XIIA historia do narrador

XIIA historia do narrador

Por mais de um mez procurára tambem saber a historia do tio Joaquim. Havia na tristeza, em que o velho descaia tantas vezes, quando parecia mais alegre, rasão sobeja para me aguçar a curiosidade. Tentára interrogal o; mas debalde sempre.

Não era porque o tio Joaquim deixasse de me estimar devéras.

Conhecêra-me de pequeno e tivera-me sempre por seu companheiro constante nos passeios melancholicos, em que, apoz o seu pensamento, caminhava horas sem dar palavra.

Ia com elle, calado tambem. Respeitava a grande dôr que n’essas occasiões parecia opprimil-o; e não me atrevia a perturbal-o com perguntas indiscretas, ou observações futeis.

Presentia, que um padecimento grande o envelhecêra bem cedo, e receava tanto mergulhar a vista nas profundezas d’aquella magua, como trepidava sempreao approximar-me de um precipicio. Era o desconhecimento que me sobresaltava, o que quer que era extranho, que me impunha respeito.

O tio Joaquim lembrava-me um d’esses livros antigos de bruxedos e encantamentos, que fechado poder-se-ia confundir aos olhos de um observador qualquer com um ripanço de semana santa; aberto porém espavoria a imaginação povoando a com os quadros temerosos de castellos encantados, florestas magicas, sortilegios infernaes, feiticeiros, trasgos, almas penadas e cemiterios.

Levava-me o desejo a folheal-o; a duvida affastava-me de lhe tocar.

Aventurára perguntas timidas em varias occasiões; mas o velho, sem que empregasse na resposta a natural rudeza, com que despedia os importunos triviaes, affastava-me brandamente do ponto a que eu desejava chegar.

—Quando no jardim ou no prado colhe uma flôr não cuida das profundezas onde as raizes mergulham para a alimentar; quando tira da fonte uma pouca d’agua para abrandar a sede, não indaga por que extensões corre a veia que alimenta a fonte. Não cuide em devassar segredos, que de pouco lhe podem importar; mas que uma vez sabidos lhe hão de trazer desgosto. A amendoa de muitos fructos trava, emquanto elles são dôces, aproveite-se da polpa e não queira saber do caroço.

E assim, mudando rapidamente de assumpto, evitava sempre que insistisse.

Entretanto iamos muitas tardes para um logar da praia, que de preferencia escolhiamos por ser mais recatado e só.

Entre ambos havia como que uma communhão de tristezas. Elle pelo passado, eu pelo futuro; elle por o que já experimentára e sentira; eu porque receava experimentar e sentir tambem.

Emquanto o velho passava horas silencioso e triste a rever as paginas da sua vida, a rememorar dôres, alegrias, saudades, e amores: eu que ia conhecer o mundo, eu que deixava de ser creança e não começára ainda a ser homem, scismava no futuro para que caminhava, e devaneiava conjecturas sobre essa vida nova, que ia encetar. Agradava pois a ambos a solidão, e ambos procuravamos de preferencia os sitios, onde menos nos podiam inquietar os conhecidos.

A praia da nossa predilecção estendia-se desde Cabo-Ruivo e o recolhimento do Moinho. Em frente espraiava-se o Tejo pelos juncaes, que, mesmo em preamar, erguiam os cimos arrouxados sobre as aguas; detraz a costa subia quasi a prumo para os olivaes do Casal das rolas.

Uma ou outra pedra ennegrecida pelo tempo, pelo quebrar das ondas, pelos limos e pelas ostras que a revestiam destacava-se na arêa da praia, ou avultava por meio dos juncos. O rio, n’aquellas alturas quasi sempre só, parecia não terminar no lado opposto; porque a outra margem se confundia com o céo. De cima, como torre de vigia de castello antigo entrava pela agua dentro o pavilhão quadrado e de tecto esguio do antigo recolhimento. Debaixo o cabo a que pela vermelhidão do terreno tinham dado o nome de Ruivo, limitava o horisonte, e tirava a vista da parte do rio mais cheia de navios e de animação.

Tudo alli era silencioso, tudo infundia sentimento, tudo convidava para a meditação.

Torcendo-se por entre os alcantis da ribanceira, escondendo-se umas vezes por detraz de moitas de rosas carrasquinhas e de giestas, outras caminhando entre pequenas mattas de congoças, outras descobrindo-se de todo n’um terreno escalvado e nu, um caminho de pé posto conduzia dos olivaes á praia, e estabelecia communicação entre o mundo e aquelle retiro. Avistavamos pois a grande distancia, quando alli estavamos, qualquer,que do Casal descesse para a praia, e haveria por conseguinte facilidade de mudar de conversação, sem que nos perturbassem d’imprevisto.

A meio do carreiro n’uma lapa gottejava da rocha a agua mais pura das visinhanças e demorava-se n’um berço de relva e musgo verde como esmeralda, macio como velludo, e que forrava a cova, que a agua havia feito. Junto á fonte algumas pedras pulidas pelo roçar continuo dos cantaros das raparigas dos sitios, que alli vinham buscar agua, offereciam um bom poiso para descançar.

Era tambem alli que mais de habito nos sentavamos. O mar deante de nós, o ceu sobre nossas cabeças, as costas dadas ao mundo, e a imaginação a perder-se no espaço.

Depois, quando descaia a tarde, aquelle silencio perturbado apenas pelo surdo marulhar das aguas, aquellas côres sombrias do mar e do ceu, aquelle espectaculo do infinito, que tanto nos confrange e opprime, e a indecisão, que nos baloiça no espirito, as duvidas que se apoderam de nós, sobre o que seremos, sobre o que nos tornará felizes, a lucta com essa terrivel e mysteriosa sphinge que se chama futuro, tudo isso me levava a um estado especial que muitos talvez tenham sentido, mas que poucos poderão definir, em que desejava sem saber o que, em que soffria e agradava-me o soffrimento, em que amava e debalde queria fixar o grande amor que sentia, em que lastimava sem que podesse explicar porque, não estar assim sempre, não passar d’ahi para outro mundo, outra vida, outro que quer que fosse, para mim desconhecido, mas que me parecia fatalmente destinado para me dar a verdadeira felicidade apoz a qual voava a minha imaginação apaixonada.

