O Presbyterioda Montanha

[2]Existe ainda este cedro que tem alcançado descommunal corpulencia. Chamam-lhe por láo cedro do poeta, oudo Castilho.Os Editores.[3]Ovidio—Os Fastos—Liv. VI.[4]Allusão aos amargores da redacção daRevista Universal Lisbonense, minuciosamente narradosnas Memorias de Castilho.Os Editores.[5]Castilho morava então na rua de S. Marçal.Os Editores.EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGALSociedade editoraLivraria Moderna95—RUA AUGUSTA—LISBOAObras completas de A. F. de CastilhoXXO Presbyterioda MontanhaVOLUME IILISBOAEMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL95, Rua Augusta, 951905OBRAS COMPLETASDEANTONIO FELICIANO DE CASTILHOVOLUME 20.ºVOLUMES PUBLICADOS:I—Amor e melancolia.II—A chave do enigma.III—Cartas de Ecco e Narciso.IV—Felicidade pela agricultura(1.º v.)V—Felicidade pela agricultura(2.º v.)VI—A primavera(1.º vol.)VII—A primavera(2.º vol.)VIII—Vivos e mortos—Apreciações moraes, litterarias, e artisticas.IX—Vivos e mortos(2.º vol.)X—Vivos e mortos(3.º vol.)XI—Vivos e mortos(4.º vol.)XII—Vivos e mortos(5.º vol.)XIII—Vivos e mortos(6.º vol.)XIV—Vivos e mortos(7.º vol.)XV—Vivos e mortos(8.º vol.)XVI—Excavações poeticas(1.º vol.)XVII—Excavações poeticas(2.º vol.)XVIII—Excavações poeticas(3.º vol.)XIX—O Presbyterio da montanha(1.º v.)XX—O Presbyterio da montanha(2.º v.)NO PRÉLO:XXI—O Outono.OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHORevistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhosXXO PresbyteriodaMontanhaVOLUME IILISBOAEmpreza da Historia de PortugalSociedade EditoraLIVRARIA MODERNATYPOGRAPHIARua Augusta, 9545, Rua Ivens, 471905IA PRIMEIRA NOITE NA SERRA... Ibi hæc incondita solusmontibus et silvis studio jactabat inani.¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! ¿Em solitario monte,que se espanta de ver-me, e cuja austéra frontenada avistou jamais, no amplissimo horizonte,de mundo a tumultuar, de cidades a rir...n'este ermo ignaro, frio, mudo...aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo!¡o meu presente e o meu porvir!Genio invisivel da montanha,de astros, de sol, o ceo te banha;o mar de longe te acompanhano livre cantico sem fim.Escada de Jacob da terra ao firmamento,a mansão tua é monumentoda potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.Emquanto, em derredor do solio teu sublime,a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,se volve, se transforma, e sua angustia exprimen'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,a variedades sobranceiromantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,e do diluvio assolador.Silencio e paz comtigo habita;o ermo é como o eremita;loucas vaidades não cogita;ama o seu rustico trajar;em apparente inercia ama que ferva occultode seus affectos o tumulto,seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,póde ouvir de tua harpa a casta melodia,e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;sim; mas eu, frivolo, profano,á solidão extranho, affeito ao mundo insano,¿que hei-de esperar? ¿que tenho aqui?Toda a minh'alma se entristece,e se confrange, e se ennoitece,ao ver que a sorte lhe destecede um sopro os aureos sonhos seus.Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!sonhava mundo... ¡acho um deserto!sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,quem me resurgirá? Dos montes a linguagem...oiço... escuto... medito... e em vão quero entenderé como uns sons de ignota fala;qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,sem me abalar, nem me embeber.¡Oh! ¿á minh'alma taciturnaque importa, ó montanha soturna,que de perfumes sejas urnada terra erguida sobre o altar?¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,que o sol doirado, ao teu desertomais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,bramirei:—«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!¡são mais pesares, mais saudades,mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,mais tentações a dar-me fel!...»¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!¡Tanto vate a ceifar louvores!...¡Tanto moço a colher amores!...¡Tantos loireiros e rosaes!...E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,qual roble que geme indignado,vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!Assim ruge, baldão de vingativo nume,esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;assim, nos gelos sua, agrilhoado ao cumedo caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.Só o abutre de eterna fome,que o grande coração algoz sem fim lhe come,responde em ais á sua voz.Fenece o dia. ¡Hora jocunda,que eu tanto amava! ¡hora fecundados cantos meus! ¿por que me inundanova amargura o coração?¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?a serra em luto se me encobre;a nocturna mudez duplica a solidão.Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrirde luzeiros um labyrinto.¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sintoé vento em selvas a rugir.Calae, fugi, ventos agrestes;sumi-vos, lampadas celestes;n'um seio a delirios já prestesnão susciteis mais tentações.Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...vós, astros, cifras de diamantes,o arcano me aclarae lá d'essas regiões.¡Oh! ¡se á minha razão, contradictoria, altiva,que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,de vós, faroes do Ceo, baixasse a crença viva,que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...