XI

Chorára a dentro do biôco, parecendo-lhe que, como bofetadas, a escaldavam esses insultos, e que todos se voltavam para ella, como se o seu peccado fosse visivel através do manto, e a fulminassem os crentes em piedosa indignação.

—Trahiram-te, meu pobre amor! Ah! que cobardes! Pois não comprehendes que tudo isso foi forjado para te intimidar! Tua prima decerto não chorou, tenho a certeza.

—Até se levantou para se ir embora em meio do sermão, e já se zangou com o padre mestre pela linda festa para que nos convidára. Elle desculpou-se, coitado, que todos os sermões eram assim, que se tornava necessario combater o erro, responder com a guerra aos inimigos da fé!

—Hypocrita! Mas Christo prégou uma religião de paz e de amôr, e elles querem o odio e a vingança! Christo foi o primeiro liberal, apontando a egualdade e a fraternidade. Christo prégou a pobreza e a humildade, e elles são ricos e poderosos. Acredita-me, os verdadeiros christãos somos nós!

Pelo bem que lhe queria, dava-lhe João a ingenua interpretaçãodo tempo, porque só gradualmente a poderia emancipar.

Ella sentia-se desafogada com as explicações, porque tambem a chocára a grossaria, o baixo espirito interesseiro dos industriaes da fé.

—Mas se vocês são assim, e eu acredito que, pelo menos tu, és como dizes, para que horrorisam os crentes com esses aggravos?

—Que lucravamos com isso, tontinha! São elles que os inventam e praticam, e mostram depois as cruzes derrubadas, para incitarem contra nós esse pobre povo que queremos emancipar.

Por fim Maria resignou-se. Tinha de ser d'elle. Estava escripto que para o conseguir haveria de passar todos aquelles tragos. Pois que remedio. E João confiava mais n'aquelle fatalismo, na teimosia d'ella em levar a sua ávante, que em a ter convencido das artimanhas fradescas.

Parecia-lhe que mal tinham começado a falar, e já os interrompia a tosse pontual de D. Victoria.

—Josepha, fecha-me aquella janela, filha. Em caíndo a tarde, começa a peitogueira ás voltas commigo.

Era da praxe n'esta altura interessar-se João pela saude d'ella, não o fazendo ao principio para não cercearo tempo da entrevista, e poder demorar-se depois, um pouco mais, junto de Maria.

Deixara-se sempre illudir a velha.

—Aquelle peito era uma panela a ferver, a referver, á tardinha principalmente. Bastante gastára em promessas a S. Braz e Santa Margarida, advogados contra o mal da garganta, e a S. Tude, protector contra a tosse, mas cada vez se sentia peior.

Trazia João engatilhado um repertorio de drogas e esvasiava as algibeiras de uma provisão de papeis e embrulhinhos.

—Aquella era a receita de um xarope, invenção da tia Pulcheria, que lhe tirára uma tosse convulsa, depois de já ter sido chamado o Craca para lhe tomar medida do caixão; estas pastilhas fizera-as o senhor Juvencio de encommenda, com tudo quanto havia de melhor e mais approvado.

E emquanto se prolongava o colloquio, deliciando-se D. Victoria em queixar se de todos os seus males, Maria e Josepha, como na quinta, riam enlaçadas ao fim do corredor, desafiando João.

Pingavam trindades, erguia-se a velha com esforço e benzia-se unctuosamente, murmurando as ave-marias e a gloria-patri; e João, emancipado em casa, transigia ali, imitando-lhe os gestos e mexendo oslabios em furtadelas de olhos para o corredor, no que Maria julgava, enternecida, vêr uma satisfação aos seus escrupulos, embora a maldosa Josepha a desiludisse, elogiando as inexgotaveis manhas do namorado.

Forçava-o o lusco-fusco a despedir-se, e então seguia pelo corredor, já escuro, emquanto Josepha avançava á sala a fazer-lhes costas, entretendo a mãe, e a sua verdadeira entrevista era quando elle a beijava apaixonadamente, ao propositado ruido de abrir a porta da rua.

Dissipavam-se os receios de Maria, defendendo-se inhabilmente dos beijos:

—Mas como tu estás atrevido. É da farda! Olha que te fica a matar! E porque é que nunca me beijaste quando estavamos juntos?

—Não sabia se gostavas de mim.

—E agora sabes?

—Percebe-se.

—E porque não percebias então?

—Nem tu mesmo o sabias.

—Isso sabia. Mas que fosse tanto, não; confesso!

Echoavam estrondos de catarrho. Descia elle, corrido,e ella voltava de olhos baixos, para ir ao ralo vêl-o sahir.

Então D. Victoria chamava pela filha, que era o mesmo que chamar por ella:

—Venha para dentro, menina, não seja janeleira, que não foi essa a sua creação. É uma maia, sempre impeirada á janela. Muito perdeu a menina em seu pae, Deus lhe fale n'alma, que a havia de sopear.

Meteram-se para dentro, fechou-se a casa, e no escuro da alcova o terror reconquistou Maria.

Queria desfazer-lhe Josepha a impressão das reprimendas da mãe:

—Não faças caso, é genio. Sempre assim foi, mas não julgues que te quer mal. Olha que foi ella quem, a meu pedido, requereu o teu deposito e fez a queixa.

—Antes o não fizesse.

—Porque? Não estás contente em minha casa? Ligas importancia a rabugices?

—Não é a tua casa, filha, é a minha situação que me afflige. Se soubesse que havia de estar tanto tempo á espera de edade, não saía de casa, não desgostava a mãe, não offendia o pae.

—Éo que dizes agora. Mas não podias aturar aquella vida.

—Nem posso supportar esta! Se tivesse casado, tapava a bôca a essa má gente. Mas assim, fóra de casa, vendo João, recebendo-o, é ser esbandalhada por essas linguas perversas. E hei-de passar cinco annos assim? Oh! não posso, não posso!

