Imagem decorativaOS JARDINS,POEMA.
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CANTO SEGUNDO.
A lyra, que os rochedos, que as florestasAo Rhódope attrahia, oh se eu tivesse!Ella fallára, e sùbito arvoredosSobre as paizagens lançarião sombras;A Laranjeira, o Til, Carvalhos, CedrosVirião nos meus campos collocar-seEm pasmosa cadencia, em ordem bella;Mas perdeo a harmonia os seus milagres,A lyra já não reina, a penha he surda,A arvore immóvel fica aos sons mais gratos;Dous mágicos ha só: trabalho, e arte.Aprende, pois, que industria, e que desveloPrestão mimo, ou riqueza ás várias plantas.Pela ridente cópa, a flor, e o fructoA arvore he dos jardins primeiro ornato.Para agradar, quantas figuras tóma,Quantas figuras! Acolá se estendemPomposamente seus informes braços;Brando, e ligeiro além se eleva o tronco,Aqui lhe admiro, lhe namoro a graça,A magestade alli. Roçada apenas,Da menor viração, lhe ondêa a rama,Ou contra os furacões arrebatadosFirma o corpo nodoso, a rija fronte;Dura, ou molle, se inclina, ou se levanta,Protêo dos vegetais, a cada instanteMuda o feitio, a cor, verdura, e frutosPara dar novo brilho á Natureza.Eis os thesoiros teus, oh Arte, e o GostoProhibe que sem ordem se dispendão.Das varias plantas a extensão, e a fórmaSe offrece aos olhos em aspectos varios.Ora selva profunda, inculta, e negraDerrama sombra immensa, ora appareceBosque risonho de arvores formosas.Em ventilados campos mais ao longeOs olhos chamão, a attenção dominãoDistribuidos, primorosos grupos.Fiando-se na propria louçania,Só, n’outra parte, huma arvore pompêa,Só ella exorna o chão: Tal, se he possivelQue a paz dos campos assemelhe a guerra,Cerrados batalhões, dispersas turmas,Numero, e forças ante nós ostentão;E altivo do seu nome, e sustentadoNa sua intrepidez, á frente dellesHum só Heroe se avança, e todos vale.Diversas plantações tem leis diversas.Nos Jardins do Artificio em outros temposOlhava o luxo com desdem, com tedioAs isoladas arvores, e agoraAprazem nos Jardins da Natureza.Por capricho feliz, sisudo acasoEstas desproporções tem attractivos,Difirão na distancia, aspecto, e fórma;Sempre a grandeza, ao menos a elegancia,Distinga a planta, ou ella, envergonhada,Por entre a multidão desappareça.Mas se hum Carvalho, ou Plátano longevo,Patriarcha dos Bosques, ergue a fronteSombria, veneravel, toda a Tribu,Disposta emtorno, com respeito o esquive,Lhe faça Corte. Agradará dest’arteA arvore, que isolada o Campo adorna.Com mais escolha ainda, e com mais gostoOs grupos te daráõ prestantes quadros.De arvores mais, ou menos vigorosas,Em numero qualquer, pequeno, ou grandeFórma-lhe a massa espessa, ou leves tufos:Este Povo de Irmãos apraz ao longe,Pódes por elles variar desenhos;Com elles se aproximão, se removem,Se afastão, se reunem perspectivas,E com elles tambem sobre as paizagensSe dobra, ou se desdobra o véo das sombras.Formárão-se teus grupos: he já tempoQ’a hum tanto de arte os bosques se habituem.Bosques augustos! Bosques venerandos!Eu vos acato, eu vos saudo: as vossasPoeticas abóbadas não ouvemJá do Bardo feróz o horrivel canto;Hum delirio mais doce em vós habita,Vossas grutas ainda em verso instruem.Ermos antigos, magestosas sombras,Vós inspirais os meus: ah! dai que eu possaCom respeitosa mão tocar-vos hoje,E que, sem profanar, aformosêe:De vós aprender quero a