CAPITULO XV
Argumento
Noticias do Pará. Sequidão de Innocencio. Acommisera-se o velho da nora, que não se dá d’isso. Thomazia realça em epistolografia, fazendo suspeitar o sogro de que anda ali cachimonia de maior cunho. Opinião de Innocencio ácerca de viajar. Estuda francez, e vae ver mundo. Encontra em França a neta de uns gentis-homens da Picardia, a qual neta vae ver mundo com elle.
Noticias do Pará. Sequidão de Innocencio. Acommisera-se o velho da nora, que não se dá d’isso. Thomazia realça em epistolografia, fazendo suspeitar o sogro de que anda ali cachimonia de maior cunho. Opinião de Innocencio ácerca de viajar. Estuda francez, e vae ver mundo. Encontra em França a neta de uns gentis-homens da Picardia, a qual neta vae ver mundo com elle.
Passados trez mezes, sequentes ao embarque de Innocencio, vieram cartas do Pará.
O cobrador da herança noticiava que estava empossado dos trinta contos. Vituperava a memoria do tio, criminando-o da torpeza de deixar quatro mulatos assignando-se com seus apellidos, e herdeiros de mais de um milhão em moeda fraca. Vexava-se de ser coherdeiro com tal negralhada, e noticiava que ia partir para o Rio de Janeiro.
A Thomazia escrevia meia duzia de linhas, consagradas ao boletim da sua saude e ao desejo de que a consorte passasse sem novidade.
—Cá vou passando... disse ella entre si, quando Gervasio notava n’um lance de olhos á mulher a sequidãodas palavras do filho. Tinha o velho dó sincero da sua afilhada.
—Escreve-lhe, Thomazinha,—dizia Gervasio—escreve-lhe que eu lhe direi que isto não é carta que se mande a uma esposa! Estragaram-me aquelle rapaz os vadios do Porto, os comedores, os mariolas dos botiquins! Escreve-lhe uma cartinha amorosa, sim, minha filha?
—Pois, sim, meu pae;—disse ella mui de mimo e dolorida—mas, se elle me despresa, é peior estar eu a impaciental-o com as minhas cartas...
—Não, senhora; escreve-lhe como te digo, p’ra dizer cá com a minha carta.
Que prodigio de fantasia operou Thomazia para poder alinhar um quarto de papel inglez com umas frases assim a modo de saudosas com ares de amorinhos!
O velho leu-as, e obedeceu ao impulso de espanto, exclamando:
—Ó menina, isto não é da tua cachimonia! parece-me copiado do «Feliz Independente» que tua mãe me leu no Douro ha mais de vinte annos! Tu já leste a historia do «Feliz Independente»?!
—Não, senhor.
—Pois olha, ninguem hade dizer que este palavriado é teu! O Innocencio vae ficar banzado, quando lá vir estes ditos!
—Ora!... o pae está a mangar comigo!...
—Agora estou! Palavra! tu dizes aqui coisas que parecem dos periodicos!
Gervasio foi ler a carta á esposa. A santa senhora pagouo seu tributo de lagrimas, quando a leitura chegou á seguinte passagem:Já que não tenho o teu amor nem a tua amizade, dou graças aos ceos por que me não levaram o amor de tua santa mãe e de teu santo pae. Alguma coisa me havia de dar a Divindade Celeste a quem peço que te dê saude e satisfação...
Thomazia, se tivesse capacidade para imitar estilos, poderia dar de si, no genero epistolar, coisa melhor; que o mestre era excellente e as lições, quer escriptas, quer oraes, muito amiudadas. Sem embargo, os progressos não correspondiam á frequencia do pedagogo, cuja linguagem era assim correcta que sublime. Thomazia aprendia sómente o que podem entender e saber as faculdades do coração. O estilo do coração, se algum elle tem, a meu ver, é de todos o mais desatado e avesso da boa prosodia. As suas flores são beijos quando não são lagrimas. D’estas segundas não tinha ainda Thomazia experiencia: dos outros, não affirmo nem nego. Não vi.
Mez e meio depois, vieram novas cartas de Innocencio datadas do Rio de Janeiro. A mesma friesa com a esposa, e muitos affectos ao pae, desfechando com pedir-lhe licença para ir do Rio a Inglaterra, e ver as cidades principaes da Europa, antes de recolher-se a Portugal. Allegava o sujeito uma razão que, a juizo d’elle, rebatia quaesquer obstaculos.Quem vê mundo, escrevia elle, aprende tudo quanto ha sem ler livros. As viagens dão muita experiencia dos homens.
Posto isto aforisticamente, continuava:Estou a aprender dois dedos de idioma francez: (a palavraidiomaentalouos gorgomilos intellectuaes de Gervasio)o francez é preciso saber-se para não fazer má figura. Logo que possa andar por lá de modo que eu me faça entender, vou vêr mundo, isto é, se vocemecê e minha mãe não se opposerem, o que não espero da sua amizade paternal e maternal.
—Estás um bom trapólas!—disse em soliloquio o bom velho.—Que irá elle fazer agora por esse mundo de Christo?! Pilhou-se c’os trinta contos, e não vem p’ra casa sem dar com elles em Pantana! Deixal-o! Cavalladas por cavalladas, antes as faça longe da minha vista.
