recebida em cada fogo; não pelos saccos de folares que se ajuntam; mas pelo muito que assim de novo se apertam os vinculos mutuos do Pastor e do rebanho.*No 1.º de Maio põem, á entrada das habitações,maias, que são ramos de sabugueiro e giestas florídas; e nos linhares, rocas com seus fuzos, carregadas de linho e enramalhetadas de flores. Com aquillo se fadam a terra e a casa: a terra, para que dê linho comprido e sedoso; a casa, para que se guarde e mantenha próspera.¿Quem não vê n'estas maias outra degenerada herança dos nossos antigos senhoreadores?No principio de Maio, faziam os Romanos o festejo domestico dos seusLares, deuses protectores da poisada, e cujos idolos se tinham junto ao fogo da cosinha, ou em nichos por de traz da porta principal. Revestiam-n-os de pelle canina; e em monumentos antigos se vê ao pé d'estes deuses representado o animal symbolo da fidelidade, e guarda nocturno do domicilio, pelo mesmo modo como Ovidio nos seusFastosnol-o descreve. Brindavam-n-os com libações de bom comer e beber, e tambem com ramilhetes e grinaldas, já de flores, e já de lan.Deveu ser entre elles o culto dos Lares o mais querido, pois acreditavam que eram os espiritos dos bons mortos da familia, que se compraziam de habitar e proteger os logares onde foram vivos, e onde vivia gente do seu sangue.Por isso tambem a pouco e pouco chegaram a dar zeladores divinos do mesmo nome a todas quantas coisas lhes requeriam, e mereciam amparadas. Vieram Laresviaes(dos caminhos),compitaes(das encruzilhadas),urbanos(os padroeiros de cada cidade),publicos(os mantenedores dos publicos edificios),rusticos(os custodios do campo),hostis(os amparadores contra inimigos),marinhos(os guardiães dos navios).É portanto evidente, que, onde quer que se estabelecesem Romanos, se haviam os Lares de estabelecer; e tenho, que nenhuma de suas religiosas praticas pegaria melhor, nem mais depressa, entre estrangeiros; e bem boa, bem moral que ella era, no meio d'aquelle cahos de poeticissimos desatinos e devassidões.Fazia venerar e amar a casa; com a casa, a familia; com a familia, os sãos costumes da creação. Ainda por cima, fazia resplandecer luzeiros de esperança na cerração das adversidades; o que dá coração e brios para as resistir.Pressupponhâmos como verisimillimo, e certo, que na romana provincia Lusitania se veneravam os Lares como na Italia; do que, aliás, podem ser documentos, além de outros, o nome delareira, geralmente conservado ao lastro da chaminé, e o proprio delar, com que em Traz-os-Montes se chama a corrente de ferro, de que pende na cosinha o caldeirão sobre a fogueira.Já cada um inferirá que asmaiasdos meus serranos, festejo que só á casa se refere, coroando-lhes de flores a porta, e lustrando-lhes, como quer que seja, o seu linhar (linho por lan), teem, e não podem deixar de ter, aquella origem.Na cola d'esta semi-gentilidade, garrida e innocente, vem o rito christão, ainda mais poetico, chamado dasRogações ou Ladainhas de Maio.Os lavradores seguem, com as cabeças descobertas, e acompanhando em chusma as entoadas preces da Egreja, a procissão, que lá se vai, humilde, atravez dos campos desatados em flor. Imploram as bençãos do Ceo para os trabalhos da agricultura; que insectos damninhos não devorem a vinha ou seára; que intempéries do ar e trovejados granizos não derribem mortas as benevolas esperanças dos pomares.*O S. João por larga vespera de semanas se annuncia: cantado de dia pelos oiteiros, de noite pelos serões.Nada ha mais affectivo, que a toada, entre melancolica e leda, com que se vão lentamente deduzindo as trovas (sem arte, embora, não sem graça), que por ali em louvor do Baptista se exhalaram outr'ora do seio de poetas desconhecidos.A medo me rendo á tentação urgente de as mostrar; que, despojadas da sua melodia, desquitadas das vozes tão frescas e juvenís das suas cantoras, e nuas dos seus accessorios de silencio e ruido selvatico, de calma e sombras em pino de verão, trovas taes aqui mal poderão parecer-se comsigo mesmas.Do que ides ler, ao que eu ouvi, posto não haja differença na substancia, vai tanto, como de uma formosa donzella podéra differir o seu cadaver.Sem mais precauções, eis aqui alguns trechos, que no fundo da alma se me estão ainda cantando, por entre simulacros de figueiras, que entretecem sobreceo verde á fonte crystallina do passal. As syllabas dos metros, não as contem; basta que todos elles acertem na cantoria ás mil maravilhas. Tão pouco embiquem na confiança, com que umas rusticasinhas de roca á cinta tratam o Santo Precursor. São amores velhos; não ha que lhes dizer.—¿San-João das barbas doiradas,onde foste ter as orvalhadas?—Fui as ter áquellas hortas,recordar aquellas cachopas.Recordae, recordae, perguiçosas,que da fonte já veem as formosas,com as talhas cheias de cravos,que lh'os deram os seus namorados,com as talhas cheias de flores,que lh'as deram os seus amores.San-João, rico cavalleiro,companheiro de Nosso Senhor,acompanhae a minha almaquando d'este mundo fôr.—¿Por que tendes, San-João,esses sapatinhos brancos?—Para passear ás moçasdomingos e dias santos.—¿D'onde vindes, San-João,que assim cheirais á macella?—Venho da serra da Estrella,de fazer uma capella.—¿D'onde vindes, San-João,pela calma sem chapeo?—Venho beber agua fresca,que faz calor lá no ceo.Basta, basta, que já pressinto ali á esquina os aferidores e malsins da Literatura, que, se me tomam, com isto nas mãos, dão comigo do avêsso.Na vespera do Santo, pela tarde, hasteiam bandeirolas nas fontes. Á noite accendem fogueiras, dançam, cantam, namoram, e galhofeiam em de redor d'ellas.Á meia noite, quebram ovos para os expôrem ao sereno, que lhes ha-de n'elles estampar a jerogliphica prophecia do seu futuro, e chamuscam as hervas e flores, que sabem de constancias e inconstancias.Vão nadar nos rios, que todos n'esta noite encerram grandes virtudes e preservativos; mas especialmente o de S. João do Monte, á conta do seu nome bento.Sobre a madrugada vão lavar seus gados, e á volta colhem ramos orvalhados, os quaes, se nas trovoadas os queimam, livram de raio; trazidos no seio, defendem de mau olhado; e facilitam os partos, apertando-se nas mãos.A agua da fonte da manhan de S. João é como a primeira que chove em Maio: torna o carão formoso.*Nos Santos, fazem o seu magusto de tarde, no aido ou em campo descoberto, não correndo o tempo de invernia. São rebordans a granel, entre grande larada de brazido, a estoirarem e a acerejar-se, em quanto um farto lombo de cevado rechína e fumega em vergante espeto de pau, a pingar n'uma telha ou frigideira.É dia já de longe apetecido pelos velhos, pelos rapazitos, e pelos visinhos menos folgados, que todos então se convidam.Bebe-se, como requer a quadra, que assaz é já então arripiada. Mas... quanto mais se vai o repasto allongando dia em fora para o crepusculo, e para a noite, mais se vão pendendo com scismadora tristeza os animos dos convivas.Á fé que lhes não falta por quê. O dia que apóz vem, é o dos finados; dia de saudades e receios, de desconforto e arrependimentos, para todos quantos, com Fé ou sem ella, possuem um entendimento, e meditam.