CAPITULO VI
Argumento
E vae eu disse e vae elle disse. O grande tratante que era João José da Costa Guimarães. Operações da Providencia. Custodia pragueja como uma vivandeira. Como a menina se foi consolando. Costa Guimarães fica sendo na alma de Thomazia a figuração de um sapo. Reconsiderações de Custodia, e o coração de rôla da innocente. A velha pensa em embruxar Innocencio. Reminiscencias do farmaceutico amado. Esconjuros de sal virgem e salgação de Innocencio. Como o rei de ouros saiu de corpo e pensamento com a dama do mesmo naipe. O rapaz não póde já comer os pés de bacoro, eguaria predilecta. Pede-lhe Thomazia duas melancias. Lampejo de espirito d’elle. Gritos indicativos de que um homem está perdido.
E vae eu disse e vae elle disse. O grande tratante que era João José da Costa Guimarães. Operações da Providencia. Custodia pragueja como uma vivandeira. Como a menina se foi consolando. Costa Guimarães fica sendo na alma de Thomazia a figuração de um sapo. Reconsiderações de Custodia, e o coração de rôla da innocente. A velha pensa em embruxar Innocencio. Reminiscencias do farmaceutico amado. Esconjuros de sal virgem e salgação de Innocencio. Como o rei de ouros saiu de corpo e pensamento com a dama do mesmo naipe. O rapaz não póde já comer os pés de bacoro, eguaria predilecta. Pede-lhe Thomazia duas melancias. Lampejo de espirito d’elle. Gritos indicativos de que um homem está perdido.
—Menina—dizia Custodia á orfã, passados dois dias—não vê os meus olhos?
—Estão vermelhos...
—É de chorar... Tanto resei, e a final... historias. Deus me perdôe, se pecco; não é o Guimarães quem a hade levar á egreja.
—Ah!—suspirou Thomazia. Então que disse elle?
—Tenho muito que lhe contar, filha do meu coração... Eu dei-lhe a carta á esquina da viella dos Gatos! Elle leu-a logo, por que eu lhe disse que a menina queriaresposta. Futurou-se-me que o dianho do homem cobria a cara com o papel para se rir ás escondidas! Depois, poz-se a fechar a carta e não me dizia nada.—Que heide eu dizer á menina?—disse eu; e vae elle disse: «Que lhe hade dizer? eu sei cá!» e vae eu disse:—Pois a menina não lhe diz ahi que a vá pedir já, se quer casar com ella?—E vae elle disse: «Sim, ella diz isso; mas eu...»—E vae eu disse: «Mas eu quê? então o senhor que cuida? Cuida que isto são brincadeiras?—E vae elle disse: «Ainda estou muito novo; se me casar hade ser lá p’ró diante». E vae eu... Em fim, assim que ouvi isto, parece que o coração se me despegou por aqui abaixo. Fui-me metter na egreja de S. Bento, e estive lá a chorar, que já nem via o padre. D’ali a pouco...
—Ai!—gemeu Thomazia.
—Deixe dizer o mais, e não se afflija que homens não faltam, menina. D’ali a pouco fui ouvir outra missinha aos Congregados, e quando saía para ir resar aos Clerigos vi o tal Guimarães á porta de um botequim que está nos baixos dos frades, sim dos frades que lá estavam quando havia religião, e estava elle no meio de outros a ler um papel, e os outros a dar gargalhadas.—Querem vocês ver, disse eu cá comigo, que o berzabum do patife está a mostrar a carta da minha Thomazinha? Vou espreitar... E fui muito escorcemelada com a parede, e metti-me n’uma porta, d’onde ouvia tudo. Meu dito, meu feito! Era a carta da menina...
—Ai!—espeitorou a anciada moça, pondo as mãoslindas sobre o alto seio que parecia beijal-as ao levantar-se nos arquejantes éstos.—Era a minha carta?!—exclamou ainda Thomazia, levando as mãos ao rosto.
—Era, era, filha; mas não chore, que os ditos da menina, não n’a envergonham.
—E que diziam os outros?
