ABYSSUS ABYSSUM...

Quarta-feira anterior a domingo gordo. Monte do Rosario. Em casa de Antonio Palma, casado com Rufina MariaO Antonio Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher, a Rufina, principiava a lavar a louça, quando á grade do quinchoso uma voz chamou:—Ó sr.aRufina!Vieram os pequenos, veio o Antonio Palma, a mulher com as mãos fumegantes. Foi preciso fazer calar oFarruscopara se poder ouvir o que dizia aquella mulher que lhes estava fallando do caminho.—Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem.O Palma foi abrir o cancelorio. E foi com grande desgosto que deu de cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Thomaz negociante de gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os proprios pequenos olhavam desconfiados e silenciosos aquella grande mulher gorda que elles não conheciam. Ella sentou-selogo n'um sacco, muito esfalfada, emquanto o Palma e a mulher affectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se, com tregeitos de quem se sentia arreliado com a visita. OFarruscoinvestiu com a mulher, achando-a extranha; mas uma vez enxotado com o pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silencio, e a mulher começou assim:—Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias. Já veem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá em casa de minha mãe aquillo é uma grande miseria, passam-se dias que não comemos. Não ha uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem geitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando n'este estado, bem veem como eu ando...Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miseravel. O Palma e a mulher diziam não sei que monosyllabos, oFarruscorosnava. A outra proseguiu:—Não é por mim, sabem? não é por mim. É este innocentinho que tem de nascer no chão, como os cães... Bem sabem que isto custa. Pouco se me dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse... Coitadinho!Ergueu-se n'um impeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o Palma e para a mulher.—Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou.O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lastima. Cada um de seu lado, ajudaram-na a levantar-se,dizendo-lhe submissamente que tudo se havia de arranjar, que socegasse.—Que a fallar os pontos de verdade, sr.aFortunata, vossemecê é que tem a culpa d'esses trabalhos, disse-lhe logo o Palma.Ella escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse.—Má sorte d'aquelle pobre José Thomaz, acabou-se! Quando elle casou com vossemecê antes tivesse quebrado uma perna.Ella chorava cada vez mais, parecendo muito afflicta.—Agora ahi o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado, nem o diabo. Des'que vossemecê alvorou que o rapaz não vae a uma feira. Pois olhe que era homem para junctar, videiro como poucos.Poz-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos attonitos. Depois continuou:—Esteve aqui um d'estes dias, por signal que sentado n'esse mesmo sacco...A Fortunata levantou-se n'um impeto, como se o sacco a repelisse. O Palma proseguiu:—Sente se vossemecê, mulher, o sacco não faz ao caso. Pois foi ahi mesmo que elle esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal. Que a bem dizer elle quasi não conversa, anda a modos que amalucado, sempre a levar a mão á cabeça, como se ládentro aquillo andasse azoado. E mais é que bem póde o rapaz dar em doido...A senhora Rufina foi de parecer que doido já elle andava. Passavam-se dias que não apparecia em casa do tio José Garção, que o levára logo para elle, mal a sr.aFortunata o deixára. Por onde andava? que fazia? Contava-se que uma noite dormira n'uma coutada, no mesmo telheiro que os porcos. Que d'outra vez fôra ter com o vigario para que lhe baptisasse o filho, dizendo que já tinha nascido.—No filho inda elle aqui se poz a fallar, lembrou o Palma.—Anda com ella ferrada que o filho já nasceu.Aqui, a Fortunata, de pé junto á porta, rompeu n'uma choradeira, ouvindo fallar no filho. O Palma interveio, condoido, dizendo que se não affligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse.Ella ia ajoelhar, o Palma não deixou.—Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por vossemecê. Mas é que o innocentinho que ahi traz esse é que não tem culpa. Faço de conta que é o pae que me pede, o pobre José Thomaz. Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Thomaz. Diabo! a gente já dizera, já falla n'elle como se o pobre tivesse morrido...N'isto vieram chamar o Palma, que no lameiro alli embaixo andavam uns bois que não eram d'elle. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois, quando já ia para sair, disse em resumo:—Fique vossemecê então, sr.aFortunata. Ouves, Rufina?Talvez que ella inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se.Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para domingo gordo, desentupiu e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha feito uma caricia, quando por volta do meio dia a avó do pequeno alli chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota aos cevados, ficou espantado:—Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, sr.aAnna!Ella, sem mais rodeios, perguntou se a creança já tinha nascido.—Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha d'ahi.Mas iam ainda á porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe perguntou n'um sobresalto:—Vivo ou morto, sr. Antonio?O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a creança nascesse morta. Aquillo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a pontapés. Conteve-se. Mas todo elle vibrou de colera, quando em presença do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de fazer.O Palma, furioso, repelliu a mulher com despreso. E como ella insistisse com a pergunta: «que se ha de agora fazer a isto?» elle redarguiu, irado;—Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você perguntao que se ha de fazer á creança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar...A velha ia fallar.—Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu uma cadella quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer cadella vale mais que vocês duas.O Palma ia-se pondo amarello, a sr.aRufina interveio, aconselhando-o a que saisse.—Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a egua e vou-me de vespera até á feira.Poz-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da egua.—Tanto faz ir ámanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mette-me qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a egua.D'ahi a meia hora, o Palma montava á porta, no meio do rancho dos cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara:—Em estando capaz, rua!—D'aqui a tres dias, talvez...—Então até d'aqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando esses estafermos sairem.Ora o Antonio Palma a virar costas, e a velha a sair porta fóra—com o embrulhinho do neto ao colo...Como ella corre, a maldita! Parece que o leva roubado...Onde passou ella o dia? Onde passou ella a noite? Não sei. Caso é que na madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino á porta do José Grillo.Madrugada de fevereiro, nevava...IIIQuando a Dorotheia saiu com o pequeno, para o levar á irmã, tinha amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidissimo retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquella atmosphera de gelo. Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto, faziam-lhe mais viva e mais cortante aquella impressão de frio. O chão estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céo muito azul annunciava um dia de sol.A rapariga ia triste. Dir-se-hia que a tristeza lhe nascia toda d'aquelle lado em contacto com o pequenino...Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe perguntou o que levava alli, erguendo a voz sobre o ruido forte da levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um engeitadinho.—Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra.Mas o moleiro, que vinha chegando, espécou deante da mulher, e repetiu como um echo:—...Um engeitadinho.Entreolharam-se os tres, n'uma incerteza vaga.—Sim, um engeitadinho, deve ser isso...—continuou o moleiro.—E d'ahi... póde ser que não seja...A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa.—Nada! pode ser que a historia seja outra—elucidou o moleiro.—Onde foi que isso foi posto?—Esta madrugada, á porta do José Grillo.—Olá! isso então pode ser coisa d'elle—observou a rir o moleiro.—Esse diabo não é seguro.Pozeram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôz-se a explicar á rapariga:—É que hontem á noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a modos que adoidado. Boa figura d'homem, por signal. Assim ás primeiras, tanto eu como a Luiza tivemos o nosso medo...—Ó Dorotheia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobresinho ha-de ter fome.A Dorotheia passou a creança para os braços da moleira. Foi uma alegria ao verem-no sugar no peito, minusculo, com os olhitos inda fechados.—Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria a desavergonhada?...