¡E que mais meditabundo que as montanhas! ¡E quem mais devaneador e recolhido, que homens acostumados a solidão, curtidos nas duras realidades da vida, remotos do cortesão bulicio, embotador pessimo de toda a sensibilidade!*Mal soaram as Ave-Marias, começa dobre funebre, que toda a noite não quieta.Pela escuridão pasmada se devolvem, a longe, a longe, até se esvaecerem, os tons afflictos, que a nenhuma de tantas poisadas deixam de dizer algum segredo de dor, e de encommendar algum suffragio. ¡Oh! ¡se não se elevarão elles, e bem ferventes, exhalados pela voz do sangue, pelo amor, pela amisade, pela caridade!Quando tudo jaz, a deshoras, no silencio mais fundo, nenhuma luz bruxuleia de nenhuma fresta, e já nenhuns olhos por ventura se descerram, acorda a subitas uma sepulcral melodia, que dissereis côro de Anjos desterrados e saudosos. Vagarosa se adianta, pelo meio da povoação, a supplicar em nome dos penados de alem mundo, que para si não podem requerer, esmola de orações, refrigerio para os ardores que lá padecem.Não ha seio tão escudado, que um santo horror o não estremeça; egoismo tão empedrenido, que sustenha as lagrimas....Até que o solemne pregão transpõe e se esvai; e na calada se torna a perceber o dobre longinquo da egreja.Quanto a mim, confesso que nunca ouvi coisa, que assim me abalasse o interior.Estes devotos cantores, que ninguem vê, mas que vão de aldeia em aldeiaamentandoas almas, arrastavam d'antes grilhões aos pés, o que ainda augmentava o pavor do seu pregão.Com grilhões ou sem elles, ¿despertadores taes quem entre nós os soffreria? Por lá querem-se, quer-se-lhes, escutam se, e obedecem-se, como exactores que são de um tributo da outra vida.Desde o romper d'alva não descança a egreja de absorver povo. Todos os caminhos, todas as asinhagas, todos os bosques, todas as ladeiras, todos os valles, todos os oiteiros, o brotam e expedem á porfia.Vem o ancião alquebrado, atido ao bordão; o moço em flor de annos; a donzella; os irmãos, pequeninos e já orphãos, pela mão de sua mãe; todos graves, cuidosos, taciturnos; todos lá por dentro orando; todos anhelando irem-se ajoelhar sobre uma sepultura bem estremada, para d'ali assistirem ao incruento Sacrificio.Todos os confessionarios n'este dia estão apinhados, e o semi-festim da vespera é quasi geralmente descontado pelo jejum mais rigoroso.*Emfim vem o Natal.Essa festa, a fundamental, a maxima, a ridentissima, a de todas christianissima(quizera eu dizer) do Christianismo, nenhures cabe tão em cheio, nem tanto com os animos e corações se coaduna, de veras crida e com veras amada, como nos descampados bravos e alpestres.Víreis o Presépio de Belem, não já por caprichosas artes remedado, mas em tão cabal transumpto, que pelo proprio e verdadeiro vos invidaria a adoral o.Disséreis que ao soar da ave da meia-noite, desferiu vôo d'entre as estrellas, de que se corôa a montanha, côro de Anjos a dar rebate aos pegureiros com o pregão de «Gloria e Paz», com a nova de ser nascido o Desejado das gentes.¡Tanto é o ruido de alegres passos e falas, que de toda a parte confluem pelo escuro em demanda do Menino!Cada qual lhe traz nas mãos o seu presente, e o mais valioso dentro n'alma.O templo enramalhetado, oloroso, esplendido de luzes, par em par aberto, é a santa Gruta.Lá no tôpo, sobre a pedra bemdita, jaz a rir o Divino Infante.O adro vê dançar as rondas de camponezes á roda de um monte de arvores accezas, ao som da gaita e do tamboril.Os sinos doidejam de alvoroço na torre illuminada.Sob o tecto religioso se alternam em dois córos feminis as cantigas da benta noite. Cada um d'estes córos é exclusivamente composto das moradoras de cada margem do rio que biparte a freguesia. Vai entre ellas a mesma rivalidade, que já descobrimos entreos homens, quando no Carnaval travam com as suas espingardas innocentes um estrepitoso arremêdo de combate.É a qual dos bandos trará mais formosas quadras para entretecer com as antigas, mais argentinas falas e melhores requebros para as gargantear. Cuida-se ouvir musica de Seraphins; exulta o coração; e, sem vergonha, se estão sentindo as faces humedecer-se.Por meio d'estes córos, cujos enthusiasmos devotos como que se estão vendo lutar nos ares estrugidos, passeia em braços do Parocho o Menino, a fazer colheita de beijos e louvores, de supplicas e offertas. Então é que surdem vangloriosos de baixo de cada capa os mimos, que de longe e á porfia se lhe andaram apercebendo; sobre-sahindo de ordinario, a todos, os mui primorosos artefactos de pinhões e frutos sêccos.¡Oh! ¡que invejas para as creanças, que ali pendem ao collo de suas mães! vão-se-lhes os olhos, e os sorrisos, e as mãosinhas, apóz lindezas tão guapas; mas, vendo chegar o Menino a quem se destinam, com os seus olhos tão azues, a bocca tão amorosa, as faces tão coradas como as maçans que se lhe offerecem, é já a Elle que só cubiçam; e só choram, porque o não deixamacompanhal-o.*Taes são as mais notaveis festas d'esta singela gente.¿Que inventariam philosophos para lhe dar, quando chegassem a destruir-lh'as com lhe tirarem a Fé?É uma pergunta simples, mas vale a pena pensar longo na resposta.*Assim crêem, assim folgam, assim vivem, ricos de desavareza, nobres de humildade, e pela rudez ainda sãos, os moradores de S. Mamede da Castanheira do Vouga.XXQue eu por lá versejasse, já a ninguem ficará sendo maravilha; antes, sim, a podéra ser, que de tal assumpto só tal volume se estillasse; mas as rasões d'isso de si mesmas se confessam.Já eu disse, que os annos que por lá sumi, me foram totalmente desprophetisados; e que nunca esperei, nem cri possivel, que houvessemos jámais, eu nem coisa minha, de reparecer no mundo.Assim, só por desabhorrimento é que poetava de longe em longe; isto é: poetava por fóra, e no papel, que no coração e no animo estava eu comigo a fazel-o a toda a hora; e a melhor poesia (de leve me acreditarão os que d'isto sabem) não foi a que se escreveu, se não a que deslizou suave, entre sonhada e sentida, na profundez dos ermos, onde tudo canta, suspira e medita.Escrever só para si, não sei que ninguem escreva; é trabalho supérfluo, e que, se dá fruto, o dá ruim, que de pêco e descorado nos desconsola.¿Pois qual é, em boa verdade, o pensamento, ou affecto, que no trabalho de se corporificar para sahir a lume e correr por mãos e olhos, não perde muito do seu primitivo ser, ou da sua energia, ou da sua graça, ou do seu calor, ou do seu brilho, ou do seu aroma, ou do que quer que seja que era seu, e que era elle mesmo em grande parte?Isto dos livros não são senão uns retratos mortos, umas toadas, reflexos, e sombras, de festas que se fazem n'um interior, e de que os passageiros, por mais que se lhes abram as janellas, e que elles appliquem os olhos e ouvidos, só podem perceber a totalidade, e conjecturar as circumstancias.O escrever, o material, sujo, e ronceiro escrever, cede tanto em foros de expressivo ao falar precipitado e caudaloso, como a palavra (ainda para os maiores mestres e senhores d'ella) cede, e ha de sempre ceder, ás concepções e aos affectos.