IXComo se ganha uma demanda
Era pelos fins de novembro, ao approximar da noite. Soprava rijo o vento das bandas do sul e as nuvens acastelladas e escuras corriam como cavallo á desfilada. Principiavam a cair grossas gottas d’agua, e ao longe já rugia a tempestade. Como é vulgar no inverno, no campo, quasi que não houvera crepusculo da tarde. Apenas se escondera o sol e já a escuridão baixava sobre os campos. No sitio onde começa a acção da historia que se vae lêr, não havia noticia de povoado: era a meio de uma azinhaga, que se contorcia por entre terras cobertas de restevas, e tristes como a nudez mal vestida de farrapos.
Joaquim dos Santos tinha mettido o cavallo a trote para fugir á trovoada proxima e ás trévas eminentes; emquanto debalde procurava orientar-se por meio dos olivaes.
Joaquim dos Santos fôra um dos mais endiabradosrapazes d’aquelles lugares. Deitára fama de si pelas proezas que fizera, e o seu nome não era bem fallado n’aquellas visinhanças, como um dos maiores extravagantes d’este mundo.
Seu pae, que tinha alguns bens e que estimava devéras os seus dois unicos filhos, Joaquim e Raymundo, tratou de lhes dar educação decente, mettendo-os no mais acreditado collegio de Lisboa.
Mas, emquanto Raymundo estudava com a melhor vontade, Joaquim fazia em agua a cabeça dos professores, e peiorava de dia para dia. Não podendo aturar, o director mandou-o para casa do pae, declarando lhe, que assim como não teria duvida de ensinar de graça a Raymundo, visto o seu bom porte e applicação; por dinheiro algum d’este mundo se resolveria a supportar o irmão nem mais um dia.
Foi grande tristeza em casa de José dos Santos. As esperanças todas que depuzera em seu filho mais velho desappareciam-lhe de repente. E o velho que já pensava em o mandar a Coimbra!
Joaquim, pela sua parte, declarou-se em guerra aberta com a lettra redonda. Não nascera para doutor, nem se achava com sabedoria para lettradices. Queria amanhar terras e ser lavrador como seu pae. Seu irmão, que parecia um menino Jesus de freiras, que se desse a semelhantes pieguices: elle era um homem, tinha pulso para guiar a rabiça de um arado, e pernas para se segurar n’um cavallo.
José dos Santos só contava um defeito, ser estremoso pelos filhos como ninguem. Concordou com a vontade do Joaquim, e metteu-o no trabalho debaixo da sua direcção.
Mas, nem mesmo nos primeiros dias, o novo lavrador tomou gosto áquelle modo de vida. Aborrecia-se do trabalho e, mal que podia, furtava-lhe o corpo para ir procurar a companhia dos peiores rapazes da terra. Encontravam-no mais na taberna do que na eira, maisno jogo de bolla do que no pomar, e mais nas patuscadas do que na lavoira.
Ao passo que se ia entregando a não fazer nada, iam-lhe medrando os defeitos e engordando os vicios. Tinha fama de valentão, e tão mau se havia feito, que o proprio pae se temia d’elle.
Ninguem podia ter-lhe mão, não ouvia conselhos, nem fazia caso do que lhe diziam para bem. Um dia que seu irmão Raymundo se lembrou de lhe fallar a preceito para vêr se o fazia chegar á rasão; Joaquim, que não vinha em si, deu-lhe uma sova, que o deixou em lençóes de vinho.
Foi tambem a ultima que seu pae lhe aturou. O bom do velho apenas viu chegar seu filho querido, o seu ai Jesus, que fôra sempre uma joia, e do qual ninguem dizia senão mil bens, em braços, e que soube quem fôra o auctor de tão grande maldade, jurou que nunca mais lhe poria os pés em casa homem de tão mau coração.
Deitou luto em signal de o ter perdido e respondia a todos que lhe perguntavam porque vestia de preto:—é por meu filho Joaquim, que morreu.
Este jurou que se havia de vingar de seu irmão, ao qual attribuia a má vontade do pae, e foi cada vez a peior, passando todo o santo dia na taberna ou no jogo.
Entre os seus companheiros de perdição havia um, que sobre elle tinha mais poder; mesmo por ser o mais depravado. Era João Simões, capaz de lêr de cadeira na patifaria e de passar por doutor na pouca vergonha.
Contribuira mais do que ninguem para estragar o rapaz e fôra quem lhe ensinára melhor o mau caminho. Joaquim, tambem, não resava por outro breviario, e o que João Simões lhe dizia—era para elle um evangelho.
Andavam por aquelles tempos no lugar alguns homens a desenquietar trabalhadores para o Brazil,promettendo-lhes mundos e fundos de felicidade, quando lá estivessem, e passagem paga no navio para os que quizessem ir. João, que entrava em todos os negocios de má condição, travou conhecimento com os taes meliantes, e fez-se dentro em pouco um dos mais espertos alliciadores da companhia.
