ULTIMA DADIVA

Mas o demonio, que sempre as arma, armou-lh'a tambem um dia! Foi ao cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Poz-se a mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de enorme—gelada...—Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.—Ó Josefa!A mulher assomou á janella, sobresaltada.—Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!—Que te roubaram o quê? fez a sr.aJosefa, muito attonita.—O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que m'o roubaram!E como ao tempo acudira já o Manoel, em camisa, descalço, romperam todos tres na gritaria, defronte do cortelho vazio:—Á d'el-rei! Á d'el-rei! Á d'el-rei!Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, poz na peugada do burro, mais dos larapios, os cabos que compareceram.Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adeante, e desfechando ao peito abatido do Thomé a negra e vazia palavra:—Nada!...IIDois annos depois. Tarde d'agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se n'uma sombra egual, e embaciavamainda o poente as suaves, brandas pulverisações doiradas da ultima luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro, destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja. Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e além, alegremente, a monotonia profunda do azul. N'um deslado, sob os castanheiros proximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da igreja, as paredes caiadas da escola.A vasta eira commum, levemente accidentada, apresentava áquella hora o aspecto tranquillo e de paz de uma grande officina em repouso. Poucas «mêdas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das «mêdas» altas, entre os utensilios da trilha e a creançada estridula que brincava, os da lavoura descançavam—vermelhos da soalheira intensa de todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nú, arregaçados os braços musculosos, n'uma prostração regalada de matilha que alfim tem a sua hora de socego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da fadiga os proprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali, dando uma sensação agradavel de fartura, perfilam-se os altos saccos no meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa, ao redor de um grande montão de palha triturada, vae «limpando»—visto que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os «baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão, varrendo em roda n'um afan... Em certo ponto, carros vasios; um além, de altissimas «angarellas», vae-se enchendo de palha; emquanto outros, atulhados de saccos, em rimas entre as cancellasmais baixas, estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois gigantes.Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêllo. E lá vão encosta abaixo, roçando pelos troncos asperos dos castanheiros a enorme corpolencia, fartar o largo bandulho á serena agua das ribeiras, sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente, monotonamente, parece que insaciaveis no meio da agua em que se atolam, submissa...Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres cantava alegremente, em côro. Acabara de ensacar-se o ultimo grão da farta colheita do Thomé da Eira.—Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os visinhos.—A primeira da aldeia!—Qual? isso sim! vão vocês vêr a tulha. Muita palha, é que vocês hão de dizer, muita palha e pouco grão...E muito azafamado, sem prosapias de maioral nem geitos de soberba, as mangas arregaçadas pelos cotovelos, O Thomé ia e vinha, dando ordens, repetindo avisos, distribuindo aqui e além as ultimas tarefas.—Ahi vae um sacco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por ahi alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso. Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vae no carro está bem.E era como um doido a metter-se no serviço de todos,muito expedito, loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora dormir...—Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por ahi alguma, que eu depois te ensinarei, ouviste?—Que faz ahi no chão esse «rasouro», ó coisa?—Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses saccos que fiquem bem atados.O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no ar, se era preciso mais alguma coisa.—Não, pódes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te. Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo, deixa ir os animaes a passo. Vae-te.Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:—Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os bois para o lameiro.Mas o Francisco apontou dois saccos que ficavam:—«seria preciso vir por elles?»—Não vale a pena, lá irão.E depois, para aquella gente, observou que bem sabia elle quem os levava, aquelles dois saccos...—Com mil demonios! Apostar que vocês não adivinham?«Elles sabiam lá?... Quem quer podia levar os dois saccos, olhem agora!»—O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a scisma do animal não lhe passava nem á mão de Deus Padre!»—A modos que isso é já mania, ó sr. Thomé?Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpreza. Voltaram-se todos—«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando, a cavallo.—Vocês não querem vêr, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se pallido.—Aquelle burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por elle...Recordaram:—«estrella malhada na testa, a mão direita branca»...