adereçar-vos.Arvoredos expor-se aos olhos podemEm milhares de aspectos. Deste ladoPressos troncos as sombras lhe carreguem:Alegre-se acolá de luz escassaA redolente estancia, travem nellaCombate deleitoso a noite, e o dia:Mais além, signalando o chão co’as folhas,Sobre os claros dispersas tremão plantas.Porque, humas para as outras fluctuando,E sem ousar tocar-se, ao mesmo tempoPareça, que se fogem, que se buscão.O bosque assim por ti perde a aspereza;Mas seu grave caracter não desmanches;Com miudos objectos, mui frequentesNão se interrompa, não se altere o todo.Hum seja, simples, grande, e toda a pompaCom alguma rudez a Arte lhe deixe.Apresenta esses troncos destroçados;Quero ver, e seguir negras torrentes,Pelas quebradas concavas fervendo.D’agoa, do tempo, do ar mantem vestigios;Venera do rochedo os ameaços,Deixa-o pender, e emfim tudo respireSilvestre, vigorosa formosuraSobre o terreno magestoso. AgradaAssim de hum bosque a rustica nobreza.Com menor altivez, com mais branduraHum bosquezinho offrece amenos quadros:Quer bellos sitios, e contórnos bellos;Fóge, tórna, em rodeios vai perder-se;Entre flores estende agoas serenas,E cuido que inda nelle, embriagadoDe hum extasis suave, em ocio puro,As lições do prazer dicta Epicuro.Mas não basta que em selva, ou bosquezinhoHaja riqueza ou elegante, ou bruta,Cumpre ornar com primor seus exteriores.Não vás, symmetrisando-lhe os limites,Com recendentes muros ocultar-nosDos bosques as innúmeras familias.Ver quero, penetrando o centro agreste,Crescer a hum tempo as arvores diversas,De vigor juvenil humas brilhantes,Outras todas decrépitas, nodósas,Estas rasteiras, languidas, e aquellas,Tyrannos das Florestas, esgotandoDa substancia o tributo a seus vassalos;Scena em que a idéa vê com gosto imagensDas idades, da vida, e dos costumes.Apar destes effeitos, que valiaTeraõ verdes reparos, cuja fórmaEntristece, importuna, afflige os olhos,Forma que he sempre igual, nunca inesperada?Oh delicias da vista! Oh variedade!Acode, vem romper nivel insulso,Triste esquadro, e cordel fastidioso.De matiz acertado, interessanteAs estremas dos bosques se guarneção,He a uniformidade ingrata aos olhos;Da que vem nos jardins elles se enfadão,Á sua extremidade elles se avanção,Folgão de discorrer a inopinadaFórma que lustra nos limites varios.Em gyros mil brincando a vista errante,Ou com elles se entranha, ou sahe com elles,E nos diversos, florecentes quadrosDe distancia em distancia, alegre pousa.O Bosque se engrandece, e a cada passoSeus rodeios varia, e seus encantos.A fórma, pois, se lhe desenhe, e logoAs Arvores se escolhão, a que o GostoPrescreve o sacrificio; mas sê tardo,Condena devagar, condena a custo:Antes de executar-se a lei sevéra,Ah! vê que manso, e manso as cria o Tempo,E altêa manso, e manso; que impossivelHe a todo o oiro teu remir-lhe as sombras,E que já lhe deveste hum fresco amparo.Duro Possuidor, com tudo, ás vezes,E sem necessidade, e sem remorso,Aos golpes do machado as abandona,Eis sobre o seio da indignada TerraAs miseras baqueão, seccão, morrem:Para sempre dalli com magoa vôãoDoces meditações, cautos amores.Ah! por estes sagrados Arvoredos,Que aos bailes Pastoris prestavão sombra,Por estas densas comas, que abrigárãoVossos Avós, tende atenção, Profanos,C’os troncos religiosos. Já que os EvosNelles a robustez inda consentem,Não lhe