CAPITULO ULTIMO
Argumento
Dezesete annos depois
A velhice de Gervasio José de Barros enrijou-se nos frios do norte. Sempre laborioso e commerciante, o pae de Innocencio aparou as pontoadas dos desgostos no forte peito encouraçado pelo amor com que estremecia o neto.
Pedro, educado para herdeiro de um grande patrimonio, foi aos oito annos começar a carreira dos estudos noKing’s college and School. O velho, ao separar-se lagrimoso d’elle, disse aos professores:
—Meu neto é muito rico: não m’o mortifiquem. Ensinem-lhe o que é necessario saber um mancebo que tem muito de seu.
Á volta de poucos dias, sobreveio ao ancião maior agonia: morreu-lhe a esposa; matou-a, sobre a saudade do filho e a deshonra da afilhada, a nostalgia, o incessante lembrar-se do seu Porto, da sua rua das Cangostas.
Têmpera de ferro era a do viuvo! Sósinho em Londres, forçado a silencio por não ter quem o entendesse,ia para o collegio espraiar tristezas com o neto, e atirava-se ás canceiras mercantis para arrancar-se ás prezas da saudade.
Revigorou; mas esteve quasi a pique de ir a terra quando os amigos portuenses lhe participaram que Thomazia, esposa de Nicoláo d’Almeida, estava no Porto, dando bailes, onde compareciam as familias mais graúdas do commercio e da aristocracia, sem excepção do commendador Batalha.
—Oh! que patifes!—exclamou Gervasio.—Oh! que corja é aquillo!
E abafou o monologo, á mingua de auditorio.
Restaurou-se, porém. A raiva umas vezes faz versos, como disse o poeta romano; outras faz saude, como Gervasio José experimentou.
Foi prateando o tempo a veneranda fronte do velho.
Em 1865 prefazia elle setenta e trez annos, e Pedro de Barros dezenove.
Completou o moço a sua educação de rico. Sobejava-lhe verniz litterario para poder em qualquer parte do mundo fingir que não ignorava os rudimentos da sabedoria humana. Jogava armas conspicuamente. Ganhára premios no florete e pistola. Nadava rapido e airoso como um tritão. Desfazia e refazia as articulações em gimnastica. Tocava harpa e piano, lira e rebeca. Carambolava com prodigiosas quantidades; estremava-se nos repiques e repercursões. Em gineta era um perfeito cavalleiro e coudel. Sabia de fundamento a anatomia dos cavallos, e nada sabia da sua.
D’esta arte sahiu do collegio para a companhia do avô.
Pediu um cavallo. O velho deu-lhe dois e carro, com lacaios e libré a capricho. Principiava a fraqueza d’aquelle provecto cérebro de Gervasio! Elle, que esbanjava assim os rolos das libras, é que a morte lhe andava perto.
Um dia, chamou Pedro de Barros ao seu quarto, e fallou-lhe d’este feitio:
—Meu filho, filho do meu sempre chorado Innocencio, é chegada a occasião de te dizer o que não sabes. Tua avó, que Deus tem, e a ama, que te criou, disseram-te que teu pae e tua mãe tinham morrido. Teu pae... certo é que morreu; tua mãe, não.
—Eu tenho mãe!?—exclamou Pedro, crescendo para o avô com transportado impeto.
—Tens e não tens, Pedro. Senta-te ahi, e escuta. Morreu tua mãe para nós, porque foi a vergonha da minha cara, e a deshonra de teu pae. O meu caro filho, como sabes, acabou noHavre; e acabou estarrecido de paixão, segundo lá mesmo me disseram no hotel onde elle expirou. Quando a febre o fazia delirar, gritava contra tua mãe, dizendo que morria sem a matar. Basta que eu te conte que, pedindo-lhe o confessor que perdoasse á mulher, elle saltou furioso da cama e não quiz confessar-se. Foi ella que matou o meu filho, foi ella, Deus o sabe!
Queres agora ver, Pedro, que alma tinha a tal féra? Olha tu. Na noite em que esperavamos teu pae, fugiu ella para a companhia de um homem. Quando chegueia casa com a noticia de elle ter morrido, achei tua santa avó, e tuas tias e tios que já lá estão em cima, a gritar como doidos cuidando que ella se tinha ido botar ao Douro.
Saí de Portugal, quando soube que essa desalmada queria tirar-te da minha companhia, a ver se á tua sombra me comia o suor de meus avós. Deixei os meus negocios arranjados de modo que não ficasse coisa a que ella deitasse as unhas. Pouco e pouco vim passando para cá a minha fortuna e hoje estou senhor de tudo que herdei e ganhei.
—E ella onde está?—atalhou Pedro—E elle!?... Onde está o infame que motivou a morte de meu pae?
—Casou com ella, vivem lá n’uma provincia chamada Minho. Deixal-os estar, que os leve o diabo. Não queremos saber onde estão.
—Oh meu avô!—interrompeu o filho de Thomazia—pois meu pae não hade ser vingado? O opprobrio d’elle não recae tambem sobre mim?