—Ó filha, mas se tu não casas com elle é porque não queres. Vão juntos á missa, e quando o padre estiver quasi quasi a deitar a benção digam, de mãos dadas, as palavras sacramentaes, que se recebem por marido e mulher, e o padre, que não pode parar a reza por nada d'este mundo, tem por força de deitar a benção, deita-a, está deitada, vocês casados, com toda a egreja por testemunha, e salta logo para casa d'elle. E se teu pae quizer melhor que se ponha ás bôas e faça boda de estadão. E até o João pode combinar-se com o padre, que os ha muito constitucionaes, e é dito e feito.

—Uma mulher como eu não dá semelhante passo—protestou Maria—Por ter saído de casa não deixo de ser quem sou, e nunca praticarei um acto de que se possa fazer pouco.

—Então queixa-te de ti.

—Hei de casar com elle, espere quanto tempo esperar, quenão sou das que se esquecem, nem das que se cançam. Mas ou hade ser como deve ser, ou nunca; ainda que estale de saudade. Se eu sou assim!

—Mas não vejo que te resignes, te disponhas a esperar com paciencia. Afinal que queres tu?

—O que quero? Nem eu sei, Josepha, nem eu sei!

Assim passaram longos dias, até que a assustaram boatos de nova esquadra.

Falavam com orgulho os miguelistas do seu grande poder: vinte e um navios, com trezentas e quarenta peças e seis mil homens, entre soldados e marinheiros; uma alçada para julgar summariamente os constitucionaes, e um carrasco para os despachar com promptidão.

Bem sabiam os liberaes o que succederia se fosse tomada a ilha.

Figuravam-se-lhes os autos de fé do miguelismo: procissões de condemnados, descalços, entre frades, levando horas da cadeia á forca, a entoar omisereredeante das capellas do percurso; depois enforcados nolongo ceremonial que com cada um absorvia uma hora, aggravando a tortura moral dos que esperavam, e divertindo mais damas e frades que davam vivas a D. Miguel e á religião, acenando com lenços, applaudindo as execuções.

Estremeciam de horror ao recordar a viuva de um enforcado morrendo de afflição; o pae de um rapaz, assassinado pela lei, suicidando-se de desespero; uma pobre mãe affrontada pela exposição da cabeça do filho, espetada n'um poste deante da vidraça!

Era uma perseguição em massa que degradára mil e seiscentas pessoas, forçára a esconderem-se cinco mil, arrastára á emigração treze mil e setecentas, mantinha vinte mil sob a vigilancia de suspeitos, tinha a dentro dos carceres mais de vinte e seis mil pessoas de ambos os sexos, e sequestrára os bens de oitenta e duas mil familias!

Longe de os acobardar, incitavam-os esses terriveis exemplos a combaterem com desespero.

O conego Ferraz, sabendo bem o que o esperava se triumphassem os miguelistas, trazia comsigo um frasquinho de veneno, para não caír vivo em poder do carrasco.

João procurava tranquilisar Maria, ácêrca dos resultados da lucta. Assim como se tornára a ilha, agora elevadaá cathegoria de reino, o alvo do odio absolutista, tambem fôra o ponto de concentração dos liberaes, e assim já tinham para se oppôr ás forças inimigas alguns reforços de emigrados, armas e munições vindas de Inglaterra, e um general como Villa-Flôr para dirigir a defeza.

Todo o littoral estava defendido, nos poucos pontos onde a costa permittia a abordagem.

Uma manhã foi João precipitadamente despedir-se, porque ia para a villa da Praia com os Voluntarios da Rainha.

Enthusiasmado com a vinda da esquadra, contando como certa a victoria, tão grandes os recursos accumulados, arrancou-se o morgado do isolamento da quinta, onde cada vez bebia mais, para esquecer a offensa de Maria, para não ouvir os gritos da mulher, e montando a cavallo dirigiu-se ao convento de São Francisco.

Ha muito que fr. Angelico não ia á quinta.

Quando lá fôra a justiça, ao sentir o chocalhar de ferragens da traquitana, voltára-se desesperada D. Perpetua para o frade:

—Senão me defendes, Angelico, eu confesso-me a meu marido e então acabou-se tudo!

Não permittiam illusões o rosto congestionado, a bôca espumante, o olhar desvairado, de louca. Fôra logo despedir-se de Martinho Vasques o franciscano, pretextando o receio da denuncia do juiz e das queixas de Maria.

Era bom que n'esse mesmo dia o vissem no templo, votado ao culto, para desmentir a accusação tanto de temer.

E sem consentir que o morgado mandasse pôr o carroção, arregaçou o habito, deitou o capuz pela cabeça, e fugiu debaixo d'agua ás pernadas, até se abrigar n'um portal.

Que lhe quereria o morgado? perguntava a si proprio, ao ir recebel-o.

Dissipou-lhe porém todo o receio a attitude de Martinho, ainda na grande paixão da desfeita recebida:

—Deixe-me desabafar, fr. Angelico, que ha tanto tempo não o faço. Já não ha religião, já não ha respeito filial, já não ha Deus!

Mãos postas, olhos em alvo, voz de cana rachada, exclamou o frade, simulando um devoto horror:

—Nãoblasfemes, creatura, contra o teu Creador! Curva-te á vontade do Altissimo, que a tua expiação está terminada!

E mudando de tom:

—Alegrar, senhor morgado, que ha grandes novas!

—Por isso vim, fr. Angelico. É então certo que voltaremos aos bons tempos?

—Só podiam duvidar gentes de pouca fé.

—Pois eu julguei-me abandonado do céo!

—Espere em Deus, que é pae da misericordia! Sempre ha de haver frades, sempre ha de haver religião! Vae em dezanove seculos! Havia de acabar assim, quando já resistiu ao proprio demonio, na pessoa de Luthero; ao anti-christo encarnado em Bonaparte? Estes pandilhas não valem nem um nem outro.

