E unindo-se a elle, cruzou-lhe os dez dedos por traz do pescoço, como para fazer com os seus braços enlaçados em Ebeneser e com as suas mãos juntas uma oração a Deos.
Elle deslaçou aquella cadêa delicada, que resistio emquanto pôde.
Deruchette cahio assentada n'uma ponta de rochacoberta de hera, levantando com um gesto machinal a manga do vestido até o cotovello, mostrando o seu delicioso braço nú, com uma luz afogada e pallida nos olhos fixos. O bote approximava-se.
Ebeneser segurou-lhe a cabeça nas mãos; aquella virgem tinha o ar de uma viuva e aquelle mancebo tinha o ar de um avô. Tocou-lhe os cabellos com uma especie de precaução religiosa; fitou os olhos nella durante alguns instantes, depositou-lhe na fronte um desses beijos debaixo dos quaes parece que deveria abrir uma estrella, e com uma voz que tremia na suprema angustia e onde se sentia a dilaceração da alma, disse-lhe esta palavra, a palavra das profundezas: Adeos!
Deruchette rompeu em soluços.
Neste momento ouviram uma voz lenta e grave que dizia:
—Porque motivo não se casam?
Ebeneser voltou a cabeça. Deruchette levantou os olhos.
Gilliatt estava diante delles.
Acabava de entrar por um atalho lateral.
Gilliatt já não era o mesmo homem da vespera. Tinha penteado os cabellos, fez a barba, calçou os sapatos, vestio camisa branca de marinheiro com grandes collarinhos cabidos, vestio a roupa de marinheiro mais nova. Via-se um annel de ouro no dedo minimo. Parecia profundamente calmo. Estava livido.
Bronze que soffre, tal era aquelle rosto.
Os dous olharam para elle estupefactos. Embora não se podesse reconhecel-o, Deruchette reconheceu-o.Quanto ás palavras que elle acabava de pronunciar, estavam tão longe do que elles pensavam nesse momento, que resvalaram-lhe no espirito.
Gilliatt continuou:
—Que necessidade é essa de se dizerem adeos? Casem-se. Embarquem depois.
—Deruchette estremeceu da cabeça aos pés.
Gilliatt continuou:
—Miss Deruchette tem vinte e um annos. É senhora de sua vontade. Seu tio é apenas seu tio. Amam-se...
Deruchette interrompeu docemente.
—Como é que o senhor está aqui?
—Casem-se, continuou Gilliatt.
Deruchette começava a perceber o que lhe dizia aquelle homem. Murmurou:
—O meu pobre tio...
—Recusaria se o casamento estivesse por fazer, disse Gilliatt, e consentirá quando o casamento estiver concluido. Demais vão embarcar ambos. Quando voltarem, elle os perdoará.
Gilliatt accrescentou com um tom amargo:
—E depois, elle já não pensa senão em construir o vapor. Isso o distrahirá durante a sua ausencia. Tem Durande para consolal-o.
—Eu não quizera, balbuciou Deruchette n'um espanto misturado de alegria, não quizera deixar pesares indo-me embora...
—Não durarão muito tempo os pesares, disse Gilliatt.
Ebeneser e Deruchette tiveram uma especie de deslumbramento. Tranquillisaram-se. Na sua decrescenteperturbação, iam entendendo as palavras de Gilliatt. Ainda havia alguma nuvem, mas a obrigação delles dous não era resistir ao conselho. Quem salva domina sempre. Fracas são as objecções quando se trata de voltar ao Eden. Havia na attitude de Deruchette, imperceptivelmente apoiada em Ebeneser, alguma cousa que fazia causa commum com o que dizia Gilliatt. Quanto ao enigma da presença daquelle homem e das suas palavras que, no espirito de Deruchette em particular, produziam muitas especies de assombro, eram questões á parte. Aquelle homem dizia-lhes: Casem-se. Era claro. Se houvesse uma responsabilidade era elle quem a tomava sobre si. Deruchette sentia confusamente que, por diversas razões, elle tinha o direito de faze-lo. O que elle dizia de mess Lethierry era verdade, Ebeneser pensativo murmurou:
—Um tio não é um pai.
Ebeneser sentia a corrupção de uma peripecia subita e feliz. Os escrupulos provaveis do padre fundiam-se e dissolviam-se naquelle pobre coração apaixonado.
A voz de Gilliatt tomou-se breve e dura; sentia-se nella umas pulsações de febre:
—Immediatamente. OCashmereparte daqui a duas horas. Tem tempo, mas não de sobra; venham ambos.
Ebeneser examinava-o attentamente.
De subito exclamou:
—Conheço-o. Foi o senhor quem me salvou a vida.
Gilliatt respondeu:
—Não creio.
—Lá adiante, na ponta dos Bancos.
—Não conheço esse lugar.
—No mesmo dia em que cheguei.
—Não percamos tempo, disse Gilliatt.
—E não me engano, o senhor é o homem de hontem á noite.
—Talvez.
—Como se chama?
Gilliatt alçou a voz:
—Ó do bote, espere-nos. Já voltamos. Miss, a senhora perguntou-me porque motivo estava eu aqui, é simples, eu acompanhei-os. A senhora tem vinte e um annos. Nesta terra quem chega a maioridade e depende de si casa-se em um quarto de hora. Tomemos o caminho da praia. Está praticavel, a maré ha de encher lá para o meio dia. Mas vamos já. Venham comigo.
Deruchette e Ebeneser pareciam consultar-se com o olhar. Estavam de pé, juntinhos, sem mecher-se; pareciam ébrios. Ha dessas tentações extranhas á beira desse abysmo que se chama felicidade. Comprehendiam sem comprehender.
—Elle chama-se Gilliatt, disse Deruchette baixinho a Ebeneser.
Gilliatt continuou com uma especie de autoridade:
—Que esperam? Já lhes disse que me acompanhassem.