—Deixemo-nos de asneiras, rapaz. Não me comeces a tresvaliar lá com as tuas valentias. Não quero saber d’essa gente. Tua mãe, já te disse que morreu... Ora attende cá. Estou muito velhinho. As pernas já me estão a pedir sepultura. É tempo de te pôr ao corrente dos negocios. Assim que eu fechar olhos, Pedro, manda abrir o meu testamento, onde eu deixo declarado o que se hade fazer por minha alma. Eu lá digo que não tenho nada que deixar, porque receio que tua mãe ainda queira levantar-se com metade da tua herança; mas tu, meuneto, ficas desde já sabendo que n’aquelle cofre de ferro tenho toda a tua fortuna. Ali estão oitenta contos de réis em dinheiro de contado. Guarda-os, toma posse do que era de teu pae, vive do rendimento d’elles que te hade chegar; não te ponhas a extravaganciar, porque podes vir a ser pobre, e muitos o chegaram a ser com mais do que tu. Se alguma vez fôres ao Porto, pede lá que te contem a historia de Pedro Sem, o mais rico negociante que meu pae conheceu, e acabou pedindo. Ora pois, Pedro... Eu bem queria deixar-te casado; mas... leve o demo tal idéa... A desgraça de teu pae fui eu que a fiz com o endiabrado casamento d’uma rapariga que tua avó foi buscar á miseria, e ali creámos como filha!... Deus lhe pedirá contas...
—Que infame mulher!—murmurou o filho de D. Thomazia.
—Deixa-a lá... que o fim não hade ser bom...
—E eu sou filho de tal monstro!—volveu Pedro batendo uma rija punhada no peito.—Eu!... filho d’essa vilissima creatura!
—Lembra-te—acudiu o ancião—que és sómente filho do meu Innocencio. Esquece-a para sempre... Lá está em cima quem n’a hade julgar. (Pedro soltou um cacarejo de riso nasal e arrepelou os cabellos).
—Que engrimanços estás ahi a fazer?—perguntou Gervasio.—És um crianço! é o que tu és!... Tens vinte annos ainda por fazer. Se Deus me der dois annos de vida, que não dá, ainda terei mão de ti; senão, vou para o outro mundo a temer que faças destemperos porcá. Pedro!—bradou elle energicamente—Pedro, tu não te mettas com essa mulher! Já estou arrependido de te contar o caso...
—Não se arrependa, meu avô!... Eu tenho no coração a dignidade e os brios de meu pae.
—É o que se quer; e não me afflijas, que estou doente, e qualquer coisa me faz mal. Não te vivo muito tempo, filho... Seis mezes, quando muito...
Viveu menos do que esperava o pobre velho. Contava ainda com outra primavera, e ao visinhar-se a aurora da eternidade cuidou que se lhe iam os alentos á mingua de um caldo de gallinha. Suavissima foi a morte que lhe chegava o seio como recôsto de descanço. Uma leve inclinação de pescoço ao hombro de Pedro, e um suspiro de creança adormecida foi o trespasse do leveiro espirito a quem Deus certamente não carregará com o peso da fraudulenta pobreza.
Pedro de Barros suffragou-lhe a alma, recadou as aureas entranhas do cofre de ferro, e permaneceu em Londres por espaço de trez mezes, colhendo de Portugal e de portuguezes certas informações.
Chegou, no entanto, ás gazetas de Lisboa e Porto anoticia de ter morrido em Londres Gervasio José de Barros. Um noticiador accrescentava que a «fortuna» do defunto devia ser muito grande, bem que se não désse registro nem inventario d’ella. Recuando delicadamente a coisas acontecidas vinte annos antes, reflexionava que um neto do defunto é quem poderia sobre o certo dizer quantas centenas de contos seu avô deixára.
Nicoláo d’Almeida leu a noticia a sua mulher.
Thomazia pôde ainda contrabalançar a exultante esperança de ver o filho com a tristeza de ser morto seu padrinho.
Os vinte annos intermettidos haviam-lhe dado na consciencia toques de dôr que ella escondia do marido.
—E agora?—perguntou ella.
—E agora?—pergunto eu!—respondeu Nicoláo.
—Que fazes? Vaes procural-o?
—Se o vou procurar! que lembrança!...
—Sim... eu cuidei que tu...
—Cuidaste bem, filha; porque eu vou effectivamente procural-o... vou vêl-o...
—E levas-me?
—Não, menina: vou ver se t’o conduzo aqui.
—O meu filho?
—Sim... por que não?! Pois tu não crês que o sangue opere a maravilha? Tenho-te dito que o sangue tem uma voz imperiosa, e impelle o filho para o pae irresistivelmente.
—E vaes, meu Nicoláo?
—Vou á exposição a Pariz e depois irei a Londres.
—Como hasde tu encontral-o?
—Hade ser o sangue que m’o hade mostrar.
—Ora!... eu não creio n’isso... Se o sangue valesse, não teria elle tido uma palavra para sua mãe?