—E agora?

—Será forçada á obediencia paterna sua infeliz filha...

—Já não tenho filha!

Era essa a phrase feita que desde então tivera para todos, mas não correspondia sinceramente ao seu sentir.

Queria-a em casa, como desaggravo, como affirmação dopoder paternal, como homenagem á sua categoria.

—Responde v. ex.acomo quem é, mas eu procedi como devia, de que lhe peço perdão, caso não appoie os meus passos.

—Que quer dizer?

—Nunca abandonei a sua causa, comquanto os deveres do meu ministerio, que me impõe a cega obediencia ao poder constituido, me impedissem de ir receber as suas ordens...

E aqui, já seguro de que não fôra descoberto, perguntou:

—Como está a senhora D. Perpetua, depois d'aquella triste fatalidade? Pobre senhora!

—Não sei nem quero saber. Nunca mais verei nem uma nem outra.

Tinha porém, curiosidade de conhecer o que fizera o frade:

—Ia dizendo...

—Que não me dei por vencido pelos inimigos de Deus. Pratiquei n'esta egreja uma das obras de caridade, ensinando os ignorantes, castigando os que erram, e a filha desobediente ouviu n'um terrivel sermão...

—Já sei.

—Masnão foi só isso! Os miseraveis julgam que com garatujas n'um pedaço de papel governam tudo, e afinal somos nós quem governamos e havemos de governar sempre. O nosso reino não é d'este mundo, as nossas armas são espirituaes, e as crenças religiosas ligam-nos para sempre os cordeirinhos embora desgarrados, promptos a voltarem ao aprisco mal os ameaça o lobo da heresia.

—Acabe!—pedia o morgado impaciente.

—Trouxe sempre vigiada a innocencia por outro grande pastor d'almas, o nosso padre mestre, que tem feito ver a sua prima D. Victoria o peccado que commetteu. Ella, que é uma mulher de vergonha...

—Uma descarada!—protestou Martinho Vasques—Fazer-me o que me fez! Mas não admira, a fama que ella sempre teve, com a casa cheia de frades...

Tocado na corda sensivel, voltou fr. Angelico ao pathetico:

—Calumnias, meu senhor, calumnias espalhadas pelos filhos de Satanaz. Não ha nenhum director espiritual d'essas santas senhoras que não tenha sido conspurcado na sua virtude, na sua innocente castidade. Até sei pelas suas creadas que a senhora D.Perpetua, n'aquellas terriveis convulsões em que parece possessa do inimigo, diz contra mim coisas de se abrir o chão, decerto inspiradas pelo proprio demonio, como vingança contra o varão forte que por tanto tempo lh'a defendeu das garras.

E n'um suspiro, como não obtivesse resposta, voltou a D. Victoria:

—Ella tem feito todo o possivel para a desgostar, e não se opporá a que lh'a tirem d'ali.

Atraiçoou-se o morgado, pondo de parte a rigidez apparente:

—Dava metade do que possuo para a fazer voltar a casa, sem que, pelo triumpho dos nossos, a forçassemos, por forma a fazer rebentar a castanha na bôca aos que se regosijavam com a minha vergonha.

—Pois dê v. ex.acom que eu possa mover o ceu a nosso favor, e tentarei o milagre.

Sabendo-lhe as manhas, ia Martinho Vasques prevenido de dinheiro, a vêr se, a troco de alguma esmola para o convento, lhe deixavam levar o indispensavel commensal.

—Pois aqui tem para principio. E quanto mais depressa, melhor.

—É agora propicia a occasião. Está o seductor segurona Praia. Mas pretendem recolher-se ao castello, com as familias, se forem derrotados á beira-mar, e se lá a metem, então, meu senhor, é que é fazer-lhe uma cruz. Ficaria perdida a senhora D. Maria, entre semelhante malta. Da mesma sorte se os nossos desembarcarem rapidamente, como ha de permtir o ceu, tomando-a por liberal, violental-a-hão, e á prima, como é do seu dever, para exemplo das malditas mulheres que preferem as creaturas de Satanaz aos amigos da religião. Portanto, se podermos recolher desde já a filha prodiga, teremos mais socego para os ver esganar, pois virá por ahi quem saiba da póda.

—Que tenciona fazer?

—O que Deus me inspirar.

—Mas quando, quando?

—Elle o determinará em sua divina sabedoria.

E como o morgado, apesar de devoto, não ficasse muito satisfeito:

—Olhe, vá v. ex.aa pé por essa cidade, mande a besta esperal-o fóra dos portões, e a todos que lhe perguntarem por sua esposa dê-a como perdida, que poucos dias lhe restam de vida, para que a senhora D. Maria o saiba. Ensinarei o recado ao padre mestre, para dizer a D. Victoria que é um caso deconsciencia encobrir por mais tempo a uma filha a agonia da mãe. Depois eu darei conta de mim.

Uma tarde, tendo ensaiado fr. Angelico um ar compungido, certo da afflicção de Maria pelas más noticias da mãe, foi a casa de D. Victoria.

Mal o viu, atirou-lhe Josepha com a porta, mas o frade insistiu, percebendo que a mãe a reprehendia, ao saber quem era.

Em voz de prédica, perguntou da escada se a senhora D. Maria estava em carcere privado, e se era contra a Carta Constitucional levar a uma filha noticias de sua mãe.

Foram abrir-lhe, e Maria, apezar dos exforços de Josepha para a fechar na alcova, pediu por amor de Deus novas de D. Joanna.

Elle, n'uma suavidade melada, ergueu os olhos, e declamou:

—Deus manda perdoar as injurias, esquecer as fraquezas do proximo, e consolar os afflictos! Fiz ideia como estaria a sua alma, e arrisquei-me a este passo, que pode ser tão mal apreciado...

—Diga-me a verdade!—implorou Maria, atterrada pelo exordio.