afronteis a ancianidade augusta.Tem de raiar, tem de raiar em breveO dia em que estes bosques desmaiados,Para ceder o imperio a tenras plantas,Da excelsa fronte, succumbindo ao ferro,Verão no pó murchar-se a honra antiga.Oh Versailles! Oh dor! Oh vós, Florestas,De celeste apparencia! Maravilhas,Que fez hum grande Rei, Le Notre, e os Annos!Eis sôa o corte; vosso termo he vindo.Arvores, cuja audacia ás nuvens hia,Feridas na raiz, no ar balançandoSuas cópas louçaãs, que abala o ferro,Já dão ruidosa quéda, e já seus troncosVão alastrando ao longe esses passeios,Que de frescas abobadas cobriãoCom seus pomposos, estendidos braços.O estrago se atreveo aos Arvoredos,Cuja gloriosa fronte a fronte heroicaDe Luiz, o magnanimo, assombrava!Destruirão-se bosques, onde as Artes,Mais suaves conquistas celebrando,Multiplicavão festivais prazeres!Amor, que he feito do encantado abrigo,Que ouvio de Montespan gemer o orgulho?Que he do retiro, onde tão meiga, e bella,Ao de ouvilla attrahido, absorto AmanteLa Valiere exprimio segredos ternos,Rendida suspirou, sem crer-se amada?Tudo cahe, tudo acaba; ao som terrivelDesta destruição, não vês, não sentesAlígero Tropel fugir medroso?Este volátil Povo, alegre, ufanoDe habitação tão bella, e que entoavaDos Monarcas no asylo os seus amores,Com dor se ausenta dos saudosos lares.Deozes, de que estes pórticos honraraEstremado cinzel, Deozes, vestidosDe verdes, molles véos, ainda ha pouco,Pela perdida sombra estão carpindo,Mostrão-se da nudez envergonhados;E, receando os olhos, Venus mesma,Venus se assombra de se ver despida.Appressai-vos, crescei, mimosas Plantas,Tornai a povoar a Estancia cara.Arvores semimortas, consolai-vos.Vós, testemunhas da fraqueza humana.De Corneille, e Turenna os fados vistes,Vistes morrer o Heroe, morrer o Vate:Ao menos, já contais cem primaveras,E os nossos dias de mais luz, mais gloriaAh! voão logo, e para sempre voão.Feliz daquelle que possue hum bosqueFormado pelo tempo! Mas ditosoTambem quem para si pôde criallo!Estas, que vão medrando, arvores bellas,Eu fui o que as plantou: (diz como Cyro)Tu, pois, se inda dispor das tuas pódes,Teme que antes de tempo ellas rebentem.Assim como o Pintor que, demorandoIndiscreto pincel na mão sabida,Longamente co’a idéa esboça os quadros:Tu dos desenhos teus medita a ordem;O valor, a eficacia dos aspectos,E dos sitios conhece; e o attractivoDos bosques nas colinas pendurados,E a gala dos que em plano a sombra estendem.Como as amigas fórmas, como as côresAmigas, te he proveito conheceresAs adversas tambem. O freixo altivo,Arremessando ao ar comprida rama,O inclinado salgueiro aborrecêra,Do álamo opõem-se o verde ao do carvalho;Mas tais odios tempérão-se com arte:Elege por feliz intercessoraHuma arvore meaã, que os concilie.Desta sorte Vernet, com maga tintaDe duas côres a discordia extingue.Conhece, pois, o emprego, a serventiaDas difrentes verduras, ou brilhantes,Ou sem lustre, mais mortas, ou mais vivas.Com taes alterações, com taes matizesNo seio das paizagens se variãoFormosamente as sombras, se produzemEffeitos ora doces, e ora fortes,Grandes contrastes, ou gentis concordias.Observa-as maiormente quando o OutonoPerto de vella murcha enfeita a crôa:Que pompa! Q’esplendor! Que variedade!A côr alaranjada, a côr purpurea,A opálica viveza, a do encarnadoOstentação de seus thesoiros fazem.Ai! Todo