—Aonde? perguntou Ebeneser.
—Alli.
E Gilliatt mostrou com o dedo a torre da igreja.
Os dous acompanharam-n'o.
Gilliatt ia adiante. O seu passo era firme. Os dous vacillavam.
Á proporção que se approxiraavam da torre, via-se despontar naquelle puros e bellos rostos de Ebeneser e Deruchette alguma cousa que seria dentro de pouco tempo o sorriso. A proximidade da igreja illuminava-os. Nos olhos fundos de Gilliatt haviam trevas.
Dissera-se um espectro levando duas almas ao paraiso.
Ebeneser e Deruchette não comprehendiam muito o que se estava passando. A intervenção daquelle homem era o ramo a que se agarra o affogado. Elles acompanhavam Gilliatt com a docilidade que o desespero tem para com a primeira pessoa que lhe apparece. Quem se sente morrer não é difficil em aceitar os incidentes. Deruchette, mais ignorante, era mais confiante. Ebeneser pensava. Deruchette era maior. As formalidades do casamento inglez são simplissimas, sobretudo nos paizes autochthones onde os parochos tem quasi um poder discricionario; mas o decano celebraria o casamento sem saber se o tio consentia? Havia uma questão nisto. Comtudo, podia-se tentar. Em todo o caso era uma delonga.
Mas quem era aquelle homem? e se era elle quem na vespera, foi declarado genro de mess Lethierry, como explicar o que estava fazendo? Elle, que era o obstaculo, tornava-se a providencia. Ebeneser prestava-se a tudo, mas dava ao que se estava passando o consentimento tacito e rapido do homem que se sente salvo.
O caminho era desigual, ás vezes molhado e difficil. Ebeneser absorto não prestava attenção aos charcos de agua e ás pedras. De quando em quando, Gilliatt, voltava-se e dizia a Ebeneser: Cuidado com essas pedras, dê-lhe a mão.
Soavam dez horas e meia quando elles entravam na igreja.
Por causa da hora, e tambem por causa da solidão da cidade naquelle dia, a igreja estava vasia.
No fundo, porém, perto da mesa que, nas igrejas reformadas, substitue o altar, haviam tres pessoas; eram o decano, o seu evangelista, e mais o lançador dos registros. O decano, que era o reverendo Jaquemin Herodes, estava assentado; o evangelista e o lançador estavam de pé.
O Livro, aberto, estava sobre a mesa.
Ao lado havia outro livro, era o registro da parochia, igualmente aberto, e no qual um olhar attento poderia notar uma pagina escripta de fresco. Uma penna e um tinteiro ficavam ao lado do registro.
Vendo entrar o reverendo Ebeneser Caudray, o reverendo Jaquemin Herodes levantou-se.
—Esperava-o, disse elle. Tudo está prompto.
O decano, com effeito, estava com o habito de officiante.
Ebeneser olhou para Gilliatt.
O reverendo Herodes continuou:
—Estou ás suas ordens, meu collega.
E fez-lhe uma cortezia.
A cortezia não foi nem para a esquerda nem para a direita. Era evidente, pela direcção do raio visual do decano, que, para elle, só Ebeneser existia. Ebeneser era clergyman e gentleman. O decano não comprehendia no seu comprimento nem Deruchette que estava ao lado, nem Gilliatt que estava atraz. Havia no seu olhar um parenthesis em que só Ebeneser era admittido. A manutenção destas distincções faz parte da boa ordem e consolida as sociedades.
O decano continuou com uma amenidade graciosamente altiva:
—Meu collega, faço-lhe o meu duplo comprimento. Morreu-lhe o tio, e o senhor casa-se; fica rico por um lado e feliz por outro. Demais, agora, graças a este vapor que vai ser restabelecido, miss Lethierry tambem é rica, o que eu approvo. Miss Lethierry nasceu nesta parochia, verifiquei a data do nascimento no livro dos assentos. Miss Lethierry é maior e dispõe de si. Depois, seu tio, que é toda a sua familia, consente. Querem casar-se já por causa da viagem, comprehendo, mas sendo este casamento o do cura da parochia, eu quizera mais alguma solemnidade. Abrevio para fazer-lhes o gosto. O essencialpóde fazer-se no summario. O acto já está escripto no livro do registro que está aqui, e falta só pôr os nomes. Nos termos da lei e do costume, o casamento pode ser celebrado logo depois da inscripção. A declaração necessaria para a licença já foi feita. Tomo a responsabilidade de uma pequena irregularidade, porque o pedido de licença devia ser previamente registrado sete dias antes; mas eu reconheço a necessidade e a urgencia da partida, Seja. Vou casal-os. O meu evangelista, será a testemunha do esposo; quanto á da esposa...
O decano voltou-se para Gilliatt.
Gilliatt fez um signal de cabeça.
—Basta, disse o decano.
Ebeneser ficara immovel. Deruchette era o extasis petrificado.
O decano continuou:
—Ha porém um obstaculo.
Deruchette fez um movimento.
O decano continuou:
—O enviado de mess Lethierry, que aqui está presente, e pedio a licença e assignou a declaração no registro,—e com o polegar da mão esquerda o decano indicou Gilliatt, o que o isentava de articular nenhum nome,—o enviado de mess Lethierry disse-me esta manhã que mess Lethierry, por muito occupado, não podia vir, e desejava que o casamento se fizesse incontinenti. Esse desejo, verbalmente expresso, não é sufficiente. Não posso, por causa das dispensas e da irregularidade que tomo sobre mim, ir além disto sem imformar-me de mess Lethierry, a menos que não me mostrem a assignatura delle.Qualquer que seja a minha boa vontade, não posso contentar-me com uma palavra que me repetem. Preciso de um escripto.
—Não sirva isso de empecilho, disse Gilliatt.
E apresentou ao decano um papel.
