VI

Uma cidade tão nobre,Uma gente tão honrada,Veja-se um dia louvadaDesde o mais rico ao mais pobre:Cada pessoa o seu cobre;Mas si o diabo me atiça,Que indo a fazer-lhes justiça,Algum sahia a justiçar,Não mo poderão negarQue por direito e por leiEsta é a justiça que manda El-Rei.

Uma cidade tão nobre,Uma gente tão honrada,Veja-se um dia louvadaDesde o mais rico ao mais pobre:Cada pessoa o seu cobre;Mas si o diabo me atiça,Que indo a fazer-lhes justiça,Algum sahia a justiçar,Não mo poderão negarQue por direito e por leiEsta é a justiça que manda El-Rei.

Uma cidade tão nobre,Uma gente tão honrada,Veja-se um dia louvadaDesde o mais rico ao mais pobre:Cada pessoa o seu cobre;Mas si o diabo me atiça,Que indo a fazer-lhes justiça,Algum sahia a justiçar,Não mo poderão negarQue por direito e por leiEsta é a justiça que manda El-Rei.

Uma cidade tão nobre,

Uma gente tão honrada,

Veja-se um dia louvada

Desde o mais rico ao mais pobre:

Cada pessoa o seu cobre;

Mas si o diabo me atiça,

Que indo a fazer-lhes justiça,

Algum sahia a justiçar,

Não mo poderão negar

Que por direito e por lei

Esta é a justiça que manda El-Rei.

A primeira strophe da satyra de Thomaz Pinto é esta:

Um Reino de tal valor,E de povo tão honrado,É justo seja louvadoDesde o vassallo ao senhor.Inda que fraco orador,A verdade hei de dizer,E cada qual recolherPóde, aquillo, que lhe toca;Inda que diga, o provocaUma imitação real:Este o bom Governo de Portugal.

Um Reino de tal valor,E de povo tão honrado,É justo seja louvadoDesde o vassallo ao senhor.Inda que fraco orador,A verdade hei de dizer,E cada qual recolherPóde, aquillo, que lhe toca;Inda que diga, o provocaUma imitação real:Este o bom Governo de Portugal.

Um Reino de tal valor,E de povo tão honrado,É justo seja louvadoDesde o vassallo ao senhor.Inda que fraco orador,A verdade hei de dizer,E cada qual recolherPóde, aquillo, que lhe toca;Inda que diga, o provocaUma imitação real:Este o bom Governo de Portugal.

Um Reino de tal valor,

E de povo tão honrado,

É justo seja louvado

Desde o vassallo ao senhor.

Inda que fraco orador,

A verdade hei de dizer,

E cada qual recolher

Póde, aquillo, que lhe toca;

Inda que diga, o provoca

Uma imitação real:

Este o bom Governo de Portugal.

Esta longa producção ainda se conserva inedita. A Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro a possue nasObras partas de Thomaz Pinto Brandão, msc. in-4.ᵒ de 269 ff. num. Acha-se de ff. 195 a 204.

Os homens de genio nunca morrem; neste caso está o nosso Gregorio de Mattos, que é uma verdadeira gloria nacional: quasi obumbrado por espaço de dois seculos, o seu ainda que não completo apparecimento no mundo litterario é quiçá um acontecimento. Estou certo que, mais conhecido, o seu nome se tornará tão vulgar como o de Luiz de Camões, dado o desconto da indole poética de um e de outro e da profunda differença dos assumptos de que um e outro se occuparam e que não são de certo para comparar-se. Gregorio de Mattos terá porém egualmente citadores, porque ha nas suas poesias muito que se applicar a todas as situações da vida, e si as condições sociaes mudaram, não são as mesmas do tempo em que poetou e floresceu, a humanidade é ainda a mesmissima e as fragilidades humanas se repetem e renovam em todos os seculos... por ventura refinadas.