—Peço-lheque não se assuste. A senhora D. Perpetua está gravemente doente, mas ainda ha esperanças de a salvar.

Maria recriminou a prima:

—Ou haverá ou não! Eu bem t'o dizia, Josepha, eu bem t'o dizia.

Mas ella continuava a disputal-a:

—Não te deixes enredar!

—E com isto não enfado mais—disse o frade, cumprimentando muito correcto, um ar de beatitude a escorrer-lhe pela face alvar—Vim só trazer esta palavra de consolação, como é dever do meu ministerio. Sua mãe não está na agonia, como para ahi espalharam, o que me forçou a vir tranquilisal-a. Eu ainda confio n'um milagre!

Quiz demoral-o D. Victoria:

—Então, nem sequer se senta! Faça-me um bocadinho de companhia...

—Muito obrigado, minha querida senhora, mas a minha presença não agrada...

—Peço-lhe perdão pelo que toca a minha filha. Se ella tivesse um pae que a castigasse...

Aproveitou o frade o pretexto, e pegaram-se n'uma interminavel palestra, emquanto Josepha conseguia arrastar a prima para dentro.

Masahi Maria respondeu-lhe frenetica:

—Que mau sestro tomaram todos de me governar. Foi o pae, a mãe, depois o João, tua mãe, e agora tu! Pois eu tenho mais juizo que vocês todos, não preciso de tutôres.

—Estás sendo muito enganada!—repetiu Josepha.

—Deixa-me! Deixa-me!

E refugiou-se na torre, a meditar, sentada n'um bahu, a cabeça apoiada nas mãos, os olhos vidrados muito abertos, as fontes latejando.

Depois ergueu-se, enxugou os olhos, e foi direita á sala.

—Que vaes fazer!—perguntou Josepha, interpondo-se:

—O que devo! Larga-me.

E arrependendo-se:

—Bem sei que me queres bem, mas perdôa. Oh! Ninguem se veja como eu me vejo!

No estoicismo da resolução, dirigiu-se a fr. Angelico da Immaculada:

—Muito obrigada a vossa reverendissima pelas suas noticias. O meu desejo era ver a mãe...

—Não esperava menos do seu coração de filha!—exclamou radianteo frade—É esse effectivamente o seu dever.

—Ai, Maria, que caiste no laço!—bradou Josepha,—Estás doida? Estás doida?

Mas ella, sem a attender, dizia ao frade:

—Se pudesse ser...

—Hei de fazer o possivel, alma santa!—respondia fr. Angelico, revirando os olhos.

—O pae não ha de querer ...—continuava Maria, emquanto D. Victoria continha a filha.

—Oh! Não conhece a grandeza do seu coração! Foi muito offendido, realmente, mas é pae, é pae!

—Aconselhe-me então o que devo fazer.

—Foi Deus que a inspirou. Faça o que disse. Venha vêr sua mãe. Eu acompanho-a, e respondo pela licença do senhor morgado.

—E quando? quando?

—Quanto mais depressa melhor, que a vida e a morte estão nas mãos de Deus!

Josepha ainda irrompeu, avançando para o frade:

—O que falta aqui é um homem para o esbofatear!

Mas nada poude demover Maria, muito tremula, batendo os dentes, convulsa, á ideia de ir vêr a mãe.

Aosaír, com a tia e o frade, ainda Josepha a puchou para dentro:

—Ó doida! E ao João, que lhe hei de dizer?

E como ella balbuciasse que ia só vêl-a, e que voltava, tapando a bôcca, abafando-se no biôco do manto para não a ouvirem soluçar, gritou-lhe do alto da escada:

—Mal empregado rapaz! Tu não o mereces!

Pelo caminho, baloiçada na traquitana que tomaram no alto das Covas, ainda lhe echoavam aos ouvidos as palavras de Josepha:

«Não o merecia».

E o que diria elle ao saber que destruira n'um momento o que bastante lhe custára a conseguir? Era capaz de descrer d'ella.

Roubar-lh'o-ia a prima, que tanto sympathisava com elle?

Mas não havia de deixar morrer a mãe á mingua. Deus não lh'o perdoaria, e para sempre esse peccado ameaçariaa sua felicidade. João, que era prudente e rasoavel, comprehendel-a-ia.

E se Josepha a intrigasse? Logo aquella triste coincidencia de estar na Praia. E ao lembrar-se que elle se encontrava em perigo de vida, davam-lhe furias de saltar do carro, de fugir para junto da prima.

Que cobardia a sua! Abandonal-o quando se arriscava, envolvido em tudo aquillo por causa d'ella!

Dominava-a, porém, o pavoroso abandono da velha, e via-a como a creada a pintara, gaguejando, a cama por fazer, atulhada em cisco, envolvida em trapos! Desgraçada!

Na sua ingenuidade parecia-lhe assim melhor para todos. Imaginava uma grande scena de reconciliação, o pae abraçando-a quando se lhe deitasse aos pés a pedir perdão, e fr. Angelico abençoando-a em nome de Deus, limpando uma lagrima.

Agora não lhe parecia mau o frade, n'aquelle ar compungido.

E crendo possivel pôr tudo em bem, ainda esperava falar a João na propria quinta, e talvez, quem sabe, ganhar pouco a pouco, pela submissão, a boa vontade do pae, podendo ser que viesse a casar por consentimento d'elle.

Esfarrapava n'um momento a suave visão o echo dosgritos de Josepha, a lembrança das indignações de João quando soubera do desagravo de S. Francisco.

Sendo impossivel contentar a todos, limitar-se-ia ao que a levava ali, vêr a mãe, tranquilisar-se a respeito do seu estado.

Chegaram, e, como se já contassem com elles, ninguem appareceu.

Deixou-as o frade na casa de entrada, e foi em procura do morgado.

Recordou-se da cilada armada a João, dos maus tratos a que só a justiça a pudera arrancar, mas, longe de intimidar-se, sentiu que a emancipára a saída da casa paterna, dando-lhe a consciencia da propria individualidade.