Como estava corrente com tudo que se passava, pois bem sabem que a occupação do vadio é entreter-se com as vidas alheias, viéra a ser em pouco tempo o perdigueiro de melhor faro para levantar a caça. Conhecia os que tinham menos dinheiro, os que mais desejavam ganhal-o com pouco trabalho, os que tinham melhor embocadura para o vicio, e os que menos duvidavam de abandonar terra e parentes.
Onde deitava a rede tirava peixe, já era sabido. Ninguem como elle acertava tão bem.
Apenas José dos Santos pôz seu filho fóra de casa, logo João tencionou seduzil-o para embarcar, e sem grande difficuldade conseguiu convencel-o de que era o melhor partido que tinha a seguir.
Como elle jurava nas palavras do seu mestre, acreditou em tudo quanto lhe dizia, protestando entretanto, que se fosse desgraçado grande vingança tiraria de seu irmão Raymundo, o causador de tudo, lá no seu modo de vêr. João entretendo-lhe a furia foi acompanhal-o ao embarque, encarregando-se não só de tratar de quantos negocios porventura viesse a ter; mas ainda de realisar os planos vingativos contra o irmão.
Tornou-se assim depositario de todos os seus odios.
João incumbindo-se d’esta vingança, trabalhava tambem por sua conta, pois jurára pela pelle de Raymundo, desde que este o tratou desabridamente, e lhe voltou costas n’um arraial.
O desgosto de vêr seu filho tão mal encaminhado levou o pobre pae á cama: e Raymundo teve de deixar os estudos em meio para vir junto do velho, governar a casa e tratal-o na doença.
Entrementes que estava cuidando em seu pae tomou-se de amores com uma rapariga da terra; e como era boa de caracter e boa de reputação, apesar de pobre, casou-se em breve, ganhando todos com o casamento. Elle porque alcançára uma esposa extremosa, José dos Santos porque ganhava uma enfermeira sollicita, tão desvellada e tão carinhosa como a melhor filha.
Porém quando o mal é de morte triste remedio lhe podem dar o saber dos medicos, ou o cuidado dos enfermeiros. A ferida do doente era mesmo no coração, não tinha cura. Apesar da maneira porque Joaquim para com elle se houvera, estimava-o porventura mais ainda do que ao seu obediente e bom Raymundo.
Caprichos do sentimento, que mais nos fazem prender a affeição, a quem menos nol-a merece; o velho, embora comsigo mesmo o negasse, dera parte maior do seu coração ao filho perdido.
Muitas vezes em piedosa e apaixonada analyse se desculpava d’esta parcial fraqueza. Era a ovelha desgarrada, que cuidados maiores requeria do pastor, era a terra maninha que pedia melhor cultura, era a arvore desviada, que chamava mais attenção para lhe emendar o erro.
A lembrança do filho era o tormento, e a enfermidade mais perigosa, que o definhavam. O barbeiro-sangrador do logar, e o cirurgião visinho tinham feito repetidas juntas sem atinarem com a rasão do mal. Resolveram por fim, que padecia do interior, e acertaram sem saber.
José dos Santos ria-se dos entes de rasão dos dois physicos, e sujeitava-se resignado ao tratamento que lhe applicavam. Seu filho, sua nora, até o netinho de peito, todos se acercavam d’elle inquietos e suspeitosos da verdadeira causa do mal. Porém tão callado se conservára o doente, que não tinham passado de conjecturas.
Á hora da morte apenas se lhes desvaneceram asduvidas, porque, conhecendo como estava, chamou-os a todos, lançou-lhes a benção, e depois erguendo os olhos ao céu, exclamou:
—Compadecei-vos tambem d’elle, Senhor, tocae aquella alma perdida, com um raio da vossa divina graça... Se algum dia tornares a vêr teu irmão, meu Raymundo, dize-lhe, que lhe perdoei tudo, e, que ao despedir-me do mundo, lhe deitei, cá de tão longe mesmo, a minha benção de pae.
Casa onde entra doença, não é o dinheiro que a aguenta: a molestia de José dos Santos foi a ruina d’aquella familia. Durára perto de dois annos o padecer do velho; custára muito áquella organisação robusta o desprender-se do mundo, luctára como um homem; o desgosto, porém, vencera-o por fim.
Tudo estava empenhado, quando o antigo lavrador falleceu: foi mister pedir dinheiro para o enterro, e Raymundo amanheceu um dia sem pae, sem haveres, e com o filho e a esposa para sustentar.
Demais a familia promettia-lhe augmentar-lhe, porque Leonor, sua mulher, estava gravida de tempo: e tanto que em poucos dias deu á luz uma filhinha, formosa como um serafim, e córada como uma rosa de primavera!