este esplendor lhe agoira a quéda!Eis o fado commum! Depressa os EurosHão de espalhar pelos profundos vallesOs despojos selváticos: a folhaCahindo, já distrahe de quando em quandoO solitario Pensador; mas estasMesmas ruinas para mim são gratas;Alli, se fundas queixas nutro n’alma,Ou assanhar-me a chaga vem memorias,Gósto de misturar, de ver conformeO luto meu da Natureza ao luto.Dos seccos bosques, dos raminhos murchosMe apraz pizar fragmentos, só, e errante.Dias de embriaguez, e de loucura,Os mentirosos dias já voárão;Terna Melancolia, a ti me entrego,Vem, mas não de atras nuvens carregada;Onde se envolve a tenebrosa Angustia:Por entre véo ligeiro a vista brandaDirige á Terra, aos Ceos, como no OutonoOs vapores traspassa hum tibio dia;Traze, oh dos Vates, dos Amantes socia,Sereno o rosto, os olhos pensativos,E a deleitosas lagrimas propensos.Mas em quanto minha alma se apascentaNestas idéas, mil floridas castasDe fragrantes, de tremulos arbustosChamando estão por mim. Vem, lindo Povo,Tu entre a arvore, e a flor tu és o meio,És como a transição. Teus delicadosCaractéres agora a scena enfeitem.Oh! se não me instigasse o largo assumpto,Se ao termo, que me espera, eu não corresse,Que jubilo teria em dirigir-vos!Eu vos reproduzira, eu vos mostráraEm cem fecundas fórmas, eu fariaÁ sombra vossa murmurar correntes,Vossa rama em abóbadas travara;Envoltos nestes vividos ulmeiros,Irião serpeando os vossos braçosPelos rìgidos troncos, e serieisO symbolo da graça, unida á força.Fundira, approveitára as vossas côres:A azul ferrete, a encarnada, a branca;Dos olhos as delicias alternando,Vossos penachos, cálices, e flores,Formar virião meus brilhantes quadros,E o mesmo Vanhuysum mos invejára.Tu, que estes férteis dons dos Ceos houveste,Com arte economiza arbórea pompa:Favores seus co’as Estações reparte.Co’as côres, e os perfumes cada arbustoPor seu turno appareça, e nunca murcheNa fronte do Anno a flórida capela.Assim com elle o teu jardim varia:Cada mez tem seu bosque, e cada bosqueA sua Primavera... ah! cedo extincta!Tua industria, porém, da sua instavel,Curta riqueza consolar-nos póde.Com prudencia estas arvores plantadas,Quando flor não tiverem, graça tenhão.Tal, dilatando o imperio de seus olhos,Já na declinação dos annos bellos,A destra Ulina me seduz, me enlêa.Da inclemencia dos ares a despeito,O Ceo não desherdou de todo o Inverno;Então dos ventos provocando a raiva,Não poucos vegetaes conservão folhas.Olha o Teixo, olha a Era, olha o Pinheiro,O pungente Azevinho, o sacro Loiro,De verdura immortal, que a Terra vingão,Vingão dos Aquilões a Natureza.De purpura, e coral, vê fructos, bagas;Que esmalte aos ramos dão! Seu atavioSobre os despidos Campos lisonjêa:Por menos esperado he mais formoso.Os teus Jardins de Inverno assim povôa;Lá de hum benigno dia a luz te affaga,Lá, quando em outra parte he nua a Terra,O passarinho adeja, e se diverteInda debaixo de viçosas folhas:O sitio o illude, não conhece o tempo,Vêlla imagina, e canta a Primavera:Assim, sem ser facticia a Estancia agrada.Mas os Jardins dos Reis com que artificio,Com que apparato esplendido triunfãoDos sanhudos Invernos! Sempre verdes,Oh Mouceaux! Teus jardins são disto exemplo,Troncos fingidos de arvores ausentes,Grutas de encanto, mágicas latadas,Tudo alli rouba os olhos. AfrontandoA ríspida Estação caliginosa,A