VIO fructo prohibido

VIO fructo prohibido

Adeus, Rosa! Adeus! E adeus para sempre!

—Ai! para sempre, meu Estevam?

—Que queres que eu faça, dize?

—Sei-o eu, por ventura? Mas partir... e o mar?... É tão bravo!

—Não só no mar ha bravezas, na terra corre-se risco de maior: se eu ficasse!...

—O que fazias?

—Ou mettia uma navalha no Januario ou dava um tiro n’estes miolos.

—Jesus, homem, tentação do demonio é essa, cruzes! Parte, parte, meu Estevam, mas não te esqueças de mim.

—E tu?

—Eu! Sempre.

—Adeus!

—Não te verei ainda ámanhã?!... Antes do embarque?...

—Não, o que ha de ser seja, quanto mais estiver com demoras, mais me faltará o animo. Adeus Rosa, sê feliz.

—Adeus, Estevam, volta breve.

—Voltar para que? Para te vêr entregue a outrem, que virás a amar, se é que o não amas agora?... Para presencear essa vida de felicidade, que é a minha desgraça, o meu tormento; para comprehender que me illudiste, quando me juraste um amor eterno! Amores eternos de mulher, como as flôres d’este nome, que duram mezes, e que os primeiros sopros do inverno derrubam!...

—Deus te perdôe a injustiça que me fazes!

—Para que casas?

—E a maldição de meu pae?... Meu pae amaldiçoava me Estevam.

—E o nosso amor!

—Fica-me no coração, ha de me matar, descança.

—Antes tu morresses...

—Oh! Quem dera!

—Não fallemos mais em semelhante coisa. Para que has de dessimular ainda?

—Se eu pudesse rasgar este peito, que me opprime, se pudesse arrancar-lhe este coração que é teu, e o ha de ser sempre, se te podesse mostrar como elle padece, não duvidarias de mim.

—Queres que te agradeça talvez, queres que te bemdiga não é assim, queres que estime saber, que pertences a outro, não é verdade?

—Não, Estevam, quero que tenhas dó de mim, e que me esqueças!

—Esquecer-te, eu! E a minha existencia de até hoje, que foi sempre tua, e a minha fé no futuro, que estava em ti, e a minha vida toda, que te pertence; queres que esqueça tudo?... Se não fôra minha mãe!...

—Tua mãe!

—Sim, minha mãe, pobre e santa velhinha, que nãotem no mundo mais do que eu, que lhe queira e que a ampare. Minha mãe, que eu mataria se morresse; minha mãe, a unica que me tem tido amor na terra!...

—A unica! Talvez...

—Olha, Rosa, escusas de fingir, para quê? Não vale a pena. Ámanhã por estas horas já estarei d’aqui bem longe. Só o que te peço, como um ultimo favor, como uma esmola, é que te lembres de minha mãe, que lhe enxugues as lagrimas, que chores com ella,—não te ha de custar muito, sabes tão bem illudir!—e que depois uma e outra vez te lembres de que te amei... e muito.

—Pela alma da minha te juro, ha de ser minha mãe.

—Obrigado, Rosa. Adeus!

—Não me queiras mal.

—Não poderia, ainda que quizesse.

—Não queiras, Estevam, não, que t’o não mereço, perdôa-me e... não te esqueças de mim!... Meu pae, que nos vê, foge Estevam, elle encaminha-se para este lado.

—Adeus!

Passava-se este dialogo no pateo da quinta deValle do Freixono dia de S. João, ao amanhecer.

Houvera um bailarico de primor, a que tinham concorrido os rapazes e as raparigas das visinhanças e com elles os paes, as mães e os tios.

Era um poder de gente, que passára a noite a cantar, a dançar, a pular, a rir, a comer, a beber, a respirar alegria: a provar que os cuidados lhes não pesavam na consciencia, nem o mau humor no espirito.

Fôra um dos mais brilhantes bailaricos de que havia memoria.

O dono da quinta pozera uma grande meda de vides á disposição da fogueira, e uma pipa de vinho ás ordens dos concorrentes; mandára cozer varias amassaduras de pão, frigir um por ahi além de peixe; transplantára dois alfobres de alface para quatro alguidares,juntando-lhes tambem quatro cestos vindimos com a fructa do tempo, e sobre tudo a boa vontade e o contentamento a resplandecerem-lhe na physionomia, convidando todos a divertirem se.

Infelizmente, porém, nem todos podiam estar alegres. N’aquella multidão buliçosa duas creaturas havia tão tristes, tão attribuladas, que cortava o coração olhar para ellas: parecia que tinham vindo assistir, não a uma festa, mas a um enterro.

E na verdade, ali enterravam vinte annos de esperança e de amor: n’aquella noite se viam em despedida, e só Deus poderia saber se essa despedida seria eterna.

Rosa e Estevam tinham vivido juntos desde creanças e tinham-se acostumado a amar, antes, ainda antes de saberem o que era amor. Conheceram o que era quando começaram a padecer; porque é no soffrimento que elle desabrocha, como as rosas de mais apreço nos seus berços de espinhos.

Juntos balbuciaram as primeiras palavras, juntos aprenderam a lêr, juntos iam á escóla, juntos voltavam ás tardes, e juntos passavam as noites brincando no campo e discorrendo alegremente, como duas avesinhas chilrando proximas na mesma arvore.

E encontra-se o que quer que seja de gorgear de passaros no palrar infantil, que borboleteia de assumpto em assumpto, soltando de quando em quando notas agudas de admiração, ou modulando trilos narrativos de tanta viveza e simplicidade.