O decano pegou no papel, percorreu com um olhar, pareceu passar algumas linhas, sem duvida, inuteis, e leu alto:
—«...Vai ter á casa do decano para arranjar as dispensas. Desejo que o casamento se faça o mais cedo possivel, e já, será melhor.»
Poz o papel em cima da mesa e continuou:
—Assignado Lethierry. A cousa seria mais respeitosa se fosse dirigida a mim. Mas como se trata de um collega, não exijo mais.
Ebeneser olhou de novo para Gilliatt. Ha almas que se entendem. Ebeneser sentia naquillo uma fraude; e não teve força, não teve mesmo idéa, de denuncial-a. Ou fosse obediencia a um heroismo latente que elle antevia, ou fosse que se lhe aturdisse a consciencia pela ventura subita, Ebeneser não teve palavras.
O decano tomou a penna e encheu, com auxilio do lançador dos assentos, os claros da pagina escripta no livro, depois levantou-se, e com o gesto, convidou Ebeneser e Deruchette, a aproximar-se da mesa.
Começou a ceremonia.
Ebeneser e Deruchette estavam ao pé um do outro diante do ministro. Quem tiver sonhado que se está casando saberá o que elles sentiam.
Gilliatt estava a alguma distancia na obscuridade dos pillares.
Deruchette ao levantar-se da cama, desesperada, pensando no tumulo e no sudario, vestira-se de branco. Esta idéa de morte veio a proposito para as nupcias. O vestido branco fez della uma noiva. Tambem os tumulos são esponsaes.
Deruchette irradiava. Nunca foi o que era naquelle instante. Deruchette tinha o defeito de ser demasiado linda e não bastante formosa. A sua belleza peccava, se é peccar, por excesso de graça. Deruchette em repouso, isto é, fóra da paixão e da dôr, já o dissemos, era sobretudo gentil. A transfiguração da moça encantadora é a virgem ideal. Deruchette, engrandecida pelo amor e pelo soffrimento, tinha tido esse progresso, deixem passar a palavra. Tinha a mesma candura, com mais dignidade, a mesma frescura com mais perfume. Era uma especie de bonina que se torna lyrio.
Tinha no rosto signaes de lagrimas estanques. Havia ainda talvez uma lagrima no canto do sorriso. As lagrimas estanques, vagamente visiveis, são um sombrio e doce ornato da felicidade.
O decano, de pé perto da mesa, poz um dedo na Biblia aberta e perguntou em voz alta:
—Ha opposição?
Ninguem respondeu.
—Amen, disse o decano.
Ebeneser e Deruchette deram um passo para o Rev. Jaquemin Herodes.
O decano disse:
—Joë Ebeneser Caudray, queres esta mulher por tua esposa?
Ebeneser respondeu:
—Quero.
O decano contiunou:
—Durande Deruchette Lethierry, queres este homem por teu marido?
Deruchette na agonia da alma demasiado feliz, como a da lampada demasiado cheia de oleo, murmurou em vez de pronunciar:
—Quero.
Então, segundo o bello rito do casamento anglicano, o decano olhou em roda de si, e fez na sombra da igreja esta solemne pergunta:
—Quem dá esta mulher a este homem?
—Eu, disse Gilliatt.
Houve um momento de silencio. Ebeneser e Deruchette sentiram uma vaga oppressão atravez da sua felicidade.
O decano poz a mão direita de Deruchette na mão direita de Ebeneser, e Ebeneser disse a Deruchette:
—Deruchette, tomo-me por minha mulher, quer sejas melhor ou peior, mais rica ou mais pobre, doente ou com saude, para amar-te ate á morte, e dou-te a minha fé.
O decano pôz a mão direita de Ebeneser na mão direita de Deruchette, e Deruchette disse a Ebeneser:
—Ebeneser, tomo-te por meu marido, quer sejas melhor ou peior, mais rico ou mais pobre, doente ou com saude, para amar-te e obedecer-te até á morte, e dou-te a minha fé.
O decano continuou:
—Onde está o annel?
Isto era o imprevisto. Ebeneser não tinha annel.
Gilliatt tirou o annel de ouro que tinha no dedo minimo e apresentou ao decano. Era provavelmente o annel de casamento comprado de manhã ao ourives de Commercial—Arcade.
O decano pôz o annel no livro, depois entregou-o a Ebeneser.
Ebeneser pegou na mãosinha esquerda, tremula, de Deruchette, metteu o annel no quarto dedo, e disse:
—Desposo-te com este annel.
—Em nome do Padre, do Filho e do Espirito-Santo, disse o decano.
—Assim seja, disse o evangelista.
O decano alçou a voz:
—Estaes casados.
—Assim seja, disse o evangelista.
O decano continuou:
—Oremos.
Ebeneser e Deruchette voltaram-se para a mesa e ajoelharam-se.
Gilliatt que estava de pé inclinou a cabeça.
Elles ajoelhavam-se diante de Deos, Gilliatt curvava-se ao destino.
Sahindo da igreja viram oCashmereque começava a apparelhar.
—Chegam a tempo, disse Gilliatt.
Seguiram pelo caminho da Angrazinha.
Os dous iam adiante, Gilliatt agora caminhava atraz.
Eram dous somnambulos. Mudára apenas o atordoamento. Não sabiam nem onde estavam nem o que faziam; apressavam-se machinalmente, não se lembravam da existencia de cousa alguma, sentiam-se um outro, não podiam ligar duas idéas. Não póde pensar quem está em extasis, como não póde nadar quem está n'uma torrente. Pareciam ir penetrando n'um paraiso. Não se fallavam, conversavam com a alma. Deruchette apertava contra si o braço de Ebeneser.