nascer entre o gelo aprende a rosa.Milagres alli domão tempos, climas,Das Fadas o poder alli se antolha.Mas não são todavia estes encantosDos Jardins o melhor, mais doce ornato,Cedo o costume te desorna os bosques.Quando os Estranhos tuas sombras gostãoJaz muitas vezes descontente o Dono.Meios não ha, cuja virtude occultaSempre a teus bosques a affeição te avive?Oh! quanto dos Lapões me apraz o estilo!Oh! como enganão seus Invernos duros!O Til soberbo, os Olmos reforçadosTemem daquelles Campos o regelo;De alguns tristes Pinheiros, negros, bravosIndigente, escassissima verduraApenas a geada alli penetra.Mas o minimo arbusto, que poupassemAquelles agros climas, ante os olhosDos habitantes seus tem mil feitiços.He consagrado a filho, a pai, a amigo,A Hospede que parte, e deixa prantos,Deixa saudade eterna, e de algum dellesO nome, sempre caro, á Planta fica.Tu, de quem puro Ceo clarêa a Patria,Imitar podes tão feliz industria:Ella animará tudo, arvores, bosquesNão serão mudos, não serão desertos:Hão de immensas memorias habitallos,Gostos distantes adornar-lhe as sombras,E quem prohibe, se o favor dos NumesCom doce prole teus desejos farta,Quem véda consagrares esse diaCom troncos de nascente bosquezinho...!Mas em quanto estes versos, Musa, entôas,Que popular clamor aos ares sobe!Nasceo, nasceo o herdeiro aos Reis da Gallia!Nos muros, nas falanges, sobre as ondas,Nosso terrivel, triunfante raioTrôa, corre, e aos dois Mundos o annuncia,Flores são pouco para ornar-lhe o berço,Os loiros lhe trazei, trazei-lhe as palmas;Raiem dias de gloria ante o primeiroVolver dos olhos seus; nascido apenas,Da Victoria oiça o hymno; eis o festejoQue ao puro sangue dos Bourbons se deve.E tu por quem tal dom dos Ceos nos veio,Tu, nó mimoso, tu prizão queridaDo Germano, e Francez, que Irmão, e EsposoUnes como odorifera grinaldaQue enlaça dois Ulmeiros magestosos;Consorte, Mãi, e Irmã, teus fados ligãoO Penhor de Hymenêo da Morte ao luto,Em teus olhos misturão pranto, e riso,Dando-te o Filho quando a Mãi te roubão,Nos transportes que influe este aureo dia,Ousem Almas ferventes, creadorasAnimar os pinceis, a pedra, a lyra;Dos Campos eu cantor, e humilde amigo,Irei onde os Favonios, onde FloraSós te compõem a deleitavel Corte,Irei a Trianon: alli risonhoEm unico tributo á Prole tuaArvores sagrarei da sua idade,Hum bosquezinho que lhe deva o nome.Verão teus olhos avultar o amavel,O simples monumento, aquelles troncos,Dos bosques teus o mais suave ornato;E com ellas crescendo, recrear-seÁs sombras fraternais irá teu filho.Gozas, emfim, e o coração, e os olhosFeliz Possuidor, já se embellezãoNos arvoredos teus. Tambem desejasUnir ao gosto a gloria, obter a palmaNesta arte singular com que os decoras?De creador merece, alcança o nome.Olha como em segredo a NaturezaSempre está fermentando, e como sempreA precisão de produzir a ancêa.Não lhe acodes? Quem sabe que thesoirosInda em seus cofres para a Industria guarda?Como esta a seu arbitrio as ondas guia,Póde guiar o succo: outros caminhos,Outros canaes a seu liquor franquêa.Por novos hymenêos fecunda os Campos,Das seibas virgens exprimenta o mixto,De seus dons mutuos favorece a troca.Quantas arvores, fructos, plantas, floresTem mudado o perfume, a côr, e o gosto,Tudo por arte! O Pecegueiro a estasMetamorfóses sua gloria deve.Assim com triple croa a