—Saberia elle que tu existias?
—É verdade... não saberia...—obtemperou a esposa.
—Está portanto deliberado. Vou a Londres. Se o vir—que heide ver—aperto-o ao coração, e digo-lhe: «Atira á lama o dinheiro de Gervasio de Barros; manda-o apanhar pela parentella pobre que elle hade ter em Portugal. Vem que és filho de um homem rico; os teus appellidos são Alves Pinto por tua mãe, e Almeida por teu pae, que sou eu. Abraça-me, filho, que te bate no seio o coração de quem ha vinte annos chora por ti!»
Thomazia tambem chorava de alegria e enthusiasmo maternal.
Poucos dias passados, o fidalgo de Caminha saía para Pariz.
Em uma carta escripta desde Londres dizia Nicoláo d’Almeida a sua mulher: «Pedro saiu d’aqui ha quinze dias. Não me sabem dizer para onde. Presume-se, porém, e é natural que esteja em Pariz. Volto ámanhã para lá...»
No dia em que D. Thomazia recebeu esta carta, apeoude uma carruagem em Caminha um mancebo de galhardo aspecto e ademans afidalgados. Procurou a residencia de uma familia illustre da villa. Apresentou carta de recommendação, e perguntou onde morava Nicoláo d’Almeida.
Disseram-lhe que estava em Pariz, para onde partira um mez antes, e que a familia se retirára a uma quinta das margens do Minho.
Perguntou Pedro de Barros se seria possivel saber-se a residencia de Nicoláo d’Almeida em Pariz. O cavalheiro interrogado, querendo servir o forasteiro que um amigo lhe recommendava calorosamente, encarregou-se de mandar saber á quinta a paragem de Nicoláo. Voltou o solicito informador com esclarecimentos dados por D. Thomazia: que seu marido se hospedára em Pariz noHotel des Étrangers, rua Vivienne, 3; mas que a ultima carta recebida viera de Londres, onde Nicoláo d’Almeida apenas se demoraria algumas horas.
Pedro de Barros resistiu aos rogos da familia, que lhe pedia a honra de pernoitar em sua casa. Desandou para o Porto, e saiu na via ferrea do mesmo dia para Lisboa, afim de alcançar o paquete francez.
Nicoláo d’Almeida jantava no dia 5 de julho á mesa redonda doHotel des Étrangers, e viu em frente de sium moço de gentil compostura, ainda imberbe, conversando com inglezes e francezes correctamente as duas linguas, segundo quiz parecer ao portuguez, que não era hospede em nenhuma. Prestou-lhe attenção, e ouviu dizer que vinha de Portugal. Perguntou-lhe um italiano se era portuguez. Pedro de Barros respondeu negativamente.
—Parabens!—disse o italiano, que era tenor.
—Parabens, porque?—perguntou Barros por sobre a espadua, alisando com o guardanapo a penugem do buço.
—Porque portuguezes são canalha—explicou o tenor.—Estive no Porto um inverno, n’aquella bruta terra onde não ha lettras nem artes. Ha vinho e muitos bebedos.
—O senhor cantou no Porto em 1855?—perguntou Nicoláo d’Almeida em bom francez, intervindo na palestra dos visinhos.
—Sim, cantei.
—Recordo-me:—tornou o portuguez—cantava pessimamente e foi pateado. Quem o pateou não foram os bebedos do Porto. Estavam lá cavalheiros que, nem ainda insultados por um biltre, aviltariam um tagante.
O tenor levantou-se e disse enfaticamente:
—Uma satisfação!
—Não lh’a dou—disse placidamente Nicoláo.—Pertenço aos cavalheiros que não se medem com cantores, além de pessimos, villões.
—Eu sustento as frases d’este senhor—interpoz-se Pedro de Barros.
—E o senhor quem é?—perguntou o fidalgo de Caminha.
—Não sou tenor. Quem o senhor seja, não pergunto eu. Conheço o senhor Nicoláo d’Almeida. Um homem da sua estofa não póde chamar villão a outro.
—Quê?—atalhou Nicoláo enfiado.
—Explicações para occasião conveniente.
—Figura-se-me que o senhor é parvo dos que a prudencia manda tolerar—replicou sereno e quasi recobrado o portuguez.—Estou arrependido de me inquietar um momento com a sua pessoa.
Pedro de Barros correu os dedos pelos cabellos, surriu-se e murmurou:
—Verei se a coragem corresponde á infamia. Os assassinos da honra não costumam arriscar senão palavras. No entanto, veremos.
—Algumas vezes arriscam sujar a luva com que dão a bofetada—retorquiu Nicoláo d’Almeida.
Pedro de Barros levantou-se. Esperou que cincoenta commensaes se calassem impressionados pela postura oratoria do sujeito, e disse apontando sobre Nicoláo:
—Alli está, senhores, um infame sobre quem pesa a morte de um homem honrado, que elle matou prostituindo-lhe sua mulher. Este ferrête, que lhe atiro á testa, em occasião opportuna lh’o grudarei mais sensivelmente.
