XVI

XVIConsta-me que é geral o cuidado que está dando aos leitores o barão de Celorico de Basto.Como este homem captou a benevolencia publica, mórmente a dos maridos, isso não sei eu.Caprichos.Commiseração, lastima e dó, não a faz decerto o marido de Ludovina. Eu de mim, apesar de quem me forneceu os apontamentos d'esta lugubre historia, mais de uma vez tenho dulcificado com as amenidades da linguagem o travor das informações insuspeitas. Faz-me zanga a felicidade d'este marido, se o confronto com outros «minotaurisados» iniquamente.Não transijo com o estupido acaso que travou as relações de João José Dias e Melchior Pimenta. Rebello-me contra a Providencia, se me dizem que a Providencia entregára de mão beijada a rara joia de entre as mulheres a João José Dias.Riquezas amontoadas pelo acaso, pelo trabalho, pela economia, pelo latrocinio, pelo talisman do buril, pelo{162}fornecimento dos açougues humanos na America, essas riquezas, vejo-as, entendo-as, explico-as; porém, mulheres como Ludovina, corpos e almas de tanta perfeição, creaturas que privam com os anjos, assim sacrificadas a um Baal repulsivo de sandice e gordura, isto faz-me materialista, incredulo, e atheu; ou remontado em assomos de espiritualista, confesso a Providencia, mas tão sublime, tão ao longe das pequenezas d'este ponto do mundo, que não cura de saber se o zoupeiro João José casa ou não casa com a sylphidica Ludovina.Não vou de encontro ás crenças de ninguem; Deus me livre. Todavia, raciocinemos, em quanto a razão de si apoucada, não contender com os dogmas indisputaveis da fé.Saibamos, pois, o que é feito da sympathica personagem do barão de Celorico de Basto.Pesquizei miudamente o itinerário de s. ex.ª, e colhi as seguintes informações, que podem auxiliar os alienistas no estudo das faculdades intellectuaes de muitos barões, no primeiro periodo do seu desmancho.Sei que chegou a Baltar bifurcado n'um garrano, e o preto n'outro. Apeou-se ahi para reanimar o animo quebrantado da ensuada cavalgadura, cuja pulmoeira recrudesceu na subida da serra de Vallongo.Simão, vendo que seu amo rejeitava a vitela proverbial da estalagem da terra, e, sabendo qual era o prato favorito d'elle, frigiu quatro ovos com rodelas de cebola, e poz-lhe deante a fritada provocante, cuidando que o acepipe mimoso abriria o apetite do melancolico barão.{163}Baldado empenho, perdidos desvelos, mas não perdidos ovos, que os comeu o contristado preto, asseverando, a cada garfada, que os podiam comer os anjos, para ver se assim estimulava o jejum de seu amo impassivel.Reparou o preto, em quanto encovava o almoço, que o barão, de vez em quando, sacava da algibeira o charuto horrendo, e resmungava em tom soturno:—Foste a minha desgraça, tição negro do inferno!E contemplando-o com os olhos coruscantes de terror, arremessava-o com frenesis impetuosos, e apanhava-o de novo para o esconder na algibeira!«Que diabo é isto, senhor?—perguntára timidamente o preto.—Não vês? é um charuto, que me ha de matar!«Pois v. ex.ª fuma isso! Bote-o fóra, que tem má cara esse demonio!N'estas e n'outras praticas semsaboronas, que não prestam para a tragedia, nem para a farça, chegaram á villa de Torrão, onde o nobre viajeiro apeou outra vez, e escreveu uma longa carta a sua mulher, na qual carta entre muitos outros periodos lamuriantes, dizia que não lhe era possivel fazer passar nada dos gorgomilos para dentro, e protestava deixar-se morrer de fraqueza para acabar mais depressa com o seu remorso. Pedia novamente perdão a D. Angelica, e rogava a sua mulher que tornasse a supplicar em nome d'elle o perdão de Antonio de Almeida. Outro sim, pedia á baronesa que mandasse dizer trezentas missas por alma do defunto Almeida, e outras tantas por alma d'elle{164}testador, quando Deus fosse servido leva'-los á sua presença. O principal da carta guardava as fórmas testamentarias: faltava-lhe, porém, a condicional prescripta do «perfeito juizo e claro entendimento», posse de que o preto duvidava muito, e os da estalagem não duvidaram menos, quando o barão entrou a gritar que era um assassino, e estava já vestido e calçado nas profundas do inferno. Almas boas que o ouviram, tiveram-n'o em conta de possesso, e, se o barão não sáe, era filado pelo padre Anacleto da Sacra Familia, egresso arrabido, que a piedade da estalajadeira chamára para resar os exorcismos ao demoniaco.O barão foi pernoitar na villa chamada Arco: (notem a paciencia de um romancista que sabe do seu officio.)O cirurgião da villa, chamado por deliberação do preto para ver o amo, receitou um cozimento de fel da terra, tomado de manhã, e esfregações de oleo de amendoas na circumferencia do abdomen.O barão mandou-o á fava com louvavel discernimento, e escreveu quatro folhas de papel almaço, que sobrescriptou a sua mulher. O contheudo do aranzel tremendo era o disparate lastimoso de uma cabeça febril, apavorada de visões sangrentas, que o forçavam a estropiar a syntaxe de um modo lastimavel, e a desbancar o methodo do imaginoso Castilho no invento da orthographia.No dia seguinte, ás onze horas da manhã, chegou o barão á sua quinta de Celorico, onde, creio que já se disse, viveram frades n'outro tempo. A entrada do proprietario{165}nos seus dominios foi assignalada pelo primeiro accesso de loucura formal.Á entrada da antiga claustra, estava um S. Francisco de pau com o seu habito venerando.O barão soltou medonhos gritos, clamando que o santo era o phantasma de Antonio de Almeida. A logica do preto foi insufficiente para convence'-lo de que o phantasma era o patriarca S. Francisco. Teimando aquelle em conduzi-lo pela mão ao pé da imagem, afim de convence'-lo com o tacto, o barão assentou-lhe na carapinha dois murros puxados d'alma, com os quaes o paciente preto tambem viu phantasmas luminosos.Os primos circumvizinhos começaram a visitar o genro de D. Angelica, e saíam espantados do disparatar do barão, que descaía de uma conversação atilada para a historia do phantasma infesto, que apparecia na casa que fôra convento.Fechado e trancado no seu quarto, o infeliz maniaco recitava monologos estirados em tom cavernoso. O charuto andava sempre á baila nas apostrophes descompostas, e recebia epithetos que esqueceram a Francisco Nunes.Eram decorridas setenta e duas horas de jejum estreme, quando o barão pediu de comer a altos brados, e comeu porções incriveis de carneiro guizado com batatas, facilitando o transito d'estas com emborcados picheis do verdasco, predilecto seu.Emergindo de uma especie de lethargia de leão sazonatico, o barão urrava como d'antes, recuando ao{166}phantasma, que já não era S. Francisco sómente. Qualquer sombra se lhe afigurava aventesma, ou avejão como elle a denominava. O proprio preto, se lhe assumava de repente á porta do quarto, ou por entre as arvores da quinta, fugia espavorido á gritaria rouquenha de seu amo.Os facultativos chamados pela parentella compadecida capitularam de demencia a cousa, e receitaram as sangrias e os vesicatorios. Os meios persuasivos para o levarem á cama nada conseguiram; os da força seriam inuteis, por que o preto espadaudo e possante, invocava o testemunho da sua cabeça confusa contra o projecto da violencia. Ninguem se queria arriscar ao perigo certo de um murro secco do barão.Contava elle a toda a gente a historia do charuto que já trazia meio desenrolado n'um canudo de papel...Se porém acontecia proferir o nome da sogra, vinham-lhe convulsões, e não acabava o conto. A historia, como elle a contava, fazia rir os ouvintes. Aquelle charuto fôra-lhe enviado pelo diabo em troca da sua alma. O charuto infernal obedecia á sua vontade, e despejava uma bala como uma clavina, em consequencia do que, elle barão, matára um homem, desfechando-lhe o charuto no peito. Acabada a historia entravam as larvas a rodea'-lo, e elle a esconder-se de cócoras atraz dos circumstantes.Entenderam os cavalheiros de Basto que o barão fugira doudo á sua familia, e avisaram a baroneza, lembrando-lhe a conveniencia de o passarem a Rilhafolles,{167}antes que a demencia se tornasse incuravel. Chegou o aviso já quando Ludovina, avaliando pelas cartas a desorganisação mental de seu marido tinha partido para Celorico de Basto.Melchior Pimenta e D. Angelica julgavam temeraria a ida de Ludovina. O pae (Pater is est etc.) queria acompanha'-la, receoso de que a presença d'ella enfurecesse o doudo. A baroneza recusou a protecção do pae, e respondeu á mãe com palavras que a fizeram córar, posto que adoçadas pelo respeito filial.«Quando me casaram com este homem—disse ella—não se estipulou a condição de que eu o desampararia, se elle enlouquecesse. Augmentam os meus deveres, agora que elle mais precisa de uma amiga. A consciencia da minha boa mãe manda-me ir; o coração deseja que eu não vá. Devo obedecer á sua consciencia, para ser cada vez mais digna do seu coração.»{168}{169}XVIIAo cabo de tres semanas, Antonio de Almeida ergueu-se convalescente. As melhoras de D. Angelica augmentavam por egual com as d'elle; mas uma outra qualidade de soffrimento lhe amargurava a alma: era a saudade, o anceio de falar-lhe, a necessidade de recompensa'-lo dos perigos da morte com as suas lagrimas.Almeida, porém, não lhe escrevia, não lhe dizia, ao menos, que o seu amor não succumbira á terrivel catastrophe, que a sua amizade, ao menos, venceria todos os estorvos.«Que mal te fiz?Diz D. Angelica em uma carta que lhe escreve.«Uma grande desgraça aconteceu; mas essa desgraça foi de nós ambos, Almeida.«A bala que te matasse, matar-me-ia. O risco em que a tua vida esteve, queres tu que eu t'o pague com a minha? A morte repelle-me.«Quem me dera, meu Deus, quem me dera morrer,{170}se ainda posso deixar-te de mim uma lembrança triste, meu amigo!«Este teu silencio dóe-me tanto como se te houvesse perdido, e chorado na sepultura. Assemelha-se ao desprezo a tua frialdade. Bem sei que não pódes vir a esta casa, á casa de minha filha; mas que não faria eu para te encontrar, Almeida?«Pois é possivel este desfecho de uma paixão que tantas lagrimas me ha custado! Soffrer vinte e dois annos, envelhecer agradecendo-te os tormentos e os remorsos que me empeçonharam a mocidade, para agora assim ser despedida da tua alma, sem que ao menos me digas até que ponto sou culpada no teu infortunio?«Oh meu amigo, que infortunios seriam necessarios, que flagellos inventaria o inferno para me fazer deixar-te!«Eu tinha d'antes noites desveladas de continuos remorsos—se tinha!... vós o sabeis, Deus meu!—e, ao cabo d'esse martyrio, sondando-me, Almeida, sentia-te mais dentro do meu coração, mais senhor da minha alma!«Conspirassem todas as forças d'este mundo contra mim, fosse eu chamada para dar conta da minha honra, proferiria o teu nome com orgulho, offerecendo o rosto para todos os ferretes da ignominia. Isto assim era amor, amor insensato de mulher que faz da sua deshonra um heroismo!«E tu pagas-me tão cruelmente, meu amigo! Adivinhas que em tres semanas os meus cabellos se fizeram{171}brancos? Assusta-te a presumpção de que a minha face envelheceu? Não pódes já ver em mim signaes desvanecidos da Angelica dos dezoito annos? Tens razão, Almeida; estou velha, mas o coração, unica belleza que eu tinha, unico dote que fazia a minha vaidade de merecer-te, esse, meu amigo, aperfeiçoou-se através de vinte e dois annos, está hoje como não estava quando te assenhoreaste d'elle, aperfeiçoou-se em contacto com os dons sublimes do teu, encheu-se de amor que o ha-de matar, porque já não tenho peito que possa conter tanto fel!«Não estou assim repulsiva que te afugente, Almeida. Não imagines o que fui, nem repares no que sou. Lembra-te só do perdido amor que te dei, mova-te só a lembrança do muito que a minha alma te quiz; acceita-me na velhice uma amizade, que te não será pesada agora, nem embaraçosa para tua felicidade. Diz-me só que o teu silencio não é desprezo nem esquecimento. Poupa-me á horrivel morte que me faz tremer. Se tudo perdi, resta-me o recurso da tua commiseração. Imploro-a de joelhos. Amor, esse sei eu que se não supplica; mas engana-me, Almeida, engana-me, por piedade. Diz-me que uma dedicação de tantos annos não póde acabar com o desprezo.»Ingrato homem!é a exclamação natural com que as leitoras sensiveis exprimem o seu dó.Pois decidem de leve, e accusam com a costumada injustiça. Antonio de Almeida é tão digno de lastima como Angelica. Ora, vejam a seguinte carta que Ludovina{172}lhe escreveu, antes da sua partida para Celorico:«Lembra-me que, sendo eu creancinha, sentava-me no collo do meu amigo, anediava-lhe os cabellos, fazia-lhe muitas meiguices de coração e de astucia, para no fim lhe pedir um brinquedo, um passeio, uma qualquer cousa que o meu amiguinho me não sabia negar.«A creança fez-se mulher, já não sabe ameigar antes de pedir; mas essa falta vem de eu me esquecer das maviosas e candidas palavras que sabia então. O coração é bom como era, a affeição maior e mais entranhada, a confiança de ser bem recebida em meus rogos é mais solida: o que me falta, como já disse, é o tom carinhoso, a meiguice seductora da innocencia.«Não importa. Eu vou pedir ao meu amigo um favor, favor immenso; empenho para alcança'-lo da sua generosa alma todo o amor que me teve, todas as recordações doces que o trazem desde o berço de Ludovina até estes dias tristes que vamos vivendo.«Peço-lhe, meu amigo, que tire da sua virtude as forças que o coração não tiver para cumprir uma supplica que vou fazer-lhe em poucas palavras.«Seja mais forte que a minha pobre mãe. Se vir que ella cáe, sustente-a. Trabalhe comigo para que o segredo d'aquella noite horrivel se não descubra á curiosidade infamadora do publico. Não peço que lhe dê consolações frivolas. Lições de virtude, suspeito que não aproveitam a minha mãe, sendo dadas pelo meu amigo. A razão está muito longe do coração. Penso que{173}minha mãe tomaria como esquecimento, ou desamparo os seus conselhos.«Conhece bem a situação de minha mãe, sr. Almeida? Siga o que a sua honra lhe inspirar. Veja que novas desgraças podem seguir-se. Avalie o que eu tenho feito por ella, e medite na extensão da minha dôr se tudo o que fiz e faço fôr perdido.«Não sei dizer o que me está na alma. Pode ser que eu dissesse o mais confusamente que é possivel o meu pensamento. Lá está o seu nobre espirito para aclarar a obscuridade d'essas palavras.«É necessario grande animo para me obedecer? Soffra, meu amigo, soffra comigo. Olhe que me ha de abençoar, e gloriar-se do seu sacrificio.«Eu parto hoje para Celorico. Meu marido é digno de pena. Vou ajuda'-lo a combater os remorsos que o tem levado ao infortunio da demencia.