Chapter 2

*

Conversemos um pouco a respeito d'este medico, meu querido Thomaz Ribeiro. Sinval era geometricamente materialista, uma razão emancipada das intercadencias pathologicas da Fé. E fazia e prégava sermões nas egrejas catholicas. Como n'esta farça da vida é ridiculo o papel dos homens mais intelligentes! Era atheu; por que «se existisse Deus (dizia o precíto) duas das suas muitissimas perfeições seriam a Bondade e a Presciencia. Ora amaldadeda creatura contradiz abondadedo creador; e aliberdadedo homem, condemnado por causa d'ella, faz repugnancia áprescienciade Deus que teria creado o homem livre para o condemnar como insubordinado. Cacologia!—exclamava elle.

Mas que falta de logica! Se eu, n'um impeto de erudição entupidora, lhe citava o invicto argumento de Voltaire: «Se não existisse Deus, seria preciso invental-o», Sinval respondia-me com Diderot:C'est ce qu'on a fait. E quem ficava entupido, a final, era eu, por que as minhas lettras theologicas eram uma lastima. Havia de ser hoje!... Quanto á immortalidade da alma, dizia elle que havia de esclarecer-se depois da morte. Eu não lhe replicava, por tambem me parecer esse expediente o mais acertado.

—Mas desconfio que todas as minhas trez almas são mortaes—acrescentou elle.

—Trez?!

—São trez as almas que o divino Platão me concede noTimeu. Dá-me uma alma immortal na cabeça, e duas almas mortaes, uma no peito, e outra na barriga, separadas pelo diaphragma.

E, com effeito, verifiquei depois que Platão, considerado por alguns SS. PP. o precursor do christianismo, dava trez almas a cada pessoa; e, nas minhas especulações physiologicas, encontrei sugeitos com as trez almas, porém todas na barriga.

Lembram-me algumas definições d'este sensualista que sabia o seu Lucrecio de cór. Definia elle a virtudeum producto artificial da politica e da vaidade. Aqui ha bastante sensatez; mas esta definição estava dada por Mandeville e impugnada por Berkeley, seculo e meio antes de Sinval nascer.

Definição dohomem: «O homem é um organismo servido por bons e máos instinctos, alguns mais ferozes que os das alimarias, e nenhum tão intelligente como os do castor, das formigas e das abelhas; além d'isso, tem o dom da palavra,se lh'a ensinam, e vai muito além do papagaio em glotica. Ha uma só distincção que extrema o homem de todos os outros animaes...»

—A alma—interrompi eu perspicazmente.

—Não. A mentira. O homem é o unico animal que mente.

Definição davida: «É uma alternativa de assimilação e desassimilação, de secreção e excreção.Pensamentoé o resultado de combinações chimicas.»

—Então, vida organica e vida da consciencia é tudo chimica? E o Amor tambem?

—É, e da mais grosseira e trivial, por ser a unica exercitada na retorta do boticario da aldeia. O amor do homem primitivo e selvagem era uma paixão genesica, typica, servida em todo o reino animal por orgãos identicos, histiologicamentee physiologicamente semelhantes, e a final de contas uma funcção exosmosica de um lado e endosmosica do outro, percebe você? O amor do homem actual e culto é a mesma exuberancia bruta do organismo, modificado por alguns sonetos á fêmea; porém, no fundo da Natureza, está o inalteravelcliché.

E eu, melancolicamente, com gestos desolados:

—Com que então,endosmoseo amor de Beatriz, de Laura e Leonor!... oh! oh!

E elle sorridente:

—Sensibleriepiegas, amigo meu, as suas interjeições theatraes. Se Beatriz e as outras meninas, em vez de gerarem, por inspiração, sonetos e poemas, tivessem occasião de gerar meninos robustos—com o quê a litteratura de cabotagem teria perdido bastante—você mal poderiaexplicar-me transcendentalmente o phenomeno psychico do amor do Dante e dos outros e de Beatriz e das outras. Nas regiões selvaticas onde o sensualismo se retoiça desenfreadamente em promiscuidade de homens e mulheres, como classifica você esse estimulo bruto da carne? É talvez o classico Cupido que desembesta do arco flechas de amor aos coiros fuscos dos australezes, hein? Vá perguntar a um cafre kuza se elle sabe o que éamor, e pergunte á cafrina se ella entende o que sejapudor...

