Imagem decorativaOS JARDINS,POEMA.
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CANTO TERCEIRO.
Eu cantava os jardins, vergeis, e bosques,Eis sólta vezes tres Belona o grito,Eis dos paternos Lares arrancado,Vôa o Francez Guerreiro a estranhos mares,E de Venus, Mavorte as selvas deixa.Vós, á Paz innocente affeiçoados,Deoses dos Campos, não temais a guerra,Quer o grande Luiz não destruir-vos,Mas ao longe estender o imperio vosso;Quer que logre tranquillo o que semêaHum Povo amigo longamente oppresso.E vós, Mancebos, que outro Mundo admira,Se por cima de tumidas voragens,A York o vosso ardor seguir não posso,Para quando volteis aperfeiçoaJardins a Musa minha. Ordeno ás floresQue para as frontes vossas vão crescendo.Aprompto para vós de myrto as croas,O murmureo das agoas vos preparo,E gramineo tapiz, e asylo umbroso.Sentados molemente, ao Lethes dandoFadigas marciais, direis a gloriaDas nossas forças bélicas, e emtantoEntre esperanças, e temor suspensos,Confundiráõ, tremendo, os filhos vossosCo’ a presença do prigo a imagem delle.Amador dos jardins, eia, acabemosDe pulir estes placidos abrigos.Infecundo areal, e secco, e triste,Nelles o dia reflectindo outr’hora,Importunava os pés, cansava os olhos.Tudo era ardente, e nu; mas InglaterraNos ensinou com que arte o chão se veste,Na relva cuida, pois, que os campos brotão.O regador na dextra, ou nella a fouce,Lhes mate as sedes, lhes tosquie as tranças.As leivas o cylindro pize, aplane;Sempre, escolhidas bem, bem apertadas,Bem libertas da erva usurpadora,Qual macia lanugem finas sejão;Repare-se-lhe ás vezes a velhice;Mas, comtudo, aos lugares não remotosSe reserve este luxo de verdura:Do resto se componhão ricos pastos,E sómente os cultivem teus rebanhos.Terás dest’arte numerosas crias,Os Campos adubio, os olhos quadros.Não te envergonhe, pois, (e grite emboraO orgulho) não defendas que em teus parquesEntre a Vacca fecunda, o Boi tardio:Nem deshonrão teus parques, nem meus versos.Muito pouco he, porém, crear sómenteEsses tapizes vastos, e viçosos:Cumpre que saibas escolher-lhe as formas.Longe a monotonia, ah! longe delles:Em quadrada feição, feição redondaTristemente opprimidos os não quero.Hum ar de liberdade he seu primeiro,Gracioso attractivo: ora nos bosques,Cuja sombra os abraça, elles se escondãoCom visos de mysterio, ora esses mesmosBosques venhão buscallos. Esta a formaDa campestre alcatifa, pura, e simples,Amas o bello? A Natureza imita,Que esmalta os prados de opulentas cores:Dá-te pressa; os jardins te pedem flores.Flores mimosas, candidas boninas,Por vós he mais gentil a Natureza.Nos quadros por modelo a arte vos toma;De terno coração sois dons singelos,Que arrisca Amor, e que a Amizade offrece.Em doirada madeixa, em niveo seioRequinta-se comvosco a formosura;Que a Victoria adorneis permitte o Loiro,Do virgineo pudor tambem sois premio.O mesmo, o mesmo Altar, onde repousaA Grandeza de hum Deos, na PrimaveraCom vossas oblações se aromatiza,E a Religião, sorrindo-se, as acolhe;Mas tendes nos jardins o domicilio.Do Sol, da Aurora vinde, pois, oh filhas,Decorar o theatro a nossos campos.Comtudo, não cuideis que, insano Amante,Em vez de vos travar, em vez de unir-vosEm brandos, amorosos ramilhetes,De canteiro em canteiro, attento espereDe cada nova flor o nascimento,E lhe espie o matiz, lhe observe as côres.Sei que em Harlem ha curiosos tristes,Que