«Olhe que vida esta, meu amigo! Sirva-lhe o meu exemplo para a paciencia, e para o heroismo. Adeus. Sua amigaLudovina.»Esta carta explica o silencio de Antonio de Almeida. Comprehendeu-a com o juizo prudencial dos quarenta annos. Meditou-a com tanto respeito como admiração. Recolheu as palavras d'ella com religiosa austeridade, e violentou a alma a aceitar o juramento da observancia, com pena de deshonra e villania, se rescindisse alguma vez a alliança que fizera com a que elle, no intimo de seu coração, chamava filha.Eu sei de mais que os amadores, em romance de boa{174}escola, não costumam assim accommodar-se, e obedecer aos ditames da razão. Estas cousas, como ahi se contam, são naturaes e observadas, e sentidas; por isso mesmo desagradaveis, em novella, onde o bom é o inverosimil, e o que mais captiva é o que mais repelle o coração bem formado.Estes amores de Antonio de Almeida e D. Angelica, tractados por imaginação de mais pulso, davam para muito brilhar. Estou a ve'-lo a elle, pelo prisma phantastico dos mestres, erguer-se da cama com a mecha ainda na aberta chaga, um par de pistolas de doze tiros, nas algibeiras, entrar, entrar de cabellos hirtos e rosto livido, no quarto de Angelica, e semi-desfallecido nos braços d'ella, dar largas á parlenda, e vociferar, por entre amorosas phrases, esconjuros odientos contra o genero humano, contra a instituição do matrimonio, e contra os deveres conjugaes! Agora se me afigura vêr Melchior Pimenta assumar no limiar da porta, e embasbacar petrificado diante do grupo escandaloso. Ha gritos, injurias, investidas, até que alfim, levados á puridade para um recanto da casa, ahi combinam um duello de morte, no dia seguinte. Medonha figuração me avulta agora na imaginação de emprestimo Melchior Pimenta, após a detonação de dois tiros, cambaleia sobre as pernas, leva a mão ao seio que espirra golfos de sangue, põe os olhos annuviados no céo impassivel, que contempla o quadro feio, e expede o derradeiro halito, nos braços dos padrinhos.Quantos capitulos desgrenhados cuida o leitor que{175}dava esta parvoiçada imaginativa? Dois volumes em oitavo com seiscentas paginas, afóra o subsidio das reticencias, que, na minha opinião d'outro tempo, foram inventadas para definir a mulher; e na minha opinião d'agora, inventou-as o primeiro litteratico ôco de idéas.Ora, que fiquem com Deus os mestres que tão vistosos de zarandalhas nos embelecam; e, pelo caminho direito, mas escabroso da verdade, vamos entrar na ultima jornada d'esta historia.{176}{177}CONCLUSÃOO barão de Celorico parecia uma creança atemorisada ao pé de Ludovina. Se a perdia um momento, davam os espectros com elle, e lá ia o pobre homem gritando, até se acocorar ao pé d'ella, escondendo-se com a roda do vestido.Bastava a presença de Ludovina para socegar-lhe os accessos de loucura, manifestados em exclamações desatadas, quasi sempre seguidas da apparição do charuto cuja historia elle contava a sua mulher, pelo theor ridiculo que já lhe ouvimos.Acudia Ludovina com o inutil remedio da razão, despersuadindo-o da morte de Almeida. O barão abria a bocca attenciosa, parecia dar mostras de entender e acreditar; o desfecho, porém, do silencio sereno com que a escutava, era ver um novo avejão, que o vinha aterrar por cima do hombro da mulher.Os primos compadecidos, e os facultativos aconselhavam á baroneza o emprego dos meios violentos para o curarem. A grande idéa therapeutica era o caustico e a{178}sangria. A contristada senhora annuiu. Por sua parte, fez-lhe até carinhos para o induzir a deixar-se sangrar. O barão replicava que o queriam matar, e de joelhos pedia á mulher que não o deixasse morrer ás mãos dos seus inimigos, que o perseguiam para lhe roubarem a esposa.Resolveram empregar a força. Dois robustos camponios tomaram a peito a ardua empresa. O cirurgião armado de lanceta esperava o ensejo propicio. O officioso abbade da freguezia encarregára-se de cingir-lhe um lenço sobre os olhos. O juiz ordinario pegava na bacia. Varios primos formavam o corpo de reserva, e a baroneza fugira para não presenciar os extrebuxamentos do infeliz.—Agora!—disse o facultativo.Á palavraagorao barão estava entalado entre quatro braços cabelludos, e o abbade, á rectaguarda do preso, lançava o lenço com mão certeira. O barão arquejava, sem comtudo barafustar entre os membrudos braços. Tudo promettia um propicio resultado, quando o antigo hercules da rua dos Pescadores sacode um solavanco, e dispara dois murros simultaneos nas ventas vizinhas. Umas eram as do abbade, o proprietario infeliz das outras ventas era o juiz ordinario. Investiram de novo contra elle os athletas: cara lhes foi a façanha, porque apararam um choveiro de sôcos tremebundos, indo um d'elles por engano, estoirar na lombada do cirurgião. Rarearam as fileiras. O abbade, o juiz, e os homens de péga, parte dos primos, e o cirurgião coaram-se{179}cabisbaixos pela primeira porta que lhes franqueou a fuga atropellada.N'esse conflicto appareceu Ludovina. O doudo baixou as armas contundentes, os braços iteriçados que vibravam o ar como duas mangueiras de malho. Correu para ella, como a pedir-lhe soccorro, ouviu-lhe as reprehensões com o tremor do medo, e cahiu prostrado da lucta sobre uma cadeira, apegando-se á saia da baroneza.Aqui está o viver da deploravel senhora, no espaço de um mez, em Celorico de Basto. Aquella vida, e as dôres profundas de outras causas, eram o preço por que se fizera, ou a fizeram opulenta aos olhos da sociedade, que, ainda assim, a invejava.O barão desmedrára a olhos vistos. Do antigo João José Dias restava o arcabouço proeminente de angulos osseos. A panda physionomia, tão rubida de nediez chorumenta, chupára-se, entanguira-se, cousa de fazer lastima. Diziam todos que a baroneza, um mez depois, seria uma formosa e rica viuva. Já dois dos primos, morgados empenhados, botavam suas medidas, e porfiavam a conquista. As damas, com palavras francamente grosseiras, iam dando os parabens á baroneza. As que ousaram feri'-la assim, ouviram resposta que lhes fechou para sempre as portas de sua casa.A idéa que dominava o barão era a morte de Antonio de Almeida. Ludovina perdera a esperança de afugentar o phantasma, empregando razões tão convincentes da vida de Almeida como eram mostrar-lhe cartas{180}d'elle, que o barão ouvia ler com o sorriso do idiotismo, percursor de nova berraria.A ultima que Ludovina lera, quasi certa de que seu marido não a percebia, foi a seguinte:«Minha amiga. É já bastante o numero dos infelizes que põem os olhos lagrimosos no abrigo consolador de Ludovina. Somos já muitos os desamparados da esperança e da alegria. D'aqui até ao fim da vida é soffrer, e chorar de modo que o mundo nos não veja as lagrimas: é preciso que o coração as verta e as absorva; é necessario suffocar os gemidos, e entreter as dôres, cavando a sepultura.«Curta será a minha existencia. Quarenta e quatro annos, e a saude alquebrada, e o coração feito pedaços, é um bom agouro, não é? Mas, para Ludovina será extensa a estrada da amargura. Tem vinte annos, minha amiga; vejo-a na aresta do precipicio, a contemplar-lhe a profundeza, e ahi se lhe hão de prolongar as horas como as do desterrado. Meu pobre anjo! quem lhe vaticinaria ha dez annos este infortunio?«A santidade do seu viver devia ser recompensada aqui; mas a fé, a religião dos desgraçados, ensina que o premio das grandes virtudes não póde ser dado n'este mundo porque não ha mãos puras que possam tecer a corôa do martyrio. Espere, Ludovina, com os olhos no céo, e a mão sobre o seio para esmagar os impetos do coração, que tem accessos de raiva blasfema.«Obedeci-lhe, Ludovina.«Comprimi, abafei, matei a essencia da minha vida,{181}o sentir que m'a fazia preciosa. Sou para sua mãe uma memoria. D'ella tenho só o nome escripto no coração, como o epitaphio do affecto que ali morreu recalcado.«Deu-me um calix, Ludovina. Bebi-o de um trago. Se tem outro, offereça-m'o; toma'-lo-hei de joelhos.«Pergunta-me qual é o meu viver?«É isto, minha amiga. Não sei dizer-lhe que turbação afflictiva me embaça o animo. Em redor, todos os meus horisontes são tenebrosos. A mesma sepultura perdeu para mim os encantos de repouso, esse acabar que é o porto seguro de todos os naufragos d'este horroroso pego.«Poderei fazer-lhe entender, Ludovina, um quadro triste da minha imaginação cançada de soffrer? Vejo dois vultos em pé, taciturnos, sombrios, com os olhos cerrados, travando-se as mãos com a gelida immobilidade de duas estatuas. Parou a vida externa n'estes dois entes. Uma tremenda agonia lhes despedaçou a maior parte do coração; o remanescente são fibras de ferro que resistem ao veneno e á morte. Ao pé d'elles está a sepultura de ambos, e o anjo da consolação, sentado n'ella, alimenta ahi a alampada da esperança.«Adeus, minha santa amiga.»Esta carta reclamaria notas explicativas, se o entendimento do leitor não traduzisse a singelo o que ahi se esconde no figurado da linguagem. A alliança de Antonio de Almeida e Ludovina, sobre um contracto de honra tão melindrosa, não podia ser tractada com mais recato e pejo, de ambas as partes. Entende-se o melancolico{182}debuxo que attribulava o espirito de Almeida. Angelica era a companheira d'esse homem que lhe dava as mãos á borda da sepultura. A alampada da esperança alimentada pelo anjo da consolação, era o fito da morte d'onde ambos não desfitavam os olhos, como a naufragos succede, se no horisonte se lhes recorta um rochedo salvador.Ludovina entendeu o viver de sua mãe, e pungidas lagrimas essa carta lhe desentranhou do coração. Chamou-a para si com grandes demonstrações de saudade. Pediu-lhe que fosse alliviar-lhe o peso da cruz á qual já não bastavam seus hombros. Dava-lhe paciente conta do seu viver ao pé do barão que noite e dia bramava contra os espectros, e já dava aos facultativos receio de morrer desvariado, a mais acerba de todas as mortes.D. Angelica, fechada em seu quarto, realisava a imagem que a phantasia de Almeida adivinhára. Sombria, inerte, reconcentrada, impassivel a cuidados, carinhos, e desvelos de Melchior Pimenta, apenas dizia que estava esperando a morte, e repellia com desabrido enfado os lenitivos de quem quer que fosse.Nunca mais escrevera a Almeida, e á filha eram mais as lagrimas que as lettras. Não era a sua uma d'essas dôres que desabafam. Sentia-se tomada de vergonha, se o coração a mandava abrir-se em desafogados prantos com Ludovina. Sentia-se ferida de aborrecimento, se não odio, quando o marido, mais simulado que dorido, lhe repetia as consolações frivolas de quem não comparte as penas.{183}Á saudosa carta que a chamava a Celorico, D. Angelica respondera que já não tinha vigor que a levantasse do seu leito. Supplicava a Ludovina que lhe perdoasse a ella como causa dos seus tormentos, e lhe acceitasse como reparo do seu pouco amor maternal os amargos transes que lhe estavam desfazendo o coração fibra por fibra.No entanto, disseram os medicos á baroneza que a apparição d'esse homem, que o barão julgava sua victima, poderia recobrar-lhe a razão, desopprimindo-a de phantasmas e remorsos, causas principaes da demencia.Ludovina communicou a Almeida as esperanças dos medicos, sem pedir-lhe o sacrificio de se verem.Almeida foi a Celorico de Basto, e encontrou ao pé da baroneza Melchior Pimenta.Ludovina turvou-se da surpresa, e assim denunciou aos olhos do pae o sobresalto em que a puzera a apparição do amante.Melchior Pimenta, forte da sua indignação, insultou Almeida, exprobrando-lhe a pertinacia da infamia, e ameaçando-o com a morte, se elle não sahisse immediatamente d'aquella casa.Ludovina cobrando forças, disse que só ella tinha direito de expulsar alguem d'aquella casa. Encruou-se a sanha de Melchior, vociferando injurias contra a filha, e provocações ao hospede silencioso. E saíu escandecido de raiva. Almeida quiz segui'-lo, com sereno gesto, sem assomos de colera, nem proposito de vingança. Impediu-o Ludovina com lagrimas e gemidos que irritavam{184}as iras paternas. Bem se via que não estava ali um pae; e, se estava, não era por certo Melchior Pimenta.Este conflicto atalhou-o o barão. Seguiu-se uma scena de effeito dramatico. O barão recuava diante de Almeida que lhe extendia a mão. Ludovina segurava o marido, pedindo-lhe que acceitasse a reconciliação que Almeida lhe offerecia. Este com palavras afectuosas lhe pedia a sua estima, e o esquecimento da passada offensa. O barão, ora espavorido, ora risonho, alternava os olhos entre Almeida e Ludovina.O leitor já sabe como no theatro se recupera o juizo. Se é mulher a douda, rigorosamente desgrenhada esfrega os olhos, atira com as madeixas para traz, e dá fricções seccas ás fontes com frenesi; se, homem, abre a bocca, espanta os olhos, soleva o peito em arquejantes haustos, despede o grito agudo obrigado a ambos os sexos, e está pessoa de juizo, capaz de casar, que é quasi sempre a peor das doudices em que os auctores fazem cahir os seus doudos, restaurados para a razão.Pois o barão de Celorico não se curou por esse theor. Os áditos da razão estavam cerrados de modo que levou longo tempo a despedaça'-los. A continua assistencia de Almeida ao pé do leito, e as continuadas insinuações de Ludovina, conseguiram rehabilitar-lhe o juizo, mas vagarosamente. O barão parecia emergir d'um pesadello atroz quando reconheceu Almeida. Não houve exclamações nem abraços de pé atraz,secundam artem. Lagrimas, sim, as da baroneza, cujo contentamento desmentia as conjecturas dos primos que a imaginavam lograda{185}nas suas ancias de viuvez. O custoso, depois, foi rebocar os estragos que a demencia fizera no corpo do barão. Foi longa a convalescença. Almeida quiz despedir-se; mas o enfermo erguia as mãos supplicantes pedindo-lhe que o não deixasse.Melchior Pimenta, de volta de Celorico, contou a sua mulher o escandalo que presenceára. Repetiu contra Ludovina as injurias que lhe dissera em face. Protestou esbofetear e apunhalar Almeida na presença de testemunhas que depuzessem no processo da sua honra, e impoz, com auctoridade, a sua mulher a sahida immediata da casa da adultera.D. Angelica ergueu-se impetuosa e terrivel, exclamando:—A adultera sou eu!—Que dizes, Angelica?!—bradou Melchior.—Adultera sou eu. Ludovina encobriu a minha deshonra com a sua virtude. Os nomes insultuosos que lhe dás, repara bem, Melchior, e ve'-los-has estampados no meu rosto. Se queres lavar com sangue estas manchas, arranca-m'o do seio!E assim falando, tirava o lenço que lhe velava os hombros, offerecendo o peito.—Endoudeceste, minha querida Angelica?—exclamou Pimenta—Faltava-nos esta desgraça! Estás douda! maldita seja tua filha que te levou a esta situação!«Não estou douda, Melchior! não estou douda! Estou moribunda, e não quero deixar infamada a teus{186}olhos a minha filha. Se eu te pedisse perdão do meu crime, acreditar-me-ias?—Não, não. Tu és uma esposa virtuosa, Angelica! Diz o que quizeres para salvar Ludovina, que eu não te creio. Reprovo essas demasias de amor, que ella te está pagando com o amante ao pé de si.«Melchior!—disse Angelica com firmeza e gravidade—A tua filha está innocente; a amante de Antonio de Almeida sou eu! Não me perdôes, vinga em mim a tua deshonra, porque o perdão não t'o peço. Sabias, quando me acceitaste como tua, que eu não podia pertencer-te. Collocaste ao meu lado o homem que me fazia odiosa a tua baixeza. Nunca me perguntaste se era verdadeira a carta que te escrevi em solteira, pedindo á tua commiseração que me deixasses. A mulher que fez isto, não pede perdão. Revolta-se com a coragem do desespero, e deixa-se morrer. Confesso o crime para salvar minha filha. Julga-me tu agora, mas vae pedir perdão áquella santa que quiz poupar tambem a tua dignidade.Melchior Pimenta saíu do quarto de sua mulher.Para se armar do punhal de D. Jayme de Bragança, e do infante D. João?Para se dar um tiro no ouvido?Para mergulhar da ponte-pensil, ou despenhar-se dos Arcos-das-Virtudes?Para scismar e endoudecer?Não, senhores.Melchior Pimenta foi para a Alfandega, jantou no{187}hotel de Miss Mery, e jogou o voltarete até ás onze horas na Assembléa Portuense.No dia immediato, visitou sua mulher, e recommendou-lhe que desse um passeio no jardim que estava o dia agradavel. Ás tres horas procurou-a para jantar ao pé d'ella. Disseram-lhe que a senhora tinha sahido n'uma cadeirinha, e deixára uma carta para seu marido.Não vi esta carta, mas infiro o contheudo pelos successos subsequentes.D. Angelica obteve, vinte e quatro horas depois, licença de seu marido para entrar n'um convento, situado n'um ermo do Minho. D'ahi escreveu a sua filha, pedindo-lhe uma esmola para sustentar-se, visto que o trabalho não bastava para as suas pequenas necessidades.Ludovina apressou a sua volta para o Porto. Obteve licença para visitar sua mãe, e demorar-se no mosteiro por tempo indeterminado. Acompanhou-a o marido e deixou-a com a certeza de a trazer comsigo passados dias.São decorridas dois annos. A baroneza de Celorico ainda não sahiu do convento. O barão soffre resignado a certeza de que sua mulher não sahirá jámais.A opinião publica diz que Ludovina merece louvores por não ter o descaramento petulante de apresentar-se como outras muitas, incursas no mesmo peccado, e declara a alta virtude de D. Angelica, mãe amorosa que deixa a sociedade para se inclausurar com a filha desamparada.