Imagem decorativaOS JARDINS,POEMA
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CANTO PRIMEIRO.
Renasce a Primavera, influe, e animaAs Aves, os Favonios, Flores, Musas.Que novo objecto á lyra os sons me pede?Ah! Quando a Terra despe antigos lutosNos campos, nas florestas, sobre os montes,Quando tudo se ri, tudo se inflammaDe amor, e de esperança, e de ventura,Outro c’o a fantazia em Febo acceza,Abra os fastos da Gloria aos grandes nomes,N’um carro fulminante alce o Triunfo,Manche, ensanguente as mãos na taça horrivelDo vingativo Atrêo: sorrio-se Flora,Vou cantar os Jardins, dizer qual arteEm terreno loução, dispoem, regùlaAs flores, a corrente, a relva, as sombras.Tu, que o vigor, e a graça entrelaçando,Dás ao canto didáctico energia,De Lucrecio na voz, se outr’hora, oh Musa,As austeras lições amaciaste;Se pôde o seu Rival (sem que nos labiosA linguagem dos Numes desluzisse)Ao laborioso arado unir o metro;Vem mais fertil ornar, mais rico assumpto,Assumpto amavel, que tentou Virgilio.Mãos não lancemos de atavio estranho;Das minhas mesmas flores vou croar-me:Qual pura luz, que bella nuvem doira,A expressão tingirei na côr do objecto.Arte innocente, que em meus versos canto,Origem teve nos cerúleos dias,Nas Primavéras do recente Globo.Apenas o Homem submettêra os camposÁ cultura efficaz, pôz mil disvelosDe viçósa porção no trato, e mimo,Alinhou para si com leis, e industriaPlantas selectas, escolhidas flores.De Alcino o luxo, o gosto, ainda rudePunha a curto vergel módico enfeite;Eis com arte maior, mais sumptuosaJardins nos ares Babylonia ostenta.Os Latinos Heróes, de Marte os Filhos,Depois que Roma agrilhoava o Mundo,Davão repouso ameno á gloria, ao raio,Em frescos Hortos, que a Victoria ornára.Habitava os jardins outr’hora o Sabio,Doutrinando os Mortaes mais ledo que hoje.Quando a Sabedoria Elysios teve,Ereis vós, Dons do Céo, talvez Palacios?Não: vós ereis hum prado, hum rio, hum bosqueDe imperturbavel paz ditoso abrigo,Puras delicias, que a virtude anhéla.Corra-se pois, que he tempo, o novo espaço:Filippe, e o bello assumpto a voz me alentão.Para aformosear simples terrenosNão insulteis co’a pompa a Natureza;Este emprego requer sisudo Artista,Parco em dispendios, na invenção profuso;Jardim, menos fastoso que elegante,Jardim com mais belleza que atavío,Parece aos olhos meus hum amplo quadro.Sede Pintor: o campo, os seus matizes,Os reflexos da luz, da sombra as massas,As estações, e as horas, variandoO gyro do anno, o circulo diurno;Ricos esmaltes de cheirosos prados,Dos oiteiros o alegre, o verde forro,Aguas, boninas, arvores, penedos:Eis os vossos pinceis, têas, e côres.Podeis crear: a Natureza he vossa,E dóceis para vós os Elementos.Mas antes de plantar, antes que enceteInstrumento imprudente o seio á Terra,Para dar aos jardins mais linda fórmaObservai, reflecti, sabei de que arteSe imita, se arreméda a Natureza.Não tendes vezes mil em ermos sitiosDe repente encontrado aquellas vistas,Que as plantas, que os sentidos vos suspendem,E que em meditações quietas, longasEnlevão manso, e manso a fantazia?Tudo o melhor senhoreai c’o a mente,Dos campos aprendei a ornar os campos.Lugares, que sutil decóra o gosto,Olhai tambem; nos escolhidos quadrosAinda há que escolher; por vós se admireDe Chantilli magnifica elegancia,Que de Heróes em Heróes, de Idade a IdadeGanha novo esplendor. Belœil, a hum tempoCampestre, apparatoso, e tu que aindaUfano Chanteloup, te desvanecesDe teu grande Senhor com o desterro;Todos vós alternais o bem dos olhos.Qual purpureo botão, mimoso, e breve,Timido precursor da Quadra bella,O amavel Tivoli, de