—Perdão! o pudor é universal, particularmente nas mulheres sem excepção das raças mais atrazadas. Haja vista ás tangas...

—Ora muito obrigado pelas suas tangas...—atalhou Sinval a impulsos de riso.—O celebre viajante Cook, na suaPrimeira viagem, conta que em Taiti asmulheres, por um refinamento de educação esmerada, quando cumprimentam alguem, exhibem aquella metade do corpo menos usual nas exposições ao ar livre.

—Quão delicadas!

—E quão pudibundas!... Ha tribus selvagens, aliás muito castiças, em cuja linguagem falta a palavraamor, nem mesmo conhecem o beijo, essa mimosa delicia da epiderme que os homens aprenderam dos pombos e das rolas, por que a bêsta humana era incapaz de inventar o beijo.

D'uma vez, resentido com aquellalitteratura de cabotagemem que elle mentalmente me classificava, e, de mais a mais, ferido nas minhas convicções metaphisicas, sahi á liça impavidamente, e discorri por largo, e bem, com muita felicidade, provando a existencia de Deus pelo facto da minha existencia, e a divina formação do mundo pelo facto da materiabruta não se poder espontaneamente formar a si, aliás o homem, materia menos bruta, faria alguma coisa com elementos novos. Innegavelmente despenhei-o; mas elle, como o Lucifer de Milton e do Braz Martins noSanto Antonioainda regougava lá do fundo do abysmo:

—Você conhece a philosophia de Xenophanes?

Fiz um gesto de cabeça affirmativamente patarata, e elle proseguiu com um riso mordazmente suspeitoso de que eu não sabia nada de Xenophanes.

—Xenophanes—disse Sinval solemnisando o aspeito—aos noventa e dois annos de idade lia os seus poemas didaticos de moral santa, e pedia esmola aos ouvintes para sepultar os filhos. Morreu mais de centenario estudando sempre; e, pouco antes de expirar, fez esta profecia: «Ninguem soube, nem sabe, nem saberánada respectivamente a Deus e á formação do mundo; e aquelle que mais egregiamente fallar d'essas coisas, será tão ignorante como os outros.» Ora você acaba de fallar egregiamente.

E retirou-se, provavelmente, confundido.

Nunca me esqueceu a opinião scientifica d'este medico a respeito do adulterio. Dizia elle com aprumo cathedratico e um sorriso rabelaiseano:—Esposa perfida e esposo trahido são effeitos necessarios e fataes de influencias celestes—coisas do Zodiaco. Uns homens, os seductores, nascem no Signo de Leão, e d'ahi vem chamarem-seleões; outros homens, os minotaurisados, nascem no signo de Capricornio, e d'ahi vem chamarem-se o que você sabe. É como eu penetro n'esta escura e hedionda voragem do adulterio, com o facho mathematico da Astronomia.

—Em que Signo nasceria eu?—murmurei meditabundo, ingenuamente.

E elle, com solemnidade comica:

—No Signo deLibranão seria por que o vejo bastante falho d'essa especie. Persuado-me que seria no deCaranguejo, (Cancer) quando leio na gazeta as suas theorias sociologicas; mas, á vista do candor donzel da sua lyra amorosa, bem póde ser que você nascesse no Signo deVirgem(Virgo). Fôsse como fôsse, faço votos amigos e sinceros por que não nascesse no deCapricornio, nem no deTouro(Taurus), nem no deCarneiro(Aries), por que todos tres possuem excrecencias symbolicas por onde se explica a profusão dos influenciados. Ha pontas de mais no Zodiaco, não acha?

—Sim, acho bastante sortido o Zodiaco. Parece a capital de um reino civilisado.