*Outra explicação da exiguidade, e tenuidade (que peor é) do livrinho, está em que a maior e melhor parte dos condões e feitiços da montanha, que ora cá ao longe me apparecem tão inteiros e gentis, então que eu os tratava e d'elles vivia colmado, me não faziam os effeitos, que atravéz dos vidros da saudade me produzem.Para bem apreciar aquillo (como tudo) foi mistér havel-o perdido; que já por isso dizia Rousseau, que nunca tão bem falaria da liberdade, como entre ferros da Bastilha.¿Onde é que nos ri a imagem da primavera a abrolhar? é no meio do outono a desvestir-se. ¿A do verão, que tressúa afogueado? no inverno, que tirita e se encanece de geada.¿A meninez, com todas suas lagrimas e captiveiros, não é paraiso, para onde todos, todos, nos quizéramos tornar?¡Que bem que o Poeta cantava: «Aventurados em summo extremo os camponezes, se acabassem de entender os bens que logram!»Quanta poesia eu aspirei, e para mim vivi, sem me sentir nem o cuidar, é este prosaico e glacial viver, quem agora de instante a instante m'o explica.Á saudade me acodem as delicias de jazer sobre feno, peito e collo descobertos, ao phantasioso ramalhar da nogueira velha, quando importunas obrigações me veem ripar e consumir as semanas a dia e dia, os dias a hora e hora, as horas a minuto e minuto.Pela conversação pacifica das moitas e torrentes me definho, quando, no mais fortuito, no mais leve, tratar com homens me aguardam sempre desencantamentos, desconsolos, rasões para os desprezar, ou para fugil-os.Lá, volta-se sempre para a poisada mais alegre, ou melhor. Aqui, pelo contrario, ou sempre peor, ou sempre mais triste.Lá, a benevolencia é semente de benevolencia, para dar cento por um. Aqui, é grão que sempre degenéra, ou não germina, ou brota villans ingratidões, que envergonham até a quem as ouve.Lá, o folgar é franco, e as festas são festas. Aqui, o folgar é escaço e fingido; as festas, tumulto, ou, mais de pressa, encoberto circo de gladiadores, que armados com a verdade e com a mentira se acutilam uns aos outros, e aos ausentes, e aos amigos, e aos finados.O mais dextro no pungir e envenenar, esse se pavoneará pelo mais cortesão e de maior donaire; far-lhe-hão roda; e em vez de o esbofetearem, e de o compellirem a se enforcar como o Iscariotes por sua mão, para escarmento a sevandijas e lição a paes que estão creando feras bravas para andarem sôltas no povoado, hão-de applaudil-o por medo, apertar lhe a mão dissimulando o nojo, e recebel-o muitos em suas salas, com sabel-o expulso de muitas portas.Acobertam-se lá e ufanam-se as terras com os linhares, para o que Deus os fez: para vestido das familias, para faixas da infancia, para macío agazalho nas horas do somno ou da doença, para gala candida dos altares, e a final para curativo de feridas.Ora, ¿que mulher de montanhez poria n'um linhar, ao alvorecer de Maio, a sua roca enfeitada, se adivinhasse que o pobre do seu linho, a cabo de tão bons serviços, poderia vir ainda a converter-se em papel para a nossa Imprensa, isto é, em pregoeiro e depositario de quanto erro, e absurdo, a ignorancia ou maldade podérem delirar, em ventilador de descredito e odios, em disseminador de todos os principios de dissolução, já moral, e já politica?! ¡Pôr-lhe ella a sua roca para benção! ella, a boa filha das serras,fêmea sincera e verdadeira, coração lavado, animo propenso em tudo para o bem! ¡Pôr-lhe ella encamisada e florída a sua roca, a sua casta e alegre companheira, a que tão santas maximas e tão formosos exemplos ouviu sempre!... Antes deitar á sementeira o fogo, ou amaldiçoal-a n'uma sexta feira ao meio dia, que vale o mesmo.XXI¡Que de vantagens para o ermo não são todas estas!E no gosal-as, ¡que assumpto inexhaurivel para um engenho bem nascido!Sim; mas, torno a dizel-o, é em distancia de espaço e tempo, e pela contraposição, que se conhecem. ¡E eu malbaratei quasi tudo isso!........... munera nondumIntellecta deum!....Havia de ser agora, depois de tão prolixo, de tão quebrantador martyrio da experiencia,..... Oh ubi campi!¡Como me não agarrára, com raizes mais fundas e tenazes que o meu cedro, ao chão da vida facil, innocente, e obscura! ¡Como não borbotára em hymnos o meu jubilo! ¡Como não saudára com lagrimas de gratidão a aurora, tornando a encontral-a! ¡Que não palrára com as torrentes! ¡Que noitesdesveladas sob o pavilhão estrellado e vastissimo da montanha!Em vez de rebuscar (como agora me foi forçado) para esboçar este painel noticias de logares, e até de usos, tudo eu mesmo visitára com devoção de peregrino; tudo revolvêra; com tudo me identificára.As saudades, que de lá para aqui me estão salteando, d'aqui para lá já não atinariam seu caminho; e se o atinassem alguma vez, na primeira sarça onde papeasse um ninho eu me soubera esconder, que me perdessem logo.*—O abdicar—dizia o Imperador Diocleciano tornado Diocles, fazendeiro e hortelão de Salona—o abdicar é o começo do viver.¡Quantos dos que desaprenderam no regaço espinhoso da fortuna o rir, o dormir, e o comer, tudo isso recobrariam na primeira hora que empunhassem, com animo feito, uma rabiça ou um foicinho!¡Se não ha-de ser inefavel o abdicar muito, e até imperios romanos, como elle, quando renunciar o pouco, o quasi nada, que se tem de cidade.... só de o cuidar, tanto namora a phantasia!¡Se jamais virá tempo de eu poisar em torrão meu, debaixo de sombras minhas, a cabeça encanecida e regalada!Uma barraca de poucas braças, mas revestida de rosas e limas, como o presbyterio. Á roda d'ella, tanto de fazenda, quanto o filhinho mais pequeno atravessasse correndo de um fôlego. Mas isto em solidão bem solidão,onde só os astros me enxergassem, só as estações me visitassem, e da banda do mundo nada me chegasse, senão o vento, já expurgado e esquecido de humanas vozes.Tal casa, e tal quinta, ser-me-hiam mais que morgado, mais que palacio e reino: paraizo terreal, digno vestibulo de outro melhor.Ahi me reverdecêram o coração e mais o espirito, que me elles por cá trazem tão lastimosamente desfloridos e murchos.Por si se retingiriam os cabellos, com o franco sol remoçador de quanto existe.A lyra interior volveria a cantar espontanea, como harpa eólia entre jasmineiros, pendente em hombral de gruta ás virações da primavera.Ainda á farta me vingára dos tantos annos, que em tarefas ephémeras e sem gloria, posto que não sem consciencia e diligencia, se me desbarataram na galé da Imprensa periodica, ou (com mais propriedade) nas palhas d'essa doidinha, que a si mesma se venéra por soberana do Universo; doidinha com diadema de papel e sceptro de lapis.Só me não rira d'ella, quando me lembrasse que me enguliu, com os annos que me tomou, outros tantos da minha existencia para diante; pois em cada tomo de periodico, sincera e honradamente redigido, se podia escrever este epitaphio:Aqui jaz um anno de fadiga e dois de vida de.... Orae por elle.[4]Vendem-se ainda primogenituras por menos que prato de lentilhas.Vingára-me (¡oh! ¡se me vingára!) de tão bons dias mallogrados; e ainda por ventura alguns livrinhos, menos maus que todos os meus precedentes, appareceriam de novo, mas sem mim, no povoado. Como Ovidio aviava os seus do desterro, aviaría eu os meus do meu eden.Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in Urbem.