O passo de Gilliatt atraz delles fazia-lhes ver que elleestava presente. Iam profundamente commovidos, mas sem dizer palavra; o excesso da commoção transforma-se em estupefacção. A delles era deliciosa, mas acabrunhava. Estavam casados. Adiavam o resto, esperavam voltar, o que Gilliatt fez era bem feito, eis tudo. O fundo desses dous corações agradecia-lhe ardente e vagamente. Deruchette dizia comsigo que havia alguma cousa para deslindar, mais tarde. Entretanto, aceitavam o facto. Sentiam-se á discrição daquelle homem decisivo e subito, que, por autoridade, fazia a felicidade delles dous. Fazer-lhes perguntas, conversar com elle, era impossivel. Eram de sobejo as impressões que se lhes precipitavam em cima ao mesmo tempo. Estavam engolphados; era perdoavel.
Os factos são ás vezes uma saraiva. Crivam a creatura. Ensurdecem. A precipitação dos incidentes, cahindo em existencias habitualmente calmas, tornam logo inintelligiveis os acontecimentos aos que os soffrem ou delles se aproveitam. Não se póde conhecer a sua propria ventura. Fica-se esmagado sem adivinhar, venturoso sem comprehender. Deruchette, em particular, desde algumas horas recebera todas as commoções; primeiramente a fascinação, Ebeneser no jardim; depois o pesadelo, aquelle monstro declarado seu marido; depois a desolação, o anjo abrindo as azas e prestes a partir; agora era a alegria, uma alegria inaudita, com um fundo indecifravel; o monstro dava-lhe o anjo; o casamento sahia da agonia; o Gilliatt, catastrophe de hontem, salvação de hoje. Deruchette não comprehendia nada. Era evidente que desde manhã Gilliatt não teve outra occupação se não a de casal-os; fez tudo; respondeu por mess Lethierry, fallou ao decano,pedio licença, assignou a declaração necessaria; eis-ahi como se realisou o casamento. Mas Deruchette não comprehendia nada; de mais, mesmo quando ella comprehendesse o como, não comprehenderia o porque.
Fechar os olhos, agradecer mentalmente, esquecer a terra e a vida, deixasse levar para o céo por aquelle bom demonio, eis o que lhe cumprir fazer. Esclarecer seria longo, agradecer não seria bastante. Deruchette calava-se naquelle doce embrutecimento da ventura.
Restava-lhe ainda algum pensamento, sufficiente para guial-a. Debaixo d'agua ha pedaços de esponja que ficam brancos. Elles tinham a somma de lucidez necessaria para distinguir o mar da terra e oCashmerede qualquer outro navio.
Dentro de poucos minutos estavam elles na Angrazinha.
Ebeneser foi o primeiro a entrar no bote. No momento em que Deruchette ia acompanhal-o, sentio a sua manga docemente puxada. Era Gilliatt que tinha posto um dedo numa dobra do vestido.
—Senhora, disse elle, não esperava partir. Eu cuido que naturalmente ha de precisar de vestidos e roupa. Achará a bordo do Cashmere um caixotinho com objectos de mulher. Foi minha mãe quem m'o deu. Era destinado á mulher com quem eu casasse. Consinta que lh'o offereça. Deruchette accordou a meio do sonho em que estava. Voltou-se para Gilliatt. Gilliatt, em voz baixa e que mal se ouvia, continuou:
—Agora, não é para demoral-a, mas, olhe, eu creio que devo explicar-lhe uma cousa. No dia em que houve aquella desgraça, a senhora estava assentadana sala baixa, e disse umas palavras. Não se lembra disso, é natural. Ninguem é obrigado a lembrar-se das palavras que diz. Mess Lethierry soffria muito. A verdade é que era um bello navio e prestimoso. O desastre aconteceu; a terra estava alvoroçada e compungida, são cousas que naturalmente se esquecem. Só havia aquelle navio perdido na costa. Não se pode pensar sempre em um accidente. Sómente o que eu queria dizer é que, como se dizia que ninguem era capaz de lá ir, eu fui. Diziam elles que era impossivel; não era impossivel aquillo. Agradeço-lhe o prestar-me attenção por alguns instantes. Comprehende a senhora que se eu lá fui ao escolho, não foi para offendel-a. Demais, a cousa data de longe. Eu sei que está com pressa. Se houvesse tempo, fallariamos, recordariamos, mas isso de nada serve. A cousa data de um dia em que cahio neve. E depois eu passei uma vez, e cuido tel-a visto sorrir. É assim que tudo se explica. Quanto ao que se passou hontem, eu não tive tempo de ir á casa, acabava do trabalho, estava todo rasgado, metti-lhe medo, a senhora desmaiou, fiz mal, não se entra assim na casa dos outros, peço-lhe que me perdôe. É isto mais ou menos o que eu queria dizer-lhe. Vai partir. Tem um bello tempo. Acha justo que eu lhe fallo, não? é o ultimo minuto.
—Penso na caixinha, respondeu Deruchette. Por que não hade guardal-a para sua mulher, quando se casar?
—Senhora, disse Gilliatt, provavelmente eu não me casarei nunca.
—Pois é pena, porque é uma boa alma. Obrigada.
E Deruchette sorrio. Gilliatt retribuio-lhe com outro sorriso.
Depois ajudou Deruchette a entrar no escaler. Menos de um quarto de hora depois, o escaler onde iam Ebeneser e Deruchette atracava aoCashmere.
Gilliatt seguio pela praia, parou rapidamente em Saint-Pierre Port, depois caminhou para Saint-Sampson ao longo do mar, fugindo aos encontros, evitando as estradas cheias de caminhantes, por culpa delle.
Desde muito tempo, como se sabe, Gilliatt tinha um modo de atravessar a terra em todos os sentidos sem ser visto por ninguem. Conhecia os atalhos, fez para si itinerarios isolados e em zig-zags: tinha o habito feroz do ente que não se julga estimado; andava de longe. Ainda criança, vendo pouco agasalho no rosto dos homens, tomou o costume, que depois tornou-se-lhe instincto, de andar sempre affastado.