em seus jardins co’as flores vão fechar-se,Que, por ver hum rainunculo, despertãoAntes d’alva, e que adorão, qual prodigio,Anémona exquisita, ou que, invejandoDe hum rival o segredo, a peso de oiroComprão de hum cravo as manchas. Deixa aos loucosSeu maniaco amor: possuão, gozemEmbora quaes ciosos, quaes avaros.Sem de arte caprichosa as leis seguirdes,Vós, dos olhos prazer, do campo adorno,Flores, pintai a superficie á Terra;Mas a vossa beleza, o mimo vossoEntre curtos limites não se estreitem.Em toda a parte esses thesoiros brilhem:Ora aos tapizes a verdura esmaltem,Ora de hum lado, e d’outro enfeitem ruas;Em mesclados festões cercai ramadas,Agoas orlai em lucidos Meandros,Ou comvosco estes muros se alcatifem,Ou, querendo escolher vossos perfumes,Gyre, indecisa, no açafate a abelha.Seguindo-vos Rapin nas quadras todas,Nenhum matiz, ou nome vosso esqueça;A tão frias, cansadas miudezasOppõem-se o Deos do gosto. Mas quem pódeNegar o obsequio, a preferencia á rosa,Á rosa, de que Venus bosques tece,Croas a Primavera, Amor seus mimos?Á flor de Anacreonte, á flor que HoracioNos dias festivais engrinaldava?Mas tão risonho objecto em demasiaApraz aos meus pinceis, cujo destinoHe quadros desenhar mais vigorosos.Oh vós, de que eu trilhava o chão florido,Bosquesinhos, adeos, adeos, oh prados.Attrahe minha attenção o informe aspectoDos rochedos sem regra desparzidos.Foi sua alta rudeza em outros temposBanida dos Jardins, onde reinavaA inérte, semsabor monotonia.Mas depois que o Pintor, leis dando nelles,Contra acanhado Artifice restauraTotalmente o seu jus, emfim se atrevemA apossar-se os jardins destes effeitos.Por mais graças, porém, que venha dellas,Se estas rígidas massas magestosasNão offrece o terreno, então debalde,Presumpçosa Rival da Natureza,A Arte em falsas imagens se apurara.Do cume dos Rochedos verdadeiros,Da Mãi universal morada inculta,Ella escarnece de affectadas penhas,Misero aborto de fadiga inutil.Aos Campos de Midléton, ás MontanhasDe Dovedale, te acompanho os passos,A ellas, Whateli, comtigo subo.Que aprazivel terror me assenhorêa!Todos esses rochedos, variandoOs cimos colossais, arremessadosAqui aos Ceos, alli para os abysmos,Hum por outro amparados, hum sobre outro,E no ar ousadamente alguns suspensos;Este em arcada, em torre afeiçoado,Aquelle pelo pórtico sombrioDeixando perceber ao longe o Polo;Além mananciais, aqui regatosDe limpida corrente, alegre, e mansa,Tudo, ah! tudo no espirito revolveOs mágicos retiros, que os PoetasCantárão, fabulando. Oh quão ditosoSerás se teus jardins afformosêasCom estas grandes, alterosas vistas!Mas para que a teu quadro bem se ajustem,Contra a tôsca energia dos rochedosCumpre de encantador ter a eficacia.O encantador he a arte, o encanto os bosques;Ella falla, os rochedos eis se assombrão,E como que os enfuna a pompa estranha.Porém, sua aridez austera ornando,Sagaz diversifica os teus plantios.Ao cobiçoso espectador offreceDas formas, e das côres os contrastes;Saião por entre as arvores a espaçosOs mais bellos rochedos: interrompeSumma igualdade, esconde, ou patentêa!Variem-se co’as arvores as róchas,As arvores co’as róchas se variem.Não tens tambem, para formar-lhe a galaNão tens do baixo arbusto a folha errante?Gósto de ver os dóceis novediosPelos áridos flancos dos penedosEm tenrinhos festões ir serpeando;Gósto de ver-lhes a escalvada fronteToucar-se de