Alarmou-a um grito da mãe, um grito de desespero, rouco, abafado pela porta, vindo do interior.

Ia accudir-lhe, mas conteve-a D. Victoria, e ella propria reconheceu então que perdera o direito de entrar como d'antes.

Appareceu o frade, mostrando-se confuso, transtornado, apparentando vir offegante como de uma grande discussão.

Repetiam-se os gritos de D. Perpetua e, como incommodado por elles, disse á pressa fr. Angelico:

—Accusou-mede desleal o senhor morgado por a ter introduzido aqui. Diz que a senhora só póde entrar n'esta casa como filha arrependida e submissa, e até sem esperança de um perdão, que só a sua conducta poderá merecer. E Deus me perdoe ter procurado semelhantes trabalhos por minhas mãos!

Teve Maria um impeto de voltar para traz, mas os gritos da mãe pregavam-a ao sobrado.

Fez-se luz no seu espirito, não duvidou que o frade fôra expressamente preparar-lhe aquella situação.

E n'um relance comparou a vida que levava em casa da prima, sem poder vêr João, senão vigiada. Era-lhe mais doloroso tel-o junto a si, sem poder desabafar.

Ali, tratando da mãe, parecer-lhe-ia menos penosa a espera.

Decidira-se em casa de Josepha, apesar das suas solicitações. Tinha por melhor esperar ali.

E respondeu gravemente ao frade que sim, que ficava de vez, desde que o pae não duvidava acceital-a.

Despedira-se, applaudindo-a, D. Victoria, desejosa de se vêr livre d'ella, e Maria, de olhos enxutos, cabeçaerguida, caminhou após o frade em direcção ao seu quarto, aonde agora estava D. Perpetua.

Então fr. Angelico, retomando o ar de dominio de outros tempos, reprehendeu-a severamente:

—Lembre-se que a sua desobediencia trouxe a deshonra e a desgraça a esta casa, e que a doença de sua mãe é o justo castigo de Deus.

—Representou bem o seu papel—respondeu-lhe Maria—mas não julgue que me illudiu, nem creia que se ha-de rir de mim.

Abriu a porta, fechada por fóra, e tirou a chave. No leito soltava a mãe phrases incomprehensiveis.

Sabia que a esperavam, e os seus berros tinham sido para que não ficasse, para que não tornasse a caír nas mãos dos seus algozes.

O estado em que a viu fortaleceu Maria na consciencia do dever cumprido.

Vibrava o seu corpo fragil n'uma energia de ferro. Olhava para tudo como senhora, como morgada, e revoltava-a aquelle abandono.

Ia ao pae para reclamar um medico, e dar então ordem á casa.

Mas D. Perpetua, temendo ficar só, chamou-a afflicta para junto de si:

—Filha,não sei se tornarei a vêr-te, que elles são capazes de te fechar, ou até de te estrangularem, como já me teem querido fazer.

E o seu espirito doente confundia a realidade com a allucinação:

—Quero confessar-me, Maria, que estou para Deus me levar; mas ha-de ser a ti, filha, que não creio no fr. Angelico nem nos outros malditos!

Sacudia-a a convulsão, entortavam-se-lhe os olhos, ficava-lhe a bocca arrepanhada ao lado, asphyxiava-a a escuma sanguinolenta, que Maria limpava compadecida.

—Quero confessar-me a ti, sim, filha—voltava ella n'uma insistencia pavorosa, olhos esgazeados, a voz cortada, difficil de perceber—Tenho um grande remorso, um peccado mortal, e tu, que estás uma mulher, pódes comprehender-me e perdoar-me.

Pedia-lhe que socegasse, mas ella tinha a ancia de falar:

—Fui rapariga como tu, e não tive a felicidade de encontrar um rapaz como o que amas, que é o brio dos homens, ao que tem feito por ti. Ha tanto quem possa ser feliz e tanto quem nunca o poude ser! São destinos. Eu enganei-me sempre, e querendo tornar-meditosa fui ludibriada por teu pae, e vi-me casada com elle sem amor.

N'uma explosão de raiva e nojo, em arrancos como se vomitasse, contou-lhe a torpe ligação ao frade, a maneira como elle a explorára e como por fim a tratava, unindo-se ao marido contra ella.

Então Maria comprehendeu o sentido das allusões de João e Josepha, certos sorrisos surprehendidos em beiços de creadas.

Quando a viu mais tranquilla, aliviada pelo desabafo da sua miseria, saíu Maria, cada vez mais resoluta.

Encontrou o frade no escriptorio:

—Fez-me minha mãe certas revelações, creio que me comprehende...

E a perturbação de fr. Angelico mostrava-lhe que sim.

—Não voltará a esta casa, sob pena do pae nunca mais o deixar saír. Desculpe-se como puder. Aos seus processos, não lhe será difficil.

Muito enfiado, levantou-se fr. Angelico da papeleira, e deixando a escripta como estava, compoz o habito, desejando vêr-se muito longe d'ali.

Encontrou o morgado á meza, e não teve meio de esquivar-se immediatamente.

Podialevantar suspeitas, que lhe seriam fataes, e resignou-se a acompanhal-o ao jantar, no supplicio de não poder comer.

Repentinamente Maria entrou e dirigiu-se a Martinho Vasques:

—A sua benção, pae.

Tomou-lhe a mão e beijou-lh'a, sem que elle, perturbado, podesse retirar-lh'a.

Sempre de pé, declarou n'uma voz sumida:

—Conforme as suas palavras, procurarei merecer o seu perdão tratando da mãe.

Pôz o morgado os olhos no prato, e não respondeu palavra.

Muito servilmente, para captar a benevolencia d'ella, interveiu o frade:

—Volta a viver como outr'ora, foram as palavras de seu pae. Tenha a bondade de sentar-se—e offereceu-lhe uma cadeira—que eu tenho de levar até ao fim a missão de que me encarreguei.

