IlustraçãoRetrato deTHEOPHILE GAUTIERque pertenceu a CamilloQuando elle partiu para o Brasil, aMala da Europaquiz dar um numero commemorativo, que chegasse ao Rio de Janeiro no mesmo paquete que o auctor doD. Jayme. Por doença de um dos seus redactores effectivos, o proprietario do periodico, Delfim Monteiro Guimarães, já hoje fallecido, precisava de quem lhe fizesse rapidissimamente a maior parte d'esse numero. Procurou-me, e pediu-me que me encarregasse eu d'essa ardua tarefa—ardua pela estreiteza do tempo.Como se tratava de Thomaz Ribeiro, não tive animo de recusar e, durante quarenta e oito horas, trabalhei afanosamente, tomando café para espertar-me, conseguindo não faltar ao encargo que acceitei e á palavra que tinha dado.Eu sou a pessoa menos competente para escrever um artigo de critica literaria a respeito da obra de Thomaz Ribeiro.Vejo-o sempre, apaixonadamente, através de agradaveis recordações da minha mocidade.Não sei, não posso vel-o de outro modo.Dou-me, portanto, como suspeito.Mas creio que, para a apreciação de um escriptor ou de um artista, os criticos téem menos auctoridade do que o publico.Se esse escriptor ou esse artista conquistou a opinião geral, se recebeu uma consagração nacional, a sua reputação é inabalavel, a despeito do voto adverso dos criticos.Ora Thomaz Ribeiro, cujos poemas foram discutidos, tornou-se o mais popular poeta do seu tempo. Teve a opinião publica fechada na mão; dominou-a completamente. E, ainda ultimamente, os que queriam ser-lhe desagradaveis repetindo versos seus, justificavam, sem querer, a sua popularidade e, sem querer, a propagavam.Portugal ficará sendo eternamente o—jardim da Europa{70}á beira mar plantado—verso que tem servido para todos e para tudo que, em bem e mal, se escreve a respeito do nosso paiz.A «Conversação preambular» doD. Jayme, escripta por Castilho, foi tida como exageradamente encomiastica para o auctor do poema, e é realmente discutivel em algumas das suas affirmações.Mas o enthusiasmo que alvoroçou o espirito reflectido de Castilho adduz mais uma prova da enorme sensação causada peloD. Jayme, até nos julgadores de maior competencia profissional.Apparecia um poema verdadeiramente nacional, portuguez pelo assumpto, pelos affectos, pela paisagem, pela dicção, pondo de mais a mais em evidencia a riqueza de metros, de harmonia, de malleabilidade e de côr que possuia a lingua portugueza.Sahia inteiramente dos moldes dos poemas antigos, fugindo á oitava-rima, e dos moldes da revolução romantica, fugindo ao verso branco.Era o poema lyrico moderno, o romance metrificado, escripto ao sabor portuguez sobre a vida portugueza, com matiz popular de tradições e costumes nossos, com vocabulos colhidos no diccionario da provincia—fogaça, campeiro, velleiro—com toda a alma de um povo a cantar á flôr dos versos e o caracter nacional sobresaindo em alto relevo no caracter do protogonista:Entrei, raivando vinganças,Sahi, jurando perdão.Comprehende-se que este poema causasse enthusiasmo em todas as regiões do mundo onde palpitava o sangue e o sentimento portuguez: assim aconteceu, não só em Portugal, mas tambem no Brazil e na India.DoD. Jaymenasceram logo outros poemas: Em Lisboa,{71}Roberto ou a dominação dos agiotas, por Manuel Roussado, uma parodia; no Brazil,Leonor, imitação flagrante.Trinta annos depois, quando Thomaz Ribeiro foi ao Brazil como ministro de Portugal, ainda lá encontrou o rescaldo do antigo enthusiasmo; e a sua escolha foi julgada a mais opportuna para reatar as relações que um ligeiro conflicto tinha interrompido entre os dois paizes irmãos.Na India portugueza, onde anteriormente estivera como secreterio geral do governo da provincia, Thomaz Ribeiro foi encontrar admiradores por toda a parte.Tenho deante de mim um romance indiano,Beatriz ou os mysterios da ultima revolta em Goa, escripto por Fernando de Goa (certamente pseudonymo) e publicado em Lisboa no anno de 1885.No 2.