verdura, e ganhar sombras.Isto inda he pouco. Hum valle entre estas penhas,Hum valle precioso, hum chão mais gratoRi-se a teus olhos? Aproveita-o, mostra,Expoem esta riqueza inesperada.He feliz, singular este contraste,He a esterilidade, ella, que hum breveEspaço apetecivel de terrenoCede á fertilidade: assim subjugasO aspérrimo caracter dos rochedos.Para agradar-te he força ornallos sempre?Não; se a arte deve o horror sempre adoçar-lhes,Consente ás vezes que o pavor inspirem,Favorece-os até. Na extremidadeDe hum precipicio huma cabana eleva,E com ella augmentado elle parece:Ponte audaz de hum rochedo a outro lança;Eu tremo ao vêllos, e a medonho abysmoImminente me põem a fantasia.Lembrão-me esses boatos populares,Os casos de perdidos Passageiros,D’Amantes despenhados: contos velhosQue, prendendo attenção maravilhada,Á credula Aldeã serões encurtão;E o terror do lugar ajuda a crença.Porém com sobriedade usar se deveDestes grandes effeitos. A tão duras,Tão agras commoções, abalos doces,Molle socego o coração prefere:Eu exprimento em mim que das montanhasMe he preciso baixar aos ledos valles.Tenho-os de flores, de arvores coberto:Tempo he que á sombra dellas manem agoas.Bem: já que os cimos vossos, nus outr’hora,Pelas minhas lições estão vestidosTão ricamente, oh róchas, franqueai-meAs subterraneas, íntimas origens:Rios, arroyos, vós, vós, lagos, fontes,Vinde, espraiai frescura, e vida em tudo.Ah! Que prazer substituir-vos póde?Vosso contente, luzidio aspectoSe de perto entretem, convida ao longe.Sois o primeiro objecto que se busca,O ultimo que se deixa. As agoas vossasFertilizando a Terra, o Ceo duplicão.Os ouvidos encanta, encanta os olhosVosso cristal, vosso murmùreo. Ah! vinde;Dado seja a meus versos, que vos seguem,Correr do coração mais tentadores,Mais abundantes que o principio vosso;Mais leves do que os Zéfyros, que dobrãoVossos canaviais; e brandos, purosComo esse rumorzinho, essa corrente.Tu, senhor destas agoas bemfeitoras,Venera-lhe o pendor, té o capricho;Nos livres gyros seus vê como abraçãoFacilmente das margens os contórnos.E ousas, encarcerando-lhe a brandura,Os tortuosos passos constranger-lhe!De que lhe serve o marmore em que he preza?Não vês co’a longa trança entregue aos ventos,Sem arte alguma, sem postiço adorno,Campestre, prazenteira, ingénua MoçaAndar, correr, saltar! A graça dellaEstá no solto, natural meneio.Contempla n’um Serralho a Formosura.Ella deslumbra em vão, debalde ostentaA pompa oriental, brilho estudado:Hum triste não sei que, na face impresso,Lhe argue a sujeição, desbota as graças.A agoa mantenha a liberdade que ama,Ou muda-lhe em belleza o cativeiro.Assim, contra Morel, cuja eloquente,E ponderosa vóz pleitear soubeOs direitos da simples Natureza,Gósto das agoas, que em canaes opressas,Com rápida violencia partem, saltão.Ao ver esses cristais, que arte atrevidaDa Terra faz brotar, e aos ares lança,O Homem diz: «eu criei estes portentos:»E em tais prestigios a arte sua admira.Nos custosos jardins dos Reis, dos GrandesReluzão, pois; mas, outra vez o digo,Longe os luxos plebêos, o vergonhoso,Mesquinho jácto de agoa, que da TerraMal ousando arredar-se, apenas sóbe,E em minima distancia morre logo.Tudo a tanta riqueza corresponda;Tudo grangêe á roda hum ar de encanto.Os olhos persuade, e o pensamentoDe que vara eficaz em mão de FadaFormára para a Dona este retiro.Tàl eu