Diz-se que os filhos são a riqueza do pobre. Triste ironia!—Para o que padece de necessidade a vista das creanças sem pão é tormento mil vezes maior do que a propria fome. Quantos não sacrificariam a vida de bom grado, se em paga soubessem que garantiam a existencia dos seus!
Supplicio, que se não descreve, é vêr os innocentes, menos soffridos e porventura mais sinceros, não disfarçarem a fome e chorarem pedindo pão.
Emquanto a desgraça o perseguia, Raymundo, sem desanimar, ia trabalhando sempre, amparado pela força de vontade e pelo sentimento do dever.
Pelo contrario a fortuna, caprichosa como sempre,sorrira para Joaquim cujos negocios lá pelo Brazil iam de vento em pôpa.
João Simões, que com elle se correspondia regularmente, não descançava de lhe acirrar os odios contra seu irmão, o qual para de tudo o privar, até lhe roubára a benção paterna, fazendo com que o velho á hora da morte amaldiçoasse o filho mal procedido.
Como já se disse, succedera o contrario; mas o Simões, que era uma alma damnada, queria vingar-se de Raymundo, e não recuava, por conseguinte, deante de uma mentira, ou duas que fossem.
Ao mesmo tempo encarecia lhe a prosperidade da casa e os grandes negocios, que José dos Santos fizera nos ultimos tempos: dizia-lhe, que seu irmão ficára disfructando uma grande fortuna, que se fingia pobre para não fazer partilhas, e que se Joaquim lhe mandasse procuração para tratar d’esse negocio, em breve lhe mostraria, se era ou não verdade, que seu irmão queria enganar toda a gente com a sua mentirosa pobreza.
Conseguiu por fim o que desejava: e mal teve a procuração em seu poder, começou a perseguir o desgraçado Raymundo a quem já devia bastar o seu mal.
A justiça não costuma estar em casa para receber os pobres; João Simões dispunha de dinheiro, e entendia de demandas, fazia o que queria. Taes artes teve, de taes manhas se soccorreu, que conseguiu em pouco, que passassem um mandado de penhora contra Raymundo, como cabeça de casal em nome de seu irmão: emquanto este, lembrando-se com saudades da patria ia liquidando os seus negocios, para poder regressar quanto antes. Tinha ganho algum dinheiro; mas não tinha contrahido amisades: e estava rico; mas só e triste.
Mudára de vida completamente: aquelles annos tinham-no amadurecido, mas tambem o tinham cançado e gasto. Estava velho antes de tempo, precisava descançare não ha como a terra da patria para alliviar penas de velhice e melancholias de coração. Havia bem pouco que chegára, quando nós o encontrámos, fugindo da tempestade, e orientando-se por entre campos.
Eram recordações, eram saudades, que o tinham demorado, seguindo por aquellas visinhanças, parando diante d’uma arvore, descobrindo-se diante d’uma cruz, apeando-se muitas vezes para ir ajoelhar diante d’uma pedra.
Tudo lhe fallava á memoria, tudo lhe fallava ao coração.
Aqui passára tanto tempo espreitando seus companheiros, que o procuravam, e elle escondido; ali tivera o primeiro encontro apaixonado; mais em baixo estivera com seu pae; mais além descançava este em horas de calor, ou esperava os trabalhadores das suas fazendas, ao recolherem, para lhes perguntar noticias do trabalho.
E uma pedra para junto da qual viera correndo um dia a fugir do cão do tio Fernandes, esconder-se no regaço de sua mãe, toda em sustos de principio; tão enfurecida mais tarde apenas soube que fôra elle, quem desafiára o cão!
Mundo de melancholicos e piedosos phantasmas, mundo, que o alheava á realidade, que o apartava do presente, tão só, tão vasio, tão sem significação, para lhe abrir francas, patentes e compassivas as portas do passado, tudo ali se transformava para elle, e em cada cousa cuidava vêr uma feição querida, uma lembrança, uma alegria ou uma dôr.
Por vezes lhe rebentaram as lagrimas dos olhos, por vezes sentiu-se suffocado, por vezes desejou, emballado pela doce harmonia da saudade, adormecer de todo no dormir, em que já descançavam seu pae e sua mãe.
E, que o explique quem melhor o pensou, nas occasiões, em que o sentimento é em nós mais placido, mastambem mais profundo; nas horas de amor duvidoso, de aspiração indefinida, de descontentamento irremediavel e infundado, parece que se levanta entre nós o desejo de outra vida, de outro mundo, de outra existencia, não sabemos qual, mas que nos parece ter já vivido, e para o qual nos persuadimos, teremos de voltar.
N’essas horas de extranho e amoravel sentir, como desterrados de regiões bem diversas d’estas, desejamos vêr terminado o desterro e immediata a hora de regressar.