¡se me volvesseis as ditosasesp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,com que se enfeita e esconde a Cruz!...Tornar-se-me-hiam de improvisoa solidão, em paraizo;a magua, em perenne sorriso;em alto cantico, a mudez;a mallograda lyra, o não colhido loiro,em harpa augusta, em palmas d'oiro;e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.Delirios sempre vãos, fugi de um peito enfermo;tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;ermo para ambições, é inferno, e não ermo;para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.Gentis phantasmas de cidades,vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,como um esquife em aureo veo.¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,(embora em saudades me eu queime)!O somno, as vigilias enchei-meda vossa esplendida vizão.¿Val o riso choroso as festas da loucura?vinde, guiae-me á sepultura,crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotosdos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;não, no silvestre seio vosso,nem de amenas ficções apascentar-me posso,nem menos as posso esquecer.¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futurosondou jamais o abysmo escuro?¡Apenas chego e já murmuro!¿O de que tremo acaso sei?Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,aqui me aguardem, recatados,dias de estro e de paz, quaes nunca disfrutei.Se além, no presbyterio, humillima choupana,(Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)mais que fraterno amor sollícito se afanaem me afôfar o ninho, a vida em me inflorar;se n'um retiro verde e mudo,por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,sombras no estio, o inverno ao lar;se a solidão que me apavora,sómente o fôr vista de fóra;se em seus recôncavos demoragente feliz, povo de irmãos;se do antigo viver, das crenças de outra edade,vestigios guarda a soledade;se poesia se vive entre estes aldeãos;se a alegria, serena, isenta de pesares,como a fresca saude, habita os puros ares;se em toda a parte ha Deus, em céos, em terra, e mares,se Deus em toda a parte á Natureza ri...coração meu, não desanimes,gozos que não prevês, e cantos mais sublimes,encontrarás talvez aqui.¡Ah! sendo assim, ¡que importa a fama!Tambem philoméla derramasua harmonia ás selvas que amalonge de ouvintes e do sol.Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teriaque a viva, a lustrosa poesia,de perolas que a flux borbóta o rouxinol?Castanheira do VougaOutubro de 1826.IIO SEPULCROOUHISTORIA DE UMA NOITE DE SAN JOÃO(POEMA)INTRODUCÇÃO(QUE É MELHOR DORMIR, QUE LER)(Ermo alpestre entre cabeços de rocha e pinheiros, na serra do Caramulo. É noite escura como breu. O autor e um arrieiro, ambos a cavallo, transviados na montanha.)I—Bem lh'o disse eu, perdemos o caminho;a velha era por força alguma bruxa.Logo eu zanguei co'a cara e mais co'a touca!—Bom; a pobre mulher (¿que mais querias?)tres vezes t'o ensinou.—Nem trinta vezesque eu passasse por elle, o aprenderia;a não ser pelo rasto que deixasseesmurrando o nariz por essas lapas.Já levo sem ferrage ambas as mulas;perdeu-se o norte; não descubro casa,nem gente, nem caminho, e é quasi noite.Patrão, por meia legua mais ou menos,não se deixa uma estrada como aquella,que costeava o monte á beira da agua.A velha era uma bruxa, e nós dois asnos.—Dize um que vale dois, mas dois não digas.Se tomámos o atalho em vez da estrada,toda a culpa foi tua; eu não queria,porem teimaste; e eu não me opponho a teimas.—Mas eu ¿por que teimei? ¡pois se a maldita,com ar de santa, e palavrinhas manças,nos rabiscou co'o pau no pó da estradatão claramente as idas, as venidasd'esta serra sem fim, não lhe escapandolomba, moiteira, torcicólo ou brenha,que a mula mesma entenderia o mappa!¿Quem não cahia em tal? cahiam todos.E de mais ¿quem nos diz que aquelles riscosnão tinham diabrura ou nigromanciacapazes de encarchar um Santo em carne?¿E quem me diz a mim que a grenha russanão vai ao pé de nós? ¡talvez sentadana anca da mula!... ¡fúgite, demonios!Meu Doutor, pelo mundo ha muita coisa;quem mais anda, mais sabe; e eu não sou tolo,nem creancinha de honte. ¡Olha o diabo!bem digo eu; a azinhaga aqui poz ponto;caminho... ¡era uma vez! ¡Má raio a parta!¿que havemos de fazer nestas alturas?—Tornarmos para traz.—¿Por este escuro?¿quer dar cabo das mulas, e estoirar-me?¡co'um milhão de diabos!!...—Pois fiquemos.—E as mulas comam terra, como os sapos,e nós carqueja.—As noites são bem curtas.—Se ao menos se avistasse alguma venda...—Em rompendo a manhan teremos tudo.Por agora apeemo-nos.(Apeiam-se.)*—No infernoestoire entre um milhão de Satanazeso que inventou primeiro andar de noite;era o maior ladrão... ¿Que bulha é essa?—Não é nada; uma pedra que rebola.—¡Que rebola!? ¡e sem mão! será bonito,mas nem por isso engraço. ¿E aquelle brutolá em cima no pinhal, que guincha tanto!—Algum mocho.—Más balas o atravessem,e lhe acabem co'a casta antes de um'hora;cuidei que era outra coisa. Eu na tavernavalho por cinco ou seis; mas cá perdido,e então de noite, um pisco me põe medo.—Pois dorme.—¿O quê? ¡dormir! ¡co'a bruxa ás barbas!só se eu fôsse algum bêbado. Esta noitenem pregar olho, nem largar das unhasdois penedos; e ao pé já está reforço.—Golgan, já que não foi por nossa escolha,busquemos contentar-nos co'a poisada,que inda não é tão má como o parece.¡Quantos ha menos bem acomodadospor esse mundo agora! uns em cadeias,outros entre ladrões, náufragos outros,estes em luto, aquelles em doença.Bastantes em colxões de plumas fôfasrevolvem entre hollanda, e sedas, e oiro,cuidados tristes, asperos remorsos.