—Pois os legisladores não percebem d'isso nada. Estão ainda com o direito canonico da idade-média, permittindo que o trahido mate a adultera, e mandando em paz o marido adultero colhido em flagrante delicto. E note você—exclamava Sinval n'uma irritação de consciencia revoltada—note você que a legislação christianisada da idade-média, muito cruel para as mulheres e indulgentissima para os homens, era feita sob o influxo dos concilios! Realmente as mulheres devem grandes obsequios ao christianismo, e pódem fiar-se nos prégadores e nos moralistasrococosdos Semanarios religiosos que, uns por ignorancia e outros por obrigação do officio, a bigodeam com a sua emancipação! A certos respeitos, não ha paiz como este nosso para ossificações de umas certas ignorancias convencionaes. Conta-se que Jesus perdoáraa uma adultera, por que entre os seus proprios discipulos e o mulherigo que a seguia escandalisado na piugada dos esbirros, não havia creatura limpa do mesmo peccado que lhe atirasse a primeira pedrada. Bem boa corja,cela va sans dire!Pois, quer seja facto, quer seja parabola, temos muito que deslindar entre a philosophia messianica de Christo e a religião dos christãos. O ideal humanissimamente caridoso de Jesus, quanto á fragilidade da mulher, não tem que vêr com oMatrimonio do jesuitaSanches e oLivro V das Ordenações. Logo que Jesus, immolado inutilmente á arraia-miuda da Galilêa, fechou os olhos, as adulteras judias e as conversas ao christianismo deturpado de Paulo, continuaram a ser apedrejadas; e, rodados 1849 annos de civilisação desde a tragedia do Golgotha até á comedia da Carta-Gaioso,certo artigo do Codigo Penal, que nos rege, permitte que o esposo trahido estrangule a adultera, sem lhe dar tempo a invocar o misericordioso perdão exemplificado por Christo. Pobres mulheres! que rica emancipação!2

Este trecho de discurso não era incontestavelmente um modêlo de eloquencia do pulpito catholico; mas o caso é que eu não sabia então destecer-lhe os fios do sophisma. Havia de ser hoje!... E este homem—que tinha um talentoanecdotico, relampejante de remoques de Swift e de Voltaire, ironias feitas de potassa caustica, indultando com risos sarcasticos os vicios sociaes que afogam em lagrimas as suas victimas—Camara Sinval padecia no cerebro uma doença irrisoria, a monomania de prégar sermões bombasticos ácêrca do S. Sacramento, que por ahi andam em um grosso volume posthumo, com um prefacio meu, ha mais de vinte annos. A prosa de Sinval tinha a sonoridade rythmica do verso heroico.Possui impressa uma das suas orações proferidas na abertura das aulas medico-cirurgicas. Começava assim:Tem o sanhudo leão falcadas garras, tem a timida lebre agudo ouvido, vista perspicaz a aguia generosa...São trez hendecassyllabos arcadicos bem feitos, pomposos.

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Voltando á minha enfermidade mortal, no dia seguinte restringi-me ao bacalháo assado muito saturado do alho estomacal. O bacalháo conquistou na moderna therapeutica das gastrodyneas, nas dyspepsias e gastrites chronicas uma reputação tonica, restaurante; quanto ao alho, esse gosa creditos de antidoto daraiva; porém, n'aquelle tempo, o reles pescado da Terra Nova era considerado comestivel apenas assimilavel a estomagos de patagões, com a potencia digestiva de ogres; e, a respeito do alho, pessoa que cheirasse a elle tinha as inquirições tiradas desde malandro até scelerado.

Como quer que seja, eu, alternando o bacalháo com as tripas de boi—as tripas, o heroico brazão do Porto—um complexo aphrodysiaco de chispe, de paio, aves, hervanços e coloráo, recuperei, ao cabo de duas semanas, forças extraordinarias e tamanhas que, n'um transporte de gratidão, levantei Gertruria e passei-a triumphalmente nos meus braços. Quando as chloroses e as anemias estão grassando nos grandes centros como doença endemica da geração nova depauperada, eu faltaria ao sagrado dever altruista, se não offerecesse este boletim sanitario aos que padecem.Que elles principiem pela mão de vacca e concluam a sua cura com tripas sortidas.

Entretanto, o doutor João Ferreira propalava a minha cura da perigosa opilação como a mais rara e inesperada da sua clinica, mediante o ferro e o vinho quinado. Tinha-me arrancado das prêzas da morte, dizia-se; e a minha engomadeira, uma devota velhinha, asseverava que fôra o martyr S. Torquato de Guimarães que a obsequiára mais uma vez, curando-me.