Nascido na Bahia formára-se em Coimbra e estivera por algum tempo em Lisboa a exercer a advocacia. Tornou depois á Bahia, de onde, preso pela vivacidade das suas satyras, fôra deportado para Angola: d’ahi voltou a Pernambuco, onde exhalou o ultimo suspiro em 1696.

Como Camões, foi em Coimbra que Gregorio de Mattos começou a fazer-se conhecido pelas suas poesias e satyras; ahi esteve 7 annos, como elle proprio o diz, e, quando terminou o seu tirocinio academico, não se esqueceu de compôr umAdeus á Coimbra, despedindo-se da Universidade:

Adeus Coimbra inimiga,Dos mais honrados madrasta,Que eu me vou para outra terraOnde viva mais á larga.Adeus prolixas escholas,Com reitor, meirinho, e guarda,Lentes, bedeis, secretarioQue tudo sommado é nada.Adeus famulo importunoLadrão público de estrada,Adeus: comei d’esses furtos,Que a bolsa está já acabada.Adeus ama mal soffridaQue si a paga vos tardava,Furtaveis sem conscienciaMeios de carneiro e vacca.Adeus amigos livreiros,Com quem não gastei patacaNo discurso de sete annos,De tantas carrancas cara.

Adeus Coimbra inimiga,Dos mais honrados madrasta,Que eu me vou para outra terraOnde viva mais á larga.Adeus prolixas escholas,Com reitor, meirinho, e guarda,Lentes, bedeis, secretarioQue tudo sommado é nada.Adeus famulo importunoLadrão público de estrada,Adeus: comei d’esses furtos,Que a bolsa está já acabada.Adeus ama mal soffridaQue si a paga vos tardava,Furtaveis sem conscienciaMeios de carneiro e vacca.Adeus amigos livreiros,Com quem não gastei patacaNo discurso de sete annos,De tantas carrancas cara.

Adeus Coimbra inimiga,Dos mais honrados madrasta,Que eu me vou para outra terraOnde viva mais á larga.

Adeus Coimbra inimiga,

Dos mais honrados madrasta,

Que eu me vou para outra terra

Onde viva mais á larga.

Adeus prolixas escholas,Com reitor, meirinho, e guarda,Lentes, bedeis, secretarioQue tudo sommado é nada.

Adeus prolixas escholas,

Com reitor, meirinho, e guarda,

Lentes, bedeis, secretario

Que tudo sommado é nada.

Adeus famulo importunoLadrão público de estrada,Adeus: comei d’esses furtos,Que a bolsa está já acabada.

Adeus famulo importuno

Ladrão público de estrada,

Adeus: comei d’esses furtos,

Que a bolsa está já acabada.

Adeus ama mal soffridaQue si a paga vos tardava,Furtaveis sem conscienciaMeios de carneiro e vacca.

Adeus ama mal soffrida

Que si a paga vos tardava,

Furtaveis sem consciencia

Meios de carneiro e vacca.

Adeus amigos livreiros,Com quem não gastei patacaNo discurso de sete annos,De tantas carrancas cara.

Adeus amigos livreiros,

Com quem não gastei pataca

No discurso de sete annos,

De tantas carrancas cara.

Esta producção foi assim publicada por Varnhagen no seuFlorilegio da poesia brazileira, t. I, pg. 11.

A sua vida é uma perfeita comedia, em que figuram os mais notaveis personagens do tempo, trazidos á baila pela sua musa folgazã, aviventados pelo seu genio creador e superior.

O Brazil ainda não produziu outro genio egual no seu genero ao de Gregorio de Mattos. Como já disse, não era elle só satyrico: era tambem um poeta sacro e um lyrico insigne. Os sonetos, que escreveu em grande numero, são eguaes ás melhores composições d’esta especie; rivalisam com os mais famosos de Bocage.