¡Quantos até nas salas mais alegres,entre as luzes, e as muzicas, e as danças,mas em face de um sôffrego banqueiro,padecem mais que um reo chegando á fôrcaNão ha mal sem peor; qualquer estadose se compara, é bom; com cara alegresuavisam-se os incommodos; um fardon'um hombro impaciente é fardo e meio.Quem não soffre um descommodo pequenonos grandes morre; um leve desagradodá realce ao prazer quando nos volta.Qualquer estado, e pessimo que seja,tem seu lado risonho; e é da prudenciad'entre os picos da silva achar a amora.Amen.—Brava o latim; dá ceia e cama.—A falta d'esta ceia é novo adubodo almoço de amanhan; e emquanto á cama,¿que outra melhor do que esta em mez de Junho?Nem paredes nem tectos, que nos roubema viração da noite apoz a calma;por entre essa quebrada dos penhascoslá em baixo o mar co'os seus murmurios frescos;sobre nós, e por baixo das estrellas,pendendo como um lustre, este carvalhocravejado de insectos que entre-luzem;dois rouxinoes ao longe; as lageas, mornas.Vê; que soberba camara!; que leitosdesde a origem dos seculos nos guardano seio d'esta brenha a Natureza!—Ao menos não tem pulgas. ¡Xó, canalha!¡leva rumor! é bom pregar de coices.Não durma, Sôr Doutor.—Não tarda muitoque eu não entre a sonhar ¡Que bellos sonhosnão devem ser os de uma noite d'estas!—Tenha lá mão com isso; o que eu prometto,para espalhar-lhe o somno, é uma enfiadade casos que eu passei na minha vida;tão rara, que podia ir áGazeta!*Uma vez ia eu só; era em Novembro;chuviscava e fazia um tal escuroque era metter os dedos pelos olhos.(Lembrou-me esta a proposito da mulaescoicinhar sem causa.) E era bom tempoaquelle; andava Christo pelo mundo;tinha eu mais duros, que patacos hoje,e andava o oiro aos pontapés da gente;tambem... ¡já cá não torna! O grande casoé que n'aquelle tempo era eu solteiro,e rapaz bonitote; e havia muitasque me fizessem fogo; eu cuido, e é certo,que não pelos vintens; nem pela cara;mas isto de casar co'um almocreve,seja elle o diabo dos infernos,parece a todas bem: é uma deliciater o seu homem só de vez em quando,em logar do espião de um pegamaçocom residencia fixa em ar de abbade.Mas... não é bom falar na vida alheia.*Como lhe ia contando, era almocreve;chamavam-me oChupista. ¡Oh! que bolaxaque eu pespeguei na cara do coécasque me inventou a alcunha em certa venda!qualquer creança lhe moia os queixos;já lá está onde o pague ¿Onde ia o ponto?¡ah! sim; era almocreve e recoveiro;e andava com dez machos todo o annoa correr quanto valle e monte haviapara cobrar o fôro aos Frades Cruzios.Que isto do fôro é bom, nem que pareça;uns pagam-lhe borel, outros centeio,queijos, presuntos, lan, cevada, vinho,gallinhame por arte do diabo,ovos, e até o musgo onde se empalham.[1]Não ha n'um pardieiro um desgraçadoque não deva pagar alguma nica.Já vê donde me vinha a minha alcunha;mas sem rasão; é porque andava ás ordens.Tambem já tenho ouvido alguns autores,tal como o meu cunhado, e mais uns certos,que é coisa bem mal feita a tal derriça;Mas bem feito ou mal feito, eu não sou Papa.Vamos cá co'o meu conto.*Era uma noite,cuido que já lh'o disse, ali por Maio,e fazia um luar... que era um consolo.Eu saio a meu avô; se é boa a estrada,gósto de andar de noite havendo lua;cá pelas brenhas não, que não sou lobo.Vinha eu mui fresco em mangas de camisa,em cima de uma carga de presuntos,pela estrada real, co'os sete machosa dormitar ao som da chocalhada.Vinhamos caminhando em certo passode quem gosta da noite, ou vem sem pressa,ou de quem traz comida a gente farta.*Que lhe digo, em abono da verdade,que servir Santa-Cruz não dá desgosto:pagam bem, fazem festa ao gallinheiro,vendo os machos no pateo é uma alegria!...¡aquillo até os olhos se lhes riem!dão pinga, e de cear, e muitas vezesvi eu estar vai não vai a dar-me um beijoo Frade gordo que recebe o saque.¡Bom tempo! ¡bom de lei! já cá não torna.Não durma Sôr Doutor.—Não durmo; acaba.—¡Acabar! não acabo em toda a noite,nem que estoire a barriga do diabo.Inda eu não comecei. Lembra-me um Fradeque havia em Santarem; tinha um cachaço,...por tal signal que até revia enxundia;¡e era um demo, o maldito, a beber vinho!...¡Mas aquillo! a prégar era uma joia;um sermãosinho d'elle atarantavae punha tudo azul. Tinha a constanciade arrumar prègações de duas horas.N'um que eu lhe ouvi, depois de falar muito...(e olhe, foi tanto, que eu, e muita gente,já tinhamos dormido á regalada)disse muito pausado: «Eu principio.»Assim faço eu tambem. Todos devemostirar das prègações algum proveito.Ora pois, não me durma, e ahi vai a historia;porém tenha lá mão, que a levo errada.*Nesse dia á tardinha, na estalagetinha entrado uma velha; era um diabo,que isso... só visto! pequenina, magra,muito preta; era um bilro de pau santo.Tinha pela cabeça um lenço pardoatado pela barba, um manteo ruço,e uma mantinha exotica e de agoiro.Tinha então uma cara não sei como;nem parecia cara; era um nó cegoque fazia azoar a toda a gente;mas muito experta; e uns olhos como um bixo.¡Tambem aquella rez tinha no corpomuita pipa de sangue de creanças!*Cheguei eu á estalage, e ia com fome;vou-me á carga do fôro, agarro uns ovos,mando os frigir com mel, que é papa fina;e então para quem tem de andar de noitedizem que é bom, que livra do catarro,já se sabe com quatro pingarolas.Ia se preparando o meu guizado,e era um cheiro tão bom pela cosinha,que isso não ha dizer. Já dois gallegos,e mais, tinham ceado; andavam tolosa cochichar, e ás voltas pela casa,um olho em mim, outro olho na tigella,e eu muito concho a rir, e a pescar tudo.Basta dizer que me pediram ambosque vendesse um quinhão; ¡e isto em gallegos!