vi de Saint Cloud o amavel bosque.Póde a vista medir do jacto a altura?Como que aplaudem tanques, grutas, plantasAs agoas, que sobre agoas cahem, fervem;O ar he mais fresco alli, mais verde a relva,Das aves o gorgeio alli se avivaAo som das vitreas ondas, que baquêão;E, as rociadas testas inclinando,Como que ao doce orvalho os bosques se abrem.Não menos bella, mais campestre, e simplesA cascata ornará lugar mais tosco.De longe se ouve, admira-se de pertoLympha sempre a cahir, sempre suspensa;E vária, e magestosa, anima a hum tempoOs rochedos, a terra, agoas, e bosques.Emprega, pois, esta arte; porém longeEsses tristes degráos, onde, cahindoCom movimento igual, medida certa,As ondas, bem que vão precipitadas,Até no seu furor seus passos contão.Só tem jus de aprazer a variedade.Goza mais de hum caracter a cascata.Ora em tumulto as agoas despenhadasNo tortuoso leito, correm, cahem,Saltão, recahem, e escumão, e esbravêão,Ora de espaço desdobrando as ondas,Puro, calado, remansinho amenoEm azul véo se esparge. Os olhos folgãoDe ver estes gentis Anfiteatros,De ver sobre as ceruleas espadanasReflectir, scintilar o oiro diurno;Tambem lhe apraz a escuridão das penhas,E a verdura das canas, e a espumosaArgentea côr das agoas fugidias.Consulta, pois, Artifice, os effeitosQue intentas produzir. As lymphas, promptasSempre a deixar guiar-se, hão de offrecer-te,Quer mais impetuosas, quer mais lentas,Quadros benignos, ou soberbos quadros,Graves, ou deleitosos: quadros, n’almaSempre efficazes. Que mortal não próvaA profunda impressão que vem das ondas?Sempre, ou viva corrente arrebatadaSobre seixos murmure, e ferva, e salte,Ou ribeira indolente sobre o lodoEm paz alargue as agoas preguiçosas,Ou torrente feróz entre penedosQuebre com rijo estrondo, alegre, tristeA sua correnteza excita, applaca,Ameaça, ou amima. Escuto á famaQue de Vénus o cinto milagrosoAmores, e desejos incluia,E o prazer, e a esperança, precursôraDe inefaveis delicias. O teu cintoHe, divina Cybele, he agoa: nella,Não menos poderosa, estão complexosTerror, perturbação, tristeza, e riso.Quem melhor o sentio do que a minha alma?Quem o soube melhor? Mil, e mil vezesQuando azedos, escuros pezadumes,Inda mais pela noite enegrecidos,Vinhão martyrizar-me o pensamento,Se ouvia os passos de visinho arroyo,Demandava estes sons consoladores.Das agoas a frescura, a vóz das agoasCuidados, afflicções me adormecião,E a paz do coração resuscitava:Tanto d’agoa o murmureo n’alma influe!Em paga de tão gratos beneficios,Sofre, oh ribeiro, que a arte, sem, comtudo,Muito se assoberbar, te aformosêe,Se he que aformosear-te acaso póde.Não quadra a vasto plano hum rio escasso:Seu leito incerta linha alli traçára.A timida corrente á luz se furta,E quer banhar hum bosquezinho escuso.Sua doce carreira adorna as selvas,Só ellas o namorão. Seus caprichosLá com todo o vagar seguir-se pódem,Seus gyros, seu pendor, seu lindo estorvo,A cólera, o fervor das bellas ondas,Tornadas pelo obstáculo mais bellas.Ora num álveo concavo, e sombrioCo’a ramada que o cobre, elle recataO cabedal agreste, ora presentaEm patente canal o espelho á vista:Sem vello o escuto, ou sem ouvillo o vejo.Alli meigos cristais abração Ilhas,Além se torna em dois o leve arroyo,Em dois, que nas carreiras competindo,Apóstão rapidez, e claridade;E ambos depois no leito, que os ajuntaDe andarem par a par murmurão ledos.Errando