Na qualidade de advogado, Mattos era de um tino e perspicacia admiraveis, sabendo tirar partido vantajoso dos mais insignificantes incidentes: uma causa que tivesse a ventura de cahir nas suas mãos, estava de certo ganha e coberta de innumeros applausos, mesmo dos da parte contraria. Era de um laconismo extraordinario nos seus embargos, e de muitos d’elles nos dá noticia o seu biographo Rebello.

Gregorio de Mattos era alegre e folgazão como o mostra boa parte das suas producções.

Em geral os poetas pedem a morte cedo; Gregorio de Mattos porém não desejava morrer na flor da edade, e no soneto em que chora a morte de um filho seu de tenra edade, diz:

Que muito, ó filho, flor de um pau tão bronco,Que acabe a flor na docil infancia,E que acabando a flor dure inda o tronco.

Que muito, ó filho, flor de um pau tão bronco,Que acabe a flor na docil infancia,E que acabando a flor dure inda o tronco.

Que muito, ó filho, flor de um pau tão bronco,Que acabe a flor na docil infancia,E que acabando a flor dure inda o tronco.

Que muito, ó filho, flor de um pau tão bronco,

Que acabe a flor na docil infancia,

E que acabando a flor dure inda o tronco.

De genio altaneiro e caracter independente, não se curvava a interesses mundanos. Queria dar espansão ao seu singular espirito e não admittia nisso o mais leve constrangimento.

A sua ambição era limitada: assim, não fazia caso de dinheiro, nem mercava a sua musa aos poderosos.

Conta o seu biographo, que quando elle vendeu umas terras suas por tres mil cruzados, recebendo o dinheiro em um saco, mandara-o despejar a um canto da casa, e d’ahi se ia tirando o necessario e sem regra, para os gastos diarios.

Como advogado Gregorio de Mattos era de rectissimo proceder; só defendia o justo e aconselhava o verdadeiro. «Conta-se, diz o seu biographo, que muitas vezes aconteceu entrarem-lhe as partes com dinheiro consideravel, e os amigos com assumptos menos dignos, e que elle despresava aquellas, para attender a estes, passando lastimosas necessidades.»

Apezar da promessa de d. Pedro II de um logar na Casa da Supplicação de Lisboa, não quiz o dr. Gregorio de Mattos devassar no Rio de Janeiro dos crimes imputados ao governador Salvador Corrêa de Sá e Benavides, cahindo assim das graças d’aquelle monarcha. Este facto, si não lhe sobrassem outros muitos que conta o seu biographo, bastava para mostrar a rectidão e a independencia de caracter do poeta.

Á Gregorio de Mattos deve o Brazil o primeiro brado da sua independencia. Foi elle quem primeiro, só e desajudado, teve a coragem e a energia de dar este grito de alarma na colonia portugueza. Em muitas das suas producções notam-se o amor que o poeta consagrava á sua patria e os esforços que empregava para liberta-la do jugo da metropole, e na despedida que fez á Bahia, quando seguiu para o seu exilio de Angola, diz elle:

Que os Brazileiros são bestasE estarão a trabalharToda a vida, por manteremMaganos de Portugal.

Que os Brazileiros são bestasE estarão a trabalharToda a vida, por manteremMaganos de Portugal.

Que os Brazileiros são bestasE estarão a trabalharToda a vida, por manteremMaganos de Portugal.

Que os Brazileiros são bestas

E estarão a trabalhar

Toda a vida, por manterem

Maganos de Portugal.

As famosasbandeirasque em busca de minas partiram da Bahia, levaram o nome do poeta até á Villa Rica de N. S. do Pilar, hoje cidade do Ouro Preto, onde, em homenagem ao famigerado satyrico, denominaram uma das suas ruasGregorio de Mattos: prova inconcussa de que a sua fama não se circumscrevia só á capitania natal. Esta rua parece que hoje já se acha com o nome mudado. Vi-a indicada em umaPlanta de Villa Rica de N. S. do Pilar, trabalho manuscripto que se guarda no Archivo Militar d’esta côrte.

