Folhas dispersas dos meus annos de oiro,Vivo enxame das minhas alvoradas,Tenho zelos de vós, folhas sagradas,As Desdemonas sois de um outro moiro.Se não fosse assim, affirmar-se-hia mais uma vez a verdade do aphorismo—o habito não faz o monge—, porque oIdylio rustico, com que abre esta bella collecção de contos, não seria bastante para justificar o titulo sob que se enfeixam.Mais que o idylio, preponderam no correr do livro a comedia, o drama e a tragedia: e basta percorrel-o em rapida leitura, para averiguar-se que se ha na urdidura dos varios contos muitas situações que nos pintam o ridiculo, a desgraça ou o crime, poucas ha, entretanto, que nos prendam o espirito ao devaneio piégas d'um Romeu e d'uma Julieta.Mas, ou bem ou mal baptisado, o que é consoladoramente verdadeiro é que os contos do sr. Trindade Coelho constituem uma das mais bellas collecções que no genero conhecemos.Uma urdidura facil e clara, movimentada em harmonia com os melhores preceitos da arte.Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada à naturalidade das situações e dos dialogos.Uns assumptos de felicissíma escolha, a reproduzirem fielmente costumes, a pôr em jogo com a maior verdade os vicios e as virtudes do povo.Como os contos magnificos de Bento Moreno, os contos do sr. Trindade Coelho são a fiel expressão da vida rustica do nosso povo, e facil é de comprehender a importancia moral que estes livros terão quando as geraçõesque nos succedam queiram inventariar nas suas tradições o modo de viver, de sentir e de pensar das populações sertanejas, n'este periodo historico em que vamos.Sem descer aos excessos da eschola ultra-realista, a que Zola preside como Summo Pontifice, o sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma verdade inexcedivel, de um realismo incontestavel, de um naturalismo a toda a prova, que por egual se evidenciam no assumpto, na narração e nos personagens.E, sobretudo isto, ha nos seus contos, como nos de François Copée e Theodore de Bauville, a artistica encenação que, sem desvirtuar-lhe a naturalidade da fórma e do fundo, lhes imprime o attractivo romanesco que falla à imaginação do leitor.OIdylio rustico, com que o livro abre, é de uma suavidade deliciosa, e de uma naturalidade tão justa quanto encantadora.AUltima dadivaé a expressão fiel de muitas scenas que a emigração multiplica cruelmente pelas nossas provincias do norte.A acção d'este conto é conduzida com uma tal uncção de sentimentalidade, que nenhum leitor, por mais rebelde que seja a commoções, se poderá esquivar a partilhal-a.O conto—Typos da terraé a descripção fiel, fidelissima, da mesquinha intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de provincia.Os Preludios de festasão de um comico admiravel;Maricasé de um sentimentalismo commovente;Vae Victoribusde uma moralidade edificante;Arrulhos,Mãe,Tragedia Rustica, tudo, tudo n'este livro é bom, e de util e agradabilissima leitura.A forma—já o dissemos—é correctamente vernacula e elegantemente rendilhada.A titulo de amostra, para aqui trasladámos do conto—Sultão—este bellocroquisde uma tarde de agosto:«Ao longe, fechando o horisonte que a eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se n'uma sombra egual, e embaciavam ainda o poente as suaves e brandas pulverisações doiradas da ultima luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro, destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja.Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e além, alegremente, a monotonia profunda do azul.»E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra á altura da boa reputação do auctor.A redacção daNova Alvoradacongratula-se com o seu illustre collega por tão brilhante producção, e d'aqui lhe envia um cordealissimo aperto de mão.»A Independencia:—«Os meus amores.—Acabamos de ler o primoroso livro de Trindade Coelho,Os meus amores. Sem largas aspirações, modestamente, apenas com a consciencia tranquilla de quem escreve bem e com criterio,—Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume, que acaba de dar á estampa, algumas producções litterarias que a sua vida de jornalista tinha atirado para a valla commum das paginas de revistas e diarios.Não é, pois, um trabalho completo, inteiro e homogeneo o que se nos offerece para apreciar: são pequenas joias litterarias, buriladas por mão de artista e d'um fino sabor de naturalismo.Considerado assim, sem dependencia de escola e confrontação de originaes, o livro é bom.As suas descripções são perfeitas, correctas, desenhadas por quem se acostumou, desde creança, a ler muita e a adivinhar mais na biblia riquissima e inexhaurivel da Natureza.Ha vida e colorido em tudo. As telas dos ceus pincelaram-se com as tintas proprias, e os diversos personagens que nos vão passando sob os olhos, romanescos e serios uns, grotescos e ridiculos outros, deixam-nos uma impressão agradavel de realismo, e alta comprehensão. São typos exactos, sem os grandes enfeites que aborrecem e sem phrases banaes que enjoam. Antonio Fagote é um especimen do juiz de festa das nossas aldeias, basofão e vingativo, prompto, olá! a gastar as ultimas moedas da venda do ultimo gado e a deixar fulo e arreliado o seu antecessor; e a deliciosa balladaMãeé uma preciosidade litteraria, magnificamente pensada escripta, digna da penna dos nossos primeiros escriptores.Não encomíamos, pois, o valor do livro, dizendo que elle é digno de figurar ao pé das mais bellas producções dos nossos escriptores mais consagrados.»Correio de Portalegre:—«Os meus amores, contos e balladas por Trindade Coelho.Acorda-lhes no espirito um echo de sympathia o nome do auctor, pois não?Eu creio bem isso, porque a verdade é que apezar da celeuma que Trindade Coelho ahi levantou, grangeando com o seu genio turbulento algumas antipathias nenhuma d'ellas alvejou o seu talento, que os senhores jamais negaram, e lhes ficou sendo sympathico. É por isso que escolhemos para encetar esta secção a producção brilhante do distincto litterato, editada ha pouco por Antonio Maria Pereira, um incansavel editor escrupulosissimo.Li o livro que o talento do auctor recommenda, impondo-o, quasi, a attenção do nosso cerebro, á contemplação da nossa alma; e essa leitura, feita n'umas horas que um encanto enorme fez parecer tão breves, deu-me d'Os meus amoresa agradabilissima impressão d'uma caricia, que persiste a sorrir consoladora.Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos doCommercioe daGazeta, tem, como viram, o poder invejavel de dar á ideia,—algumas vezes injusta, dirão alguns,—a mais correcta fórma, iriada sempre da limpidez mais viva; e isso, n'um trabalho feito agora para apparecer amanhã, à pressa sempre, n'uma fugida aos calhamaços manuscriptos que demandam a sua attenção de magistrado, e em que o periodo mais suggestivo é o doAnno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo.É-lhes facil por isso presuppor o livro, que o vagar do auctor desbasta, romodela, lima, muito tranquillamente, muito socegadamente, sob a vigilante direcção do seu delicado gosto artistico.Os meus amoresteem poesia, e teem verdade; e na maioria dos seus differentes quadros, adoravel descripção das scenas simples da vida do campo, da natureza singellamente formosa, o sentimento vibra intensissimo, e é encantadora a phrase, que um conhecimento profundo dictou, de que uma subtil observação resáe. Ha alli retratos d'um brilho sem limite,typosque resumem um estudo fidelissimo.É um cofre de bellas joias, o livro, que nos deixa embaraçadissimo, se queremos escolher alguma,—tão valiosas são todas.Todavia,—e isto é uma modesta opinião perfeitamente pessoal,—Vae victoribus, de tão grandiosa ideia, e de tão elevado estylo,Para a escola, tão grata, a evocar uma saudosa recordação dos bons tempos de creança, e os admiraveis contos de fina graça e tão verdadeiros,Preludios de festaeTypos da terra, são os meus eleitos, depois d'uma difficuldade enormissima d'escolha, d'entre tantos quadros da perfeição mais rara, e onde aMaricaseArrulhoscaptivam tambem a minha admiração.O livro é, como todos os sahidos naCollecção Antonio Maria Pereira, esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em percalina.N'esta noticia breve, digne-se o distinctissimo auctor d'Os meus amoresreceber o preito da nossa homenagem, prestada tão agradavel como sinceramente.»O Nordeste:—«Editado pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, em volume d'impressão nitidíssima, escrupulosa, foi recentemente publicado o primeiro livro de Trindade Coelho—Os meus amores, que vieram pôr em relevo as complexas e brilhantissimas qualidades litterarias do auctor, umnovoque já hoje occupa, por direitos justamente adquiridos, um logar proeminente entre os nossos melhores escriptores.Os meus amoresteem obtido na imprensa do paiz uma acolhida enthusiastica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso conterraneo quasi, commetteriamos uma flagrante descortezia se nos leitores doNordestenão dessemos conta da apparição d'esse livro, juntando ao côro unisono d'applausos as nossas sinceras saudações.Escriptos em prosa vibrante, fluente e musical, correctissima, esses contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiroprimoroso, constituem um verdadeiro encanto, captivando-nos com a espontanea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha d'umas historias aldeãs, d'uma simplicidade campesina, repassadas por vezes d'um sentimentalismo suave, lyrico...A nós, que temos por Trindade Coelho uma vivíssima sympathia, um affecto antigo e vehemente, seguindo com interesse quaesquer particularidades da sua vida, consolando-nos com os triumphos litterarios que teem glorificado o seu nome e com a sua merecida reputação de magistrado intelligente e trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do procurador regio, estava-nos impacientando o desejo de lêr o seu livro, e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o correio nol-o trouxe. E, agradabilíssima coincidencia! succedeu-nos deparar com o contoPara a escola, quadro tocantissimo que marca distinctamente os dous mais notaveis estadios da vida do escriptor: a altura em que entra na escola primaria, regida por um misero professor, bondoso e marcial, de villota sertaneja, e aquella em que sahe d'uma outra, habilitado com as suas cartas de formatura a encetar a carreira publica, na qual de continuo evidenciará as suas superiores qualidades de talento e caracter diamantino.Essa historia, exposta n'um estylo formosissimo, malleavel e correntio, deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto—sem pejo o confessâmos...—de lagrimas espontaneas nos marejarem os olhos, tão enternecedoras são essas paginas que evocam em nós as reminiscencias queridas d'um passado que não volta, e no espirito nos reproduzem, com uma precisão photographica, completa, scenas eguaes da nossa infancia, como de certo acontecerá a todos quantos lograrem a felicidade de lêl-as e sentil-as...Terminado esse conto, foi d'um folego, a bem dizer ininterruptamente, quedevorámoso livro, onde o auctor, n'um esbanjamento prodigo de verdadeiras perolas litterarias, se expande em ligeiras narrativas, descriptas n'uma prosa colorida e vibratil, scintillante e rhythmica, apresentando-nos uma serie de quadros, colhidos em flagrante,d'après nature, com uma extraordinaria lucidez d'observação, e um outrocasohumano trasladado para paginas d'uma forma impeccavel, accentuadamente artista, e que são uma eloquente affirmação da distincta personalidade de Trindade Coelho, ao presente um dos mais assignalaveis e esmerados cultores da prosa portugueza.Não querendo, e não nos sobejando espaço para tanto, ampliar esta breve noticia a uma critica a todo o livro, impossivel se nos torna ennumerar todos os contos em que elle se reparte, emittindo detalhadamente as impressões que nos suggeriram. Por isso o nosso applauso caloroso para todo o livro, sem predilecções por este ou por aquelle conto; e d'aqui, d'esta columna de modesto jornal de provincia, enviamos ao nosso queridissimo Trindade Coelho, n'uma effusão d'acrisolada estima, com um aperto de mão, as felicitações que merece, fazendo votos para que nãodeixe de ser um cultor assiduo da litteratura nacional, e continue a honrar o seu nome, já laureado, com a publicação de novos e bons livros.