MARINICOLAS
Marinicolas todos os diasO vejo na sege passar por aqui,Cavalheiro de tão lindas partes,Como, verbi gratia, Londres e Pariz.Mais fidalgo que as mesmas estrellas,Que as doze do dia viu sempre luzir,Que seu pae por não sei que desastreTudo o que comia vinha pelo giz.Peneirando-lhe os seus avelorios,É tal a farinha do nympho gentil,Que por machos é sangue Tudesco,Porém pelas femeas humor meretriz.Um avô, que rodou esta côrteNum coche de quatro de um Dom Beleaniz,Sôbre mulas foi tão attractivo,Que as Senhoras todas trouxe atraz de si.Foi um grande verdugo de bestas,Pois co’um azorrague e dois borzeguins,Ao compás dos maus passos que davamLhes ia cantando o lá, sol, fá, mi.Marinicolas era muchachoTão gran’ rabaceiro de escumas de rins,Que jámais para as toucas olhava,Por achar nas calças melhor fraldelim.Sendo já sumilher de cortinaDe um xastre de barbas, saiu d’aprendizDado só ás lições de canudo,Rapante de especie de .. viril.Cabrestilhos tecendo em arames,Tão pouco lucrava no patrio paiz,Que se foi dando velas ao ventoAo reino dos Servos, não mais que a servir.Lá me dizem que fez carambolaCom certo Cupido, que fôra d’aquiEmpurrado por uma Sodoma,No anno de tantos em cima de mil.Por signal que no sitio nefandoLhe poz a ramella do olho servilUm travesso, porque de cadeiraA seus .. servisse aquelle ambar gris.Mordeduras de perro raivosoCó o pello se curam do mesmo mastim,E aos mordidos do rabo não pódeO sumo do rabo de cura servir.Tanto em fim semeou pela terra,Que havendo colhido bastante quatrim,Resolvendo a ser PerotangasCruzou o Salobre, partiu o Zenith.Avistando este nosso hemispherio,Calou pela barra em um bergantim,Poz em terra os maiores joanetesQue viram meus olhos desde que nasci.Pretendendo com recancanilhasRoubar as guaritas de um salto subtil,Embolçava com alma de gato,A risco de sape, dinheiro de miz.Sinão quando na horta do DuqueAndando de ronda um certo malsim,Estumando-lhe um cão pechelingueO demo do gato botou o seitil.Marinicolas vendo-se entoncesDe todo expurgado sem maravedi,Alugava rapazes ao povo,Por ter de caminho de quem se servir.Exercendo-os em jogos de mãosTão lestos os tinha o destro arlequim,Que si não lhes tirára a peçonhaGanhára com elles dois mil potosis.A tendeiro se poz de.....E na taboleta mandou esculpirDois cachopos, e a lettra dizia:Os ordenhadores se alquilam aqui.Tem por mestre do terço......Um pagem de lança, que Marcos se diz,Que si em casa anda ao rabo d’elle,O traz pela rua ao rabo de si.Uma tarde em que o perro celesteDo sol acossado se poz a latir,Marinicola estava com MarcosLimpando-lhe os moncos de certo nariz.Mas sentindo ruido na porta,Aonde batia um Gorra civil,Um e outro se poz em fugida,Temiendo los dientes de algun javali.Era pois o baeta travesso:Si um pouco de antes aportára alli,Como sabe latim o baeta,Pudiera cogerlos en un má latin.Ao depois dando d’elle uma forçaAs alcoviteiras do nosso confim,Lhe valeu no sagrado da egrejaO nó indissoluvel de um rico mongil.Empossado da simples consorteCresceu de maneira naquelles chapins,Que inda hoje dá graças infindasAos falsos informes dequis,quidequid.Não obstante pagar de vazioO sancto hymeneu um picaro vil,Se regala á ufa do sogro,Comendo e bebendo como mochachim.Com chamar-se prudente com todos,Que muitos babosos o têm para si,Elle certo é o meu desenfado,Que um tolo prudente dá muito que rir.