º volume, encontro, entre outras referencias a Thomaz Ribeiro, este periodo:«O secretario, aproveitando este ensejo, affastou-se d'ali, metteu-se na machila e fez-se transportar a Caranzalem, a fim de fazer as suas visitas ás familias das suas relações que ali se achavam a banhos, e entreter parte da noite n'uma ou n'outra casa, onde suspiravam pela sua chegada, para terem o prazer de ouvir uma conversação animada, cheia de atticismo, de poesia, e ao mesmo tempo recamada das mais brilhantes e conceituosas phrases.»A praia de Caranzalem, proxima do Mandovi, n'uma linda enseada a quatro kilometros da capital, é o balneario aristocratico da India portugueza, é Cascaes do Oriente.Em todo o reino de Portugal, na India, no Brazil, em toda a parte onde se falla a lingua portugueza, Thomaz Ribeiro, por ser o auctor doD. Jayme, encontrava um fervoroso culto de enthusiasmo e adoração.Era uma justa retribuição da consciencia publica aos{72}sentimentos patrioticos do poeta, que dedicadamente amou o seu paiz, cantando-lhe as bellezas e as glorias, no Occidente e no Oriente, e que, no territorio portuguez, se algum rincão distinguiu com especial affecto, foi o seu districto natal, Vizeu, e em Vizeu a aldeia garrida onde nascêra, Parada de Gonta:Que fresca aldeia formosaNas margens do meu Pavia!Morreu na terra da patria, e n'isso lhe fez Deus a vontade:meu vergado pomar d'um rico outomno,sê meu berço final no ultimo somno.O romantismo, vocabulo que eu apenas acceito convencionalmente como expressão chronologica para designar determinada época literaria, e não como caracterisação psychologica d'um estado d'alma, que é commum a todas as gerações, e, portanto, eterno; o «periodo romantico», ia dizendo, teve ao menos de grande e nobre o seu amor ao paiz, affirmado solemnemente na celebração das glorias e das tradições portuguezas, desde Alexandre Herculano até Thomaz Ribeiro.Hoje é moda rir de tudo, em prosa e verso, especialmente do paiz.Literariamente, ainda falta encarar o auctor doD. Jaymesob outro ponto de vista: como recitador.Trez homens conheci eu incomparaveis no primor com que sabiam dizer versos: Castilho, Thomaz Ribeiro e Gonçalves Crespo.Quanto a Thomaz Ribeiro, sempre me ha de lembrar o que se passou uma vez, sendo elle ministro do reino, na commissão de instrucção secundaria da camara dos deputados.Discutia-se um projecto de reforma do respectivo ensino.Apenas dois membros da commissão se oppunham tenazmente{73}á resurreiçao do exame de madureza: eram o sr. José Borges de Faria e eu.N'essa reunião nocturna, que se effectuou no edificio do governo civil para maior commodidade de todos, a discussão corrêra violenta e azeda.Nada se tinha resolvido ainda, quando foi servido o chá, que veiu da casa Ferrari.Então, durante essa pausa obrigada, não sei quem se lembrou de pedir a Thomaz Ribeiro que recitasseO tear da rainha.Elle annuiu promptamente, e tanta impressão causou em todos nós, que fomos pedindo mais versos.Assim acabou n'uma doce calma aquella reunião, que tinha corrido agitada.O projecto chegou a ir ao parlamento, fazendo os dois dissidentes declaração de voto, mas a reforma não teve execução.Tambem a titulo de simples recordação lembrarei que sendo Thomaz Ribeiro ministro da marinha—primeira pasta que geriu—fui eu que, a seu pedido, entabolei negociações com a livraria Chardron, do Porto, para a acquisição da propriedade das suas obras.Quando se escreve de um amigo não ha meio de coordenar as memorias agradaveis que elle nos deixou; os factos acodem em tropel amontoando-se numa agglomeração confusa, que exigeria longo tempo e grande esforço de serenidade para ser dominada.Não é, poucos mezes depois da morte d'esse amigo, que semelhante tentativa pode fazer-se para conseguir restabelecer a ordem onde tudo é ainda desordem da saudade.Por isso não o consegui eu, nem sequer o tentei.