Foi o approximar da tempestade que o distrahiu d’estas melancholicas cogitações; deitou os olhos em roda e não conheceu o sitio. Tinha-se perdido no caminho. Novas estradas, novas mudanças tinham-lhe transformado o mappa, que a memoria lhe estampára no coração, via-se a meio de olivaes e as arvores confundiam se já com as sombras da noite.
Seguira, sem dar por isso, o melhor caminho, a estrada nova, e que por conseguinte não era do seu tempo. Não podia estar longe o povoado, mas a chuva cada vez apertava mais, e o cavallo já não queria andar assombrado com o fuzilar continuo dos relampagos, e atturdido com o ribombo temeroso dos trovões.
Entretanto estava resolvido a seguir á ventura, certo de que em pouco tempo encontraria abrigo; quando deante de si, na quebra de uma azinhaga, lhe pareceu vêr uma sombra rasteirinha coser-se com o muro e seguir a modos de homem, que fosse agachado, como receando ser visto.
—Quem vae ahi? perguntou Joaquim que costumado ás aventuras do sertão não se inquietava muito com um mau encontro.
Mas a sombra seguiu mais apressada, sem dar resposta.
Joaquim chegou esporas ao cavallo e correu sobre o vulto.
Proximo reconheceu duas creancinhas, um rapasito de sete annos, ao mais, e uma menina de seis, que de mãos dadas e tremendo de medo ambos, ajoelharam quando o viram ao pé de si, exclamando o mais velho, e que parecia mais animoso.
—Não nos faça mal, temos o pae doente e vamos levar-lhe este remedio, que lhe receitou o mestre Eusebio.
(Eusebio ainda era sangrador-barbeiro approvado pelo proto-medicato, e facultativo á falta d’elles).
Depois voltando-se para a irmã, que se fazia bem pequenina para se esconder atraz d’elle, disse-lhe, mudando as fraquezas em forças, e n’um tom mais seguro, como para lhe incutir valor.
—Não tenhas medo, Isabel, aquelle senhor não nos ha de fazer mal, não vês que tem cara de boa pessoa!
O pequeno não podia perceber que tal fosse a physionomia de Joaquim; esta amabilidade era pois um argumentoad benevolentiam, aprendido quasi intuitivamente, na rethorica saloia.
—Não faço mal, não, pobres pequenos, com este tempo, tão mal resguardados!
Isto era dito já a pé junto d’elles e detendo se com verdadeira compaixão ao attentar nos farrapitos, que mal os cobriam.
—Nós cá não tem duvida: o pae é que precisa mais, está tão doente.
—Ha tres dias que não come nada.
—E a nossa mãe, coitadinha, ha oito dias que não dorme!
—E o pae, está com uma cara! Nossa Senhora nos valha, parece um defunto.
—Não digas isso, Isabel!... depois approximando-se mais de Joaquim, com quem ia já acostumando-se, e como para lhe provar que não era creança, o rapasito continuou mais de vagar; o pae está muito mal, que eu bem vi a cara que fez hontem o mestre Eusebio, mas a mãe não desconfia e a Isabel nada sabe.
—É muito longe a sua casa?
—Não, meu senhor, é logo alli.
—Pois vamos lá, que eu tambem os acompanho. Já agora... Não temos outra noite, e d’aqui ao lugar ainda ha uma boa meia legua bem puchada. Quando lá chegasse achava tudo fechado.
—Mas o senhor vae ficar muito mal accomodado, exclamou a pequena, que ainda se não affizera muito ao seu novo conhecido, a gente é tão pobre!
—Não tem duvida, minha menina, em qualquer canto me arranjo, sou facil de contentar.
—Oh José, eu tenho medo do homem, elle vem com a gente? perguntou ao ouvido a pequenita a seu irmão.
—Tu tambem, sempre és uma medrosa!... E d’ahi não sabes que lá em casa não ha que levar!
—Sim, mas olha eu sempre tenho medo.
Joaquim comprehendêra pelo conchegar assustadiço da creança para seu irmão, e pelos modos importantes que este assumira, qual tinha sido o dialogo em voz baixa, e sorrindo-se disse á pequena:
—Não tenha medo de mim, não sou nenhum ladrão. Mas bem pelo contrario a prevenção mais assustou a creança, que não atinando com o modo porque elle ouvira a sua conversação, exclamou apressurada, mas sem olhar para o seu interlocutor:
—Eu bem sei que o senhor não é nenhum ladrão; mas... adivinha o que a gente diz!
—Então minha menina, julga-me agora feiticeiro?
—Deixe-a fallar, é uma creança, ainda não fez seis annos.
—E o menino é um homem, não tem medo.
—Eu já tenho sete annos, e d’ahi o senhor não havia de fazer mal a duas creanças, nem a meu pobre pae. Está tão doente!
—Pois deixem estar que eu verei se sei d’algum remedio, que lhe faça bem. Pelas terras, por onde andei,aprende-se muita coisa e eu conheço algumas drogas que talvez aproveitem: e d’ahi eu quero pagar-lhes o agasalho, tenho com quê.