É dotado de um entendimentoTão vivo e esperto, que fôra um Beliz,Si lhe houvera o juizo illustradoUm dedo de grego, outro de latim.Entre gabos o triste idiotaTão pago se mostra dos seus gorgotis,Que nascendo sendeiro de gemma,Quer á fina força metter-se a rossim.Deu agora em famoso arbitrista,E quer por arbitrios o triste malsimQue o vejamos subir á Excellencia,Como diz que vimos Montalvão subir.Sendo pois o alterar a moedaO assopro, o arbitrio, o ponto e o ardil,De justiça, a meu ver, se lhe devemAs honras que teve Ferraz e Soliz.Dêm com elle no alto da forca,Adonde o fidalgo terá para siQue é o mais estirado de quantosBeberam no Douro, mijaram no Rim.Si o intento é bater-se moeda,Correrem-lhe gages e ser mandarim,Porque andando a moeda na forjaSe ri de Cuama, de Sena e de Ophir?Sempre foi da moeda privado,Mas vendo-se agora Senhor e Juiz,Condemnando em portaes a moeda,Abriu ás unhadas portas para si.Muito mais lhe rendeu cada palmoD’aquella portada que dois potosis;Muito mais lhe valeu cada pedraQue vale un ochavo de Valladolid.Pés de puas com topes de seda,Cabellos de cabra com pós de marfim,Pés e puas de riso motivo,Cabellos e topes motivo de rir.Uma tia, que abaixo do muroLacões esquarteja, me dizem que diz:Sua Alteza sem ir meu sobrinhoA nada responde de não ou de sim.Pois a prima da rua do SacoTambem se reputa de todos alli,Que a furaram como veladorPara o garavato de certo candil.Outras tias me dizem que foramTão fortes gallegas, e tão varonis,Que sobre ellas foi muito mais genteDo que sobre Hespanha em tempo do Cid.Catharina conigibus eraUma das avôas da parte viril,D’onde vem conixarem-se todasAs conigibundas do tal genesis.Despachou-se com habito e tençaPor grandes serviços, que fez ao Sofi,Em matar nos fieis PortuguezesDe puro enfadonho tres ou quatro mil.E porque de mechanica tantaNão foi dispensado, tenho para mimQue em usar da mechanica falsaSe soube livrar da mechanica vil.É possível que calce tão altoA baixa vileza de um sujo escarpim,Para o qual não é a agua bastanteDa grossa corrente do Gualdaquibir?Marinicolas é finalmenteSugeito de prendas de tanto matiz,Que está hoje batendo moeda,Sendo ainda hontem um vilão ruim.
Marinicolas todos os diasO vejo na sege passar por aqui,Cavalheiro de tão lindas partes,Como, verbi gratia, Londres e Pariz.Mais fidalgo que as mesmas estrellas,Que as doze do dia viu sempre luzir,Que seu pae por não sei que desastreTudo o que comia vinha pelo giz.Peneirando-lhe os seus avelorios,É tal a farinha do nympho gentil,Que por machos é sangue Tudesco,Porém pelas femeas humor meretriz.Um avô, que rodou esta côrteNum coche de quatro de um Dom Beleaniz,Sôbre mulas foi tão attractivo,Que as Senhoras todas trouxe atraz de si.Foi um grande verdugo de bestas,Pois co’um azorrague e dois borzeguins,Ao compás dos maus passos que davamLhes ia cantando o lá, sol, fá, mi.Marinicolas era muchachoTão gran’ rabaceiro de escumas de rins,Que jámais para as toucas olhava,Por achar nas calças melhor fraldelim.Sendo já sumilher de cortinaDe um xastre de barbas, saiu d’aprendizDado só ás lições de canudo,Rapante de especie de .. viril.Cabrestilhos tecendo em arames,Tão pouco lucrava no patrio paiz,Que se foi dando velas ao ventoAo reino dos Servos, não mais que a servir.Lá me dizem que fez carambolaCom certo Cupido, que fôra d’aquiEmpurrado por uma Sodoma,No anno de tantos em cima de mil.Por signal que no sitio nefandoLhe poz a ramella do olho servilUm travesso, porque de cadeiraA seus .. servisse aquelle ambar gris.Mordeduras de perro raivosoCó o pello se curam do mesmo mastim,E aos mordidos do rabo não pódeO sumo do rabo de cura servir.Tanto em fim semeou pela terra,Que havendo colhido bastante quatrim,Resolvendo a ser PerotangasCruzou o Salobre, partiu o Zenith.Avistando este nosso hemispherio,Calou pela barra em um bergantim,Poz em terra os maiores joanetesQue viram meus olhos desde que nasci.Pretendendo com recancanilhasRoubar as guaritas de um salto subtil,Embolçava com alma de gato,A risco de sape, dinheiro de miz.Sinão quando na horta do DuqueAndando de ronda um certo malsim,Estumando-lhe um cão pechelingueO demo do gato botou o seitil.Marinicolas vendo-se entoncesDe todo