—José Pessanha.»Da Revista do Minho:—«Os meus amores.—Poucos livros terão vindo á luz da publicidade ultimamente em Portugal tão esplendidos como aquelle cujo titulo serve da epigraphe a esta noticia. Em todas as suas paginas se reune o bello e o agradavel, tornando esta obra de solido merito, e estimavel debaixo de todos os pontos de vista.Este volume pertence á formosissima collecção Antonio Maria Pereira, e é devido á brilhantissima penna de um dos nossos mais festejados escriptores—Trindade Coelho.Não precisâmos alongar-nos em chamar a attenção do publico para esta obra, pois é ella sobejamente já bem conhecida dos amadores de bons livros.»Revista Illustrada:—«Os meus amores.—Ha tempo,—não ha muito,—começou um jornal de Lisboa a publicar, de quando em quando, umas cartas de provincia,—Cartas alemtejanas, nos parece,—assignadas pelo nome, então desconhecido, de Trindade Coelho. Lida por nós a primeira, nunca mais nos descuidámos de procurar as outras, e foi com verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, até deixarem de apparecer de todo.Essas cartas eram a revelação de um formoso talento; eram a alvorada jubilosa e cantante de um bom escriptor. Trindade Coelho entrava nas lettras portuguezas pela porta aurea dos victoriosos, apresentando natural e simplesmente a sua individualidade, como a fundira n'uma só peça o seu talento alliado com a sua observação e o seu estudo, sem esgrimir com os que tinham chegado primeiro, sem acotovellar os que avançavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem charamellas de apaniguados e sequazes.Escrevia de um canto da provincia, da sua terra, em horas desoccupadas; escrevia de assumptos comesinhos, de cousas que tinha alli á mão, das scenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do sentimento que a sua alma encontrava no tracto sympathico da natureza inteira. Falava de um ou outro livro, que mão amiga lhe fazia chegar á solidão do seu eremiterio, sempre com acerto, propenso ao louvor, despido de invejas. Era um talento e era um caracter.Depois, houve na sua vida litteraria um momento de eclipse. Cremos que deve ter correspondido ao periodo occupado e trabalhoso da sua formatura. Bom signal. O estudioso sério sabia reprimir as impaciencias do amor proprio, sacrificando ás altas occupações do seu curso os brilhos attrahentes da facil nomeada. O escriptor experimentara já o pulso; agora conhecia a sua força e sabia e podia esperar.Eis que nos apparece um dia, subito, no fôro, honrando e glorificando n'um processo de rehabilitação a sua toga de magistrado. O caso deu-lhe celebridade, e ensejo para ser recordado o nome de homem de lettras, que elle soubera fazer distincto e conhecido logo aos primeiros trabalhos.Alguns mezes de collaboração diaria, n'um jornal bem lançado e bem redigido, avigoraram no conceito publico o renome conquistado, e Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa da paiz, o logar a que tinha direito, sem ninguem lh'o discutir nem contestar.Estreia-se agora no livro, e difficilmente imaginariamos apresentação mais prometedora e mais sympathica.Os meus amoressão uma collecção de esbocetos, alguns dos quaes, como oIdylio rustico,Ultima dadiva,Vae victoribus!,Abyssus abyssum, chegam a ter a perfeição, o acabamento de verdadeiros quadros. Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o auctor os trabalhou, solicito na sua obra, no empenho de uma execução immaculada. Não porque se conheça o esforço; mas sim porque se sabe que sem elle era impossivel conseguir tão completo effeito, tão seguro resultado.O estylo do prosador é, quasi sempre, firme, opulento, erudito, original e variado. Não tem reminiscencias d'este ou d'aquelle, e realisa uma das condições essenciaes que deve ter em mira todo o escriptor consciencioso: conservar uma feição propria e individual, sem se afastar da pureza da lingua, evitando ao mesmo tempo o retrocesso archaico, e contribuindo para a evolução progressiva d'ella.Trindade Coelho, por uma intuição que nos não cançaremos de louvar, em vez de se cingir a modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria facil assimilar, em vez de decorar mestres e de compulsar estylistas, procurou modo de illuminar a sua phrase e de colorir a sua palavra, na fonte natural de todas as inspirações. Penetrou, para isso, nas camadas mais primitivas do povo campezino, enriquecendo n'esse manancial o thesouro das locuções, e trazendo de lá, simultaneamente, scenas e quadros do um sentimento encantador, e de uma singeleza nativa e adoravel.É de indiscutível belleza a pastoral com que abre o volume. Affigura-se-nos estar lendo algumas paginas de Longo. A descripção da madrugada na aldeia, o encontro dos dois pastores, Gonçalo e Rosaria,—Daphnis e Chloe,—teem um sabor antigo, como o de uma narrativa idylica, passada nos tempos legendarios da Grecia, e ao mesmo tempo toda a verdade de uma scena campestre dos nossos dias. É de um bom gosto supremo a fórma subtilmente delicada como o narrador, deixando primeiro receiar a queda dos seus personagens n'uma brutalidade instinctiva, os conduz por fim nas azas da innocencia e da candura a uma situação divinamente sublime.E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, n'uma doce e prolongada abstracção, seguindo com os olhos do espirito aquelles doisvultos de creança a esfumarem-se nas distancias do espaço e do tempo, longe, muito longe, n'uma paizagem ideal, vista nos dias da infancia, vista talvez em sonhos, talvez em Virgilio ou Theocrito, talvez mais longe ainda, na Biblia...