Disseram em commum as primeiras orações, e muitas vezes os surprehendia o passeante enternecido, de joelhos e mãosinhas erguidas para o céo, repetindo em côro:—«Perdoae-nos, Senhor, as nossas dividas...» dividas, de um ninho surprehendido entre as giestas, ou de uma innocente mentira a denunciar-se logo pelo rubor da candura e pelo borbulhar de duas lagrimas de arrependimento, se por ventura os interrogavam.

E que lindo grupo, quando estudavam juntos a lição do mestre, ou a reza que a mãe lhes ensinára, sentadinhos no limiar da porta, um repetindo entre incertezas e duvidas; outro escutando com toda a attenção e com ares concentrados, como quem comprehendia a gravidade da sua posição de professor: mas ambos a reverem-se um no outro e a casarem torrentes de luz, que lhes chispavam d’aquelles olhos brilhantes, vivos, buliçosos, humidos de alegria e languidos de sentimento.

Com o decorrer dos annos não houve remedio senão ir gradualmente rareando aquelles doces encontros. Demais, tendo morrido a mãe de Rosa, esta ficára governando a casa e em companhia de seu pae, que não era para graças. Continuaram a vêr-se, a fallar-se; mas ás furtadellas, e quasi que ás escondidas.

Rosa crescera, e ao desenvolver-se tinha ganho cada vez maiores perfeições. Fizera-se mulher, mas mulher tão formosa, tão delicadamente formosa, que confortava a alma admiral-a.

Não parecia do campo, nem mesmo da terra.

Devem ser assim aquellas phantasticas visões, que, aljofradas por milhares de perolas do orvalho da manhã, se esboçam na atmosphera ao romper do sol por entre as nevoas da aurora.

Delicada flôr, que a mais terna aragem encurvava, parecia quebrar-se no andar. Resvallava pelo chão, deixando apenas uma suave fragancia a denunciar a sua rapida passagem, e uma indefinida sensação na mente dos que a viam.

Por aquellas visinhanças não havia noticia de creança tão mimosa.

Era branca; mas branca como o alabastro e como os lyrios, e na suave pallidez da physionomia lia-se o sentimento d’aquella organisação franzina e nervosa. Os cabellos negros como o azeviche, assetinados e brilhantes, poder-lhe hiam servir de manto, quando os desatasseondeando pelas costas abaixo e dobrando ainda no chão; os olhos como dois diamantes negros, sempre velados por uma doce melancholia rasgavam-se-lhe no meio de duas palpebras escurecidas pelas sobrancelhas finamente desenhadas, e orladas d’umas pestanas compridas e densas, que davam ao olhar, já de si bem triste, mais tristeza ainda amortecendo-lhe o brilho, quando raramente o illuminava.

Quem attentasse n’aquelle rosto sempre sentido, sempre scismando como que n’outro mundo, sempre voltado para o céo, sentiria, se de todo não tivesse a alma cerrada á compaixão, uma lagrima de sincera piedade cair dos olhos extaticos. Rosa era uma creatura que lembrava aquelles mysterios, os enlaces dos anjos com as formosas filhas dos homens, nas primeiras eras do mundo.

Estevam tambem se desenvolvera, e se formára um guapo e gentil rapaz.

Nas bem proporcionadas fórmas lia-se-lhes a força; no rosto franco e expansivo, a lealdade e o valor. Não havia idéa de que nunca em sua vida tivesse abusado da força: mas não constava tambem que tivesse recuado nunca. Não procurava o perigo, mas não se temia d’elle; era dotado de verdadeira coragem, fria, reflexiva, inabalavel.

Estes dotes, porém, não eram de tal natureza, que podessem captivar o pae de Rosa, homem de lettras gordas, e mais para o dinheiro do que para o sentimento.

Tinha casado com a senhora Placida, depois de lhe namorar os pintos e não a physionomia.

Vivera feliz a seu modo, porque tivera os commodos da vida, e não comprehendia felicidade possivel, sem dinheiro ao canto do bahú, pão na arca, vinho na adega e azeite na talha. Todo esse palavreado de amor e paixão era engrimanço, que espremido não deitava nada; nem julgava que boas razões pagassem dividas ou enchessem barriga.

Um seu visinho e compadre, homem dos seus quarenta puxados, casca grossa como elle, pé de boi, mas abastado, e com fama de entender do negocio e da lavoira, tinha conversado com o sr. Feliciano Gomes, assim se chamava o pae de Rosa, a respeito d’esta, affirmando-lhe que se não dava de tomar estado se encontrasse mulher tão perfeita como a filha. Feliciano, que ha muito andava com o olho n’uma courella do compadre Januario, e que por mais d’uma vez futurára comprar-lh’a, alegrou-se com a idéa de arredondar a sua propriedade, á custa de tão pouco.

Tratou pois de desvanecer algumas duvidas, que ainda esvoaçavam no espirito modesto do sr. Januario, convencendo-o de que lhe sobravam perfeições para captivar o coração mais rebelde, que por ventura palpitasse em peito de mulher.

—Mas, eu sei lá, homem?... Já não estou muito rapaz...

—Melhor é isso, não tem edade para loucuras.

—E se a rapariga me não quizer?

—Era o que faltava, compadre, deitava-lhe os braços abaixo e nunca mais lhe punha a vista em cima!

—N’isso é que eu não consentia!... Pobre Rosita!

—Então quem ha de mandar em minha filha se não fôr eu? Quem póde saber o que lhe convém?

—Olhe, compadre, se a pequena tiver alguma inclinação...