{188}Melchior Pimenta está bom, e é commensal do barão.Antonio de Almeida encetou, ha dois annos, uma longa viagem d'onde não voltou ainda.O bacharel Ricardo de Sá comprou mais tres bengalinhas, e dá a ultima demão ao seuSECULO PERANTE A SCIENCIA.São hoje 15 de fevereiro de 1858.O unico personagem morto d'esta historia é Francisco Nunes. Expirou ao cabo de uma violenta apostrophe, expedindo o derradeiro golfo de sangue com o epitheto mais fulminante que a sua cólera lhe suggeria. Matou-o o contracto do tabaco.FIM{189}{190}{191}SUPPLEMENTOPREFACIOO romance estava acabado. Os meus numerosos admiradores, que eu regalára com a leitura d'essas duzentas paginas, haviam asseverado, com a costumada franqueza, que este volume era a flor da virtude a rescender perfumes de deleitosa aspiração para as almas. Um d'esses, cujo voto muito respeito pelamassade conhecimentos queamassouem Frederico Soulié e Alexandre Dumas, accrescentou que o romanceO que fazem mulheresera a flor do meu talento. Cheio de encantadora modestia, perguntei se a virtude da minha heroina precisaria de mais tres ou quatro capitulos para ser vista a toda a luz celestial com que a Providencia lhe irradiára o espirito. Disseram-me, á uma, que não escrevesse mais uma só linha, que deixasse á perspicacia das leitoras o desvelarem mysterios do coração, que eu não saberia illuminar sem profana'-los, que deixasse ás lagrimas das almas sensiveis o fecho d'esta historia, que esperasse, finalmente, alguns annos, para então escrever a segunda parte da biographia da baroneza de{192}Celorico de Basto, que talvez os collegios de meninas adoptassem para uso das educandas.Convenci-me d'isto, e mandei ao meu editor o romance, com a prophecia de ser este um livro cuja decima edição apenas bastaria para aquietar as ancias d'um terço do paiz. Disse-me em linguagem fria o meu editor que uma virtude em duzentas paginas por quinhentos réis era, pequena de mais para o comprador que prefere um livro em trezentas. Redargui-lhe, com argumentos de grande calibre logico e moral, que a unidade da acção era inatacavel no romance.Item: que o estirar uma idéa para avolumar a lombada de um livro era chatinar a mercancia litteraria.Item: que muitas capacidades largas e agudas, ás quaes eu submettera o meu manuscripto, se compromettiam a dizerem que este livro era a quinta essencia de tudo que se tem escripto acerca das mulheres virtuosas desde Sancta Agatha até ás Virgens do Thirol.Chamei em meu abono Aristoteles, Longino, e mais alguns legisladores que eu não conhecia, para convencer o interprete do publico de que as raias do meu trabalho de chronista não podiam transpôr as da realidade. Por quanto:Não é inventada esta historia;Não quadram os incidentes imaginados com o essencial de um conto verdadeiro;Não tolera um leitor sisudo que se lhe encampe á credulidade enfadonhas narrativas que agorentam a verosimilhança, ou enfastiam a attenção benevola.{193}Após uma renhida desavença da qual ia resultando a perda do manuscripto, que eu insensatamente sacrificaria ao meu bem entendido orgulho, viemos ao accordo de se publicar o magro volume com grandes margens, grandes entrelinhas, exuberancia de reticencias, e alguns juizos criticos dos meus amigos que serviriam de indigitar ao leitor em que paginas estão as bellezas que elle não viu.Concertados assim, estava o typographo com a ultima pagina, quando eu fiz uma excursão ao Minho, e encontrei no Senhor do Monte o cavalheiro que me contára o contexto d'este romance, nos ultimos dias do mez de janeiro proximo passado.A nossa conversação de algumas horas vae ser trasladada em paginas supplementares.Antes, porém, de entrar n'essa tarefa que realmente me dóe, seja-me permitido verter uma lagrima no degrau do altar onde eu collocára Ludovina, onde ella se collocára, e de onde se me afigura que...Não dou ansa a juizos temerarios do leitor. Leiam, e decidam se a virtude perfeita não é uma utopia impossivel n'um livro que tiver mais de duzentas paginas.Cumpre dizer quem é a pessoa, destinada pela providencia dos romances a figurar n'este supplemento.V. ex.asde certo a conhecem. Viram-na já muitas vezes no theatro, nos bailes, e na missa dos Congregados, na dos Clerigos, na do Carmo, em todas as missas classicas em que se vê tudo, e se ouve tudo, menos o padre e a missa.{194}Eu dou os signaes do homem.Tem uma bella cabeça, uns bellos cabellos, uns bellos olhos... Já conheceram?De vinte leitoras, dez estão na duvida. Se v. ex.ª é uma das dez perplexas, desperte as suas reminiscencias com os seguintes traços:O nariz é a feição mais caracteristica d'este homem. Na base tem um promontorio, no centro uma protuberancia, na ponta uma recurva como o bico de um passaro. Chamam-se estes narizesBourbons. Agora conheceram-no todas. Na escola dos physionomistas, este nariz tem significações espantosas. É um nariz que individualisa um homem; é um livro aberto; é o porta-voz dos segredos da alma; é em summa, uma biographia.Foi o que me approximou d'este homem. Se a natureza lhe désse a elle um nariz vulgar, o leitor não se decidiria na leitura d'este romance. Vejam de onde eu tirei um livro! O nariz de Cyrano de Bergerac foi causa de vinte duellos de morte. Do nariz do meu amigo podem pender vinte volumes.Fascinou-me, e fui eu que me offereci á sua amizade. Achei-o um homem raro, sabendo profundamente a vida de v. ex.as, quero dizer, todas as virtudes que v. ex.asescondem, todas as perfeições que a sociedade não vê, sem lh'as explicarem.É provinciano o sr. Marcos Leite: dê-se-lhe este nome. Visita o Porto duas vezes cada anno, uma no carnaval, outra na estação do theatro italiano.Consta que nunca teve namoro que o entretivesse{195}nas duas estações. O nome da mulher, que adora, até á demencia, no carnaval, quasi sempre lhe esquece na Paschoa seguinte. Em compensação, as mulheres rejeitadas, quando o leão volta das suas selvas nataes, apenas dão fé que Marcos está no theatro das suas façanhas pelo estrupído extraordinario do cavallo, que elle atira em arremettidas e sacões pelas ruas mais sonoras da cidade eterna. A não serem as mulheres o que providencialmente são, Marcos Leite seria prea dos dentes do remorso, ha muito tempo. Não ha uma só das esquecidas damas, que lhe não incendiasse no mais intimo do peito um amor eterno... de tres semanas.Algumas possuem cartas de uma paixão tão frenetica, que as exclamações de Werther, comparadas com ellas, são frias e chatas como um rol de roupa suja.Foi, pois, este cavalheiro, respeitavel em todos os sentidos, que me contou o essencial da historia do barão de Celorico, accrescentando que tinha visto duas vezes de relance, n'uma grade d'um mosteiro do Minho, proximo ao seu solar, a figura celestial da baroneza, e a sympathica e ainda juvenil physionomia de D. Angelica.Por essa occasião, lhe perguntei eu se traçava alguma rede á virtude heroica de Ludovina. Respondeu-me o narrador, que não ousava escalar uma fortaleza em cujo assalto era forçoso triumphar, ou morrer. Accrescentou, que, nem ainda cooperado por duas primas que tinha no tal convento, elle se animava a revelar a Ludovina uma affeição, que, desprezada, se tornaria em loucura furiosa.{196}Pareceu-me sensata a resposta de Marcos. Que homem conseguiria alvoroçar aquelle coração, que eu imaginava esmagado sob a pressão de uma virtude exaltada?Decorreram quatro mezes, e, como disse no prefacio, fui, ha dias, surprehendido no Senhor do Monte por Marcos.Conhecem aquelle saudosissimo arvoredo, que rumoreja na sumidade da serra, e aquella fresca alameda que está tapetando a entrada para amãe d'agua? Foi alli que o encontrei, encostado á mesa de pedra, lendoLES REVERIESde Senancourt; leitura que eu aconselho a todas as pessoas que precisam idealisar um mundo medio entre o asquerosamente lôrpa em que vivemos, e o absurdamente inintelligivel que nos promettem as religiões.Quando me viu, Marcos Leite correu a abraçar-me, exclamando:«O meu coração tinha-te invocado. Abominaria quantos homens e mulheres me apparecessem aqui, menos tu, e ella...—TemosELLA!«E tu vieste para este sitio com o coração vazio?!—Graças a Deus, não, meu poeta. Trago tecidos, membranas, valvulas, ventriculos, veias, arterias, nervos, sangue, etc. O meu coração está funccionando com a mais physiologica das regularidades. Respiro desafogadamente, e completo a digestão de uns succulentos pedaços de boi, que tritureisub tegmine fagi.{197}«Se vens assim, melhor fôra que não viesses. Eu queria que me entendesses, como creio que me entendem, ha tres dias, estes rumores da floresta. Escuta! Vê tu se este ermo, se este sussurro, que parece o echo esvaido de um mundo remoto, não te está dizendo que o amor é a vida, que a esperança é a felicidade, que debaixo do céo ha só tres cousas grandiosas, o homem e a mulher um para o outro, e a soledade para ambos! Não digas alguma blasphemia! Esse sorriso offende, e é um sacrilegio aqui. Agradece ao Senhor que nos dá isto, esta fontinha, a fresquidão d'estas sombras, o murmurio d'estas arvores, o azul do céo, lá em baixo a melancolia poetica do valle, o som do campanario rural que repercute na alma...Marcos Leite tinha razão. Não pude contrafazer, por mais tempo, a minha indole triste. Entrou-me a saudade no coração, aninhando-se no pequeno recinto não tomado ainda pela desesperança. Lancei os olhos ao livro em que lia Marcos, e recolhi á alma as seguintes linhas:La paix jointe aux lumières sera le partage d'un homme dans toute une province. Quant au contentement, on le cherche, on l'espère même; peut-être l'obtiendrait-on, si la mort ou la décrépitude ne survenaient auparavant... La vie était bonne, et on lui trouve encore des douceurs que la raison ne saurait méconnaître. Mais il importe que l'imagination, renonçant aux écarts, et servant elle-même d'asile contre les peines, anime seulement le repos que l'âme peut conserver quand elle est restée pure.{198}«Que é isto?—perguntei eu tomando de sobre a mesa um papel escripto a lapis.—Versos, meu caro; linhas, é melhor dizer linhas. O coração mais poeta creio que é o menos metrificador.«Póde saber-se que anjo te roçou a fronte com a aza?—Não adivinhas quem eu poderei amar assim? Ha uma só mulher n'este mundo.«A baroneza?—Com que frialdade proferes esse nome! Chama-lhe antes Ludovina...«Lê os versos.Marcos declamou com as mais maviosas modulações do sentimento a seguinte poesia:A LUDOVINAQuem ha ahi que possa o calixDe meus labios apartar?Quem, n'esta vida de penas,Poderá mudar as scenasQue ninguem pôde mudar?Quem possue n'alma o segredoDe salvar-me pelo amor?Quem me dará gotta de aguaN'esta angustiosa fraguaD'um deserto abrasador?{199}Se alguem existe na terraQue tanto possa, és tu só!Tu só, mulher, que eu adoro,Quando a Deus piedade imploro,E a ti peço amor e dó.Se soubesses que tristezaEnlucta meu coração,Terias nobre vaidade,Em me dar felicidadeQue eu busquei no mundo em vão.Busquei-a em tudo na terra,Tudo na terra mentiu!Essa estrella carinhosaQue luz á infancia ditosaPara mim nunca luziu.Infeliz desde creança,Nem me foi risonha a fé;Quando a terra nos maltrata,Caprichosa, acerba, e ingrata,Céo e esp'rança nada é.Pois a ventura busquei-aNo vivo anceio do amor.Era ardente a minha alma;Conquistei mais d'uma palmaÁ custa de muita dôr.{200}Mas estas palmas taes eramQue, postas no coração,Fundas raizes lançavam,E nas lagrimas medravamCom fructos de maldição.Em ancias d'alma, a venturaNos dons da sciencia busquei.Tudo mentira! A scienciaEra um signal de impotenciaDa vã razão que invoquei...Era um brado, um testemunhoDo nada que o mundo é.Quanto a minha mente erguiaTudo por terra cahia,Só ficava Deus e a fé.Lancei-me aos braços doEterno Com o fervor de infeliz;Senti mais fundas as dôres,Mais agros os dissabores...O proprio Deus não me quiz!Depois, no mundo, cercado,Só de angustias, divagueiDe um abysmo a outro abysmoPedindo ao louco cynismoO prazer que não achei.{201}Tristes correram meus annosNa infancia que em todos éBella de crenças e amores,Terna de risos e flores,Santa de esperança e de fé.Assim negra me era a vidaQuando, ó luz d'alma, te viBaixar do céo, onde, outr'ora,Te busquei mão redemptoraProcurando amparo em ti.Serás tu a mão piedosa,Que se estende entre escarcéosAo perdido naufragado?Serás tu, ser adorado,Um premio vindo dos céos?E eu mereço-te, que immensoTem já sido o meu quinhãoDe torturas não sabidas,Com resignação soffridasNos seios do coração.Que ternura e amor e afagosToda a vida te darei!Com que jubilo e delirio,Nova dôr, novo martyrio,De ti vindo, acceitarei!{202}Se na terra um céo desejasComo o céo que eu tanto quiz,Se d'um anjo a gloria queres,Serás anjo, se fizeres,Contra o destino, um feliz.Faz que eu veja n'estas trevasUm relampago d'amor,Que eu não morra sem que diga:«Tive no mundo uma amiga,Que entendeu a minha dôr.«Deu-me ella o estro grandeDas memoraveis canções;Accendeu-me a extincta chammaDa inspiração que inflammaRegelados corações.«Os segredos dos affectosQue mais puros Deus nos deu,Ensinou-m'os ella um diaQue d'entre archanjos desciaCom linguagem do céo.«Os mimosos pensamentosQue, de mim soberbo, leio,Inspirou-m'os, deu-m'os ellaRecostando a fronte bellaSobre o meu ardente seio.{203}«Morta estava a phantasiaQue o gêlo d'alma esfriou;Tinha o espirito dormente,Só no peito um fogo ardente,Quando o céo m'a deparou.«Agora morro no gôsoD'uma saudade immortal.Foi ditosa a minha sorte;Amei, vivi: venha a morte,Que morte ou vida é-me igual.«Igual, sim, que o amor profundo,Como foi na terra o meu,Não expira, é sempre vivo,Sempre ardente, e progressivoEm perpetuo amor do céo.»Assim, querida, meus labios,Já moribundos, dirão,Nas agonias supremas,Essas palavras extremas,Do meu ao teu coração.Sabes quem é, n'este mundo,Quasi igual ao Redemptor?É quem diz: «Sou adoradaPela alma resgatada,Por mim, das ancias da dôr.»{204}«Por ora, vejo que supplicas amor—disse eu.—A tua poesia é um requerimento que póde ficaresperadomuito tempo no gabinete do despacho.—Fala d'outra maneira... Eu soffro demais para te achar graça. Não é um requerimento esta poesia, meu amigo, é uma expansão de reconhecimento. O amor ditoso chega a entristecer. Tenho a segurança, a segurança que nos dá o coração, de que a alma de Ludovina me pertence.«Por consequencia tens tudo... Enganei o publico...—Como enganaste o publico?!«Puz em romance a historia que me contaste, e disse que a baroneza era uma rocha inabalavel de virtude.—E receias mentir?!«Eu já sabia que me não acreditavam... Pois tenho pena, palavra de honra! A meiga imagem de Ludovina havia de ser sempre nova e pura na minha imaginação, como o eterno typo das duas formosuras enlaçadas, a do corpo e a da alma. Rasgava o romance, se elle não estivesse já no prelo, e o dinheiro d'elle transformado n'um cavallo. É tarde para reivindicar a minha honra de romancista ingenuo ou palerma, que anda n'este mundo a querer provar, que as onze mil virgens nunca de cá sahiram.—Pois que esperavas tu de Ludovina?«Que morresse abraçada á sua cruz, que désse o exemplo da esposa martyr, da filha sacrificada ao bom nome de sua mãe; que sahisse apenas da sua cella{205}para redobrar de paciencia aos pés do altar; que nunca consentisse que corações degenerados como o teu, e o meu, concebessem a esperança de profana'-la.—Estás a fazer a alta comedia, ou crês sinceramente que Ludovina degenera? Põe de parte a consciencia de romancista, e deixa fallar a do ente pensante e racional,—e se tu e eu somos indignos de aspirar ao amor da baroneza, crês que um outro, cahindo das nuvens determinadamente por ella, a absolveria do crime horrivel de ter coração?