{74}PAG. 18«... esquecer essa noite de festa, que foi talvez a unica noite feliz n'esta casa.»D. Anna Placido escrevendo, embora sob um pseudonymo masculino, a respeito da morte de Vieira de Castro em Africa, recordava a noite de 15 de julho de 1866, quando dizia:«Era noite de festa. Na pequena aldea de *** ouviam-se cantos festivos; e a voz das aldeãs competia com as rabecas e os clarinetes.«Passava-se isto em uma casa de campo. As seis janellas da frontaria jorravam luz, e a porta da entrada por onde se subia por larga escadaria de pedra, estava afestoada de rosas e hortensias».Era o sarau campestre, o serão minhoto, em honra de Castilho, na quinta de Seide.PAG. 26«Foi ali que essa linda mulher, de formas esculpturaes...»A proposito de D. Anna Placido, referirei um pormenor que me foi contado recentemente.O seu casamento com o grande escriptor esteve para realizar-se em Santo Thyrso, aonde ambos chegaram a ir para esse fim. Ali se demoraram dois dias, á espera que o conego Alves Mendes viesse do Porto com os documentos que eram necessarios. Só o abbade de Santo Thyrso, reverendo Joaquim Augusto da Fonseca Pedrosa, estava na{75}posse d'este segredo; ninguem mais, n'aquella villa, o sabia. Mas houve demora na camara ecclesiastica do Porto, e o conego Alves Mendes não pôde obter os papeis tão depressa como desejava. Por este motivo, Camillo e D. Anna Placido retiraram de Santo Thyrso. O casamento veio a celebrar-se no Porto, como já tem sido dito.PAG. 30«Em 1892 o Nuno, estando nós na Povoa, mostrou-me V. noCafé Chinez.»Foi n'esse anno, e na Povoa, que eu vi o visconde de S. Miguel de Seide pela ultima vez, quando já a questão doProtestonos tinha inimistado.N'essa occasião eu não pensava ali senão em vencer, como candidato, uma das mais renhidas e ruidosas eleições que tem havido n'este paiz. Deu brado aquella briga eleitoral da Povoa de Varzim em 1892! Se não fossem as minhas canceiras e preoccupações politicas, dada a boa disposição do visconde de S. Miguel de Seide como agora sei, certamente nos haveriamos reconciliado ali n'aquella época. Mas eu andava em correrias, em comicios, em conferencias, em combinações eleitoraes: não chegava para as encommendas. Forte cegueira! Até me parece agora impossivel que eu fosse então o mesmo homem que hoje sou!O que é certo é que venci com o povo—a grande classe dos pescadores—coisa que raras vezes terá acontecido em Portugal. Quem vence, por via de regra, são os influentes, os galopins, o carneiro e as batatas. D'aquella vez venceu o povo, que me quiz fazer deputado, e fez. Assim o povo pensasse sempre em tudo o mais, e outro gallo lhe cantaria.{76}Eu andei então muito descomposto nas gazetas, mas tambem andei muito cantado nas ruas.Os pescadores e as pescadeiras improvisaram então um cancioneiro eleitoral em meu favor. Ahi vão amostras do panno, que elles espontaneamente souberam tecer com toda a ingenua rudeza dos seus processos poeticos:Boa vai ella!Ora viva o Pimentella.Que dá o seu coraçãoP'ra vencer a eleição.Boa vai ella!Ora viva apiscaria.Vai toda votar em bardaPela nossa melhoria.Boa vai ella!Ora viva o Albertinho,Que vai como deputadoCá pelo nosso povinho.Eram tão carinhosos para mim os pescadores, que até me tratavam pelo diminutivo, meiguice que eu já não estava costumado a receber ha muito tempo. O povo ama ainda pelo systema antigo, e eu era o seu candidato contra a vontade de muitas influencias poderosas e colligadas.N'esta roda-viva de uma eleição disputadissima, renhidissima, eu pensava menos no visconde de S. Miguel de Seide do que na urna e nos votos.Se não estivesse tão preoccupado e ralado, se tivesse tempo para me demorar nos botequins, certamente se teria ageitado alguma occasião de me congraçar com o visconde de S. Miguel de Seide, pois que elle o desejava, e eu não o recusaria.