Estes ataques de uma nostalgia particular traduzil-os-hia eu, se traducção podessem ter, como o chorar da alma infinita dentro da sua tão limitada prisão,pelos espaços e pelos mundos infinitos d’onde veio, e onde deve ir um dia.

Sei, para em duas palavras me exprimir, que soffria muito, mas que era feliz soffrendo assim.

O meu velho companheiro, esse, apenas ali chegava sentava-se n’uma das pedras, carregava o cachimbo, feria lume, accendia o tabaco e entrava a fumar; depois o pau com que começára a traçar arabescos no chão parava gradualmente, os braços caiam-lhe sobre os joelhos, o cachimbo apagava-se, e os olhos cerravam-se-lhe como se tivesse adormecido.

Quando, passado tempo, parecia tornar a si, tinha os olhos vermelhos, o rosto abatido, o corpo quebrado. Levantava-se com muita difficuldade e mal se podia arrastar aos primeiros passos. Depois fazia como que um grande esforço sobre si, compunha a physionomia, chamava um sorriso bastante rebelde n’essas occasiões, e tornava a ser o tio Joaquim da casa da malta e do canto da lareira.

Foi n’uma dessas tardes, e na praia de Cabo Ruivo, que consegui ouvir ao velho narrador a sua historia. Andára triste todo o dia, acabára de jantar, déra conta da obrigação e convidára-me para sair em sua companhia. Não soltára meia palavra pelo caminho e mal chegára perto da fonte atirára comsigo para uma d’aquellas pedras tão desalentado, que parecia não querer mecher-se mais d’ali. Ficara a scismar, como costumava; mas não seria passado ainda um quarto de hora, ao olhar para elle vi que lhe escorregavam as lagrimas pelas faces.

—Chora, tio Joaquim?...

—Não repare, atalhou elle rapidamente limpando as lagrimas, como envergonhado, eu tambem não reparava.

—Anda sempre triste, e assim sem desabafar, bem pelo contrario fingindo-se alegre quasi sempre; ha de padecer muito!

—Muito! Mas não tem duvida.

—Diz-se que as maguas contadas são alliviadas; porque me não dá parte das suas tristezas?

—Para quê? Com o andar do tempo não lhe faltarão proprias; deixe as alheias.

—Cuida que sou alguma creança, tio Joaquim?

—Bem sei que não é, mas...

—Seria a maior prova de amisade que me podesse dar. Ha tanto tempo que desejo saber a sua vida!

—Como deseja ouvir as historias aos serões, não é assim?

—Não. Essas servem para passar o tempo, esta outra para o conhecer bem, e para o poder consolar.

—Pois seja para me conhecer, que para me consolar não, porque não póde. Hoje tambem, parece-me que rebentava, se não repetisse alto o que tem sido a minha vida. Quando conversamos comnosco, a voz faz ecco bem fundo na cabeça e no coração, repercute mais e soffre dobrado. Se não tivesse vindo comsigo parece-me que entrava a fallar só, para ahi a essas pedras e a essas aguas. Oiça-me pois, já que tanto deseja saber a minha vida.

E o tio Joaquim deu começo á sua historia.

Meus paes viviam n’uma das provincias do norte, e se não eram ricos tinham com que passar menos mal. Meu irmão Filippe e eu eramos os dois unicos filhos, e o que havia chegava bem para nós. Filippe, porque era o mais velho, devia ser lavrador como meu pae; eu, por ser o segundo, estava destinado para frade.

Admira-se, porque já lá vão os frades; mas se vivesse no tempo dos conventos conheceria então, que de ordinario se destinava para ordens sacras o filho segundo em quasi todas as familias.

Accrescia mais que o mestre dos noviços do convento proximo, sr. João da Soledade, era muito de nossa casa, e depois de ter convencido minha mãe de que me fazia feliz mettendo-me a frade, lhe promettera tomar-me sob sua protecção.

Pela minha parte, posto que ninguem me consultasse o querer, parecia me tambem que viveria contente n’aquelle socego do convento. Via os frades gordos, satisfeitos, córados e risonhos sempre. Traziam-me presentes e davam-me dôces, faziam-me festas, e contavam-me historias, não me queria pois com outra gente.

Em vendo habito approximava-me logo, e minha boamãe, que a mais não alcançava, lia n’esta inclinação pueril uma verdadeira e pronunciada vocação.

Assim fui creando-me n’estas idéas, até que chegou a idade de começar a aprender. Fr. João convenceu minha mãe, de que para o meu estudo muito melhor seria viver no convento do que em casa, pois que ao passo que ia seguindo as disciplinas com maior regularidade, ia costumando-me tambem á regra conventual.

Frei João era para meus paes apostolo e propheta ao mesmo tempo. O que dizia seguia-se com reflexão. Despedi-me, chorei muito e partimos.

Não tinha tamanho desafogo em casa, que extranhasse muito a vida nova que encetava. A companhia dos outros noviços, aquelles costumes extranhos para mim, aquella novidade de estudos, e mesmo o bom modo, com que Fr. João me tratou sempre, conseguiram que dentro em pouco me afizesse de todo ao recolhimento claustral.

Não tinha por fóra coisa alguma, que me attraisse, e a affeição de meus paes e irmão, unicas de que a porta do convento me separava, não eram de ordem tal, que me fizesse lamentar muito o haver-me apartado do mundo.