«O coração de Ludovina estava cheio de sensações, que o faziam participante do amor divino. Que precisão tinha ella do amor dos homens? Estragou uma bella biographia, essa mulher. Talvez fosse unica, e apontada á posteridade como molde. Era uma virtude original; converteu-se em um vicio vulgar. A minha heroina fez bancarrota, falliu, e deixou-me em hypotheca a palavra que eu dei a paginas 170, pouco mais ou menos, de que eram solidos os fundos em virtude, e grandes os haveres em creditos d'esta mulher inimitavel, typica, e biblica, deixa-me dizer assim, porque ella merecia todos os epithetos levantados e grandiosos.—Mas que fez a pobre senhora para descredito tamanho?—O que fez?! é boa! auctorisou-te a canta'-la em quintilhas! Um homem de mais alma que tu és, vasaria a inspiração em versos endecasyllabos. Uma mulher assim amada em redondilha maior! É horrivel e immoral!{206}—Bem! Ainda agora te comprehendi. Estás zombando com ella e comigo, e não sei se com o publico, a quem prometteste uma virtude enfadonha e monotona, como deve ser o teu romance, se te não salvares com a rapida narração que te vou fazer da mais sublime virtude, da virtude por excellencia de Ludovina.—Qual virtude?—A de me receber dez cartas, escriptas com o sangue do coração, e... não me responder a nenhuma.—Mas tu disseste-me ainda agora que tinhas a segurança de que a alma de Ludovina te pertence.—E tenho.—Não te respondendo ás tuas cartas? Não entendo.—Não me respondeu a dez cartas...—Bem.—Mas eu escrevi-lhe vinte, e ella respondeu á ultima.—Ah! isso então muda de figura... E a resposta foi tal que te deu a segurança de seres o proprietario do coração da baroneza!...—Queres ver a resposta? Franqueza e confiança. Lê lá.Era um bilhete que rezava assim:«Tenho recebido por delicadeza as suas cartas. Basta dar-me v. ex.ª o nome de amiga para que eu as aprecie. Não me julgava na obrigação de responder. Hoje, porém, que v. ex.ª me lembra esse dever, peço perdão da falta, e castigo-me devolvendo-lhe as suas vinte cartas,{207}de cuja posse sou indigna, porque não soube corresponder-lhe.«Com verdadeira estima, attenciosa veneradora de v. ex.ª—Ludovina Pimenta.»—Isto é lisongeiro!—disse eu sorrindo.—Com um documento d'estes, é indispensavel a posse que tomaste do coração da baroneza. Eu creio que podia ser assim o proprietario mais abastado do genero...—Espera lá.. Ainda tenho outros titulos da propriedade. Já agora has-de examina'-los todos, e dizer-me no fim se os meus direitos serão litigiosos. Recebi as vinte cartas, e escrevi mais dez. Que dez cartas! Que estylo! que dez causticos para fazerem supurar um coração!—Deixas ver a resposta?—A resposta foram dez cartas.—Incendiarias?—Que duvida? Eram as minhas, lacradas, sem um vinco, direitinhas como foram!—E teimaste?! Seria necessario muito despejo e indignidade!—Não teimei: cahi doente, tive febre, assustei a minha familia, e fiz que me chorassem as minhas primas, companheiras conventuaes da baroneza. Ao nono dia de enfermidade, a medicina suspeitou que o sangue me refluía á cabeça. Correu que eu enlouqueceria, ou morreria. A baroneza mandou saber de mim duas vezes n'um dia.{208}—Oh! isso é muito! No dia immediato foste agradecer-lhe o cuidado...—Não fui, não podia ir. O abalo, a certeza, de que era amado, exacerbou-me a febre, escaldou-me a imaginação a ponto de delirar. Durante um curto intervallo de tranquilidade de espirito, escrevi á baroneza uma duzia de linhas quando muito. Dava-lhe parte de que tinha a morte sentada á cabeceira do meu leito de agonias; dizia-lhe que pediria por ella ao Senhor, se a gloria celestial me fosse dada como premio do muito que soffrera, e da muita paciencia com que soffrera na terra os rigores de uma alma que não quiz comprehender-me; perdoava-lhe com a mais evangelica generosidade de moribundo, e emprazava-a para me restituir o coração na eternidade.—Isso devia fundir em lagrimas de remorso a pobre senhora.—Estás ludibriando a minha angustia?—interrogou Marcos Leite com ironico enfado.—Não ludibrio a tua angustia, faço a apologia da tua astucia. Tu não tinhas febre, nem vias a morte á cabeceira do teu leito, fala a verdade.«Tinha febre, palavra de honra, porque sou muito nervoso; e se me persuado que tenho uma ponta de febre, sinto-me logo em labaredas. Tenho tido vinte e tantos d'esses typhos, com as vinte e tantas mulheres que tu sabes. O que vale é ser rapida e segura a convalescença.{209}—Convalesceste depressa? Já vejo que o teu bilhete conseguiu...«Um triumpho!—Como um triumpho?!«Uma gloria imprevista, um lance tão arrojado de venturas, que ainda agora me salta o coração no peito.—Guarda os extases para o fim, e vamos ao ponto.«Mandou-me visitar por um medico do Porto, que fôra de proposito medicar D. Angelica.—Consiste n'isso o triumpho?!«Que mais querias tu!—Mais nada... A um doente a maior prova de estima que póde dar-se é mandar-lhe um medico.«O peor foi dizer o doutor que a minha enfermidade era imaginaria. Mandou-me dar longos passeios a cavallo, e a pé, comer alimentos pouco volumosos e muito substanciaes, e dormir o maximo numero de horas que pudesse. Reflecti-lhe que sentia a morte no coração; a isto redarguiu, sorrindo, o medico matreiro, que verificando-se a morte d'esta viscera, entregasse ao estomago o exercicio das attribuições do coração. Não sei o que elle foi dizer á baroneza: é certo que os cuidados da parte d'ella não esfriaram, e eu, melhor avisado, entendi que não precisava morrer para ser amado. Logo que me ergui do leito...—Da agonia, ou da dôr para variar...«Nada de chacóta. D'aqui em diante fala-se serio. Logo que sahi fui ao convento. Era por uma bella tarde de maio. Soprava de leste uma viração suavissima,{210}que, sacudindo as urnas das flôres, embalsamava a atmosphera de fragrantes aromas. No horisonte...—Se me pudesses dispensar do idyllio!... Guarda as reminiscencias bucolicas para o inverno, quando estivermos ao fogão. Por mais que phantasies não deslumbras a realidade do bello espectaculo que nos está dando aqui a natureza em primeira mão. Descarna as descripções, e diz o que passaste no convento com a baroneza.«Estás materialmente estupido, homem. Foi-se-te a poesia toda no fabrico dos romances. Vocês, os que trabalham no coração humano com o escalpello sanguinario da analyse, tornam-se áridos, brutaes, e famulentos de sensações rijas...—É assim; todavia, prefiro a descripção da tarde de maio á catilinaria insolente que vaes disparar-me.«Nem uma nem outra. Vou abreviar o conto, para que a inveja mais depressa te castigue. A baroneza mandou-me entrar n'uma grade, e appareceu sósinha. Era a primeira vez que me recebia a visita sem vir acompanhada das minhas primas ou de D. Angelica.—Esse facto é profundamente significativo! Vou gosar o prazer de ouvir um dialogo de amorosas finezas, cortado de suspiros maviosos... Já principiam as disciplinas da inveja a verberar-me...«Saberás tu o que se passou?!—Se sei o que se passou!?«Sim... dizes com tão ironica zombaria o prospecto do dialogo...{211}—Nada, não: é que me vou aquecendo ao teu enthusiasmo, e o estylo principia a aquecer tambem.«Ahi vae lealmente, a scena final do definitivo triumpho. Eu tinha posto grandes esperanças na minha pallidez. Tres semanas de cama seriam capazes de fazer amarello um camarão cosido. A primeira decepção, que recebi ao entrar na grade, foi dizer-me a baroneza:«Ninguem dirá que esteve doente, sr. Marcos! A vida socegada de tres semanas deu-lhe um colorido de saude, que d'antes não tinha.—Como assim, sr.ª baroneza! Pois a minha pallidez...«Está enganado; pelo contrario, está côr de rosa, acredite. Eu chamo as suas primas, e verá se ellas não dizem o mesmo.—Não chame as minhas primas, sr.ª baroneza. Eu preciso que v. ex.ª me escute. Este é o momento solemne da vida ou morte. Hei-de hoje ouvir aqui a minha sentença. A pedra da sepultura já está erguida para mim; o seu braço suspendeu-a; o seu braço ha-de afastal-a de sobre o peito, que me esmaga, ou deixa'-la abafar o meu derradeiro gemido.«Que linguagem, sr. Marcos!—disse ella—Pelo amor de Deus, faça-me a justiça de me não julgar creança. O infortunio emancipou-me. Não posso ser illudida, nem illudir-me. Tenho aquella dolorosa penetração que adquire o espirito á medida que a boa fé do coração se perde. Com que fim emprega tantos esforços baldados para inquietar-me?{212}—Eu queria fazer a sua felicidade pelo amor.«A intenção é generosa, e eu não sou ingrata. Mil vezes agradecida, sr. Leite; mas o amor não póde dar-me felicidade. Imagino que elle possa ser a alegria de muitas almas puras e impuras; dou credito a tudo o que se diz de sublime e celeste ácerca d'esse sentimento, o mais mavioso de todos: mas sem coração essa flor não póde dar perfumes de uma hora. O meu coração desfez-se em lagrimas, cuja historia não é nova para o sr. Marcos Leite. Eu não o amo, não o posso amar, apenas lhe vejo todas as boas qualidades que se podem desejar n'um amigo. Quadra-lhe esta affeição? quer-me para sua amiga? está decidido a acceitar deveras este offerecimento que tantas vezes acceitou, e outras tantas desprezou?—Desprezei?«Sim; pois que outro nome se deve dar ás suas cartas escriptas com um fogo que me deslumbra sem me queimar, instantes depois que me promettia respeitar a minha posição, compadecer-se dos meus infortunios, e acolher-me á sua estima como uma alma quebrantada de enfermidades, que só os melindres d'uma verdadeira amizade podem suavisar? Não é meu amigo, sr. Marcos. O senhor imaginou que eu tinha uma fibra do coração capaz de sustentar o peso de alguma grande desgraça, e quiz parti'-la.«Enganou-se; nem essa já tenho. Que mais quer que eu lhe diga?{213}—Mais alguma cousa: disse-me v. ex.ª que me não amava; agora diga que me despreza.—Não posso. Sou sua amiga: não ha n'este mundo outro homem a quem eu possa dizer o mesmo. Sou para si, apesar da minha inutilidade, o mais que posso ser... Agora, se me dá licença, vou ao quarto de minha mãe, que está doente e só.»O meu amigo Marcos Leite, fechando assim o dialogo com a esposa de João José Dias, fixou-me de um modo que parecia perguntar-me a razão porque eu me não ria.—Esses triumphos são parecidos com as minhas derrotas—disse-lhe eu.—É que tu não sabes nada do coração humano!—replicou o singular provinciano, com um sorriso, que poderia ser definido infatuamento tolo por quem não conhecesse a intelligencia clara de Marcos Leite.Vaes agora ver que todos estes atalhos conduzem á estrada real da terra da promissão—proseguiu elle;—Josué está defronte das muralhas de Jericó. A trombeta da anniquillação vae soar. A virtude de Ludovina está abalada desde os alicerces, e desabará como todas as virtudes possiveis no romance, e impossiveis na vida qual ella é, e como bom é que ella seja para que este mundo se supporte desde o amanhecer até que o sol refresca a sua fronte abrasada nas aguas do oceano.. Deleitei-te com esta nesga de estylo? Até os olhos se te riem quando ouves tolices euphonicas!... Vou concluir.—Já?!{214}—Achas que é cedo?—Parece-me que o triumpho está muito longe ainda para concluires tão depressa.—Lê esta carta, e prova-me que conheces alguma cousa do coração, dando como infallivel a minha victoria.Comecei a lêr com ávida curiosidade a seguinte carta de Ludovina:«Eu procurei este abrigo, cuidando que encontrava n'elle paz, esquecimento, anceios para Deus, balsamo de piedade para as chagas de minha mãe e minhas, o desejo suave de morrer com ella, e um acabar a vida melhor que o principio.«Gosei alguns mezes, se não a realidade, ao menos a esperança d'estes bens. Por que infortunio estava confiada ao sr. Marcos a missão de inquietar-me até me affligir com a mortificação das suas instancias impertinentes, perdoe-me a clareza da idéa...?»—Que amabilidade!—disse eu, interrompendo a leitura.—Lê, e não commentes por ora.Prosegui, lendo:«Muito egoistas são os homens, santo Deus! Ha uma infeliz mulher, como eu, que impressiona um homem como o sr. Marcos. Sou procurada na minha solidão por v. s.ª que me offerece o seu amor. Respondo-lhe{215}que o não posso acceitar, porque a infelicidade me tornou dura e insensivel aos prazeres dos affectos do coração. Conto-lhe a minha vida com aquelle desabafo e confidencia que fórma as amizades immorredouras. V. s.ª escuta-me, admira-me, lamenta-me, e faz-me acreditar que a minha dôr é para si tão respeitavel que não ousará mais despertar-me o desejo de alegrias impossiveis para mim. Apenas decorridas algumas horas, abro uma carta sua, em que espero encontrar a linguagem consoladora de um amigo, e leio um longo queixume contra a minha insensibilidade, e a ameaça de se matar, porque a sua mortificação é insupportavel.«Egoismo, e tyrannia!«Faltava-me a tortura da responsabilidade da sua vida, sr. Marcos! Quem me dera ser o que creio que se é no grande mundo, que eu não tive tempo de estudar! Lá, as mulheres experimentadas nas tempestades do coração, sabem, creio eu, que nenhum homem morre em naufragio. Eu tenho a innocencia de crêr que o mortifico, que o incommodo com a minha frieza, que o não satisfaço com o grande affecto de amiga que lhe dou.«Que futuro me queria dar, sr. Marcos? Pois não conhece a minha posição? Não adivinha que vivo toda e exclusivamente no amor de minha mãe? Que entrei n'um caminho de amarguras voluntarias d'onde não posso desviar-me uma linha, sem converter em remorsos a consciencia das boas acções que pratiquei até hoje? Deixe-me tambem ser egoista das minhas virtudes,{216}porque não tenho outro amparo que me sustente a coragem para soffrer o pouco de vida que me resta.«Eu avalio o seu coração. Confesso que, ha tres annos, o encontrarmo-nos seria um designio da Providencia divina. Creio que seriamos felizes; que teriamos a bemaventurança na terra.«Agora, porém, não ha futuro para nós, nenhum futuro, meu amigo.«São as ultimas palavras que lhe dirige a sua sempre amigaLudovina.—Que esperas agora, Marcos?—perguntei eu.—Espero que ella se compadeça da minha humildade.—Humildade não entendo...—Essa carta é um esforço extremo de quem se quer segurar á aresta do abysmo. A baroneza é mulher.—Já sei.—Cuidei que não sabias, e de certo não sabes o que é uma mulher.—Então, já não aprendo.—Vou-te ensinar o que são todas, definindo-te Ludovina.—Escuto, sem respirar.—A baroneza ama-me.—Isso é bem positivo e claro? Vê lá...—Tenho visto. Ama-me, e está sem forças para manter uma isenção contrafeita. A mulher, quando se sente enfraquecer, revolta-se contra o homem que a subjuga.{217}—E depois?—Se esse homem acceita humildemente a revolta, é ella mesma a que se revolta contra si, incriminando-se de ingrata e insensivel.—É pelos modos uma enfiada de revoltas, debernardasdo coração...—Estás hoje intractavel!!—Estou intolerante com os absurdos. Esperas que ella te mande chamar á grade do mosteiro para assistires á queima d'esta carta na pyra do amor?—Talvez... Tu és uma creança velha. Não sabes nada. Morres ignorante dos segredos do coração feminino... Que lastima!—Não me chores, responde: tiveste o cuidado de avisa'-la que te vinhas suicidar nas florestas do Senhor do Monte? Meu caro Marcos, eu acredito que conheces todas as mulheres menos Ludovina. Ha um Waterloo para cada Napoleão d'estas conquistas incruentas. O teu é a baroneza de Celorico de Basto. Queres poupar-te a um desgosto de amor proprio? Esquece-a.—E a omnipotencia da vontade o que é? Hei de triumphar, ou Ludovina é uma natureza superior á humanidade...Sahi de Braga. O meu amigo ficou á espera da segunda «revolta» rimando a quarta poesia em quintilhas, e os primeiros duzentos versos de uma elegia que elle intitulava o seu epitaphio.{218}Um mez depois encontrei no Porto Marcos Leite.