—É elle, com um milhão de diabos! não ha que vêr! E aquelle é o ladrão!E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou, d'um abanão, o cabo d'uma «espalhadoura» e botou a fugir direito á estrada.Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:—Que o mata! gritavam todas.—Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem a alma lhe deixa! Acudam!Os homens deitaram a correr atraz d'elle, affluia gente de todas as bandas da eira, os cães ladravam.—Então, sr. Thomé? olhe que se perde, sr. Thomé! diziam-lhe, já agarrados a elle.—Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem, sr. Thomé, largue vossemecê o cabo!—Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costellas, mais a vocês, se me não largam! Arreda!E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a elle mais ao cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.—Vê, sr. Thomé?!«Não via nada, não queria ver cousa nenhuma! Arreda!» E n'um rompante de ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou á estrada, aos tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.—Abaixo! intimou.—Você é um ladrão!—Um quê?—Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matal-o aqui, seu patife! Deixem-me! larguem-me! Ha-de ahi ficar estendido, como um cão!E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda, e na direita o minacissimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo razo—«com seiscentos milhões de diabos!»Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos.—Já lhe disse que você é um ladrão!—Ladrão será você!—tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos cerrados.—E não m'o diga outra vez, que o racho!Afflictas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a capellinha proxima, rogando o soccorro da Virgem. O lavrador entrava de tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca bordejava-lhe os cantos da bocca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um pedaço de hombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas agora esbracejava, punhos no ar sobre aquellas cabeças em desordem.Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:—«tinha-o comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado...»—Vê, sr. Thomé? acudiram logo uns poucos.—O homem não tem culpa.—E gritavam-lhe aos ouvidos:—Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé. Vês-ahi está!—Mente! objectava incredulo o Thomé, cada vez mais irado.—Mente!—Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado.—Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Thomé.De modo que para o convencerem, foi preciso afinal leval-o quasi á má cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Elle então, abrindo os braços como se fosse para nadar, socegou um pouco, amainou,—prometteu levar aquillo com paciencia, ás boas. Chegouquasi a pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das camarinhas.—«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?»Chegou-se por fim a um accordo. «Sim, senhores, accommodava-se, mas punha uma condição: largasse elle o burro, e o burro é que havia de resolver...»—Serve-lhe o contracto?—Qual contracto?—Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro ás soltas. Depois, é p'ra onde elle fôr. Se o burro larga p'ra traz, lá p'r'as bandas d'onde você vem... Você d'onde vem?—Dos Casaes.—Pois ahi está. Se o burro tomar p'r'os Casaes, o burro fica seu...—E tomando direito á aldeia, é do sr. Thomé,—concluiram alguns do grupo, conciliadores.—Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia historia que o burro tomasse para a aldeia... Vinha de tão má vontade, que até lhe custara tiral-o de casa.—Olhe que vae pr'os Casaes! Digo-lhe então que vae pr'os Casaes...—affirmou.—Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vae. Você está pelo dito?—quiz saber o Thomé.—Sim senhor, estou! Pois que duvida tem que estou? disse-lhe o outro n'um rompante. Olhe: uma, duas, tres; ás tres largo-lhe a arreata.Ia já a abrir a bocca para dizer—«uma!»—Alto! fez o Thomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas festas ao animal.E pôz-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um pouco a fital-o de frente, «para que o animal o conhecesse.»—«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»!O burro estremeceu... Dir-se-hia que no fundo da sua memoria, a lembrança porventura adormecida d'aquelle nome despertara subitamente...—Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casaes nem p'r'o logar. Assim. Eh! Eh!E afastou-se para o lado, aguardando.Uma anciedade dominava n'aquelle momento os do grupo; o Thomé pôz-se a roer as unhas, nervoso...—Então você porque espera? perguntou.Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:—Á uma!...O Thomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de esguelha, e entre os dentes ferrados o pollegar da mão direita...—...ás duas!—Ih! c'um raio!... dizia baixo o Thomé.E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força.—...ás tres!Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e gargalhadas! O Thomé vencera: corriam todos a abraçal-o, affirmando que o caso era para foguetes.—Viva o sr. Thomé! Viva o «Sultão»! Aquillo é que é burro!—Aquillo é que é amigo, hão-de vocês dizer!—emendava o Thomé a rir. Tenho-os com dois pés, que não valem metade...—Oh! sr. Thomé! protestavam alguns.—Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa... Está visto que não é com vocês.E ria, ria como um perdido, emquanto, estrada fóra, o «Sultão» corria que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao fundo, na poeirada immensa da estrada, como que nimbado n'um resplendor de apotheose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casaes...Quando o Thomé chegou a casa, offegante, a suar, cheio de gestos e de palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava á porta do antigo cortelho, n'uma grande impaciencia, um «rap-rap» continuo na soleira.—Venham vêr! Venham cá vêr! berrava o Thomé para a vizinhança. Ó Antonio! Ó compadre! Ó Maria Engracia!Ás janellas assomava gente, perguntando se era fogo.—Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó Josepha! Josepha! cá temos o burro, este demonio. Assoma.Ora imaginem agora os senhores, se podem, a effusão do lavrador. Abraços? E até beijos. Aquillo era um thesoiro perdido que reapparecia alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu homem teria endoidecido...—Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda d'ahi pelos saccos. São só dois. Ó Josepha! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca, avia-te. A caneca tambem, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um pulo.—Ah!A senhora Josepha assomava, ajoujada com o enorme garrafão.—Anda, mulher, põe aqui deante de mim. Avia-te.Ia a boa da senhora Josepha arriscar uma observação, um conselho, qualquer coisa de tomo...—Adeus, minhas encommendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem.—Nome do Padre...—Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui!—Nome do Padre, nome do Filho...—A caneca! Venha de lá agora a caneca!—...nome do Espirito Santo!—Passa bem, ó mulher,—concluiu ás gargalhadas, entre as gargalhadas dos demais.—Ouves? Quando o Manoel vier dos ninhos, esse maroto, manda-m'o ás eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente!E lá parte, veloz como uma setta. Já de longe volta-se do repente:—Josepha! ó Josepha! n'esse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o «Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, elle lá vae n'uma corrida, sumido n'uma onda de poeira, até chegar ás primeiras «mêdas».—Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá umapinga, mulher! Lá por andarmos de mal ha 15 annos isso acabou-se!E o Thomé atravessou a eira sempre a cavallo no «Sultão», caneca de vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manoel no meio dos saccos, e adeante do Manoel o bello garrafão—sem pinga...Pelo caminho, a todos o Thomé contava a historia, a rir como um perdido, n'um ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito intimas.—Colheita rica, sim senhores, um colheitão!E parando á porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e remexendo o alguidar de barro:—Nome do Padre, do Filho, do Espirito Santo....Ao mesmo tempo que o Thomé, abrindo os braços, respondia reclamando as sopas:—Amen!ULTIMA DADIVAAo dr. A.A. da Fonseca Pinto.Distantedo rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme, bello horto ainda que pequeno, todo mimoso de fructas e hortaliças, fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, communicando com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao pobre homem restava dos seus antigos haveres:—o horto, a um canto a nora, e perto da nora, sob a umbella tufada e virente da antiga magnolia gigantesca, a misera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas janellitas lateraes mas toda pittoresca das heras que a revestiam, que lhe pendiam dos beiraes enlaçadas com as trepadeiras.De modo que na primavera, quando as parasitas abriamserenamente os seus melindrosos calices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnolia toda se toucava de flores fazendo docel á vivenda, aquelle pequeno canto d'horto, com a sua nora e com a sua agua espelhante e limpida, tomava a feição ingenua de uma delicadissima tela de paizagista, aquarella deliciosa, alegre e idyllica, cheia de encantos na poesia rustica da sua simplicidade.No verão, ás horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga paizagem adormecida e turva, e as arvores da estrada não davam sombra que aliviasse, aquella tranquillidade com que o José Cosme ressonava sob o alpendre, braços nús e peito nú, o chapeirão de palha grossa resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cançados e cheios de poeira, flagellados por aquella estiagem inclemente.—Ó tio José!—gritavam-lhe do caminho.—Tio José! Ó regalado!Mas os que entendiam de lavoura, proprietarios e maioraes, esses deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto.Ora na verdade!... Bello horto, sim senhores! Por aquellas redondezas não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua cultura—tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com symetria agradavel, verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as castas—desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda acaçapada no chão humido das regas, até ás trepadeiras das vagens que enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o esmero, formando massiços de verdurasombria que os casulos esguios dos feijões crivavam de alto a baixo. Arvores, apenas as precisas para aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de fructas nas estações competentes—cerejas, peras, maçãs, pecegos mesmo.Poucas flôres: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que por signal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os goivos. Uma vez por anno, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e ia leval-os em braçado á sepultura rasa das suas defunctas.Exactamente n'essa tarde tinha elle ido ao cemiterio fazer a funebre visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de chorar. Estava nas suas horas tristes, n'essas horas em que as energias todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagello de uma dôr violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham morrido... E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lagrimas. De modo que sem esse lenitivo, aquellas medonhas tempestades custavam o dobro a supportar. Abstracto, n'uma especie de entorpecimento idiota, percorria sem descanço todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, automato. Se por vezes parava, recolhendo-se n'uma quietação attenta, logo um gesto brusco desmanchava a sua immobilidade de estatua, soltava um fundo gemido, e punha-se de novo a andar.