*Emfim, cheirava bem, e estava d'alma.Mas o monstro da velha era uma estacaali muito direita ao pé dos ovos,com cada olho aberto, ¡que te parto!Era mesmo um olhar de inveja e zanga.Logo eu tive má fé co'a tal meninaquando ella perguntou quem era o dono.Porém quem mal não usa mal não cuida;sentei-me á meza a codear nos ovos.Ora agora o vereis: a minha amigaamúa-se n'um canto, mais vermelhaque um pimentão, e eu sempre a observar n'ella.Ferra os olhos em mim com tal quezilia,que a não ser por temer a Deus e a ella,batia-lhe co'o prato pelas trombas.Botava cada lagrima... ¡de punho!dava cada suspiro, a excommungada,¡que punha medo! accendo o meu cigarro,pago, monto a cavallo, e sigo a estrada.Era já noite escura, e um vento friocomo o gran Satanaz.*¿Que diabo é isso?ressona?; ou já na costa anda algum moiro?—Avante; são as ramas que sussurram.—Pois deixe-as sussurrar. Vinha eu picandopela estrada real por ser já tarde,e a assobiar sósinho otiroliro.Vai senão quando, estacam-se-me as bestas.Á esquerda, como ahi, ficava um monte;d'esta banda um pinhal muito fechado;de sorte que o caminho (e então mui longede todo o povoado) era um soturno,que nem Roldão o andava áquellas horas.Entrei logo a suar e a arripiar-me;e as mulas n'um inferno de pinotessem quê nem para quê; davam taes rinchos,que se fundia o chão; pregavam coices,que assoviavam no ar; ¡que contradança!era uma groza de diabos doidos,e eu mais doido, no meio, á bordoada.[2]Aqui digo eu como dizia o Fraden'outro sermão de um Santo;não lh'o pintopor não ter um pincel. Mas faça ideiaque tal eu ficaria lobrigando(¡eu te arrenego diabo!) uma luzernaa ir e a vir, á roda, e acima e abaixo,lá longe no pinhal. Que era bruxedotive eu logo de fé; muitos que m'o ouvemriem-se, e tal; deixal-os rir; ha bruxas;que isso sei eu; ¡e então ali! ¡tão tarde!Por força era algum sabbado lá d'ellas,que as taes amigas juntam-se de noitea fazer os seus sabbados, o mesmocomo nós no Natal á meia noite...Ha muita comezana de creanças,sarrabulhos de sangue, cambalhotas,e umas rizadas..... que até Deus se admira.No meio anda um pretinho muito gordo,que é o proprio diabo em carne e osso.Diz então muita coisa a todas ellas,dá-lhe lá seus conselhos, toma contasdo que teem feito, e..... acaba a tal comedia.Untam-se co'uma untura que lá sabem,transformam-se em corujas e mosquitos,o diabo e o lume sorvem-se na terradizendo boa noite até tal dia,e ellas voltam-se a casa a armar já outras.Isto sabia-o eu como os meus dedos.Lembrou-me a tal gulosa da estalage,e então é que dei tudo por perdido.Deitei fóra o cigarro, e entro em voz baixa(¡sempre isto do pavor faz muita asneira!)entrei eu co'as mãos postas para as mulasa pedir-lhes co'as lagrimas nos olhos,pelas Almas Bemditas, que deixassemtodo aquelle motim, que me perdiam;que fugissem d'ali, que andavam bruxas,e que pé ante pé viessem vindo;que eu promettia uma ração dobrada.Partimos. De repente desembéstad'ao-pé da tal luzerna um certo vultodireito para nós como uma xára.Com seis milhões de grozas de diabos!¿quem havia de ser, senão a velha?Salta n'um pulo a estrada, atrepa ao monte,chega ao cimo, e de lá muito sizudaentra a dizer-me adeus, e (¡t'arrenego!)a fazer-me uma cara dos infernos...—¿E tu viste-lhe a cara em tanto escuro?—Certo é que lembrou bem; tambem agoralá me faz confusão ter visto a cara.¿Escuro? isso era escuro como um prego;não sei como isso foi, mas vi-lh'a, e vi-lh'a;¡assim eu visse Deus! trago-a ainda hojetão bem encasquetada no juizo,que a podia pintar, e era pintura,que urrariam os bois se lh'a mostrassem.Quer escuro quer não, vi-a, e está dito.*Mas o bom não foi isso; o mais bonitofoi entrar de repente o gallinhaçonas canastras da carga em cantarolas,a romper, a fugir, e eu pila pilapara aqui, para ali, correndo ás cegassem as poder juntar. Foi se-me a noiten'esta labutação; de cada cantosentia um cacarejo, ia ás carreiras,gallinha... por um oculo. Já rouco,moido e desesp'rado, ao romper d'alvavejo as minhas senhoras mui contentestodas juntas n'um bando ao pé das mulas.*Mas alto; esta é peor. ¿Não vê? repare:¡um clarão para ali!! d'esta nos trincam;¡meu Deus! ¡onde diabo eu tinha a morte!!—Alegra-te, Golgan; ¿que noite é esta?—Para nós ambos de Fieis defuntos.—De San João.—¡Ah! sim; pois é fogueira,e não é outra coisa. ¡Ora o diabo!sempre tive uma colica soffrível.Mas vamos nós a andar, se lhe parece.Dizia um Padre Mestre ali do Algarve,n'umas rasões que teve com meu tio,que era barbeiro então, e o Padre Mestreera o Vigario d'elle; e elle, o meu tio,ia fazer-lhe a barba e mais ao preto,que era um tição que só á bofetada;¡mas muito presumido! ¡e então por moçasdava o grande magano um cavaquinho!!...Com que emfim, tinha o Padre este ditado:aonde ha lume ha fumo; e eu então digoque por força onde ha lume ha-de haver gente;e que onde ha gente ha casa; e toda a casatem a sua cosinha, e então ceâmos.E é partir de repente em quanto ha lume.......................................................................................................................IIEis aqui um dialogo de ensanchassem geito, sem sabor, sem fim, sem nexo—grita o leitor perdendo as estribeiras.¿Onde foi isto? ¿ou quando? ¿quem são elles?¿onde vão? ¿d'onde veem?*Leitor amigo,ha duas horas que soubéras tudo,se o cruel arrieiro o permittisse;mas vais sabel-o em quanto enfreia as mulas.Quanto a elle, presumo que o conheces;o nome do outro autor dir-t'o-hei n'um versonão peor que outros muitos portuguezes:Antonio Feliciano de Castilho.Venho do Minho de assistir a bodas;recolho me outra vez á Castanheira[3]a casa do Prior, a fazer versos,beber-lhe o vinho verde, e dormir muito.O theatro da scena é certo montede que me esquece o nome; o anno, e o dia,Mil oitocentos e vinte e oito, á noite,vespera de S. João. Se mais desejas,é perguntar, que eu te respondo a tudo.