—O senhor dá cura ao pae?—Que bondade seria a sua!
—Não te dizia eu, Isabel.
—Ora pois então vamos lá. Digam-me seu pae é muito velho?
—Não senhor, tem trinta annos e mais alguma coisa, os desgostos é que o acabaram muito.
—Pobre homem!
—Demais a mais um tio, que anda lá por fóra quer tirar-nos tudo. E d’ahi o pae, vive tão apoquentado!
—Um tio?
—Sim, senhor, atalhou a pequena, um tio muito mau! Sempre tenho uma raiva ao meu tio!...
—Calla-te, mana, tu não sabes que o pae diz que o tio não tem a culpa?
—Então o tio anda ha muito por fóra! Como se chama?
—Ora o senhor não o conhece, replicou o rapaz meio desconfiado; está muito longe.
—Quem sabe, ás vezes! Diga-me sempre como elle se chama.
—É o tio Joaquim.
—E está?...
—Lá para o Brazil.
—E seu pae, chama-se?
—Mas o senhor de certo não se importa com a vida da gente, respondeu o Josésito, que já não ia gostando de tanto perguntar e que receava, com aquella giria que parece acompanhar os saloios desde o berço, que lhe podesse porvir algum mal das suas respostas.
—Por amor de Deus diga-me como se chama seu pae.
—Assim, como assim, o senhor sempre o ha de vir a saber, chama-se Raymundo.
—Então os meninos são?...
E a commoção embargou-lhe a voz.
—Somos, sim senhor, somos filhos de meu pae, eu chamo-me José, que era o nome de meu avô, e minha irmã é Isabel, porque nasceu no dia de Santa Isabel.
—Pois eu...
Mas a reflexão cortou-lhe a palavra: queria vêr; queria, antes de se declarar, que aprendessem a abençoal-o. Entretanto, agarrou-os bem para si e abraçou-os muito enternecido.
—O senhor está a chorar, disse Isabel com aquella perspicacia de mulher mesmo pequena, olhe, já vou gostando mais de si!
—Gosta, gosta, minha Isabelinha, que eu tambem gosto muito de ti. E tu lá, José, tambem és meu amigo?
—Eu engracei comsigo logo ao principio. Aqui está a nossa casa; e batendo á porta:—mãe, mãe, aqui vem um senhor, que sabe d’um remedio para curar o pae! Abra a porta, mãe, somos nós.
Effectivamente estavam á porta de Raymundo. A luz que vinha de dentro ao abrir, cegou por momentos a Joaquim, que só depois de se costumar á claridade é que pôde dar fé do interior d’aquella habitação.
Era uma casa terrea, que accumulava as funcções de cosinha, sala, casa de jantar e quarto de dormir dos pequenos. A um canto uma cortina de chita muito remendada resguardava-lhes a alcova; do lado direito uma porta meia aberta dando para o escuro, d’onde saía o som angustiado e sibilante de uma respiração irregular accusava o quarto do enfermo: junto da chaminé, onde ardiam em chamma fraca e incerta alguns cavacos apanhados na estrada, via-se uma cadeira antiga de espaldar de coiro e pregaria amarella. Era o unico movel de algum valor.
Uma meza de pinho, bem tosca e bem pouco segura, umas pratelleiras sobre a meza pregadas na parede,onde se viam uns pratos quasi todos rachados e alguns tachos bem velhos, tres mochos em roda da meza, uma arca carunchosa ao lado da porta de entrada, dois registros por cima da arca, uma palma e um rosario crusando-se sobre os registros, constituiam toda a mobilia, a que accrescentaremos apenas, para que a descripção seja completa, um banquinho proximo á entrada do quarto do doente e junto da arca, d’onde Leonor se levantára para abrir a porta aos recem-chegados.
Sobre a arca uma lamparina allumiava os santos e dava claridade para o trabalho de Leonor, que ali, ora levantando os olhos de supplica para as imagens, ora volvendo-os cuidadosa para o quarto onde jazia o esposo, remendava um capote de Raymundo, sobre o qual de vez em quando caiam as lagrimas da desgraçada.
A luz incerta do brazeiro, sobre o qual e para o escurecer mais ainda estava uma panella de folha, em duas pedras, que suppriam a fornalha; e o clarão mais terno ainda da lamparina, luctando com as sombras e perdendo-se na escuridão, tornavam a casa mais vasta, mais nua e mais triste.
—O pae está descançando, não façam bulha, apressou-se em dizer aos seus dois filhos a attribulada mulher. Depois voltando-se para Joaquim:—Vossa senhoria ha de perdoar, os pequenos é que tiveram a culpa de o cá trazer, bem vê que não temos accommodações para hospedes; depois a doença de meu marido...