—Vens ou não vens?—perguntava elle, evocando com dorido esforço a imagem da mulher ou da filha. Não vinha;e quando apparecia era como se fosse um relampago, apagava-se logo.N'esta lucta com a sua dôr as horas iam passando longas. Era já tarde, talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrellas, pois que o luar nascia tarde. Pesava sobre toda a paizagem o largo silencio da noite, apenas cortado, ao longe, pela melopeia somnolenta do rio.Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se n'um recanto onde a sombra era mais densa.—Temos historia...—resmungou comsigo o rapaz.E, rente a uma arvore, quedou-se alapardado, á espreita. Não desconfiou que fosse o José Cosme: aquillo era mariola de larapio que vinha por ali fazer das suas. Agachou-se então, e poz-se a procurar uma pedra. Apanhou duas, para o caso de não acertar a primeira.—Cão do diabo!—exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a pedra.—Espera que eu te arranjo...—E já ia arremessal-a na direcção do canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao logar onde o rapaz estava.—Melhor! Mais a geito ficas...E debruçando-se um pouco na parede, poz-se a fixar o vulto que avançava, para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os hombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo defronte d'elle, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme. O vulto parecia, com effeito, ser od'elle; lembrava-se agora de ter ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aquelles carreiros por onde ellas tinham andado.Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente, deixou cair as pedras e perguntou:—Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luiz... Vossemecê que tem?O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:—Doe-lhe alguma coisa, ó tio José?—Não dóe, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes. Bem me bondam as minhas afflicções. Vae com Deus, vae.O rapaz ficou surprehendido, triste do tom de supplica dorida que o José Cosme dera áquellas palavras, e retirou-se silencioso, quasi aterrado agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse a pedrada.No emtanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruido que não fosse o das aguas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadario, ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um automato ou um somnambulo. Ás vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. N'isto, de uma vez que passava em frente do cancello, pareceu-lhe ouvir passos.—Ó Thomaz!—Sr. José!—respondeu o que entrava, n'uma voz que era mesmo voz de barqueiro.O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontral-o a pé, elle então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.—Como tinha de madrugar...—Pois são horas de largar, sr. José; isto vae p'r'as duas. Não tarda que comece a amanhecer.—E como estavam á porta de casa:—Será bom acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vae.—Iam á vela se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.Mas á ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar violentamente.O barqueiro tentou animal-o, constrangido.—Então, sr. José?... O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que homem!—E tentava levantal-o, pol-o de pé.—Limpe lá essas lagrimas, que vae affligir o pequeno! Ou quer que elle vá a chorar todo o caminho?O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e poz-se a enxugar os olhos com a manga da camisa.—Pois então levante-se lá.—E segurou-o com força por baixo dos braços.—Assim! Lá porque o pequeno vae para o Brazil não fique vossemecê a pensar que o não torna a ver.Mas era isso mesmo o que elle pensava...—Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno—concluiu a chorar o José Cosme.—Scismas! lembranças que veem á gente quando está afflicta. Mas ha-de vel-o que o não ha-de conhecer, digo-lh'o eu. Mais anno menos anno, apparece-lhe ahi rico...Rico! bem lhe importava a elle que o pequeno viesse rico. O que desejava era que voltasse e que elle ainda fosse vivo só para o abraçar.Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciencia: o José Cosme que se animasse para animar o pequeno—recommendava o barqueiro.—Sim... sim...—tartamudeava o Cosme.—Vamos lá com Deus! Com'assim..E n'um profundo ai dolorosissimo, foi-se direito á porta para chamar a pequeno. Não havia remedio, tinha nascido em má hora, havia de ser desgraçado até que o levassem para a cova... Sobre a estreita e humilde cama o filho dormia profundamente. Que dôr, ter do o acordar! Vieram-lhe tentações de mandar embora o Thomaz e deixar dormir a creança. Quem sabe se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquillidade d'aquelle somno! Não tinha coragem para o acordar, fazel-o vestir: era quasi um peccado quebrar aquelle ultimo somno dormido sob o tecto paterno... O ultimo somno! o ultimo somno!