Os Editores.

Os Editores.

Os Editores.

Obras completas de A. F. de CastilhoXXO Presbyterioda MontanhaVOLUME IILISBOAEMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL95, Rua Augusta, 951905

OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHORevistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhosXXO PresbyteriodaMontanhaVOLUME IILISBOAEmpreza da Historia de PortugalSociedade EditoraLIVRARIA MODERNATYPOGRAPHIARua Augusta, 9545, Rua Ivens, 471905

... Ibi hæc incondita solusmontibus et silvis studio jactabat inani.

¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! ¿Em solitario monte,que se espanta de ver-me, e cuja austéra frontenada avistou jamais, no amplissimo horizonte,de mundo a tumultuar, de cidades a rir...

n'este ermo ignaro, frio, mudo...

aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo!

¡o meu presente e o meu porvir!

Genio invisivel da montanha,de astros, de sol, o ceo te banha;o mar de longe te acompanhano livre cantico sem fim.

Escada de Jacob da terra ao firmamento,

a mansão tua é monumento

da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.

Emquanto, em derredor do solio teu sublime,a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,se volve, se transforma, e sua angustia exprimen'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,

a variedades sobranceiro

mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,

e do diluvio assolador.

Silencio e paz comtigo habita;o ermo é como o eremita;loucas vaidades não cogita;ama o seu rustico trajar;

em apparente inercia ama que ferva occulto

de seus affectos o tumulto,

seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.

Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,póde ouvir de tua harpa a casta melodia,e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;

sim; mas eu, frivolo, profano,

á solidão extranho, affeito ao mundo insano,

¿que hei-de esperar? ¿que tenho aqui?

Toda a minh'alma se entristece,e se confrange, e se ennoitece,ao ver que a sorte lhe destecede um sopro os aureos sonhos seus.

Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!

sonhava mundo... ¡acho um deserto!

sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!

Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,quem me resurgirá? Dos montes a linguagem...oiço... escuto... medito... e em vão quero entender

é como uns sons de ignota fala;

qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,

sem me abalar, nem me embeber.

¡Oh! ¿á minh'alma taciturnaque importa, ó montanha soturna,que de perfumes sejas urnada terra erguida sobre o altar?

¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,

que o sol doirado, ao teu deserto

mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?

Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,bramirei:—«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!

¡são mais pesares, mais saudades,

mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,

mais tentações a dar-me fel!...»

¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!¡Tanto vate a ceifar louvores!...¡Tanto moço a colher amores!...¡Tantos loireiros e rosaes!...

E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,

qual roble que geme indignado,

vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!

Assim ruge, baldão de vingativo nume,esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;assim, nos gelos sua, agrilhoado ao cumedo caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.

Só o abutre de eterna fome,

que o grande coração algoz sem fim lhe come,

responde em ais á sua voz.

Fenece o dia. ¡Hora jocunda,que eu tanto amava! ¡hora fecundados cantos meus! ¿por que me inundanova amargura o coração?

¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?

a serra em luto se me encobre;

a nocturna mudez duplica a solidão.

Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir

de luzeiros um labyrinto.

¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto

é vento em selvas a rugir.

Calae, fugi, ventos agrestes;sumi-vos, lampadas celestes;n'um seio a delirios já prestesnão susciteis mais tentações.

Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...

vós, astros, cifras de diamantes,

o arcano me aclarae lá d'essas regiões.

¡Oh! ¡se á minha razão, contradictoria, altiva,que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,de vós, faroes do Ceo, baixasse a crença viva,que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...

¡se me volvesseis as ditosas

esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,

com que se enfeita e esconde a Cruz!...

Tornar-se-me-hiam de improvisoa solidão, em paraizo;a magua, em perenne sorriso;em alto cantico, a mudez;

a mallograda lyra, o não colhido loiro,

em harpa augusta, em palmas d'oiro;

e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.

Delirios sempre vãos, fugi de um peito enfermo;tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;ermo para ambições, é inferno, e não ermo;para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.

Gentis phantasmas de cidades,

vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,

como um esquife em aureo veo.

¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,(embora em saudades me eu queime)!O somno, as vigilias enchei-meda vossa esplendida vizão.

¿Val o riso choroso as festas da loucura?

vinde, guiae-me á sepultura,

crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.

¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotosdos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;

não, no silvestre seio vosso,

nem de amenas ficções apascentar-me posso,

nem menos as posso esquecer.

¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futurosondou jamais o abysmo escuro?¡Apenas chego e já murmuro!¿O de que tremo acaso sei?

Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,

aqui me aguardem, recatados,

dias de estro e de paz, quaes nunca disfrutei.

Se além, no presbyterio, humillima choupana,(Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)mais que fraterno amor sollícito se afanaem me afôfar o ninho, a vida em me inflorar;

se n'um retiro verde e mudo,

por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,

sombras no estio, o inverno ao lar;

se a solidão que me apavora,sómente o fôr vista de fóra;se em seus recôncavos demoragente feliz, povo de irmãos;

se do antigo viver, das crenças de outra edade,

vestigios guarda a soledade;

se poesia se vive entre estes aldeãos;

se a alegria, serena, isenta de pesares,como a fresca saude, habita os puros ares;se em toda a parte ha Deus, em céos, em terra, e mares,se Deus em toda a parte á Natureza ri...

coração meu, não desanimes,

gozos que não prevês, e cantos mais sublimes,

encontrarás talvez aqui.