Fez-se profundo silencio.
Nicoláo levantou-se por sua vez e disse:
—Aquelle miseravel ainda não fez publico o seu nome.
—Sabel-o-ha, quando quizer—respondeu Pedro de Barros.—O meu nome não importa a estes cavalheiros. Se eu o disser, não me conhecem, nem podem por elle ajuizar da autoridade da minha opinião a respeito do senhor Nicoláo d’Almeida. Dentro de trez horas, estarei no quarto n.º 5 d’este hotel. Se eu não estiver, senhores, o infame sou eu, e não elle.
O marido de Thomazia saiu.
Meia hora depois voltava com dois portuguezes, seus contemporaneos da universidade, lisboetas da plana aristocratica.
Pouco em seguida, entrou no quarto n.º 5 Pedro de Barros com dois francezes titulares, seus conhecidos das carreiras hippicas em Londres.
No quarto, antes de avisarem Nicoláo d’Almeida, continuaram assim a conversação que traziam:
—Mas a mudança de nome—dizia um dos francezes—é uma irregularidade original nos duellos!
—Compreende a minha situação, visconde—dizia Barros.—Eu sou filho da mulher que matou meu pae com a villania do seu proceder. Este homem arrebatou de casa minha mãe, no dia em que meus avós choravam a morte do filho. Eu não posso dizer ao infame quem sou. É invencivel a vergonha que tenho de que elle o saiba. O meu proposito é vingar meu pae...
—E queres que elle morra na ignorancia de que és o vingador de teu pae?
—Não. Hei de dizer-lh’o, se a morte lhe der tempo de m’o ouvir.
—Mas eu não achava feio que te declarasses—sobreveio o outro amigo.—Era até bonito e novo! Um filho a vingar seu pae...
—Se eu o declarar, elle não se baterá comigo, porque sou filho da mulher com quem elle é casado. Engulirá as affrontas, e dirá com dissimulada covardia que não desfecha uma pistola ao peito do filho de sua mulher. E depois? que é da minha vingança?
Os amigos assentiram com repugnancia; mas condescenderam em que Pedro de Barros se chamasse Richard Grattan.
Abriu-se a sessão dos parlamentarios. Congregaram-se os quatro padrinhos. Os dois portuguezes, sabido o nome do insultador, que os francezes abonaram como pessoa de primeira distincção e riqueza, segundo entendiam de o verem no concurso de illustres inglezes, caíram logo na particularidade da sua missão. Os quatro vieram ao consenso de que o combate fosse á pistola, a vinte e seis passos. Precisaram a localidade emAbbaye de Longchamps, noBois de Boulogne, na madrugada do dia seguinte.
Perguntava Pedro de Barros aos seus padrinhos:
—Quem escolheu as armas?
—Elles.
—Quem marcou as distancias?
—Elles.
—Então o homem é tolo!—observou Nicoláo.
—Se não fôr mestre no tiro...—-disse o visconde.
A reflexão era justa. Um ignorante da arma cederia todas as vantagens ao perito, collocando-se a tão grande distancia.
Nicoláo d’Almeida passou tranquillamente o restante da noite com os seus amigos. Ás trez da manhã escreveu uma longa carta a seu filho Lopo, incluindo outra para a mãe.
—Se eu morrer, o que não espero, remettam esta carta a meu filho—recommendou elle aos padrinhos.—Tomem nota no que vou dizer-lhes: os minhotos teem crendices e velharias que lhe estão no sangue. Tenho uma capella em uma das quintas onde está o jazigo dos meus antecessores desde 1515. Vossês, se isso fôr exequivel como creio que é, mandem para lá o meu cadaver, mesmo furado por uma bala de sir Richard Grattan.
Os lisboetas pasmavam da fria coragem do provinciano. Os quarenta e trez annos de Nicoláo d’Almeida representavam trinta e quatro com serodias verduras.
Condiziam n’elle os surrisos e desdem juvenil da morte com a frescura e flexibilidade d’aquelles elegantes meneios e delicadas formas. Os padrinhos é que em verdade representavam as pessoas arriscadas ás balas de sir Richard Grattan.
Apontou a manhã.
—São horas—disse Nicoláo.—A madrugada está linda. Se nos derem tempo, passearemos algum pouco no bosque de Bolonha, que ainda não vi. Veja-se o que fôr possivel á ultima hora.
Partiram.
Esperaram cinco minutos.
Examinaram as quatro testemunhas as pistolas inglezas. Carregaram-nas. Espacejaram as distancias. Accordaram na simultaneidade dos tiros. Deram a voz de fogo. Cruzaram-se as balas. Sir Richard Grattan caiu rodando ligeiramente sobre os calcanhares.
—Morto!—disse o visconde ao companheiro.—A bala penetrou-lhe na cabeça.
—Que tiro!—disse o conde com artistica admiração, como se a cabeça do moribundo ou do morto fosse um alvo, e mais nada.