N’uma das campanhas em que entrei mais tarde ouvi contar o seguinte caso a um veterano, que tinha ido na legião lusitana com os francezes fazer a guerra da Russia.

Nas noites frias e claras do norte em que a luz de umas auroras particulares ás terras d’aquelle paiz resplandece nos gelos, começava a cair neve, e os pobres soldados a cairem com ella inteiriçados e hirtos. Alguns cobravam forças, erguiam-se e continuavam. Outros caiam, não tinham forças para se mecher e ficavam por uma vez.

Ao tal veterano, se lhe não accodem ainda a tempo ia succedendo este mesmo facto.

Dizia elle, que percebia bem que ia morrer, quecada vez se enregellava mais, e que dentro em pouco, tinha d’isso a certeza, estaria de todo gellado.

Sentia porém um que quer que era agradavel n’aquelle approximar da morte, queria evital-a mas não tinha forças, e ia sentindo sumir-se-lhe a vida com aquelle prazer com que nos deixamos esvaecer após a embriaguez.

A solidão, tive tempo para o observar, parece-se com os gelos do norte. Entristece-nos, mas encanta-nos com a sua tristeza, sentimos que lhe devemos fugir, e conservamo-nos entretanto, parece-nos que nos esmorece a alma e o sentimento, mas é tão dôce esse esmorecer, como a morte após um desmaio, como o adormecer da creança nos braços maternos.

Antes de saber o que era a vida, começava a agradar-me a morte, e sem transicção alguma, arrefeciam-me os ardores dos dezoito annos, com os frios d’aquellas sepulturas de vivos a que chamavam cellas, claustros e conventos.

Estudava, aprendia, e meditava. Meditava sem saber em quê, porquanto o mundo, que eu via pelas grades do meu quarto, e o que eu phantasiava pela leitura dos livros da bibliotheca, differençava-se tanto do mundo real, que mais tarde vim a conhecer, como aquelles sonhos de madrugada, que nos accodem quando não dormimos de todo e quando não estamos acordados ainda, se distinguem da vida commum e dos acasos de todos os dias.

Passava horas e horas a formar castellos no ar, vagos, indefinidos, indeterminaveis, e evocando phantasmas de mundos que eu não conhecia, mas que adivinhava. Dentro em pouco de tal fórma me costumei á reflexão e ao apartamento, que fugia de todos nas horas que tinha livres, para ir sentar-me sósinho a sonhar e a scismar.

Apontavam-me no convento como modelo de bom porte, e diziam os frades aos meus companheiros queo amor do estudo e da reflexão me traziam assim embevecido.

Não lhe sei dizer, o que me preoccupava, mas não era de certo o amor do estudo, nem o desenvolver da vocação monastica, como a vaidade dos frades lhes fazia suppôr. Tão entranhado estava em mim o amor da solidão, que nas raras vezes, em que ia visitar os meus, pouco me demorava em casa. Debalde a sollicitude materna me procurava deter; em vão, meu pae mesmo, posto que pouco dado a ternuras, me dizia que era conveniente de quando em quando descançar algum tempo; trabalho perdido era o de meu irmão em convidar-me para os divertimentos dos outros rapazes; mal saia do meu convento, desejava logo recolher, e estava fóra da minha cella, como o peixe fóra d’agua. Porque dir-lhe-hei de passagem, a estima de Fr. João fizera com que eu residisse n’um quarto junto do seu, e não no dormitorio commum com os outros educandos e noviços.

Oxalá tivesse eu ficado por uma vez n’aquella sepultura!

Se não fossem as visitas a minha casa, talvez não tivesse experimentado na minha vida o que era amor; mas tambem não teria comprado á custa de tormentos indisiveis essas raras e amarguradas horas de sentir apaixonado.

N’estas alturas da sua historia o tio Joaquim limpou o suor que lhe corria a fio da testa, curvou-se para a lapasinha proxima, tomou uma pouca d’agua nas mãos, bebeu soffregamente; renovou a respiração umas poucas de vezes com força; carregou outra vez o cachimbo, accendeu-o e passado algum tempo proseguiu na sua narração.

Estudos que mais me preocupavam tinham feito com que, havia muito, não fosse visitar os meus. Devendo em breve tomar ordens de prima tonsura, este successo, que fatalmente determinava a minha vida trouxera-me entretido, não poucos mezes. Finalmente déra o primeiro passo solemne, e por conselho de Fr. João, parti a congratular-me com meus paes, da conquista que alcançára: e a viver por algum tempo a vida de familia antes que de todo me apartasse do mundo.

Parti; e com a indifferença que de mim se apoderára, desde que me haviam destinado para o convento, passei os humbraes d’aquellas portas que então já eram minhas, e que não se me poderiam cerrar mais de todo, embora quizessem.

Grandes alegrias havia em minha casa. A minha chegada encareceu-as mais ainda. Meu irmão estava breve para casar e a sua escolha fôra tanto do agrado de meus paes, que os bons velhos não cabendo em si de contentes não achavam mimos que lhe parecessem bastantes para com elles cercar a esposa futura de seu filho.

Margarida era o que em linguagem commum se chama um bom casamento.

Filha unica devia herdar de seus paes uma fortuna consideravel. Os seus haveres juntos aos bens de minha casa formariam a primeira propriedade da provincia.

Sorria a opulencia a meus paes e embevecia-os a contemplação de um futuro placido e desassombrado de cuidados.

Vi Margarida, e ao vêl-a, ao trocar com ella as primeiras palavras conheci, que tinha no peito coração, e que me corria o sangue dos vinte annos nas veias tremulas e agitadas.