rosa brilha,De seu penacho assim blasona o cravo.Ousa. Deos fez o Mundo, o Homem o adorna.Se a tão bellas conquistas não te afoitas,Cobertas d’ outro Ceo tens mil riquezas.Usurpa esses thesoiros. Tal, mais brandoVencedor, e mais justo nos seus roubos,O Romano soberbo á Ausonia trouxeSyrias ameixas, o damasco Armenio,Da Gallia a pera, e fructos mil diversos:Assim devêra subjugar-se o Mundo.Lá quando d’Asia triunfou LuculloO bronze, o oiro, o marmore assombravãoDe Roma os olhos, e entretanto o SabioPrezou ver-lhe nas mãos a cereijeiraConduzida em triunfo ao Capitolio.E esses mesmos Romanos já não vírãoNossos Avós, em batalhões armados,Debaixo de outros Ceos mais bemfazejosAs vinhas ir buscar, votando a BrómioTintos pendões em nectar dos Vencidos?Co’ fruto das beligeras emprezasExcandecida a Turba, os preciososTroféos, cantando, aos Lares seus trazia.As cabeças o pâmpano croava,O pâmpano em festoens cingia as lanças.Desta arte o Numen, vencedor do Ganges,Tornou triunfante: serranias, vallesDa vindima o fervor solemnisavão,E por onde corria o mago nectarFolgavão brincos, e o prazer, e a audacia.Netos dos Gallos, os Avós se imitem;Roubemos, disputemos taes despojos.Nesses jardins, altivos de regellosA mão, que a Themis empunhara o Sceptro,Malesherbe, o facundo, o digno ramoDos Lamoignons, com troncos orgulhososHonra, abastece o chão: trazidas PlantasDos fins da Terra, das equóreas margens,De alcantalidos cumes de agras serras,Das portas do Nascente, e das do Occaso;Plantas, que açoita o Sul, que açoita o Norte,Plantas, filhas do ardor, filhas do gelo,Me fazem, n’um lugar, correr mil climas.Vago, entre aquella Multidão florente,Asia, America, Europa, Africa, o Mundo.Regozijadas de se ver no meioDas velhas plantas nossas, amão todasNosso amoravel Ceo, e estranhas GentesReconhecendo as arvores da Patria,Duvidão já da sua ausencia, ao vellas,Ou de terna saudade os golpes sentem.Moço Potaveri, tu disto es prova.Dos Campos d’O-taiti, daquelles Campos,Tão caros, n’outro tempo á sua infancia,Onde he sem pejo Amor, Amor sem crime,Este ingenuo, selvatico Mancebo,Trazido a nossos muros, pranteavaSua antiga, innocente liberdade,Ilha risonha, e jubilos tão faceis.Do esplendor das Cidades sim pasmado,Mas farto dellas, vezes mil clamava:Dai-me as florestas minhas: eis que hum diaNesses jardins, onde Luiz congrega,Dispôem n’um sitio só, e a custo immenso,Os Povos vegetaes de tantos climas,Como espantados de crescerem juntos,De lugar, e estação mudando a hum tempo,E cultos a Jussieu rendendo todos;Nesses Jardins o Indiano vagueava,Olhando as varias, ordenadas Tribus,Quando entre estas Colonias vicejantesLhe fere os olhos arvore que o tristeDesde os primeiros annos seus conhece.Súbito, desatando agudos gritos,A ella corre, abraça-se com ella,Beijos a cobrem, lagrimas a innundão.Objectos mil de inexplicavel gosto,Os Ceos, os Campos que ditoso o virão,Ceos tão formosos, tão formosos Campos?Os rios que fendeo co’as mãos nervosas,Matas por onde os brutos habitantesTão destro asseteava, as bananeirasDe sombras, e de frutos abastadas,O patrio asylo, os bosques circumstantes,Que aos canticos de amor lhe respondião,Julgou ver, e a sua alma enternecidaHum momento sequer gozou da Patria.
FIM DO CANTO SEGUNDO.
Na pag. 47 depois da linha 32 escapou o verso seguinte:
De distancia em distancia, alegre pousa.