Nicoláo d’Almeida fez uma breve mesura aos padrinhos do adversario e entrou com os seus na sege.
O facultativo da comitiva de Pedro de Barros acercou-se, examinou e disse:
—É mortal a ferida.
O prognostico era de acceitar; porque a bala batêra, bem que de revez, na sutura sagital, compreendendo, afóra perda de substancia, o pericraneo profundamente.
Pozeram-lhe uma prancheta de fios, ligaram-lhe a fronte, e transportaram-n’o ainda com pulso á carruagem.
No mesmo dia, Nicoláo d’Almeida saiu de Pariz na via-ferrea para Baionna, com direcção a Portugal, depoisde pedir aos seus amigos que fizessem o sacrificio de jantar noHotel des Étrangers, e certificar aos hospedes do dia anterior que o inglez acertava tão bem com as balas como com as injurias.
Appareceu inesperado em casa Nicoláo, quando a esposa lhe estava escrevendo afflictivamente.
Um grito de alegria e logo uma torrente de lagrimas, tambem alegres, entraram de suspeitas o marido.
—Que chorar é esse? que sabias tu de mim?!—perguntou Nicoláo quasi supersticioso.
Referiu-lhe Thomazia que quinze dias antes lhe tinha mandado um sujeito de Caminha perguntar em que hotel de Pariz residia o marido; e que só, poucas horas antes, lhe tinha ido mostrar uma carta de Lisboa apresentada por um rapaz de vinte annos pouco mais ou menos, e que n’esta carta lêra ella as seguintes palavras: «Se o cavalheiro, portador d’esta carta, precisar de auxilio estranho para um acto de brioso desaffrontamento, queira ouvil-o e prestar-lh’o.»
—Que queria isto dizer, meu filho?—exclamava Thomazia.—O nosso Lopo disse-me que o homem vinha desafiar-te. O que eu tenho soffrido, Nicoláo! Estive ha momentos para ir com o Lopo em procura de ti... Graças, meu Deus! Não te succedeu mal nenhum, não?
—Bem vês que estou sadío e escorreito—disse o esposo surrindo com triste semblante mal affectado.
—Mas tu vens melancolico, e de mais a mais quando não tencionavas vir... E o nosso filho? noticias nenhumas?
—Pois ahi tens a minha tristesa, Thomazia... Não vi o filho, e quasi perdi as esperanças de o ver.
Era-lhe força relatar á mulher o desastre acontecido com o infeliz que o insultára, e provavelmente devia ser o inglez vindo a Portugal. Não podia elle rastrear os motivos do insulto nem o interesse com que a desatinada coragem do petulante inglez se pagava. Partiu logo a Caminha para averiguar do sujeito a quem o moço viera recommendado os signaes e pormenores de tal apresentação. Disseram-lhe que o rapaz exprimia custosamente a lingua portuguesa, e não proferira palavra relativa a Nicoláo d’Almeida, tirante as necessarias para lhe saber a residencia. Emburilhou-se-lhe ainda mais a trama das conjecturas, até que principiou a convencer-se de que o moço era algum paladino desorientado por vapores da idade média, ou leituras de romances de cavallarias, o qual, ouvindo contar a Gervasio de Barros a tragedia da sua familia, deliberára em honra da sua dama endireitar umtuerto, que se lhe figurava crime de vingança digna d’elle e da posteridade.
N’estas fluctuações, recebeu uma carta de um dos seus padrinhos de duello, escripta quarenta e oito horas depois que se tinham separado na estação.
Resava assim:
«Dilucidou-se o misterio. Ahi vae cousa que te deve assombrar, e me traz a mim espantado a pensar que ainda se fazem maravilhosos romances n’esta vida pratica e positiva, onde tudo parece correr com enjoativa regularidade.«Primeiramente, saberás que sir Richard Grattan ainda não acabou; mas não tardará.«Segundamente, saberás que os padrinhos d’elle acabam de contar aos seus amigos, e estes amigos a outros, e os outros a todo o mundo, uma coisa que não deixa de ser bonita; mas, apesar d’isso, te recommendo que não leias esta carta deante de tua senhora...»
«Dilucidou-se o misterio. Ahi vae cousa que te deve assombrar, e me traz a mim espantado a pensar que ainda se fazem maravilhosos romances n’esta vida pratica e positiva, onde tudo parece correr com enjoativa regularidade.
«Primeiramente, saberás que sir Richard Grattan ainda não acabou; mas não tardará.
«Segundamente, saberás que os padrinhos d’elle acabam de contar aos seus amigos, e estes amigos a outros, e os outros a todo o mundo, uma coisa que não deixa de ser bonita; mas, apesar d’isso, te recommendo que não leias esta carta deante de tua senhora...»
N’este ponto Nicoláo exclamou, surrindo:
—Oh! que é isto?! Desculpa, Thomazia, que eu devo obedecer ao meu amigo.
—Pois que é? lê, filho.
—Não... Deixa-me...