sempre assim, de volta em volta,Mudo, loquaz, pacifico, agitado,Em mil varios aspectos se renova.Mas copiosa ribeira ás frescas margensMe está chamando. Em campo mais aberto,Nobre, e pomposo quadro, as ondas suasOndas menos modestas, vão rolando,E co’ fulgor diurno ao longe brilhão.Deixa ao regato seu prazer lascivo,A sua agitação, e os seus rodeios;E segue caudalosa a curvidade,O circuito dos valles sinuosos.Se dos bosques o arroyo adorno colhe,Ama o rio tambem diversas plantas.Quer que lhe ornem, lhe assombrem a corrente,Os descorados chôpos, e os salgueirosMeios verdes. Que origem tão fecundaDe scenas, de accidentes! Alli góstoDe olhar-lhe derrubadas sobre o rioAs ramas, e tremer ao movimentoDas agoas, e dos ares; aqui fogePor baixo das abobadas virentesA onda escurecida; além penetraPor entre folha, e folha hum tenue lume,Ora as grenhas se embebem na corrente,Ora a impede a raiz; e desmandandoDe huma para outra margem a verdura,Como que avanção, que outro sitio querem.Assim as ondas, e arvores se ajudão,A agoa remoça a planta, a planta a enfeita;E ambas fazem, ligando-se em mil fórmas,Amavel cambio de frescura, e sombra.Unillas sabe, pois, ou se em lugaresFormosos, proprios della, a NaturezaJá celebrou sem ti este consorcio,Respeita-a. Desgraçado o que presumeExcedella no engenho! He tal (e á menteO coração mo traz) tal he o asylo,Querido Watelet, onde, amansando,Em sombrios canais se parte o Sena,O Sena encantador, tão puro, e livreComo a tua moral, como os teus dias,E visita em segredo o lar de hum Sabio.Com arte lhe acudiste, não com arteTemeraria, fallaz, profanadoraDesses lugares que supõe que adorna.Viste, amaste, sentiste a Natureza,Digno de a ver, de amalla, e de sentilla;Tu a trataste como intacta Virgem,Que da nudez se corre, e teme o ornato.Parece-me, que vejo o falso gostoEstragar esses campos feiticeiros:«Este moinho, cujo som ruidosoNutre a meditação, he importuno:»Dalli o arrancão subito. Estas margensTorneadas assim tão brandamente,E pelo proprio Sena afeiçoadas,Duramente se alinhão. A verdura,Que no seu molle cinto o rio encerra,Alli já não florece. Agoas queixosasSeus lageados cárceres accusão.O marmore fastoso a relva ultraja,E tosqueadas arvores cativasOs idosos salgueiros desapossãoDa margem linda, e cara. Ah! suspendei-vos:Barbaros; acatai esses lugares;E vós, oh rio, oh bosques deleitosos,Se a vossa formosura hei retratado,Se, adolescente ainda, alegres versosÁs agoas, prados, sombras já tecia,Ministrai longamente, oh rio, oh bosques,Ao vosso possessor a doce imagemDa paz sagrada que em sua alma reina.Quanto na molle agilidade o rioDe margem angular teme a aspereza,Tanto as margens agudas ornamentoSão de estendidos lagos, e o mais bello.Ora se avance a Terra ao seio undoso,Ora abra ás ondas domicilio fundo.Com revezado amor assim se chamem,Se busquem mutuamente Agoas, e Terra:Nestes varios aspectos folga a vista.A comprida extensão n’um lago se ama;Da-lhe sitios, comtudo, em que repouse.Não se lhe interrompendo a immensidade,Meus olhos sem prazer, sem interesseVão pela superficie escorregando.Para lhe abreviar o espaço insulso,Edificio, das calmas venerado,Nas ondas repetido, assome ao longe,Ou Ilha que verdeje entre ellas surja:As Ilhas são das agoas summo adorno.Ou levanta-lhe as margens, ou viçosasArvores, em festões dispersos, ganhemTua contemplação, teus olhos prendão.Se