expurgado sem maravedi,Alugava rapazes ao povo,Por ter de caminho de quem se servir.Exercendo-os em jogos de mãosTão lestos os tinha o destro arlequim,Que si não lhes tirára a peçonhaGanhára com elles dois mil potosis.A tendeiro se poz de.....E na taboleta mandou esculpirDois cachopos, e a lettra dizia:Os ordenhadores se alquilam aqui.Tem por mestre do terço......Um pagem de lança, que Marcos se diz,Que si em casa anda ao rabo d’elle,O traz pela rua ao rabo de si.Uma tarde em que o perro celesteDo sol acossado se poz a latir,Marinicola estava com MarcosLimpando-lhe os moncos de certo nariz.Mas sentindo ruido na porta,Aonde batia um Gorra civil,Um e outro se poz em fugida,Temiendo los dientes de algun javali.Era pois o baeta travesso:Si um pouco de antes aportára alli,Como sabe latim o baeta,Pudiera cogerlos en un má latin.Ao depois dando d’elle uma forçaAs alcoviteiras do nosso confim,Lhe valeu no sagrado da egrejaO nó indissoluvel de um rico mongil.Empossado da simples consorteCresceu de maneira naquelles chapins,Que inda hoje dá graças infindasAos falsos informes dequis,quidequid.Não obstante pagar de vazioO sancto hymeneu um picaro vil,Se regala á ufa do sogro,Comendo e bebendo como mochachim.Com chamar-se prudente com todos,Que muitos babosos o têm para si,Elle certo é o meu desenfado,Que um tolo prudente dá muito que rir.É dotado de um entendimentoTão vivo e esperto, que fôra um Beliz,Si lhe houvera o juizo illustradoUm dedo de grego, outro de latim.Entre gabos o triste idiotaTão pago se mostra dos seus gorgotis,Que nascendo sendeiro de gemma,Quer á fina força metter-se a rossim.Deu agora em famoso arbitrista,E quer por arbitrios o triste malsimQue o vejamos subir á Excellencia,Como diz que vimos Montalvão subir.Sendo pois o alterar a moedaO assopro, o arbitrio, o ponto e o ardil,De justiça, a meu ver, se lhe devemAs honras que teve Ferraz e Soliz.Dêm com elle no alto da forca,Adonde o fidalgo terá para siQue é o mais estirado de quantosBeberam no Douro, mijaram no Rim.Si o intento é bater-se moeda,Correrem-lhe gages e ser mandarim,Porque andando a moeda na forjaSe ri de Cuama, de Sena e de Ophir?Sempre foi da moeda privado,Mas vendo-se agora Senhor e Juiz,Condemnando em portaes a moeda,Abriu ás unhadas portas para si.Muito mais lhe rendeu cada palmoD’aquella portada que dois potosis;Muito mais lhe valeu cada pedraQue vale un ochavo de Valladolid.Pés de puas com topes de seda,Cabellos de cabra com pós de marfim,Pés e puas de riso motivo,Cabellos e topes motivo de rir.Uma tia, que abaixo do muroLacões esquarteja, me dizem que diz:Sua Alteza sem ir meu sobrinhoA nada responde de não ou de sim.Pois a prima da rua do SacoTambem se reputa de todos alli,Que a furaram como veladorPara o garavato de certo candil.Outras tias me dizem que foramTão fortes gallegas, e tão varonis,Que sobre ellas foi muito mais genteDo que sobre Hespanha em tempo do Cid.Catharina conigibus eraUma das avôas da parte viril,D’onde vem conixarem-se todasAs conigibundas do tal genesis.Despachou-se com habito e tençaPor grandes serviços, que fez ao Sofi,Em matar nos fieis PortuguezesDe puro enfadonho tres ou quatro mil.E porque de mechanica tantaNão foi dispensado, tenho para mimQue em usar da mechanica falsaSe soube livrar da mechanica vil.É possível que calce tão altoA baixa vileza de um sujo escarpim,Para o qual não é a agua bastanteDa grossa corrente do Gualdaquibir?Marinicolas é finalmenteSugeito de prendas de tanto matiz,Que está hoje batendo moeda,Sendo ainda hontem um vilão ruim.
Marinicolas todos os diasO vejo na sege passar por aqui,Cavalheiro de tão lindas partes,Como, verbi gratia, Londres e Pariz.
Marinicolas todos os dias
O vejo na sege passar por aqui,
Cavalheiro de tão lindas partes,
Como, verbi gratia, Londres e Pariz.