Chamou a creada, mandou pôr-lhe talher, e voltou-se para Martinho, que continuava comendo, como se nada fosse com elle:

—O senhor morgado perdoará, porque Deus tambem perdoou!

—Com licença, pae!—disse Maria sentando-se.

Eemquanto redobrava o pasmo de Martinho, ella adquiria maior firmeza, mais sangue frio.

Reapossava-se do seu logar, succedia á mãe como dona da casa, para depois succeder ao pae como senhora absoluta de tudo.

Mal teve ensejo, ergueu-se o frade, a despedir-se.

—Tenha a bondade de mandar immediatamente um bom medico, que não se póde abandonar uma creatura de Deus no estado a que chegou a mãe.

Para se furtar ao cumprimento da filha, ergueu-se Martinho e agarrou-se ao franciscano:

—Venha d'ahi, fr. Angelico, beber uma golada para o caminho.

Sentiu-os afastar, discutindo, e então chamou as creadas, reprehendeu-as, tratando-as de desmazeladas, e levou adiante de si, tremendo de medo, para arranjarem o quarto, as que ainda ha pouco se riam da velha.

No dia seguinte, depois de almoçarem sem trocar palavra, veiu o medico, que observou demoradamente D. Perpetua.

Levou-o Maria á presença do pae, a quem elle expoz a situação da doente. Devia ter sido chamado mais cedo. Talvez nas Caldas da Rainha podesse obter melhoras. Ali ficaria entrevada de todo.

Ouviu-oo fidalgo com má sombra, sem responder.

No seu impenetravel mutismo, meditava na maneira de sahir d'aquella situação, peior que a anterior, a casa governada pela filha, o exemplo d'essa arrogancia mostrando-lhe bem o que ella faria quando João voltasse da Praia e começasse a rondar por ali.

Animava-o, porém, a confiança de que triumphasse a esquadra miguelista, desfazendo o castello de cartas do minusculo reino liberal.

Então recolhel-a-ia a um convento, até a levar para Lisboa, ou a casar com o primo, se ainda a podesse render pela clausura, ou a fazel-a professar.

Descançava Maria no banco do pomar, onde passava as tardes com João, pensando n'elle, quando uma creada a foi chamar:

—Venha vêr, menina, venha vêr que coisa tão linda. É a esquadra do senhor D. Miguel.

Subiu assustada ao mirante, e viu ao largo, no pégo do mar, vinda de oeste, a infinita linha dos navios, carregados de pannos, rebocando enfiadas de grandes barcos que, n'uma bordada ao sul da Terceira, tinham ido reunir ás ilhas de baixo para o desembarque.Rindo inconscientes, as creadas comparavam a resteas d'alhos a correntêza de lanchas.

Aterrava-a o grande poder, que ia talvez roubar-lhe para sempre o seu noivo, a sua ventura.

No torreão, munido de oculo, contava o morgado a nau, as fragatas, as corvetas, e considerava como positivo o triumpho dos seus.

Até ao pôr do sol viram-os sempre, parecendo fixos no mesmo ponto; mas ao romper da manhã, quando Maria os procurava inquieta, já não os avistou.

Por volta das onze horas começaram a ouvir-se estampidos muito distantes. Estava travado o combate, mas não era contra o castello, cujas muralhas se avistavam da quinta.

Só podia ser na villa da Praia, onde estava João!

E n'uma desesperada angustia figurava-se-lhe o horror de carnificinas, como a do Pico do Selleiro.

Ao começo da noite, encostada ao ralo, ouviu passar homens do trabalho, que vinham da cidade, falando alterados, decerto commentando as noticias da batalha.

Gritavam «viva a nau encalhada», mas essa phrase nada lhe fazia comprehender.

Chamouo pae um rancho, e perguntou-lhe o que se passára.

Responderam n'uma attitude hostil, repetindo os vivas, e um explicou que a nauD. João VIestava perdida.

—Isso póde lá ser, homem de Deus—contestou Martinho—Uma nau de tres pontes, que é a flôr da nossa marinha!

Insistiram, e accrescentaram:

—A nau encalhou, e os realistas foram todos pescados!

Afastaram se repetindo o grito de alegria «viva a nau encalhada!»

—Tinham vencido! É porque Deus os protegia—pensava ella—tão poucos, tão fracos, creanças como João, e os academicos que tinham ido para a villa! E elle? Saíria a salvo? Teria ficado ferido ou morto?

Logo de manhã o creado da prima appareceu com um açafate á cabeça, a pedir flôres.

Era o signal da outra vez, querida Josepha!

Agora sim, agora confiava no futuro.

Escoltandocarros de bois, cheios depescados, vinha João entre camaradas, enfarruscados de polvora, espingardas enramadas de louros, cantando na musica do toque da alvorada:

Ai, meu Deus,Isto é que é rir!Vêr os caipirasDa Praia a fugir.

Ainda lhe parecia mentira!

Quando ao desfazer-se o nevoeiro vira a bahia cheia de grandes navios ameaçadores de portinholas, onde apontavam guelas de canhões, creu tudo perdido, porque o grosso das forças liberaes estava a quatro leguas, no castello, e ali só havia quinhentos homens, e onze velhas peças montadas em ruinas de fortes, com simples soldados por commandantes!

Ribombou a artilharia da esquadra, guarnecida de trezentas e quarenta bôcas de fogo, e ensurdecido pelo estrondear, cego do fumo, da terraceira projectada pelas balas, julgou tudo fulminado, vencido de vez.

Mas ao subir a nuvem azulada, reappareceram os exiguosfortes liberaes, e os artilheiros, imperturbaveis, n'essa indifferença do habito que, mais do que tudo, o surprehendia, apontavam agora, e alguns tiros insignificantes, um como brinco de creanças, responderam áquella unanimidade de canhonadas.