*

Depois, no resvalar de doze annos, as vagas aparcelladas da minha derrota em demanda do Prestes-João do Ideal, sendopiloto o marido assás conhecido de Psyche, baldearam-me a regiões inhospitas onde não podia encontrar Gertrudes. Nunca mais a vi; mas, como a saudade me estava sempre negaceando para aquelle tempo, a imagem d'ella acompanhava as minhas recordações de perdas irreparaveis, desde uns aureos sonhos de trovador que eu sonhára, até outros «sonhos» de farinha e manteiga que a Gertrudes fazia com o auxilio dos ovos. Eu sentia, a um tempo, o perfume dos anhelitos de Marilia bella e o das murcellas incomparaveis de Gertruria. A vergonhosa dualidade do coração do homem! Se não fossem as falacias metrificadas, e o lyrico, depondo o alaude, se confessasse ingenuamente em prosa, não haveria arrôbo de alma que não sahisse apelintrado pela concumitancia ignobil das caçoulas.

*

Quando li a noticia da morte de Gertrudes, e não pude duvidar que a naufragada era a minha restauradora, meditei solver a minha divida de gratidão com um artigo necrologico, por não ter sufficiente confiança na utilidade de uma missade requiem, a doze vintens, vinho por conta do padre.

Eu tinha pertencido por algum tempo a uma sociedade de homens de lettras, quasi exclusivamente dedicados á especialidade «necrologias de defunctos illustres». Eramos os gatos-pingados do Baluarte. Choravamos enormes artigos bem phraseados e estrangulados de interjeições afflictas, com epigraphes em latim, sobre defunctos analphabetos que, á minguade instrucção primaria, não poderiam na celeste mansão tomar conhecimento da nossa prosa. Andavamos tão assanhados n'esse fariscar de chacaes o cêvo litterario de carne morta que seriamos capazes de assassinar pessoas distinctas, se as indigestões, as tuberculoses, a cachexia mercurial, o escrofulismo, os figados engorgitados e a pharmacia nos não dispensassem de alimentar com sangue humano o cannibalismo da Arte elegiaca. O presidente da sociedade era José Barbosa e Silva, um moço de grande talento, diplomata em Berlim, deputado por Vianna do Castello, sua patria. As necrologias que este adoravel rapaz estampou são as de todos os mortos seus contemporaneos, seus amigos, seus conhecidos, ou apenas amigos ou conhecidos de uns sujeitos que elle podia vir a conhecer. No torvelinho dos prazeres, quetodos experimentou, José Barbosa parava de repente a olhar para o golpho que lhe sorvia um companheiro; e, como presagiava morrer aos vinte e oito annos, quando carpia os outros, ponderando a tristeza da morte, parecia chorar sobre si mesmo.

Fallecido Barbosa e Silva, o maior numero de seus amigos escriptores tomou a sério a desgraça da morte, e experimentou a impossibilidade de escrever necrologias quando a dôr é sincera e inconsolavel. Os socios da instituição carpideira já quasi todos naufragaram por essas restingas dos cemiterios. Os raros que ainda restam, sentados á ourella do rio negro, encolhidos, a tiritar na algidez de decrepitos, e de mãos inclavinhadas nos joelhos, ainda ouvem as commemorações funebres da actualidade, e por vezes rejubilam na sua jactancia senil quando sevêem plagiados n'estas fórmas da necrologia moderna:

Mais uma saudade para a terra, mais um anjo para o céo, etc.Mais uma vida ceifada em botão pela fouce, etc.A aza negra da impavida morte acaba de roçar as faces do nosso amigo, etc.A sangrenta Parca acaba de cortar, etc.A cega Atropos que tanto bate á porta do palacio como da choupana, etc.

Mais uma saudade para a terra, mais um anjo para o céo, etc.

Mais uma vida ceifada em botão pela fouce, etc.

A aza negra da impavida morte acaba de roçar as faces do nosso amigo, etc.

A sangrenta Parca acaba de cortar, etc.

A cega Atropos que tanto bate á porta do palacio como da choupana, etc.