Consta-me que é geral o cuidado que está dando aos leitores o barão de Celorico de Basto.

Como este homem captou a benevolencia publica, mórmente a dos maridos, isso não sei eu.

Caprichos.

Commiseração, lastima e dó, não a faz decerto o marido de Ludovina. Eu de mim, apesar de quem me forneceu os apontamentos d'esta lugubre historia, mais de uma vez tenho dulcificado com as amenidades da linguagem o travor das informações insuspeitas. Faz-me zanga a felicidade d'este marido, se o confronto com outros «minotaurisados» iniquamente.

Não transijo com o estupido acaso que travou as relações de João José Dias e Melchior Pimenta. Rebello-me contra a Providencia, se me dizem que a Providencia entregára de mão beijada a rara joia de entre as mulheres a João José Dias.

Riquezas amontoadas pelo acaso, pelo trabalho, pela economia, pelo latrocinio, pelo talisman do buril, pelo{162}fornecimento dos açougues humanos na America, essas riquezas, vejo-as, entendo-as, explico-as; porém, mulheres como Ludovina, corpos e almas de tanta perfeição, creaturas que privam com os anjos, assim sacrificadas a um Baal repulsivo de sandice e gordura, isto faz-me materialista, incredulo, e atheu; ou remontado em assomos de espiritualista, confesso a Providencia, mas tão sublime, tão ao longe das pequenezas d'este ponto do mundo, que não cura de saber se o zoupeiro João José casa ou não casa com a sylphidica Ludovina.

Não vou de encontro ás crenças de ninguem; Deus me livre. Todavia, raciocinemos, em quanto a razão de si apoucada, não contender com os dogmas indisputaveis da fé.

Saibamos, pois, o que é feito da sympathica personagem do barão de Celorico de Basto.

Pesquizei miudamente o itinerário de s. ex.ª, e colhi as seguintes informações, que podem auxiliar os alienistas no estudo das faculdades intellectuaes de muitos barões, no primeiro periodo do seu desmancho.

Sei que chegou a Baltar bifurcado n'um garrano, e o preto n'outro. Apeou-se ahi para reanimar o animo quebrantado da ensuada cavalgadura, cuja pulmoeira recrudesceu na subida da serra de Vallongo.

Simão, vendo que seu amo rejeitava a vitela proverbial da estalagem da terra, e, sabendo qual era o prato favorito d'elle, frigiu quatro ovos com rodelas de cebola, e poz-lhe deante a fritada provocante, cuidando que o acepipe mimoso abriria o apetite do melancolico barão.{163}Baldado empenho, perdidos desvelos, mas não perdidos ovos, que os comeu o contristado preto, asseverando, a cada garfada, que os podiam comer os anjos, para ver se assim estimulava o jejum de seu amo impassivel.

Reparou o preto, em quanto encovava o almoço, que o barão, de vez em quando, sacava da algibeira o charuto horrendo, e resmungava em tom soturno:

—Foste a minha desgraça, tição negro do inferno!

E contemplando-o com os olhos coruscantes de terror, arremessava-o com frenesis impetuosos, e apanhava-o de novo para o esconder na algibeira!

«Que diabo é isto, senhor?—perguntára timidamente o preto.

—Não vês? é um charuto, que me ha de matar!

«Pois v. ex.ª fuma isso! Bote-o fóra, que tem má cara esse demonio!

N'estas e n'outras praticas semsaboronas, que não prestam para a tragedia, nem para a farça, chegaram á villa de Torrão, onde o nobre viajeiro apeou outra vez, e escreveu uma longa carta a sua mulher, na qual carta entre muitos outros periodos lamuriantes, dizia que não lhe era possivel fazer passar nada dos gorgomilos para dentro, e protestava deixar-se morrer de fraqueza para acabar mais depressa com o seu remorso. Pedia novamente perdão a D. Angelica, e rogava a sua mulher que tornasse a supplicar em nome d'elle o perdão de Antonio de Almeida. Outro sim, pedia á baronesa que mandasse dizer trezentas missas por alma do defunto Almeida, e outras tantas por alma d'elle{164}testador, quando Deus fosse servido leva'-los á sua presença. O principal da carta guardava as fórmas testamentarias: faltava-lhe, porém, a condicional prescripta do «perfeito juizo e claro entendimento», posse de que o preto duvidava muito, e os da estalagem não duvidaram menos, quando o barão entrou a gritar que era um assassino, e estava já vestido e calçado nas profundas do inferno. Almas boas que o ouviram, tiveram-n'o em conta de possesso, e, se o barão não sáe, era filado pelo padre Anacleto da Sacra Familia, egresso arrabido, que a piedade da estalajadeira chamára para resar os exorcismos ao demoniaco.

O barão foi pernoitar na villa chamada Arco: (notem a paciencia de um romancista que sabe do seu officio.)

O cirurgião da villa, chamado por deliberação do preto para ver o amo, receitou um cozimento de fel da terra, tomado de manhã, e esfregações de oleo de amendoas na circumferencia do abdomen.

O barão mandou-o á fava com louvavel discernimento, e escreveu quatro folhas de papel almaço, que sobrescriptou a sua mulher. O contheudo do aranzel tremendo era o disparate lastimoso de uma cabeça febril, apavorada de visões sangrentas, que o forçavam a estropiar a syntaxe de um modo lastimavel, e a desbancar o methodo do imaginoso Castilho no invento da orthographia.

No dia seguinte, ás onze horas da manhã, chegou o barão á sua quinta de Celorico, onde, creio que já se disse, viveram frades n'outro tempo. A entrada do proprietario{165}nos seus dominios foi assignalada pelo primeiro accesso de loucura formal.

Á entrada da antiga claustra, estava um S. Francisco de pau com o seu habito venerando.

O barão soltou medonhos gritos, clamando que o santo era o phantasma de Antonio de Almeida. A logica do preto foi insufficiente para convence'-lo de que o phantasma era o patriarca S. Francisco. Teimando aquelle em conduzi-lo pela mão ao pé da imagem, afim de convence'-lo com o tacto, o barão assentou-lhe na carapinha dois murros puxados d'alma, com os quaes o paciente preto tambem viu phantasmas luminosos.

Os primos circumvizinhos começaram a visitar o genro de D. Angelica, e saíam espantados do disparatar do barão, que descaía de uma conversação atilada para a historia do phantasma infesto, que apparecia na casa que fôra convento.

Fechado e trancado no seu quarto, o infeliz maniaco recitava monologos estirados em tom cavernoso. O charuto andava sempre á baila nas apostrophes descompostas, e recebia epithetos que esqueceram a Francisco Nunes.

Eram decorridas setenta e duas horas de jejum estreme, quando o barão pediu de comer a altos brados, e comeu porções incriveis de carneiro guizado com batatas, facilitando o transito d'estas com emborcados picheis do verdasco, predilecto seu.

Emergindo de uma especie de lethargia de leão sazonatico, o barão urrava como d'antes, recuando ao{166}phantasma, que já não era S. Francisco sómente. Qualquer sombra se lhe afigurava aventesma, ou avejão como elle a denominava. O proprio preto, se lhe assumava de repente á porta do quarto, ou por entre as arvores da quinta, fugia espavorido á gritaria rouquenha de seu amo.

Os facultativos chamados pela parentella compadecida capitularam de demencia a cousa, e receitaram as sangrias e os vesicatorios. Os meios persuasivos para o levarem á cama nada conseguiram; os da força seriam inuteis, por que o preto espadaudo e possante, invocava o testemunho da sua cabeça confusa contra o projecto da violencia. Ninguem se queria arriscar ao perigo certo de um murro secco do barão.

Contava elle a toda a gente a historia do charuto que já trazia meio desenrolado n'um canudo de papel...

Se porém acontecia proferir o nome da sogra, vinham-lhe convulsões, e não acabava o conto. A historia, como elle a contava, fazia rir os ouvintes. Aquelle charuto fôra-lhe enviado pelo diabo em troca da sua alma. O charuto infernal obedecia á sua vontade, e despejava uma bala como uma clavina, em consequencia do que, elle barão, matára um homem, desfechando-lhe o charuto no peito. Acabada a historia entravam as larvas a rodea'-lo, e elle a esconder-se de cócoras atraz dos circumstantes.

Entenderam os cavalheiros de Basto que o barão fugira doudo á sua familia, e avisaram a baroneza, lembrando-lhe a conveniencia de o passarem a Rilhafolles,{167}antes que a demencia se tornasse incuravel. Chegou o aviso já quando Ludovina, avaliando pelas cartas a desorganisação mental de seu marido tinha partido para Celorico de Basto.

Melchior Pimenta e D. Angelica julgavam temeraria a ida de Ludovina. O pae (Pater is est etc.) queria acompanha'-la, receoso de que a presença d'ella enfurecesse o doudo. A baroneza recusou a protecção do pae, e respondeu á mãe com palavras que a fizeram córar, posto que adoçadas pelo respeito filial.

«Quando me casaram com este homem—disse ella—não se estipulou a condição de que eu o desampararia, se elle enlouquecesse. Augmentam os meus deveres, agora que elle mais precisa de uma amiga. A consciencia da minha boa mãe manda-me ir; o coração deseja que eu não vá. Devo obedecer á sua consciencia, para ser cada vez mais digna do seu coração.»{168}{169}

Ao cabo de tres semanas, Antonio de Almeida ergueu-se convalescente. As melhoras de D. Angelica augmentavam por egual com as d'elle; mas uma outra qualidade de soffrimento lhe amargurava a alma: era a saudade, o anceio de falar-lhe, a necessidade de recompensa'-lo dos perigos da morte com as suas lagrimas.

Almeida, porém, não lhe escrevia, não lhe dizia, ao menos, que o seu amor não succumbira á terrivel catastrophe, que a sua amizade, ao menos, venceria todos os estorvos.

«Que mal te fiz?

Diz D. Angelica em uma carta que lhe escreve.

«Uma grande desgraça aconteceu; mas essa desgraça foi de nós ambos, Almeida.

«A bala que te matasse, matar-me-ia. O risco em que a tua vida esteve, queres tu que eu t'o pague com a minha? A morte repelle-me.

«Quem me dera, meu Deus, quem me dera morrer,{170}se ainda posso deixar-te de mim uma lembrança triste, meu amigo!

«Este teu silencio dóe-me tanto como se te houvesse perdido, e chorado na sepultura. Assemelha-se ao desprezo a tua frialdade. Bem sei que não pódes vir a esta casa, á casa de minha filha; mas que não faria eu para te encontrar, Almeida?

«Pois é possivel este desfecho de uma paixão que tantas lagrimas me ha custado! Soffrer vinte e dois annos, envelhecer agradecendo-te os tormentos e os remorsos que me empeçonharam a mocidade, para agora assim ser despedida da tua alma, sem que ao menos me digas até que ponto sou culpada no teu infortunio?

«Oh meu amigo, que infortunios seriam necessarios, que flagellos inventaria o inferno para me fazer deixar-te!

«Eu tinha d'antes noites desveladas de continuos remorsos—se tinha!... vós o sabeis, Deus meu!—e, ao cabo d'esse martyrio, sondando-me, Almeida, sentia-te mais dentro do meu coração, mais senhor da minha alma!

«Conspirassem todas as forças d'este mundo contra mim, fosse eu chamada para dar conta da minha honra, proferiria o teu nome com orgulho, offerecendo o rosto para todos os ferretes da ignominia. Isto assim era amor, amor insensato de mulher que faz da sua deshonra um heroismo!

«E tu pagas-me tão cruelmente, meu amigo! Adivinhas que em tres semanas os meus cabellos se fizeram{171}brancos? Assusta-te a presumpção de que a minha face envelheceu? Não pódes já ver em mim signaes desvanecidos da Angelica dos dezoito annos? Tens razão, Almeida; estou velha, mas o coração, unica belleza que eu tinha, unico dote que fazia a minha vaidade de merecer-te, esse, meu amigo, aperfeiçoou-se através de vinte e dois annos, está hoje como não estava quando te assenhoreaste d'elle, aperfeiçoou-se em contacto com os dons sublimes do teu, encheu-se de amor que o ha-de matar, porque já não tenho peito que possa conter tanto fel!

«Não estou assim repulsiva que te afugente, Almeida. Não imagines o que fui, nem repares no que sou. Lembra-te só do perdido amor que te dei, mova-te só a lembrança do muito que a minha alma te quiz; acceita-me na velhice uma amizade, que te não será pesada agora, nem embaraçosa para tua felicidade. Diz-me só que o teu silencio não é desprezo nem esquecimento. Poupa-me á horrivel morte que me faz tremer. Se tudo perdi, resta-me o recurso da tua commiseração. Imploro-a de joelhos. Amor, esse sei eu que se não supplica; mas engana-me, Almeida, engana-me, por piedade. Diz-me que uma dedicação de tantos annos não póde acabar com o desprezo.»

Ingrato homem!é a exclamação natural com que as leitoras sensiveis exprimem o seu dó.

Pois decidem de leve, e accusam com a costumada injustiça. Antonio de Almeida é tão digno de lastima como Angelica. Ora, vejam a seguinte carta que Ludovina{172}lhe escreveu, antes da sua partida para Celorico:

«Lembra-me que, sendo eu creancinha, sentava-me no collo do meu amigo, anediava-lhe os cabellos, fazia-lhe muitas meiguices de coração e de astucia, para no fim lhe pedir um brinquedo, um passeio, uma qualquer cousa que o meu amiguinho me não sabia negar.

«A creança fez-se mulher, já não sabe ameigar antes de pedir; mas essa falta vem de eu me esquecer das maviosas e candidas palavras que sabia então. O coração é bom como era, a affeição maior e mais entranhada, a confiança de ser bem recebida em meus rogos é mais solida: o que me falta, como já disse, é o tom carinhoso, a meiguice seductora da innocencia.

«Não importa. Eu vou pedir ao meu amigo um favor, favor immenso; empenho para alcança'-lo da sua generosa alma todo o amor que me teve, todas as recordações doces que o trazem desde o berço de Ludovina até estes dias tristes que vamos vivendo.

«Peço-lhe, meu amigo, que tire da sua virtude as forças que o coração não tiver para cumprir uma supplica que vou fazer-lhe em poucas palavras.

«Seja mais forte que a minha pobre mãe. Se vir que ella cáe, sustente-a. Trabalhe comigo para que o segredo d'aquella noite horrivel se não descubra á curiosidade infamadora do publico. Não peço que lhe dê consolações frivolas. Lições de virtude, suspeito que não aproveitam a minha mãe, sendo dadas pelo meu amigo. A razão está muito longe do coração. Penso que{173}minha mãe tomaria como esquecimento, ou desamparo os seus conselhos.

«Conhece bem a situação de minha mãe, sr. Almeida? Siga o que a sua honra lhe inspirar. Veja que novas desgraças podem seguir-se. Avalie o que eu tenho feito por ella, e medite na extensão da minha dôr se tudo o que fiz e faço fôr perdido.

«Não sei dizer o que me está na alma. Pode ser que eu dissesse o mais confusamente que é possivel o meu pensamento. Lá está o seu nobre espirito para aclarar a obscuridade d'essas palavras.

«É necessario grande animo para me obedecer? Soffra, meu amigo, soffra comigo. Olhe que me ha de abençoar, e gloriar-se do seu sacrificio.

«Eu parto hoje para Celorico. Meu marido é digno de pena. Vou ajuda'-lo a combater os remorsos que o tem levado ao infortunio da demencia.

«Olhe que vida esta, meu amigo! Sirva-lhe o meu exemplo para a paciencia, e para o heroismo. Adeus. Sua amigaLudovina.»

Esta carta explica o silencio de Antonio de Almeida. Comprehendeu-a com o juizo prudencial dos quarenta annos. Meditou-a com tanto respeito como admiração. Recolheu as palavras d'ella com religiosa austeridade, e violentou a alma a aceitar o juramento da observancia, com pena de deshonra e villania, se rescindisse alguma vez a alliança que fizera com a que elle, no intimo de seu coração, chamava filha.

Eu sei de mais que os amadores, em romance de boa{174}escola, não costumam assim accommodar-se, e obedecer aos ditames da razão. Estas cousas, como ahi se contam, são naturaes e observadas, e sentidas; por isso mesmo desagradaveis, em novella, onde o bom é o inverosimil, e o que mais captiva é o que mais repelle o coração bem formado.

Estes amores de Antonio de Almeida e D. Angelica, tractados por imaginação de mais pulso, davam para muito brilhar. Estou a ve'-lo a elle, pelo prisma phantastico dos mestres, erguer-se da cama com a mecha ainda na aberta chaga, um par de pistolas de doze tiros, nas algibeiras, entrar, entrar de cabellos hirtos e rosto livido, no quarto de Angelica, e semi-desfallecido nos braços d'ella, dar largas á parlenda, e vociferar, por entre amorosas phrases, esconjuros odientos contra o genero humano, contra a instituição do matrimonio, e contra os deveres conjugaes! Agora se me afigura vêr Melchior Pimenta assumar no limiar da porta, e embasbacar petrificado diante do grupo escandaloso. Ha gritos, injurias, investidas, até que alfim, levados á puridade para um recanto da casa, ahi combinam um duello de morte, no dia seguinte. Medonha figuração me avulta agora na imaginação de emprestimo Melchior Pimenta, após a detonação de dois tiros, cambaleia sobre as pernas, leva a mão ao seio que espirra golfos de sangue, põe os olhos annuviados no céo impassivel, que contempla o quadro feio, e expede o derradeiro halito, nos braços dos padrinhos.