—Olhe, quando o bregeiro lia aquillo que dizia:Dizei-me se quereis já, já unirse-vos a mim pelos sagrados laços de...de que era que a menina dizia lá?... dojubileuou coisa assim... os outros até davam saltos a rir-se, e dizia um:—Oh! que burra!—e outro berrava: «Eu quero ver essa mulher das Cangostas; dá-me essa seresma por piedade, Guimarães!»... a chamarem-lhe seresma aquelles canalhas! Ai, menina! As lagrimas saltaram-me como punhos!...
Thomazia menos ferida no coração do que na vaidade—não já de redactora de cartas, senão de mulher que a si mesma se via digna de respeito no seu amor—chorou agora tão sincera e amargamente, quanto dois dias antes fingira lagrimas deante do padrinho. As operações da Providencia!
Custodia continuou:
—Não chore, meu anginho, não chore, que me parte de meio a meio o coração!
—E tu a dizer-me—soluçou a orfã—que os santos te tinham mandado o meu noivo... Se não fosse isso, eu não caía em lhe escrever...
—Tem razão, tem razão: mas que quer, menina? A gente engana-se. Cuidei que as minhas orações valiamalguma coisa... Paciencia... Deus sabe melhor o que faz do que nós o que pedimos. Que leve a breca o homem e má peste o tolha! Tantos diabos o apanhem como bagadas me cairam por esta cara!...
A menina estava mais desabafada. De tão superficial amor, assim ultrajado, qualquer outra senhora, mais bem compleicionada, declinaria facilmente ao odio. Odio é que ella sentia ao villão que lhe expozera á zombaria o estilo da carta. Ainda ha de nascer a mulher que perdôe insulto de tal porte; que a diffamação da honra é menos affrontosa do que o escarneo de uma carta em que vae o coração. Portanto, a imagem de João José da Costa Guimarães, no espirito de Thomazia, fazia a impressão de um sapo, e mais nada.
Custodia da Porciuncula, assim que a menina se amostrou mais socegada, fallou-lhe assim:
—Ora, diga-me cá, anginho... Que lhe parece o Innocencio? Elle gostará da menina ou não?
—Eu sei cá!... por quê?
—Não que isto é uma pergunta... Está-me a parecer que o rapaz lhe quer bem, e que... bem me entende... lá como casamento não era desarranjo, acho eu. Já lhe disse que o arrenego, e tomára eu ver a menina casada com outro; mas, se elle fosse bom marido, rico é elle; e, pelo que vejo, não ha que fiar em ninguem, para a gente andar á cata d’outro. Eu cá nas minhas aquellas de santos já me não fio, Deus me perdôe... Sabe que mais, senhora D. Thomazia?... Entende-me?
—Sim; mas... tu não viste que o padrinho desde antes de hontem não me disse mais nada?
Como a innocente percebeu a velha! Muito longe de repugnar-lhe o conselho, offereceu logo razões impeditivas de realisar-se! Coração de rôla!
Era verdade. Gervasio nada mais lhe tinha dito, desde que saíra com o filho do armazem da geropiga; e Innocencio apenas se avistára com ella ás horas de jantar ou ceia. Que os olhares se encontravam rapidos como dois relampagos afusilados de polos fronteiros, isso era tambem verdade. Tanto os paes como os tios de Innocencio festejavam particularmente estes bons indicios de ainda verem coroadas as suas esperanças, por effeito de uma reciproca e espontanea rebentação de amor nas duas almas a um tempo.
A’quella consideração da orfã, obviou Custodia:
—Isso lá do padrinho não lhe dizer nada tanto faz como coisa nenhuma, filha. O caso é o rapaz; o rapaz é que é preciso prendel-o.
—Ahi vens tu com as tuas prisões e telhiços!—atalhou Thomazia.—Eu não tenho fé com essas endróminas.
—Não tem?—garganteou a velha rindo sêccamente.—A menina é muito nova...
—Então por que não prendeste aquelle malvado do Costa Guimarães?
—Por que o não prendi?
—Sim.
—Deus lá o sabe... Cá eu nas minhas orações nãochamo demonios, é santos, entende? e os santinhos, se me não ouviram, é por que bem sabiam a rôlha que era o tal patife. Dê graças a Deus, menina! Foi bom que isto acontecesse antes de lhe entrar o amor de raiz, por que já lá dizia o verso do boticario:
Costilia, se me não amas...
Costilia, se me não amas...
Costilia, se me não amas...
Costilia, se me não amas...