—Sem minha licença? Não faltava mais que vêr! Ensinava-a por uma vez.

—Veja lá o que faz, homem, não quero que a rapariga padeça por minha causa!

—Qual padecer, nem meio padecer. Estou vendo-a já saltando de contente, quando lhe disser: não sabes, o visinho Januario quer casar comtigo. Foste feliz...

—Isso ha de ser. Não lhe hei de faltar com coisa nenhuma.

—Pois para as mulheres é o que é preciso: dinheiro para gastarem nos trapos, e andam satisfeitas.

—Parece-lhe por conseguinte que serei seu genro?

—Se me parece! Já o é desde hoje, toque lá e deixe tudo por minha conta.

—Lembre-se de que eu não quero ir contra a vontade d’ella...

—Qual vontade, nem meia vontade, compádre Januario; o dito dito, e até ámanhã.

Esta conversação foi o começo das tristes aventuras dos dois amantes, que apresentei aos meus leitores, e cuja historia, n’uma noite bem invernosa, ouvi ao tio Joaquim.

Emquanto Januario ficava scismando na sua vida futura e saboreando d’ante-mão a posse da rapariga mais guapa d’aquelles sitios, Feliciano recolhia rindo-se e esfregando as mãos, o que n’elle denotava o maior signal de contentamento.

Acabava de fazer um excellente negocio. Trocára a filha por uma courella de dez alqueires de semeadura: isto é, uma mulher que tinha que sustentar por uma terra que dava de comer.

E o olival dasqueimadas, e a quinta dacortiça, e o casal dopetisco, e as terras doPenetra, e a horta daallamôa, e tantos outros bens e haveres, que constituiam a fortuna de Januario!

Claro estava que tinha tido uma tarde feliz.

Rosa ficou surprehendida ao vêr entrar seu pae em casa risonho e cantarolando, coisa de que não havia memoria; e sem lhe passar pela cabeça qual era o motivo de semelhante transformação, sentiu-se alegre tambem.

Havia muitos annos que seu pae lhe não mostrava physionomia tão prasenteira, nem lhe fallava com tanto agrado.

De repente deu-lhe uma pancada o coração, quando Feliciano, voltando-se para ella, lhe perguntou com certosmodos em que transpareciam alegria e finura mal contidas:

—Que te parece o compadre Januario?

—Que me ha de parecer, meu pae, dizem que é tão boa pessoa!...

—Sim, sim, bem se sabe isso, boa pessoa, assim como quem diz pedaço d’asno; não é pelas bondades, que eu te pergunto.

—Então meu pae?...

—Não olhaste para elle nunca com os teus olhos... de vêr?

—Eu não senhor.

—Pois é preciso que olhes, entendes-me? disse-lhe Feliciano derrubando as sobrancelhas e deixando cair a viseira: talvez te agradem mais esses alfenins lambidos, que por ahi se andam a desfazer? Pois estás muito enganada comigo, percebes?...

E ao passo que ia fallando engrossava a voz e fazia cara de arremetter. Rosa tremia como varas verdes, e, com os olhos arrasados de lagrimas, encommendava se mentalmente a todos os santos do seu calendario.

Mal teve forças para balbuciar um:—sim senhor, meu pae,—e, cambaleando, foi fechar-se no seu quarto, deitando-se em cima da cama a soluçar convulsa, como quem se despedia d’este mundo.

No dia seguinte, ao almoço, parecia que voltava do cemiterio, Feliciano, porém, que se não apercebia facilmente d’estas mudanças, ou que, se as conhecia, fingia bem o contrario, repetiu o interrompido assalto.

—É preciso que vás pensando no casamento, estás uma mulher, ouviste?

Bem quizera a pobre da rapariga não ter ouvido; mas era impossivel dessimular.

—Eu, meu pae; estou assim bem, eu não quero casar!...

A resposta não se fez esperar muito. Feliciano soltou uma torrente de imprecações, acompanhamento estrepitosode uma bofetada não menos estrepitosa, que já cortava os ares ainda bem a rapariga não acabára de dizer que não queria casar.

—Grandissima atrevida!... Eu te ensinarei a ter querer! Não queres casar, hein! E pensas que engulo essa!... Vossês lá que bebem ares por um marido! Mas tu o que não sabes é com quem estás mettida: eu não nasci hontem e não has de ser tu, minha seresma, que me faças o ninho atraz da orelha. Não queres casar, hein!... Ora mette-me o dedo na bocca a vêr se t’o mordo! É volta de festa, é namorico no caso, mas apanhe te eu, que verás por uma vez os meninos orphãos a cavallo. Não queres casar! Mas quero eu que te cases e é o que basta. O visinho Januario pediu-te hontem e eu resolvi que havias de ser sua mulher. E é dar graças a Deus, pela pechincha! Onde pódes ir que mais valhas? Andar para deante e cara alegre, quero que estejas contente, que mostres ao visinho, que tens gosto no casamento, e que lhe agradeces os seus affectos, senão... ponho-te fóra de casa depois de te moer esses ossos, e não quero mais que me chames teu pae.

Ao passo que ia ouvindo seu pae, Rosa ia successivamente esmorecendo.

Á vermelhidão, que lhe tingira o rosto ao receber a brutal bofetada, succedera-se uma pallidez citrina, que augmentára até ficar de puro alabastro.