queres produzir opposto effeito,Se o lago estender queres, manda ás margensMui subidas, que desção, e ou distanciaMais arredada os arvoredos tenhão,Ou faze com que as agoas vão sumir-seN’um denso bosquezinho, e que tornêemAo pé de huma colina. O pensamentoPor entre estas cortinas de verdura,Onde desaparecem, vai seguindoAs agoas, e as prolonga. Assim teus olhosGozão do que não vem; dest’arte o GostoLindezas, perfeições confere a tudo;E de objectos que inventa, e dos que imitaDescobre, alonga, aperta, esconde o termo.Agora que a Arte o meu trabalho insultaEm soberbos jardins, nos meus, ditosos,Liberdade, e prazer tudo respira:Rindo-se a relva, a seu sabor viceja,Independente o bosque, altèa a rama;Não temem a tisoira os arvoredos,Nem flores a esquadria; amão as ondasAs margens suas, seu adorno a Terra;Tudo he formoso alli, simples, e grande,Tudo: esta arte he a tua, oh Natureza.Porém o lago, o rio estão desertos,De Cidadãos se lhe povôe o seio.Dem-se-lhe as aves, que com agil remoAlados navegantes, a agoa fendem.Nella se pavonêa, e nada o Cysne,De vanglorioso cóllo, argêntea pluma,O Cysne, a que a Ficção deo vóz tão doce,E que escusa das Fabulas o auxilio.Tambem não tens para animar as agoas,Oh Arte, esse apparato vacilanteDos mastros, e das vélas? ImpelidaDe remo compassado, a leve barcaDeixa apenas, fugindo, hum tenue rasto,Que logo se esvaece. EntumecidoDos Favonios azuis, sussurra o pano,E em cada bandeirinha os ares brincão.Pois se a Novela, a Fabula, ou a HistoriaHuma fonte, hum ribeiro consagrárão,Da sua gloria antiga elles ufanos,Assás se aformosêão, se ataviãoCom suaves memorias. Ah! Quem póde,Descobrir, encontrar, sem commover-se,Arethusa, o Lignon, Alfêo? Quem pódeSem cordial saudade olhar Vauclusa?Vauclusa, encantamento irresistivelDos Vates, e inda mais dos Amadores,No circulo de Montes, que, encurvandoSua cadeia, com liquor sadioTe alenta a subterranea, doce origem,Lá debaixo da abobada nativa,Do antro mysterioso, onde, esquivadaA Nynfa tua aos olhos cubiçosos,Sóme em fundo insondavel teu principio,Oh quanto me foi grato o ver-te as agoas,Que, sempre crystalinas, sempre bellas,Ora n’um lago seus thesoiros fechão,Ora sobem, fervendo, e lanção fóraOndas, a branquejar por entre as penhas;De cascata em cascata ao longe pulão,Cahem, e rólão com impeto estrondoso;A cólera depois amaciando,Por leito mais igual vão docemente;E debaixo de Ceos sempre azuladosPor cem canais fecundão valle ameno,Ameno qual nenhum que os Sóes aclárão!Mas estes puros Ceos, estas correntes,Este delicioso, e pingue valle,Menos o coração me penhoravãoDo que Petrarca, e Laura. Eis (eu dizia,Eu dizia a mim mesmo) ah! Eis as margensQue a lyra de Petrarca suspirosaOutr’hora enfeitiçou! Aqui o AmanteVia, exprimindo a Laura os seus amores,Vir devagar o dia, ir-se depressa.Inda sobre estas róchas solitarias,Inda, acaso, acharei das cifras de ambosUnidos, maviosos caractéres?Tocão meus olhos desviada Gruta:Ah! dize-me se os vistes venturosos,Guarida opáca? (eu pronuncio) Hum troncoToldava encanecido á fonte á margem?Laura dormido havia á sombra delle.Alli por Laura perguntava aos Ecos,E os Ecos o seu nome inda sabião.Buscaveis, olhos meus, Petrarca, e LauraEm toda a parte, e em toda a parte os vieis.Erão já morte, e cinza os dois Amantes,Mas inda com seus Manes amorososMais bello se tornava o sitio bello.
FIM DO CANTO TERCEIRO.