—Ainda se o deixassemos acordar...—aventurou-se a dizer o triste.Mas o Thomaz que estava com pressa, lembrou seccamente que eram horas de pôr o barco a andar.O José Cosme accendeu então a candeia, reccioso de que a luz o acordasse, e achegando-se do filho poz-se a escutar-lhe a respiração. Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou baixinho, quasi ao ouvido, beijando-o, sobresaltado como se fosse praticar um grande crime:—Filho, olha que são horas, meu filho...Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o estonteamento do somno, cerrando os olhos áquella hostilidade viva da luz, o pae agarrou-se a elle n'um abraço, e ambos romperam a chorar.—Adeus, pae!—Adeus, filho!Confrangido, o Thomaz que se deixara ficar á porta, avançou para desatar aquelle abraço.—Olhe que é tarde, sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde!O pae vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e sairam. Debaixo do alpendre, o Joaquimsito ficou-se um instante a olhar o tecto.—A andorinha, filho?—perguntou o José Cosme.—Deixa que eu hei-de olhar por ella, mais pelos filhos quando os tiver. Vae socegado.Mas o pequeno quiz vel-a, pediu ao pae que o erguesse, era só um instante. Lá estava ella, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe tocou com as pontas dos dedos...—Adeus!—disse-lhe o pequeno afagando-a.A esta palavra, o pae retrahiu os braços e tomando o filho no collo seguiu. Atraz, o barqueiro levava ao hombro a misera arca de pinho: toda a bagagem do Joaquim.Ao transpor o cancello o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou soluçando:—Quando voltarás ao horto, meu filho?O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam de tudo o que adorava—a andorinha, depois da andorinha o horto, as arvores, a velha nora, o cancello, tudo emfim.Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo, humido das lagrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pae desejava que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse deante d'elles, de modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava, divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação fallavam alto.—Prompto?—perguntou ainda de longe o Thomaz.Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua.Chegaram emfim. N'um leve silencio d'acaso ouviam-se os soluços dos dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de angustia, pelo deslisar monotono das aguas... Aquillo confrangia o barqueiro, elle tambem era pae... Por isso, mal chegaram á beira do rio, apressou-se a dizer para o pequeno:—Ora bem, Joaquimsinho, beija a mão a teu pae e dize-lhe adeus.Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar o filho:—Então, meu filho?... Deus te abençoe, meu amor... Nossa Senhora te veja ir.—E fez-lhe prometter que havia de resar sempre a Nossa Senhora, elle tambem lhe resaria, pois era ella quem dava saude, quem fazia a gente feliz.—Não te esqueças d'ella mais da alminha de tua mãe e de tua irmã...Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pae, beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra. Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava desvairado:—Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericordia!E o Joaquim sempre agarrado a elle, beijava-o na cara, na cabeça, nas mãos. Até que o Thomaz teve de intervir, era preciso despegar d'ali por uma vez.—Com'assim, sr. José, isto tem de ser...—E segurando o pequeno com força puxou-o para elle. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José Cosme que supplicava de mãos postas:—Só um instante, só um quasinadinha, Thomaz!—E o pobre pae caia de joelhos na areia, n'uma attitude de supplica.Mas n'esse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando ao colo a creança.—Rema!—intimou em voz rapida.O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeramplhau! sobre a agua.Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violencia desesperada, ao ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco.—Adeus, Joaquim, adeus!—Adeus, pae!—Adeus!Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na direcção do barco:—Thomaz! ó Thomaz! por alma de teu pae faz lá alto um instante.Acabou-se! custara-lhe tomar aquella resolução, mas já agora era melhor ficar sósinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto, arremessou a jaqueta ao areal e d'um lance deitou-se a nado. O Thomaz que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme, velho nadador destemido, com meia duzia de braçadas ganhou-lhe de prompto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ancia de esperar o pae, de o ver ainda outra vez. N'um movimento rapido, o José Cosme entregou ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:—É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!... Reza-lhe, sim?!E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe chegasse o pequeno para o ultimo beijo...Dado o ultimo beijo, o barco poz-se de novo em marcha. Vinha a romper a lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue em região mysteriosa de lagrimas... E no silencio agoireiro da noite, apenas cortado pelo bater monotono dos remos e pelo bracejar desalentado do triste nadador, á voz do filho que chamava respondia cada vez de mais longe—longe como se fôra do Infinito! a voz lacrimosa do pae—com o seu funebreadeus! que elle bem sabia ser eterno...

Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto.


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