—seguindo, com os olhos da alma, em esquecida contemplação, longe, muito longe,«...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas, voando, voando.»EmVae victoribus!, outro quadro de mestre, ha como que um mixto do tragico fatalismo grego e do supersticioso horror christão. Não é vulgar a concepção do assumpto, nem vulgar, tambem, o desenvolvimento que o escriptor lhe deu, o scenario é horrivel e magnifico. Está bem descripto; bem descripta a tempestade, que primeiro se annuncia, depois se approxima, depois finalmente cresce e se desencadeia n'uma convulsão pavorosa e enorme; bem descripto o terror angustioso e suppliciante do misero assassino, o qual vê, na chamma de cada relampago, projectada a cruz negra que marca o logar do seu crime e que lhe prende os pés ao chão, emquanto o seu ouvido, allucinado pelo terror, lhe dá a sensação de uma voz insistente, que detraz de cada arvore, da espessura de cada moita, de cima de cada pedra, da resonancia de cada trovão, o chama inexoravelmente pelo nome:—Ó José Gaio! Ó José Gaio! Ó José Gaio!Bastava simplesmente esta narrativa para grangear a Trindade Coelho fóros de distincto e primoroso escriptor. Edgar Poe não engeitaria o assumpto, se lhe occorresse, nem o trataria com muita maior perfeição. Dar-lhe-hia pasto para algumas paginas tão engenhosas como as daGenese de um Poema, para alguma composição tão extraordinaria e tão transcendentalmente bella comoO corvoouUlalume.Mas como se quizesse mostrar a malleabilidade da sua penna, ou como se quizesse certificar-se a si proprio da multiplicidade e da variedade das suas aptidões litterarias, o prosador que recortou nos mais perfeitos moldes aquellas paginas classicas ou estas sinistras, detem-se na commovente e lacrimosa narrativa daUltima dadivae nas ligeiras e facetas descripções dosTypos da terra, dosPreludios de festa, doSultão, onde transparecem dotes de observação sarcastica, de ironia graciosa e de bem humorado espirito.Um livro de tantas promessas não póde ser, comtudo, e por isso mesmo, um livro definitivo. Trindade Coelho experimenta apenas a mão para se abalançar a empreza maior, estamos certos d'isso. Já no final do presente volume, em nota do editor a um trecho intitulado:Batalhas domesticas, se annuncia a transição da presente phase litteraria e artistica do auctor, para uma outra phase progressiva.Progressiva, dizemos nós, porque assim o crêmos. Qual ha-de ser, porém, a predominante caracteristica d'essa phase? Póde a critica conjectural-adesde já? Talvez o pudesse; mas seria arriscado fazel-o. Porque, a verdade é que o seu talento tem recursos com que lhe é dado contar, que o seu temperamento litterario tem energias que lhe hão de abrir novos caminhos, e que, na sua vida de homem de lettras, ha já precedentes, que enormemente o obrigam.Temos confiança em que a sua prosa, já segura e elegante, despir-se-ha ainda de um ou outro francezismo escusado, e ha-de adquirir novos dotes de clareza, concisão e vernaculidade. Trindade Coelho sabe onde procural-os. Não é em lexicons, nem em alfarrabios, nem em cartapacios. É na escola, aberta sempre a todos os investigadores, onde aprenderam a falar o portuguez do povo, os seus typos populares.Não se póde ser bom prosador, sem se ter o sentimento profundo do som, da melodia. Uma das maneiras de adquirir pericia n'esta fórma de escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer bons versos é um exercicio util para chegar a fazer boa prosa. Não é, porem, indispensavel, bem entendido.Contudo, não admittimos que repute possuir as qualidades completas de escriptor, aquelle que só d'uma das duas fórmas da arte de escrever seja conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da prosa, são os que praticaram largamente no manejo da metrificação e da rima.Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza artistica, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na phrase e maior cadencia no periodo, se praticasse um pouco a arte do verso, embora como simples exercício. E esteja certo de que lhe vale a pena empregar todos os esforços para attingir uma perfeição, que não está longe, e de que o seu talento proprio e a sua estudiosa boa vontade continuamente o approximam.—Fernandes Costa.»Aurora do Lima:—«Os meus amores, contos e balladas, por Trindade Coelho. Quando prometti áAurora do Limaesta ligeira noticia bibliographica ácerca do livro do brilhante escriptor e meu querido amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doença me obrigasse a retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me encontrar entre os ultimos da ultima fila, nas saudações enthusiasticas á obra e ao seu auctor.Tenho para mim como certeza indiscutivel que o publico se começou a fatigar d'essas obras torturantes d'analyse fria, cruel, desoladora. Os que se encontram feridos das asperrimas luctas da vida—e estes constituem a maior parte dos que lêem e estudam, preferem as obras consoladoras, de cuja leitura fica uma sensação delicada, uma recordação docemente suave. Assim, Pierre Loti ainda hoje triumpha sobre Zola, apezar do enormeréclameque antecede sempre a obra do velho mestre da escola realista.Ora o livro do sr. Trindade Coelho pertence ao numero d'essas obras consoladoras, de serenidade e de paz. É um livro sincero, que prende pela emoção intima, que interessa pela simplicidade elegante comque está trabalhado, que impressiona pela correcção impecavel do seu estylo, malleavel e harmonico.Abre-se o livro e depara-se com oIdylio rustico, que é uma soberba tella, amoravelmente tratada, denunciando logo ás primeiras linhas um alto valor artistico, na verdade rigorosa da observação, na delicadeza suave do colorido, na simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores.Segue-se-lhe oSultão; e em boa verdade direi que me parece ser este um dos contos mais formosos do volume, em que pese ás opiniões