—Olhe, mãe, segredou-lhe o José como quem queria dar a entender que não andára de leve, elle tem dinheiro para pagar á gente, e diz que traz um remedio que dá cura ao pae...
—Não venho para encommodar. Estou affêito a tudo, e qualquer coisa me satisfaz, uma pouca de palha e uma manta, uma manta só, coisa nenhuma que seja; mas licença de descançar ahi sentado, e de adormecercom os braços sobre a meza e a cabeça encostada aos braços. Eu sei o que são doenças, e talvez mesmo lhe possa servir de algum prestimo. Nas terras por onde andei nem sempre havia medico á mão, nem boticario ao pé da porta. Ia-se a gente curando conforme podia, e aprendendo á sua custa...
Emquanto Joaquim proseguiu no seu arrasoado, examinava sua cunhada, que pela sua parte aproveitava tambem estes proloquios para observar o hospede que seus filhos lhe traziam.
Leonor era ainda uma formosa mulher, posto que o desgosto lhe tivesse gravado algumas rugas na physionomia e embranquecido alguns cabellos. Morena, olhos pretos e rasgados, nariz recto e fino, labios delgados e vermelhos, rosto oval, um d’estes typos peninsulares, mescla formosa do sarraceno trigueiro e nervoso, como as filhas do norte pallidas e lymphaticas.
Era esbelta e da altura propria de mulher. Tinha sentimento na physionomia e elegancia no corpo. Mostrava o que devera ter sido, antes que as maguas a envelhecessem e os trabalhos a cançassem.
A tristeza espalhava lhe pelo rosto um melancholico mas diaphano véu, atravez do qual transparecia a vermelhidão do pejo ao lembrar-se da má hospedagem, que com difficuldade podia offerecer. E quanto mais olhava para Joaquim mais ia sympathisando com a cara rude mas franca do recem-chegado.
Este mostrava tambem ter muito mais edade do que tinha. Valera-lhe por dez um dos annos que passára no sertão: mas aquella belleza agreste do homem callejado no trabalho, aquella lhaneza não destituida de finura, que se adquire no trato licito, mas laborioso e muitas vezes bastante complicado, davam-lhe relevo ás feições e imprimiam-lhe um cunho particular. Trajava simplesmente e como lavrador abastado.
Apesar da compostura que se notava no traje deLeonor, apesar do cuidado com que vestia e do aceio da sua roupa, a mão da miseria denunciava-se a todo o momento. Da miseria que não faz alarde de si, que se esconde, que se disfarça, que tem pejo do seu estado e receio de que a conheçam. Miseria timorata e desconfiada, a que tudo offende, porque tudo a fere; que de todos foge, porque, sem quererem mesmo, todos a escandalisam. Uns pela ostentação, outros pelo dó, pela indifferença mesmo outros. Miseria que sorri por fóra emquanto chora por dentro, que apparenta desapego emquanto treme pelas consequencias, que encontra perigos sempre diante de si, e que soffre tanto mais, quanto receia que o desabafar seja tido como uma supplica e a franqueza como um rodeio para pedir. Miseria que se roça por nós sem que a conheçamos, e que por um nobre orgulho denomina doença a fome, desleixo o máu vestuario, extravagancia a necessidade.
Tal era entretanto a que se lia no modesto e envergonhado trajar de Leonor, e que Joaquim, com a perspicacia que dá tambem a infelicidade, conheceu á primeira vista.
—Se não fosse a molestia do meu Raymundo, proseguiu ella, melhor agasalho lhe poderiamos offerecer; mas assim... Parece que Deus se esqueceu da gente a alguns annos a esta parte! E tudo por causa de um mano de meu marido... que elle não quer ouvir tal, e pelo contrario sempre defende o irmão, que no seu dizer não tem culpa do que faz um tal João Simões... mas o senhor não se interessa com isto. Vou vêr se lhe posso offerecer alguma cousa de cear, e perdoará a limitação.
E, emquanto fallando e dando voltas, Leonor ia preparando a ceia, e espreitando sempre o quarto de seu esposo, para se certificar se este continuava a dormir; Joaquim ficára á porta, de pé, chapéu na mão e como pasmado a comparar aquella pobreza, com as informações que recebera.
Leonor reparou na posição do seu hospede, e indicando-lhe a cadeira de espaldar, proxima da chaminé:
—Vem molhado, e está ahi em pé, sem se chegar ao menos para o lume, sente-se: ainda assim esta cadeira é a predilecta de meu marido, era onde se sentava quasi sempre meu sogro.
Joaquim já tinha conhecido a poltrona, mas quando Leonor lh’a indicou pedindo-lhe, que se sentasse, não pôde dominar uma visivel commoção. Teve duvida, quasi medo de se sentar. Parecia-lhe vêr seu pae apontando-lhe para aquella casa, para aquella miseria e expulsando-o. Affigurou-se-lhe de repente o quadro, que tantas vezes examinára. O rosto entre severo e indulgente de José dos Santos inquieto por amor do filho, que se demorava, e preparando um sermão, que levava a cabo raras vezes, porque antes de meio lhe desarmava as iras o verdadeiro affecto paternal.