Gregorio de Mattos como linguista presta um auxilio poderoso á linguagem portugueza e brazileira. É elle o escriptor que nos dá idéa mais exacta do modo de fallar e escrever no Brazil noXVIIseculo. O seu vocabulario é riquissimo, principalmente em locuções e termos populares, sem exceptuar, já os de origem indiana, já os derivados da lingua africana, e é o unico documento d’aquelle seculo que possuimos neste genero de estudos; o poeta provavelmente não imaginára que viria um dia prestar valioso serviço aos philologos e investigadores das cousas da patria até sob este ponto de vista.

Gostava Gregorio de Mattos de conviver com gente da mais baixa sociedade; mas d’ahi buscava elle elementos para as suas chistosas composições, e por isso nos dá cabal idéa do que era a Bahia, e por conseguinte o Brazil, nos primeiros tempos coloniaes, relatando-nos por miudo os usos, costumes e modo de viver da gente de então.

Gregorio de Mattos é incontestavelmente um dos homens que mais honra fazem á poesia portugueza e brazileira. Nascido em epocha em que o Brazil,mal conhecido, como as inhospitas praias de Angola, servia de logar de exilio e receptaculo dos povoadores das cadêas do Reino, não podia certamente receber na sua terra aquella instrucção que pedia o seu alentado espirito.

Dispondo seus paes de recursos, mandaram-n’o para Coimbra cursar a sua Universidade, onde se formou em leis, e em Portugal passou a mocidade, ganhando sempre a mais merecida e honrosa fama de poeta e jurisconsulto. Quando se resolveu a tornar á patria, já era um homem feito, pois tinha mais de meio seculo de existencia: contava 58 annos.

Quasi velho pela edade, era todavia moço pelo vigor do talento e pela vivacidade e lucidez do espirito. O amor da terra natal agitava-se fortemente no coração do poeta. Em Portugal, Gregorio de Mattos escreveu muito, mas parece que no Brazil, apezar dos poucos annos que nelle viveu, escreveu ainda mais. Aqui nada lhe escapou, não poupando os desconcertos do seu seculo, nem os desvarios das auctoridades civis e ecclesiasticas da sua terra. Notava elle o desgoverno das conquistas da America Portugueza, e derramava então nos seus escriptos uma torrente de satyras, versando sôbre varios assumptos, umas tractando dos vicios e costumes, outras cheias de personalidades, ora em tom serio, ora repletas de chistes agudos e pouco decorosos;mas o certo é que em todas ellas se observa o mais acrysolado amor da patria:

Querem-me aqui todos mal,Mas eu quero mal a todos,Elles e eu por varios modosNos pagamos tal por qual:E querendo eu mal a quantosMe têm odio tão vehemente,O meu odio é mais valente;Pois sou só, e elles são tantos.

Querem-me aqui todos mal,Mas eu quero mal a todos,Elles e eu por varios modosNos pagamos tal por qual:E querendo eu mal a quantosMe têm odio tão vehemente,O meu odio é mais valente;Pois sou só, e elles são tantos.

Querem-me aqui todos mal,Mas eu quero mal a todos,Elles e eu por varios modosNos pagamos tal por qual:E querendo eu mal a quantosMe têm odio tão vehemente,O meu odio é mais valente;Pois sou só, e elles são tantos.

Querem-me aqui todos mal,

Mas eu quero mal a todos,

Elles e eu por varios modos

Nos pagamos tal por qual:

E querendo eu mal a quantos

Me têm odio tão vehemente,

O meu odio é mais valente;

Pois sou só, e elles são tantos.