contrarias e até ao proprio auctor, que não perde occasião de o depreciar.Assumpto simples, esse, e todavia absolutamente verosimil. A descripção da eira, do labutar alegre, da paizagem e dos personagens d'este pequeno quadro, são um primor notabilissimo de execução artistica, de rigorosa e completa observação.Ultima dadiva, um episodio commovente, completa a primeira parte do livro, a que se segue aComedia da provincia, onde ha preciosos estudos da vida provinciana; asBalladas, onde se depara com o formoso contoPara a escola, de um alto valor litterario;Arrulhos, uma esplendida phantasia, etc.Eis uma ligeira noticia do volume de contosOs meus amores, que tamanho exito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia do nosso acanhado meio litterario, com os merecidissimos applausos que lhe foram dispensados.Dos meritos litterarios de Trindade Coelho fallam mais alto do que a crítica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornaes do paiz, especialmente noPortugal, onde escreve como o pseudonymo deCh. A. Verde, e naRevista Illustrada, do editor Antonio Maria Pereira. É um infatigavel e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais frivolo assumpto um delicioso relevo litterario, que prende e interessa o espirito do leitor.—Luiz Trigueiros.»Os Gatos:—«Vem a proposito de historias, fallar, bem sei que tarde, dosMeus amoresde Trindade Coelho, como do moderno livro portuguez que mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em polyedros de multiplices aptidões. Os contos dosMeus amoressão pela maior parte uma bagagem de vida academica, assimilativa (Trindade Coelho, muito novo, findou ha quatro ou cinco annos o curso juridico) e como tal sahem da penna do escriptor ainda sem uma crystallisação homogenea de fórma e de processo. Porém na sua factura ondeante lê-se o ascenso d'um espirito buscando a perfeição com escrupulos d'eleito; de sorte que o volume até como auto-biographia se insinua, elle precisando as phases, notulas, e predilecções litterarias do contista, e emfim, depois de hesitações, emancipando-o n'um dos mais delicados microscopistas do coração, das nossas lettras. Como é provinciano, provinciano d'aldeia, e natureza contempladorainda por cima, Trindade Coelho captiva-se principalmente dos assumptos bucolicos, pequenas scenas de cabana, tempestades de campanario, pastoraes, vida de povo, e sente-se que o não faça por diletantismo de escriptor avocando de cór dramas lambidos, senão por esse estro de visão retrospectiva dos melancholicos despaizados em terras hostis, e que protestam contra o egoismo ambiente, recluinde-se no passado, como n'um sanctuario de mumias adoradas. É a tendencia geral dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida dos humildes, especialmente dos campos, materia prima para seus contos e poemetos. Em poucos porém a predilecção se escóra na sinceridade e conhecimento pratico da vida rustica, e em menos ainda ha perspicacias para uma autopse sagaz da natureza psychica e moral do camponez. Grande parte dos que teem posto o povo em scena, contenta-se com recortar-lhe os andrajos n'um scenario de convenção, e com o fazer fallar aos bonequinhos mancos que resultam, aravias mais ou menos inventadas d'um pictoresco sorna, em cuja trama não ha vislumbres d'alma regional, de caracter profissional, d'individualismo typico, ou de paixão. Se alguma vez tiverem pachorra, mandem vir a collecção dos contistas rusticos portuguezes, e riam á larga das fantasias lorpas que lá virem. Em dialagos amorosos ha por exemplo cousas unicas! Cavadores d'aldeia debitam ás namoradas protestos de paixão, em linguagem que seria preciosa até na bocca d'um pisa-flôres do Martinho e da Havaneza. Ellas, de lhes retrucar em phrase equivalente, e de se mecherem em scena com os ademanes que aDama das Cameliasconsagrou na cachimonia dos auctores, como os mais proprios para mimar o amor que as enchaquéca.Em paizagens e descripções d'interior, a mesma ausencia de detalhe certo e de visão propria, que reduzem esses quadros, a méras caganifancias d'aguarellistas amadores. De tal maneira que o grupo decampestresa quem a arte confia a missão de leccionar aos desregrados habitantes das cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de persuadirem os seus leitores, o mais que fazem é pintar-lhes o campo como uma banal imitação da Rua do Ouro, e o camponez como uma arreglo grotesco do alfacinha.Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essencia da paizagem provincial, e a alma do provinciano e do camponio, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu criterio do problema, em fórma d'arte, e dos que mais progressivamente vão crescendo á vista do leitor, que não mais lhe perderá de vista os vôos poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de genero, colhidos em prolongadas estações nas duas mais typicas provincias de Portugal, o Alemtejo e Traz-os-Montes. Ha assím nosMeus amores, a par d'algumas benignas composições representativas da transição critica do rapaz para o homem, e do debutante para o laureado, outras de tal guiza iguaes, sobrias, seguras, que não hesito em as apontar como modelos, e dentro da minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadorasobras primas.Typos da terraePreludias de festa, por exemplo, são duas narrações que mordem fundo a attenção de quem nas lê, e que por sua admiravel sobriedade, intuito pictural, e observação ridente sobre o vivo, cuido que ficarão modelarmente apontadas aos collecionadores de litteratura typica.Qualquer das peças abrange apenas o folego d'uma ou duas duzias de paginas, deliciosas porém como factura, admiraveis de bonhomia, e d'uma saude moral que faz desejos d'estimar pessoalmente o seu auctor.Ahi está effectivamente revelado não só um talento plastico e bastante rico em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das mais finas intenções.Typos da terraé o quadro satyrico d'uma má lingua d'aldeia, tendo por club a porta da tenda, por scenario a praça publica, e por personagens o pessoal burocratico e elegante da terriola.Preludios de festaé um estimulo de festeiros preoccupados de qual fará a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons são leves, os typos rapidos, a descripção dita a correr, mas no conjuncto ha um tal equilibrio esthetico, a meia tinta é tão fluida, e as intenções ironicas sublinhadas tão de manso, que se adivinha logo um mestre miniaturista, Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os semsaborões que por ahi medram, e certamente fadado a uma supremacia qualquer no moderno romance portuguez.