Tinham lhe rebentado as lagrimas dos olhos no primeiro momento; mas não correram. Uma constricção terrivel lhe afogou a garganta, pensou que ia suffocar-se: pulava-lhe o coração no peito, batiam-lhe as arterias na cabeça, semilhando o marulho das ondas, em torno do que mergulha rapidamente, um cinto de ferro lhe apertava a fronte, zunidos estranhos lhe baqueavam no cerebro.

Cuidou que ia morrer e do intimo d’alma elevou ao Creador, uma prece de jubilo, em acção de graças.

Era um desmaio apenas, um d’estes abalos, que passam pelas organisações nimiamente nervosas, como o furacão pelos arbustos, extremamente debeis.

Acurvam-os até ao chão, estorcem-os na passagem; mas não os partem.

Rosa quiz segurar-se á mesa, mas estonteou-se-lhe a vista, andou-lhe a cabeça á roda, desfalleceram-lhe os braços, correu lhe gelo pelas veias e deu redondamente no meio do chão. Parecia morta.

Feliciano largou uma d’estas maldições capazes de espavorir toda a milicia celeste e correu á filha; estremeceu-lhe o remorso todas as fibras do coração de pae. Não havia maldade nas intenções do velho; entendia a seu modo a felicidade da filha, que estimava devéras: não se persuadiu que o golpe tivesse tão fundo alcance e trepidou ante as consequencias.

Mas ao vêl-a voltar a si, recuperou a confiança e de novo tornou ao seu plano favorito. Intentou com aquelle frio calculo de quem já não cuida em amores, que a voz do coração era uma impertinente a que se não devia dar ouvidos em questões d’esta ordem, e que só o interesse devia tomar a palavra e fallar de cadeira: amaciou entretanto a voz, voltou-se menos rispido para a rapariga, e disse-lhe quasi enternecido:

—É para teu bem, depois m’o agradecerás...

E saiu, pensando no futuro de Rosa e na conveniencia de arredondar as suas terras com a cubiçada courella de Januario.

Pensem os que têem amado do coração, no que padecera a pobre da rapariga, ouvindo seu pae. Desappareceu de repente de ante si aquelle encantado futuro, em que se enlevára. N’um momento perdeu a esperança, a alegria, a felicidade.

Quando o amor verdadeiro nos domina, só ha em nós uma idéa, um pensamento fixo, quasi uma monomania: a posse da que se ama, a existencia a dois, participando ambos das mesmas dôres, das mesmas alegrias, dos mesmos perigos, dos mesmos triumphos, das mesmas glorias. Reparte-se o coração com aquella, a quem tanto se quer, e de tal maneira se alarga e augmenta a porção que lhe entregâmos, que por fim nos apercebemos que já de todo nos não pertence. E bem longe de nos pezar, enleva-nos, nos mais intimos transportes do sentimento, essa doce expoliação do nosso ser.

Se nós sômos então amor e sómente amor!

O universo inteiro resume-se n’uma só creatura, e tão grande nos parece esta, que o julgâmos ainda pequeno para a albergar. Todos os affectos resumem-sen’um só, de todos os fios que nos prendem ao mundo, traçamos uma cadeia só, no remate da qual nos penduramos com a energia, com a tenacidade do affogado.

No outro extremo da cadeia acaba o nosso mundo. Se um pavoroso cataclismo precipitasse o globo; se as espheras se entrechocassem e confundissem; se a creação voltasse ao cahos; se as trévas engulissem a luz; se n’um rodopiar incessante o universo, se contorcesse nos extremos paroxismos: ficasse a mulher, que amavamos, comnosco, e nem nos aperceberiamos da mudança.

A luz, a ordem, a harmonia, o movimento dos ceus, o revolver dos astros, o tornear da terra, o não acabar do espaço, parecem-nos puerilidades insignificantes, comparados com o infinito do nosso amor. Só ha uma occasião, só ha uma phase da existencia, em que o homem se exalta, se eleva, se engrandece, se eguala ao Creador. É quando ama.

Satanaz se fôra o demonio do amor e não o demonio do orgulho resistiria ao Omnipotente.

Quando se assenhoreia de nós, o amor espalha por tudo quanto nos cerca, fulgores que nem a centelha do raio póde offuscar, harmonias que nem os córos celestiaes pódem fazer esquecer, encantos, que não os tem assim a bemaventurança.

É que a mulher reside para nós em tudo: tanto na florinha, que mal se descortina entre a relva dos prados, como na montanha arrojada, que parece lacerar os seios do infinito: se queremos colher as flôres para com ellas lhe juncarmos o pizo, queremos transformar-lhe a montanha em pedestal, para sobre elle a levantarmos.

Da nuvem far-lhe-hiamos um véu, das estrellas um diadema, dos ceus sem limites um azulado sendal.

E depois descontentes ainda, pedimos com religioso fervor ao auctor dos mundos, que reforme a sua obra, que dilate mais a creação, que a exalte mais; porquenão nos chega, quanto existe para a mulher por quem vivemos.

E se é assim o homem, o que não será a mulher, toda sentimento, toda amor, toda affecto e... senão toda egoismo, toda vaidade e toda presumpção.

A mulher, que, quando ama devéras, arranca o homem, das trévas descobrindo-lhe novos lumes de paixão, feições novas de sentir, delicadezas desconhecidas, mimos e enlevos, que não descortina nunca a nossa natural brutalidade. A mulher, que ou ama, como cantam os cysnes, amando e morrendo desde logo pelo amor, ou nutre em si o amor, como a arvore alimenta a parasita, vivendo só para a nutrir e definhando-se em quanto ella medra á custa de sacrificios, de abnegação, e de soffrimentos inapreciaveis; ou quando mesmo, presumida em excesso, e vaidosa sem termos, se ama a si, amando o homem, que se lhe rendeu, e bem querendo a esse rendimento, a essa homenagem, a esse culto, porque lhe desvanece a vaidade, porque é uma confissão eloquente das suas perfeições, porque finalmente é seu, e veio de si, para de novo voltar para si, como as plantas amam a agua, que elevam da terra, entregam aos ares, para que estes lh’a restituam depois em amorosas lagrimas.