—Mas depois? inquiriu a Dorotheia, voltando-se para o moleiro.—Depois, dormiu cá, ahi lhe demos da ceia e ahi ficou. Mas dá-se o caso que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, n'um fallatorio pegado. «Que o filho era d'elle, que se a cabra da mãe teimasse em o engeitar, elle ia dar parte á justiça.» Um arrazoado assim, muito comprido.Espantada, a Dorotheia ia fallar.—Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que onde elle o tinha escondido ninguem lh'o ia roubar.Ficaram-se um instante a mirar consolados a creança.A pobresinha vagia, mamando com sofreguidão.—Mas então sempre elle sabe do filho, reatou com interesse a Dorotheia.—Ora! assim este engeitadinho soubesse quem era o pae, coitadinho!A sr.aLuiza, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar compungido:—Um doido, o pobre de Christo! Deixal-o ir!Fez-se um silencio, mirando todos a creança. A taramella do moinho batia, n'um rithmo vivo. Maquiando uns saccos, o moleiro explicou ainda que o homem alvoraramuito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquellas horas, o outro lhe respondera:—«Para a feira. Vender um gado.»—Ora vá lá o diabo entender isto!—rematou por fim o moleiro. Um doido a vender gado.Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Dorotheia, com pressa por causa da irmã, pegou outra vez na creança e abalou pela porta fóra, direita á casa do pae.—Olha os trapos, ó Dorotheia! olha que deixas cá isto.—E o Paulo correu a levar á rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram todo o enxoval do triste pequenino...Ia mais contente, a Dorotheia. Ao menos levava a certeza de que a creança não ia com fome. E para que tambem não fosse com frio, a boa da rapariga achegava ao peito o engeitadinho, n'uma solicitude toda materna.—Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja capaz d'estas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um innocentinho, embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José Grillo não dava fé! Alli se morria de frio o anjinho, capaz de virem depois os cães e comel-o.E espreitando pela fenda estreita do chale:—Meu anjinho! que ruim cadella que foi a tua mãe, ora foi?—Foi! rugiu uma voz detraz d'ella, como um echo.A Dorotheia deitou a fugir, espavorida. Mas aquelle homem que já de longe a acompanhava, sem ella dar fé, corria tambem atraz d'ella, e não tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair com o susto; mas valeu-lhe que n'esse mesmo instante uma voz que ella conhecia gritou alli de perto:—Larga a rapariga, ó José Thomaz! Larga a cachopa!E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os.—É o José Thomaz que está doido,—explicou o pastor.—Desde que a mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado!Mas palavras não eram ditas, eis que o José Thomaz de novo se arremessa á rapariga.—Tu que levas ahi? Tu levas ahi o meu filho!—rugiu elle com voz furiosa.E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas, impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho...A Dorotheia cobrou animo, ao ver-se rodeada de gente.E fez-se luz no seu espirito, quando reparou que os trapos do engeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a rir-se...—Conheces? perguntou-lhe a rapariga.No extasi em que cahira, mirando e remirando os farrapos, o doido não respondeu.—Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos.Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como estava de joelhos, quizeram levantal-o; mas elle então oppoz-se, caindo sobre os calcanhares.E ria... ria... emquanto dos olhos amortecidos, cravados no miseravel farrapo, as lagrimas corriam, copiosas...Mas d'ahi a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram percebendo. Os farrapos que embrulhavam a creança eram da saia da mãe. A mãe era a mulher do José Thomaz, e o pequenino era filho d'elle... A grande cadella tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao homem!—Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.—Ora vês ahi um estafermo que precisava que a matassem!O José Thomaz poz-se a rir muito, fitando aquella gente. Uma forte impressão de piedade estampava-se em todos os rostos.—Ó Dorotheia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pae deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga.Mas não foi preciso; que o José Thomaz, sempre de joelhos sobre a neve, foi para ella de mãos postas humildecomo um rafeiro... E como aos labios do pae a rapariga achegasse o pequenino, no silencio que se fez ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho.Como se fôra uma chuva de petalas, do céo de madreperola a neve cahia mais densa...—ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como no seio immenso de um orgão, o vento sul—gemia...ABYSSUS ABYSSUM...N'esse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio. Assim elles tivessem uma coisa boa!... Mas que tentação para ambos, o rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de ameaça, aquellas terriveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia que lhe appareceram em casa tarde e ás más horas.—Ouvistes?—ralhara-lhes a mãe.—Olhae se ouvistes: se voltaes ao rio, mato-vos com pancada. Andae lá...Ih! como ella dissera aquillo, Mãe Santissima! Colerica, ameaçadora, com a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras... Lembravam-se de haver tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob aquella ameaça terminante. E então, n'esse dia, elles não tinham ido ao rio. Aos passaros sim...—lá estavam as calças rotas do Manuel a dizel-o—...aos passaros éque elles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe que o soubesse...Ah, mas então não os deixassem dormir n'aquelle quarto. Logo de manhã, mal abriam as janellas, a primeira coisa que viam era o rio, uma corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos salgueiros. Lá estava a ponte velha, d'onde os rapazes se atiravam despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do fidalgo,—lindo barquinho!—sempre á espera que o fidalgo o desamarrasse para passar á grande quinta que tinha na margem de lá.De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois rapazes era o de irem por alli abaixo, muito madrugadores, tão madrugadores como os melros, metterem-se dentro do barco, desprendel-o da praia, e deixal-o ir então por onde elle quizesse, comtanto que fosse sempre para deante... Quando fechavam as janellas para se deitar, a sua vista seguia, mesmo atravez da escuridão da noite, a linha que ia dar ao barco. Era o seu—«adeus até ámanhã!»—áquelle pequeno objecto que valia thesoiros, que para os dois valia mais que tudo, tudo...Ah! tivessem elles assim um barquinho, que não queriam mais nada...—Mais nada?—Isso não... mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.Mas n'essa manhã, bella manhã, na verdade! a mãe viera acordal-os mais cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida—gente que passava para os campos, ossolavancos dos carros no empedrado pessimo da rua, os patos da visinhança que saiam em rancho para a digressão pelos prados, grasnando ruidosamente, levantando-se em vôos curtos, espantados da aggressão accintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que alli perto se ouvia o retimtim agudo do martello do ferrador atarracando cravos na bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e vagaroso, as chaves da egreja na mão esquerda e na direita a cabacita do vinho. E áquella hora, onde iria já a missa! A ultima beata, encapuchada e lenta, recolhera, trazendo comsigo a esteira em que ajoelhára na egreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua, dava com valentia n'um carro cujo eixoarderana vespera, e que era urgente compor, p'los modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a loja, e subira á varanda a regar os mangericos. Começos da labuta diaria, emfim; os senhores sabem.Pois como lhes disse, a mãe viera n'essa manhã acordar mais cedo os dois pequenos.—Fóra, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal está! Ai, ai, dia claro ha que tempos, vem ahi o sol, e os morgadinhos na cama.—E emquanto fallava, ia-lhes abrindo as janellas.—Persignar e vestir, vamos! Calças... colete... os jaquetões... tomem.E poz-lhes tudo sobre a cama.—Mãe, a benção!—balbuciaram os dois, tontos do somno ainda.—Deus os abençôe. Que Deus não abençôa mandriões, ouviram? Ora eu já volto. Queira Deus que não vos encontre cá fóra, tendes que ver.Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os olhos áquella hostilidade viva da luz que invadira o quarto n'um jacto repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito que elles afagavam n'uma ultima caricia, suavemente, docemente. Seria tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos!Mas a mãe não tardava alli. Era preciso vestirem-se, que remedio! Foi então que o Manuel, mais esperto do somno, olhando para o campo o achou encantador, todo resplandecente de verduras.