fórma estranhaÁ França descobrio ténue modélo.Montreuil as Graças desenhárão rindo,Maupertuis, le Desert, com que alegria,Auteuil, Rincy, Limours, quão docementeNas vossas lindas, arejadas ruasOlhos se embebem, se extravião passos!Do grande Henrique a veneravel SombraAma ainda Navarra, e parecidoComtigo Trianon, Deosa, que o reges,Une a graça, o recreio á magestade,Se adorna para ti, por ti se adorna.Grato asylo d’hum Principe adoravel,Tu, cujo nome de apoucada idéaHe indigno de ti; lugar vistoso,Quanto lhe devo a teu Senhor, offrece:Hum plácido retiro, hum ocio lédo.Bemfeitor de meus versos, de meus dias,Na eleição de atilados Escritores,Em jardim, que do Pindo as rosas vestem,Inclue a Musa minha, e brando a acolhe.Junto ao Lyrio soberbo, e magestosoAssim cresce a violeta humilde, e escura.De illustres Vates não illustre socio,Ah! se coubera em mim cantar como elles,Pintára os teus jardins, pintára o Nume,Que os habita, que os honra; o gosto, as artes,As virtudes, a gloria, os bens que o seguem,O ladeão em ti. Lugar formoso,Sê tu sua ventura. Eu se algum diaFindar, por graça delle, amena estancia,Mais bella a tornarei co’a bella imagemDo alto meu Protector; quero que sejãoMinhas primeiras flores seu tributo.Para o busto real cultivo, enlaçoEm virentes festões o loiro, o myrto,Tão caros aos Bourbons, e se o repouso,A liberdade, as sombras me inspirarem,Ao bemfazejo Heroe te sagro, oh lyra.Fallei desses lugares deleitosos,Que a arte deve imitar: convem que falleDos escolhos que a mesma evitar deve.O engenho imitador tambem se engana.Não dê belleza ao chão, que o chão não queira,A paragem conheça antes de tudo,Do sitio adore o Genio, o Deos consulte:Impunemente as leis não se lhe aggravão.Nos Campos, todavia, a cada instante,Menos audaz que estranho em fantasias,Tudo altera, e confunde Artista inerte,E desnaturaliza, e perde tudo;Com absurda eleição mil graças liga:Encantavão na Italia, em França enjoão.O que o terreno teu sem custo adopteReconhece, e depois te apossa delle.Isto ainda he melhor que a Natureza,Mas isto mesmo he ella, isto he perfeitoQuadro brilhante, que não tem modélo.Dos Berghems, dos Poussins tal foi a escolha,De ambos estuda as producções divinas,E o muito que o pincel aos campos deve,Arte cultivadora, agradecida,Nos jardins restitua á Natureza.Os terrenos agora se examinem,E que lugar se apraz das leis, que traças.Houve tempo fatal em que Arte infensa,Guerra aos mais bellos sitios declarando,Enchendo os valles, arrazando os montes,Formou de chão gentil planicie ingrata.Hoje, rural Tyranno, outro ArtificioQuer, por contrario abuso, erguer montanhas,Valles quer profundar. Longe os excessos,Longe as lidas, e ardis: tudo he baldadoContra intrataveis, repugnantes serros;E sobre terra igual montinho humildeCuida ser pictoresco, e move a riso.Queres a teu suor lugar propicio?Foge as mui desiguaes, os muito planosCampos, e serras. Eu tomara os sitiosOnde sem altivez fosse eminenteA rico valle matizado oiteiro.Não tendo insipidez, lá tem branduraO solo complacente, he alto, he secco,Estéril não, não rispido: caminhas;Obedece o horizonte, ergue-se a Terra,Ou a Terra se abate, aperta, estende:Luzem de passo a passo encantos novos.Dos Gabinetes no silencio triste,De compasso na dextra, embora ordene,Artifice vulgar a symmetriaD’enfadoso jardim, confie emboraO Geometrico plano ao papel frio.Tu vai ver em si propria a Natureza.O lapis maneando, alli copìaEste aspecto, estes longes, esta altura,Meios advinha, obstáculos presente:Só a difficuldade he Mãi de assombros,E o chão de menos graça havella póde,He nu? Florestas a nudez