¡Ah! sendo assim, ¡que importa a fama!Tambem philoméla derramasua harmonia ás selvas que amalonge de ouvintes e do sol.

Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria

que a viva, a lustrosa poesia,

de perolas que a flux borbóta o rouxinol?

Castanheira do Vouga

Outubro de 1826.

(Ermo alpestre entre cabeços de rocha e pinheiros, na serra do Caramulo. É noite escura como breu. O autor e um arrieiro, ambos a cavallo, transviados na montanha.)

—Bem lh'o disse eu, perdemos o caminho;a velha era por força alguma bruxa.Logo eu zanguei co'a cara e mais co'a touca!—Bom; a pobre mulher (¿que mais querias?)tres vezes t'o ensinou.

—Nem trinta vezes

que eu passasse por elle, o aprenderia;a não ser pelo rasto que deixasseesmurrando o nariz por essas lapas.Já levo sem ferrage ambas as mulas;perdeu-se o norte; não descubro casa,nem gente, nem caminho, e é quasi noite.

Patrão, por meia legua mais ou menos,não se deixa uma estrada como aquella,que costeava o monte á beira da agua.A velha era uma bruxa, e nós dois asnos.—Dize um que vale dois, mas dois não digas.Se tomámos o atalho em vez da estrada,toda a culpa foi tua; eu não queria,porem teimaste; e eu não me opponho a teimas.—Mas eu ¿por que teimei? ¡pois se a maldita,com ar de santa, e palavrinhas manças,nos rabiscou co'o pau no pó da estradatão claramente as idas, as venidasd'esta serra sem fim, não lhe escapandolomba, moiteira, torcicólo ou brenha,que a mula mesma entenderia o mappa!¿Quem não cahia em tal? cahiam todos.E de mais ¿quem nos diz que aquelles riscosnão tinham diabrura ou nigromanciacapazes de encarchar um Santo em carne?¿E quem me diz a mim que a grenha russanão vai ao pé de nós? ¡talvez sentadana anca da mula!... ¡fúgite, demonios!

Meu Doutor, pelo mundo ha muita coisa;

quem mais anda, mais sabe; e eu não sou tolo,nem creancinha de honte. ¡Olha o diabo!bem digo eu; a azinhaga aqui poz ponto;caminho... ¡era uma vez! ¡Má raio a parta!¿que havemos de fazer nestas alturas?—Tornarmos para traz.

—¿Por este escuro?

¿quer dar cabo das mulas, e estoirar-me?¡co'um milhão de diabos!!...

—Pois fiquemos.

—E as mulas comam terra, como os sapos,e nós carqueja.

—As noites são bem curtas.

—Se ao menos se avistasse alguma venda...—Em rompendo a manhan teremos tudo.Por agora apeemo-nos.

(Apeiam-se.)

*

—No inferno

estoire entre um milhão de Satanazeso que inventou primeiro andar de noite;era o maior ladrão... ¿Que bulha é essa?—Não é nada; uma pedra que rebola.—¡Que rebola!? ¡e sem mão! será bonito,mas nem por isso engraço. ¿E aquelle brutolá em cima no pinhal, que guincha tanto!—Algum mocho.

—Más balas o atravessem,

e lhe acabem co'a casta antes de um'hora;cuidei que era outra coisa. Eu na tavernavalho por cinco ou seis; mas cá perdido,e então de noite, um pisco me põe medo.—Pois dorme.

—¿O quê? ¡dormir! ¡co'a bruxa ás barbas!

só se eu fôsse algum bêbado. Esta noitenem pregar olho, nem largar das unhasdois penedos; e ao pé já está reforço.—Golgan, já que não foi por nossa escolha,busquemos contentar-nos co'a poisada,que inda não é tão má como o parece.¡Quantos ha menos bem acomodadospor esse mundo agora! uns em cadeias,outros entre ladrões, náufragos outros,estes em luto, aquelles em doença.Bastantes em colxões de plumas fôfasrevolvem entre hollanda, e sedas, e oiro,cuidados tristes, asperos remorsos.¡Quantos até nas salas mais alegres,entre as luzes, e as muzicas, e as danças,mas em face de um sôffrego banqueiro,

padecem mais que um reo chegando á fôrcaNão ha mal sem peor; qualquer estadose se compara, é bom; com cara alegresuavisam-se os incommodos; um fardon'um hombro impaciente é fardo e meio.Quem não soffre um descommodo pequenonos grandes morre; um leve desagradodá realce ao prazer quando nos volta.Qualquer estado, e pessimo que seja,tem seu lado risonho; e é da prudenciad'entre os picos da silva achar a amora.Amen.—Brava o latim; dá ceia e cama.—A falta d'esta ceia é novo adubodo almoço de amanhan; e emquanto á cama,¿que outra melhor do que esta em mez de Junho?Nem paredes nem tectos, que nos roubema viração da noite apoz a calma;por entre essa quebrada dos penhascoslá em baixo o mar co'os seus murmurios frescos;sobre nós, e por baixo das estrellas,pendendo como um lustre, este carvalhocravejado de insectos que entre-luzem;dois rouxinoes ao longe; as lageas, mornas.Vê; que soberba camara!; que leitosdesde a origem dos seculos nos guardano seio d'esta brenha a Natureza!—Ao menos não tem pulgas. ¡Xó, canalha!¡leva rumor! é bom pregar de coices.Não durma, Sôr Doutor.

—Não tarda muito

que eu não entre a sonhar ¡Que bellos sonhosnão devem ser os de uma noite d'estas!—Tenha lá mão com isso; o que eu prometto,para espalhar-lhe o somno, é uma enfiadade casos que eu passei na minha vida;tão rara, que podia ir áGazeta!