{77}IlustraçãoRetrato deALPHONSE KARRque pertenceu a CamilloPAG. 37«... Jorge Castello Branco, o infeliz primogenito de Camillo.»Apezar de ser o primogenito, foi baptisado, quando já tinha quasi dois annos de idade, no mesmo dia que seu irmão Nuno, a 6 de janeiro de 1865.Se o leitor folheou alguma vezOs amores de Camillo, lá deve ter encontrado, a pag. 344, a noticia d'este duplo baptisado que se effectuou no Porto.Mas Antonio de Azevedo contou-me ultimamente um pormenor, que é interessante.Ao jantar d'esse dia, em casa de Camillo na rua do Almada, assistiram as mesmas pessoas que tinham ido á egreja; Custodio José Vieira, notavel jurisconsulto; o Bastos, doNacional; Antonio de Azevedo; e um procurador portuense, cujo nome não lembra.Durante o jantar apenas se bebeu champagne e cognac.Seguiu-se um serão alegre, cheio de engraçados episodios e imprevistos sainetes.D. Anna Placido tocou piano.Camillo tocava trombone no canno de uma bota.E o Bastos doNacional, que era um homem alto, forte e rosado, dançava com Custodio José Vieira, que era muito pequeno e muito feio.O procurador, conscio da sua desigualdade de cotação intellectual, conservou-se mero espectador.Não parece que se está ouvindo um trecho dasAlegres comadres de Windsor, que Nicolai compoz sobre a peça de Shakspeare, ou aquella scena de Puccini, em que os socios da bohemia folgam em commum n'uma chorea improvisada?{78}Quem poderia vêr então em Camillo o futuro solitario e suicida de S. Miguel de Seide!PAG. 53«Leitores de cem romances, que uma só penna escreveu».Todo o trabalho literario de Camillo pesou unicamente sobre elle. Não temos em Portugal o systema de um escriptor tomar como auxiliares outros escriptores menos reputados. Usa-se isso em França; entre nós, não.Apenas, em duas obras de theatro, trabalhou Camillo com um collaborador, que foi Ernesto Biester.Fizeram em commum o dramaVingança(VejaEsboços de apreciações literarias, pag. 85 eRevista contemporanea de Portugal e Brazil, vol.IV, pag. 313); e o dramaPenitencia, em 6 actos e um prologo (VejaDic. Bib.de Innocencio, vol.IX, pag. 176).Vi representar este ultimo drama no theatro de S. João, do Porto, pela companhia do antigo Theatro Normal.NOTA FINALO retrato de Camillo, que publicamos agora, é copia photographica de um acrayonque vimos na casa dos netos do grande romancista em S. Miguel de Seide.Na sala de entrada ha trez retratos de Camillo. Só este desconheciamos, e fez-nos impressão, porque, a distancia, suppozemos que fosse de Guilherme Braga.A sr.ª D. Anna Corrêa desfez o nosso equivoco.O retrato acrayoné de 1876 e está assignado, mas deve por sua vez ser copia de outro retrato, tirado aproximadamente{79}em 1857, quando Camillo usava ainda o cabello levantado sobre a fronte.Comtudo não é o mesmo retrato de 1857 que foi publicado ultimamente, com outros de differentes epocas, no n.º 8-9 daIllustração moderna, do Porto.Tambem não é o de 1850, que ainda recentemente foi mais uma vez reprodusido na revista portuenseSombra e luz(n.º 2).Preço 400 réis
IlustraçãoRetrato deTHEOPHILE GAUTIERque pertenceu a Camillo
Ilustração
Retrato deTHEOPHILE GAUTIERque pertenceu a Camillo
Quando elle partiu para o Brasil, aMala da Europaquiz dar um numero commemorativo, que chegasse ao Rio de Janeiro no mesmo paquete que o auctor doD. Jayme. Por doença de um dos seus redactores effectivos, o proprietario do periodico, Delfim Monteiro Guimarães, já hoje fallecido, precisava de quem lhe fizesse rapidissimamente a maior parte d'esse numero. Procurou-me, e pediu-me que me encarregasse eu d'essa ardua tarefa—ardua pela estreiteza do tempo.