Mostrou-lhe Thomazia a sua carta, dizendo:
—Aqui tem, padrinho; veja que modo de me escrever! Diz que tem saude e que me deseja a mesma.
—Tem paciencia, filha...—respondeu o velho consoladoramente, pondo-lhe a mão no rosto.—Elle cá virá, quando se cançar de ser máo e ingrato. Agora me pede licença para ir viajar... Olha tu que asneira!... E eu não sei o que heide responder-lhe...
—Se elle quer ir... acudiu Thomazia, e susteve o restante da idéa, receiosa de inspirar desconfiança da sua indifferença; e, tornando logo sobre si, emendou:—Se elle quer ir, é por que não tem saudades de mim... O que eu admiro é que as não tenha de seus paes, que lhe querem tanto...
—Valha-me Deus!—voltou o compadecido velho.—Olha que estás enganada; meu filho quer-te bem; mas foi de cá zangado com o diabo dos Barcellos...
—E eu tenho culpa?!
—Está feito, está feito, menina... aquillo de escreveres ao outro não foi grande coisa... Um homem, que gosta de uma mulher, não leva a bem que os outros andem a dizer que ella tambem gostou d’elles. O rapaz ficou varado, e custou-lhe a engolir o vexame. Fizeste mal, Thomazia; mas... emfim o passado passado. Agora o que se quer é paciencia, e esperar que elle venha á razão. A carta que lhe escreveste ainda agora estará a chegar-lhe á mão. Verás como elle muda de idéas logo que a receber. E o que tu hasde fazer, filha, é arrumar-lhe já com outra. OSilenciosae ámanhã para o Rio Grande do Sul e faz escala pelo Rio. Escreve-lhe hoje que eu vou já fazer o mesmo.
Novas e redobradas maravilhas de espirito! A carta de Thomazia, se não recendia saudades, ia menos mal engenhada com umas melancolias queixosas, mas logo dulcificadas por balsamos de resignação.
Gervasio gostou muito, e segunda vez espremeu os lacrimaes da esposa.
Em quanto não chega este mimo d’alma exemplar de paciencia ao Rio, vejamos as saudades que a primeira carta commove no peito do esposo. Estava elle conjugando o verboparler, quando lhe entregaram a correspondencia da Europa. Lida a carta do pae, leu a da mulher, e releu a do pae. Entristeceu-se e compadeceu-se. Era a primeira vez que mansamente, e em tom de amorosa, Thomazia se queixava do seu desamor. Seguiram-se uns pruridos de saudade n’alma, e logo o apparecimentoideal da formosura de Thomazia, com uns encantos renovados, como se aquella imagem lhe tivesse esquecido, e renascesse mais bella para lhe captivar a um tempo a alma e a razão até alli desvairadas.
Por um fio que mudou o designio de ir em cata da experiencia do mundo; mas poderam muito a retel-o no proposito feito os estudos progressivos da lingua franceza, e o anceio de aprender tudo quanto havia, sem ler livros.
Quando recebeu as segundas cartas, quarenta dias depois, tinha já enfardado para seguir no primeiro vapor inglez. Leu as novas, mas brandas queixas da esposa; sentiu-se bem com a crença de ser amado, e projectou desde logo não se demorar mais de trez mezes na sua visita ás capitaes da Europa.
Foge-nos agora o tempo sem paragem de acontecimentos que prestem á essencial narrativa. Decorridos quatro mezes, Innocencio José de Barros estava em Florença, e não estava sósinho. A creatura interessante, que o acompanhava, era no hotel conhecida pormadame Barroseel signor de Barrosgosava creditos de opulento hespanhol. Madame Barros era franceza, carinhosa, corrigia-lhe com infinita graça os erros de linguagem, e formava-lhe com os labios nos d’elle frases puro parisienses. Innocencio estava um homem acceitavel em qualquer sala e muito conversavel, de fóra parte a compostura pessoal, que toda se devia ao gosto delicado da franceza em materia de trajar. A civilisadora d’aquelle bruto em ruins tempos, tinha sido officiala de alfaiate, e n’outros peores, commensal de estudantes noquartierlatin. Mas mr. de Barros não contava isto aos seus conhecidos de Florença. No dizer e crer d’elle, Jacqueline Beaulieu de Rastignac era victima de um seductor que a raptou nochateaude seus paes, fidalgos picardos de primeira raça.
Dias depois, encontrámos Innocencio na Suissa, procurando as reliquias da casa de João Jacques Rousseau em Genebra. Quem metteria no cerebro d’aquelle homem um desejo tão significativo de craneo cultivado? Fôra a descendente dos fidalgos picardos. Jacqueline tinha ouvido discutir o filosofo nas palestras litterarias dos seus commensaes, antes da quarta garrafa de Bordeaux.
Por maneira que, n’este saltar de terra em terra, Innocencio não recebia cartas da esposa nem do pae. Umas estavam retidas em Pariz, outras em Bruxellas, outras em Milão, outras em Veneza.
Se elle houvesse recebido de seu pae uma escripta em abril de 1846, e retida em Londres, onde nunca estivera, encontraria a circumstanciada noticia do que vae contar-se no seguinte capitulo.