VIIO POLITICOTendo escripto a Historia de Portugal, o Sr. Oliveira Martins resolveu continual-a e naturalmente o pensamento conduziu-o á acção.Não entra no programma d'este estudo occupar-me de assumptos de politica contemporanea, sobretudo quando trato de um homem cuja carreira publica apenas começa. Mas fazendo um trabalho de psychologia e não de simples critica litteraria, não me é licito calar uma das manifestações mais importantes do espirito que analyso. Porém indicarei apenas o valor dos seus recursos e a tendencia geral das suas idéias como homem d'Estado.As faculdades que fazem o homem de acção em cada esphera da actividade humana, são essas mesmas que fazem o homem de sciencia, mais o tino das circumstancias particulares. As do estadista são as do historiador; digo as do historiador e não as do sociologista, porque o conhecimento das leis{92}abstractas que regem o equilibrio e o movimento das sociedades, não é sufficiente para dirigir a acção conservadora ou modificadora dos governantes; é preciso reunir-lhe o vivo sentimento do concreto, a visão plena dos innumeraveis factos particulares que dão a um povo um caracter individual e fazem que nenhuma deducção abstracta o possa adivinhar. Pense-se na immensa complexidade do organismo collectivo, no caracter profundamente individual que uma sociedade reveste em virtude das circumstancias de raça, meio e momento, na obrigação de conhecer plenamente a força e a direcção das vontades, a energia e a profundidade dos instinctos, a vitalidade e a duração dos preconceitos, as necessitades materiaes ou moraes, reaes ou ficticias dos seus membros, reflicta-se na obrigação de conhecer essas forças na sua quantidade exacta e na sua direcção certa, nas proporções variadas em que ellas se combinam e nos systemas complicados que d'ellas resultam, medite-se que cada um dos factos presentes tem profundas raizes no passado e consequencias inevitaveis no futuro ainda o mais remoto, e ver-se-á que essa improvisação maravilhosa e certeira que se chama a arte de governar, consiste na visão adequada e perpetua, retrospectiva e prophetica das almas sobre que ella se exerce, e que a politica é psychologia activa e em ponto grande. Note-se emfim que o habito da representação concreta degenera facilmente no empirismo{93}e que a habilidade technica descamba no especialismo estreito, para se admirar ainda mais a plasticidade mental dos que conservam intacto sob a acção das questões quotidianas o sentimento dos interesses geraes e caminham atravez dos expedientes com olhos fitos nas idéias.Estas qualidades parecem reunir-se no Sr. Oliveira Martins. Essa visão poderosa e plena, essa representação veridica e intensa dos caracteres, esse golpe de vista sagaz e profundo mergulhado no intimo dos corações, que faz o encanto e a força dos seus livros, podem guial-o nos seus actos; as mãos acostumadas a fazer a autopsia das almas no amphitheatro da Historia, não são improprias para jogar os lances da politica. O habito de ver as cousas de alto, proprio do historiador, arrancão aos trilhos mesquinhos em que se perde o espirito da rotina e do expediente. Artista pela visão colorida e palpavel da realidade, é-o tambem pela intuição magnifica do ideal. A imaginação constructiva anda n'elle ligada ao sentimento do real e do exequivel. E tendo aquelle exacto bom-senso e aquella efficaz percepção do possivel, que resulta da pratica dos homens e da vida, possue comtudo aquella largueza de vistas e aquelle desejo do melhor, que provém da convivencia das ideias e do trato dos livros.Será esse ideal realisavel e esse tino pratico sufficiente? Os successos dil-o-ão. Não é porém difficil{94}apontar desde já no sentimento da força propria e no generoso instincto do dever civico as causas que o fizeram passar do pensamento á acção, e mostrar a clara coherencia que liga as suas opiniões de hontem aos seus actos de hoje, e os seus vinte annos de historia aos seus dois annos de politica.Tal é essa figura interessante e rara. Homem interior, isto é, dotado de imaginação psychologica, admiravel na representação dos accidentes do apparelho mental e dos sobresaltos da machina sensivel, toda a sua obra se resente e vive d'esta aptidão primordial, que constella os seus livros de retratos veridicos e profundos, de paizagens vivas de narrações dramaticas. Capaz de operações abstractas, a razão scientifica completa n'elle a imaginação poetica, e a analyse explicativa anda ligada ao colorido intenso. Sujeito ás emoções vehementes e frequentes, sobre tudo ás de ordem moral, isto é, a compaixão, a admiração, a indignação, e o desprezo, a sua obra, dramatica pela logica e pela vida, sel-o-á tambem pela paixão; mas a intuição do psychologo e a reflexão