Como se tratava de Thomaz Ribeiro, não tive animo de recusar e, durante quarenta e oito horas, trabalhei afanosamente, tomando café para espertar-me, conseguindo não faltar ao encargo que acceitei e á palavra que tinha dado.
Eu sou a pessoa menos competente para escrever um artigo de critica literaria a respeito da obra de Thomaz Ribeiro.
Vejo-o sempre, apaixonadamente, através de agradaveis recordações da minha mocidade.
Não sei, não posso vel-o de outro modo.
Dou-me, portanto, como suspeito.
Mas creio que, para a apreciação de um escriptor ou de um artista, os criticos téem menos auctoridade do que o publico.
Se esse escriptor ou esse artista conquistou a opinião geral, se recebeu uma consagração nacional, a sua reputação é inabalavel, a despeito do voto adverso dos criticos.
Ora Thomaz Ribeiro, cujos poemas foram discutidos, tornou-se o mais popular poeta do seu tempo. Teve a opinião publica fechada na mão; dominou-a completamente. E, ainda ultimamente, os que queriam ser-lhe desagradaveis repetindo versos seus, justificavam, sem querer, a sua popularidade e, sem querer, a propagavam.
Portugal ficará sendo eternamente o—jardim da Europa{70}á beira mar plantado—verso que tem servido para todos e para tudo que, em bem e mal, se escreve a respeito do nosso paiz.
A «Conversação preambular» doD. Jayme, escripta por Castilho, foi tida como exageradamente encomiastica para o auctor do poema, e é realmente discutivel em algumas das suas affirmações.
Mas o enthusiasmo que alvoroçou o espirito reflectido de Castilho adduz mais uma prova da enorme sensação causada peloD. Jayme, até nos julgadores de maior competencia profissional.
Apparecia um poema verdadeiramente nacional, portuguez pelo assumpto, pelos affectos, pela paisagem, pela dicção, pondo de mais a mais em evidencia a riqueza de metros, de harmonia, de malleabilidade e de côr que possuia a lingua portugueza.
Sahia inteiramente dos moldes dos poemas antigos, fugindo á oitava-rima, e dos moldes da revolução romantica, fugindo ao verso branco.
Era o poema lyrico moderno, o romance metrificado, escripto ao sabor portuguez sobre a vida portugueza, com matiz popular de tradições e costumes nossos, com vocabulos colhidos no diccionario da provincia—fogaça, campeiro, velleiro—com toda a alma de um povo a cantar á flôr dos versos e o caracter nacional sobresaindo em alto relevo no caracter do protogonista:
Entrei, raivando vinganças,Sahi, jurando perdão.
Entrei, raivando vinganças,Sahi, jurando perdão.
Comprehende-se que este poema causasse enthusiasmo em todas as regiões do mundo onde palpitava o sangue e o sentimento portuguez: assim aconteceu, não só em Portugal, mas tambem no Brazil e na India.
DoD. Jaymenasceram logo outros poemas: Em Lisboa,{71}Roberto ou a dominação dos agiotas, por Manuel Roussado, uma parodia; no Brazil,Leonor, imitação flagrante.
Trinta annos depois, quando Thomaz Ribeiro foi ao Brazil como ministro de Portugal, ainda lá encontrou o rescaldo do antigo enthusiasmo; e a sua escolha foi julgada a mais opportuna para reatar as relações que um ligeiro conflicto tinha interrompido entre os dois paizes irmãos.
Na India portugueza, onde anteriormente estivera como secreterio geral do governo da provincia, Thomaz Ribeiro foi encontrar admiradores por toda a parte.