Leonor, que não podia acertar com a causa de semelhante hesitação, attribuiu-a a causa bem differente.
—Não faça cerimonia, se meu marido estivesse aqui, elle mesmo lh’a cederia, que sempre lhe ouvi dizer, que era dever sagrado fazer bom acolhimento aos viajantes. E perdôe vossa senhoria que eu ande no meu trafego.
N’este comenos, remechêra na arca, e bem vermelha de vergonha tirára um panno muito lavado, é verdade, mas cheio de remendos, e que estendera sobre a mesa; desencantára n’um armario velho, que pelo estado em que se achava e pelo pouco vulto que fazia nos esqueceu mencionar, duas brôas de milho e alguns queijos brancos salgados; escolhêra da pratelleira os pratos menos quebrados, a que juntou os talheres, que apesar de serem de chumbo, pareciam de prata pelo brilho, tão limpos estavam: e indo buscar á chaminé a panella onde fervia um caldo de couves e toucinho, convidou o seu hospede a tomar parte d’aquella ceia.
Não era coisa sufficiente, bem o sabia, mas a suapessoa havia de desculpar, pois que não esperava ninguem de fóra nem estava no auge de o receber como desejava, pois a doença do seu homem a tinha quebrado de pernas e braços.
—E o que diz o facultativo da doença do seu marido?
—Diz, que é uma dôr no interior, que lhe costuma a dar e que é de muito perigo se continua, que elle já é attreito a padecer do figado, que segundo parece é molestia de familia, e que lhe póde subir o mal ao bofe se não puchar abaixo com força. E será assim?
—Não o creio. Deus ha de affastar o agoiro do tal barbeiro.
—Elle tambem diz, que é bom dormir, e o meu Raymundo ha umas quatro horas que está descançando tão socegado, que parece mesmo uma creança.
—Isso sim; o dormir é sempre um excellente remedio, restaura as forças e faz cobrar saude. D’ahi seu marido deve estar amofinado por lhe correr o negocio mal. Não me fallou ha pouco de um irmão?...
—Do Joaquim, fallei, sim senhor.
—Então esse Joaquim?
—É, segundo a minha opinião, a causa de tudo isto. Que o Raymundo diz que não, e jura que não era capaz de fazer uma acção d’estas, se soubesse do estado a que chegámos...
—Que acção, atalhou precipitadamente Joaquim?
—Uma penhora, á gente, n’isto que o senhor ahi vê. Na verdade vale bem a pena de incommodar a justiça, ha de ficar bem rico, não tem duvida nenhuma! Mas ainda assim, Deus sabe a falta que nos faz tudo. Ficamos a pedir esmola. Até agora ainda tinhamos o nosso buraquinho para uma afflicção; mas de hoje em diante...
—Que diz?...
—A verdade. Um tal João Simões, é que tem andado acceso n’este negocio todo, porque tomou asca aomeu Raymundo desde que elle um dia, já de proposito, por saber que era o Simões que lhe desinquietava o irmão, lhe voltou costas no arraial de Nossa Senhora do Rosario. Depois, apresentou-se feito procurador do Joaquim, deu testemunhas... se o senhor soubesse, que testemunhas!... as caras mais atraiçoadas do logar, em como o pae de meu marido tinha deixado muitos bens, que o meu Raymundo estragára tudo, e depois tem andado em demandas para puchar pela legitima do amigo. Legitima!... Só se foi a benção do pae á hora da morte, porque emquanto ao mais! Nem chegou o dinheiro para o enterro, que foi preciso ir pedil o fóra.
N’estas alturas do dialogo um gemido do doente chamou a attenção de Leonor que correu á alcova de seu marido e por lá se deteve. Cançada de lidar, apenas se certificou de que o marido continuava dormindo e que o gemido fôra apenas sobresalto de algum sonho angustiado, sentou-se aos pés da cama, e passando as contas de um rosario, cedeu por fim ao cançasso e adormeceu tambem. Os pequenos logo depois da ceia tinham ido aninhar-se para o seu cantinho, e havia muito que resonavam.
Joaquim ficára entregue ás suas reflexões.
Correram as horas, esmoreceu de todo o lume no brazido, apagou-se a lamparina, ficou a casa em trevas devassadas apenas pela luz diffusa da atmosphera, que passava pelas fendas do tecto: e elle cogitava ainda no passado e no presente, nos seus sonhos, nas suas aspirações, nos seus erros e nas suas culpas.