Margarida aproximava-se tambem dos vinte annos, mas toda a candura infantil fulgurava n’aquelle rosto, que não desabrochára ainda. Não tornei, por vida minha, a encontrar olhos que mais dissessem ao coração, quando mesmo quasi sem querer fallar se volviam serenos entre um denso veu de pestanas compridas e encurvadas. Toda a sua formosura estava nos olhos, mas esses não cediam em primores a quantos hei visto em mulher ou em pinturas. Fazia vontade de chorar olhar para elles, sentia se devoção fitando-os muito. Porque não ha como a mulher para nos fallar do ceu, de Deus, das coisas sagradas. Se creaturas assim corressem mundo a resgatar almas, se para os mais apartados da religião dirigissem um olhar d’aquelles dizendo magua, enthusiasmo e amor, e depois d’ahi os volvessem ao ceu como rasgar caminho para a alma renitente, não haveria atheu que resistisse, nem coração que se não dobrasse.

Vendo Margarida lembrava-me do ceu, lembrando-me do ceu, accudia-me que professára votos que me condemnavam a um perpetuo celibato. Um circulo de espinhos me apertava a imaginação: e padecia, como nem os condemnados no inferno poderiam padecer assim.

Com a candura de creança Margarida reconheceu-me desde logo como seu irmão. Não houve segredo que emmim não depositasse, esperança que me não dissesse, planos de futuro sobre que me não ouvisse, queixumes de meu irmão, que comigo não lastimasse.

Filippe casava porque tinha de casar, estimava Margarida como podia estimar uma irmã ou uma parenta, e nada mais. Margarida ao contrario não via, não suppunha, que podesse haver homem, que valesse o seu noivo. Amava-o com a cegueira, com o arrebatamento, com a loucura de um primeiro amor.

Não imagina como padeci com essas confissões arrebatadas, que me denunciavam um mundo de felicidades, que nem sequer entrevêra. Não imagina que dôr tão funda me ia direita ao coração, quando ella animada por aquelle amor que a aquecia e transformava, olhando-me, com as suas mãos nas minhas, com o seu halito a confundir-se com o meu, transfundia-me a electricidade que irradiava, e descrevia-me o amor que lhe chammejava na alma.

Deixava-a como louco e ia, quantas vezes sósinho, de noite, correr por aquelles descampados, andar muito sem saber por onde, cançar o corpo para descançar o espirito, e para depois, cedendo á fadiga, poder cerrar os olhos por algumas horas e tentar um somno mais attribulado mesmo do que fôra a propria vigilia.

Envelheci muito n’aquelles dias que duraram até ao casamento de meu irmão. Via approximar-se a epocha e não acreditava, não sei que louca esperança, não sei que desvario me dizia que tal casamento se não chegava a realisar. Parecia-me um sacrilegio, que tanto amor fosse empregado em tanta indifferença, parecia-me impossivel que Deus consentisse em tal.

Sacrilegio era o meu amor, sacrilegio duas vezes, por que era de padre e porque era por uma irmã.

Pelo modo como o tio Joaquim narrava a sua historia conhecia eu quanto elle teria padecido, e bem conforme ao que disséra antes de começar, presentia que outros tormentos deveria haver maiores do que as minhasduvidas e incertezas sobre o futuro, do que os meus sonhos e aspirações.

Chegou entretanto o dia, proseguiu o velho, e não sem que a estrada dolorosa tivesse sido para mim bem cheia de agonias e de provações. Margarida não suspeitou nunca quanto eu a amava, nem sob o gelo apparente, em que a tanto custo me sepultava, poude perceber os ardentes lumes de um amor desvairado. Occasiões houve em que rasgava o peito com as unhas até fazer sangue, em que tremia em convulsões para resistir, em que me exforçava com sobrehumano impeto para não desatar em suluços; outras em que tive de fugir para evitar a sua presença, porque já não podia luctar com o impulso que me arrojava para os seus pés a dizer-lhe quanto a amava.

E tive de assistir impassivel a todos aquelles pormenores, que me fallavam da felicidade futura de ambos, tive de escutar as singellas narrações de Margarida sobre todas essas minuciosidades, que me retumbavam na cabeça com estridor horrivel, porque em todas ellas descortinava, ou pretextos para uma caricia, ou commodos para um transporte, ou logar finalmente para aquelles dôces e para mim desconhecidos mysterios do thalamo nupcial.

Os primeiros clarões da alvorada no dia do casamento, encontraram-me accordado ainda. Na vespera mesmo não acreditava que podesse chegar: via raiar a manhã e cuidava estar sonhando. Pois Margarida havia de casar!

Minha familia, sem comprehender nem de leve, porque não recata mais cuidadosamente a abelha os seus lavores do que eu escondera de todos e de tudo o meu insensato amor, minha familia, digo, só experimentava uma pena: não ser eu quem casasse meus irmãos, porque a minha benção, cuidavam os credulos paes, havia de forçosamente attrahir felicidades sobre os esposos.

Na verdade seria o ultimo sacrificio, depois do qual poderia dizer a Christo: tambem sei o que é o Golgotha!

Pareceu-me tudo um pesadello, persuadi-me que acordaria breve de tão cruel illusão. Vi, ouvi, fallei, dirigiram-me perguntas, tornei respostas, e não soube nem sei ainda o que vi, o que ouvi, o que me perguntaram e como respondi. Dizem que pessoas ha que dormindo andam e fallam, assim devia ser o estado em que estive todo o dia.

Mal poude fugir á noite, corri, corri, e quando me vi bem longe, desatei a chorar como me não lembrava em minha vida de ter chorado assim. Parecia que me estallava a alma n’aquelles soluços, mas ao correr das lagrimas um grande peso saia de sobre mim. Não sei como, mas chorando sempre achei-me de repente deante das janellas do quarto de Filippe. Estavam illuminadas, fitei-as com o pavor com que daria de rosto com a entrada do inferno; vi passar dois vultos por dentro das vidraças, reconheci-os e com a razão de todo perdida atirei comigo a terra, agarrei com ambas as mãos a cabeça, e comecei a bater com a testa, como desesperado de encontro ao chão.