E estes dizeres que já fôram formulas sérias, sacramentaes, e estimulo a torrentes de lagrimas, são hoje em dia uns humorismos inconscientes que despojam a morte de toda a sua respeitabilidade e circumspecção.

*

Pois, Thomaz Ribeiro, não pude redigir a necrologia de Gertrudes!

Tu que és sensivel e conheces os arcanos da arte,—que possues illesas do golpe dos desenganos as cellulas funccionaes das illusões queridas, (isto é—a alma incolume, com as suas 3 potencias, numeração antiga); e conservas a candura juvenil do coração, (coração!o musculo nutriente com auriculas e ventricolos!—releva o archaismo provençalêsco que me faz coevo de Macias, o Enamorado), do musculo, digo, que não encaneceu em breves annos de infortunio sem treguas; e, na idade da prosa de ministro da corôa, ainda te commoves sob o impressionismo affectivo do inolvidavel poeta doD. Jayme, imaginas, porventura,que eu não pude escrever por que as dôres immensas são mudas, e os repellões da paixão turbulenta impedem que a phrase se acepilhe e pula e arredonde. Agradeço o teu conceito que ao mesmo tempo me lisongeia e adultéra; mas a razão é outra—é deploravel. Queres saber por que não escrevi a necrologia da humilde mulher que me salvou?—foi por que ella me salvou como cozinheira. Por mais combinações que fiz com as grosas de allegorias de que dispunha, por mais embrechados de figuras que os canones de Quintiliano me liberalisassem, não atinei com uma evasiva consentanea com a minha cathegoria de philaucioso casquilho emredingotesdo Catarro e lettras amenas. Eu tinha escripto bastantes artigos funebres, catadupas de pranto sobre os esquifes de matronas várias que haviam nascidogertrudes, e do tamborêteda cozinha avoenga se esvoaçaram nas azas da bebada fortuna para os divans bysantinos e d'ahi para os jazigos marmoreos. A penna corria-me de vontade, no fremito da inspiração, e as perolas, crystalisações do muco lacrimal, saltavam-lhe dos bicos quando a defunta levava atraz da sua podridão muitas carruagens, e era suffragada na egreja refulgente de tochas, em uma neblina de incenso, por uma berrata fanhosa e barbarêsca de levitas, com barrigas basilicaes, que decerto, se os transportassem ás missões africanas, ririam ás escancaras da algazarra que fazem os cafres á volta de um morto.

Figurou-se-me, além d'isso, que a imprensa, moderadamente democratica e cheia de conveniencias melindrosas, se constrangeria tolerando nas suas columnas, por comprazer á minha ridiculamagua, a necrologia da cozinheira Gertrudes. De mais a mais, eu não sabia como alçar o estylo prismatico, de adjectivos rutilos, de modo a deslumbrar a critica soez, e a não desafiar o sorriso gaiato dos dandys pela importancia que eu dava á minha sanidade physiologica restaurada pela mão de vacca. Ser-me-hia talvez possivel equilibrar na gymnastica de locuções explosivas, victorhuguescas, onomatopaicas o interesse da morta, descrevendo o naufragio do barco rabêllo com os horrores do brigueMondegoou da fragataMedusa. Eu conhecia umas esfusiadas pyrothechnicas de metaphoras que punham enthusiasmos furiosos na dramatologia epileptica do Theatro-Normal, volcanisando as familias incendiarias da rua dos Bacalhoeiros; e ainda agora não passam de todo despercebidas á minha pasmaceira de minhôto palerma.