—Fialho d'Almeida.»Jornal de Santo Thyrso:—«Os meus amores.—Foi penhorante e commovente para nós a gentilissima offerta que Trindade Coelho nos fez do seu adoravel livro de contos, que tem por titulo a epigraphe d'esta singela noticia.O nome de Trindade Coelho era já gloriosamente festejado quando o brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade; hoje, porém, apparece mais radiantemente no seu precioso livro, onde a primorosissima fórma se allia com o mais delicado criterio d'artista d'élitee com a fina observação d'um talento verdadeiramente superior.O que deixamos dito é profundamente sentido, que a nossa humilde e obscura penna não está—seja este o seu unico merito!—habituada a vir entregar ao sagrado lume da imprensa os elogios sandeus que cada dia se prodigalisam aos mediocres e aos banaes, que se desvanecem entre as ondas d'esse barato incenso.Os nossos leitores melhor ajuisarão, em presença do trecho que lhes offerecemos como mimo de rara valia.»Diario Illustrado, (com o retrato do auctor):—«Trindade Coelho.—N'esta aspera vida das lettras, cortada de tantas amarguras que ninguem sonha, ha, entre outras, uma grande e profunda alegria,—que nem a todos é dado experimentar, accrescente-se.Essa alegria, sentem-n'a os poucos susceptiveis de comprehendel-a,—na elevada faculdade de admirar o que se impõe pelo dominador prestigio do talento ao culto mental, e sobretudo no intimo orgulho de adivinhar, logo aos primeiros passos, a revelação de Alguem, que vae ser unanimemente admirado.Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na galeria do nosso jornal, este incomparavel jubilo.Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam; admirei-o, muito antes d'elle trazer á litteratura patria o livroOs meus amores, que foi como que a subita illuminação do seu nome.Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos apparece em toda a sua inconfundivel originalidade de narrador, em todo o desartificioso encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o temperamento de artista, impressionavel e vibrante, na fluidez do estylo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!...O campo, que a maioria dos escriptores conhecem superficialmente, de rapidas excursões alpestres, sem o menor vislumbre de identificação, vive no livro de Trindade Coelho, com um singular relevo de verdade, com um profundo sentimento do natural. «Entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essencia da paizagem provincial, e a alma do provinciano e do camponio, escreve dosMeus amoreso nosso grande critico Fialho d'Almeida, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu criterio do problema, em fórma de arte, e dos que mais progressivamente vão crescendo á vista do leitor, que não mais lhe perderá de vista os vôos poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de genero, colhidos em prolongadas estações nas duas mais typicas provincias de Portugal, o Alemtejo e Traz-os-Montes.»Antes dosMeus amores, Trindade Coelho começara a affirmar a sua poderosa, individualidade em uma secção doDiario Illustrado,Cartas alemtejanas, chronicas expedidas de Portalegre, em um arranque de talento, com exuberancia de fantasia, modos de ver e dizer, flagrantemente modernos, traços de soberbo humorismo á Vacherai, velados a espaços de um ligeiro fumo de melancolia, que lhe avivava a frisante originalidade.Por esse tempo, o nosso brilhante chronista emprehendeu, no exercicio das suas funcções de delegado, em Portalegre, a tarefa humanitaria de arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que injustamente o condemnara.E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos vôos, fez-se um côro de bençãos, como que uma apotheose de amor, que deverá ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da sua alma effusiva e enthusiasta, um d'estes supremos jubilos, superiores a todas as desditas e inaccessiveis a qualquer desencanto.Dá-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o caracterisam e lhe assignalam o ponto culminante em que se evidenceiam, uma dualidade, verdadeiramente phenomenal.É que, sendo elle um artista, na rigorosa accepção titular da palavra, namorado do ideal, amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na extatica adoração de tudo quanto ella sobredoira do seu brilho immortal, é ao mesmo tempo um funccionario exemplar, um delegado do procurador regio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de tal sorte Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu caracter e no correcto exercicio da sua profissão, toda a perstigiosa soberania da Lei. Diz ainda Fialho d'Almeida, inteiramente insuspeito, quando se trata de aquilatar o merito de um auctor:«Ahi está effectivamente revelado não só um talento plastico e bastante rico, em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das mais finas intenções.»Ás vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de saudade nostalgica ou treme de frio... legal.É então que elle murmura, (perdoa a indiscreta allusão, meu caro Trindade Coelho?) «Ah! que apertada gaiola esta, em que vejo fechado, o meu espirito! O meu trabalho, amo-o porque é o meu dever. Mas como eu ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo! Não faz idéa, não! Dentro d'esta jaula de ferro, veja! E là fóra, e lá em cima—que amplo céo azul para voar!»Mas n'esse azul para onde lhe foge o espirito, quantos triumphos ainda o esperam, meu illustre amigo?