Costilia, dizia elle que era Custodia... Eu não sei...—explicou a velha, e proseguiu mudando o tom chão da nota para o declamatorio:
Costilia, se me não amas,Diz-m’o ao cedo e não ao tarde;O fogo apaga-se ao cedo,Nemja quando ha muito arde.
Costilia, se me não amas,Diz-m’o ao cedo e não ao tarde;O fogo apaga-se ao cedo,Nemja quando ha muito arde.
Costilia, se me não amas,Diz-m’o ao cedo e não ao tarde;O fogo apaga-se ao cedo,Nemja quando ha muito arde.
Costilia, se me não amas,
Diz-m’o ao cedo e não ao tarde;
O fogo apaga-se ao cedo,
Nemja quando ha muito arde.
Pois é como é, meu serafim do céu... Não nos lembre mais o demonio do homem, e vamos cá ao que serve. A menina deixe-me manobrar, e lá pela sua parte não faça nada; isto é, quando o Innocencio olhar para a senhora D. Thomazinha, olhe tambem; se elle lhe fallar, falle-lhe; se elle não fallar, não falle. E deixe-o andar; que o rapaz ha de ganhar-lhe paixão. Oh se ha de!... eu que lh’o digo...
—Mas eu não gosto d’elle...—interrompeu a moça, fazendo uma visagem de fastio.
—Ora vamos lá, vamos lá; o rapaz não é mal-ageitado; e, de mais d’isso, os homens todos são uns...E a riqueza, menina?—aqui levantou de ponto a voz e arregaçou as palpebras, entumecendo os olhos de emfase—E a riqueza? A menina sabe lá quanto esta gente tem de seu?! Quando eu vim crear a sua mãesinha, ha mais de quarenta annos, ouvi muitas vezes dizer a seu avô que os antigos d’este Gervasio eram judeus que mediam ás razas ouro em pó... Lá me custa, isso é verdade, que a menina se case com homem de raça judia; mas tanto o pae como o avô de Innocencio foram baptisados, e as senhoras essas são boas christãs. O rapaz, quando era pequeno, ainda ás sextas feiras lhe fervia o sangue; mas agora, eu tenho pedido ao Senhor que o faça bom, e hade fazer. Tome tento, menina; ande-me com o lume no olho, não deixe fugir a occasião, que isto de homens, são assim—disse Custodia, fazendo no ar um gatimenho com a mão descarnada.—Casar, e quanto antes, que não vá algum d’aquelles diabos da Praça-Nova dizer ao Innocencio que a menina mandou a carta.
—É verdade!—exclamou Thomazia transida já do receio de se lhe frustar o casamento que, pouco ha, desdenhára.
—Não se assuste... O Innocencio ámanhã vae p’ró Douro ver as vinhas de mando do pae, e só volta d’aqui a oito dias. Em quanto vae e volta ninguem já se lembra de nada.
Estavam a soar as badaladas do meio dia. Custodia disse a Thomazia que a deixasse sósinha, por que assim se fazia necessario.
Foi a velha á cosinha e colheu da saleira um punhado de sal. Fechou-se na agua-furtada, e pulverisou o sal n’um caco. Depois, accendeu uns gravatos de alecrim, e esperou que batesse o meio dia n’outra torre. Ao primeiro toque, tirou uma boa pitada de sal, lançou-a á lavareda do alecrim e ciciou estas palavras debruçada sobre a vaporação da fogueirinha:Eu te salgo, Innocencio; eu te resalgo e torno a resalgar para que não possas comer, dormir, fallar, nem socegar, sem com a Thomasinha casar.
Seguiram-se mais duas pitadas de sal virgem e dois esconjuros no mesmo estilo.
Concluida a operação magica, acocorou-se a beata, sorveu duas vezes de simonte, ageitou o regaço, montou as cangalhas, e botou as cartas. Saiam-lhe dispostas as figuras do baralho tão de molde com o desejo que, á terceira vez, a sibilla ganiu um ai de puro jubilo, estremecendo sobre a tripode do capacho em que se amezendára. O rei de oiros, que era Innocencio, calhava sempre decorpo e pensamentocom a dama do mesmo naipe, que era Thomazia. Por isso ella ganiu com uma expressão torva, sobre-humana e como de vocalisação infernal; pois não ha duvidar que ha o que quer que seja satanico na cartomancia, quando as mãos escarnadas e roixas das profetisas cruzam sobre o baralho aquellas bençãos e murmuram umas vozes esconjuratorias que a mim, homem d’este seculo e progressista, me já tem feito arripiar as fibras intimas e riçar os cabellos.