Tenho deante de mim um romance indiano,Beatriz ou os mysterios da ultima revolta em Goa, escripto por Fernando de Goa (certamente pseudonymo) e publicado em Lisboa no anno de 1885.
No 2.º volume, encontro, entre outras referencias a Thomaz Ribeiro, este periodo:
«O secretario, aproveitando este ensejo, affastou-se d'ali, metteu-se na machila e fez-se transportar a Caranzalem, a fim de fazer as suas visitas ás familias das suas relações que ali se achavam a banhos, e entreter parte da noite n'uma ou n'outra casa, onde suspiravam pela sua chegada, para terem o prazer de ouvir uma conversação animada, cheia de atticismo, de poesia, e ao mesmo tempo recamada das mais brilhantes e conceituosas phrases.»
A praia de Caranzalem, proxima do Mandovi, n'uma linda enseada a quatro kilometros da capital, é o balneario aristocratico da India portugueza, é Cascaes do Oriente.
Em todo o reino de Portugal, na India, no Brazil, em toda a parte onde se falla a lingua portugueza, Thomaz Ribeiro, por ser o auctor doD. Jayme, encontrava um fervoroso culto de enthusiasmo e adoração.
Era uma justa retribuição da consciencia publica aos{72}sentimentos patrioticos do poeta, que dedicadamente amou o seu paiz, cantando-lhe as bellezas e as glorias, no Occidente e no Oriente, e que, no territorio portuguez, se algum rincão distinguiu com especial affecto, foi o seu districto natal, Vizeu, e em Vizeu a aldeia garrida onde nascêra, Parada de Gonta:
Que fresca aldeia formosaNas margens do meu Pavia!
Que fresca aldeia formosaNas margens do meu Pavia!
Morreu na terra da patria, e n'isso lhe fez Deus a vontade:
meu vergado pomar d'um rico outomno,sê meu berço final no ultimo somno.
meu vergado pomar d'um rico outomno,sê meu berço final no ultimo somno.
O romantismo, vocabulo que eu apenas acceito convencionalmente como expressão chronologica para designar determinada época literaria, e não como caracterisação psychologica d'um estado d'alma, que é commum a todas as gerações, e, portanto, eterno; o «periodo romantico», ia dizendo, teve ao menos de grande e nobre o seu amor ao paiz, affirmado solemnemente na celebração das glorias e das tradições portuguezas, desde Alexandre Herculano até Thomaz Ribeiro.
Hoje é moda rir de tudo, em prosa e verso, especialmente do paiz.
Literariamente, ainda falta encarar o auctor doD. Jaymesob outro ponto de vista: como recitador.
Trez homens conheci eu incomparaveis no primor com que sabiam dizer versos: Castilho, Thomaz Ribeiro e Gonçalves Crespo.
Quanto a Thomaz Ribeiro, sempre me ha de lembrar o que se passou uma vez, sendo elle ministro do reino, na commissão de instrucção secundaria da camara dos deputados.
Discutia-se um projecto de reforma do respectivo ensino.
Apenas dois membros da commissão se oppunham tenazmente{73}á resurreiçao do exame de madureza: eram o sr. José Borges de Faria e eu.
N'essa reunião nocturna, que se effectuou no edificio do governo civil para maior commodidade de todos, a discussão corrêra violenta e azeda.
Nada se tinha resolvido ainda, quando foi servido o chá, que veiu da casa Ferrari.
Então, durante essa pausa obrigada, não sei quem se lembrou de pedir a Thomaz Ribeiro que recitasseO tear da rainha.
Elle annuiu promptamente, e tanta impressão causou em todos nós, que fomos pedindo mais versos.
Assim acabou n'uma doce calma aquella reunião, que tinha corrido agitada.
O projecto chegou a ir ao parlamento, fazendo os dois dissidentes declaração de voto, mas a reforma não teve execução.
Tambem a titulo de simples recordação lembrarei que sendo Thomaz Ribeiro ministro da marinha—primeira pasta que geriu—fui eu que, a seu pedido, entabolei negociações com a livraria Chardron, do Porto, para a acquisição da propriedade das suas obras.