O odio de Gregorio de Mattos, a que elle proprio se refere, inspirava-o o mais elevado principio—o amor da patria—que é uma das virtudes que mais ennobrecem o coração do homem. O odio do poeta não abrangia a todos, nem a tudo. Soube respeitar e louvar o merito de muitas pessoas do seu tempo; e que as suas satyras tinham grande força e energia prova-o o grande padre Antonio Vieira, quando diz quemaior fructo faziam as satyras de Mattos que as suas missões; o que importa dizer que mais valiam as censuras satyricas de um poeta do que as palavras cheias de uncção e de verdade proferidas do pulpito por um famoso orador sagrado.

Comprehende-se d’aqui que o poeta gozava de importancia na boa sociedade dos seus dias, e que as suas satyras eram bem cabidas, salvo um ou outro excesso ou exaggero que nellas se nota propriodos poetas e romancistas, que têm o direito de engendrar cousas as mais impossiveis, sem todavia se lhes poder exigir contas.

Si Gregorio de Mattos não cantou a natureza brazileira tão bellamente recommendada por seu contemporaneo Botelho de Oliveira; si não descreveu os exquisitos fructos indigenas da sua terra, como o fez mais tarde o nosso épico Sancta Rita Durão; si não quiz chamar ao ridiculo a Companhia de Jesus, como o realizára por interesse proprio Basilio da Gama; retratou os vicios e costumes desregrados da sua patria, entrelaçando-os de ditos agudos e picantes. De genio instavel e buliçoso, pouco tempo lhe sobrava para descantar as scenas portentosas da natureza americana, o seu esplendido e formoso céu, as aguas pittorescas e risonhas da sua bahia. Apezar d’isso, e como já disse, ha poesias suas repassadas do mais puro e delicado lyrismo, e que muito o honram e abonam o seu estro.

Gregorio de Mattos foi em vida um homem popular; como poucos, adquiriu esta honraria, tão desejada de muitos; era conhecido por grandes e pequenos, ricos e pobres, e, apezar das suas satyras mordentes e picantes, e, de, ás vezes, empregar expressões menos decorosas nas suas poesias, não deixava todavia de ser respeitado e admirado de quantos o conheciam. Por occasião da sua morte fizeram-lhe um soneto, do qual infelizmente só se conhecem os dois quartetos,que justificam por demais o que fica allegado. Dizem elles:

Morreste emfim, Gregorio esclarecido,Que sabendo tirar por varios modosA fama, a honra, o credito de todos,Desses mesmos te viste applaudido.Entendo que outro tal não tem nascidoEntre os romanos, gregos, persas, godos,Que comtigo mereça ter apodosNos applausos, que assim has adquirido.

Morreste emfim, Gregorio esclarecido,Que sabendo tirar por varios modosA fama, a honra, o credito de todos,Desses mesmos te viste applaudido.Entendo que outro tal não tem nascidoEntre os romanos, gregos, persas, godos,Que comtigo mereça ter apodosNos applausos, que assim has adquirido.

Morreste emfim, Gregorio esclarecido,Que sabendo tirar por varios modosA fama, a honra, o credito de todos,Desses mesmos te viste applaudido.

Morreste emfim, Gregorio esclarecido,

Que sabendo tirar por varios modos

A fama, a honra, o credito de todos,

Desses mesmos te viste applaudido.

Entendo que outro tal não tem nascidoEntre os romanos, gregos, persas, godos,Que comtigo mereça ter apodosNos applausos, que assim has adquirido.

Entendo que outro tal não tem nascido

Entre os romanos, gregos, persas, godos,

Que comtigo mereça ter apodos

Nos applausos, que assim has adquirido.