Caíu logo uma retranca á nau, e a confusão da tolda demonstrou que os de terra não tinham perdido a serenidade.

No forte de S. José, o velho ilheu Manoel Caetano acompanhava os filhos, artilheiros da costa, para os ensinar a fazerem as pontarias.

—Senhor governador—dissera ao sargento commandante—feche a porta e guarde a chave, porque estes mancebos são muito bisonhos, e ainda não ouviram zunir pelouros.

Ao cahir um d'elles, dirigiu-se ao que lhe restava:

—Desvia teu irmão que já pagou a sua divida á patria, e tratemos de o vingar!

E só assim, dedicações firmes, convicções inabalaveis, poderam resistir a esse infernal canhoneio de cinco horas.

Avançaram ao desembarque mil e tantos homens, o dobro dos que guarneciam meia legua de areal, e a vantagem do numero e da concentração, deu-lhes logoo alto do Facho e o forte do Espirito Santo.

Mas os liberaes voluntarios correram-os á bayoneta, varejaram-os com penedos rolados á força de braços, e ao verem-os vencidos, luctando com as ondas e a braveza dos rochedos, gritavam-lhes que não fizessem mais fogo, porque os desgraçados, que tinham ordem de não dar quartel, contavam ser tratados de egual fórma, e ainda disparavam loucos de desespero.

Desceram a rocha os constitucionaes, meteram-se ao mar para salval-os, e João, entre outros, com agua pelos peitos, tirava a braços os feridos, os estropiados, que a maré dentro em pouco afogaria.

As victimas da tyrannia miguelista, que até ali os arrastára, olhavam pasmados esses homens que, para os salvar, arriscavam a vida, e não comprehendiam a sua fraternidade.

Poz termo ao combate a chegada da columna de Villa-Flôr, voltando a tiro as lanchas do segundo desembarque, e obrigando a frota a cortar amarras e a fazer-se ao largo, podendo agora safar-se com a enchente a nau, que logo ao começo da acção tocára o fundo.

Vinha João calculando o decisivo alcance da victoria, quedevia despertar echo em Portugal, levar as potencias a reconhecerem o unico governo português legitimo, permittir a reunião de recursos para o desembarque no continente.

Ao chegar á cidade soube que Maria voltara a casa, perdendo assim a vantagem a tanto custo conquistada, exactamente quando era a seu favor essa absoluta consolidação da ilha.

Conseguira mais o trama de um frade que a natural inclinação dos dois corações; tivera mais força n'ella a intimidação do inferno que o enthusiasmo da mocidade a impellil-a para elle.

Oh! quanto custaria emancipar os espiritos acorrentados ao erro, na treva da oppressão!

Pedia-lhe perdão a carta d'ella por não o haver consultado, mas davam-lhe a mãe agonisante, e a pobre estava realmente mal. Tanto fazia esperar ali como em outra parte, já que não podiam casar tão cedo. Não receiasse que a opprimissem, porque o soffrimento fizera-a mulher. Tivera ensejo de conhecer a hypocrisia que dictava o procedimento dos frades, e perdera o escrupulo religioso que tanto a affligia. Concluia affirmando a sua absoluta fidelidade. Nunca fôra tanto sua como agora.

Não lhe importavam, porém, as palavras.

Caírana anterior situação, estando de novo sob a alçada do frade, que continuaria a governal-a apesar dos seus ingenuos protestos.

Escreveu-lhe desesperado, queixando-se da falta de confiança que denotava a sua precipitação.

Andava como louco. Que havia de fazer para a arrancar novamente d'ali?

Tinha a certeza de que ella, só por orgulho, se não reconhecia victima de uma perfidia, mas que devia anciar por se vêr livre da tyrannia paterna, a que tanto custára arrancal-a.

Appellou para Fulgencio, mas o boticario desilludiu-o:

—Agora? Era pegar-lhe com um trapo quente. Ella quebrára o deposito, recolhera a casa pormotu proprio, já a justiça não podia ir reclamal-a, houvesse o que houvesse. Sim, que isso de tirar uma filha a um pae não era brincadeira, nem devia ser.

Enternecido pelas supplicas sahiu a pedir por elle, mas voltou com más novas.

—Pódes dizer-lhe adeus. Pensa n'outra, que é o menos que falta. Não tarda o velho pela barra fóra, que está na lista dos suspeitos, dos que tramam na sombra e ajudam as guerrilhas por baixo de mão. OVilla-Flor é têso, faz elle muito bem; ainda não bebeu agua das Covas, nem bebe, honra lhe seja; não se amolda, pois, aos costumes da terra, e não quer saber se o Martinho é muito ou pouco fidalgo, se vem de reis ou de lacaios. Isso é bom para nós, que na nossa insignificancia ainda caímos de cocoras diante d'esses paparrotões, só porque teem quatro avoengos, embora os renegassem como esse refinadissimo «corcunda», tornado em lacaio dos sotainas, quando o avô ajudou a expulsal-os, cumprindo as medidas de Pombal. Agora que a victoria de 11 de agosto poz isto na ordem, é preciso limpar a terra das hervas damninhas, porque, meu rapaz, ainda ha muito e muito que fazer.

Ouvia-o João, transtornado, sem comprehender bem.

—Quer dizer que Maria se vae embora?

—Não se trata d'ella, meu rapaz. O nome do pae é que eu vi na lista dos deportados.

Foi procurar emigrados, rapazes que o podiam comprehender melhor do que o velho, e cuja deliberação no combate lhe ganhara a sympathia.

—Mas afinal que queres tu?—dizia um academico—A rapariga gosta de ti, não é verdade? Pois muito bem, vamos lá uma noite, tira-se para fóra,dá-se uma sova nos migueis que se fizerem finos, metel-a em tua casa, e não queiras mais saber de deposito. Em teres andado tanto tempo ao rabo da saia d'ella, e deixal-a assim levantar o vôo, bem mostras que foste educado por padres e te tornaste um maricas. Havia de ser commigo!