*—¿A que vem tomar-nos tempo com a fabula pueril dos teus gostos e desejos?—dirá (e ha-de dizer) algum d'estes que sabemos, que nunca faltam, escoimadoresex-officiodo alheio.—Senhor meu,—lhe respondo eu já:—pois é por isso mesmo, de não passarem de fabula os meus gostos e desejos, que se me ha-de relevar o dar-lhes eu largas no papel.Se eu vira agora cahir-me do ceo o meu tugurio e o meu quintal, coroados de ermo, como o Evangelista nas praias de Pathmos viu baixar do Empyrio a sua Jerusalem abraçada de muros de oiro, o tempo que n'estas palavras gasto aproveitara-o melhor, em correr para o meu refugio, beijal-o, replantal-o, aformosental-o. E em lá vindo o florído Maio, ride-vos de pagão que brindasse os seus lares com mais fé ou egual amor.*¡A liberdade!... ¿Onde ha hi liberdade, que nem por longe se pareça com a de umviver remançado, em casa sem numero, nem espias, ao som da Natureza, á lei da propria inclinação; sem ouvir horas que nos chamem, sem encontrar com glosadores que nos aboquem no ar acções e palavras, para nol-as tingirem de branco em preto; nem cahir nas garras de ociosos, que vos emprazarão para toda uma tarde de Junho, ou toda uma noite de Dezembro; isento da praga de utopistas e reformadores, que são a peor salada que o diabo temperou e mecheu em hora de abhorrimento; seguro, emfim, de ser pisado nas ruas por soberbias de quem vos não vale, tremulando-lhe, na botoeira do vestido, refulgente epigramma de esmalte contra meritos e virtudes; e de noite, interrompido na meditação, ou cortado no melhor do somno, pelo retroar de carroagens, que em fluxo e refluxo continuo levam e trazem, sempre a correrem para nada, pygmeus, histriões, da farça séria d'este mundo?Se algures ficou sobre a terra a liberdade, que irmana, segura, ennobrece, e concilía os homens, na montanha encontrareis mais depressa coisa a ella parecida, do que não por estas almotaçadas metrópoles, onde se blasona que ella tem o seu templo, e n'elle as suas festas. Sempre são festas acompanhadas de vinte orgãos, a entoarem solfas diversas ao mesmo tempo: este, oTe Deum; aquelle, oDe profundis; um, oQuomodo cecidit civitas plena populo; outro, oCantemus Domino; qual, oMiseremini mei; qual, oEcce sacerdos magnus.Se alguma vez se incensou presente n'este orbe a Liberdade, derrubaram-n-a do seupedestal as aguas do diluvio de Noé, quando arrojavam cada coisa para seu cabo. Ao que havia de ser cidades, ficou o pedestal razo, com o formoso nome d'ella em letras de oiro. Ao que tinha de ser ermo pertenceu, mas sem nome nem titulo, a figura quasi inteira. Aqui, pregôam-n-a; lá a disfrutam. Assim vai tudo.*E quando não, mettei bem por dentro a mão na consciencia; e, deixado o palavrório que não sôa muito senão por ser vazio (como tambor de foliões), dizei-me, ou dizei-o a vós mesmos: ¿Quem mais livre, que homem que desperta recobrado ao romper d'alva, por se lhe ter o somno acabado, e não porque ruins pesares lhe repiquem, ou o estremunhem alvoroto de praças, e reboliço de vizinhos, pois diante de suas janellas o que só se meneia e conversa são arvores, e por cima do seu tecto não moram senão hervas, que mal ciciam, e só recebem de visitas passarinhos ou borboletas?¿Quem mais livre?Acordado, encommenda a Deus o dia novo, veste o que na vespera despiu, sem ter de consultar a ventoinha do figurino, o camareiro, o cabelleireiro, o espelho, o gosto da namorada, o rol das visitas e dos convites. ¿Quem mais livre?Talha para si, para sua mulher, para cada um de seus filhos, as occupações de todo o dia. ¿Quem mais livre?Entre o trabalhar, que lhe grangeia forças, saude, bons somnos, pão, e para conduto umapetite desenganado, entre o trabalhar, repito, canta, ou traz o espirito a monte, a sabor de suas chyméras (que tambem as tem como qualquer outro); e é este o mais invejavel privilegio do trabalho corporal, sobre tudo do que tem por materia prima a terra: não captivar senão os braços; cavando, podando, ceifando, se podem, sem prejuiso da obra, estar armando doiradas torres no ar, ou conversar rasgado e rir com os companheiros, ou cevar em silencio a tristeza que se ama, ou a alegria que se esconde.Estedeus in nobis, unica das divindades campestres em que se pode crer, perguntae se não será para muitas invejas aos taciturnos enxames que pejam escritórios e secretarías; perguntae-o a quasi todos os que remam á consciencia o seu remo na galé baloiçosa do Estado. ¿Quem mais livre?Posto o sol, pregoadas as treguas das lidas pelo sino das Ave-Marias, o meu rustico se recolhe, sem golilhas de seda no pescoço, para folgar entre eguaes, em quanto a ceia bem mercada se lhe acaba de coser ao lume que o aquece. Não tem de ir fazer sala a ninguem; respira a peito cheio; não ha que ciar se de mulher e filhas, que não dá a terra operas nem bailes; filhas e mulher á roda lhe serôam, tão satisfeitas como elle. Não se levanta ali jogo, que, por tentação ou falso pondonor, o obrigue a pôr n'uma carta o casal, a vergonha, e mais a vida. Não o compellem a ajudar com desatinos seus os alvitristas regedores do mundo em sêcco; nem mesmo a ouvir ler, n'uma coisa mal-cheirosa chamada periodico (especie de cogumellosda Imprensa, em que entre os não maléficos tantos ha de sapo), o artigo famoso, no qual, sem quê nem para quê, lhe levantam falsos testemunhos para entretenimento de vadios na hora do chylo. Quem não tem com que incite invejas, seguro está de vis praguentos. ¿Quem, finalmente, mais livre?Deita-se em cama barata, mas de bons sonhos, com as janellas e portas destrancadas, sem medo a malfeitores, que, sobre não creal-os o sitio, nada reluz na poisada que os attráia.Entretanto lhe vão caladamente amadurecendo os pães para a tulha, o vinho para a adega, o azeite e os frutos para a dispensa, a hortaliça para a panellinha de barro, as filhas para o casamento, os rapazes para lhe pagarem na velhice a divida da infancia, e elle e sua mulher para o Ceo, onde crêem de fé que os estão seus parentes esperando.¿Então, será, ou não será, este um viver dez vezes mais livre e afortunado que o nosso? Pois não disse eu d'elle tudo que poderia, nem o direi, ainda que já talvez me hajam de arguir de prolixo, que não deixei na matéria udo nem miudo; ¡como se miudos houvera no que são condições de boa ventura!Se n'isto me dilatei (e confesso que sim) um tanto fora do meu proposito, foi por ver se dava uma aldrabada de mansinho ao coração de alguns d'estes, que vivem na Côrte por fadario, por vezo, ou por inercia, sempre mal-contentes, pesarosos, abetumados; possuindo, ou podendo, se uma hora olhassempor si, adquirir, sem nenhuma difficuldade, o que eu, e outros taes, tão baldadamente supplicamos á fortuna: uma vivenda campestre, uma existencia natural, serena, commoda, florescente, risonha para a pessoa, dadivosa e exemplar para os visinhos, manancial de riqueza privada e publica, abonadora de bons costumes, e de afortunada descendencia; uma existencia, em summa, que, a de mais de retemperar corpo, animo, e coração, para se n'ella saborearem, até aos renunciados praseres da Cidade refina o gosto, quando por acaso, de longe a longe, e de passagem, se volve a elles.