*

Uma vez ia eu só; era em Novembro;chuviscava e fazia um tal escuroque era metter os dedos pelos olhos.(Lembrou-me esta a proposito da mulaescoicinhar sem causa.) E era bom tempoaquelle; andava Christo pelo mundo;tinha eu mais duros, que patacos hoje,e andava o oiro aos pontapés da gente;tambem... ¡já cá não torna! O grande casoé que n'aquelle tempo era eu solteiro,e rapaz bonitote; e havia muitasque me fizessem fogo; eu cuido, e é certo,que não pelos vintens; nem pela cara;mas isto de casar co'um almocreve,seja elle o diabo dos infernos,parece a todas bem: é uma deliciater o seu homem só de vez em quando,em logar do espião de um pegamaçocom residencia fixa em ar de abbade.Mas... não é bom falar na vida alheia.

*

Como lhe ia contando, era almocreve;chamavam-me oChupista. ¡Oh! que bolaxaque eu pespeguei na cara do coécasque me inventou a alcunha em certa venda!qualquer creança lhe moia os queixos;já lá está onde o pague ¿Onde ia o ponto?¡ah! sim; era almocreve e recoveiro;e andava com dez machos todo o annoa correr quanto valle e monte haviapara cobrar o fôro aos Frades Cruzios.Que isto do fôro é bom, nem que pareça;

uns pagam-lhe borel, outros centeio,queijos, presuntos, lan, cevada, vinho,gallinhame por arte do diabo,ovos, e até o musgo onde se empalham.[1]Não ha n'um pardieiro um desgraçadoque não deva pagar alguma nica.Já vê donde me vinha a minha alcunha;mas sem rasão; é porque andava ás ordens.Tambem já tenho ouvido alguns autores,tal como o meu cunhado, e mais uns certos,que é coisa bem mal feita a tal derriça;Mas bem feito ou mal feito, eu não sou Papa.Vamos cá co'o meu conto.

*

Era uma noite,

cuido que já lh'o disse, ali por Maio,e fazia um luar... que era um consolo.

Eu saio a meu avô; se é boa a estrada,

gósto de andar de noite havendo lua;cá pelas brenhas não, que não sou lobo.Vinha eu mui fresco em mangas de camisa,em cima de uma carga de presuntos,pela estrada real, co'os sete machosa dormitar ao som da chocalhada.Vinhamos caminhando em certo passode quem gosta da noite, ou vem sem pressa,ou de quem traz comida a gente farta.

*

Que lhe digo, em abono da verdade,que servir Santa-Cruz não dá desgosto:pagam bem, fazem festa ao gallinheiro,

vendo os machos no pateo é uma alegria!...¡aquillo até os olhos se lhes riem!dão pinga, e de cear, e muitas vezesvi eu estar vai não vai a dar-me um beijoo Frade gordo que recebe o saque.¡Bom tempo! ¡bom de lei! já cá não torna.Não durma Sôr Doutor.

—Não durmo; acaba.

—¡Acabar! não acabo em toda a noite,nem que estoire a barriga do diabo.Inda eu não comecei. Lembra-me um Fradeque havia em Santarem; tinha um cachaço,...por tal signal que até revia enxundia;¡e era um demo, o maldito, a beber vinho!...¡Mas aquillo! a prégar era uma joia;um sermãosinho d'elle atarantavae punha tudo azul. Tinha a constanciade arrumar prègações de duas horas.N'um que eu lhe ouvi, depois de falar muito...(e olhe, foi tanto, que eu, e muita gente,já tinhamos dormido á regalada)disse muito pausado: «Eu principio.»

Assim faço eu tambem. Todos devemos

tirar das prègações algum proveito.Ora pois, não me durma, e ahi vai a historia;porém tenha lá mão, que a levo errada.

*

Nesse dia á tardinha, na estalagetinha entrado uma velha; era um diabo,que isso... só visto! pequenina, magra,muito preta; era um bilro de pau santo.Tinha pela cabeça um lenço pardoatado pela barba, um manteo ruço,e uma mantinha exotica e de agoiro.

Tinha então uma cara não sei como;nem parecia cara; era um nó cegoque fazia azoar a toda a gente;mas muito experta; e uns olhos como um bixo.¡Tambem aquella rez tinha no corpomuita pipa de sangue de creanças!

*

Cheguei eu á estalage, e ia com fome;vou-me á carga do fôro, agarro uns ovos,mando os frigir com mel, que é papa fina;e então para quem tem de andar de noitedizem que é bom, que livra do catarro,já se sabe com quatro pingarolas.Ia se preparando o meu guizado,e era um cheiro tão bom pela cosinha,que isso não ha dizer. Já dois gallegos,e mais, tinham ceado; andavam tolosa cochichar, e ás voltas pela casa,um olho em mim, outro olho na tigella,e eu muito concho a rir, e a pescar tudo.Basta dizer que me pediram ambosque vendesse um quinhão; ¡e isto em gallegos!

*

Emfim, cheirava bem, e estava d'alma.

Mas o monstro da velha era uma estacaali muito direita ao pé dos ovos,com cada olho aberto, ¡que te parto!Era mesmo um olhar de inveja e zanga.Logo eu tive má fé co'a tal meninaquando ella perguntou quem era o dono.Porém quem mal não usa mal não cuida;sentei-me á meza a codear nos ovos.

Ora agora o vereis: a minha amigaamúa-se n'um canto, mais vermelhaque um pimentão, e eu sempre a observar n'ella.Ferra os olhos em mim com tal quezilia,que a não ser por temer a Deus e a ella,batia-lhe co'o prato pelas trombas.Botava cada lagrima... ¡de punho!dava cada suspiro, a excommungada,¡que punha medo! accendo o meu cigarro,pago, monto a cavallo, e sigo a estrada.

Era já noite escura, e um vento frio

como o gran Satanaz.