Quando se escreve de um amigo não ha meio de coordenar as memorias agradaveis que elle nos deixou; os factos acodem em tropel amontoando-se numa agglomeração confusa, que exigeria longo tempo e grande esforço de serenidade para ser dominada.
Não é, poucos mezes depois da morte d'esse amigo, que semelhante tentativa pode fazer-se para conseguir restabelecer a ordem onde tudo é ainda desordem da saudade.
Por isso não o consegui eu, nem sequer o tentei.{74}
D. Anna Placido escrevendo, embora sob um pseudonymo masculino, a respeito da morte de Vieira de Castro em Africa, recordava a noite de 15 de julho de 1866, quando dizia:
«Era noite de festa. Na pequena aldea de *** ouviam-se cantos festivos; e a voz das aldeãs competia com as rabecas e os clarinetes.
«Passava-se isto em uma casa de campo. As seis janellas da frontaria jorravam luz, e a porta da entrada por onde se subia por larga escadaria de pedra, estava afestoada de rosas e hortensias».
Era o sarau campestre, o serão minhoto, em honra de Castilho, na quinta de Seide.
A proposito de D. Anna Placido, referirei um pormenor que me foi contado recentemente.
O seu casamento com o grande escriptor esteve para realizar-se em Santo Thyrso, aonde ambos chegaram a ir para esse fim. Ali se demoraram dois dias, á espera que o conego Alves Mendes viesse do Porto com os documentos que eram necessarios. Só o abbade de Santo Thyrso, reverendo Joaquim Augusto da Fonseca Pedrosa, estava na{75}posse d'este segredo; ninguem mais, n'aquella villa, o sabia. Mas houve demora na camara ecclesiastica do Porto, e o conego Alves Mendes não pôde obter os papeis tão depressa como desejava. Por este motivo, Camillo e D. Anna Placido retiraram de Santo Thyrso. O casamento veio a celebrar-se no Porto, como já tem sido dito.
Foi n'esse anno, e na Povoa, que eu vi o visconde de S. Miguel de Seide pela ultima vez, quando já a questão doProtestonos tinha inimistado.
N'essa occasião eu não pensava ali senão em vencer, como candidato, uma das mais renhidas e ruidosas eleições que tem havido n'este paiz. Deu brado aquella briga eleitoral da Povoa de Varzim em 1892! Se não fossem as minhas canceiras e preoccupações politicas, dada a boa disposição do visconde de S. Miguel de Seide como agora sei, certamente nos haveriamos reconciliado ali n'aquella época. Mas eu andava em correrias, em comicios, em conferencias, em combinações eleitoraes: não chegava para as encommendas. Forte cegueira! Até me parece agora impossivel que eu fosse então o mesmo homem que hoje sou!
O que é certo é que venci com o povo—a grande classe dos pescadores—coisa que raras vezes terá acontecido em Portugal. Quem vence, por via de regra, são os influentes, os galopins, o carneiro e as batatas. D'aquella vez venceu o povo, que me quiz fazer deputado, e fez. Assim o povo pensasse sempre em tudo o mais, e outro gallo lhe cantaria.{76}
Eu andei então muito descomposto nas gazetas, mas tambem andei muito cantado nas ruas.
Os pescadores e as pescadeiras improvisaram então um cancioneiro eleitoral em meu favor. Ahi vão amostras do panno, que elles espontaneamente souberam tecer com toda a ingenua rudeza dos seus processos poeticos:
Boa vai ella!Ora viva o Pimentella.Que dá o seu coraçãoP'ra vencer a eleição.Boa vai ella!Ora viva apiscaria.Vai toda votar em bardaPela nossa melhoria.Boa vai ella!Ora viva o Albertinho,Que vai como deputadoCá pelo nosso povinho.
Boa vai ella!Ora viva o Pimentella.Que dá o seu coraçãoP'ra vencer a eleição.
Boa vai ella!Ora viva apiscaria.Vai toda votar em bardaPela nossa melhoria.
Boa vai ella!Ora viva o Albertinho,Que vai como deputadoCá pelo nosso povinho.