Mais fidalgo que as mesmas estrellas,Que as doze do dia viu sempre luzir,Que seu pae por não sei que desastreTudo o que comia vinha pelo giz.
Mais fidalgo que as mesmas estrellas,
Que as doze do dia viu sempre luzir,
Que seu pae por não sei que desastre
Tudo o que comia vinha pelo giz.
Peneirando-lhe os seus avelorios,É tal a farinha do nympho gentil,Que por machos é sangue Tudesco,Porém pelas femeas humor meretriz.
Peneirando-lhe os seus avelorios,
É tal a farinha do nympho gentil,
Que por machos é sangue Tudesco,
Porém pelas femeas humor meretriz.
Um avô, que rodou esta côrteNum coche de quatro de um Dom Beleaniz,Sôbre mulas foi tão attractivo,Que as Senhoras todas trouxe atraz de si.
Um avô, que rodou esta côrte
Num coche de quatro de um Dom Beleaniz,
Sôbre mulas foi tão attractivo,
Que as Senhoras todas trouxe atraz de si.
Foi um grande verdugo de bestas,Pois co’um azorrague e dois borzeguins,Ao compás dos maus passos que davamLhes ia cantando o lá, sol, fá, mi.
Foi um grande verdugo de bestas,
Pois co’um azorrague e dois borzeguins,
Ao compás dos maus passos que davam
Lhes ia cantando o lá, sol, fá, mi.
Marinicolas era muchachoTão gran’ rabaceiro de escumas de rins,Que jámais para as toucas olhava,Por achar nas calças melhor fraldelim.
Marinicolas era muchacho
Tão gran’ rabaceiro de escumas de rins,
Que jámais para as toucas olhava,
Por achar nas calças melhor fraldelim.
Sendo já sumilher de cortinaDe um xastre de barbas, saiu d’aprendizDado só ás lições de canudo,Rapante de especie de .. viril.
Sendo já sumilher de cortina
De um xastre de barbas, saiu d’aprendiz
Dado só ás lições de canudo,
Rapante de especie de .. viril.
Cabrestilhos tecendo em arames,Tão pouco lucrava no patrio paiz,Que se foi dando velas ao ventoAo reino dos Servos, não mais que a servir.
Cabrestilhos tecendo em arames,
Tão pouco lucrava no patrio paiz,
Que se foi dando velas ao vento
Ao reino dos Servos, não mais que a servir.
Lá me dizem que fez carambolaCom certo Cupido, que fôra d’aquiEmpurrado por uma Sodoma,No anno de tantos em cima de mil.
Lá me dizem que fez carambola
Com certo Cupido, que fôra d’aqui
Empurrado por uma Sodoma,
No anno de tantos em cima de mil.
Por signal que no sitio nefandoLhe poz a ramella do olho servilUm travesso, porque de cadeiraA seus .. servisse aquelle ambar gris.
Por signal que no sitio nefando
Lhe poz a ramella do olho servil
Um travesso, porque de cadeira
A seus .. servisse aquelle ambar gris.
Mordeduras de perro raivosoCó o pello se curam do mesmo mastim,E aos mordidos do rabo não pódeO sumo do rabo de cura servir.
Mordeduras de perro raivoso
Có o pello se curam do mesmo mastim,
E aos mordidos do rabo não póde
O sumo do rabo de cura servir.
Tanto em fim semeou pela terra,Que havendo colhido bastante quatrim,Resolvendo a ser PerotangasCruzou o Salobre, partiu o Zenith.
Tanto em fim semeou pela terra,
Que havendo colhido bastante quatrim,
Resolvendo a ser Perotangas
Cruzou o Salobre, partiu o Zenith.
Avistando este nosso hemispherio,Calou pela barra em um bergantim,Poz em terra os maiores joanetesQue viram meus olhos desde que nasci.
Avistando este nosso hemispherio,
Calou pela barra em um bergantim,
Poz em terra os maiores joanetes
Que viram meus olhos desde que nasci.
Pretendendo com recancanilhasRoubar as guaritas de um salto subtil,Embolçava com alma de gato,A risco de sape, dinheiro de miz.
Pretendendo com recancanilhas
Roubar as guaritas de um salto subtil,
Embolçava com alma de gato,
A risco de sape, dinheiro de miz.
Sinão quando na horta do DuqueAndando de ronda um certo malsim,Estumando-lhe um cão pechelingueO demo do gato botou o seitil.