Quantos capitulos desgrenhados cuida o leitor que{175}dava esta parvoiçada imaginativa? Dois volumes em oitavo com seiscentas paginas, afóra o subsidio das reticencias, que, na minha opinião d'outro tempo, foram inventadas para definir a mulher; e na minha opinião d'agora, inventou-as o primeiro litteratico ôco de idéas.

Ora, que fiquem com Deus os mestres que tão vistosos de zarandalhas nos embelecam; e, pelo caminho direito, mas escabroso da verdade, vamos entrar na ultima jornada d'esta historia.{176}{177}

O barão de Celorico parecia uma creança atemorisada ao pé de Ludovina. Se a perdia um momento, davam os espectros com elle, e lá ia o pobre homem gritando, até se acocorar ao pé d'ella, escondendo-se com a roda do vestido.

Bastava a presença de Ludovina para socegar-lhe os accessos de loucura, manifestados em exclamações desatadas, quasi sempre seguidas da apparição do charuto cuja historia elle contava a sua mulher, pelo theor ridiculo que já lhe ouvimos.

Acudia Ludovina com o inutil remedio da razão, despersuadindo-o da morte de Almeida. O barão abria a bocca attenciosa, parecia dar mostras de entender e acreditar; o desfecho, porém, do silencio sereno com que a escutava, era ver um novo avejão, que o vinha aterrar por cima do hombro da mulher.

Os primos compadecidos, e os facultativos aconselhavam á baroneza o emprego dos meios violentos para o curarem. A grande idéa therapeutica era o caustico e a{178}sangria. A contristada senhora annuiu. Por sua parte, fez-lhe até carinhos para o induzir a deixar-se sangrar. O barão replicava que o queriam matar, e de joelhos pedia á mulher que não o deixasse morrer ás mãos dos seus inimigos, que o perseguiam para lhe roubarem a esposa.

Resolveram empregar a força. Dois robustos camponios tomaram a peito a ardua empresa. O cirurgião armado de lanceta esperava o ensejo propicio. O officioso abbade da freguezia encarregára-se de cingir-lhe um lenço sobre os olhos. O juiz ordinario pegava na bacia. Varios primos formavam o corpo de reserva, e a baroneza fugira para não presenciar os extrebuxamentos do infeliz.

—Agora!—disse o facultativo.

Á palavraagorao barão estava entalado entre quatro braços cabelludos, e o abbade, á rectaguarda do preso, lançava o lenço com mão certeira. O barão arquejava, sem comtudo barafustar entre os membrudos braços. Tudo promettia um propicio resultado, quando o antigo hercules da rua dos Pescadores sacode um solavanco, e dispara dois murros simultaneos nas ventas vizinhas. Umas eram as do abbade, o proprietario infeliz das outras ventas era o juiz ordinario. Investiram de novo contra elle os athletas: cara lhes foi a façanha, porque apararam um choveiro de sôcos tremebundos, indo um d'elles por engano, estoirar na lombada do cirurgião. Rarearam as fileiras. O abbade, o juiz, e os homens de péga, parte dos primos, e o cirurgião coaram-se{179}cabisbaixos pela primeira porta que lhes franqueou a fuga atropellada.

N'esse conflicto appareceu Ludovina. O doudo baixou as armas contundentes, os braços iteriçados que vibravam o ar como duas mangueiras de malho. Correu para ella, como a pedir-lhe soccorro, ouviu-lhe as reprehensões com o tremor do medo, e cahiu prostrado da lucta sobre uma cadeira, apegando-se á saia da baroneza.

Aqui está o viver da deploravel senhora, no espaço de um mez, em Celorico de Basto. Aquella vida, e as dôres profundas de outras causas, eram o preço por que se fizera, ou a fizeram opulenta aos olhos da sociedade, que, ainda assim, a invejava.

O barão desmedrára a olhos vistos. Do antigo João José Dias restava o arcabouço proeminente de angulos osseos. A panda physionomia, tão rubida de nediez chorumenta, chupára-se, entanguira-se, cousa de fazer lastima. Diziam todos que a baroneza, um mez depois, seria uma formosa e rica viuva. Já dois dos primos, morgados empenhados, botavam suas medidas, e porfiavam a conquista. As damas, com palavras francamente grosseiras, iam dando os parabens á baroneza. As que ousaram feri'-la assim, ouviram resposta que lhes fechou para sempre as portas de sua casa.

A idéa que dominava o barão era a morte de Antonio de Almeida. Ludovina perdera a esperança de afugentar o phantasma, empregando razões tão convincentes da vida de Almeida como eram mostrar-lhe cartas{180}d'elle, que o barão ouvia ler com o sorriso do idiotismo, percursor de nova berraria.

A ultima que Ludovina lera, quasi certa de que seu marido não a percebia, foi a seguinte:

«Minha amiga. É já bastante o numero dos infelizes que põem os olhos lagrimosos no abrigo consolador de Ludovina. Somos já muitos os desamparados da esperança e da alegria. D'aqui até ao fim da vida é soffrer, e chorar de modo que o mundo nos não veja as lagrimas: é preciso que o coração as verta e as absorva; é necessario suffocar os gemidos, e entreter as dôres, cavando a sepultura.

«Curta será a minha existencia. Quarenta e quatro annos, e a saude alquebrada, e o coração feito pedaços, é um bom agouro, não é? Mas, para Ludovina será extensa a estrada da amargura. Tem vinte annos, minha amiga; vejo-a na aresta do precipicio, a contemplar-lhe a profundeza, e ahi se lhe hão de prolongar as horas como as do desterrado. Meu pobre anjo! quem lhe vaticinaria ha dez annos este infortunio?

«A santidade do seu viver devia ser recompensada aqui; mas a fé, a religião dos desgraçados, ensina que o premio das grandes virtudes não póde ser dado n'este mundo porque não ha mãos puras que possam tecer a corôa do martyrio. Espere, Ludovina, com os olhos no céo, e a mão sobre o seio para esmagar os impetos do coração, que tem accessos de raiva blasfema.

«Obedeci-lhe, Ludovina.

«Comprimi, abafei, matei a essencia da minha vida,{181}o sentir que m'a fazia preciosa. Sou para sua mãe uma memoria. D'ella tenho só o nome escripto no coração, como o epitaphio do affecto que ali morreu recalcado.

«Deu-me um calix, Ludovina. Bebi-o de um trago. Se tem outro, offereça-m'o; toma'-lo-hei de joelhos.

«Pergunta-me qual é o meu viver?

«É isto, minha amiga. Não sei dizer-lhe que turbação afflictiva me embaça o animo. Em redor, todos os meus horisontes são tenebrosos. A mesma sepultura perdeu para mim os encantos de repouso, esse acabar que é o porto seguro de todos os naufragos d'este horroroso pego.

«Poderei fazer-lhe entender, Ludovina, um quadro triste da minha imaginação cançada de soffrer? Vejo dois vultos em pé, taciturnos, sombrios, com os olhos cerrados, travando-se as mãos com a gelida immobilidade de duas estatuas. Parou a vida externa n'estes dois entes. Uma tremenda agonia lhes despedaçou a maior parte do coração; o remanescente são fibras de ferro que resistem ao veneno e á morte. Ao pé d'elles está a sepultura de ambos, e o anjo da consolação, sentado n'ella, alimenta ahi a alampada da esperança.

«Adeus, minha santa amiga.»

Esta carta reclamaria notas explicativas, se o entendimento do leitor não traduzisse a singelo o que ahi se esconde no figurado da linguagem. A alliança de Antonio de Almeida e Ludovina, sobre um contracto de honra tão melindrosa, não podia ser tractada com mais recato e pejo, de ambas as partes. Entende-se o melancolico{182}debuxo que attribulava o espirito de Almeida. Angelica era a companheira d'esse homem que lhe dava as mãos á borda da sepultura. A alampada da esperança alimentada pelo anjo da consolação, era o fito da morte d'onde ambos não desfitavam os olhos, como a naufragos succede, se no horisonte se lhes recorta um rochedo salvador.

Ludovina entendeu o viver de sua mãe, e pungidas lagrimas essa carta lhe desentranhou do coração. Chamou-a para si com grandes demonstrações de saudade. Pediu-lhe que fosse alliviar-lhe o peso da cruz á qual já não bastavam seus hombros. Dava-lhe paciente conta do seu viver ao pé do barão que noite e dia bramava contra os espectros, e já dava aos facultativos receio de morrer desvariado, a mais acerba de todas as mortes.

D. Angelica, fechada em seu quarto, realisava a imagem que a phantasia de Almeida adivinhára. Sombria, inerte, reconcentrada, impassivel a cuidados, carinhos, e desvelos de Melchior Pimenta, apenas dizia que estava esperando a morte, e repellia com desabrido enfado os lenitivos de quem quer que fosse.

Nunca mais escrevera a Almeida, e á filha eram mais as lagrimas que as lettras. Não era a sua uma d'essas dôres que desabafam. Sentia-se tomada de vergonha, se o coração a mandava abrir-se em desafogados prantos com Ludovina. Sentia-se ferida de aborrecimento, se não odio, quando o marido, mais simulado que dorido, lhe repetia as consolações frivolas de quem não comparte as penas.{183}

Á saudosa carta que a chamava a Celorico, D. Angelica respondera que já não tinha vigor que a levantasse do seu leito. Supplicava a Ludovina que lhe perdoasse a ella como causa dos seus tormentos, e lhe acceitasse como reparo do seu pouco amor maternal os amargos transes que lhe estavam desfazendo o coração fibra por fibra.

No entanto, disseram os medicos á baroneza que a apparição d'esse homem, que o barão julgava sua victima, poderia recobrar-lhe a razão, desopprimindo-a de phantasmas e remorsos, causas principaes da demencia.

Ludovina communicou a Almeida as esperanças dos medicos, sem pedir-lhe o sacrificio de se verem.

Almeida foi a Celorico de Basto, e encontrou ao pé da baroneza Melchior Pimenta.

Ludovina turvou-se da surpresa, e assim denunciou aos olhos do pae o sobresalto em que a puzera a apparição do amante.

Melchior Pimenta, forte da sua indignação, insultou Almeida, exprobrando-lhe a pertinacia da infamia, e ameaçando-o com a morte, se elle não sahisse immediatamente d'aquella casa.

Ludovina cobrando forças, disse que só ella tinha direito de expulsar alguem d'aquella casa. Encruou-se a sanha de Melchior, vociferando injurias contra a filha, e provocações ao hospede silencioso. E saíu escandecido de raiva. Almeida quiz segui'-lo, com sereno gesto, sem assomos de colera, nem proposito de vingança. Impediu-o Ludovina com lagrimas e gemidos que irritavam{184}as iras paternas. Bem se via que não estava ali um pae; e, se estava, não era por certo Melchior Pimenta.

Este conflicto atalhou-o o barão. Seguiu-se uma scena de effeito dramatico. O barão recuava diante de Almeida que lhe extendia a mão. Ludovina segurava o marido, pedindo-lhe que acceitasse a reconciliação que Almeida lhe offerecia. Este com palavras afectuosas lhe pedia a sua estima, e o esquecimento da passada offensa. O barão, ora espavorido, ora risonho, alternava os olhos entre Almeida e Ludovina.

O leitor já sabe como no theatro se recupera o juizo. Se é mulher a douda, rigorosamente desgrenhada esfrega os olhos, atira com as madeixas para traz, e dá fricções seccas ás fontes com frenesi; se, homem, abre a bocca, espanta os olhos, soleva o peito em arquejantes haustos, despede o grito agudo obrigado a ambos os sexos, e está pessoa de juizo, capaz de casar, que é quasi sempre a peor das doudices em que os auctores fazem cahir os seus doudos, restaurados para a razão.

Pois o barão de Celorico não se curou por esse theor. Os áditos da razão estavam cerrados de modo que levou longo tempo a despedaça'-los. A continua assistencia de Almeida ao pé do leito, e as continuadas insinuações de Ludovina, conseguiram rehabilitar-lhe o juizo, mas vagarosamente. O barão parecia emergir d'um pesadello atroz quando reconheceu Almeida. Não houve exclamações nem abraços de pé atraz,secundam artem. Lagrimas, sim, as da baroneza, cujo contentamento desmentia as conjecturas dos primos que a imaginavam lograda{185}nas suas ancias de viuvez. O custoso, depois, foi rebocar os estragos que a demencia fizera no corpo do barão. Foi longa a convalescença. Almeida quiz despedir-se; mas o enfermo erguia as mãos supplicantes pedindo-lhe que o não deixasse.

Melchior Pimenta, de volta de Celorico, contou a sua mulher o escandalo que presenceára. Repetiu contra Ludovina as injurias que lhe dissera em face. Protestou esbofetear e apunhalar Almeida na presença de testemunhas que depuzessem no processo da sua honra, e impoz, com auctoridade, a sua mulher a sahida immediata da casa da adultera.

D. Angelica ergueu-se impetuosa e terrivel, exclamando:

—A adultera sou eu!

—Que dizes, Angelica?!—bradou Melchior.

—Adultera sou eu. Ludovina encobriu a minha deshonra com a sua virtude. Os nomes insultuosos que lhe dás, repara bem, Melchior, e ve'-los-has estampados no meu rosto. Se queres lavar com sangue estas manchas, arranca-m'o do seio!

E assim falando, tirava o lenço que lhe velava os hombros, offerecendo o peito.

—Endoudeceste, minha querida Angelica?—exclamou Pimenta—Faltava-nos esta desgraça! Estás douda! maldita seja tua filha que te levou a esta situação!

«Não estou douda, Melchior! não estou douda! Estou moribunda, e não quero deixar infamada a teus{186}olhos a minha filha. Se eu te pedisse perdão do meu crime, acreditar-me-ias?

—Não, não. Tu és uma esposa virtuosa, Angelica! Diz o que quizeres para salvar Ludovina, que eu não te creio. Reprovo essas demasias de amor, que ella te está pagando com o amante ao pé de si.

«Melchior!—disse Angelica com firmeza e gravidade—A tua filha está innocente; a amante de Antonio de Almeida sou eu! Não me perdôes, vinga em mim a tua deshonra, porque o perdão não t'o peço. Sabias, quando me acceitaste como tua, que eu não podia pertencer-te. Collocaste ao meu lado o homem que me fazia odiosa a tua baixeza. Nunca me perguntaste se era verdadeira a carta que te escrevi em solteira, pedindo á tua commiseração que me deixasses. A mulher que fez isto, não pede perdão. Revolta-se com a coragem do desespero, e deixa-se morrer. Confesso o crime para salvar minha filha. Julga-me tu agora, mas vae pedir perdão áquella santa que quiz poupar tambem a tua dignidade.

Melchior Pimenta saíu do quarto de sua mulher.

Para se armar do punhal de D. Jayme de Bragança, e do infante D. João?

Para se dar um tiro no ouvido?

Para mergulhar da ponte-pensil, ou despenhar-se dos Arcos-das-Virtudes?

Para scismar e endoudecer?

Não, senhores.

Melchior Pimenta foi para a Alfandega, jantou no{187}hotel de Miss Mery, e jogou o voltarete até ás onze horas na Assembléa Portuense.

No dia immediato, visitou sua mulher, e recommendou-lhe que desse um passeio no jardim que estava o dia agradavel. Ás tres horas procurou-a para jantar ao pé d'ella. Disseram-lhe que a senhora tinha sahido n'uma cadeirinha, e deixára uma carta para seu marido.

Não vi esta carta, mas infiro o contheudo pelos successos subsequentes.

D. Angelica obteve, vinte e quatro horas depois, licença de seu marido para entrar n'um convento, situado n'um ermo do Minho. D'ahi escreveu a sua filha, pedindo-lhe uma esmola para sustentar-se, visto que o trabalho não bastava para as suas pequenas necessidades.

Ludovina apressou a sua volta para o Porto. Obteve licença para visitar sua mãe, e demorar-se no mosteiro por tempo indeterminado. Acompanhou-a o marido e deixou-a com a certeza de a trazer comsigo passados dias.

São decorridas dois annos. A baroneza de Celorico ainda não sahiu do convento. O barão soffre resignado a certeza de que sua mulher não sahirá jámais.

A opinião publica diz que Ludovina merece louvores por não ter o descaramento petulante de apresentar-se como outras muitas, incursas no mesmo peccado, e declara a alta virtude de D. Angelica, mãe amorosa que deixa a sociedade para se inclausurar com a filha desamparada.{188}

Melchior Pimenta está bom, e é commensal do barão.

Antonio de Almeida encetou, ha dois annos, uma longa viagem d'onde não voltou ainda.