Passou a Esplanada, depois a Saleria. De tempos a tempos, voltava-se e olhava para oCashmerena barra,que lhe ficava por traz; e oCashmereabria as velas. Havia pouco vento, Gilliatt ia mais depressa que oCashmere.Gilliatt caminhava nas rochas extremas da praia, com a cabeça baixa. A maré começava a subir.
Em certo momento parou, e voltando as costas para o mar, contemplou durante alguns minutos, além dos rochedos que escondiam a estrada do Valle, uma moita de carvalhos. Eram os carvalhos do lugar chamado Baisses Maisons. Foi alli, debaixo daquellas arvores, que outrora o dedo de Deruchette escreveu o nome de Gilliatt na neve. Havia muito tempo que essa neve estava desfeita.
Proseguio no caminho.
O dia estava mais bello que nenhum outro naquelle anno. A manhã tinha um quê de nupcial. Era um desses dias vernaes em que Maio ostenta-se todo inteiro; a creação parecia não ter outro fim que dar uma festa e fazer a propria felicidade. Sob todos aquelles rumores, da floresta como da aldêa, da vaga como da athmosphera, sentiam-se uns sons de arrulho. As primeiras borboletas pousavam nas primeiras rosas. Tudo era novo na natureza, as hervas, os musgos, as folhas, os perfumes, os raios. Parecia que o sol nunca tinha sorvido. Os seixos estavam lavados de fresco. A profunda canção das arvores era cantada por aves nascidas na vespera. Era provavel que a casquinha do ovo quebrada pelo biquinho dessas aves, ainda estivesse no ninho. Ensaios de azas romurejavam nas folhas tremulas. Cantavam o primeiro canto, davam o primeiro vôo. Era uma doce conversa de todos a um tempo, poupas, melharucos, pintasilgos, barbiruivos, pardaes. Os lilases, os lyrios,os daphnes, as glycinas, compunham nas moitas uma deliciosa variedade de côres. Uma linda lentilha aquatica que ha em Guernesey cobria as lagôas de uma toalha de esmeralda. Banhavam-se as arveloas nas lagôas, onde costumam fazer tão graciosos ninhos. Via-se o céo atravez de todas as falhas da vegetação. Algumas nuvens lascivas perseguiam-se no ar ondeando como nymphas. Como que se sentia a passagem de beijos mandados por bocas invisiveis. Nenhum velho muro deixava de ter, como um noivo, o seu ramalhete de gyrofleas. Os abrunheiros sylvestres e os codeços estavam em flôr; viam-se aquelles montinhos brancos luzindo e aquelles montinhos amarellos fulgurando atravez do cruzamento dos ramos.
A primavera atirava toda a sua prata e ouro no immenso cesto rasgado dos bosques. Os pimpolhos novos eram verdes de fresco. Ouvia-se no ar um grito de saudação. Estio hospitaleiro abria a porta aos passaros longinquos. Era a hora da chegada das andorinhas. Os thyrsos dos juncos orlavam os caminhos cavados, esperando os thyrsos dos pilriteiros. O bello e o lindo faziam boa visinhança: o soberbo completava-se pelo gracioso; o grande não tolhia o pequeno; não se perdia nenhuma nota do concerto; as magnificencias microscopicas estavam em plano proprio naquella vasta belleza universal; distinguia-se tudo como n'uma agua limpida. Por toda a parte uma divina plenitude e um entumecimento mysterioso faziam advinhar o exforço panico e sagrado da seiva em acção. O que brilhava, brilhava mais; o que amava, amava melhor. Havia um hymno na flôr e uma irradiação no ruido. Escutava-se a grandeharmonia diffusa. O que começava a despontar procurava o que começava a surdir. Uma turvação, que surgia debaixo, e vertia tambem de cima, agitava vagamente os corações, corruptiveis á influencia espessa e subterranea dos germens. A flôr promettia obscuramente o fructo, todas as virgens scismavam, a reproducção dos seres, premeditada pela immensa alma da sombra, esboçava-se na irradiação das cousas. Era o universal noivado. A vida, que é a esposa, abraçava o infinito, que é o esposo. O dia estava claro, formoso, e ardente; atravez das sebes, nas cercas, viam-se rir as crianças Algumas jogavam a palheta. As macieiras, os pecegueiros, as cerejeiras, as pereiras, cobriam os vergeis com os seus grossos tuffos pallidos ou vermelhos. Na relva, as primaveras, as pervincas, as mil-folhas, as margaridas, os amaryles, os jacinthos, as violetas e as veronicas. As borragens azues, os iris amarellos, pululavam, com as bollas estrellinhas côr de rosa que florecem sempre aos bandos e que por esse motivo chamam-se as companheiras. Animaculos dourados corriam por entre as pedras. O sayão florescente purpureava os tectos das cabanas. As operarias das colmeas andavam por fóra. A abelha trabalhava. A extensão estava cheia do murmurio dos mares e do zumbido das moscas. A natureza, permeavel na primavera, estava humida de voluptuosidade.
Quando Gilliatt chegou a Saint-Sampson, ainda a maré não enchera e elle pôde atravessar a praia a pé secco, desapercebido por traz dos cascos de navios no estaleiro. Um cordão de pedras chatas, postas de espaço a espaço, auxiliava a passagem.
Gilliatt não foi observado. O povo estava do outro lado do porto, perto da sahida, junto á casa de Lethierry. Ahi andava o nome delle, de boca em boca. Fallava-se tanto delle que o não chegavam a ver. Gilliatt passou escondido de algum modo pelo proprio rumor que causava.
Vio de longe a pança no lugar onde a amarrára, com o cano da machina entre as quatro correntes, com um movimento de carpinteiros trabalhando, lineamentos confusos de pessoas que iam e vinham de um para outro lado, e ouvio a voz tonante e alegre de mess Lethierry dando ordens.