do philosopho hão de envolvel-o n'um nimbo de indulgencia, de ironia e de tristeza. Empregando um estylo em que parecem reviver e encarnar todas as qualidades da sua alma, successivamente energico e suave, enthusiasta e sarcastico, e cujo tecido fluctuante e agil acompanha como uma purpura amarrotada e resplandecente{95}os movimentos bruscos do seu espirito. Lançado na politica pela energia do sentimento moral e importando para a Acção a elevação do philosopho e a perspicacia do homem pratico, e pondo ao serviço das aspirações do moralista a habilidade do psychologo. Uma relação intima liga entre si todas as partes do seu talento e faz derivar d'elle todos os aspectos da sua obra.Lisboa, Abril de 1887.INDICEI. OS CARACTERES—Que a sua imaginação é psychologica—Que ella é realista—Comparação com a de Eça de Queiroz—O caracter portuguez e o hespanhol—Retrato de D. Affonso Henriquez—Retrato de D. Pedro I—Retrato de Herculano—Que essa imaginação é completa.II. ASPAIZAGENS—A imaginação physica: exemplo, Ramalho Ortigão—Caracter das paizagens em Oliveira Martins—Que ellas são transcrições moraes dos aspectos physicos—Que ellas são a explicação de um mecanismo.—Descripção do littoral alemtejano—Descripção da paizagem minhota—O terremoto.III. ASTHEORIAS—A theoria do Acaso—Concepção do Universo e da sciencia—Ausencia de razão oratoria—Falta da amplificação e da prova—Caracter artistico da sua intelligencia—Comparação com as intelligencias simplistas: os primeiros escriptos de T. Braga—A inspiração e a intuição.IV. OSSENTIMENTOS—Abundancia e energia das suas emoções—Que ellas são de ordem moral—Sua concepção do Amor—Sua concepção da Vida e da Ventura—Acção mutua entre o seu caracter e a sua intelligencia.V. OESCRIPTOR—Valor do estylo como documento—O estylo oratorio: o sñr. Latino Coelho—O estylo de Oliveira Martins—O vocabulario, a syntaxe, as figuras, a composição dos livros, os indices.VI. O HISTORIADOR—Vastidão complexidade difficuldade dos estudos historicos—Qualidades e lacunas da sua Historia.VII. O POLITICO—Retrato ideal do Politico—Oliveira Martins como politico.Composição do seu espirito e deducção da sua obra.Paris.—GUILLARD,AILLAUD ECª.
Tendo escripto a Historia de Portugal, o Sr. Oliveira Martins resolveu continual-a e naturalmente o pensamento conduziu-o á acção.
Não entra no programma d'este estudo occupar-me de assumptos de politica contemporanea, sobretudo quando trato de um homem cuja carreira publica apenas começa. Mas fazendo um trabalho de psychologia e não de simples critica litteraria, não me é licito calar uma das manifestações mais importantes do espirito que analyso. Porém indicarei apenas o valor dos seus recursos e a tendencia geral das suas idéias como homem d'Estado.
As faculdades que fazem o homem de acção em cada esphera da actividade humana, são essas mesmas que fazem o homem de sciencia, mais o tino das circumstancias particulares. As do estadista são as do historiador; digo as do historiador e não as do sociologista, porque o conhecimento das leis{92}abstractas que regem o equilibrio e o movimento das sociedades, não é sufficiente para dirigir a acção conservadora ou modificadora dos governantes; é preciso reunir-lhe o vivo sentimento do concreto, a visão plena dos innumeraveis factos particulares que dão a um povo um caracter individual e fazem que nenhuma deducção abstracta o possa adivinhar. Pense-se na immensa complexidade do organismo collectivo, no caracter profundamente individual que uma sociedade reveste em virtude das circumstancias de raça, meio e momento, na obrigação de conhecer plenamente a força e a direcção das vontades, a energia e a profundidade dos instinctos, a vitalidade e a duração dos preconceitos, as necessitades materiaes ou moraes, reaes ou ficticias dos seus membros, reflicta-se na obrigação de conhecer essas forças na sua quantidade exacta e na sua direcção certa, nas proporções variadas em que ellas se combinam e nos systemas complicados que d'ellas resultam, medite-se que cada um dos factos presentes tem profundas raizes no passado e consequencias inevitaveis no futuro ainda o mais remoto, e ver-se-á que essa improvisação maravilhosa e certeira que se chama a arte de governar, consiste na visão adequada e perpetua, retrospectiva e prophetica das almas sobre que ella se exerce, e que a politica é psychologia activa e em ponto grande. Note-se emfim que o habito da representação concreta degenera facilmente no empirismo{93}e que a habilidade technica descamba no especialismo estreito, para se admirar ainda mais a plasticidade mental dos que conservam intacto sob a acção das questões quotidianas o sentimento dos interesses geraes e caminham atravez dos expedientes com olhos fitos nas idéias.