lhe amparem.He coberto? Os machados vão despillo.Humido? Em lagos de cristal pomposo,Em ribeiras fecundas, transparentesSe converta, se aclare essa agua impura.Por trabalho feliz corrige a hum tempoMelhora as aguas, o terreno, os ares:He árido talvez? Procura, sonda,Torna ainda a sondar, não te enfasties:Póde ser que, em trahir-se vagarosa,A agua de rebentar esteja a ponto.Tal de hum tenaz esforço eu mesmo anciado,Morna individuação maldigo, entejo,Mas de estéril objecto aborrecidoIdéa graciosa eis surge, eis salta:O verso resuscita, e facil corre.Inda mais doces que estes ha cuidados,Arte existe inda mais encantadora.Falle-se ao coração, não basta aos olhos.As invisiveis relações conhecesDesses corpos sem alma, e dos que sentem?Das aguas, prados, selvas tens ouvidoA calada eloquencia, a voz occulta?Todos estes effeitos deves dar-nos.Do alegre ao melancolico, e do nobreAo engraçado, os transitos sem contoSempre me aprazem, me cativão sempre.Une, simples, e grande, forte, e brando,Todo o matiz, que a todo o gosto agrade.O Pintor enriqueça alli a idéa,A santa Inspiração turbe o Poeta.Alli remansos d’alma o Sabio goze,Memorias o ditoso alli desfrute,De lagrimas se farte o miserando.Mas a audacia he commum, e o siso he raro.Graça ás vezes se crê a extravagancia.Evita que os effeitos, mal unidos,De incoherentes imagens formem cáhos;Vê que as contradicções não são contrastes.Estes paineis de natural pinturaRequerem longo espaço; em quadro estreitoNão vás aprisionar montanhas, bosques,Nem lagos, nem ribeiras. He costumeZombar desses jardins, paródia absurdaDos rasgos que a atrevida NaturezaNo seu grande espectáculo derrama;Jardins, em que Arte rude, e inverosimilHum Paiz todo n’uma geira encerra.Em vez deste montão confuso, inerte,Varía objectos, ou lhe altera a face.Perto, longe, patentes, quasi occultos,Revezem todos mil diversas vistas.Dos effeitos seguintes a incertezaGrato desassocego aos olhos deixe,Ornamentos o gosto emfim coloque,Imprevistos jamais em demasia,Jámais em demasia annunciados.Presta sobre maneira o movimento;Sem a doce magia, a elle annexa,Em lethargo recae a alma ociosa.Sem elle, por teus campos enfadonhosEm gyro casual vão sempre os olhos.Citarei outra vez altos Pintores?Lá diffunde o pincel pródigo, e fertilMóveis objectos sobre o panno immovel:O rio foge, o vento encurva os ramos,Globos de fumo das Aldêas sobem,Os Gados, os Pastores brincão, danção.Cuida em te apoderar deste segredo,Dispoem sem parcimonia arbustos dóces,Arvores brandas, cuja afavel comaDas virações ao hálito obedece.Sejão quaes forem, tu, Cultor, veneraA vacilante, undisona verdura,Tolhe, que o ferro a Natureza ultraje,Ella c’o a mestra mão como desenhaDesta parte os carvalhos, desta os olmos!Olha como do tronco até aos ramos,Dos ramos té ás folhas desparzidoDa Mãi universal benigno influxo;Vai das undulações dar-lhe a molleza.Porém golpes crueis... vedai tal crime,Correi, Nynfas da selva... ah! Q’he de balde,O córte cerceou-lhe a gala, o viço.Já na cópa vivaz não oiço ao longeCorrer os Aquilões, bramir na rama,Affastar-se, expirar. Tácitos, frios,Mortos do ferro os vegetaveis Entes,Delle semelhão rispideza immovel.