Entretanto, estava jantando a menina. A cadeira deInnocencio defrontava com a sua. Reparou ella que o rapaz comia pouco, sem embargo de lhe estar a mãe avitualhando o prato com uns pés de sevado, iguaria dilecta do filho. Deu fé, além d’isso, de que elle lhe esguelhava a miudo os olhos, perfilando o rosto para a não encarar de fito.
—Ámanhã a estas horas onde estarás tu, meu filho?—perguntou a mãe já com tristeza da presentida saudade.
—Estou no rio Douro—respondeu altivamente Innocencio com semblante acabrunhado.
—Estás Entre-ambos-os-rios—disse Gervasio.—Não se esqueçam de lhe metter duas gallinhas no alforge. Deixa-te lá estar oito dias, e não venhas senão depois de bem desfolhadas as vinhas. Manda-me lavar os toneis, e olha se me aproveitam o sarro. Agora não te vás lá pôr a malucar; que tu não me trazes essa cabeça escorreita!...
—Deixa o menino!—atalhou a senhora D. Thomazia.
—O menino!—murmurou desdenhoso o pae—menino de vinte e dois annos!
Innocencio assoprou do fundo peito um suspiro demorado como o de borracha de vento que se esvasa vagarosamente. A menina levantou os olhos ao rosto do moço e surpresou os d’elle a fugirem do encontro.
Findo o repasto, e dadas graças a Deus, Thomazia foi chamar Custodia para vir jantar, e contou-lhe em breve o que passára na mesa. Custodia grasnou um riso protervo de brucha e disse:
—Deixe-o comigo.
Á ceia, no aspecto de Innocencio reluzia a inquietação interior. A mesma abstinencia e taciturnidade do jantar. Por mais que a mãe desvellada o desafiasse a fallar, não havia tirar-lhe frase que não fosse desconsolada e sêcca. Levantados da mesa, despediram-se todos d’elle porque Innocencio tinha de madrugar. Thomazia abeirou-se do triste moço, e deu-lhe um abraço, que elle recebeu com estranho estremecimento.
—Manda-me duas melancias da quinta, sim, Innocencio?—disse a menina compungida.
—Pois, sim...—murmurou elle, sentindo cair-lhe sobre o coração um cesto de melancias.
Custodia appareceu tambem para despedir-se, e deu ao moço uns bentinhos da Senhora do Rosario, compendiando n’um discurso apropositado as virtudes da nómina, e fechando a pia allocução com estas palavras:
—Cá ficamos todos a resar pelo menino. Não lhe hade succeder mal nenhum. As orações d’este anginho hão de guardal-o.
E, dizendo, apontava para Thomazinha, que abaixou os olhos.
Innocencio surriu-se, e disse:
—Hei de mandar-lhe as duas melancias que ella pediu.
Declaro que tenho noticia de poucos ditos com tanta graça e tão pouco desvanecimento!Hei de mandar-lhe as duas melancias que ella pediu...Isto é bom, quando a pequena inclinava o pescoço em geito de magoada!E para que vejam que o moço açabarcára n’aquelle só dizer todo o espirito que a natureza dera proporcionalmente á familia, basta saber-se que ninguem atinou com a dolorosa ironia do surriso e das palavras.
Ao repontar do dia, Innocencio entrava no barco-da-carreira. Soavam as trez pancadas das Ave Marias em S. Francisco. Ao mesmo tempo, Custodia, com o saioto pelos hombros, e um olho ainda tapado d’exalações nocturnas, lançava a terceira pitada de sal virgem na fogueira do alecrim, e dizia:Eu te salgo, Innocencio; eu te resalgo e torno a resalgar, para que não possas comer, dormir, fallar, nem socegar, sem com a Thomazinha casar.
E Innocencio, sentado á prôa do barco, olhava para as trapeiras da rua das Cangostas, e dizia entre si:
—Como diabo estou eu amando tanto esta Thomazia!...
Quando o coração se desentranha em gritos, assim eloquentes, está perdido um homem.