.....vivo sedilia saxo.O matto deu a lenha para a cosinha; o rio deu a agua; os vasos e os comestiveis, traziam-n-os ellas, e por mustarda e salsas a sua alegria folgasan, a lida, e as cantigas. Nada faltou; nem o arroz doce, de leite recem-mugido.Terminaram com uma dança no areal, por não haver melhor, e debandaram, cada uma atraz do seu gado, quando já lá por cima branquejavam estrellas. A fogueira serviçal lá ficou sosinha, remirando-se ainda na corrente soturna, e olhando com saudades a quem d'ella egualmente as levaria.Innocentes leviandades são todas estas, e, mais ou menos, parecidas com o que por toda a parte vai n'esse praso do anno. Mas, travada com ellas, uma usança ha ali, que só ali ha, e que eu aponto, não só porque me ajuda no retrato d'aquella gente optima, se não porque dará luz para se entender o poema que a diante vai, com o titulo deDomingo gordo dos montanhezes.N'este dia, pois, logo de manhan, acodem á matta de S. Sebastião, que já sabeis orla o passal pela banda do poente, todos osmoços solteiros da freguesia, a plantar cada um um sovereiro, ou carvalho novo; findo o quê, e bebida sua malga de uma talha de vinho verde, que já para isso a Confraria do mesmo Santo ali lhes tem prevenida, se tornam para suas terras a folgar.Nem o introductor, nem o tempo da introducção d'esta pratica, são já hoje conhecidos. É uma tradição piedosa, uma lei moral, sem nenhum genero de comminação, mas tão á risca obedecida, como se as tivera.É, mormente em tal dia, e para gente em flor de annos, um bello exemplo de desinteresse; pois na plantação quem só ganha é a selva, que se dilata, e o Santo, a quem se engrossam os rendimentos.Se de S. Gonçalo ou Santo Antonio fôra a capellinha, ou de algum outro Bemaventurado, com fama de boa-mão para casamentos, ainda se aventaria um motivo pessoal para o obsequio; ¡mas S. Sebastião, que só da peste é advogado!...Seja o que fôr: o amavel instituto persevéra, ¡e oxalá dure sempre! ¡e oxalá por muitas partes o imitassem!*Para que a Paschoa dos montanhezes deixe a perder de vista a de nós outros, bastam duas considerações: a d'elles é festa do espirito, e mais do corpo; a nossa nem do corpo o é, nem do espirito.Digo que é do espirito a sua, porque a Fé viva lhes faz estar vendo ressurgido do sepulcro o Divino Amigo da especie humana;e do corpo tambem, porque o brodio paschal, opíparo, rescendente, de viandas succulentas e escolhidas, lhes dá mate á longa e bem jejuada quarentena.Move suavemente os corações acompanhar a procissão, que da egreja sai depois da Missa cantada, com os seus cirios accezos, cantando as aleluias, atravessa o amplo adro alcatifado de bordada relva, sombreado das suas cerejeiras já revestidas, atravessa o passal por entre as alas das pacificas oliveiras, vai pela matta de S. Sebastião, e se espairece ao longe, como uma piedosa exultação, por entre os mattos rejuvenescentes.O aroma do incenso ama casar-se com a fragrancia agreste das moitas. As arvores figuram ensoberbecer-se de estender o seu pallio verde recamado de sol por cima do Filho de David. Cada hervinha pôz por fora todas suas galas para ver passar o seu Creador. Como elle, toda a Natureza parece ressuscitada, vivaz, e gloriosa. Os passaros lhe entôam canticos, como os homens, as mulheres, e as creanças. A aleluia ressôa em toda a parte; lagrimas involuntarias aljofram todos os rostos; em todos os corações ferve o amor de Deus, o amor da Natureza, e o amor mutuo.¡Oh! ¡que bem que se chegam ali a entender os arroubados requebros do Esposo e da Esposa dos Cantares! ¡Oh! ¡que permutar de boas-festas! Mal o presumem, os que todas as cifram em cinco ou seis letras gothicas n'um cartão alvibrunido, com uma das quatro pontas bem dobrada.Recolhida a procissão, tornam-se todoscorrendo a suas casas, a acabar de as pôr prestes para a proxima visita do seu Parocho. Atapetam-se de ramos os pavimentos; guarnecem-se as mezas com as melhores baixellas; crepíta o lume na cosinha revôlta; idéia-se um simulacro de altar, ou se enroupa uma cama de lavado para aposentar o Santo Christo, emquanto o senhor Prior, com a sua pequena comitiva, lhes der o gosto de provar (quando mais não seja) dos seus guizados e do seu vinho. Ninguem da familia falta á porta para receber a aspersão de agua benta, que elle ao entrar lhes liberalisa risonho, com as palavras rituaes da benção: «Paz a esta casa, e a todos que n'ella moram.»Tal visitação, que (já se vê) se não conclue no primeiro, nem muitas vezes, no segundo dia, paga bem o seu pequeno custo; não pela moeda de prata, de meio tostão ou seis vintens, recebida em cada fogo; não pelos saccos de folares que se ajuntam; mas pelo muito que assim de novo se apertam os vinculos mutuos do Pastor e do rebanho.*No 1.º de Maio põem, á entrada das habitações,maias, que são ramos de sabugueiro e giestas florídas; e nos linhares, rocas com seus fuzos, carregadas de linho e enramalhetadas de flores. Com aquillo se fadam a terra e a casa: a terra, para que dê linho comprido e sedoso; a casa, para que se guarde e mantenha próspera.¿Quem não vê n'estas maias outra degenerada herança dos nossos antigos senhoreadores?No principio de Maio, faziam os Romanos o festejo domestico dos seusLares, deuses protectores da poisada, e cujos idolos se tinham junto ao fogo da cosinha, ou em nichos por de traz da porta principal. Revestiam-n-os de pelle canina; e em monumentos antigos se vê ao pé d'estes deuses representado o animal symbolo da fidelidade, e guarda nocturno do domicilio, pelo mesmo modo como Ovidio nos seusFastosnol-o descreve. Brindavam-n-os com libações de bom comer e beber, e tambem com ramilhetes e grinaldas, já de flores, e já de lan.Deveu ser entre elles o culto dos Lares o mais querido, pois acreditavam que eram os espiritos dos bons mortos da familia, que se compraziam de habitar e proteger os logares onde foram vivos, e onde vivia gente do seu sangue.Por isso tambem a pouco e pouco chegaram a dar zeladores divinos do mesmo nome a todas quantas coisas lhes requeriam, e mereciam amparadas. Vieram Laresviaes(dos caminhos),compitaes(das encruzilhadas),urbanos(os padroeiros de cada cidade),publicos(os mantenedores dos publicos edificios),rusticos(os custodios do campo),hostis(os amparadores contra inimigos),marinhos(os guardiães dos navios).É portanto evidente, que, onde quer que se estabelecesem Romanos, se haviam os Lares de estabelecer; e tenho, que nenhuma de suas religiosas praticas pegaria melhor, nem mais depressa, entre estrangeiros; e bem boa, bem moral que ella era, no meio d'aquelle cahos de poeticissimos desatinos e devassidões.Fazia venerar e amar a casa; com a casa, a familia; com a familia, os sãos costumes da creação. Ainda por cima, fazia resplandecer luzeiros de esperança na cerração das adversidades; o que dá coração e brios para as resistir.Pressupponhâmos como verisimillimo, e certo, que na romana provincia Lusitania se veneravam os Lares como na Italia; do que, aliás, podem ser documentos, além de outros, o nome delareira, geralmente conservado ao lastro da chaminé, e o proprio delar, com que em Traz-os-Montes se chama a corrente de ferro, de que pende na cosinha o caldeirão sobre a fogueira.Já cada um inferirá que asmaiasdos meus serranos, festejo que só á casa se refere, coroando-lhes de flores a porta, e lustrando-lhes, como quer que seja, o seu linhar (linho por lan), teem, e não podem deixar de ter, aquella origem.Na cola d'esta semi-gentilidade, garrida e innocente, vem o rito christão, ainda mais poetico, chamado dasRogações ou Ladainhas de Maio.Os lavradores seguem, com as cabeças descobertas, e acompanhando em chusma as entoadas preces da Egreja, a procissão, que lá se vai, humilde, atravez dos campos desatados em flor. Imploram as bençãos do Ceo para os trabalhos da agricultura; que insectos damninhos não devorem a vinha ou seára; que intempéries do ar e trovejados granizos não derribem mortas as benevolas esperanças dos pomares.