O bacharel Ricardo de Sá comprou mais tres bengalinhas, e dá a ultima demão ao seuSECULO PERANTE A SCIENCIA.

São hoje 15 de fevereiro de 1858.

O unico personagem morto d'esta historia é Francisco Nunes. Expirou ao cabo de uma violenta apostrophe, expedindo o derradeiro golfo de sangue com o epitheto mais fulminante que a sua cólera lhe suggeria. Matou-o o contracto do tabaco.

FIM{189}

{190}{191}

O romance estava acabado. Os meus numerosos admiradores, que eu regalára com a leitura d'essas duzentas paginas, haviam asseverado, com a costumada franqueza, que este volume era a flor da virtude a rescender perfumes de deleitosa aspiração para as almas. Um d'esses, cujo voto muito respeito pelamassade conhecimentos queamassouem Frederico Soulié e Alexandre Dumas, accrescentou que o romanceO que fazem mulheresera a flor do meu talento. Cheio de encantadora modestia, perguntei se a virtude da minha heroina precisaria de mais tres ou quatro capitulos para ser vista a toda a luz celestial com que a Providencia lhe irradiára o espirito. Disseram-me, á uma, que não escrevesse mais uma só linha, que deixasse á perspicacia das leitoras o desvelarem mysterios do coração, que eu não saberia illuminar sem profana'-los, que deixasse ás lagrimas das almas sensiveis o fecho d'esta historia, que esperasse, finalmente, alguns annos, para então escrever a segunda parte da biographia da baroneza de{192}Celorico de Basto, que talvez os collegios de meninas adoptassem para uso das educandas.

Convenci-me d'isto, e mandei ao meu editor o romance, com a prophecia de ser este um livro cuja decima edição apenas bastaria para aquietar as ancias d'um terço do paiz. Disse-me em linguagem fria o meu editor que uma virtude em duzentas paginas por quinhentos réis era, pequena de mais para o comprador que prefere um livro em trezentas. Redargui-lhe, com argumentos de grande calibre logico e moral, que a unidade da acção era inatacavel no romance.

Item: que o estirar uma idéa para avolumar a lombada de um livro era chatinar a mercancia litteraria.

Item: que muitas capacidades largas e agudas, ás quaes eu submettera o meu manuscripto, se compromettiam a dizerem que este livro era a quinta essencia de tudo que se tem escripto acerca das mulheres virtuosas desde Sancta Agatha até ás Virgens do Thirol.

Chamei em meu abono Aristoteles, Longino, e mais alguns legisladores que eu não conhecia, para convencer o interprete do publico de que as raias do meu trabalho de chronista não podiam transpôr as da realidade. Por quanto:

Não é inventada esta historia;

Não quadram os incidentes imaginados com o essencial de um conto verdadeiro;

Não tolera um leitor sisudo que se lhe encampe á credulidade enfadonhas narrativas que agorentam a verosimilhança, ou enfastiam a attenção benevola.{193}

Após uma renhida desavença da qual ia resultando a perda do manuscripto, que eu insensatamente sacrificaria ao meu bem entendido orgulho, viemos ao accordo de se publicar o magro volume com grandes margens, grandes entrelinhas, exuberancia de reticencias, e alguns juizos criticos dos meus amigos que serviriam de indigitar ao leitor em que paginas estão as bellezas que elle não viu.

Concertados assim, estava o typographo com a ultima pagina, quando eu fiz uma excursão ao Minho, e encontrei no Senhor do Monte o cavalheiro que me contára o contexto d'este romance, nos ultimos dias do mez de janeiro proximo passado.

A nossa conversação de algumas horas vae ser trasladada em paginas supplementares.

Antes, porém, de entrar n'essa tarefa que realmente me dóe, seja-me permitido verter uma lagrima no degrau do altar onde eu collocára Ludovina, onde ella se collocára, e de onde se me afigura que...

Não dou ansa a juizos temerarios do leitor. Leiam, e decidam se a virtude perfeita não é uma utopia impossivel n'um livro que tiver mais de duzentas paginas.

Cumpre dizer quem é a pessoa, destinada pela providencia dos romances a figurar n'este supplemento.

V. ex.asde certo a conhecem. Viram-na já muitas vezes no theatro, nos bailes, e na missa dos Congregados, na dos Clerigos, na do Carmo, em todas as missas classicas em que se vê tudo, e se ouve tudo, menos o padre e a missa.{194}

Eu dou os signaes do homem.

Tem uma bella cabeça, uns bellos cabellos, uns bellos olhos... Já conheceram?

De vinte leitoras, dez estão na duvida. Se v. ex.ª é uma das dez perplexas, desperte as suas reminiscencias com os seguintes traços:

O nariz é a feição mais caracteristica d'este homem. Na base tem um promontorio, no centro uma protuberancia, na ponta uma recurva como o bico de um passaro. Chamam-se estes narizesBourbons. Agora conheceram-no todas. Na escola dos physionomistas, este nariz tem significações espantosas. É um nariz que individualisa um homem; é um livro aberto; é o porta-voz dos segredos da alma; é em summa, uma biographia.

Foi o que me approximou d'este homem. Se a natureza lhe désse a elle um nariz vulgar, o leitor não se decidiria na leitura d'este romance. Vejam de onde eu tirei um livro! O nariz de Cyrano de Bergerac foi causa de vinte duellos de morte. Do nariz do meu amigo podem pender vinte volumes.

Fascinou-me, e fui eu que me offereci á sua amizade. Achei-o um homem raro, sabendo profundamente a vida de v. ex.as, quero dizer, todas as virtudes que v. ex.asescondem, todas as perfeições que a sociedade não vê, sem lh'as explicarem.

É provinciano o sr. Marcos Leite: dê-se-lhe este nome. Visita o Porto duas vezes cada anno, uma no carnaval, outra na estação do theatro italiano.

Consta que nunca teve namoro que o entretivesse{195}nas duas estações. O nome da mulher, que adora, até á demencia, no carnaval, quasi sempre lhe esquece na Paschoa seguinte. Em compensação, as mulheres rejeitadas, quando o leão volta das suas selvas nataes, apenas dão fé que Marcos está no theatro das suas façanhas pelo estrupído extraordinario do cavallo, que elle atira em arremettidas e sacões pelas ruas mais sonoras da cidade eterna. A não serem as mulheres o que providencialmente são, Marcos Leite seria prea dos dentes do remorso, ha muito tempo. Não ha uma só das esquecidas damas, que lhe não incendiasse no mais intimo do peito um amor eterno... de tres semanas.

Algumas possuem cartas de uma paixão tão frenetica, que as exclamações de Werther, comparadas com ellas, são frias e chatas como um rol de roupa suja.

Foi, pois, este cavalheiro, respeitavel em todos os sentidos, que me contou o essencial da historia do barão de Celorico, accrescentando que tinha visto duas vezes de relance, n'uma grade d'um mosteiro do Minho, proximo ao seu solar, a figura celestial da baroneza, e a sympathica e ainda juvenil physionomia de D. Angelica.

Por essa occasião, lhe perguntei eu se traçava alguma rede á virtude heroica de Ludovina. Respondeu-me o narrador, que não ousava escalar uma fortaleza em cujo assalto era forçoso triumphar, ou morrer. Accrescentou, que, nem ainda cooperado por duas primas que tinha no tal convento, elle se animava a revelar a Ludovina uma affeição, que, desprezada, se tornaria em loucura furiosa.{196}

Pareceu-me sensata a resposta de Marcos. Que homem conseguiria alvoroçar aquelle coração, que eu imaginava esmagado sob a pressão de uma virtude exaltada?

Decorreram quatro mezes, e, como disse no prefacio, fui, ha dias, surprehendido no Senhor do Monte por Marcos.

Conhecem aquelle saudosissimo arvoredo, que rumoreja na sumidade da serra, e aquella fresca alameda que está tapetando a entrada para amãe d'agua? Foi alli que o encontrei, encostado á mesa de pedra, lendoLES REVERIESde Senancourt; leitura que eu aconselho a todas as pessoas que precisam idealisar um mundo medio entre o asquerosamente lôrpa em que vivemos, e o absurdamente inintelligivel que nos promettem as religiões.

Quando me viu, Marcos Leite correu a abraçar-me, exclamando:

«O meu coração tinha-te invocado. Abominaria quantos homens e mulheres me apparecessem aqui, menos tu, e ella...

—TemosELLA!

«E tu vieste para este sitio com o coração vazio?!

—Graças a Deus, não, meu poeta. Trago tecidos, membranas, valvulas, ventriculos, veias, arterias, nervos, sangue, etc. O meu coração está funccionando com a mais physiologica das regularidades. Respiro desafogadamente, e completo a digestão de uns succulentos pedaços de boi, que tritureisub tegmine fagi.{197}

«Se vens assim, melhor fôra que não viesses. Eu queria que me entendesses, como creio que me entendem, ha tres dias, estes rumores da floresta. Escuta! Vê tu se este ermo, se este sussurro, que parece o echo esvaido de um mundo remoto, não te está dizendo que o amor é a vida, que a esperança é a felicidade, que debaixo do céo ha só tres cousas grandiosas, o homem e a mulher um para o outro, e a soledade para ambos! Não digas alguma blasphemia! Esse sorriso offende, e é um sacrilegio aqui. Agradece ao Senhor que nos dá isto, esta fontinha, a fresquidão d'estas sombras, o murmurio d'estas arvores, o azul do céo, lá em baixo a melancolia poetica do valle, o som do campanario rural que repercute na alma...

Marcos Leite tinha razão. Não pude contrafazer, por mais tempo, a minha indole triste. Entrou-me a saudade no coração, aninhando-se no pequeno recinto não tomado ainda pela desesperança. Lancei os olhos ao livro em que lia Marcos, e recolhi á alma as seguintes linhas:

La paix jointe aux lumières sera le partage d'un homme dans toute une province. Quant au contentement, on le cherche, on l'espère même; peut-être l'obtiendrait-on, si la mort ou la décrépitude ne survenaient auparavant... La vie était bonne, et on lui trouve encore des douceurs que la raison ne saurait méconnaître. Mais il importe que l'imagination, renonçant aux écarts, et servant elle-même d'asile contre les peines, anime seulement le repos que l'âme peut conserver quand elle est restée pure.{198}

«Que é isto?—perguntei eu tomando de sobre a mesa um papel escripto a lapis.

—Versos, meu caro; linhas, é melhor dizer linhas. O coração mais poeta creio que é o menos metrificador.

«Póde saber-se que anjo te roçou a fronte com a aza?

—Não adivinhas quem eu poderei amar assim? Ha uma só mulher n'este mundo.

«A baroneza?

—Com que frialdade proferes esse nome! Chama-lhe antes Ludovina...

«Lê os versos.

Marcos declamou com as mais maviosas modulações do sentimento a seguinte poesia:

A LUDOVINAQuem ha ahi que possa o calixDe meus labios apartar?Quem, n'esta vida de penas,Poderá mudar as scenasQue ninguem pôde mudar?Quem possue n'alma o segredoDe salvar-me pelo amor?Quem me dará gotta de aguaN'esta angustiosa fraguaD'um deserto abrasador?{199}Se alguem existe na terraQue tanto possa, és tu só!Tu só, mulher, que eu adoro,Quando a Deus piedade imploro,E a ti peço amor e dó.Se soubesses que tristezaEnlucta meu coração,Terias nobre vaidade,Em me dar felicidadeQue eu busquei no mundo em vão.Busquei-a em tudo na terra,Tudo na terra mentiu!Essa estrella carinhosaQue luz á infancia ditosaPara mim nunca luziu.Infeliz desde creança,Nem me foi risonha a fé;Quando a terra nos maltrata,Caprichosa, acerba, e ingrata,Céo e esp'rança nada é.Pois a ventura busquei-aNo vivo anceio do amor.Era ardente a minha alma;Conquistei mais d'uma palmaÁ custa de muita dôr.{200}Mas estas palmas taes eramQue, postas no coração,Fundas raizes lançavam,E nas lagrimas medravamCom fructos de maldição.Em ancias d'alma, a venturaNos dons da sciencia busquei.Tudo mentira! A scienciaEra um signal de impotenciaDa vã razão que invoquei...Era um brado, um testemunhoDo nada que o mundo é.Quanto a minha mente erguiaTudo por terra cahia,Só ficava Deus e a fé.Lancei-me aos braços doEterno Com o fervor de infeliz;Senti mais fundas as dôres,Mais agros os dissabores...O proprio Deus não me quiz!Depois, no mundo, cercado,Só de angustias, divagueiDe um abysmo a outro abysmoPedindo ao louco cynismoO prazer que não achei.{201}Tristes correram meus annosNa infancia que em todos éBella de crenças e amores,Terna de risos e flores,Santa de esperança e de fé.Assim negra me era a vidaQuando, ó luz d'alma, te viBaixar do céo, onde, outr'ora,Te busquei mão redemptoraProcurando amparo em ti.Serás tu a mão piedosa,Que se estende entre escarcéosAo perdido naufragado?Serás tu, ser adorado,Um premio vindo dos céos?E eu mereço-te, que immensoTem já sido o meu quinhãoDe torturas não sabidas,Com resignação soffridasNos seios do coração.Que ternura e amor e afagosToda a vida te darei!Com que jubilo e delirio,Nova dôr, novo martyrio,De ti vindo, acceitarei!{202}Se na terra um céo desejasComo o céo que eu tanto quiz,Se d'um anjo a gloria queres,Serás anjo, se fizeres,Contra o destino, um feliz.Faz que eu veja n'estas trevasUm relampago d'amor,Que eu não morra sem que diga:«Tive no mundo uma amiga,Que entendeu a minha dôr.«Deu-me ella o estro grandeDas memoraveis canções;Accendeu-me a extincta chammaDa inspiração que inflammaRegelados corações.«Os segredos dos affectosQue mais puros Deus nos deu,Ensinou-m'os ella um diaQue d'entre archanjos desciaCom linguagem do céo.«Os mimosos pensamentosQue, de mim soberbo, leio,Inspirou-m'os, deu-m'os ellaRecostando a fronte bellaSobre o meu ardente seio.{203}«Morta estava a phantasiaQue o gêlo d'alma esfriou;Tinha o espirito dormente,Só no peito um fogo ardente,Quando o céo m'a deparou.«Agora morro no gôsoD'uma saudade immortal.Foi ditosa a minha sorte;Amei, vivi: venha a morte,Que morte ou vida é-me igual.«Igual, sim, que o amor profundo,Como foi na terra o meu,Não expira, é sempre vivo,Sempre ardente, e progressivoEm perpetuo amor do céo.»Assim, querida, meus labios,Já moribundos, dirão,Nas agonias supremas,Essas palavras extremas,Do meu ao teu coração.Sabes quem é, n'este mundo,Quasi igual ao Redemptor?É quem diz: «Sou adoradaPela alma resgatada,Por mim, das ancias da dôr.»{204}

«Por ora, vejo que supplicas amor—disse eu.—A tua poesia é um requerimento que póde ficaresperadomuito tempo no gabinete do despacho.

—Fala d'outra maneira... Eu soffro demais para te achar graça. Não é um requerimento esta poesia, meu amigo, é uma expansão de reconhecimento. O amor ditoso chega a entristecer. Tenho a segurança, a segurança que nos dá o coração, de que a alma de Ludovina me pertence.

«Por consequencia tens tudo... Enganei o publico...

—Como enganaste o publico?!

«Puz em romance a historia que me contaste, e disse que a baroneza era uma rocha inabalavel de virtude.

—E receias mentir?!

«Eu já sabia que me não acreditavam... Pois tenho pena, palavra de honra! A meiga imagem de Ludovina havia de ser sempre nova e pura na minha imaginação, como o eterno typo das duas formosuras enlaçadas, a do corpo e a da alma. Rasgava o romance, se elle não estivesse já no prelo, e o dinheiro d'elle transformado n'um cavallo. É tarde para reivindicar a minha honra de romancista ingenuo ou palerma, que anda n'este mundo a querer provar, que as onze mil virgens nunca de cá sahiram.

—Pois que esperavas tu de Ludovina?

«Que morresse abraçada á sua cruz, que désse o exemplo da esposa martyr, da filha sacrificada ao bom nome de sua mãe; que sahisse apenas da sua cella{205}para redobrar de paciencia aos pés do altar; que nunca consentisse que corações degenerados como o teu, e o meu, concebessem a esperança de profana'-la.

—Estás a fazer a alta comedia, ou crês sinceramente que Ludovina degenera? Põe de parte a consciencia de romancista, e deixa fallar a do ente pensante e racional,—e se tu e eu somos indignos de aspirar ao amor da baroneza, crês que um outro, cahindo das nuvens determinadamente por ella, a absolveria do crime horrivel de ter coração?