Ainda cheguei a ensaiar o genero...Os relampagos afuzilavam... O céo phosphoreava as suas lampadas sinistras para vêr a lucta do abysmo. Eram os albatrozes, n'um arquejar estridente, a pairarem na treva superior com as suas azas de fogo. As aguias do Marão, acossadas pelos bulcões das cumiadas, acolhiam-se ás concavidades da serra, e passavam grasnando o threno da desolação por sobre o paroxismo dos naufragos. Zuniam furacões assobiando pelas espaldas angulosas dos penhascaes... A tripulação, n'um clamor de agonias, a bradar «misericordia!»... O baixel arfava no dorso do vagalhão, ou, cuspido ás nuvens, resvalava na voragem onde as pranchas descosidas ringiam asperrrrrrimamente.(Onomatopeia)...Castellos de nuvens atras desabavamn'um estrallejar de ribombos; o escarceu verde-bronze, topetando com o ether zebrado de coriscos, baqueava-se depois n'um marulhar de espumas rugidoras... O cahos de cima a descer, a descer com a mortalha de treva sobre o abysmo que subia, subia n'uma ressonancia de maldições aofiat, creador das sevas angustias ineluctaveis do homem. E o naufrago cravava olhos piedosos no céo; e via listrarem-se as centelhas dos raios, como se os Titans revolucionados arrojassem á cara de Jupiter as escumalhas igneas das suas forjas. E o barão de Forrester, ao portaló, hirto, impavido como Nelson no Trafalgar.., etc.Tudo isto e o resto me sahiu ao pintar, e exacto como uma photographia, na descripção de um desastre de barco de pipas ido a pique entre dois calháos do Douro; mas, afinal, o que eu não sabia era diluir em synonimias e paraphrases coherentes com a tremenda catastrophe o qualificativo «cozinheira». Ainda se Gertrudes, filha de um desembargador miguelista ou d'um brigadeiro capitulado em Evora-Monte, com alguns appellidos historicos, houvesse descido as escaleiras da necessidade, sem deslise da honra, até á baixeza do seu officio, talvez que eu ousasse arcar com a necrologia, apostrophando o flagello da guerra civil que acorrentou á grilheta do fogão e da bateria de panellas aquella mulher nascida para rastolhar, sobre tapetes,moirescrepitosas, laminadas de brilhos metalicos ondulantes, e para saltar com tregeitos desenvoltos, n'um derrengue arregaçado e esquadrilhado deécuyère, da estribeira dolandeau, armorejado de paquifes arrogantes e escudos e timbres com passaros prehistoricose hydras assanhadas, á porta das modistas;—para reinar, emfim, nos theatros, no turbilhão dos bailes, nos balcões dos bazares philantropicos, na Caridade-Flirtation, e talvez nosporte noturf. Mas Gertrudes não tinha appellidos: era miseravelmenteGertrudes Engracia, d'um plebeismo razo, filha da Engracia, já celebre cozinheira dos fidalgos Mellos, casada com o Bento, cozinheiro famoso dos fidalgos Cyrnes, o qual cazára com uma cozinheira não menos distincta dos fidalgos Pamplonas. Esta genealogia, entre duas receitas de pudins de batata, encontrei-a escripta pelo pae de Gertrudes nas costas do frontispicio de um velho livro que ella me deu chamadoAlivio de tristes e consolação de queixosos. E da mesma arvore de geração constava que seu terceiro avô materno fôra abbade de Miragaya e sua quinta avó paterna era filhade um frade loio. Estes dois clerigos propagadores, como elementos genealogicos, não me pareceram imperiosamente exuberantes de moralidade e justiça para que eu, apostrophando a execravel guerra civil, a responsabilisasse pela decahida posição servil da neta do frade e do abbade.

*

Aqui tens, Thomaz Ribeiro, um coração aberto pelo remorso que se offerece á dissecção do teu bisturí. Santo Agostinho, imbecilitado pela piedade, e J. J. Rousseau, desbragado pela sua dissimulada philosophia cynica, deram-me o exemplo de vir á praça com a confissão tardia de uma pusillanimidade que dá amedida da miseria humana, e particularmente dos artistas de necrologias. N'este escripto, vim justiçar duas bestialidades protervas: a minha ingratidão e o clyster inglez. Agora, sinto-me bem, muito desabafado. Talvez lhe deva a elle, ájeropigadesobstruente do Forrester, este desempacho da consciencia. Ha exemplos confirmados por aforismos de Hippocrates.

Se chegaste aqui sem fastio, és um anjo de paciencia e de problematico bom-gosto. Decerto uzurpei á patria uma hora das tuas contemplações sanitarias sobre a revisão dacarta, que anda agora mui frequente na revista—o que me parece rasoavel, se ella, não obstante abigoteriedo Artigo 6.º, se tornou suspeita de virginismo insufficiente para reger um paiz pudibundo.