Gregorio de Mattos viveu e viveu longos annos; mas si passou a sua mocidade na grandeza e na abundancia, como elle mesmo confessa no soneto que dedicou á cidade da Bahia, quando diz:

Triste Bahia! Oh quão dissimilhanteEstás, e estou do nosso antigo estado.Pobre te vejo a ti, a mim empenhado,Rica te vi eu já, tu a mim abundante,

Triste Bahia! Oh quão dissimilhanteEstás, e estou do nosso antigo estado.Pobre te vejo a ti, a mim empenhado,Rica te vi eu já, tu a mim abundante,

Triste Bahia! Oh quão dissimilhanteEstás, e estou do nosso antigo estado.Pobre te vejo a ti, a mim empenhado,Rica te vi eu já, tu a mim abundante,

Triste Bahia! Oh quão dissimilhante

Estás, e estou do nosso antigo estado.

Pobre te vejo a ti, a mim empenhado,

Rica te vi eu já, tu a mim abundante,

tambem veiu a soffrer na velhice, si por ventura elle a teve; porque o seu espirito era sempre o mesmo, dizia sempre as suas graças com a mesma naturalidade e chiste; quer na ventura, quer na desventura, foi sempre o mesmo homem, o mesmo genio, o mesmissimo caracter. A sua presença querem Coimbra quer em Lisboa, quer na Bahia, quer em Angola, quer em Pernambuco, que lhe serviu de tumulo, sempre infundiu o mais decidido respeito.

Era um homem reconhecidamente douto e mui versado nas litteraturas italiana e hespanhola, as duas mais em voga no seu tempo. De facto Gregorio de Mattos escreveu poesias em castelhano, algumas das quaes se acharão nos seus logares da presente edição.

Gregorio de Mattos não era um talento commum, nem um simples versejador; foi um genio e soube crear; um d’esses genios raros e extraordinarios, que só apparecem de seculos a seculos, revestidos de todas as galas, e que perduram por todos os tempos, ganhando cada vez mais fama, augmentando cada dia o numero dos seus admiradores e enthusiastas.

Gregorio de Mattos foi um genio e genio creador—torno a dizer; e teria talvez feito uma eschola, si as suas obras tivessem sido publicadas pouco depois da sua morte, quando já não existissem as personalidades retratadas.

Mas teve inimigos poderosos e hereditarios, que o obrigaram a andar mendigando o pão pelas casas dos amigos e que só desejavam dar-lhe cabo da existencia! Foi torturado, não pela Inquisição, como Bocage, mas pelos grandes da sua terra; e os seus dois maiores amigos foram os seus dois maiores traidores! O poeta porém não fraqueou, ganhou antes novasforças, e, despedindo-se da sua Bahia quando seguiu para o seu exilio de Angola, começou dizendo:

Adeus praia, adeus cidade,Sendo que estás tão decahida;Que nem Deus te quererá.

Adeus praia, adeus cidade,Sendo que estás tão decahida;Que nem Deus te quererá.

Adeus praia, adeus cidade,

Adeus praia, adeus cidade,

Sendo que estás tão decahida;Que nem Deus te quererá.

Sendo que estás tão decahida;

Que nem Deus te quererá.

E concluiu assim:

Terra, que não se pareceNeste mappa universalCom outra; e ou são ruins todas,Ou ella sómente é má.

Terra, que não se pareceNeste mappa universalCom outra; e ou são ruins todas,Ou ella sómente é má.

Terra, que não se pareceNeste mappa universalCom outra; e ou são ruins todas,Ou ella sómente é má.

Terra, que não se parece

Neste mappa universal

Com outra; e ou são ruins todas,

Ou ella sómente é má.

E como Scipião Africano, chegou a dizer:Ingrata patria! ossa mea non possidebis!

Accresce ainda que o poeta teve, além dos inimigos hereditarios, inimigos posthumos, que, calando e occultando as suas obras, só ambicionavam tirar-lhe a aureola de poeta, tentando assim apagar-lhe o nome da memoria dos posteros.

Não obstante isso e as expressões e termos pouco decorosos que ás vezes emprega nas suas obras, o seu nome será sempre evocado com respeito e veneração, e jámais ficará esquecido nos annaes da litteratura dos dois paizes que fallam a sua lingua.

A. do Valle Cabral.


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