«O coração de Ludovina estava cheio de sensações, que o faziam participante do amor divino. Que precisão tinha ella do amor dos homens? Estragou uma bella biographia, essa mulher. Talvez fosse unica, e apontada á posteridade como molde. Era uma virtude original; converteu-se em um vicio vulgar. A minha heroina fez bancarrota, falliu, e deixou-me em hypotheca a palavra que eu dei a paginas 170, pouco mais ou menos, de que eram solidos os fundos em virtude, e grandes os haveres em creditos d'esta mulher inimitavel, typica, e biblica, deixa-me dizer assim, porque ella merecia todos os epithetos levantados e grandiosos.

—Mas que fez a pobre senhora para descredito tamanho?

—O que fez?! é boa! auctorisou-te a canta'-la em quintilhas! Um homem de mais alma que tu és, vasaria a inspiração em versos endecasyllabos. Uma mulher assim amada em redondilha maior! É horrivel e immoral!{206}

—Bem! Ainda agora te comprehendi. Estás zombando com ella e comigo, e não sei se com o publico, a quem prometteste uma virtude enfadonha e monotona, como deve ser o teu romance, se te não salvares com a rapida narração que te vou fazer da mais sublime virtude, da virtude por excellencia de Ludovina.

—Qual virtude?

—A de me receber dez cartas, escriptas com o sangue do coração, e... não me responder a nenhuma.

—Mas tu disseste-me ainda agora que tinhas a segurança de que a alma de Ludovina te pertence.

—E tenho.

—Não te respondendo ás tuas cartas? Não entendo.

—Não me respondeu a dez cartas...

—Bem.

—Mas eu escrevi-lhe vinte, e ella respondeu á ultima.

—Ah! isso então muda de figura... E a resposta foi tal que te deu a segurança de seres o proprietario do coração da baroneza!...

—Queres ver a resposta? Franqueza e confiança. Lê lá.

Era um bilhete que rezava assim:

«Tenho recebido por delicadeza as suas cartas. Basta dar-me v. ex.ª o nome de amiga para que eu as aprecie. Não me julgava na obrigação de responder. Hoje, porém, que v. ex.ª me lembra esse dever, peço perdão da falta, e castigo-me devolvendo-lhe as suas vinte cartas,{207}de cuja posse sou indigna, porque não soube corresponder-lhe.

«Com verdadeira estima, attenciosa veneradora de v. ex.ª—Ludovina Pimenta.»

—Isto é lisongeiro!—disse eu sorrindo.—Com um documento d'estes, é indispensavel a posse que tomaste do coração da baroneza. Eu creio que podia ser assim o proprietario mais abastado do genero...

—Espera lá.. Ainda tenho outros titulos da propriedade. Já agora has-de examina'-los todos, e dizer-me no fim se os meus direitos serão litigiosos. Recebi as vinte cartas, e escrevi mais dez. Que dez cartas! Que estylo! que dez causticos para fazerem supurar um coração!

—Deixas ver a resposta?

—A resposta foram dez cartas.

—Incendiarias?

—Que duvida? Eram as minhas, lacradas, sem um vinco, direitinhas como foram!

—E teimaste?! Seria necessario muito despejo e indignidade!

—Não teimei: cahi doente, tive febre, assustei a minha familia, e fiz que me chorassem as minhas primas, companheiras conventuaes da baroneza. Ao nono dia de enfermidade, a medicina suspeitou que o sangue me refluía á cabeça. Correu que eu enlouqueceria, ou morreria. A baroneza mandou saber de mim duas vezes n'um dia.{208}

—Oh! isso é muito! No dia immediato foste agradecer-lhe o cuidado...

—Não fui, não podia ir. O abalo, a certeza, de que era amado, exacerbou-me a febre, escaldou-me a imaginação a ponto de delirar. Durante um curto intervallo de tranquilidade de espirito, escrevi á baroneza uma duzia de linhas quando muito. Dava-lhe parte de que tinha a morte sentada á cabeceira do meu leito de agonias; dizia-lhe que pediria por ella ao Senhor, se a gloria celestial me fosse dada como premio do muito que soffrera, e da muita paciencia com que soffrera na terra os rigores de uma alma que não quiz comprehender-me; perdoava-lhe com a mais evangelica generosidade de moribundo, e emprazava-a para me restituir o coração na eternidade.

—Isso devia fundir em lagrimas de remorso a pobre senhora.

—Estás ludibriando a minha angustia?—interrogou Marcos Leite com ironico enfado.

—Não ludibrio a tua angustia, faço a apologia da tua astucia. Tu não tinhas febre, nem vias a morte á cabeceira do teu leito, fala a verdade.

«Tinha febre, palavra de honra, porque sou muito nervoso; e se me persuado que tenho uma ponta de febre, sinto-me logo em labaredas. Tenho tido vinte e tantos d'esses typhos, com as vinte e tantas mulheres que tu sabes. O que vale é ser rapida e segura a convalescença.{209}

—Convalesceste depressa? Já vejo que o teu bilhete conseguiu...

«Um triumpho!

—Como um triumpho?!

«Uma gloria imprevista, um lance tão arrojado de venturas, que ainda agora me salta o coração no peito.

—Guarda os extases para o fim, e vamos ao ponto.

«Mandou-me visitar por um medico do Porto, que fôra de proposito medicar D. Angelica.

—Consiste n'isso o triumpho?!

«Que mais querias tu!

—Mais nada... A um doente a maior prova de estima que póde dar-se é mandar-lhe um medico.

«O peor foi dizer o doutor que a minha enfermidade era imaginaria. Mandou-me dar longos passeios a cavallo, e a pé, comer alimentos pouco volumosos e muito substanciaes, e dormir o maximo numero de horas que pudesse. Reflecti-lhe que sentia a morte no coração; a isto redarguiu, sorrindo, o medico matreiro, que verificando-se a morte d'esta viscera, entregasse ao estomago o exercicio das attribuições do coração. Não sei o que elle foi dizer á baroneza: é certo que os cuidados da parte d'ella não esfriaram, e eu, melhor avisado, entendi que não precisava morrer para ser amado. Logo que me ergui do leito...

—Da agonia, ou da dôr para variar...

«Nada de chacóta. D'aqui em diante fala-se serio. Logo que sahi fui ao convento. Era por uma bella tarde de maio. Soprava de leste uma viração suavissima,{210}que, sacudindo as urnas das flôres, embalsamava a atmosphera de fragrantes aromas. No horisonte...

—Se me pudesses dispensar do idyllio!... Guarda as reminiscencias bucolicas para o inverno, quando estivermos ao fogão. Por mais que phantasies não deslumbras a realidade do bello espectaculo que nos está dando aqui a natureza em primeira mão. Descarna as descripções, e diz o que passaste no convento com a baroneza.

«Estás materialmente estupido, homem. Foi-se-te a poesia toda no fabrico dos romances. Vocês, os que trabalham no coração humano com o escalpello sanguinario da analyse, tornam-se áridos, brutaes, e famulentos de sensações rijas...

—É assim; todavia, prefiro a descripção da tarde de maio á catilinaria insolente que vaes disparar-me.

«Nem uma nem outra. Vou abreviar o conto, para que a inveja mais depressa te castigue. A baroneza mandou-me entrar n'uma grade, e appareceu sósinha. Era a primeira vez que me recebia a visita sem vir acompanhada das minhas primas ou de D. Angelica.

—Esse facto é profundamente significativo! Vou gosar o prazer de ouvir um dialogo de amorosas finezas, cortado de suspiros maviosos... Já principiam as disciplinas da inveja a verberar-me...

«Saberás tu o que se passou?!

—Se sei o que se passou!?

«Sim... dizes com tão ironica zombaria o prospecto do dialogo...{211}

—Nada, não: é que me vou aquecendo ao teu enthusiasmo, e o estylo principia a aquecer tambem.

«Ahi vae lealmente, a scena final do definitivo triumpho. Eu tinha posto grandes esperanças na minha pallidez. Tres semanas de cama seriam capazes de fazer amarello um camarão cosido. A primeira decepção, que recebi ao entrar na grade, foi dizer-me a baroneza:

«Ninguem dirá que esteve doente, sr. Marcos! A vida socegada de tres semanas deu-lhe um colorido de saude, que d'antes não tinha.

—Como assim, sr.ª baroneza! Pois a minha pallidez...

«Está enganado; pelo contrario, está côr de rosa, acredite. Eu chamo as suas primas, e verá se ellas não dizem o mesmo.

—Não chame as minhas primas, sr.ª baroneza. Eu preciso que v. ex.ª me escute. Este é o momento solemne da vida ou morte. Hei-de hoje ouvir aqui a minha sentença. A pedra da sepultura já está erguida para mim; o seu braço suspendeu-a; o seu braço ha-de afastal-a de sobre o peito, que me esmaga, ou deixa'-la abafar o meu derradeiro gemido.

«Que linguagem, sr. Marcos!—disse ella—Pelo amor de Deus, faça-me a justiça de me não julgar creança. O infortunio emancipou-me. Não posso ser illudida, nem illudir-me. Tenho aquella dolorosa penetração que adquire o espirito á medida que a boa fé do coração se perde. Com que fim emprega tantos esforços baldados para inquietar-me?{212}

—Eu queria fazer a sua felicidade pelo amor.

«A intenção é generosa, e eu não sou ingrata. Mil vezes agradecida, sr. Leite; mas o amor não póde dar-me felicidade. Imagino que elle possa ser a alegria de muitas almas puras e impuras; dou credito a tudo o que se diz de sublime e celeste ácerca d'esse sentimento, o mais mavioso de todos: mas sem coração essa flor não póde dar perfumes de uma hora. O meu coração desfez-se em lagrimas, cuja historia não é nova para o sr. Marcos Leite. Eu não o amo, não o posso amar, apenas lhe vejo todas as boas qualidades que se podem desejar n'um amigo. Quadra-lhe esta affeição? quer-me para sua amiga? está decidido a acceitar deveras este offerecimento que tantas vezes acceitou, e outras tantas desprezou?

—Desprezei?

«Sim; pois que outro nome se deve dar ás suas cartas escriptas com um fogo que me deslumbra sem me queimar, instantes depois que me promettia respeitar a minha posição, compadecer-se dos meus infortunios, e acolher-me á sua estima como uma alma quebrantada de enfermidades, que só os melindres d'uma verdadeira amizade podem suavisar? Não é meu amigo, sr. Marcos. O senhor imaginou que eu tinha uma fibra do coração capaz de sustentar o peso de alguma grande desgraça, e quiz parti'-la.

«Enganou-se; nem essa já tenho. Que mais quer que eu lhe diga?{213}

—Mais alguma cousa: disse-me v. ex.ª que me não amava; agora diga que me despreza.

—Não posso. Sou sua amiga: não ha n'este mundo outro homem a quem eu possa dizer o mesmo. Sou para si, apesar da minha inutilidade, o mais que posso ser... Agora, se me dá licença, vou ao quarto de minha mãe, que está doente e só.»

O meu amigo Marcos Leite, fechando assim o dialogo com a esposa de João José Dias, fixou-me de um modo que parecia perguntar-me a razão porque eu me não ria.

—Esses triumphos são parecidos com as minhas derrotas—disse-lhe eu.

—É que tu não sabes nada do coração humano!—replicou o singular provinciano, com um sorriso, que poderia ser definido infatuamento tolo por quem não conhecesse a intelligencia clara de Marcos Leite.

Vaes agora ver que todos estes atalhos conduzem á estrada real da terra da promissão—proseguiu elle;—Josué está defronte das muralhas de Jericó. A trombeta da anniquillação vae soar. A virtude de Ludovina está abalada desde os alicerces, e desabará como todas as virtudes possiveis no romance, e impossiveis na vida qual ella é, e como bom é que ella seja para que este mundo se supporte desde o amanhecer até que o sol refresca a sua fronte abrasada nas aguas do oceano.. Deleitei-te com esta nesga de estylo? Até os olhos se te riem quando ouves tolices euphonicas!... Vou concluir.

—Já?!{214}

—Achas que é cedo?

—Parece-me que o triumpho está muito longe ainda para concluires tão depressa.

—Lê esta carta, e prova-me que conheces alguma cousa do coração, dando como infallivel a minha victoria.

Comecei a lêr com ávida curiosidade a seguinte carta de Ludovina:

«Eu procurei este abrigo, cuidando que encontrava n'elle paz, esquecimento, anceios para Deus, balsamo de piedade para as chagas de minha mãe e minhas, o desejo suave de morrer com ella, e um acabar a vida melhor que o principio.

«Gosei alguns mezes, se não a realidade, ao menos a esperança d'estes bens. Por que infortunio estava confiada ao sr. Marcos a missão de inquietar-me até me affligir com a mortificação das suas instancias impertinentes, perdoe-me a clareza da idéa...?»

—Que amabilidade!—disse eu, interrompendo a leitura.

—Lê, e não commentes por ora.

Prosegui, lendo:

«Muito egoistas são os homens, santo Deus! Ha uma infeliz mulher, como eu, que impressiona um homem como o sr. Marcos. Sou procurada na minha solidão por v. s.ª que me offerece o seu amor. Respondo-lhe{215}que o não posso acceitar, porque a infelicidade me tornou dura e insensivel aos prazeres dos affectos do coração. Conto-lhe a minha vida com aquelle desabafo e confidencia que fórma as amizades immorredouras. V. s.ª escuta-me, admira-me, lamenta-me, e faz-me acreditar que a minha dôr é para si tão respeitavel que não ousará mais despertar-me o desejo de alegrias impossiveis para mim. Apenas decorridas algumas horas, abro uma carta sua, em que espero encontrar a linguagem consoladora de um amigo, e leio um longo queixume contra a minha insensibilidade, e a ameaça de se matar, porque a sua mortificação é insupportavel.

«Egoismo, e tyrannia!

«Faltava-me a tortura da responsabilidade da sua vida, sr. Marcos! Quem me dera ser o que creio que se é no grande mundo, que eu não tive tempo de estudar! Lá, as mulheres experimentadas nas tempestades do coração, sabem, creio eu, que nenhum homem morre em naufragio. Eu tenho a innocencia de crêr que o mortifico, que o incommodo com a minha frieza, que o não satisfaço com o grande affecto de amiga que lhe dou.

«Que futuro me queria dar, sr. Marcos? Pois não conhece a minha posição? Não adivinha que vivo toda e exclusivamente no amor de minha mãe? Que entrei n'um caminho de amarguras voluntarias d'onde não posso desviar-me uma linha, sem converter em remorsos a consciencia das boas acções que pratiquei até hoje? Deixe-me tambem ser egoista das minhas virtudes,{216}porque não tenho outro amparo que me sustente a coragem para soffrer o pouco de vida que me resta.

«Eu avalio o seu coração. Confesso que, ha tres annos, o encontrarmo-nos seria um designio da Providencia divina. Creio que seriamos felizes; que teriamos a bemaventurança na terra.

«Agora, porém, não ha futuro para nós, nenhum futuro, meu amigo.

«São as ultimas palavras que lhe dirige a sua sempre amigaLudovina.

—Que esperas agora, Marcos?—perguntei eu.

—Espero que ella se compadeça da minha humildade.

—Humildade não entendo...

—Essa carta é um esforço extremo de quem se quer segurar á aresta do abysmo. A baroneza é mulher.

—Já sei.

—Cuidei que não sabias, e de certo não sabes o que é uma mulher.

—Então, já não aprendo.

—Vou-te ensinar o que são todas, definindo-te Ludovina.

—Escuto, sem respirar.

—A baroneza ama-me.

—Isso é bem positivo e claro? Vê lá...

—Tenho visto. Ama-me, e está sem forças para manter uma isenção contrafeita. A mulher, quando se sente enfraquecer, revolta-se contra o homem que a subjuga.{217}

—E depois?

—Se esse homem acceita humildemente a revolta, é ella mesma a que se revolta contra si, incriminando-se de ingrata e insensivel.

—É pelos modos uma enfiada de revoltas, debernardasdo coração...

—Estás hoje intractavel!!

—Estou intolerante com os absurdos. Esperas que ella te mande chamar á grade do mosteiro para assistires á queima d'esta carta na pyra do amor?

—Talvez... Tu és uma creança velha. Não sabes nada. Morres ignorante dos segredos do coração feminino... Que lastima!

—Não me chores, responde: tiveste o cuidado de avisa'-la que te vinhas suicidar nas florestas do Senhor do Monte? Meu caro Marcos, eu acredito que conheces todas as mulheres menos Ludovina. Ha um Waterloo para cada Napoleão d'estas conquistas incruentas. O teu é a baroneza de Celorico de Basto. Queres poupar-te a um desgosto de amor proprio? Esquece-a.

—E a omnipotencia da vontade o que é? Hei de triumphar, ou Ludovina é uma natureza superior á humanidade...

Sahi de Braga. O meu amigo ficou á espera da segunda «revolta» rimando a quarta poesia em quintilhas, e os primeiros duzentos versos de uma elegia que elle intitulava o seu epitaphio.{218}

Um mez depois encontrei no Porto Marcos Leite.


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