*O S. João por larga vespera de semanas se annuncia: cantado de dia pelos oiteiros, de noite pelos serões.Nada ha mais affectivo, que a toada, entre melancolica e leda, com que se vão lentamente deduzindo as trovas (sem arte, embora, não sem graça), que por ali em louvor do Baptista se exhalaram outr'ora do seio de poetas desconhecidos.A medo me rendo á tentação urgente de as mostrar; que, despojadas da sua melodia, desquitadas das vozes tão frescas e juvenís das suas cantoras, e nuas dos seus accessorios de silencio e ruido selvatico, de calma e sombras em pino de verão, trovas taes aqui mal poderão parecer-se comsigo mesmas.Do que ides ler, ao que eu ouvi, posto não haja differença na substancia, vai tanto, como de uma formosa donzella podéra differir o seu cadaver.Sem mais precauções, eis aqui alguns trechos, que no fundo da alma se me estão ainda cantando, por entre simulacros de figueiras, que entretecem sobreceo verde á fonte crystallina do passal. As syllabas dos metros, não as contem; basta que todos elles acertem na cantoria ás mil maravilhas. Tão pouco embiquem na confiança, com que umas rusticasinhas de roca á cinta tratam o Santo Precursor. São amores velhos; não ha que lhes dizer.—¿San-João das barbas doiradas,onde foste ter as orvalhadas?—Fui as ter áquellas hortas,recordar aquellas cachopas.Recordae, recordae, perguiçosas,que da fonte já veem as formosas,com as talhas cheias de cravos,que lh'os deram os seus namorados,com as talhas cheias de flores,que lh'as deram os seus amores.San-João, rico cavalleiro,companheiro de Nosso Senhor,acompanhae a minha almaquando d'este mundo fôr.—¿Por que tendes, San-João,esses sapatinhos brancos?—Para passear ás moçasdomingos e dias santos.—¿D'onde vindes, San-João,que assim cheirais á macella?—Venho da serra da Estrella,de fazer uma capella.—¿D'onde vindes, San-João,pela calma sem chapeo?—Venho beber agua fresca,que faz calor lá no ceo.Basta, basta, que já pressinto ali á esquina os aferidores e malsins da Literatura, que, se me tomam, com isto nas mãos, dão comigo do avêsso.Na vespera do Santo, pela tarde, hasteiam bandeirolas nas fontes. Á noite accendem fogueiras, dançam, cantam, namoram, e galhofeiam em de redor d'ellas.Á meia noite, quebram ovos para os expôrem ao sereno, que lhes ha-de n'elles estampar a jerogliphica prophecia do seu futuro, e chamuscam as hervas e flores, que sabem de constancias e inconstancias.Vão nadar nos rios, que todos n'esta noite encerram grandes virtudes e preservativos; mas especialmente o de S. João do Monte, á conta do seu nome bento.Sobre a madrugada vão lavar seus gados, e á volta colhem ramos orvalhados, os quaes, se nas trovoadas os queimam, livram de raio; trazidos no seio, defendem de mau olhado; e facilitam os partos, apertando-se nas mãos.A agua da fonte da manhan de S. João é como a primeira que chove em Maio: torna o carão formoso.*Nos Santos, fazem o seu magusto de tarde, no aido ou em campo descoberto, não correndo o tempo de invernia. São rebordans a granel, entre grande larada de brazido, a estoirarem e a acerejar-se, em quanto um farto lombo de cevado rechína e fumega em vergante espeto de pau, a pingar n'uma telha ou frigideira.É dia já de longe apetecido pelos velhos, pelos rapazitos, e pelos visinhos menos folgados, que todos então se convidam.Bebe-se, como requer a quadra, que assaz é já então arripiada. Mas... quanto mais se vai o repasto allongando dia em fora para o crepusculo, e para a noite, mais se vão pendendo com scismadora tristeza os animos dos convivas.Á fé que lhes não falta por quê. O dia que apóz vem, é o dos finados; dia de saudades e receios, de desconforto e arrependimentos, para todos quantos, com Fé ou sem ella, possuem um entendimento, e meditam.¡E que mais meditabundo que as montanhas! ¡E quem mais devaneador e recolhido, que homens acostumados a solidão, curtidos nas duras realidades da vida, remotos do cortesão bulicio, embotador pessimo de toda a sensibilidade!*Mal soaram as Ave-Marias, começa dobre funebre, que toda a noite não quieta.Pela escuridão pasmada se devolvem, a longe, a longe, até se esvaecerem, os tons afflictos, que a nenhuma de tantas poisadas deixam de dizer algum segredo de dor, e de encommendar algum suffragio. ¡Oh! ¡se não se elevarão elles, e bem ferventes, exhalados pela voz do sangue, pelo amor, pela amisade, pela caridade!Quando tudo jaz, a deshoras, no silencio mais fundo, nenhuma luz bruxuleia de nenhuma fresta, e já nenhuns olhos por ventura se descerram, acorda a subitas uma sepulcral melodia, que dissereis côro de Anjos desterrados e saudosos. Vagarosa se adianta, pelo meio da povoação, a supplicar em nome dos penados de alem mundo, que para si não podem requerer, esmola de orações, refrigerio para os ardores que lá padecem.Não ha seio tão escudado, que um santo horror o não estremeça; egoismo tão empedrenido, que sustenha as lagrimas....Até que o solemne pregão transpõe e se esvai; e na calada se torna a perceber o dobre longinquo da egreja.Quanto a mim, confesso que nunca ouvi coisa, que assim me abalasse o interior.Estes devotos cantores, que ninguem vê, mas que vão de aldeia em aldeiaamentandoas almas, arrastavam d'antes grilhões aos pés, o que ainda augmentava o pavor do seu pregão.Com grilhões ou sem elles, ¿despertadores taes quem entre nós os soffreria? Por lá querem-se, quer-se-lhes, escutam se, e obedecem-se, como exactores que são de um tributo da outra vida.Desde o romper d'alva não descança a egreja de absorver povo. Todos os caminhos, todas as asinhagas, todos os bosques, todas as ladeiras, todos os valles, todos os oiteiros, o brotam e expedem á porfia.Vem o ancião alquebrado, atido ao bordão; o moço em flor de annos; a donzella; os irmãos, pequeninos e já orphãos, pela mão de sua mãe; todos graves, cuidosos, taciturnos; todos lá por dentro orando; todos anhelando irem-se ajoelhar sobre uma sepultura bem estremada, para d'ali assistirem ao incruento Sacrificio.Todos os confessionarios n'este dia estão apinhados, e o semi-festim da vespera é quasi geralmente descontado pelo jejum mais rigoroso.*Emfim vem o Natal.Essa festa, a fundamental, a maxima, a ridentissima, a de todas christianissima(quizera eu dizer) do Christianismo, nenhures cabe tão em cheio, nem tanto com os animos e corações se coaduna, de veras crida e com veras amada, como nos descampados bravos e alpestres.Víreis o Presépio de Belem, não já por caprichosas artes remedado, mas em tão cabal transumpto, que pelo proprio e verdadeiro vos invidaria a adoral o.Disséreis que ao soar da ave da meia-noite, desferiu vôo d'entre as estrellas, de que se corôa a montanha, côro de Anjos a dar rebate aos pegureiros com o pregão de «Gloria e Paz», com a nova de ser nascido o Desejado das gentes.¡Tanto é o ruido de alegres passos e falas, que de toda a parte confluem pelo escuro em demanda do Menino!Cada qual lhe traz nas mãos o seu presente, e o mais valioso dentro n'alma.O templo enramalhetado, oloroso, esplendido de luzes, par em par aberto, é a santa Gruta.Lá no tôpo, sobre a pedra bemdita, jaz a rir o Divino Infante.O adro vê dançar as rondas de camponezes á roda de um monte de arvores accezas, ao som da gaita e do tamboril.Os sinos doidejam de alvoroço na torre illuminada.Sob o tecto religioso se alternam em dois córos feminis as cantigas da benta noite. Cada um d'estes córos é exclusivamente composto das moradoras de cada margem do rio que biparte a freguesia. Vai entre ellas a mesma rivalidade, que já descobrimos entreos homens, quando no Carnaval travam com as suas espingardas innocentes um estrepitoso arremêdo de combate.É a qual dos bandos trará mais formosas quadras para entretecer com as antigas, mais argentinas falas e melhores requebros para as gargantear. Cuida-se ouvir musica de Seraphins; exulta o coração; e, sem vergonha, se estão sentindo as faces humedecer-se.Por meio d'estes córos, cujos enthusiasmos devotos como que se estão vendo lutar nos ares estrugidos, passeia em braços do Parocho o Menino, a fazer colheita de beijos e louvores, de supplicas e offertas. Então é que surdem vangloriosos de baixo de cada capa os mimos, que de longe e á porfia se lhe andaram apercebendo; sobre-sahindo de ordinario, a todos, os mui primorosos artefactos de pinhões e frutos sêccos.¡Oh! ¡que invejas para as creanças, que ali pendem ao collo de suas mães! vão-se-lhes os olhos, e os sorrisos, e as mãosinhas, apóz lindezas tão guapas; mas, vendo chegar o Menino a quem se destinam, com os seus olhos tão azues, a bocca tão amorosa, as faces tão coradas como as maçans que se lhe offerecem, é já a Elle que só cubiçam; e só choram, porque o não deixamacompanhal-o.*Taes são as mais notaveis festas d'esta singela gente.¿Que inventariam philosophos para lhe dar, quando chegassem a destruir-lh'as com lhe tirarem a Fé?É uma pergunta simples, mas vale a pena pensar longo na resposta.