Eram tão carinhosos para mim os pescadores, que até me tratavam pelo diminutivo, meiguice que eu já não estava costumado a receber ha muito tempo. O povo ama ainda pelo systema antigo, e eu era o seu candidato contra a vontade de muitas influencias poderosas e colligadas.
N'esta roda-viva de uma eleição disputadissima, renhidissima, eu pensava menos no visconde de S. Miguel de Seide do que na urna e nos votos.
Se não estivesse tão preoccupado e ralado, se tivesse tempo para me demorar nos botequins, certamente se teria ageitado alguma occasião de me congraçar com o visconde de S. Miguel de Seide, pois que elle o desejava, e eu não o recusaria.{77}
IlustraçãoRetrato deALPHONSE KARRque pertenceu a Camillo
Ilustração
Retrato deALPHONSE KARRque pertenceu a Camillo
Apezar de ser o primogenito, foi baptisado, quando já tinha quasi dois annos de idade, no mesmo dia que seu irmão Nuno, a 6 de janeiro de 1865.
Se o leitor folheou alguma vezOs amores de Camillo, lá deve ter encontrado, a pag. 344, a noticia d'este duplo baptisado que se effectuou no Porto.
Mas Antonio de Azevedo contou-me ultimamente um pormenor, que é interessante.
Ao jantar d'esse dia, em casa de Camillo na rua do Almada, assistiram as mesmas pessoas que tinham ido á egreja; Custodio José Vieira, notavel jurisconsulto; o Bastos, doNacional; Antonio de Azevedo; e um procurador portuense, cujo nome não lembra.
Durante o jantar apenas se bebeu champagne e cognac.
Seguiu-se um serão alegre, cheio de engraçados episodios e imprevistos sainetes.
D. Anna Placido tocou piano.
Camillo tocava trombone no canno de uma bota.
E o Bastos doNacional, que era um homem alto, forte e rosado, dançava com Custodio José Vieira, que era muito pequeno e muito feio.
O procurador, conscio da sua desigualdade de cotação intellectual, conservou-se mero espectador.
Não parece que se está ouvindo um trecho dasAlegres comadres de Windsor, que Nicolai compoz sobre a peça de Shakspeare, ou aquella scena de Puccini, em que os socios da bohemia folgam em commum n'uma chorea improvisada?{78}
Quem poderia vêr então em Camillo o futuro solitario e suicida de S. Miguel de Seide!
Todo o trabalho literario de Camillo pesou unicamente sobre elle. Não temos em Portugal o systema de um escriptor tomar como auxiliares outros escriptores menos reputados. Usa-se isso em França; entre nós, não.
Apenas, em duas obras de theatro, trabalhou Camillo com um collaborador, que foi Ernesto Biester.
Fizeram em commum o dramaVingança(VejaEsboços de apreciações literarias, pag. 85 eRevista contemporanea de Portugal e Brazil, vol.IV, pag. 313); e o dramaPenitencia, em 6 actos e um prologo (VejaDic. Bib.de Innocencio, vol.IX, pag. 176).
Vi representar este ultimo drama no theatro de S. João, do Porto, pela companhia do antigo Theatro Normal.
O retrato de Camillo, que publicamos agora, é copia photographica de um acrayonque vimos na casa dos netos do grande romancista em S. Miguel de Seide.
Na sala de entrada ha trez retratos de Camillo. Só este desconheciamos, e fez-nos impressão, porque, a distancia, suppozemos que fosse de Guilherme Braga.
A sr.ª D. Anna Corrêa desfez o nosso equivoco.
O retrato acrayoné de 1876 e está assignado, mas deve por sua vez ser copia de outro retrato, tirado aproximadamente{79}em 1857, quando Camillo usava ainda o cabello levantado sobre a fronte.
Comtudo não é o mesmo retrato de 1857 que foi publicado ultimamente, com outros de differentes epocas, no n.º 8-9 daIllustração moderna, do Porto.
Tambem não é o de 1850, que ainda recentemente foi mais uma vez reprodusido na revista portuenseSombra e luz(n.º 2).
Preço 400 réis