Com a força da dôr perdi os sentidos e para alli fiquei banhado em sangue, até que os raios do sol, já bem alto, me fizeram tornar em mim. Olhei machinalmente para a janella. Estava cerrada ainda; senti nova vertigem mas d’essa vez, sem me lembrar que ia banhado em sangue deitei a correr, o mais rapido que podia, em direcção do meu convento.

Disse que uma quéda no caminho me fizera o sangue que trazia, e facilmente me acreditaram. A verdade, se o dissesse, é que fôra para duvidar.

Encerrei-me na minha cella, pretextei uma doença para não sair e pedi ao meu bom mestre, que me ouvisse de confissão. Contei-lhe a minha historia, tal como se passára n’esses dias e pedi-lhe que me accudisse,pois que não sabia de mim. Ouviu-me o santo velho com lagrimas nos olhos, depois:

—«Deus me perdôe se errei, disse-me, e mais ainda se fiz a tua infelicidade, Joaquim, chamando-te para o serviço do Senhor. Mas era impossivel que assim não fosse. Ha homens condemnados fatalmente pela desgraça, e tu és um d’elles. Lê-se no rosto esse infeliz condão, adivinhei-t’o eu, que tambem sei o que é padecer.

Para dôres como a tua, para outras bem maiores ainda, se fizeram as solidões dos claustros e o gelo d’estes vastos carneiros. Sepulta para ahi a tua alma, emquanto não te sepultam o corpo, sob essas lages que hoje calcas, e morre já que foste condemnado a não viver. Não julgues cruel esta linguagem, é a que te póde fallar um amigo, quasi um pae.—O que sômos nós outros, pobres frades, n’este mundo? Fantasmas erradios que arrastamos a mortalha em vida, arrebentos solitarios, que medrâmos entre pedras. Para nós não ha familia, não ha esposa, não ha filhos, tudo que é morre comnosco, nada deixamos n’este mundo, que se lembre de que vivemos.

Mais um numero n’uma pedra, um nome no livro do registro, alguns ossos mais n’uma cova. Torna impenetravel o teu tumulo, calafata com o maior cuidado qualquer orificio por mais pequeno que seja, que dê para o exterior, e já que nada podemos ter com o mundo aparta-te d’elle de todo.

Já que não pódes ser feliz esquece, já que não pódes gosar, não sintas.»

Segui á risca o seu conselho. Graças á sua protecção deixaram me na minha cella, mesmo porque, segundo dizia, assim me preparava pelo estudo e pela meditação para ordens maiores. Passou um anno. Trabalhei, estudei muito e como disse Fr. João da Soledade, se não fui feliz, não senti; não me lembrei e não padeci.

O reinado de D. Miguel approximava-se da sua terminação, e a tempestade, que se formára n’uma pequena ilha no meio do oceano, rebentára já sobre todo o paiz.

Armava-se a nação em peso; guerrilhas de um e outro partido percorriam as povoações e juntavam aos horrores da guerra civil o assassinato, o roubo, o incendio, o forçamento e o sacrilegio.

Bem esmorecido era o ecco, que na minha cella repercutia; mas ainda assim por elle avaliava das borrascas, que se desencadeavam fóra. Por quanto ainda que procurasse apartar-me das coisas d’este mundo, por tal fórma andavam todos preoccupados com os acontecimentos, que se iam succedendo uns após outros com rapidez incrivel, que era impossivel deixar de perceber, que havia graves casos, a attribularem a humanidade.

Fallaram-me de combates, de mortes, de incendios, de devastações; mas tal eu estava, que me era tudo indifferente. Antes, porém, occasiões havia em que, confesso-lh’o, desejava que um terremoto subvertesse o mundo para que na geral destruição encontrasse vingança correspondente ao que me haviam feito padecer.

Acordei das minhas meditações uma noite, ao rebatedos sinos da povoação proxima e ao dobrar sinistro e precipitado da campa do nosso convento. Ruidos desusados eccoavam por aquellas abobadas, passos de quem fugia, vozes de quem pedia soccorro, supplicas, choros, imprecações tudo se misturava e confundia.

Estava para me levantar do estudo e para saber a causa de semelhante alvoroto; quando a figura magestosa de Fr. João da Soledade me appareceu á porta da cella aberta de par em par.

—Ergue-te, Joaquim, disse-me, toma as tuas sandalias e o teu bordão de viajante e caminha!

Aquella voz fóra d’horas, aquellas palavras solemnes produziram-me effeito não inferior ao que deverá produzir a trombeta final no Valle de Josaphat.

—Que quer de mim, meu pae?

—Acabaram-se os dias de paz, chegaram as horas das provações e da lucta. Os servos do Senhor são perseguidos de terra em terra como animaes ferozes em montaria. Os impios não respeitam nem as abobadas sagradas, nem os vasos da eucharistia. Mesmo com a hostia sacrosanta na mão será o padre perseguido se assim o encontrarem!

A espada de Malco substitue a palavra de amor. Volta a egreja aos tempos da perseguição e do martyrio; segue-nos, Joaquim, as aguas do diluvio avançam cada vez mais.

Fr. João estava profundamente impressionado. A paixão politica ateava-lhe o zelo religioso, o homem do seculo trazia para junto dos altares as suas affeições mundanas, e das crenças fazia evangelhos. Pela minha parte, quasi que o não comprehendia. A linguagem emphatica, que estava empregando, destoava muito da singelleza em que educára o meu espirito reflexivo e concentrado. Fr. João com o olhar chammejante, o gesto altivo, o rosto illuminado por um enthusiasmo mais guerreiro do que apostolico, lembrava-me um d’aquelles monges prégadores de eras affastadas, quea minha imaginação tivesse feito surgir dos livros abertos deante de mim, e que de espada na mão direita, e crucifixo na esquerda, queriam abrir o caminho da redempção com o ferro destruidor, atravez das hostes dos infieis.