A solidão d’aquella casa povoava-se-lhe de vultos, todos elles conhecidos, todos eloquentes: alguns severos julgadores, outros saudosos e indulgentes amigos. Uma a uma iam-lhe correndo as scenas da sua infancia, via, como em lanterna magica, recortarem-se nas trévas do aposento as figuras de quantos havia conhecido, de todos com que lidára, e superior a todas como absorvendo-ase substituindo as, a figura veneranda de seu pae, ora exprobando-lhe terrivel o quanto perseguira seu irmão; ora sorrindo-lhe amorosamente na hora derradeira e estendendo-lhe sobre a cabeça as tremulas e enrugadas mãos para o abençoar.
Ao assomar da alvorada pendendo-lhe as palpebras adormecia tambem; não com o somno socegado e reparador, que se segue ás fadigas do corpo; mas com aquella modorra agitada e febril, que é o decair das grandes luctas moraes. Cabecear cortado de sobresaltos, dormir carregado de pesadellos, descanço, que nos deixa mais cançado ainda.
Entre dormindo e acordando começou a ouvir o seguinte dialogo:
—Como te sentes, Raymundo?...
—Melhor, Leonor, muito melhor. Fez-me bem o somno d’esta noite. Já vieram?
—Quem?
—Os officiaes de justiça, os que hão de fazer a penhora.
—Não cuides n’isso, que te amofinas, talvez não venham; talvez fosse tudo palavriado do Simões para assustar a gente. É impossivel que não olhem ao teu estado.
—Qual olham, nem meio olham! Bem se conhece, que não entendes d’estas coisas. Pois tu não sabes que a justiça é cega? Taparam-lhe os olhos para que não visse a desgraça dos pobres.
—Mas teu irmão!
—Não sabe de nada, Leonor, diz-me o coração que não sabe de nada. O Joaquim teve sempre a cabeça levantada; mas no fundo não era mau rapaz. Se elle soubesse o que o Simões tem feito já lhe tinha tirado a procuração.
—Tu tambem sempre o defendes, és a bondade em pessoa, meu pobre Raymundo, não ha para ti ninguem mau n’este mundo.
—Olha, o Joaquim se não fossem as más companhias não teria feito o que fez: não gostava de se chegar para o trabalho, era o seu senão; mas não era capaz de fazer mal a ninguem, nem rapaz de mau interior.
—Foi elle que matou teu pae, e que no fim de contas nos tem levado a este estado com as suas demandas.
—Não digas isso, Leonor, que me affliges. Meu pae morreu, porque lhe tinha chegado a sua hora, custou-lhe muito a partida de Joaquim; mas abençoou-o á hora da morte. Lembras-te, não é assim? Se elle perdoou, porque não havemos nós de perdoar...
—Obrigado, irmão!
Era affogada em lagrimas a voz de Joaquim, que estava entre portas do quarto. Tinha accordado e escutado cada vez com maior attenção o dialogo, que tão de perto lhe dizia respeito. Julgou ao principio que seria sonho, conheceu depois que era realidade, e tremendo todo ergueu-se e, para melhor ouvir, approximou-se do logar d’onde partiam as vozes.
A gratidão, e talvez o remorso fizeram-lhe soltar aquellas duas palavras, que cortaram o dialogo.
Raymundo conheceu a voz, sem que podesse distinguir-lhe o rosto, porque o irmão estava de costas para a claridade; pareceu-lhe que invocára um phantasma, estendeu para elle os braços, exclamando:
—Joaquim!
E caiu desmaiado com o abalo.
Joaquim precipitou-se chorando para junto da cabeceira do irmão, abraçou-o vezes infinitas e teve o indisivel jubilo de o vêr tornar a si em seus braços.
—És tu, meu irmão!... Bem me dizia uma voz cá dentro, que havias de voltar.
—Perdoas-me, Raymundo?
—Perdoei-te sempre. Tu é que tens que me perdoar.
—O que?
—Não te haver já transmittido a benção do pae. Ajoelha, Joaquim.
—Em nome do nosso bom pae que está nos céus, eu te abençôo, meu irmão: sê bom como elle foi, e mais feliz do que eu tenho sido.
—Sel-o hemos todos, Raymundo, porque se me deixas viver comtigo, nunca mais saio da tua companhia.
Escusado é dizer agora como terminou esta historia. João Simões não pôz mais pés na terra; Joaquim tinha-lhe jurado pelo corpo, e elle bem sabia que não era homem de faltar á sua palavra. Declarára que seria a sua ultima extravagancia; mas d’essa não desistia nem por Christo. O caso era encontrar o seu procurador.
A doença de Raymundo desappareceu breve, e a alegria voltou áquella casa, para não a desamparar mais.
Muitas noites, quando se conchegava para o pé do lume, depois de ter contado aos sobrinhitos que o não deixavam por contos, uma historia do Brazil, Joaquim voltava-se para o irmão e para Leonor e dizia-lhes sorrindo:
—Sempre hão de confessar que estes endiabrados pequenos são uns grandes doutores! Como elles nos souberam ganhar a demanda!...