—Ella é que não quer fugir. Que ha-de casar, e não sae d'ali.

—Pois tira-se mesmo contra vontade, que quem governa somos nós, e como tu és das caras direitas que estiveram na batalha da Praia, fecha-se os olhos á rapaziada.

—Preciso consultal-a primeiro...

—O que tens é medo d'ella. Pois deixa-a ir para o primo, que em chegando a Lisboa não se lembra mais de ti. Aquillo é que é terra!

—Não durmas sobre o caso—lembraram-lhe—olha que elles não tardam a ser corridos, que isto agora é dito e feito.

Escreveu-lhe, pintando o horror d'essa separação. Estava preparado para a ir buscar, acompanhado por amigos. Não havia perigo, e no caso de força maior tinha ella completa justificação aos olhos de todos. E que importava que os censurassem, se a sua felicidade os faria esquecer tudo? Se não acceitasse éporque nunca lhe quizera bem, porque cedera apenas a um capricho.

Quando viu o pae exultando pela ordem de deportação, arrependeu-se amargamente Maria de ter voltado a casa.

Só então o morgado quebrára o teimoso silencio, para se dar como disposto a tratar a mulher, mas procurando prender assim a filha á esperança de salvar a mãe.

Levando Maria para Lisboa, realisaria completamente o seu velho plano.

Mas comprehendia bem que João devia tentar retêl-a, e queria influir n'ella astuciosamente, já que pela força nada poderia contra os que se firmavam em duas victorias, e esmagavam os adversarios.

Para estar precavido, augmentára o numero de homens de trabalho, a pretexto das vindimas, e tinha ali muitos dos guerrilhas do Pico do Selleiro, com armas á mão.

Sentia ella os olhares dos guardas, mas não duvidava que, se quizesse, João a viria buscar n'um momento.

Aindaa carta d'elle a exaltou por instantes, na seducção da aventura, mas repugnava-lhe o coxixar dos mantos apontando-a em mancebia; as invejosas, as rivaes voltando-lhe a cara indignadas, e mais uma vez impoz-se-lhe o orgulho.

Respondeu-lhe com serenidade, meditando muito as palavras.

Devia continuar como enfermeira da mãe, que adoecera por sua causa, e agora ia procurar a cura. Demais, viver com elle, sem casarem, tornava-se indigno d'ambos. Era descer, abandalhar-se aos olhos de todos, e talvez até aos d'elle proprio. Haviam de unir-se dignamente, como mereciam. De outra maneira, não. Só Deus sabia o que lhe custava separarem-se, mas, como sua mulher, havia de ser a guarda da sua honra, e não podia começar por sacrificar-lhe o bom nome. Se era differente das outras, por isso mesmo lhe devia querer mais. Concluia insistindo que, da mesma forma, ficariam separados quando elle embarcasse na expedição liberal ao continente, e ella ficasse na ilha á sua espera. Assim até era melhor, porque iriam encontrar-se em Portugal. Até lá, pois, e ou seria d'elle, ou de ninguem.

E como n'essa madrugada em que a chegada do navio,que a devia levar, o decidira a declarar-se, João, depois de a ter visto embarcar desfallecida, olhos vermelhos, ao lado da cadeirinha da entrevada, foi pôr-se á janela.

Viu o barco largar d'entre as escunas da laranja, que baloiçavam como berços o leve bojo, finas, veleiras, atrevidas; que fugiam debaixo de tempo, antes que o suéste as désse á costa; ou redemoinhavam como pedaços de cortiça, quando os inglezes, reconhecendo se impotentes para arcarem com a tormenta, fechavam escotilhas e emborrachavam-se na coberta, para não darem pelo naufragio.

Oh! Mas d'esta vez iria após ella, como então resolvera, sentindo se homem ante o risco de a perder; iria após ella, a essas terras onde tudo se decidia, já sem a emulação de outr'óra, integrado nas mesmas aspirações dos emigrados, tendo como elles ideias a affirmar, victimas a remir.

Desde então só tem um fito a sua vida, partir como ella, e essa ideia fixa mantem-o atravez dos momentos de desanimo que tiram o caracter de decisivo ao combate da Praia; a falta de dinheiro, aintriga diplomatica, as rivalidades da familia liberal.

E essa obsessão leva-o a consagrar-se como um fanatico á conquista do archipelago, com um navio adquirido por subscripção.

Empolga-o a figura prestigiosa de D. Pedro, indo á ilha organisar a expedição liberal, pôr-se á frente d'ella; e n'esse imperador de trinta annos, que abdicára duas corôas, assignára duas constituições, proclamára a independencia de um imperio, fôra grão-mestre da maçonaria, e interpretára em dois hymnos a sua ingenua crença liberal; n'esse principe, hostilisado em Portugal por ter emancipado o Brasil, guerreado no Brasil por se preocupar com Portugal, via agora o desenlace do conflicto, pela garantia de ordem que dava á Europa a cathegoria do novo general dos que, desde Vinte, se batiam pela liberdade.

Todos queriam partir, e os officiaes emigrados, que não cabiam nos quadros das forças, constituiram o Batalhão Sagrado, para terem a honra de fazer parte do exercito libertador, aonde aos veteranos do Rousillon, aos soldados da guerra da peninsula e da legião portuguêsa ao serviço de Napoleão, se juntavam os voluntarios de 23, os academicos, osalistados agora, os pescados á esquadra, estrangeiros vibrantes da indignação que agitava a Europa contra a oppressão portugueza, toda a juventude sangrada aos Açores para a libertação de Portugal.

Ao partirem da ilha de S. Miguel, onde se concentrára a expedição, cantavam enthusiasmados o novo hymno constitucional, que D. Pedro escrevera ao vir lançar-se na lucta pela carta outhorgada, pelo throno da filha:


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