Seja como fôr, n'este opusculo esfervilhamepisodios desvairados que desatremam do assumpto e do titulo. São exuberancias que extravasam de uma grande medida cogulada de annos e de reminiscencias. O criticismo unhará o abuso do subjectivismo indisciplinado, a desorientação do abjectivo impessoal, da Arte Pura com maiusculas, finalmente—o romanêsco. Affoito-me, todavia, a esperar que os criticos práticos, tendo em vista os episodios extravagantes, afóra os gallicismos de que é capaz o seu aristocrata Tokay, usarão com o meu modesto «vinho do Porto» a sua costumada indulgencia generosa. E permitta a minha benigna estrella que os almotacés d'este folheto, quando hajam de aquecer o seu criterio no calorifico de alguma beberagem nervosa e suggestiva, prefiram o Johannisberg palaciano ao garoto Cartaxo doJosé dos Caracoes; por que, a finalde contas, nem todos os criticos espiritados por vinhos canalhas tem ohumourfaiscante de Poe, de Hoffmann, de Marlowe, de Zacharias Werner e de Bocage—uma constellação de bebados immortalmente classicos.

Ainda se não disse tudo.

N'este pedaço de litteratura da decadencia, ou decahida de todo, observe a critica escorreita que ha dois projectos: um é patente, o outro é clandestino. O primeiro é—arrazar Inglaterra; e, com effeito, arraza-se. O projecto clandestino, um tanto arteiro, é obter pelo sophisma tortuoso da lettra redonda, typo-Elzevir, o que o mercieiro alcança com o correcto syllogismo dos azeites e dos farinhaceos. O Espiritual ousa correr o pário com oComestivel: a meta é o habito de Christo. Que o mercieiro, melindrado na sua prosapia de anthropoide, não se agaste, se eu o lanço n'estas correrias de hippodromo. Não lhe conheço outros dons que o habilitem a entrar nosport.

Emfim, quando voltares a ministrar os negocios do reino, Thomaz Ribeiro, não me percas d'ôlho o meu habito de Christo, merecido pela façanha heroica e pouco trivial de arrazar Inglaterra. Bem vês que estas ambições aliás temerarias, confesso, não ultrapassam desmedidamente as balisas do meu merecimento. A almejada venera é a infima, penso eu, a mais piranga caracteristica ethnica da raça que domina esta nesga rasgada da Espanha, (que m'o releved. Jayme)—umas noventa leguas, metade incultas; e, assim mesmo, na povoação d'essa metade, inçam e pompeiam, segundo contaoAlmanach Commercial para 1884, cento e vinte dois condes, trezentos e quatro viscondes, e cento e noventa barões. Quanto a commendadores, quem contou as gotas do mediterraneo, as areias do Saharah e as estrellas da Via-Lactea? Ora, a respeito do habito de Christo, isso já agora, bem sabes, é uma coisa que se exporta para o estrangeiro como amostra da nossa unica industria; mas envia-se gratuitamente como osGrands Magasins du Printempsnos remettem de graça, francos de porte, os retalhinhos das suas fazendas.

Ah! que eu não morra nú d'esse habito! Concedam-me, na morte ao menos, essa insignia de christão em terra de moiros.