*Assim crêem, assim folgam, assim vivem, ricos de desavareza, nobres de humildade, e pela rudez ainda sãos, os moradores de S. Mamede da Castanheira do Vouga.XXQue eu por lá versejasse, já a ninguem ficará sendo maravilha; antes, sim, a podéra ser, que de tal assumpto só tal volume se estillasse; mas as rasões d'isso de si mesmas se confessam.Já eu disse, que os annos que por lá sumi, me foram totalmente desprophetisados; e que nunca esperei, nem cri possivel, que houvessemos jámais, eu nem coisa minha, de reparecer no mundo.Assim, só por desabhorrimento é que poetava de longe em longe; isto é: poetava por fóra, e no papel, que no coração e no animo estava eu comigo a fazel-o a toda a hora; e a melhor poesia (de leve me acreditarão os que d'isto sabem) não foi a que se escreveu, se não a que deslizou suave, entre sonhada e sentida, na profundez dos ermos, onde tudo canta, suspira e medita.Escrever só para si, não sei que ninguem escreva; é trabalho supérfluo, e que, se dá fruto, o dá ruim, que de pêco e descorado nos desconsola.¿Pois qual é, em boa verdade, o pensamento, ou affecto, que no trabalho de se corporificar para sahir a lume e correr por mãos e olhos, não perde muito do seu primitivo ser, ou da sua energia, ou da sua graça, ou do seu calor, ou do seu brilho, ou do seu aroma, ou do que quer que seja que era seu, e que era elle mesmo em grande parte?Isto dos livros não são senão uns retratos mortos, umas toadas, reflexos, e sombras, de festas que se fazem n'um interior, e de que os passageiros, por mais que se lhes abram as janellas, e que elles appliquem os olhos e ouvidos, só podem perceber a totalidade, e conjecturar as circumstancias.O escrever, o material, sujo, e ronceiro escrever, cede tanto em foros de expressivo ao falar precipitado e caudaloso, como a palavra (ainda para os maiores mestres e senhores d'ella) cede, e ha de sempre ceder, ás concepções e aos affectos.*Outra explicação da exiguidade, e tenuidade (que peor é) do livrinho, está em que a maior e melhor parte dos condões e feitiços da montanha, que ora cá ao longe me apparecem tão inteiros e gentis, então que eu os tratava e d'elles vivia colmado, me não faziam os effeitos, que atravéz dos vidros da saudade me produzem.Para bem apreciar aquillo (como tudo) foi mistér havel-o perdido; que já por isso dizia Rousseau, que nunca tão bem falaria da liberdade, como entre ferros da Bastilha.¿Onde é que nos ri a imagem da primavera a abrolhar? é no meio do outono a desvestir-se. ¿A do verão, que tressúa afogueado? no inverno, que tirita e se encanece de geada.¿A meninez, com todas suas lagrimas e captiveiros, não é paraiso, para onde todos, todos, nos quizéramos tornar?¡Que bem que o Poeta cantava: «Aventurados em summo extremo os camponezes, se acabassem de entender os bens que logram!»Quanta poesia eu aspirei, e para mim vivi, sem me sentir nem o cuidar, é este prosaico e glacial viver, quem agora de instante a instante m'o explica.Á saudade me acodem as delicias de jazer sobre feno, peito e collo descobertos, ao phantasioso ramalhar da nogueira velha, quando importunas obrigações me veem ripar e consumir as semanas a dia e dia, os dias a hora e hora, as horas a minuto e minuto.Pela conversação pacifica das moitas e torrentes me definho, quando, no mais fortuito, no mais leve, tratar com homens me aguardam sempre desencantamentos, desconsolos, rasões para os desprezar, ou para fugil-os.Lá, volta-se sempre para a poisada mais alegre, ou melhor. Aqui, pelo contrario, ou sempre peor, ou sempre mais triste.Lá, a benevolencia é semente de benevolencia, para dar cento por um. Aqui, é grão que sempre degenéra, ou não germina, ou brota villans ingratidões, que envergonham até a quem as ouve.Lá, o folgar é franco, e as festas são festas. Aqui, o folgar é escaço e fingido; as festas, tumulto, ou, mais de pressa, encoberto circo de gladiadores, que armados com a verdade e com a mentira se acutilam uns aos outros, e aos ausentes, e aos amigos, e aos finados.O mais dextro no pungir e envenenar, esse se pavoneará pelo mais cortesão e de maior donaire; far-lhe-hão roda; e em vez de o esbofetearem, e de o compellirem a se enforcar como o Iscariotes por sua mão, para escarmento a sevandijas e lição a paes que estão creando feras bravas para andarem sôltas no povoado, hão-de applaudil-o por medo, apertar lhe a mão dissimulando o nojo, e recebel-o muitos em suas salas, com sabel-o expulso de muitas portas.Acobertam-se lá e ufanam-se as terras com os linhares, para o que Deus os fez: para vestido das familias, para faixas da infancia, para macío agazalho nas horas do somno ou da doença, para gala candida dos altares, e a final para curativo de feridas.Ora, ¿que mulher de montanhez poria n'um linhar, ao alvorecer de Maio, a sua roca enfeitada, se adivinhasse que o pobre do seu linho, a cabo de tão bons serviços, poderia vir ainda a converter-se em papel para a nossa Imprensa, isto é, em pregoeiro e depositario de quanto erro, e absurdo, a ignorancia ou maldade podérem delirar, em ventilador de descredito e odios, em disseminador de todos os principios de dissolução, já moral, e já politica?! ¡Pôr-lhe ella a sua roca para benção! ella, a boa filha das serras,fêmea sincera e verdadeira, coração lavado, animo propenso em tudo para o bem! ¡Pôr-lhe ella encamisada e florída a sua roca, a sua casta e alegre companheira, a que tão santas maximas e tão formosos exemplos ouviu sempre!... Antes deitar á sementeira o fogo, ou amaldiçoal-a n'uma sexta feira ao meio dia, que vale o mesmo.XXI¡Que de vantagens para o ermo não são todas estas!E no gosal-as, ¡que assumpto inexhaurivel para um engenho bem nascido!Sim; mas, torno a dizel-o, é em distancia de espaço e tempo, e pela contraposição, que se conhecem. ¡E eu malbaratei quasi tudo isso!........... munera nondumIntellecta deum!....Havia de ser agora, depois de tão prolixo, de tão quebrantador martyrio da experiencia,..... Oh ubi campi!¡Como me não agarrára, com raizes mais fundas e tenazes que o meu cedro, ao chão da vida facil, innocente, e obscura! ¡Como não borbotára em hymnos o meu jubilo! ¡Como não saudára com lagrimas de gratidão a aurora, tornando a encontral-a! ¡Que não palrára com as torrentes! ¡Que noitesdesveladas sob o pavilhão estrellado e vastissimo da montanha!Em vez de rebuscar (como agora me foi forçado) para esboçar este painel noticias de logares, e até de usos, tudo eu mesmo visitára com devoção de peregrino; tudo revolvêra; com tudo me identificára.As saudades, que de lá para aqui me estão salteando, d'aqui para lá já não atinariam seu caminho; e se o atinassem alguma vez, na primeira sarça onde papeasse um ninho eu me soubera esconder, que me perdessem logo.*—O abdicar—dizia o Imperador Diocleciano tornado Diocles, fazendeiro e hortelão de Salona—o abdicar é o começo do viver.¡Quantos dos que desaprenderam no regaço espinhoso da fortuna o rir, o dormir, e o comer, tudo isso recobrariam na primeira hora que empunhassem, com animo feito, uma rabiça ou um foicinho!¡Se não ha-de ser inefavel o abdicar muito, e até imperios romanos, como elle, quando renunciar o pouco, o quasi nada, que se tem de cidade.... só de o cuidar, tanto namora a phantasia!¡Se jamais virá tempo de eu poisar em torrão meu, debaixo de sombras minhas, a cabeça encanecida e regalada!Uma barraca de poucas braças, mas revestida de rosas e limas, como o presbyterio. Á roda d'ella, tanto de fazenda, quanto o filhinho mais pequeno atravessasse correndo de um fôlego. Mas isto em solidão bem solidão,onde só os astros me enxergassem, só as estações me visitassem, e da banda do mundo nada me chegasse, senão o vento, já expurgado e esquecido de humanas vozes.Tal casa, e tal quinta, ser-me-hiam mais que morgado, mais que palacio e reino: paraizo terreal, digno vestibulo de outro melhor.Ahi me reverdecêram o coração e mais o espirito, que me elles por cá trazem tão lastimosamente desfloridos e murchos.Por si se retingiriam os cabellos, com o franco sol remoçador de quanto existe.A lyra interior volveria a cantar espontanea, como harpa eólia entre jasmineiros, pendente em hombral de gruta ás virações da primavera.Ainda á farta me vingára dos tantos annos, que em tarefas ephémeras e sem gloria, posto que não sem consciencia e diligencia, se me desbarataram na galé da Imprensa periodica, ou (com mais propriedade) nas palhas d'essa doidinha, que a si mesma se venéra por soberana do Universo; doidinha com diadema de papel e sceptro de lapis.Só me não rira d'ella, quando me lembrasse que me enguliu, com os annos que me tomou, outros tantos da minha existencia para diante; pois em cada tomo de periodico, sincera e honradamente redigido, se podia escrever este epitaphio:Aqui jaz um anno de fadiga e dois de vida de.... Orae por elle.