Ao proferir estas palavras, com os olhos cravados na carta, e a cabeça a tremer como o papel nas mãos convulsas, arrancou um grito estridente, e bradou:
—Matei meu filho!
As palavras que elle tinha lido eram estas:
O rapaz com quem te bateste não é inglez, nem se chama Richard. É portuguez, é o filho do primeiro marido de tua senhora e chama-se Pedro de Barros...
O rapaz com quem te bateste não é inglez, nem se chama Richard. É portuguez, é o filho do primeiro marido de tua senhora e chama-se Pedro de Barros...
—Matei meu filho!—bradou elle segunda vez.
Thomazia não lhe ouvira o segundo brado. Tinha caído nos braços de Lopo, trespassada de frio mortal.
—Matei meu filho!—exclamou ainda Nicoláo d’Almeida.
Avermelhára-se-lhe subitaneamente o rosto. Rutilavam-se-lhe as pupilas errantes em volta de si. Ergueram-se-lhe arriçadas as sobrancelhas, e avincou-se-lhe a fronte em profundos sulcos. Os beiços pareciam alligados entre si, como se os rebordos labiaes se unissem. Contrairam-se as maxillas uma contra outra, premindo-se de modo que davam um som asperrimo de rengir de dentes. As veias frontaes e jugulares latejavam infladas. Depois, os spasmos dos musculos da face completavam o horror da desfiguração. Ao contrair das pupillas correspondia o arfar das cartilagens nasaes.
Passava a vista spasmodica pelo filho que lhe estendia os braços, chamando-o clamorosamente, e não o via. Já a esposa, caída no pavimento, levantava um alto pranto, e elle não ouvia. Os servos rodeavam os seus infelizes amos, chorando e clamando, e Nicoláo ajuntava áquella dissonancia dos gritos o stridor rispido dos dentes.
Morrêra-lhe a razão. Era a demencia que os especialistas denominam a daspaixões spasmodicas.
E, depois, em quinze dias, aquella mulher que ainda era formosa, envelheceu, á beira do marido.
Alta noite, quando sonhos horrentes lhe sacudiam o corpo adormecido, mas intangivel á mão bemfeitora da morte, erguia-se e dizia á esposa:
—Thomazia, levanta-te. São horas de sair. Vou para Londres. Vou procurar meu filho. Anda. Chama o escudeiro que me arranje as malas. Tu choras? pois que mãe és tu? queres ou não queres teu filho?
A pobre não sabia consolar. Começava a encher a mala de camisas, e esperava n’esta canceira que viesse a madrugada e o torpor do somno aquietar as impaciencias, e ás vezes os frenesis violentos do alienado.
Os medicos rodeavam o enfermo; porém, Thomazia não dizia a ninguem a origem da demencia do marido. Parecia-lhe atrocissima offensa ao desgraçado revelar que elle matára o filho.
Que supplicio o da viuva de Innocencio José de Barros! Que castigo tão desproporcionado! Se todas as alegrias da sua existencia de vinte annos valiam uma só das noutes que ella passava no quarto de Nicoláo d’Almeida!
Ao decimo dia da demencia, chegou outra carta do amigo que lhe enviára a morte na primeira.
Dizia d’este teor:
«Milagre! Pedro de Barros está salvo. Já se lhe levantaram os appósitos da ferida. A substancia perdida foi reparada. Aquillo é cabeça á prova de bala! Com um adversario assim não ha partido! Dizem os medicos que um elefante não resistiria», etc.
«Milagre! Pedro de Barros está salvo. Já se lhe levantaram os appósitos da ferida. A substancia perdida foi reparada. Aquillo é cabeça á prova de bala! Com um adversario assim não ha partido! Dizem os medicos que um elefante não resistiria», etc.
D. Thomazia arrancou a carta das mãos a Lopo, e correu ao quarto do marido, exclamando:
—Nicoláo, Nicoláo, não mataste o teu filho! não mataste! aqui está a carta do teu amigo... Olha, lê, lê, meu querido amor, lê, que teu filho está vivo! Ó mãe de Jesus Christo! valei a meu marido! Não lês, Nicoláo? Leio eu... olha... ouve...
Nicoláo d’Almeida ouviu com apparencia de profunda attenção, voltou as costas, entrou ao quarto de vestir, começou a reunir casacos e pantalonas, e saiu fóra com a troixa do fato, dizendo:
—O escudeiro que me dobre esta roupa. O wagon sae ás quatro horas para o Havre. Vou a Londres procurar meu filho.
Thomazia ajoelhava, caía de face contra o pavimento, e arrancava gemidos convulsos.
Dois mezes depois, em setembro de 1867, Lopo d’Almeida passeava no vasto salão, que servia de casa de espera, na quinta solarenga onde vivia-morto seu pae, e agonisante sem poder morrer sua mãe.