—Bonita manhã, não vês? As arvores parecem mais lindas, repara. Porque será?O outro encolheu os hombros, não sabia: só se fosse por não haver nuvens...Pela janella aberta, avistava-se um trecho de paizagem que a luz viva da manhã fazia muito nitida. As vinhas tinham um verde encantador, muito suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das laranjeiras que cerravam alas nos pomares humidos das baixas. Revestidos de folhagem, ascendiam ares fóra os olmos gigantescos. Pedaços d'horta estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que n'essa manhã deslisava muito sereno, esverdeado d'aguas, espelhante sob aquelle céo immaculado.—Ah! ah!...—riu-se o Manuel, contemplando-o.—O rio! Que te parece? Olha que é lindo, o rio; ora é, ó Antonio?—É, lá isso... Mastamemde que vale?—tornou-lhe com desalento o irmão.—A gente não pode lá ir... Olha se a mãe o soubesse, han?—E mirando por sua vez a paizagem perguntou:—Já reparaste no barco, ó Manuel?—Tão bonito!Os dois riram.—Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara.—Podera!...—explicou o Manuel—...amarrado com uma corda...—E depois radiante, gesticulando para o irmão:—Mas eu era capaz de o desamarrar...—Ai eras!—disse duvidoso o Antonio, para o incitar.Calaram-se. Era bom podel-o desamarrar, lá isso era. Ambos dentro d'elle, sósinhos, isso é que seria bom! E elles então que estavam mortos por ir ás azenhas, e pelo rio era um instante emquanto lá chegavam. O barco! Era tão bom andar no barco! E aquelle então era lindo, como não tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido—olhem lá não esquecessem!—aquellas tardes em que o fidalgo os levara dentro do barquinho, ensinando-lhes como se remava.O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito á janella. Passava n'aquelle instante um bando de andorinhas, chilreando.—Está um dia lindo, avia-te.—Olha avia-te! p'ra que?—perguntou o Antonio torcendo e retorcendo o pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama.O Manuel sorriu-se, triste.—Era verdade... Aviarem-se p'ra que? A mãe não os deixava ir ao rio... E se não que fossem! «Mato-vos com pancada se desceis a ladeira.» Já se vê que depois d'isto...—E os dois suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos!N'isto o Antonio chegou-se tambem para a janella. Que lindo, o campo! Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demonio de tentação! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo o comprimento, uma faxa azul-clara destacava nitidamente, parece que apenas meio palmo acima do nivel da agua.—Táte, ó Manuel! E se fugissemos?—Ora! se fugissemos!... E depois? A gente tinhamos de voltar...Ora ahi esta! isso é que era o peor! A mãe, depois, era capaz de fazer o que tinha promettido. E arregalando muito os olhos, imitando a colera da mãe:—«Se voltaes ao rio...» Ai, ai, a triste sorte!Recahiram em silencio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia ao nascente, n'uma explosão violenta de luz, accendendo coloridos na largura muito ampla da paizagem.—Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com alegria o Manuel.—Mas é que está, palavra que está. Agora é que ha-de ser bom andar dentro d'elle...Os dois riram-se muito áquella ideia encantadora de andarem no barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso, cobrando animo, o Antonio disse resoluto:—Olha agora o medo! Seguro que nos mata.—E puxando-o pela jaqueta:—Vamos lá, ó Manuel?O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não vinha, disse baixo ao irmão:—Á tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. Não é tão facil dar pela nossa falta, alli á tardinha. A gente finge que vae para o adro. Levam-se os peões...—Ha-de ser mesmo assim! á tardinha!—concordou o Antonio.—Eh! eh! tu cá desatraco.—E eu remo,—disse logo o Manuel com gesto de quem remava.—Ao leme vou eu: o leme é aquillo que regula—explicou.—Pois sim, mas á vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quizeres assim...—Pois está bem, quero! Assim mesmo é que ha-de ser!E recapitulando, para melhor ficarem combinados:—Ao p'ra baixo remo eu, ora remo?—Remas.—E tu regulas, ora regulas?—Regúlo.—Ao p'ra cima é ás avessas, ora é?—É.Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se impozeram segredo...—Schiu!...—Schiu!A tarde descahia limpida. Na vasta cupula do céo, penachos de nuvens alvejavam, immoveis.Accesas n'aquella explosão rubra do occaso, as arestas dos montes franjavam-se de purpura e oiro, na decoração magica dos poentes. Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquilla dos crepusculos, e uma quietação dulcissima e vagamente melancolica entrava de adormecer a natureza para o grande somno reparador de toda a noite....E a tarde ia descahindo, cada vez mais limpida.N'aquella luz indecisa de crepusculo que mansamente se ia accentuando, os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas, immobilisados n'um fundo em que se iam apagando ao de leve todos os cambiantes de luz. Os pormenores da paizagem perdiam-se n'aquella indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma especie de silencio confrangedor dominava a natureza toda, recolhida n'um como spasmo amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as formas ás coisas...Muda de gorgeios, atravessando o espaço em vôos muito rapidos, a passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava. Cahiam já pesadas sobre os valles as sombras das montanhas, e um fumosito subtilmente azulado nadava á flor das coisas, velando-as para o tranquillo somno em que iam adormecer.E a tal hora e no meio de tal silencio, o barquinho branco deslisava mansamente sobre a agua tranquilla do rio, onde as primeiras estrellas começavam de lampejar. Dentro d'elle, os dois irmãositos silenciosos iam-se deixando enlevar n'aquelle ruido suave dos remos abrindo fendo nas aguas... Não! era bem certo que elles não tinham jámais sentido uma tão poderosa e viva alegria—alegria doida que lhes trasvasava do peito, fundindo-se em energia nos musculos e crystallisando-se nos labios em sorrisos.Dentro d'aquelle adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres de admoestações alheias, sósinhos, independentes. E esta feliz convicção de liberdadealcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de alegria. Por certo elles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o seriam jámais?... No emtanto a noite accentuava-se. Espertava nas margens o marulho da agua nas raizes fundas dos salgueiros. No céo alto e sereno scintillavam as estrellas em cardumes.—Remas, Antonio?—perguntou o do leme.—Olha se a vês...—E apontava para Vesper, a estrella que mais brilhava.Tinham os dois concebido o extranho desejo de alcançar a estrella cujo brilho diamantino os fascinava. Tão linda!—Anda-me tu com o leme!—tornou-lhe com intimativa o Manuel.—Ai a estrellinha! Deixa que ella faz-se fina, mas havemos de passar-lhe adeante, só por isso...—Olha o milagre! Ella está quêda!—fez o outro, convencido da facilidade da empreza.—Está quêda, está quêda, mas sempre na frente de nós; vae lá entendel-a. Olha como brilha, ó Antonio.—Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito d'aquella fraga é que ella está.Não era difficil passar-lhe adeante, qual era? Era menos de meia hora era certo alcançal-a.E engastada no azul escuro do céo, a estrella parecia brilhar mais, quanto mais a olhavam.—De que são feitas as estrellas?—perguntou o mais novito.—De prata, pois está visto.Então o outro, lançando um amplo olhar á vastidão infinita do céo, exclamou:—Eh! tanta prata!—O sol, esse é d'oiro—disse ainda o Manuel.—Bem de ver!—volveu-lhe convencido o irmão.—Que eu, se me dessem á escolha, antes queria as estrellas. Olha que rebanho!—Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais grande.E emquanto fallavam, os dois não desfitavam olhos da estrella feiticeira que perseguiam. Os remos, no emtanto, iam abrindo fenda na agua, com certo ruido muito doce... E lá no alto céo, dir-se-hia que de instante para instante a feiticeira estrella mais brilhava, incitando-os.—Vêl-a a fazer assim?—e poz-se a pestanejar, imitando a palpitação crebra e irregular da luz sideral.—É que tem somno—respondeu o outro.—Olha que não. Aquillo é a fazer-nos negaças,tamemt'o digo.—Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo, bem se afoga...—E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:—Eh,boieira!N'este momento, uma estrella cadente abriu esteira de prata no azul, sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaramcom medo e ambos murmuraram em tom de reza as palavras rituaes:Deus te guie bem guiada,Que no céo foste creada.—Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.—Torna a apontar para ellas... Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos.—A ti talharam-te o ar, ó Manuel.—Diz a mãe. Á meia noite levaram-me á fonte e esparrinharam-me agua para o corpo. E a agua havia-de estar fria... observou, encolhendo os hombros. Depois, viraram-me para as estrellas e disse então a mãe:Ar vejo,Lua vejo,Estrellas vejo:O mal do meu corpoPr'a tráz das costas o despejo.Riram muito. O Manuel, despidinho, coiracho ao colo da mãe, havia-de ser engraçado. E então todos de volta, a ver quando o ar se talhava.—Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por anno, ao menos uma vez por anno, tenho de olhar pelos ralos do lenço p'r'ascinco chagas, umas estrellas que além estão, e rezar uma Ave-Maria.—Sempre, sempre?—Até que morra. Depois de morrer vou morar tres dias com tres noites dentro de uma.—Ora! tornou-lhe incredulo o irmão.—Tu não cabes lá...—Não sei: assim é que anda nos livros....Mas os braços doiam já dos remos, doiam muito...Devia ser tarde, e elles sem darem fé, enlevados como iam no desejo louco de alcançar a estrella.A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um silencio continuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a agua da corrente ia espumando na quilha, com certo ruido de uma brandura suavissima e doce....Mas os braços cada vez doiam mais!...Agora, no céo, havia muitas estrellas brilhantes, muitas, mas nenhuma como aquella, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar menos para ella, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o peito, e as palpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço....E os braços sempre a doerem!...Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente, cortando-a com levissimo ruido. Immobilisara-se tambem o cabo do leme, sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do subito desleixo do outro....E os braços já não doiam, nem ao de leve sequer...O pequeno barco vogava agora á mercê da corrente, sem impulso algum extranho. Dentro d'elle... a musica levissima das respirações dos dois pequenos adormecidos...Algum tempo assim. Senão quando, um ruido surdo, e logo um movimento brusco de balanço, fez acordar o do leme.Na grande allucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou immediatamente:—Manuel! Ó Manuel!O remador acordou, sobresaltado.—A estrella? Ainda lá está, olha!—disse incoherente, estonteado pelo somno.—Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito tarde!—-continuou afflicto o Antonio.—Então não lhe passamos adeante?—perguntou ingenuamente o Manuel, referindo-se ainda á estrella.Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamal-o á realidade, de novo lhe gritou, com lagrimas na voz:—Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam n'um choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrivel susto que a hora e o logar augmentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho aquelle marulhar continuo da corrente, affligia-os como se fosse o psalmodear monotono e rouco de uma legião de espiritos maus, preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os rochedos informes das margens affiguravam-se-lhes negros gigantes, que n'um requintede malvada indifferença houvessem jurado assistir impassiveis e mudos á escura tragedia da sua desgraça.E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem d'alli. Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguem viesse acudir-lhes, alguem que ouvisse de longe os seus afflictivos gritos.Crudelissimo transe!...E então os braços continuavam a doer, doia-lhes agora o corpo todo, ao mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes opprimia o espirito, parece que embrutecendo-os.—Mas a estrella sempre além...—notou ainda o Manuel, balbuciante de medo, como se quizesse increpar a propria estrella da sua indifferença criminosa, no meio d'aquelle enorme infortunio em que por causa d'ella se haviam precipitado.—Se ella podesse acudir-nos...Até que por fim, prostrados da fadiga e das lagrimas de novo se deixaram adormecer, era já alta noite.Mas na sua furia constante, a corrente que alli era muito forte não cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que após tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as aguas se contorciam em remoinho, e entrou de girar com elle, violentamente. Quando a agua se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de subito acordados romperam em gritos lancinantes:—Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale!Tinha surgido a manhã, serena, tranquilla, cheia de gorgeios e de azul. Mas como ninguem acudisse e a lucta no rio fosse desegual, n'um repelão mais violento o pobre barco esphacelado investiu de proa com o abysmo e lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no ultimo paroxismo da sua enorme dor desesperada, os dois irmãositos abraçados sumiram-se tambem com elle!...

Quarta-feira anterior a domingo gordo. Monte do Rosario. Em casa de Antonio Palma, casado com Rufina Maria

Deus te guie bem guiada,Que no céo foste creada.

Ar vejo,Lua vejo,Estrellas vejo:O mal do meu corpoPr'a tráz das costas o despejo.


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