Rosa amava e amava sincera, piedosa, apaixonadamente. Não havia confeição alguma n’aquelle sentimento, que nascera do coração, proviera da alma, e que se fortalecera aquecido pelos éstos da natureza. Amára creança ainda, amára com força muito maior, quando a puberdade, lhe transformára o ser transfundindo-lhe nas arterias faúlhas de desejo.

Quando a vida nova dos dezeseis annos lhe abalou a organisação infantil, quando o coração se tornou turgido de sangue, rico de vida e farto de estimulos creadores, quando aquella flôr do campo, chegou ao periodo, em que as petalas se tingem de mais brilhantes côres para deslumbrarem e cahirem breve, o amor deEstevam, que já a possuia transformou-se tambem, e dominou a mulher, como dominára a creança.

Foi para elle, que, córando de pudor, elevou os seus pensamentos de mais arrojado affecto, quando lhe esvoaçou deante da imaginação deslumbrada essa nova perspectiva, que lhe apresentava o mundo, ao conhecer-se outra pela inspiração divina, que n’essa quadra da vida, patenteia á mulher os desconhecidos horisontes da procreação e da maternidade.

O amor de creança unira-se ao amor de Estevam; e d’este delicado enlace nascera o amor—mulher. Não lhe assomava o desejo á mente, sem que esse desejo se não transformasse para ella na imagem varonil e fascinante do seu apaixonado. A sua nova existencia era de Estevam; era por Estevam: e o homem, que tal consegue da mulher, póde chamar-lhe sua, sem que o considerem presumido.

Entretanto as palavras de Feliciano operaram em Rosa uma revolução cruel. Não se persuadira nunca, que o amor de filha podesse entrar em lucta com o amor de mulher: e nem por sombras se preparára para semelhante combate. Se o coração fallasse unicamente, se não se tratasse senão de resistir á colera e maus tratamentos de seu pae, a escolha não seria duvidosa. Matasse-a embora, que morreria contente, se até aos ultimos momentos a deixassem amar Estevam; mas a maldição paterna troava-lhe ainda aos ouvidos, e todas as fibras d’aquella organisação delicada extremeciam, só ao lembrar-se de que elle lhe prohibira o nome de filha. A religião, a crença, a educação, tudo lhe fallava em favor de seu pae; em favor de Estevam só o muito, que o amava, mas não era o bastante. Amaldiçoada, via os tormentos do inferno, o penar de sua alma, a espada de fogo do archanjo exterminador, a condemnação eterna, e a memoria da sua infancia, e os santos de sua devoção a sumirem-se-lhe para sempre.

Não enlouqueceu, porque não teve forças para tanto;não morreu, porque a intensidade propria do soffrimento lhe deu forças para resistir, phenomeno bem vulgar nas organisações nervosas; não se matou, porque lhe affastavam tal pensamento de si, as idéas com que fôra creada: soffreu muito, por fim, pelo embotamento do soffrer, pareceu resignar-se.

Triste resignação, em que amortalhára os mais puros affectos, o mais risonho futuro, a mais affagada esperança!

A idéa de que se sacrificava á vontade de seu pae se não lhe deu consolação, deu lhe forças; e o persuadir-se que cumpria com o seu dever animou-a a persistir: se não ganhou o santo enthusiasmo, com que os martyres se encaminhavam para o supplicio, alcançou ao menos aquella frieza apathica, da mais entranhada abnegação.

Deixou de se pertencer. Fez-se cadaver, transformou-se em instrumento da vontade de seu pae, instrumento inerte, impassivel, sem vida, sem pensamento proprio. Não tivera animo para se matar; mas definhava-se lentamente n’aquelle doloroso suicidio moral.

Alguns dias depois da scena que se passára entre o pae e a filha, Estevam recolhia do trabalho cantando, e todo enlevado na sua Rosa, que julgava não vêr, havia tanto tempo. A voz melodiosa corria nas voltas do caminho e repetia-se mais affinada pelos echos de um monte proximo.

Ouvira-o Rosa, que abatida, e alheia ao mundo estava mais cahida que sentada n’uma cadeira, com os olhos pregados n’uma imagem de Senhora das Dores, que tinha perto da cama; palpitou-lhe de novo o coração no peito; aquella voz abalou-a como o choque da pilha, e sem se lembrar do que fazia, cedendo ao impulso, que tantas vezes a movera, correu à porta, ao mesmo tempo em que Estevam se aproximava do limiar.

Ao vêl-o porém fugiram-lhe de todo as forças e caiu-lhedesmaiada nos braços. Ao longe parecera-lhe notar na sombra o vulto ameaçador de seu pae:

—Rosa da minha vida, que tens tu, que nunca te vi assim? exclamára Estevam recebendo-a nos braços, torna a ti, sou eu, é o teu Estevam!