—Mas, meu pae, que aconteceu?

—Aconteceu, que os exercitos invasores se approximam talando campos e povoações; aconteceu, que na sua marcha amaldiçoada não ha propriedade que resista, cabellos brancos que se respeitem, honra de mulher que se recate; aconteceu que aos que cedem, espoliam; aos que não cedem, assassinam; aconteceu, que fallam em levantar mão sacrilega contra as muralhas defesas a profanos d’este venerando templo. Os phariseus em motim pedem o sangue dos justos. Deixemos a habitação de paz, d’onde nos expulsa a malevolencia dos impios, e vamos, como os apostolos, de terra em terra, de monte em monte, de caverna em caverna, onde suas vozes não cheguem, onde seu braço não alcance, levantar sobre a pedra tosca e rude a cruz do sacrificio, a hostia da redempção. Vem comnosco filho, vem percorrer o teu Getsemani.

Entretanto o sino grande continuava a dobrar com som soturno, os gritos da povoação disperta em sobresalto, os passos precipitados dos frades, que desamparavam, gemendo, as cellas em que haviam vivido por tanto tempo, e onde esperavam descançar para sempre, o som ameaçador e irregular de um tiroteio ao longe, davam áquella scena um caracter que impressionava profundamente. Pela minha parte, parecia-me que um novo pesadello me vinha cortar a somnolencia em que demorava havia tanto; resistia ao movimento e prostrado de animo e de corpo, preferia que me matassem n’aquelles logares a ir tentar nova sorte, n’esse mundo a que tinha tão grande horror.

Fr. João, que nos momentos solemnes parecia transformar-se, approximou-se de mim, tomou-me por umbraço, fez levantar-me contra minha vontade, e bradou-me com voz terrivel:

—Serás tão ingrato, que desampares teus irmãos no momento do perigo? Aqueceria eu por ventura a serpente no meu seio?—Seria a prova mais cruel, porque te quero como filho; mas bem merecido castigo, por ter deposto a minha ternura n’essa vil argila. Fica-te para ahi, e fique a minha maldição comtigo.

E com tanta força me abalou, que me ia lançando por terra. Firmei-me porém, e respondi-lhe:

—Não, meu pae, não sou ingrato. Seguil-o-hei como a sombra segue o corpo, como a alma segue o pensamento. Era o aspecto do mundo que me espavoria; voltára tão mal ferido do combate, que não seria para extranhar que vacillasse agora antes de vestir de novo as armas. Sabe meu pae, que me não arreceio nem da morte nem das provações; mas sabe tambem quanto me custa ir fitar de novo essa gente, que tão grandes males me causou. Eis porque hesitava. Aqui me tem prompto para tudo, e creia que me não apartarei do seu lado.

O velho estendeu-me os braços, e com as lagrimas nos olhos:

—Sempre o acreditei assim, meu filho: abracemo-nos, que talvez seja esta a ultima vez. Agora a caminho! Vamos reunir-nos a nossos irmãos e infundir-lhes a coragem, que nos fallece. Irmão, filho; meu filho, animo.

Como um rebanho de ovelhas, que ao presentir o lobo se reunem em mó, e se apertam tanto, como se umas quizessem entrar nas outras; assim os frades se apinhavam junto ás portas do convento, espavoridos, tremulos, espalhando vistas atterradas para todos os lados, e escutando os pavorosos sons d’alarme, que estrugiam os ares.

Fr. João da Soledade assumira na communidade a preponderancia, que a intelligencia forte e arrojadaexerce sempre n’uma corporação naturalmente timida e indecisa. A sua presença serenou por um pouco os animos.

Procurando dar á voz uma entoação firme, cuidou o velho em confortar os seus companheiros n’aquelle extremo lance, com esperanças de melhor futuro; em que elle acreditava menos do que ninguem.

As ultimas palavras porém, foram cobertas pelos clamores de victoria, pelos gritos de angustia e pelos tiros de espingarda, cujos sons misturados e confundidos pareciam precipitarem-se sobre nós em turbilhões e redemoinhos como o vento da tempestade.

Os religiosos estremeceram, e pensaram em fugir cada um por seu lado, a voz de Fr. João mais fortalecida e mais segura, tal era o poder da vontade n’aquella alma de ferro, alentou-os por momentos; entretanto os clarões do incendio tingiam de vermelho o céo e o rasto do fogo annunciava a approximação dos guerrilhas.

Em pouco avistaram-se no cimo de um monte proximo os inimigos, deante dos quaes fugiam em debandada alguns miliciannos da terra, que por momentos tinham pensado em bater-se. Um grito unisono partiu da bocca das creanças e das mulheres, ao verem approximar-se aquelles homens sem piedade, avidos de sangue e de exterminio; os frades transidos de medo entoaram, erguendo os braços aos céos em signal de entranhada angustia, o psalmo dos agonisantes.

As primeiras palavras denunciaram aos guerrilheiros a nossa presença; ouvimol-os distinctamente clamar:—a elles, aos mandriões dos frades,—e apontaram as espingardas.

Ao vêl-os fazer pontaria Fr. João exclamou rapido:

—Por terra, prostemos-nos, irmãos, senão estamos perdidos! Os frades obedeceram immediatamente; o susto mesmo deitava-os no chão; os tiros partiram; mas as balas silvaram por cima das nossas cabeças, e uma só feriu um dos religiosos, que tinha ficado mais distante.

Passada a descarga ergueram-se todos, e como bando de pombas a que atirou o caçador, deitaram a fugir em diversas direcções, caindo, erguendo-se, de rastos, gritando, gemendo, mas correndo quanto podiam.

Junto ás portas do convento desamparado, só ficavamos, depois da primeira descarga dos guerrilheiros, Fr. João da Soledade e eu.