Ás plantas deixa, pois, tremor suaveNos quadros teus, do movimento amigos:Faze fugir, ferver, saltar as aguas.Vês estes valles, solidões, florestas?Por varios sitios de diversos gados.A nédia multidão se envie, e alongue.Além vejo a cabrinha roedoraPender do cume de remotas penhas,Aqui mil cordeirinhos melindrososSoltão queixumes, que de serro a serroVai éco em molles sons amiudando.Nestes, que as aguas da collina sorvem,Prados lustrosos, sobre as mãos se estende,E ruminando jaz o Boi pesado,Em quanto generoso, altivo, accezo,O filho do Tridente, o Marcio BrutoOstenta, vicejando, em pingues pastos,O indómito vigor, e o brio agreste.Quanto me atrahe, me regozija, quantoA audaz agilidade, o gesto activo!Ou elle, usado ás fluviais correntes,Sobre ellas se arremesse, estremecendo,E luctando depois, c’os pés sacudaAs ondas, que murmurão, que branqueão;Ou atravez dos prados salte, e fuja;Ou, longa crina errante aos ventos dada,Brotando os olhos fogo, as ventas fumo,Bello de orgulho, e amor, voe ás amadas.Sumio-se já, e a vista ainda o segue.O thesoiro exhaurindo á Natureza,Assim terrenos, vistas, e agua, e sombrasDão ás paizagens movimento, e vida.Porém se o movimento encanta os olhos,De liberdade hum ar não menos querem.O limite aos jardins fique indeciso;Ou com arte se esconda, ou se disfarce.Não ha mais que esperar? Vôa o feitiço.Com certo dissabor o fim se tócaDe huma estancia aprazivel: cedo enfada,E irrita finalmente; alem dos muros,Importuna barreira, inda se ideãoLugares mais gentis, mais attractivos,E a alma inquieta desencanta os olhos.Quando nossos Avós, á guerra affeitos,Seus campos em castellos convertião,Cada qual em munida, enorme torrePreso vivia por viver seguro.Mas hoje de que servem taes muralhas,Que o temor inventou, mantem o orgulho?A estes, que prendendo outr’hora a vista,A vista duramente entristecião,Prefere o gosto verdejantes muros,Muros tecidos de espinhoso enredo,Muros, por onde a mão, tremendo, colheA rosa inculta, a amóra ensanguentada.Mas jardim limitado inda me ancêa.Surja-se em fim de hum circulo tão breveA genero mais vasto, e mais formoso,De que hoje Ermenonville he só modélo.Os jardins para si chamavão campos,Vão nelles os jardins entrar agora.Do cimo desses montes, donde os olhosPaizagem dilatada abração, medem,A madre Natureza ao Genio disse:Os thesoiros, que vês, são teus: envoltosNa rude pompa, na opulencia bruta,Os quadros meus tua destreza implorão.Ella diz, elle vôa: em toda a parteEsquadrinha esta massa, onde repousão,Onde dormindo estão bellezas cento.Do valle á serra, da floresta ao pradoVai retocando os quadros, que varía.Dos olhos a sabor, une, e desune,Illumina, escurece, occulta, ou mostra:Não destróe, não compoem, corrige, apura,O esboço aperfeiçoa á Natureza.Carrancudo terror já despem rochas,O bosque alegre adóça, encurta as sombras;Hia perder-se hum rio: eis o encaminhão;De hum lago se apodera a mão geitosa,De cristalina fonte se enriquece.Quer, e veredas mil subito corremA demandar, cingir, prender os membros,Por aqui, por alli soltos, dispersos,Os membros, que assombrados, que attrahidosDa engenhosa união, do nó, que os junta,Formão de cem porções hum todo insigne.Talvez, campestre Artifice, te espantemEstes grandes trabalhos. Entra os nossosIdosos parques; de huma vez contemplaApuros vãos, dispendiosos nadas;As estacadas vê, regos, e tanques.Preço menor do que a minucias coubePara ornar o que hum dia apraz somente,Póde aformosear hum campo immenso.Fallaz, e sem sabor magnificencia,Cahe ante esta arte, e por milagre dellaA cara Patria minha se transformeToda em vasto jardim, n’um Eden novo!Se não ousas tentar esta carreira,Ao menos, franqueando o teu circuito,De aspectos opulentos o engrandece.De hum valle, hum serro, huns agradaveis longesAjunta posse alhêa á posse tua:Rege c’oa vista, pelos olhos gosa.Os varios, favoraveis accidentes,Com que innumeros campos se distinguem,Une principalmente a teus plantios.