—Guiomar Torrezão.»Revista de Portugal:—(Excerpto de um artigo critico ácerca doSóde Antonio Nobre).—«Alma doente, o sr. Antonio Nobre soube extrahir da sua doença effeitos de Arte singulares e ás vezes intensos. Outros attingiram o mesmo objectivo pela descripção das emoções naturaes e pelo appello aos instinctos sãos do coração humano. Acabo de rêler o livro d'um escriptor tambem novo:Os meus amoresde Trindade Coelho. Com casos da vida corrente e com sentimentos que podem ser comprehendidos por qualquer dos seus leitores, uma despedida, a affeição de dois pastorinhos perdidos na solidão do campo, os remorsos de um homicida junto á cruz da sua victima, o amor materno de uma cabra que se deixa morrer sobre o cadaver do filho recemnascido, consegue o narrador interessar e commover vivamente o espirito de quem o acompanha atravez d'essas duzentas paginas impregnadas dos succos da terra e do suor dos lavradores. Demonstração cabal de que a Arte é vasta e a capacidade pessoal decisiva para a belleza das obras.—Moniz Barreto.»Da Vid'Airada: «Trindade Coelho.—Uma vez na sua frente, face a face, olhando-o bem, medindo-o d'alto a baixo,—o que não seria difficil mesmo no caso de que a medida dos homens se tirasse a palmos—fixando o olhar no seu olhar, e não perdendo uma só das suas palavras na mais simples conversa de algum quarto de hora,—ao separar-se elle de nós, porquejá então a gente não se atreve a separar-se d'elle, tem-se adquirido a certeza de que aquillo é o que é, e chegado á mais solida convicção de que toda a verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um coração de homem, nunca se manifestaram mais expressivamente, mais insubmissas ao menor proposito do menor disfarce, do que na sua physionomia bem aberta, illuminada em cheio pelo brilho intensíssimo do seu olhar muito limpido, muito penetrante, se expressam toda a sinceridade, toda a verdade do seu grande coração e do seu impetuoso temperamento.E ao vel-o partir pela rua fóra, decidido e tezo, resoluto e rijo, a cabeça alta, assentando com firmeza o pé pequeno, despejando caminho que dá gosto vel-o, não resistem os olhos ao desejo de acompanhal-o de longe, até que o percam na dobra da primeira esquina, e a gente diz ou pensa:—«Demonio!... Com meia duzia assim, poderia fazer-sealguma coisaainda!...»Porque no meio d'esta especie de contagio, que os perversos e as suas perversões vão espalhando em redor de si, fazendo estremecer os honestos quando com elles se cruzam, e tentando para o mal os fracos quando passam—só a presença de homens bons e sãos poderá melhorar este sólo e purificar esta atmosphera.Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem da sua vida,—o mundo litterario e o mundo judicial—affigura-se-me elle, talvez, como um antípoda de si mesmo, ora imprimindo o indelevel cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos documentos para a dilacerante historia pathologica da sociedade portugueza n'este agonisar de seculo, quando aponta o implacavel index do Ministerio Publico contra os altos reus de certas causas celebres,—ora imprimindo n'algumas obras de pura arte litteraria, em que a elegancia da fórma é posta sempre ao serviço das emoções mais dôces e das mais penetrantes, esse outro cunho, d'essa outra individualidade que n'elle ha, e tão diversa é, tão original e tão rara, tão comtemplativa e tão terna....Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande coração e do seu impetuoso temperamento!No tribunal, quando articule algum libello accusatorio em que as suas palavras se não limitam ao cumprimento do dever de officio, não tardará que á serena exposição dos primeiros articulados succeda a expressão calorosa, indomita, sempre crescente, da indignação, e da colera, que lhe provocam e açulam os factos e as razões de que vae deduzindo a tremenda accusação contra o réo—...esse réo que alli está, alli! sentado n'aquelle banco, sentenciado já, e de grilheta aos pés! Agita-se-lhe a circulação do sangue, a respiração accelera-se, a face ruborisa-se, todas as veias do pescoço e fronte se distendem, o peito enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A excitação do cerebro vigorisa-lhe os musculos, affirma-lhe a energia, parece transportal-o ao imperio da força,n'um arrebatamento em que os dentes rangem, e as unhas se crispam, punhos cerrados, braços erguidos, completamente desordenado a frenetico!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe na garganta, quasi ronca, vociferando, em discordancias agudas que veem ferir de arripios a espinha dorsal do auditorio... Já não é para a justiça dos homens que elle appella; não lhe bastam, não o saciam as penas maximas dos Codigos! Quer o castigo do Céo, quer a justiça de Deus!...O que não tira, ainda assim, que resgatasse da morte civil, bem peor que a morte natural, um desgraçado que a cegueira da justiça humana havia condemnado por assassino e ladrão—o pobre Manuel Barradas. Muito commentou a imprensa o facto, espantada de que um agente do Ministerio Publico, um feroz accusador, empenhasse dois annos agoniados da sua vida em apurar uma innocencia... Trindade conserva, encadernada, a collecção desses jornaes, e legou-a em vida ao filho, ao Henrique, pondo-lhe no principio estas palavras: «Meu filho, pela lei de Deus, a vida é só um pretexto para boas obras. Observei um dia a lei do Senhor, e Elle, em premio da minha obediencia, concedeu-me o poder legar-te um pedaço vivo do meu coração. Queres ouvil-o bater? Ausculta essas folhas... Bemdito seja Deus! serão ainda minhas as tuas lagrimas enternecidas, e, ainda depois de morto, viverei na tua commoção e na tua alegria, para a commoção e para a alegria da minha obra...»Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste nos offerece a outra phase d'esse mesmo espirito, quando o vulto austero do magistrado, cedendo o logar á delicada individualidade do homem de lettras, o desembaraça da toga e o deixa que vá, em mangas de camisa, muito á vontade e á fresca, pelas tardes serenas do seu bom humor, a vaguear pelos campos do seu sonho—sonho feito de saudade, d'essa muito viva e muito affectuosa ternura que á sua alma de artista dá, e que a sua prosa tão sentidamente traduz, a recordação de felizes tempos que não voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais esquecem,—recordação a que andam para sempre ligados, n'uma doce e meiga associação de ideias, certos logares, certas pessoas, certas orações, certa ermidinha e certo olmo, que já lá estavam quando elle nasceu, que o embalaram nos primeiros somnos e lhe deram amparo nos primeiros passos; que ao baptismo o levaram, e o conduziram á escola; alegrando-se com as suas alegrias, entristecendo-se com as suas lagrimas...N'esses momentos, sob o dominio d'esse lindo sonho, inundado do luar da sua terra, desannuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte, vê-se pousar-lhe nos beiços e nas palpebras a serenidade meiga de um sorriso, como que o doce agradecimento á alma de sua mãe, que tivesse vindo, muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o leito, aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos labios a amorosa caricia dos seus beijos...Por isso, a musica do seu estylo produz sobre a nossa sensibilidadeessas emoções e excitações violentas, em que a tremura dos musculos e a effusão das lagrimas realisam o phenomeno das emoções reaes.Os seus escriptos obedecem sempre á logica influencia d'esta convicção em que elle está, quando me diz, bem medindo e pezando cada uma das suas palavras:—«Positivamente, meu amigo, o publico deseja, antes de mais nada, que o escriptor preste na sua obra o culto que é devido á sua lingua. Depois, deseja que o commovam, que honesta e consoladoramente o emocionem, preferindo que o assumpto do quadro seja a exploração das coisas triviaes da vida, certamente porque reside no Simples a formula mais natural da Verdade... Comprehendo que o espirito dos que lêem está fatigado d'essa confusão doromancecom oestudo, e convenci-me, emfim, de que a obra d'arte litteraria tem, como primeiro dever, e como condição primeira de agrado, de ser consoladora e suave, tocada sempre de uma pontinha ligeira de poesia que vá direita ao coração e entretenha, em quem lê, as faculdades emotivas, de preferencia, mesmo, ás faculdades intellectuaes...»ReleioOs meus amores, o livro dos seus contos. É o primeiro d'elles,Idylio rustico, de uma deliciosa simplicidade de aguarella, parece que feito sobre um esbatido de céo purissimo, côr de sovaco de andorinha e não sei com que singular sabor eucharistico de primeira communhão... É um sonho de absynto, que serve de aperitivo divino para a leitura soffrega de todo o livro. Dois pastoritos ingenuos, a Rosaria e o Gonçalo, encontram-se e approximam-se, n'uma indecisa alvorada de derriço, cheios de boas tenções e puros ideaes. Acontece, porém, que por viverem longe, raras vezes se falam, e quando essa ventura lhes é dada, imaginem os que como elles se amem a alegria que inunda aquellas duas almas! D'uma vez, passada alguma d'essas ausencias longas, quiz Deus que os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam levando seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como juntos os corações traziam, e desde que nasce o sol até que o sol se põe, vagueam nas frescuras marginaes do rio, a par, e sós, elle dedilhando a flauta, ella recordando cantigas, com murmurios d'agua correndo, e ballidos suaves dos lanigeros, n'uma paz d'alma idylica de illuminura. E quando a noite chega, porque lhes custe immenso a separação, o Gonçalo a convida a continuarem juntos, deixando que as ovelhas durmam em mistura e que passem elles a noitada sobre o mesmo colmo, ao abrigo da mesma cabana. Não sem certa instinctiva reluctancia, Rosaria acceita; e como se deitem ao lado um do outro, tornando as mantas cobertor commum, e pousando as cabeças nos bornaes unidos, parecer-vos-ha, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos desmedidos... Nada d'isso, perversos! A pouco e pouco vae escurecendo, e os bons dos namorados, n'uma placida orchestração final que se smorza, referem-se casos de moiras encantadas, e assim pegam no somno e adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar: sente a tristeza da maldade nossa.Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fóra, e que vamos bisando e saboreando a pequeninos gólos, durante algumas horas bem fugidas, passeadas por aquellas paizagens e recantos provincianos que elle nos pinta, tão real e verdadeiramente como se lá estivessemos; em companhia d'aquelles typos que elle retrata, tão photographicos, tão nitidos, que é estar a gente a vel-os, a ouvil-os, a falar-lhes, a deitar-lhes o braço pelo hombro...Antes dos seus contos nunca a prosa portugueza me havia dado, posta ao serviço da moderna arte, o ineffavel goso de tão estranhas, tão novas, tão encantadoras surprezas! Quizera eu, inedita, bem fresca, pela primeira vez usada a respeito da sua escripta, esta flagrante comparação:—dir-se-ia traçada com uma penna d'aguia... arrancada d'uma aza de pomba.Os seus livros ficarão pertencendo ao numero d'aquelles que parecem possuir o raro condão de nunca envelhecerem no espirito de quem os lê. Relêr o que elle escreve é sentir o mesmo prazer, sempre renovado, de quando se contempla pela centesima vez algum querido, precioso objecto, que noventa e nove vezes se contemplara já: privilegio esse de eterna seducção, que só disfructam as obras em que o artista deixou pedaços da sua alma.—Alfredo Mesquita.»Do Poema do Ideal:
Folhas dispersas dos meus annos de oiro,Vivo enxame das minhas alvoradas,Tenho zelos de vós, folhas sagradas,As Desdemonas sois de um outro moiro.