Metteu-se pelas ruelas dentro.
Não havia ninguem por traz de Bravées, toda a curiosidade convergia para a frente. Gilliatt tomou o atalho que costeava o muro baixinho do jardim. Parou no angulo onde estava a malva sylvestre; tornou a ver a pedra onde costumava sentar-se; tornou a ver o banco de Deruchette. Olhava para o chão da alameda onde vio abraçarem-se as duas sombras, que tinham desaparecido.
Foi caminho. Galgou a collina do castello do Valle, deceu-a, e dirigiu-se para a casa mal assombrada, onde morava.
O Houmet-Paradis estava solitario.
A casa estava tal qual elle a deixara de manhã depois de vestir-se para ir a Saint-Pierre Port.
Havia uma janella aberta. Via-se por ella o bug-pipe pendurado em um prego da parede.
Via-se na mesa a pequena Biblia dada em agradecimento a Gilliatt por um desconhecido, que era Ebeneser.
A chave estava na porta. Gilliatt approximou-se, poz a mão na chave, fechou a porta com duas voltas, poz a chave no bolso, e affastou-se.
Affastou-se, não para o lado de terra, mas para o lado do mar.
Atravessou diagonalmente o jardim, pelo lado mais curto, pisando os canteiros, mas tendo cuidado de poupar os seakales que plantara por serem do gosto de Deruchette.
Galgou o parapeito e desceu aos arrecifes.
Continuou a andar, indo sempre para a frente, pela longa e estreita linha de cachopos que ligava a casa delle áquelle grande obelisco de granito de pé, no meio do mar, que se chamavaCorne de la Bête.Era alli que ficava a cadeira Gild-Holm'Ur.
Passava de um recife a outro como um gigante caminha nos cabeços. Andar em uma crosta de recifes assemelha-se a andar na borda de um telhado.
Uma pescadora de rede que andava com os pés descalços, nos charcos que ficavam proximos, e voltava para a praia, gritou-lhe:—Cuidado. A maré está enchendo.
Gilliatt continuou a andar. Chegando ao grande rochedo da ponta, que formava um pinaculo no mar, parou. Acabava a terra. Era a extremidade do pequeno promontorio.
Olhou.
Ao largo pescavam alguns barcos, com ancoras fóra. Via-se de quando em quando naquelles barcos um gotejar de prata: eram as redes que sahiam d'agua. OCashmereainda não estava na altura de Saint-Sampson; desenrolára a mesena. Estava entre Herm e Jethou.
Gilliatt torneou o rochedo. Chegou á beira da cadeira Gild-Holm'Ur, ao pé dessa especie de escada tosca, que, menos de tres mezes antes, Ebeneser descera ajudado por elle.
Gilliatt subio.
A maior parte dos degráos já estavam debaixo da agua. Apenas dous ou tres estavam a secco. Gilliatt escalou-os.
Os degráos iam ter á cadeira Gild-Holm'Ur. Chegou á cadeira, contemplou-a por um momento, apoiou a mão nos olhos e fêl-a passar de uma a outra sobrancelha, gesto com que parece que se apaga o passado, depois assentou-se na cava da rocha, com o grande declive por traz de si, e o oceano aos pés.
OCashmerenesse momento passava pela grande torre arredondada e immersa, defendida por um sargento e um canhão, e que marca na bahia a metade do caminho entre Herm e Saint-Pierre Port.
Nas fendas do rochedo tremiam algumas flôres, por sobre a cabeça de Gilliatt. A agua estava toda azul. O vento era d'Este, havia pouca ressaca á roda de Serk, da qual em Guernesey só se vê a costa Occidental. Via-se ao longe a França como uma bruma e a longa facha amarella de arêas de Casteret. De quando em quando passava uma borboleta branca. As borboletas gostam de passeiar sobre o mar.
Fraca era a brisa. Todo aquelle azul, em baixo e em cima, estava immovel. Nenhuma tremura agitava aquellas serpentes de um azul mais claro ou mais carregado, que marcava na superficie do mar as torções latentes dos baixios.
OCashmere, pouco impellido pelo vento, içou os cutellos para apanhar alguma brisa. Cobrio-se todo de pannos. Mas o vento era de travez, o effeito dos cutellos obrigava-o a costear de perto Guernesey. Já tinha passado a balisa de Saint-Sampson. Attingia a collinado castello do Valle. Estava quasi proximo ao promontorio da casa de Gilliatt.
Gilliatt via-o approximar-se.
O ar e o mar estavam como que adormecidos. A maré enchia, não por meio de ondas, mas por entumecimento. O nivel d'agua ia-se levantando sem palpitação. O vento do largo mar, extincto, assemelhava-se a um halito de infante.
Ouvia-se na direcção da porta de Saint-Sampson pequenos golpes surdos, que eram martelladas. Provavelmente eram os carpinteiros que levantavam guindastes e pranchas para tirar a machina dapança.Esse rumor mal chegava a Gilliatt, por causa da massa de granito a que elle estava encostado.
OCashmereapproximava-se com uma lentidão de phantasma.
Gilliatt esperava.
De subito uma agitação d'agua e uma sensação de frio obrigaram-n'o a olhar para baixo. A agua tocava-lhe os pés.
Gilliatt abaixou os olhos e levantou-os.
OCashmereestava perto.
O rochedo onde as chuvas tinham cavado a cadeira Gild'-Holm'Ur, era tão vertical, e havia tanta agua naquelle sitio, que os navios podiam, em tempo de calma, passar alli a distancia de algumas braças.