Perto d’ali corria a agua de um boeiro do muro; levantou-a em seus braços, poisou-a n’um marco, proximo do jorro, e ás mãos cheias lhe espargiu o rosto; depois ao vêl-a tornar-se á vida, curvou-se, aproximou-se mais da amante como para lhe transfundir a vida, que lhe sobrava, e tão perto lhe afflorou os labios, que dir-se-ia um rapido beijo unira por instantes as duas apaixonadas boccas. O osculo chamou á vida e á realidade a desgraçada Rosa, que desmaiara enlevada nos gostosos sonhos de uma felicidade, que lhe era defeza.

—Ai, Estevam, estâmos perdidos, exclamou a misera acordando de todo, quasi nos braços do amante.

—Perdidos, Rosa!... Que dizes!

—Meu pae... quer que eu case com o Januario.

—E tu!

—Eu, Estevam!... meu pae amaldiçoa-me.

Foi então, que elle ia desmaiando tambem. Cambaleou, encostou-se á parede para não vergar, e foi-lhe preciso grande força de vontade para resistir.

Resistiu porém, e como se lhe arrancassem esta exclamação do fundo da alma:

—Pensei, que me tinhas mais amor!...

—Deus te perdoe, Estevam, por duvidares de mim.

—Duvidar! queres talvez que te agradeça, que te bemdiga, porque ás primeiras palavras de teu pae, me atiras a monte, como herva ruim, ou foice partida. Eu é que tenho a culpa, não é assim?

Dize, anda, eu é que tenho a culpa: e tenho, porque te queria mais do que á propria vida, porque te queria, como homem nenhum poderia querer a uma mulher. Anda, não duvides, accusa-me, Rosa, que bemo mereço. E entretanto Deus sabe, que thesouros de amor, se guardavam cá dentro, Deus sabe quanto eu te estremecia!... Pensei que não houvesse forças no mundo que nos separassem, pensei que nem Deus mesmo tivesse poder para tanto! Enganei-me. Foi bem feito.—Se tu és mulher!... E não arrebentar eu, quando me assomou este amor!—Não ter havido um raio que me partisse!... Casa, casa e sê feliz!

Depois, entre soluços, soltou umadeus, e deitou a correr como doido, fugindo à tentação, que lhe affogueava o pensamento.

Rosa ficou prostrada sobre o marco, até que a agua innundando lhe o rosto, a reanimou por um pouco; seguiu, mais por instincto do que por vontade, para casa e deitou-se, já com os primeiros symptomas de uma febre cerebral agudissima.

Feliciano não soube nunca a rasão da doença de sua filha, Januario acompanhou o compadre n’algumas noites perdidas, e Rosa costumou-se a vêl-o e a agradecer-lhe o cuidado e a affeição, que lhe mostrára. Affeição rude, brutal mesmo; mas por isso tanto mais para apreciar uma ou outra delicadeza, que surdia como enfesadinho rebento de tronco cascudo e rugoso.

Convalescente ainda, apparecera Rosa no bailarico, e ali encontrára Estevam, que durante a doença não se affastou nunca das proximidades da casa, empregando astucias incriveis, reccorrendo a subtilezas quasi inacreditaveis, para a vêr sem que o visse, ou para se informar, ao menos, do estado em que se achava.

Os nossos leitores já assistiram ao dialogo que travaram. No dia seguinte Estevam, partia a bordo da—Joaquina Primeira—para a Costa d’Africa, e um mez depois Rosa casava com Januario, quasi sem perceber, que mudava d’estado.

Tinha decorrido um anno depois do encontro de Rosa com Estevam, que ultimamente relatámos. Não haviam chegado noticias d’este ultimo e corria pela terra, que morrera das febres d’Africa. Rosa nunca mais proferira o nome do seu antigo apaixonado; mas quem lhe devassasse o intimo d’alma reconheceria, que a imagem querida não lhe saira nunca do pensamento.

Apparecia-lhe nas horas suaves de melancholia, quando espraiava a vista pelos descampados, descançando depois os olhos no filhinho de mez, que se lhe pendurava do seio.

Depois que desapparecera, Estevam convertera-se para a imaginação apaixonada de Rosa n’uma triste visão, que saudosamente lhe sorria d’essas regiões encantadas, que a phantasia povôa de arrobados devaneios.

Aquelle amor depurára-se pela ausencia, e a noiva entregando-se ao marido, cumprindo religiosamente os seus deveres de mãe e de esposa, persuadia-se que lhe seria licito, ao menos dispôr da sua alma.

E, ainda que o não quizesse, esta pertencia a Estevam. A posse que lhe déra, que elle conquistára á força de disvelos, de sollicitude e de amor, era inalienavel,ganhára-a com o sacrificio da sua vida, com o holocausto da sua existencia, nos altares da dedicação. E que importava a Januario, este innocente roubo! Não poderia encontrar mulher que mais cuidasse d’elle, que mais o cercasse de carinhos, que mais se sacrificasse ao seu bem estar.

Nenhuma seria capaz de dar melhor ordem á vida, de cuidar mais no arranjo da casa, de providenciar mais para que coisa alguma faltasse a seu marido. Delicadezas de sentimento, não eram para Januario; nem as comprehendia, nem se dava de semelhante coisa. O mundo, para elle, era uma serie de commodos, e o conforto da casa e da familia a felicidade suprema.

Não pensára nunca em fallar ao coração de sua mulher. E andára acertadamente não procurando desferir instrumento, que atormentado por aquellas mãos rudes apenas poderia soltar gemidos; mas harmonias nunca. Onde acabava a materialidade finalisava o mundo. Idealismos, se alguem lhe fallára em tal coisa, poderia contar com descompostura certa, em paga de semelhante atrevimento.

Tinha com que viver e vivia do que tinha.