[1]Aqui jaz hum lugar, que cingem bosques,Acolá torreões Cidades croão,E a grimpa azul, ferindo ao longe os olhos,Vai sumir pelos Ceos o agudo extremo.Hum rio omitirei, e as margens suas?Após fugazes vélas corre a vista.Ilhas ás vezes sahem do vitreo seio,Ponte arqueada outr’hora o furta aos olhos.Se os mares espaçosos descortinas,Offrece, mas varía a grave scena.Mal se divise aqui por entre as folhas,Huma abóbada além, qual no remateDe tubo extenso, aos olhos o apresenteEm fundo de odoriferas latadas;Nas voltas de florente bosquezinhoAqui se encontra o mar, alli se perde:Eis sùbito apparece em toda a suaFervente, rugidora immensidade.Folgue a attenção nestes semblantes vários;Mas com mesquinhas mãos (cumpre que o diga)Os Homens, Natureza, o Tempo, as ArtesNos cercão de tão ricos accidentes.Oh Planicies da Grecia! Ausonios Campos!Lugares divinais, inspiradores,Sempre caros ao genio! Ah! quantas vezesEmbebido n’um mágico horisonte,O pintor vê, se inflamma, e toma o lapis,E debuxa esses longes, essas ilhas,Esse pégo, esses portos, esses montes,Torrados de volcões, e já fecundos;As lavas delles, que ameação, fervem,Palacios, que em ruinas de outros surgem,Hum novo Mundo que do velho assomaNestes de Terra, e Mar longos tormentos.Ah! Eu inda não vi essa risonha,Essa encantada estancia, onde mil vezesSoou do Mantuano a voz divina,Mas, pelo Vate, pelo Vate o juro,Heide, Apenino, transcender teus cumes,E cheio do seu nome, e de seus versos,Lêlos naquelles amorosos sitios,Sitios, cópia do Ceo, que os inspirárão.De encantadoras margens namorado,Por fóra ingratos campos tens sómenteEm vez de aspectos que interessem a alma?De estranha vista, que atedía o gosto,Vinguem-te objectos de mais bella escolha.Aprende a deleitar-te em teu recinto,Sê o emblema do Sabio independente,Que entra em si mesmo, e que se apraz comsigo.Nesse asylo fiel nos entranhemos.Todavia em lugares onde a TerraDe aspectos variados mais abunde,Os thezoiros da vista he bem que poupes,E seja leve gyro o custo delles.A arte os prometta, os olhos os esperem;Dá quem promette, quem espera goza.Releva, que enfeitices, não que assombres.Entre minhas lições tambem quizeraDuas artes de effeitos encontrados:Huma os olhos adverte, outra os saltêa.Mas antes de dictar preceitos novos,Dois generos, ha tempo émulos ambos,Disputão nossos vótos. Hum presentaDe regular desenho a ordem grave,Aos campos dá bellezas que ignoravão,De pompa desusada os atavia,E ás arvores poem leis, põe freio ás ondas;Brilha entre Escravos, Déspota orgulhoso:He mais em magestade, em riso he menos.Da Natureza respeitoso Amante,O outro lhe ajusta comedido enfeite,Trata benignamente os feiticeirosCaprichos seus, o seu desleixo nobre,O passo irregular, e extrahe com arteLindezas da desordem, té do acaso.Cada qual tem seu jus, nenhum se exclua;Entre Kent, e le Notre eu não decido.Ambos tem leis, tem graças: hum creou-sePara Grandes, e Reis: oh Reis! oh Grandes,Sois á magnificencia condemnados.Em torno a vós o esforço, o extremo, o apuroDe alto poder se espera; alli queremosQue em prodigios, o luxo, o gosto, as artesExcitem pasmos, embriaguem vistas.Rebelde a Natureza á Industria cede;Mas deve grão triunfo honrar a Industria;Ella em seu esplendor tem seus direitos,He huma usurpadora, e lhe competeÁ força de grandeza obter desculpa.Longe, pois, os Jardins desengenhosos,Insulsa Estancia, de que o Dono insulsoAs arvores garridas fôfo exalta.Os pequenos salões bem decotados,A extrema symmetria escrupulosa,Passeios, onde nunca solitaria,Alameda não ha, que irmãa não tenha;Caminhos degostosos, enjoadosDa obediencia ao cordel, os seus canteirosBordados, e os seus tenues fios de agua;Das arvores algumas torneadasEm vasos, em