OCashmerechegou. Surgio, alçou-se. Parecia crescer sobre a agua. Foi como que um crescimento de sombra. Todo o apparelho destacou-se como massa negra, no céo azul, e no magnifico balanço do mar. As longas velas, por um instante sobrepostas ao sol, tornavam-se quasi côr de rosa e tiveram uma transparencia inefavel.As ondas tinham um murmurio indistincto. Nenhum rumor perturbava o resvalar magestoso daquella massa. De terra via-se o que se passava á bordo como se lá estivesse.
OCashmereroçou quasi pela rocha.
O timoneiro estava no leme, um grumette trepava aos ovens, alguns passageiros, encostados á amurada, contemplavam a serenidade do tempo, o capitão fumava. Mas não era nada disso o que Gilliatt contemplava.
Havia no tombadilho um lugar cheio de sol. Era para alli que elle olhava. Alli* estavam Ebeneser e Deruchette. Estavam assentados debaixo daquella luz, elle juntinho della. Contrahiam-se graciosamente ao lado um do outro, como dous passaros que se aquecem a um raio do meio dia, n'um desses bancos cobertos de umi assento alcatroado que os navios bem preparados offerecem aos viajantes, e nos quaes costuma ler-se, quando o navio é inglez:For ladies only.A cabeça de Deruchette cahia sobre o hombro de Ebeneser, o braço de Ebeneser estava por traz da cintura de Deruchette, tinham as mãos aggarradas uma á outra e os dedos entrelaçados nos dedos. As differenças de um anjo a outro mostravam-se claramente naquelles dous delicados rostos feitos de innocencia. Um era mais virginal, o outro mais sideral. Era expressivo aquelle casto abraço, que encerrava o hymenêo e o pudor. Aquelle banco era já uma alcova e quasi um ninho. Ao mesmo tempo, era uma gloria; a doce gloria do amor fugindo n'uma nuvem.
O silencio era celeste.
O olhar de Ebeneser agradecia e contemplava; moviam-se os labios de Deruchette; e nesse silencio delicioso,como o vento vinha do lado opposto, no instante rapido em que o sloop resvalou a algumas toezas da cadeira Gild'-Holm'Ur, Gilliatt ouvia a voz terna e delicada de Deruchette que dizia:
—Olha! Parece que ha um homem no rochedo.
A apparição passou.
OCashmeredeixou a ponta do promontorio atraz de si, e mergulhou-se no franzido profundo das vagas. Em menos de um quarto de hora, mastros e velas assemelhavam-se a uma especie de obelisco branco diminuindo no horisonte. Gilliatt tinha agua até os joelhos.
Via o sloop affastar-se.
A brisa refrescava ao longe. Gilliatt pôde ver oCashmereiçar os cutellos baixos para aproveitar o augmento do vento. OCashmerejá estava fora das aguas de Guernesey. Gilliat não tirava os olhos do navio.
A agua chegava-lhe á cintura.
A maré levantava-se. O tempo corria.
As cotovias e os corvos marinhos esvoaçavam inquietos em roda delle. Dissera-se que procuravam advertil-o. Talvez houvesse naquelles bandos alguma gaivota ainda das Douvres que o reconhecia.
Decorreu uma hora.
O vento do largo não soprava no porto, mas a diminuição doCashmereera rapida. O sloop, segundo as apparencias, ia a toda a força. Já estava quasi na altura de Casquets.
Não havia espuma á roda do rochedo Gild-Holm'Ur, nenhuma vaga batia no granito. A agua inchava vagarosamente. Já estava quasi na altura dos hombros de Gilliatt.
Decorreu outra hora.
OCashmereestava já alem das aguas de Aurigny. O rochedo Ortach escondeu-o por um momento. Occultou-se atraz desse rochedo, e sahiu depois, como de um eclipse. O sloop fugia para o norte. Já entrava no mar alto. Era apenas um ponto, tendo por causa do sol, a scintillação de uma luz.
Os passaros soltavam pios a Gilliatt.
Já não se via mais que a cabeça delle.
O mar subia com uma brandura sinistra.
Gilliatt, immovel, olhava para oCashmereque se desvanecia. A maré estava quasi cheia. Cahia a tarde. Por traz de Gilliatt, no porto, alguns barcos de pesca voltavam para terra.
Os olhos de Gilliatt, presos ao longe no sloop, estavam fixos.
Aquelles olhos lixos não se pareciam com cousa alguma que se possa ver na terra. Havia o inexprimivel naquella palpebra tragica e calma. O olhar continha toda a somma de tranquillidade que deixa o sonho abortado; era a aceitação lugubre de outro complemento. Uma fuga de estrella deve ser aconpanhada por olhares semelhantes. De quando em quando a obcuridade celeste apparecia naquella palpebra cujo raio visual estava fixo num ponto do espaço. Ao mesmo tempo em que a agua infinita subia a roda do rochedo Gild-Holm'Ur, ia subindo a immensa tranquillidade da sombra nos olhos profundos de Gilliatt.
OCashmere, tornando-se imperceptivel, era já uma mancha misturada á bruma. Para distingui-lo era preciso saber onde elle estava.
A pouco e pouco, aquella mancha, que já não era uma forma, foi empallidecendo.
Depois diminuio.
Depois dissipou-se.
No momento em que o navio dissipava-se no horisonte, a cabeça desapparecia debaixo d'agua. Tudo acabou; só restava o mar.