O mancebo, com os braços pendentes, rosto abatido, e olhos carregados de lagrimas, dizia entre si:
—Que dezenove annos os meus! Que mocidade! Que portas se me abrem para tão negra vida!... Nunca mais poderei ter hora de contentamento! Heide ver meu pae envelhecer n’aquelle tormento, e a minha pobre mãe a pedir a Deus que lhe dê vida para ainda ver a luz da razão nos olhos d’elle!...
Interrompeu-lhe o recolhimento doloroso o surgir subito de um homem desconhecido no patamar da escada que conduzia á sala.
Fitou-o e perguntou:
—Quem procura?
—Nicoláo d’Almeida.
—Não recebe senão os medicos. Sou filho d’elle. Represento meu pae n’esta casa. Quem é o senhor?
—Um homem que procura os infames quando elles se escondem, ou fingem doidos para se furtarem á responsabilidade das suas protervias.
Lopo d’Almeida mediu-o da cabeça aos pés, e respondeu:
—Não encontrou um lacaio no páteo quando entrou aqui?
—Não encontrei ninguem. Que quer dizer a pergunta?
—Que volte, e diga ao lacaio o seu nome. Depois, espere-me ahi fóra que eu vou onde meu pae não póde ir.
—O meu nome posso atiral-o á cara de quem quer que seja, sem a intervenção do lacaio. Sou Pedro de Barros.
Lopo contemplou-o por instantes silencioso, deu dois passos para elle, e disse com boa sombra:
—Seja bem vindo o senhor Pedro de Barros. Está em casa de...
Conteve-se, e tornou:
—Está em casa de sua mãe.
—Não tenho mãe. Retire a injuria.
—Retirei. Agora, senhor Pedro de Barros...—E apontou-lhe para a porta.
—O senhor me disse, ha momentos, que não duvidava ir onde seu pae não fosse.
—Antes de o conhecer. Iria bater-me com um homem chamado Richard Grattan; com Pedro de Barros, não. Eu respeito os homicidas que escondem o seu verdadeiro nome, julgando que os disfarça o medo do opprobrio. Ao homem, porém, que entra em casa de sua mãe, e diz seu nome, e revela sem cerimonia o programma de assassino, desprezo-o, e só receio que elle me tira pelas costas.
D. Thomazia tinha ouvido a voz alterada de Lopo, e chegára-se ao reposteiro interposto ás duas salas, quando o filho proferiu as palavras:Ao homem, porém, que entra em casa de sua mãe...
Escutou as restantes, julgando-se turvada de entendimento e ouvidos. Levantou o reposteiro, e saiu á sala, com a vista desvairada e os passos oscillantes.
Lopo foi recebel-a pela mão, apertou-a ao seio e disse-lhe:
—Vá para dentro, minha mãe, peço-lh’o com as mãos erguidas!
—Quem é este?!—perguntou ella—a quem dizias tu...? Não fallaste aqui agora emmãe... e não sei quê...?
Relançou Lopo os olhos a Pedro. Figurou-se-lhe ver no rosto d’elle uma feição extraordinaria de agitação interior. Cedeu a um impulso de generoso enthusiasmo, e disse á mãe:
—Aquelle é Pedro... é seu filho!
Thomazia, antes de ver o filho, viu o esposo. Não proferiu um monosillabo. Retrocedeu com desatinada velocidade. Sumiu-se nas salas interiores. Correu ao quarto de Nicoláo. Travou-lhe do braço. Tirou-lhe por elle a impetos freneticos. O louco deixava-se arrastar. Entrou com elle ao salão, a tempo que Lopo, travando do braço de Pedro que fugia, lhe bradava:
—Espere, que vae ter occasião de cravar a bala no infame que se finge doido!
N’este conflicto, acercou-se D. Thomazia com o marido. Aproximou-se de Pedro, que recuava, e disse-lhe:
—Olha, Nicoláo, olha... Aqui está teu filho!... Vêl-o vivo? Repara, meu amor. Não é este o que teve o desafio em Pariz comtigo? Não é?...
Nicoláo encarava no rosto de Pedro com penetrativa fixidez; quando, porém, Thomazia lhe espertava a gritos as reminiscencias, elle declinava para sobre ella o olhar torvo, e estremecia como assustado das suas exclamações.
No entretanto, a postura de Pedro de Barros—a fórma exterior, que a interna é indefinivel—significava a ancia de evadir-se a uma situação que lhe demudára o rancor em tortura de uma especie nunca escripta nem imaginada. Abalo de coração parece que não sentia nenhum bom. Na cabeça tumultuava-lhe um torvelinho de idéas que o desvairavam. Aquillo de chamar-se seu pae aquelle homem soava-lhe como uma zombaria, se não era antes sonho ou allucinação de ouvidos. Sentimento filial ou sequer de piedade não lhe suscitava a mãe nenhum. Por maneira, que todos os seus movimentos d’olhos e de espirito, segundo mostrava, era livrar-se do espectaculo, em que talvez elle fosse capaz de ver alguma coisa ridicula para si.
Thomazia, voltando as exclamações do marido, que saíra da sala, para o filho, ia, n’uma explosão de ternuraredobrada pela agonia de ver o marido impassivel, lançar os braços ao pescoço de Pedro.