O grangeio das fazendas, o amanho das terras, os cuidados da agricultura, preoccupavam-lhe o dia. Á noite esperava-o uma boa ceia, uma cama de pau santo lusidia com os lençóes alvos de neve a estenderem-lhe os braços, a esposa a sorrir-lhe no limiar, sorriso encoberto por um permanente veu de tristeza, mas isso não percebia elle, e o filho a dormir tranquillo no berço com o bracinho curvado sob a cabeça, a boquinha rosada mussitando sonhos de convivencia com os anjos, seus irmãos.

E o aceio a afformosear tudo, e a tranquillidade a alegrar o interior da casa, e a arca recheada ao canto, a prometter dilatados dias de descanço e de fartura.

E até para lhe alimentar as rabujices da idade, (Januario já rastejava pelos cincoenta), o birrento do sogro,que sempre tinha que lhe tornar, e que contradizer em todos os trabalhos, que emprehendia seu genro.

Que mais quereria pois.

Rosa costumára-se tambem a esta vida de insensibilidade e sacrificio. A ideia de que fizera a felicidade de seu pae, e de seu esposo, consolára-a da grande perda, que sentira e vivia transfundindo em seu filho todas as delicadezas de sentimento e de amor, de que precisava para poder viver.

Transformação, que facilmente comprehendem os que sentirem devéras, o amor de Estevam depurára-se-lhe na alma e fizera-se amor de mãe. Quantas vezes lhe parecia emballando seu filho, que estreitava nos braços a Estevam!... Então conchegava a creança mais a si; apertava-a tremulamente: e duas lagrimas de saudade, ou talvez de amor, deslisavam-lhe pelas faces.

O filhinho, disperto com aquelle enlace, abria os olhos, e parecia fital-os na mãe, como traduzindo uma admirada reprehensão: ao menos assim o julgava ella, que se sentia desfallecer e se accusava então d’aquella innocente infidelidade aos seus deveres de esposa. Beijava ferverosamente o seu pequeno censor, como para o abrandar, e com aquella imagem afugentar a outra que tinha presente sempre.

N’estes rapidos e quasi inapreciaveis movimentos se denunciava apenas a intensidade d’aquella violenta e concentrada paixão. Como nas pavorosas tormentas submarinas a placida superficie das aguas só n’um ligeiro tremer poderia denotar a força das horrendas luctas, que se travavam nas remotas profundezas.

Uma tarde ficára absorta no seu scismar contemplativo toda embevecida n’aquellas divagações, que tantas vezes a alheavam do mundo em que vivia. Os olhos parados e fitos pareciam procurar nos affastados horisontes aquelle indefinido ponto em que os espaços se perdem de vista e que a phantasia enriquece com suasextranhas creações. Dir-se-ia a estatua do desalento poisada sobre a pedra da sepultura a remirar-se nos ceus, na sua almejada patria.

A imagem de Estevam adejára-lhe na mente, e enlevada n’aquella paixão, que a não deixava, deixou approximar-se a noite sem perceber que as trévas baixavam encobrindo os campos.

Já a lua desenhava com os seus pallidos clarões figuras estravagantes, que pareciam dançar por entre o arvoredo á feição do vento, e Rosa ainda estava no mesmo logar e na mesma posição.

De repente soltou um grito e estendeu diante de si convulsivamente os braços, como se pretendesse affastar um phantasma atterrador. A imagem, que evocára parecêra tomar corpo, e n’um vulto que se escondia por entre as arvores cuidou reconhecer Estevam.

Effectivamente apenas soltára aquelle grito o vulto correu para ella, era Estevam.

—Estevam!

—Rosa!

—Tu aqui?!

—Se eu não podia já viver longe de ti! Se morria se te não visse?

—E agora?

—Agora? Vi-te. Disse-te uma vez ainda: amo-te, e posso morrer!

—Sabes, Estevam, que sou mulher de Januario, sabes, que tenho um filho de meu marido?

—Para que m’o lembraste? Pensas que não m’o tinha dito já o coração?

—Para que voltaste, então, Estevam?

—Não t’o disse já? Para te vêr.

—Ai! quanto me custa que voltasses!

—Bem sei. Deveria ter morrido, não é assim? um homem como eu, que ninguem estima, que não tem affeições n’este mundo, que vive, como o espargo no monte, que embora procure lançar raizes na terra lh’asarrancam como o escalracho, devia morrer. Não serve de nada, não deve viver, tens razão.

—E quem te diz que assim seja? Quem te diz que não ha quem te ame, quem ainda se dedique por ti, quem te não esqueça nunca. Ah! Estevam, os homens não comprehendem o coração da mulher!

—Não comprehendem, não. A mulher, santa creatura, na verdade! A mulher, que mente ao marido, mente, ao amante, a mulher que se enlaça como a hera no coração do homem, cravando-lhe cada vez mais fundos os espinhos, roubando-lhe cada vez mais a vida. Não te comprehendi, Rosa, devia agradecer-te, porque pertences a outro, porque hontem dormiste ao lado d’outro, porque d’aqui a pouco vaes deitar-te no seu leito. Devia agradecer-te não é assim? Dize, anda, bem vês, que te vou comprehendendo.

—Que mal te fiz para me tratares com esse desdem?

—Que mal me fizeste? Nenhum! Eu é que fui um louco, eu é que errei, quando prendi a minha vida á tua, quando te entreguei a minha sorte, quando em ti puz a minha esperança. Eu é que fiz mal, quando me deitei a amar esse amor, que tantas vezes me juraste, quando depositei fé nas tuas palavras, que pareciam tão sinceras, quando pensei que havias de ser minha, porque assim m’o juráras mil vezes, eu é que mereço castigo, porque confiei na sinceridade do teu coração, porque loucamente credulo não me persuadi nunca de que fingisses tão bem, que houvesse em ti dissimulação tão grande.