FIM
PRIMEIRA PARTEO Sr. Clubin.LIVRO PRIMEIROElementos de uma má reputaçãoIPALAVRA ESCRIPTA EM UMA PAGINA BRANCAIIO TUTÚ DA RUAIIIPARA TUA MULHER, QUANDO TE CASARESIVIMPOPULARIDADEVOUTROS PONTOS AMBIGUOS DE GILLIATTVIAPANÇAVIICASA EMBRUXADA, MORADOR VISIONARIOVIIIA CADEIRA GILD-HOLM-'URLIVRO SEGUNDOMess LethierryIVIDA AGITADA E CONSCIENCIA TRANQUILLAIIUMA PREFERENCIA DE MESS LETHIERRYIIIA VELHA LINGUA DO MARIVVULNERABILIDADE POR AMORLIVRO TERCEIRODurande e Deruchette.IGARRULICE E EFFLUVIOSIIA ETERNA HISTORIA DA UTOPIAIIIRANTAINEIVCONTINUAÇÃO DA HISTORIA DA UTOPIAVO NAVIO-DIABOVILETHIERRY ENTRA NA GLORIAVIIO MESMO PADRINHO E A MESMA PADROEIRAVIIIA MELODIA BONNY DUNDEEIXO HOMEM QUE ADVINHOU QUEM ERA RANTAINEXNARRATIVAS DE VIAGENS DE LONGO CURSOXILANCE DE OLHOS AOS MARIDOS EVENTUAESXIIEXCEPÇÃO NO CARACTER DE LETHIERRYXIIIO DELEIXO FAZ PARTE DA GRAÇALIVRO QUARTOO bug-pipe.IPRIMEIROS RUBORES DE AURORA OU DE INCENDIOIIGILLIATT VAI ENTRANDO PASSO A PASSO NO DESCONHECIDOIIIA CANÇÃO BONNY DUNDEE ACHA UM ECHO NA COLLINAIVPour l'oncle et le tuteur,...VJUSTA VICTORIA É SEMPRE MALQUISTAVIFORTUNA DOS NAUFRAGOS ENCONTRANDO A CHALUPAVIIBOA FORTUNA DE APPARECER A TEMPOLIVRO QUINTOO revolver.IA PALESTRA NA POUSADA JOÃOIICLUBIN DESCOBRE ALGUEMIIICLUBIN LEVA UNS OBJECTOS E NÃO OS TRAZIVPLAINMONTVOS FURTA-NINHOSVIA JACRESSARDEVIICOMPRADORES NOCTURNOS E VENDEDOR TENEBROSOVIIICARAMBOLA DA BOLA VERMELHA E DA BOLA PRETAIXINFORMAÇÃO UTIL ÁS PESSOAS QUE ESPERAM, OU RECEIAM CARTAS DE ALEM-MARLIVRO SEXTOO timoneiro ebrio e o capitão sobrioIOS ROCHEDOS DOUVRESIICOCNAC INESPERADOIIIPALESTRA INTERROMPIDAIVMOSTRAM-SE TODAS AS QUALIDADES DO CAPITÃO CLUBINVCLUBIN LEVA A ADMIRAÇÃO AO CUMULOVIALLUMIA-SE O INTERIOR DE UM ABISMOVIIINTERVEM O INESPERADOLIVRO SETIMOImprudencia de interrogar um livroIA PEROLA NO FUNDO DO PRECIPICIOIIGRANDE ESPANTO NA COSTA OESTEIIINÃO TENTEIS A BIBLIASEGUNDA PARTEO engenhoso GilliattLIVRO PRIMEIROO escolhoIINCOMMODA CHEGADA, DIFFICIL SAHIDAIIAS PERFEIÇÕES DO DESASTREIIISÃ, MAS NÃO SALVAIVPREVIO EXAME LOCALVUMA PALAVRA A RESPEITO DAS COLLABORAÇÕES SECRETAS DOS ELEMENTOSVICAVALLARIÇA PARA O CAVALLOVIIQUARTO PARA O VIAJANTEVIIIIMPORTUNAQUE VOLUCRESIXO ESCOLHO E A MANEIRA DE SE SERVIR DELLEXA FORJAXIDESCOBERTAXIIO INTERIOR DE UM EDIFICIO DEBAIXO DO MARXIIIO QUE SE VÊ E O QUE SE ENTREVÊLIVRO SEGUNDOO trabalhoIOS RECURSOS DAQUELLE QUE NÃO TEM RECURSOSIIDE QUE MODO SHAKESPEARE PODE ENCONTRAR-SE COM ESCHYLOIIIA OBRA PRIMA DE GILLIATT AJUDA A OBRA PRIMA DE LETHIERRYIVSUBREVSUB UMBRAVIGILLIATT COLLOCA A PANÇA EM POSIÇÃOVIISURGE UM PERIGOVIIIMAIS PERIPECIA QUE DESENLACEIXINTERROMPE-SE O EXITOXAS ADVERTENCIAS DO MARXIPARA UM BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTALIVRO TERCEIROA lutaIO EXTREMO TOCA O EXTREMO E O CONTRARIO ANNUNCIA O CONTRARIOIIOS VENTOS DO LARGOIIIEXPLICAÇÃO DO RUMOR OUVIDO POR GILLIATTIVTURBA, TURMAVGILLIATT PÓDE ESCOLHERVIO COMBATELIVRO QUARTOO forro do obstaculoIQUEM TEM FOME ACHA MAIS QUEM TENHAIIO MONSTROIIIOUTRA FORMA DE COMBATE NO ABYSMOIVNADA SE ESCONDE, NADA SE PERDEVHA LUGAR PARA ALOJAR-SE A MORTE NO INTERVALLO QUE SEPARA SEIS POLLEGADAS DE DOUS PÉSVIDE PROFUNDIS AD ALTUMVIIHA UM OUVIDO NO IGNOTOTERCEIRA PARTEDeruchetteLIVRO PRIMEIRONoite e luaIO SINO DO PORTOIIAINDA O SINO DO PORTOLIVRO SEGUNDOReconhecimento em pleno despotismoIALEGRIA CERCADA DE ANGUSTIASIIA MALA DE COUROLIVRO TERCEIROA Partida doCashmereIO ANGRAZINHA PROXIMA DA IGREJAIIO DESESPERO DIANTE DO DESESPEROIIIPREVIDENCIA DA ABNEGAÇÃOIV«PARA TUA MULHER QUANDO TE CASARES»VA GRANDE TUMBA