[4]Vendem-se ainda primogenituras por menos que prato de lentilhas.Vingára-me (¡oh! ¡se me vingára!) de tão bons dias mallogrados; e ainda por ventura alguns livrinhos, menos maus que todos os meus precedentes, appareceriam de novo, mas sem mim, no povoado. Como Ovidio aviava os seus do desterro, aviaría eu os meus do meu eden.Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in Urbem.*—¿A que vem tomar-nos tempo com a fabula pueril dos teus gostos e desejos?—dirá (e ha-de dizer) algum d'estes que sabemos, que nunca faltam, escoimadoresex-officiodo alheio.—Senhor meu,—lhe respondo eu já:—pois é por isso mesmo, de não passarem de fabula os meus gostos e desejos, que se me ha-de relevar o dar-lhes eu largas no papel.Se eu vira agora cahir-me do ceo o meu tugurio e o meu quintal, coroados de ermo, como o Evangelista nas praias de Pathmos viu baixar do Empyrio a sua Jerusalem abraçada de muros de oiro, o tempo que n'estas palavras gasto aproveitara-o melhor, em correr para o meu refugio, beijal-o, replantal-o, aformosental-o. E em lá vindo o florído Maio, ride-vos de pagão que brindasse os seus lares com mais fé ou egual amor.*¡A liberdade!... ¿Onde ha hi liberdade, que nem por longe se pareça com a de umviver remançado, em casa sem numero, nem espias, ao som da Natureza, á lei da propria inclinação; sem ouvir horas que nos chamem, sem encontrar com glosadores que nos aboquem no ar acções e palavras, para nol-as tingirem de branco em preto; nem cahir nas garras de ociosos, que vos emprazarão para toda uma tarde de Junho, ou toda uma noite de Dezembro; isento da praga de utopistas e reformadores, que são a peor salada que o diabo temperou e mecheu em hora de abhorrimento; seguro, emfim, de ser pisado nas ruas por soberbias de quem vos não vale, tremulando-lhe, na botoeira do vestido, refulgente epigramma de esmalte contra meritos e virtudes; e de noite, interrompido na meditação, ou cortado no melhor do somno, pelo retroar de carroagens, que em fluxo e refluxo continuo levam e trazem, sempre a correrem para nada, pygmeus, histriões, da farça séria d'este mundo?Se algures ficou sobre a terra a liberdade, que irmana, segura, ennobrece, e concilía os homens, na montanha encontrareis mais depressa coisa a ella parecida, do que não por estas almotaçadas metrópoles, onde se blasona que ella tem o seu templo, e n'elle as suas festas. Sempre são festas acompanhadas de vinte orgãos, a entoarem solfas diversas ao mesmo tempo: este, oTe Deum; aquelle, oDe profundis; um, oQuomodo cecidit civitas plena populo; outro, oCantemus Domino; qual, oMiseremini mei; qual, oEcce sacerdos magnus.Se alguma vez se incensou presente n'este orbe a Liberdade, derrubaram-n-a do seupedestal as aguas do diluvio de Noé, quando arrojavam cada coisa para seu cabo. Ao que havia de ser cidades, ficou o pedestal razo, com o formoso nome d'ella em letras de oiro. Ao que tinha de ser ermo pertenceu, mas sem nome nem titulo, a figura quasi inteira. Aqui, pregôam-n-a; lá a disfrutam. Assim vai tudo.*E quando não, mettei bem por dentro a mão na consciencia; e, deixado o palavrório que não sôa muito senão por ser vazio (como tambor de foliões), dizei-me, ou dizei-o a vós mesmos: ¿Quem mais livre, que homem que desperta recobrado ao romper d'alva, por se lhe ter o somno acabado, e não porque ruins pesares lhe repiquem, ou o estremunhem alvoroto de praças, e reboliço de vizinhos, pois diante de suas janellas o que só se meneia e conversa são arvores, e por cima do seu tecto não moram senão hervas, que mal ciciam, e só recebem de visitas passarinhos ou borboletas?¿Quem mais livre?Acordado, encommenda a Deus o dia novo, veste o que na vespera despiu, sem ter de consultar a ventoinha do figurino, o camareiro, o cabelleireiro, o espelho, o gosto da namorada, o rol das visitas e dos convites. ¿Quem mais livre?Talha para si, para sua mulher, para cada um de seus filhos, as occupações de todo o dia. ¿Quem mais livre?Entre o trabalhar, que lhe grangeia forças, saude, bons somnos, pão, e para conduto umapetite desenganado, entre o trabalhar, repito, canta, ou traz o espirito a monte, a sabor de suas chyméras (que tambem as tem como qualquer outro); e é este o mais invejavel privilegio do trabalho corporal, sobre tudo do que tem por materia prima a terra: não captivar senão os braços; cavando, podando, ceifando, se podem, sem prejuiso da obra, estar armando doiradas torres no ar, ou conversar rasgado e rir com os companheiros, ou cevar em silencio a tristeza que se ama, ou a alegria que se esconde.Estedeus in nobis, unica das divindades campestres em que se pode crer, perguntae se não será para muitas invejas aos taciturnos enxames que pejam escritórios e secretarías; perguntae-o a quasi todos os que remam á consciencia o seu remo na galé baloiçosa do Estado. ¿Quem mais livre?Posto o sol, pregoadas as treguas das lidas pelo sino das Ave-Marias, o meu rustico se recolhe, sem golilhas de seda no pescoço, para folgar entre eguaes, em quanto a ceia bem mercada se lhe acaba de coser ao lume que o aquece. Não tem de ir fazer sala a ninguem; respira a peito cheio; não ha que ciar se de mulher e filhas, que não dá a terra operas nem bailes; filhas e mulher á roda lhe serôam, tão satisfeitas como elle. Não se levanta ali jogo, que, por tentação ou falso pondonor, o obrigue a pôr n'uma carta o casal, a vergonha, e mais a vida. Não o compellem a ajudar com desatinos seus os alvitristas regedores do mundo em sêcco; nem mesmo a ouvir ler, n'uma coisa mal-cheirosa chamada periodico (especie de cogumellosda Imprensa, em que entre os não maléficos tantos ha de sapo), o artigo famoso, no qual, sem quê nem para quê, lhe levantam falsos testemunhos para entretenimento de vadios na hora do chylo. Quem não tem com que incite invejas, seguro está de vis praguentos. ¿Quem, finalmente, mais livre?Deita-se em cama barata, mas de bons sonhos, com as janellas e portas destrancadas, sem medo a malfeitores, que, sobre não creal-os o sitio, nada reluz na poisada que os attráia.Entretanto lhe vão caladamente amadurecendo os pães para a tulha, o vinho para a adega, o azeite e os frutos para a dispensa, a hortaliça para a panellinha de barro, as filhas para o casamento, os rapazes para lhe pagarem na velhice a divida da infancia, e elle e sua mulher para o Ceo, onde crêem de fé que os estão seus parentes esperando.¿Então, será, ou não será, este um viver dez vezes mais livre e afortunado que o nosso? Pois não disse eu d'elle tudo que poderia, nem o direi, ainda que já talvez me hajam de arguir de prolixo, que não deixei na matéria udo nem miudo; ¡como se miudos houvera no que são condições de boa ventura!Se n'isto me dilatei (e confesso que sim) um tanto fora do meu proposito, foi por ver se dava uma aldrabada de mansinho ao coração de alguns d'estes, que vivem na Côrte por fadario, por vezo, ou por inercia, sempre mal-contentes, pesarosos, abetumados; possuindo, ou podendo, se uma hora olhassempor si, adquirir, sem nenhuma difficuldade, o que eu, e outros taes, tão baldadamente supplicamos á fortuna: uma vivenda campestre, uma existencia natural, serena, commoda, florescente, risonha para a pessoa, dadivosa e exemplar para os visinhos, manancial de riqueza privada e publica, abonadora de bons costumes, e de afortunada descendencia; uma existencia, em summa, que, a de mais de retemperar corpo, animo, e coração, para se n'ella saborearem, até aos renunciados praseres da Cidade refina o gosto, quando por acaso, de longe a longe, e de passagem, se volve a elles.

.....vivo sedilia saxo.

*

*

*

—¿San-João das barbas doiradas,onde foste ter as orvalhadas?—Fui as ter áquellas hortas,recordar aquellas cachopas.Recordae, recordae, perguiçosas,que da fonte já veem as formosas,com as talhas cheias de cravos,que lh'os deram os seus namorados,com as talhas cheias de flores,que lh'as deram os seus amores.San-João, rico cavalleiro,companheiro de Nosso Senhor,acompanhae a minha almaquando d'este mundo fôr.—¿Por que tendes, San-João,esses sapatinhos brancos?—Para passear ás moçasdomingos e dias santos.—¿D'onde vindes, San-João,que assim cheirais á macella?—Venho da serra da Estrella,de fazer uma capella.—¿D'onde vindes, San-João,pela calma sem chapeo?—Venho beber agua fresca,que faz calor lá no ceo.

*

*

*

*

*

*

........ munera nondumIntellecta deum!....

..... Oh ubi campi!

*

Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in Urbem.

*

*

*


Back to IndexNext