S. Miguel de Seide, abril, 20, 1884.

1Quando o barão de Forrester pereceu por desastre, um dos mais authorisados jornaes do paiz, escreveu sentimentalmente o seguinte: «... A morte desgraçada do snr. barão de Forrester a todos penalisava, pois o muito que aquelle illustrado cavalheiro se interessára sempre pela sorte do Douro, os bons serviços que lhe prestou com os seus escriptos... o tornaram geralmente estimado... Mostrou-se sempre muito dedicado a este paiz, e por muitas vezes associou o seu nome aos dos que mais trabalharam para os seus melhoramentos e progresso.»—O Commercio do Porto, de 14 de maio de 1861.Um correspondente da Regoa para o mesmo jornal e no numero seguinte, escreveu: «É sincero o sentimento geral que produziu a noticia da morte do snr. Forrester, e são bem justas as lagrimas que se derramam por tão desastroso acontecimento. É uma divida sagrada que se paga á memoria do distincto cavalheiro que tanto se sacrificou por este paiz. Portugal e especialmente o Douro muito lhe devem... Apesar de estrangeiro era portuguez do coração por que poucos filhos d'esta patria mais fizeram por ella nem mais a amaram...»Parece, pois, que os exemplares da diffamação do vinho do Porto eram desconhecidos em Portugal. Que fé nos hade merecer a historia e a biographia escripta por contemporaneos, quando o facto social erradamente julgado, ou a vida de um individuo favorecida pela adulação, ou deturpada pelo odio, não tiverem contradictores, tambem coevos, a contrastal-a!2Nota illustrativa.—Joseph Gregorio Lopes da Camara Sinval era esturrado patulêa da Junta rebelde do Porto, e commandára com honras de coronel o batalhão academico. Além d'este predicado faccioso, Sinval tinha o exemplo do austero historiador A. Herculano, que escrevêra:A historia do liberalismo é uma comedia de máo gosto.E, resalvando as duas nobres personagens, D. Pedro IV e Mousinho da Silveira, accrescentára:O resto não vale a penna da menção. São financeiros e barões, viscondes, condes e marquezes de fresca data e mesmo de velha data, commendadores, grão-cruzes e conselheiros: uma turba que grunhe, borborinha, fura, atropellando-se e acotovellando-se, na obra de roer um magro osso, chamado orçamento, e que grita aqui-d'el-rey! quando não póde tomar parte no regabofe.Quanto á «Carta-Gaioso» a gente velha ainda conheceu no Porto a corista d'aquelle appellido que cantou o hymno da Carta Restaurada no theatro de S. João, e desde ahi ficou identificada, a Gaioso, com o codigo das liberdades pátrias.

1Quando o barão de Forrester pereceu por desastre, um dos mais authorisados jornaes do paiz, escreveu sentimentalmente o seguinte: «... A morte desgraçada do snr. barão de Forrester a todos penalisava, pois o muito que aquelle illustrado cavalheiro se interessára sempre pela sorte do Douro, os bons serviços que lhe prestou com os seus escriptos... o tornaram geralmente estimado... Mostrou-se sempre muito dedicado a este paiz, e por muitas vezes associou o seu nome aos dos que mais trabalharam para os seus melhoramentos e progresso.»—O Commercio do Porto, de 14 de maio de 1861.

Um correspondente da Regoa para o mesmo jornal e no numero seguinte, escreveu: «É sincero o sentimento geral que produziu a noticia da morte do snr. Forrester, e são bem justas as lagrimas que se derramam por tão desastroso acontecimento. É uma divida sagrada que se paga á memoria do distincto cavalheiro que tanto se sacrificou por este paiz. Portugal e especialmente o Douro muito lhe devem... Apesar de estrangeiro era portuguez do coração por que poucos filhos d'esta patria mais fizeram por ella nem mais a amaram...»

Parece, pois, que os exemplares da diffamação do vinho do Porto eram desconhecidos em Portugal. Que fé nos hade merecer a historia e a biographia escripta por contemporaneos, quando o facto social erradamente julgado, ou a vida de um individuo favorecida pela adulação, ou deturpada pelo odio, não tiverem contradictores, tambem coevos, a contrastal-a!

2Nota illustrativa.—Joseph Gregorio Lopes da Camara Sinval era esturrado patulêa da Junta rebelde do Porto, e commandára com honras de coronel o batalhão academico. Além d'este predicado faccioso, Sinval tinha o exemplo do austero historiador A. Herculano, que escrevêra:A historia do liberalismo é uma comedia de máo gosto.E, resalvando as duas nobres personagens, D. Pedro IV e Mousinho da Silveira, accrescentára:O resto não vale a penna da menção. São financeiros e barões, viscondes, condes e marquezes de fresca data e mesmo de velha data, commendadores, grão-cruzes e conselheiros: uma turba que grunhe, borborinha, fura, atropellando-se e acotovellando-se, na obra de roer um magro osso, chamado orçamento, e que grita aqui-d'el-rey! quando não póde tomar parte no regabofe.Quanto á «Carta-Gaioso» a gente velha ainda conheceu no Porto a corista d'aquelle appellido que cantou o hymno da Carta Restaurada no theatro de S. João, e desde ahi ficou identificada, a Gaioso, com o codigo das liberdades pátrias.


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