—Se soubesses quanto tenho padecido, não me fallavas de certo assim!

—E eu! Julgas porventura, que te sumiste um momento sequer da minha ideia? Pensas que te não vi sempre diante de mim, nas tribulações da vida, nas ondas do mar, nos sertões d’Africa, nas extensões do céo... Sempre, sempre! Pensas que não me lembrava sempre, que eras d’outro, tu que só poderias ser minha!Pensas, que não me deram por doido; que me não arrojei ao mar, por mais d’uma vez, para lá ficar para sempre?... Se não fosse terem-me salvo, já hoje te não inquietava!... Pensas...

—Não continues! Estamos a aggravar uma ferida que não póde sarar mais! Antes não nos vissemos!

—E assim me despedes! Bem m’o dizia o coração! Falsa!...

Rosa levantou a cabeça cheia de indignação; até esse momento, parecia que escutava a sua sentença de morte: quando porém Estevam assim a accusou, quando lhe pareceu, que o seu enorme sacrificio não era comprehendido, que o seu amor era tão mal julgado, a voz da consciencia, que a defendia dos aggravos de seu amante, bradou-lhe lá dentro.

—Ergue te!...

Elevou os olhos para o céo, como para se inspirar n’uma resolução suprema, affastou da fronte os cabellos, que a offuscavam, levantou-se com um movimento de nobre magestade, travou da mão de Estevam, que a olhava surpreso, e exclamando apenas:—Vem!—levou-o comsigo para dentro de casa.

Com o sorriso a adejar-lhe sobre a physionomia, estava o filhinho de Januario deitado no berço dormindo, os braços torneados descançavam fóra da roupa abertos e como estendendo-se para a mãe. No fundo da alcova a um canto, que a luz d’uma lamparina illuminava a custo, adivinhava se o esposo que dormia: o ressonar compassado e sonoro, n’outro quarto proximo, deixava perceber, que Feliciano depois de ter largamente discutido com seu genro a conveniencia de uma nova semeadura, descançára por fim cançado de rabujar. De resto tudo estava em socego.

Estevam, sem comprehender para que, deixou-se arrastar até junto do berço: ahi, Rosa correndo a vista pela casa fitou por ultimo o olhar no seu companheiro.

—Ámanhã esta creança acordará, e aquelles doisvelhos levantar-se-hão sorrindo para mim como sempre, cheios de confiança, e de... amisade. Como até hoje julgar-me-hão filha honrada, mãe honesta... esposa fiel!... Sacrifico-te, aqui, junto d’este berço... e d’aquelle leito, todo o meu passado, todo o meu futuro, tudo!... Aqui me tens, Estevam, vê agora se te amo. Sou tua!...

E resignada, nobre, altiva, caminhou para elle, que recuára, como os martyres deveriam caminhar para a fogueira... serena, tranquilla, orgulhosa pelo seu sacrificio, illuminada pela divina aureola do amor.

Estevam parecia fulminado.

Foi mysterio o que se passou na sua alma; entretanto comprehendeu tudo, e soube elevar-se até ás sublimidades d’aquella mulher.

Avaliou qual era a grandeza d’um semelhante amor, e sentiu-se digno d’elle. Leu de relance todas as paginas dolorosas d’aquella epopêa intima, e elevou no santuario de seu coração, purificado de quaesquer resquicios da natureza terrestre e material, um cantico divino de admiração, caiu de joelhos aos pés de Rosa e desatou a soluçar.

As lagrimas queimavam-lhe as faces; mas refrigeravam-lhe a alma: quando se levantou era outro.

Curvou se sobre o berço infantil, depositou um beijo no rosto do innocente, dirigiu-se para Rosa, que ainda o esperava immovel, mal lhe approximou da testa os beiços e desviando os olhos do leito, onde Januario dormia, saiu dizendo á sua antiga amante:

—Adeus irmã!

Foi tudo obra d’um momento.

Rosa caiu sobre o berço de seu filho cobrindo-o de beijos; Estevam já ía longe.

A creança soltára um vagido lastimoso, acordára ao sentir-se innundar pelas lagrimas de sua mãe, e estendendo para ella os braços, sorrira.

Januario não déra signal de si.

As feridas moraes não se semelham ás physicas. O coração rasga se com a dôr, soffre-se por muito; mas o tempo cicatrisa tudo.

O correr dos annos enregela a alma, e acalma os ardores da paixão. Estevam ainda foi feliz.

Rosa, essa, ninguem poude saber se se esquecera d’aquella noite. O amor de seu filho consumiu-lhe a vida toda.

Nunca se lhe tingiram as faces de côr, nem o mais leve sorriso lhe entreabriu os labios: poucos a ouviram fallar, raras vezes proferia alguma palavra.

Entretanto foi sempre esposa disvellada e filha extremosa; pouco tempo sobreviveu a seu marido.

Aquella hora fôra a ultima em que conhecera que tinha coração; foi tambem a ultima em que se avistou com Estevam.

Feliciano, na manhã seguinte a uma noite, em que mais se exaltára discutindo com seu genro sobre o melhor modo de alqueivar uma terra, foi encontrado morto na cama.

Succumbira a uma congestão cerebral.

A terra sobre que versára a controversia era propriamente a courella, por amor da qual contractára o casamento da filha.


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