Haveis de crêl-o, mães, que não sabeis dos supplicios de outras; crel-o-heis de melhor mente se já vistes repellidas as que não tiveram hora de vida apartada dos filhos.
Pedro fez pé atraz, quando a mãe lhe dizia:
—Filho da minha alma, ajuda-me a dar vida á razão de teu pae!
O retraimento de Pedro tirou lavaredas de odio aos olhos de Lopo.
Seria sublime, se não fosse triste de contar-se que o filho segundo de Nicoláo d’Almeida, no lanço de furtar-se o irmão aos braços da mãe, tomou para si o corpo d’ella, apertou-a com apaixonado amor, sentiu-a desfallecer, depôl-a sobre um canapé, abeirou-se de Pedro, e disse-lhe acceleradamente:
—Olhe que é mentira quanto ouviu: Aquella senhora não é sua mãe. Maldita seja ella, se alguma hora se lembrar sem vergonha das lagrimas que chorou. Vá... Mentimos-lhe todos. Este homem não é seu pae. Quem? elle! Aquelle santo desgraçado que endoudeceu cuidando que tinha matado um filho!... Mentiram-lhe a elle de Pariz. Fuja, fuja... se lhe parece que é uma enorme covardia o parricidio... Fuja, porque... o senhor matou meus paes... e eu não quero prival-o da expiação do remorso...
Ditas estas palavras, Pedro de Barros foi repulsado rijamente para fóra da porta. Lopo ajoelhou ao pé desua mãe, e colou-lhe o ouvido ao coração. Latejava. A justiça divina renovava-lhe o sangue para que a expiação se prolongasse a termos de se provar n’aquella mulher que as religiões, promettendo infernos além d’este mundo, foram mais inventivas que Deus.
O meu amigo Antonio Joaquim rematou assim a narrativa:
—Nicoláo d’Almeida não tem memoria nenhuma do reapparecimento do seu adversario de Pariz. D. Thomazia todos os dias lhe conta que o filho esteve ali na casa d’elles. É esperança que ainda não desamparou a pobresinha restaural-o assim. Que illusão! O marido escuta, parece reflectir accentuando com a cabeça as palavras da senhora, e passa de ouvil-a a tão glacial indifferença, que vae para uma janella rufar nas vidraças. Aqui tens o que presenciei na ultima visita que fiz ha oito dias á gehenna d’estes reprobos das alegrias do mundo.
Não te sei dizer onde pára o herdeiro de Gervasio José de Barros, se te interessa sabel-o.
Não; a mim o que mais me convinha era saber dar á tua historia um titulo.
—Eu chamava-lhe oSANGUE.
—O sangue?! qual? o da cabeça de Pedro de Barros?
—Não: o sangue, que tem ares de titulo filosofico e assim com presumpções de these. Porque hasde ter ouvido dizer que um filho conhece seu pae, e o pae seu filho, por um secreto impulso do sangue.
Em confirmação d’este preconceito, que desluz muitas cabeças illustradas, podes vir com argumentos confortativos; por exemplo: os casos de parricidio em que os filhos assassinam os paes com perfeitissimo conhecimento da pessoa filialmente assassinada; o caso vulgar das mães que estrangulam as creancinhas assim que ellas, ao sair-lhes do seio, estendem as mãosinhas para os peitos; o caso em que os filhos, repatriados ricos ao seu paiz donde saíram com o enxoval que custou vigilias e fomes aos paes, sentem-se inclinados a dar razão aos barbaros que matavam os velhos como entes inuteis e incommodos. Todos estes casos provam que o sangue é um engenhoso registro que a Providencia implantou na economia animal, para regulamento dos nossos deveres de familia. Demonstrado isto, corre-te obrigação de mostrar uma coisa, já muito sabida e notoria; e vem a ser que tu e eu e os mais da nossa especie somos os reis da creação; e que os bichos, que estremecem seus filhos e seus paes, são bichos.
—Mas, sem embargo do titulo, qual achas tu que seja a moralidade do romance?
—A moralidade é clara.
—A expiação de Thomazia, não é verdade?
—Homem, eu n’isto de expiações não tenho ainda formado perfeito juizo. Conheço muitas familias que meauthorisam a suppôr que a expiação é um castigo da tolice e não do vicio.
—Homem, essa! Vão lá escrever o absurdo n’um livro que tem de melhorar os costumes e os usos...
—E de certo melhoras. Todo o livro é um melhoramento na industria do papel e da tipografia.
—Mas,—tornei eu farejando a moralidade do romance—não posso eu dizer que o pae de Pedro de Barros era...?
—Era o que as nupcias demonstravam, como diz a lei romana. Era Innocencio. O sangue de Pedro vinha a ser o dinheiro de Innocencio. Lá está o axioma que diz:O dinheiro é sangue. Um filho só póde ser filho de quem é seu pae, quando não herda oitenta contos de outro que foi casado com sua mãe.
FIM