pyramides, em globos,E alçados bem na base os Pastorinhos.Gabe o seu luxo pobre: eu anteponhoHum campo bruto a seu jardim tristonho.Distante destes minimos portentos,Segue meu vôo á patria dos prestigios,Vê Versailles, Marly, pomposos, lédos,Onde Luiz, e a Natureza, e a ArteEm tanta cópia desparzirão graças.Que afoito resplandece alli o engenho!Alli tudo he grandeza, he tudo encanto,São de Alcina os jardins, de Armida os Paços,Antes os de hum Heróe, que inda procuraVencer, domar obstaculos, sublimeEm seu retiro, em seu repouso, e sempreCaminha, de milagres circundado.Aquellas aguas vês, a terra, os bosques?Submettidos tambem, seu jugo adorão.Das arvores á verde arquitecturaOlha com que elegancia estão cazadosDe fórma singular Palacios doze!Vê bronzes, que respirão, vê correntesQue, soltas da repreza, esbravejando,Em grossos borbotões de fofa espumaCahem, e se estendem por canaes soberbos;Em lustrosa espadana além se espalhão,Em pavêas brilhantes cá se elevão,E nos benignos ares incendidasDe hum sol immaculado, eis chovem gotasCôr de oiro, de safira, e de esmeralda.Selvas, por onde absorto me extravio,Os Sátyros, os Faunos vos povoão,Em vós Diana influe, e Citheréa;He cada bosquezinho em vós hum Templo,Cada mármore hum Deos. Luiz, folgandoDo pezo marcial, do horror da Guerra,Como que nesta, a Jove idónea Estancia,Convida todo o Olympo a seus festejos.Nestes grandes effeitos he que importaQue a arte se esmere, avulte, e brilhe, e encante.Facilmente porém o assombro péza.Louvo o Orador que erguidos pensamentosNa luz, na pompa, na cadencia envólve,Mas he curto prazer, e o deixo, e corroA escutar corações na voz de amigos;Mármores, bronzes, que alardêa o luxo,Arte ostentosa em breve os olhos cança.Mas as correntes, o arvoredo, as sombras,Este luxo innocente, ah! não fatiga,Não fatiga jámais. Deos mesmo aos homensTraçou este modélo. Atenta em Milton.Quando essa eterna Mão, que rege tudo,Aos primeiros Mortais guarida aprésta,Regulares caminhos abre acaso,Talvez cativa na carreira as ondas?De improprias, de forçadas vestidurasCobre a infancia do Mundo, a PrimaveraRecemnascida? Não, sem arte alguma,E sem constrangimento, a NaturezaEstreou, exhaurio delicias puras,Delicias puras, que nem ha na idéa.O misto amavel de planicie, e monte,Livres, e mollemente errando as aguas,Veredas tortuosas, e indecisas,Gratas desordens, novidades gratas,Aspectos, onde os olhos mal sabiãoEscolher, preferir, tudo alongava,Entretinha o prazer na variedade.Sobre viçoso esmalte aveludadoMil arvores, mil plantas, mil arbustos,Destes lugares ondeante adorno,Iman da vista, do sabor, e olfato,Em grupos elegantes, movediços,Em natural, dispersa negligencia,Já se fugião, já se avisinhavão.Seu brando movimento ao longe ás vezesInopinada scena aos olhos dava;Ou com pendor gentil curvando a rama,Aos passos vinhão pôr suave estorvo;Ou sobre as frontes em festões pendião,Ou, na passagem, lhe entornavão flores.Lindos Bosques direi de tenras plantas,Em latadas, e abóbadas travandoTroncos florentes, e florentes braços?Lá de imaginações, queridas, ternas,Cheios a mente, o coração, e os olhos,Deo Eva ao bello Amante a mão mimosa,E córou como a Aurora ás portas de oiro.A Natureza toda os afagava,O Céo c’o a luz, com seu murmureo as ondas;Tremendo a Terra, lhes sentia os gostos;Favonio aos écos os suspiros dava;O Arvoredo rugia, e curva a Rosa,Cedia ao tóro seus perfumes todos.Oh ventura inefavel, Par tranquillo!Feliz quem, como vós, nos seus amados,Bonançosos jardins, longe dos malesQue a Soberba atormentão, vive ricoDe flores, frutos, innocencia, e gosto!
FIM DO CANTO PRIMEIRO.