Sinão quando na horta do Duque
Andando de ronda um certo malsim,
Estumando-lhe um cão pechelingue
O demo do gato botou o seitil.
Marinicolas vendo-se entoncesDe todo expurgado sem maravedi,Alugava rapazes ao povo,Por ter de caminho de quem se servir.
Marinicolas vendo-se entonces
De todo expurgado sem maravedi,
Alugava rapazes ao povo,
Por ter de caminho de quem se servir.
Exercendo-os em jogos de mãosTão lestos os tinha o destro arlequim,Que si não lhes tirára a peçonhaGanhára com elles dois mil potosis.
Exercendo-os em jogos de mãos
Tão lestos os tinha o destro arlequim,
Que si não lhes tirára a peçonha
Ganhára com elles dois mil potosis.
A tendeiro se poz de.....E na taboleta mandou esculpirDois cachopos, e a lettra dizia:Os ordenhadores se alquilam aqui.
A tendeiro se poz de.....
E na taboleta mandou esculpir
Dois cachopos, e a lettra dizia:
Os ordenhadores se alquilam aqui.
Tem por mestre do terço......Um pagem de lança, que Marcos se diz,Que si em casa anda ao rabo d’elle,O traz pela rua ao rabo de si.
Tem por mestre do terço......
Um pagem de lança, que Marcos se diz,
Que si em casa anda ao rabo d’elle,
O traz pela rua ao rabo de si.
Uma tarde em que o perro celesteDo sol acossado se poz a latir,Marinicola estava com MarcosLimpando-lhe os moncos de certo nariz.
Uma tarde em que o perro celeste
Do sol acossado se poz a latir,
Marinicola estava com Marcos
Limpando-lhe os moncos de certo nariz.
Mas sentindo ruido na porta,Aonde batia um Gorra civil,Um e outro se poz em fugida,Temiendo los dientes de algun javali.
Mas sentindo ruido na porta,
Aonde batia um Gorra civil,
Um e outro se poz em fugida,
Temiendo los dientes de algun javali.
Era pois o baeta travesso:Si um pouco de antes aportára alli,Como sabe latim o baeta,Pudiera cogerlos en un má latin.
Era pois o baeta travesso:
Si um pouco de antes aportára alli,
Como sabe latim o baeta,
Pudiera cogerlos en un má latin.
Ao depois dando d’elle uma forçaAs alcoviteiras do nosso confim,Lhe valeu no sagrado da egrejaO nó indissoluvel de um rico mongil.
Ao depois dando d’elle uma força
As alcoviteiras do nosso confim,
Lhe valeu no sagrado da egreja
O nó indissoluvel de um rico mongil.
Empossado da simples consorteCresceu de maneira naquelles chapins,Que inda hoje dá graças infindasAos falsos informes dequis,quidequid.
Empossado da simples consorte
Cresceu de maneira naquelles chapins,
Que inda hoje dá graças infindas
Aos falsos informes dequis,quidequid.
Não obstante pagar de vazioO sancto hymeneu um picaro vil,Se regala á ufa do sogro,Comendo e bebendo como mochachim.
Não obstante pagar de vazio
O sancto hymeneu um picaro vil,
Se regala á ufa do sogro,
Comendo e bebendo como mochachim.
Com chamar-se prudente com todos,Que muitos babosos o têm para si,Elle certo é o meu desenfado,Que um tolo prudente dá muito que rir.
Com chamar-se prudente com todos,
Que muitos babosos o têm para si,
Elle certo é o meu desenfado,
Que um tolo prudente dá muito que rir.
É dotado de um entendimentoTão vivo e esperto, que fôra um Beliz,Si lhe houvera o juizo illustradoUm dedo de grego, outro de latim.
É dotado de um entendimento
Tão vivo e esperto, que fôra um Beliz,
Si lhe houvera o juizo illustrado
Um dedo de grego, outro de latim.
Entre gabos o triste idiotaTão pago se mostra dos seus gorgotis,Que nascendo sendeiro de gemma,Quer á fina força metter-se a rossim.
Entre gabos o triste idiota
Tão pago se mostra dos seus gorgotis,
Que nascendo sendeiro de gemma,
Quer á fina força metter-se a rossim.
Deu agora em famoso arbitrista,E quer por arbitrios o triste malsimQue o vejamos subir á Excellencia,Como diz que vimos Montalvão subir.
Deu agora em famoso arbitrista,
E quer por arbitrios o triste malsim
Que o vejamos subir á Excellencia,
Como diz que vimos Montalvão subir.