Entrados apenas na povoação, começaram os guerrilheiros a saquear e a devastar tudo. Do logar, em que estavamos, podia-se conhecer de seus movimentos pelo vaguear dos archotes, pelo soltar de gritos afflictivos, e pelas columnas de fumo, que se ennovellavam aqui e além, sobre os telhados das habitações a que lançavam fogo, quando a preza os não satisfazia.

A lembrança de Margarida, que não me tinha desamparado nunca, confesso-lh’o, nem mesmo quando mais fervorosas supplicas levantava ao céo, accudiu-me ao pensamento.

—Meu pae, exclamei, fujamos, antes que caiam sobre o convento e nos surprehendam aqui; sigâmos pela estrada, que vae por fóra da povoação, e vejamos se podemos, esta noite ainda, chegar a nossa casa, avisaremos depois sobre o que temos que fazer.

—Vamos, filho, e o Senhor se compadeça de nós.

Não era o amor á vida que me apartava d’aquelles logares. Por minha vontade ficaria sepultado sob as ruinas do convento e fizera da minha cella um sepulchro. Mas a essas horas quem sabe o que seria de Margarida! Tremia só de o pensar, e o quadro que tinha ante os olhos mais me apavorava ainda; porqued’ahi concluia dos horrores, que ella poderia ter presenciado, se é que d’elles não tivesse sido victima.

Não imagina nem por sombras o que seja uma guerra civil. Por muito que lhe contem, tudo fica muito abaixo da realidade. Aquella porém era guerra de exterminio.

Desencadeavam-se odios, que estavam em incubação, havia dezenas de annos. Aggrediam-se visinhos, parentes, amigos e irmãos, e aggrediam-se tanto mais cruelmente, quanto melhor sabiam, onde haviam de ferir. Não poupavam ninguem, não havia recanto que valesse, não havia esconderijo que salvasse, não havia nem idade, nem sexo, que pozessem a coberto do insulto, da affronta, da violencia, tanto mais crueis quanto partiam dos que dois dias antes comiam á mesma mesa, e bebiam no mesmo copo.

Ao romper da manhã estavamos deante da casa de meu pae. Tinham-me preparado para terriveis surprezas as scenas, que presenceára pelo caminho; o que vi, porém, sobrelevou muito ao que eu esperava.

Tudo em terra, tudo saqueado, tudo roubado, e os cadaveres de meu pobre pae e de minha velha mãe a meio da casa, crivados de feridas...

As lagrimas suffocaram o velho narrador, que teve de descançar por momentos antes de poder proseguir.

—Descance, tio Joaquim, disse-lhe já quasi arrependido da minha indiscreta curiosidade, não continue, custa-lhe tanto... Outra vez me contará o resto.

—Não, para quê? Tem de ser. Não é o contar que custa, é lembrar; e raras vezes me esqueço. Isto já passa, um momento de descanço e continúo.

Tinham entrado em casa, e dado rigorosa busca para encontrarem os thesouros; que, segundo era fama na terra, havia em casa. Desesperados por não acharem o que esperavam, voltaram-se contra os dois velhos, que por mais que quizessem não os podiam satisfazer; por quanto apenas havia começado a guerra tinham escondido n’outra parte o seu dinheiro.

Não lhe acreditaram nos juramentos, e mataram-nos barbaramente para se vingarem das suas negativas.

—E Margarida?

—Havia dias que partira para uma fazenda d’ali distante em companhia de meu irmão, salvára-se da morte, e da deshonra.

—Pois quê?...

—A tudo se atreviam aquelles homens implacaveis. Não havia barreira que se lhe puzesse deante, nem consideração, que os demovesse, pareciam furiosos.

Pela convivencia soube o que eram esses desalmados, a quem o amor da patria servia de pretexto, e o amor da rapina estimulava unicamente.

—Pois o tio Joaquim?...

—Fui guerrilheiro tambem. A vista dos cadaveres de meus paes operou em mim uma revolução pavorosa. Tive sêde de sangue, de destruição, de vingança. Enterrei os dois velhos sem derramar uma só lagrima. A febre do exterminio requeimava-me por dentro, cravei uma cruz sobre a cova onde ficaram, unidos como o haviam sido sempre, e jurei que não descançaria emquanto tivesse forças para uma espingarda.

Fr. João, que era perseguido tambem como lobo, porque todos o conheciam, juntou-se comigo; reunimos os mais enfurecidos do logar, aggravámos as feridas dos que mais haviam padecido, e levantámos uma guerrilha das mais afamadas n’aquelles tempos, e bem conhecida pelo nome de—guerrilha do frade.—

Luctámos, luctámos com encarniçamento sem egual, e parecia que as forças se nos augmentavam com a lucta. Andei n’aquella vida errante perto de um mez, sem dormir uma noite somno que aproveitasse, sem ter duas horas de descanço, sem ter um momento sequer para pensar no passado, ou no futuro.

Seguiam-se os combates, as embuscadas, as fugas, os ataques, sem descontinuarem, sem interrupção alguma. Era preciso homens de ferro para aquella vida,e entretanto, de tal fórma o furor nos trazia incendidos, que ao cabo do mez parecia que mal haviamos começado.

Um dia ao amanhecer, um dos nossos, que andava por fóra veiu avisar-nos de que outra guerrilha se approximava, da qual se contavam proezas inauditas.

Esperámol-a e saimos-lhe a caminho, desejosos de nos medir com esses tão celebrados inimigos.

Durou quatro horas o fogo, batemo-nos como desesperados de parte a parte, até que fugiram em debandada, deixando o campo juncado de cadaveres. Dos nossos a perda fôra consideravel tambem, e Fr. João agonisava com uma bala nos pulmões. Saia-lhe da bocca sangue e espuma, soluçava que fazia horror ouvil-o, e expirou-me nos braços, procurando debalde articular algumas palavras.