*

¿Que diabo é isso?

ressona?; ou já na costa anda algum moiro?—Avante; são as ramas que sussurram.—Pois deixe-as sussurrar. Vinha eu picandopela estrada real por ser já tarde,e a assobiar sósinho otiroliro.Vai senão quando, estacam-se-me as bestas.Á esquerda, como ahi, ficava um monte;d'esta banda um pinhal muito fechado;de sorte que o caminho (e então mui longede todo o povoado) era um soturno,que nem Roldão o andava áquellas horas.Entrei logo a suar e a arripiar-me;e as mulas n'um inferno de pinotessem quê nem para quê; davam taes rinchos,que se fundia o chão; pregavam coices,que assoviavam no ar; ¡que contradança!era uma groza de diabos doidos,e eu mais doido, no meio, á bordoada.[2]

Aqui digo eu como dizia o Fraden'outro sermão de um Santo;não lh'o pintopor não ter um pincel. Mas faça ideiaque tal eu ficaria lobrigando(¡eu te arrenego diabo!) uma luzernaa ir e a vir, á roda, e acima e abaixo,lá longe no pinhal. Que era bruxedotive eu logo de fé; muitos que m'o ouvemriem-se, e tal; deixal-os rir; ha bruxas;que isso sei eu; ¡e então ali! ¡tão tarde!Por força era algum sabbado lá d'ellas,que as taes amigas juntam-se de noitea fazer os seus sabbados, o mesmocomo nós no Natal á meia noite...Ha muita comezana de creanças,sarrabulhos de sangue, cambalhotas,e umas rizadas..... que até Deus se admira.No meio anda um pretinho muito gordo,que é o proprio diabo em carne e osso.Diz então muita coisa a todas ellas,dá-lhe lá seus conselhos, toma contasdo que teem feito, e..... acaba a tal comedia.Untam-se co'uma untura que lá sabem,transformam-se em corujas e mosquitos,o diabo e o lume sorvem-se na terradizendo boa noite até tal dia,e ellas voltam-se a casa a armar já outras.Isto sabia-o eu como os meus dedos.Lembrou-me a tal gulosa da estalage,e então é que dei tudo por perdido.Deitei fóra o cigarro, e entro em voz baixa(¡sempre isto do pavor faz muita asneira!)

entrei eu co'as mãos postas para as mulasa pedir-lhes co'as lagrimas nos olhos,pelas Almas Bemditas, que deixassemtodo aquelle motim, que me perdiam;que fugissem d'ali, que andavam bruxas,e que pé ante pé viessem vindo;que eu promettia uma ração dobrada.Partimos. De repente desembéstad'ao-pé da tal luzerna um certo vultodireito para nós como uma xára.Com seis milhões de grozas de diabos!¿quem havia de ser, senão a velha?Salta n'um pulo a estrada, atrepa ao monte,chega ao cimo, e de lá muito sizudaentra a dizer-me adeus, e (¡t'arrenego!)a fazer-me uma cara dos infernos...—¿E tu viste-lhe a cara em tanto escuro?—Certo é que lembrou bem; tambem agoralá me faz confusão ter visto a cara.¿Escuro? isso era escuro como um prego;não sei como isso foi, mas vi-lh'a, e vi-lh'a;¡assim eu visse Deus! trago-a ainda hojetão bem encasquetada no juizo,que a podia pintar, e era pintura,que urrariam os bois se lh'a mostrassem.Quer escuro quer não, vi-a, e está dito.

*

Mas o bom não foi isso; o mais bonitofoi entrar de repente o gallinhaçonas canastras da carga em cantarolas,a romper, a fugir, e eu pila pilapara aqui, para ali, correndo ás cegassem as poder juntar. Foi se-me a noiten'esta labutação; de cada canto

sentia um cacarejo, ia ás carreiras,gallinha... por um oculo. Já rouco,moido e desesp'rado, ao romper d'alvavejo as minhas senhoras mui contentestodas juntas n'um bando ao pé das mulas.

*

Mas alto; esta é peor. ¿Não vê? repare:¡um clarão para ali!! d'esta nos trincam;¡meu Deus! ¡onde diabo eu tinha a morte!!—Alegra-te, Golgan; ¿que noite é esta?—Para nós ambos de Fieis defuntos.—De San João.

—¡Ah! sim; pois é fogueira,

e não é outra coisa. ¡Ora o diabo!sempre tive uma colica soffrível.Mas vamos nós a andar, se lhe parece.Dizia um Padre Mestre ali do Algarve,n'umas rasões que teve com meu tio,que era barbeiro então, e o Padre Mestreera o Vigario d'elle; e elle, o meu tio,ia fazer-lhe a barba e mais ao preto,que era um tição que só á bofetada;¡mas muito presumido! ¡e então por moçasdava o grande magano um cavaquinho!!...Com que emfim, tinha o Padre este ditado:aonde ha lume ha fumo; e eu então digoque por força onde ha lume ha-de haver gente;e que onde ha gente ha casa; e toda a casatem a sua cosinha, e então ceâmos.E é partir de repente em quanto ha lume.......................................................................................................................

Eis aqui um dialogo de ensanchassem geito, sem sabor, sem fim, sem nexo—grita o leitor perdendo as estribeiras.¿Onde foi isto? ¿ou quando? ¿quem são elles?¿onde vão? ¿d'onde veem?

*

Leitor amigo,

ha duas horas que soubéras tudo,se o cruel arrieiro o permittisse;mas vais sabel-o em quanto enfreia as mulas.Quanto a elle, presumo que o conheces;o nome do outro autor dir-t'o-hei n'um versonão peor que outros muitos portuguezes:Antonio Feliciano de Castilho.Venho do Minho de assistir a bodas;recolho me outra vez á Castanheira[3]a casa do Prior, a fazer versos,beber-lhe o vinho verde, e dormir muito.O theatro da scena é certo montede que me esquece o nome; o anno, e o dia,Mil oitocentos e vinte e oito, á noite,vespera de S. João. Se mais desejas,é perguntar, que eu te respondo a tudo.


Back to IndexNext