Sendo pois o alterar a moedaO assopro, o arbitrio, o ponto e o ardil,De justiça, a meu ver, se lhe devemAs honras que teve Ferraz e Soliz.
Sendo pois o alterar a moeda
O assopro, o arbitrio, o ponto e o ardil,
De justiça, a meu ver, se lhe devem
As honras que teve Ferraz e Soliz.
Dêm com elle no alto da forca,Adonde o fidalgo terá para siQue é o mais estirado de quantosBeberam no Douro, mijaram no Rim.
Dêm com elle no alto da forca,
Adonde o fidalgo terá para si
Que é o mais estirado de quantos
Beberam no Douro, mijaram no Rim.
Si o intento é bater-se moeda,Correrem-lhe gages e ser mandarim,Porque andando a moeda na forjaSe ri de Cuama, de Sena e de Ophir?
Si o intento é bater-se moeda,
Correrem-lhe gages e ser mandarim,
Porque andando a moeda na forja
Se ri de Cuama, de Sena e de Ophir?
Sempre foi da moeda privado,Mas vendo-se agora Senhor e Juiz,Condemnando em portaes a moeda,Abriu ás unhadas portas para si.
Sempre foi da moeda privado,
Mas vendo-se agora Senhor e Juiz,
Condemnando em portaes a moeda,
Abriu ás unhadas portas para si.
Muito mais lhe rendeu cada palmoD’aquella portada que dois potosis;Muito mais lhe valeu cada pedraQue vale un ochavo de Valladolid.
Muito mais lhe rendeu cada palmo
D’aquella portada que dois potosis;
Muito mais lhe valeu cada pedra
Que vale un ochavo de Valladolid.
Pés de puas com topes de seda,Cabellos de cabra com pós de marfim,Pés e puas de riso motivo,Cabellos e topes motivo de rir.
Pés de puas com topes de seda,
Cabellos de cabra com pós de marfim,
Pés e puas de riso motivo,
Cabellos e topes motivo de rir.
Uma tia, que abaixo do muroLacões esquarteja, me dizem que diz:Sua Alteza sem ir meu sobrinhoA nada responde de não ou de sim.
Uma tia, que abaixo do muro
Lacões esquarteja, me dizem que diz:
Sua Alteza sem ir meu sobrinho
A nada responde de não ou de sim.
Pois a prima da rua do SacoTambem se reputa de todos alli,Que a furaram como veladorPara o garavato de certo candil.
Pois a prima da rua do Saco
Tambem se reputa de todos alli,
Que a furaram como velador
Para o garavato de certo candil.
Outras tias me dizem que foramTão fortes gallegas, e tão varonis,Que sobre ellas foi muito mais genteDo que sobre Hespanha em tempo do Cid.
Outras tias me dizem que foram
Tão fortes gallegas, e tão varonis,
Que sobre ellas foi muito mais gente
Do que sobre Hespanha em tempo do Cid.
Catharina conigibus eraUma das avôas da parte viril,D’onde vem conixarem-se todasAs conigibundas do tal genesis.
Catharina conigibus era
Uma das avôas da parte viril,
D’onde vem conixarem-se todas
As conigibundas do tal genesis.
Despachou-se com habito e tençaPor grandes serviços, que fez ao Sofi,Em matar nos fieis PortuguezesDe puro enfadonho tres ou quatro mil.
Despachou-se com habito e tença
Por grandes serviços, que fez ao Sofi,
Em matar nos fieis Portuguezes
De puro enfadonho tres ou quatro mil.
E porque de mechanica tantaNão foi dispensado, tenho para mimQue em usar da mechanica falsaSe soube livrar da mechanica vil.
E porque de mechanica tanta
Não foi dispensado, tenho para mim
Que em usar da mechanica falsa
Se soube livrar da mechanica vil.
É possível que calce tão altoA baixa vileza de um sujo escarpim,Para o qual não é a agua bastanteDa grossa corrente do Gualdaquibir?
É possível que calce tão alto
A baixa vileza de um sujo escarpim,
Para o qual não é a agua bastante
Da grossa corrente do Gualdaquibir?
Marinicolas é finalmenteSugeito de prendas de tanto matiz,Que está hoje batendo moeda,Sendo ainda hontem um vilão ruim.
Marinicolas é finalmente
Sugeito de prendas de tanto matiz,
Que está hoje batendo moeda,
Sendo ainda hontem um vilão ruim.