Corremos a revistar os mortos que os contrarios haviam deixado insepultos. Entre os cadaveres reconheci meu irmão!...

Estava castigado do que havia feito como guerrilheiro; a minha campanha estava concluida. Tinha corrido ás armas para vingar a morte de meus paes, e arrojava a espingarda homicida diante do cadaver de meu irmão.

Triste periodo da minha vida, entre duas sepulturas; e sepulturas dos meus mais proximos parentes!

A guerra estava a acabar.

Tinha-se assignado a convenção de Evora-Monte, por toda a parte os vencidos depunham as armas, e procuravam salvar-se das represalias pela fuga, ou pelo homisio.

Caminhei sem saber como, nem por onde, para fugir ao ensanguentado espectro de meu irmão, que parecia perseguir-me, trazendo apoz si as victimas de quantos haviam perecido aos nossos tiros; os meus companheiros tresmalharam-se em diversas direcções. Separámo-nos, como nos haviamos reunido, sem pena nem saudades. Apesar de termos vivido tanto tempo juntos, quasi que nem nos conheciamos.

Á noite entrei na povoação.

Bati a uma casa, que, semelhante a sentinella perdida, estava mais affastada das outras. Abriram-me aporta, soltaram um grito ao vêr-me: eu ia dando no chão. Reconheci Margarida.

—E Filippe?

Pareceu-me que assim devera ser a voz do Senhor, quando bradou ao primeiro fratricida:

—Cain, que fizeste de teu irmão Abel?

Não tive forças para negar, exclamei-lhe em resposta:

—Morto!

E desatei a soluçar, escondendo o rosto entre as mãos.

Á minha vista parecia ter adivinhado tudo com essa lucidez, que dá o sentimento. Eu não podéra resistir á voz da consciencia, que parecia accusar-me pela bocca de Margarida.

A desgraçada viuva caiu fulminada. Quando tornou a si tinha enlouquecido.

Aquelle viver de sustos e de inquietações constantes de tal fórma lhe haviam excitado o espirito, que um golpe tão profundo assim rapido, quasi inesperado, achou-a sem forças para o aguentar. Ao menos deixava de padecer.

Durou alguns mezes ainda. E tudo quanto até então eu tinha experimentado, poderia dizer se brinco de creanças comparado aos tormentos que aturei durante esses mezes.

Não soube nunca onde meus paes tinham escondido os seus bens. Estavamos pobres, e Margarida, que se definhava a olhos vistos, reclamava cuidados e despezas que me obrigaram a vender quanto possuia, e a trabalhar de noite e de dia para acudir á pobre enferma.

Amára Margarida com toda a vehemencia do primeiro e ultimo amor. A paixão mais energica do homem, a que o arroja ás maiores emprezas, ou o precipita até ás acções mais vis, tinha rebentado em mim com toda a força ao vêr aquella santa e boa rapariga.

Aprendera com ella o que era amor, e soffrera tantomais, quanto via que era por outro que ella experimentava sentimento egual ao meu. Agora, porém, tinha-a a meu lado sempre; mas como morta ou peor ainda, porque horrorisavam e arrefeciam mais aquelles transportes de loucura, do que os gelos e o pavor da sepultura. Ouvi-a de noite e de dia chamar por um nome que não era o meu, e cada vez que lh’o ouvia, parecia que com elle, d’aquella bocca pela qual para que desabrochasse n’algumas palavras de amor, eu déra a vida, saía uma accusação, um anathema contra mim.

O nome do meu rival, de quem me não podia vingar porque estava morto, esse nome que ouvia a todos os momentos, era o de meu irmão, morto pelos meus, talvez por mim; e eu vivia para que Margarida me recordasse a todos os momentos: a mesma bala que commettera um fratricidio, enlouquecera a unica mulher que havia amado.

Adivinha o resto; nem mesmo eu teria forças para continuar por muito tempo.

Margarida morreu. Eu estava só, sem meios, cercado de terriveis recordações. Fugi a esse mundo de pavorosos espectros, e vim por ahi abaixo procurar no trabalho o esquecimento. Tenho trabalhado; mas não poude esquecer ainda!...

O tio Joaquim acabára de fallar e parecia ouvil-o ainda. Tinham ficado resoando-me as suas palavras,como a pancada do sino depois de tangido, e que por muito tempo vae abalando o espaço.

Já de muito anoitecera. Com a noite começára a carregar-se o céo, a encapellar-se o mar, a desencadear-se o vento. Rugia a tempestade, quando o velho concluiu. O ribombo do trovão abafou-lhe as ultimas palavras. A natureza parecera querer accrescentar um côro magestoso áquella eloquente manifestação.

Lancei os olhos em roda; levantei-me, dei o braço ao narrador, e começámos a descer pela encosta com extrema difficuldade, porque já fazia muito escuro.

O tio Joaquim não dava por coisa alguma, deixava conduzir-se como uma creança. Não parecia d’este mundo.

Ao voltar para uma azinhaga que no fim da praia cortava para a estrada, volvi os olhos para o mar, que cada vez se embravecia mais, e vi á luz de um relampago o sitio, onde sentado havia pouco, tinha ouvido a historia do velho.

Comparei aquellas duas tempestades: a que ribombava surdamente na alma do velho, e a que estalava nos ares levantando em escarceus a agua do mar, e varrendo a terra com o furioso soprar do furacão.

Quanto era superior o padecimento do velho!—E entretanto d’ali a poucas horas a natureza descançava d’aquella convulsão violenta; mas o tio Joaquim continuava a padecer, suspirando pela tardia hora do repouso.

Só a natureza póde descançar porque é immortal; para o homem o descanço chega, apenas, quando lhe começa a immortalidade.

Finalmente o tio Joaquim tambem descançou.

FIM


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