Estas qualidades parecem reunir-se no Sr. Oliveira Martins. Essa visão poderosa e plena, essa representação veridica e intensa dos caracteres, esse golpe de vista sagaz e profundo mergulhado no intimo dos corações, que faz o encanto e a força dos seus livros, podem guial-o nos seus actos; as mãos acostumadas a fazer a autopsia das almas no amphitheatro da Historia, não são improprias para jogar os lances da politica. O habito de ver as cousas de alto, proprio do historiador, arrancão aos trilhos mesquinhos em que se perde o espirito da rotina e do expediente. Artista pela visão colorida e palpavel da realidade, é-o tambem pela intuição magnifica do ideal. A imaginação constructiva anda n'elle ligada ao sentimento do real e do exequivel. E tendo aquelle exacto bom-senso e aquella efficaz percepção do possivel, que resulta da pratica dos homens e da vida, possue comtudo aquella largueza de vistas e aquelle desejo do melhor, que provém da convivencia das ideias e do trato dos livros.
Será esse ideal realisavel e esse tino pratico sufficiente? Os successos dil-o-ão. Não é porém difficil{94}apontar desde já no sentimento da força propria e no generoso instincto do dever civico as causas que o fizeram passar do pensamento á acção, e mostrar a clara coherencia que liga as suas opiniões de hontem aos seus actos de hoje, e os seus vinte annos de historia aos seus dois annos de politica.
Tal é essa figura interessante e rara. Homem interior, isto é, dotado de imaginação psychologica, admiravel na representação dos accidentes do apparelho mental e dos sobresaltos da machina sensivel, toda a sua obra se resente e vive d'esta aptidão primordial, que constella os seus livros de retratos veridicos e profundos, de paizagens vivas de narrações dramaticas. Capaz de operações abstractas, a razão scientifica completa n'elle a imaginação poetica, e a analyse explicativa anda ligada ao colorido intenso. Sujeito ás emoções vehementes e frequentes, sobre tudo ás de ordem moral, isto é, a compaixão, a admiração, a indignação, e o desprezo, a sua obra, dramatica pela logica e pela vida, sel-o-á tambem pela paixão; mas a intuição do psychologo e a reflexão do philosopho hão de envolvel-o n'um nimbo de indulgencia, de ironia e de tristeza. Empregando um estylo em que parecem reviver e encarnar todas as qualidades da sua alma, successivamente energico e suave, enthusiasta e sarcastico, e cujo tecido fluctuante e agil acompanha como uma purpura amarrotada e resplandecente{95}os movimentos bruscos do seu espirito. Lançado na politica pela energia do sentimento moral e importando para a Acção a elevação do philosopho e a perspicacia do homem pratico, e pondo ao serviço das aspirações do moralista a habilidade do psychologo. Uma relação intima liga entre si todas as partes do seu talento e faz derivar d'elle todos os aspectos da sua obra.
Lisboa, Abril de 1887.
I. OS CARACTERES—Que a sua imaginação é psychologica—Que ella é realista—Comparação com a de Eça de Queiroz—O caracter portuguez e o hespanhol—Retrato de D. Affonso Henriquez—Retrato de D. Pedro I—Retrato de Herculano—Que essa imaginação é completa.
II. ASPAIZAGENS—A imaginação physica: exemplo, Ramalho Ortigão—Caracter das paizagens em Oliveira Martins—Que ellas são transcrições moraes dos aspectos physicos—Que ellas são a explicação de um mecanismo.—Descripção do littoral alemtejano—Descripção da paizagem minhota—O terremoto.
III. ASTHEORIAS—A theoria do Acaso—Concepção do Universo e da sciencia—Ausencia de razão oratoria—Falta da amplificação e da prova—Caracter artistico da sua intelligencia—Comparação com as intelligencias simplistas: os primeiros escriptos de T. Braga—A inspiração e a intuição.
IV. OSSENTIMENTOS—Abundancia e energia das suas emoções—Que ellas são de ordem moral—Sua concepção do Amor—Sua concepção da Vida e da Ventura—Acção mutua entre o seu caracter e a sua intelligencia.
V. OESCRIPTOR—Valor do estylo como documento—O estylo oratorio: o sñr. Latino Coelho—O estylo de Oliveira Martins—O vocabulario, a syntaxe, as figuras, a composição dos livros, os indices.
VI. O HISTORIADOR—Vastidão complexidade difficuldade dos estudos historicos—Qualidades e lacunas da sua Historia.
VII. O POLITICO—Retrato ideal do Politico—Oliveira Martins como politico.
Composição do seu espirito e deducção da sua obra.
Paris.—GUILLARD,AILLAUD ECª.